27º dia – Manhã de estúdio / visita ao cemitério Zhuwangshan / de bicicleta pela ciclovia “Greenway”
Hoje é terça-feira, 5 de maio de 2026.
Irei fazer 27 km de bicicleta, entre ida e volta, para visitar o cemitério Zhuwangshan. Eu pedi à Shi a localização de alguns cemitérios em Chengdu; ela estranhou o meu pedido, claro, mas eu expliquei-lhe que visito cemitérios por todo o mundo. Conforme descrevi noutras crónicas, é prioritária a visita aos cemitérios dos países por onde passo, bem como o conhecimento dos hábitos e rituais fúnebres das várias culturas. A forma como um país – uma determinada sociedade e cultura – encara a morte, e cumpre rituais fúnebres, varia sobremaneira de país para país, e eu tenho tido oportunidade de observar isso, pela Europa, América, Ásia, África, Austrália. Um cemitério em Timor-Leste, por exemplo, é ricamente colorido. As campas apresentam tons claros: azuis, verdes, amarelos. Nos verdejantes cemitérios em Viena de Áustria, as pessoas andam de bicicleta no seu interior, sentam-se e leem um livro, e aqui passeei de bicicleta entre os túmulos de Beethoven, Mozart e outros. Alguns cemitérios possuem vastas planícies de relvados. Outros, densa vegetação, que praticamente impede a passagem de quem os visita (e não é por abandono, é mesmo uma opção). Outros cemitérios ostentam orgulhosamente os seus túmulos para quem passa na estrada – é o caso da Hungria (ao longo de quilómetros, os túmulos saudavam-me, à minha passagem na bicicleta). Outros países – como é o caso de Portugal – por seu turno escondem-nos atrás de muros, o que talvez não se deva apenas a uma questão de privacidade, delimitação e manutenção, mas também à necessidade de desencorajar furtos e atos de vandalismo. A Câmara Municipal de Lisboa organiza belíssimas visitas guiadas aos cemitérios de Lisboa, realizadas por um equipa de historiadores, com temáticas diferentes em cada visita.
Perante toda a diversidade existente no mundo, nesta matéria, uma coisa é certa: toda a filosofia de vida de um povo manifesta-se na morte.
Deixo alguns links dos cemitérios de outros países, que mostrei nestas crónicas, ao longo dos anos. Eu diria que o mais bonito foi o da Gronelândia, coberto de neve. Os de Timor-Leste são os mais originais, de tão coloridos que são. Os da China, em Yunnan, têm paisagens grandiosas, porque os seus mortos querem ficar a ver bem longe.
Amazónia brasileira (link)
Arménia (link 1 & 2)
Áustria (link) – túmulos de Beethoven, Mozart e Schubert, entre outros
Bulgária (link)
China, Yunnan (links 1; 2; 3; 4)
China, Pequim (link)
Dinamarca (link) – túmulos de Kierkegaard e de Hans Christian Andersen
EUA, Idaho (link)
Gronelândia (link)
Hungria (link 1 & 2)
Ilhas dos Açores, Portugal (link 1; 2; 3; 4)
Índia, cemitério hindi (link)
Índia, cemitério cristão (link)
Itália, Molise (link)
São Tomé e Príncipe (link 1; 2; 3)
Timor-Leste (link 1; 2; 3; 4; 5)




Estou toda picada dos mosquitos. Conforme expliquei na crónica 8, eu estou a usar um spray repelente para usar no corpo, que trouxe de Portugal. Uso sempre o mais potente do mercado, com a maior percentagem de “deet”: 50%, chamado “Previpiq Tropics”. É comercializado internacionalmente e acompanha-me há muitos anos, nestes ambientes quentes e húmidos. Recordemos que Chengdu tem um clima classificado como subtropical húmido. No entanto, eu não esperava que houvessem tantos mosquitos, e só trouxe dois frascos. Cada frasco dá para seis dias. Ora, estando eu 31 dias em Chengdu (não conto os dois dias de voos), eu precisaria de pelo menos quatro frascos, já descontando os dias frios e chuvosos em que não houve mosquitos. Isto não correu bem, portanto. Estou sem spray repelente. Aqui na loja do parque vendem-se uns sprays líquidos, de limão, para o corpo, mas os mosquitos até se riem disso. Quase que lhes ouvi os risinhos trocistas, a zumbirem à minha volta, quando eu borrifei as pernas com um deles – um frasco que tinha no meu estúdio, deixado pelo artista anterior, talvez o Emiliano.




Outro grupo a visitar o parque, desta vez guiados pela própria Yang Li. Claro que os convidei a entrar.




Cinco yuans (0,60€).


A aplicação Amap manda-me por um caminho de estradas e trânsito automóvel, paralelo à ciclovia Greenway. Conforme comentei em crónicas anteriores, esta aplicação tem uma visão exclusivamente utilitária das bicicletas, e aplica-lhes um tratamento igual ao das motocicletas. Ou seja: o utilizador quer ir do ponto A ao ponto B, e a Amap dá-lhe o caminho mais rápido, mesmo que seja por uma autoestrada barulhenta, com seis faixas de automóveis. É certo que as bicicletas andam separadas destes, têm a berma exclusiva para elas, mas a filosofia subjacente a uma bicicleta pode ser diferente. Conforme referi anteriormente também, a aplicação Maps.me tem esta filosofia completamente diferente para as bicicletas: indica-lhes caminhos de terra também, e na cidade usa vias secundárias, mais tranquilas e silenciosas. Dado que estou em passeio, sem pressa, preferiria ir pela bonita e tranquila ciclovia, no meio da vegetação.
Porém, a aplicação Maps.me revelou-se um fracasso aqui na China, porque não tem nada mapeado, não identifica nada. Este cemitério não aparece, a minha residência não aparece também – quando estes pontos estão claramente identificados no Amap. Dado que Chengdu pretende ter 16.900 km de ciclovias até ao ano 2040, conforme referi na crónica 17, seria essencial que a aplicação Maps.me se desenvolvesse na China, porque ambas as aplicações fazem falta: a pragmática e utilitária Amap, e a tranquila e recreativa Maps.me. Tenho a certeza que os chengduenses, na sua cultura Bashu, iriam gostar desta.
Resumindo e concluindo: desobedeci então à Amap e nos primeiros dois ou três quilómetros fui pela ciclovia. Depois, a partir de um certo ponto da ciclovia que eu julguei ser adequado, ativei o Amap para me dizer então o caminho para o cemitério. Retirou-me imediatamente da ciclovia, é uma coisa espantosa. Sem necessidade nenhuma, como verificaremos adiante.










Repare-se que aquele é o edifício do “Global Center”, exatamente onde passa a ciclovia Greenway.














São 14h30 e cheguei ao meu destino. Andei quase hora e meia de bicicleta.
Todavia, em primeiro lugar, eu só podia andar uma hora, com o meu passe semanal. Até fiquei na expetativa de ver o que ia acontecer: a bicicleta vai travar de repente? Não me deixa andar mais? Mas não, continuei a andar. Só no final irei descobrir a conta.

Em segundo lugar, agora eu quero terminar a sua utilização e visitar o cemitério. Não deixa! Aparece a mensagem que esta bicicleta é só para a ciclovia Greenway, e tenho de pedalar de volta a ela (tenho de “cavalgar”, diz a tradução do botão), para então encerrar a sua utilização. Ora ora. Agora há bicicletas azuis exclusivas para a ciclovia.
Resultado: vou deixar a bicicleta desbloqueada. Só espero que ninguém ma leve. É a única bicicleta azul num raio de três ou quatro quilómetros, certamente. E ainda vou ter de pagar uma multa, diz ali.





Questionei o DeepSeek sobre a cremação na China. Recordo que o DeepSeek é uma app chinesa de inteligência artificial fundada em 2023. Respondeu-me isto:
“Sim, na China a cremação é não apenas permitida, mas também amplamente praticada e, em muitas regiões, incentivada pelo governo como forma de economizar recursos de terra. Desde a década de 1950, o país promove a cremação como alternativa ao enterro tradicional, especialmente em áreas urbanas e densamente povoadas. A maioria dos residentes urbanos é cremada, e muitas cidades exigem a cremação por lei, com exceções para minorias étnicas que possuem tradições funerárias diferentes, como os muçulmanos chineses.”



O coveiro Hua – não sei se escreve assim. Riu-se quando me viu. Usou o seu próprio tradutor no seu telemóvel para falar comigo. Perguntou-me – ainda com o meu tradutor – se eu vinha procurar algum amante. Eu mostrei surpresa, e ele disse que aquilo estava errado – que o telemóvel percebeu mal, ficou muito atrapalhado e corrigiu: se eu venho procurar algum familiar. Agora foi a vez de eu rir-me. Como os tradutores percebem mal as coisas e pregam-nos estas partidas.

Parece uma plateia a assistir ao espetáculo da vida, encenado pelos vivos no palco lá em baixo.

Gostei muito deste cemitério, tão rústico e silencioso, no meio das árvores, e gostaria de me ter sentado um pouco, a descansar, mas estava preocupada com a bicicleta, que perdi completamente de vista, e portanto não demorei.


A aplicação Amap manda-me novamente pelo mesmo caminho, porém desta vez eu quero apanhar a ciclovia Greenway. Há muitas entradas, e eu tenho de encontrar uma. Isto revelou-se extremamente difícil, todavia. A Amap não ajuda em nada, neste aspeto. Se eu fizer busca por “Greenway”, aparece uma das entradas principais, a alguns quilómetros de distância, ou seja, não me manda já para a entrada mais perto, que é algures aqui ao lado do cemitério. Foi este rapaz e esta rapariga que me ajudaram. Meteram-se na sua motocicleta e guiaram-me até à entrada mais perto da ciclovia. Eu segui-os, na bicicleta.
A rapariga está toda tapada porque não se quer bronzear. Já no Vietname era assim também: os asiáticos preferem ter a pele mais clara e frequentemente evitam apanhar sol para não a escurecerem. É certo que aqui poderá haver algum caso especial, alguma intervenção cirúrgica na pele, por exemplo, mas duvido, em princípio serão simples questões estéticas. Na ciclovia veem-se igualmente muitos ciclistas com a cara toda tapada, e braços e pernas também. Já os europeus, e também os norte-americanos, procuram sol nas praias e nos relvados, despem-se com o objetivo de se bronzearem. Veja-se o Central Park, em Nova Iorque, quando eu lá estive em 2012 e tirei uma fotografia das pessoas estendidas no relvado, em fato de banho: crónica 24.
Cada cabeça, sua sentença, lá diz o provérbio.


Vê-se o “Global Center” ali ao fundo – o edifício ondulante – estou mesmo ao lado da Greenway.


Por incrível que pareça, ainda levei 45 minutos até entrar na ciclovia Greenway e finalmente estacionar a bicicleta, para parar de pagá-la. A aplicação Amap continua a não ajudar em nada. Perguntei a uma mulher jovem que ia a passear com uma criança, e ela não me soube dizer. Ela ainda tentou ajudar, apontou-me numa direção, mas riu-se e disse que não tinha a certeza. Perguntei a um rapaz dos seus 20 anos, que passou numa bicicleta de montanha, e ele esteve imenso tempo a consultar o telemóvel, os dois em pé, parados à espera, até que ele e eu desistimos de esperar, porque ele não conseguia encontrar também o caminho que conduzia a alguma entrada para a Greenway. É um grande emaranhado de ciclovias e estradas, e sem um GPS adequado é quase impossível.

Como é que eu resolvi a situação? A app da Hello Bike apresentava-me um mapa que me conduzia a um estacionamento dentro da Greenway, dado ser uma bicicleta exclusiva desta – mas com uma viagem longa, com muitas voltas, no meio do trânsito. E eu não tive alternativa senão fazer esse caminho. Estava tão aborrecida por não ter um GPS decente para bicicletas, que nem tirei fotos nenhumas desse caminho. E efetivamente, 45 minutos depois, aqui estou eu na Greenway e finalmente estacionei a bicicleta e parei de pagá-la. Tenho uma conta de 18 yuans (2,16€). É mais do dobro do que custa a o passe semanal: 7,5 yuans.



Este edifício é uma coisa espantosa, parece tirado de um filme de ficção científica. Uma pessoa quase que fica de boca aberta, de tão grande – e por isso impressionante – que ele é. É um dos maiores edifícios do mundo, e no interior tem comércio, lazer, hotéis e escritórios. Tem cerca de 500 metros de comprimento, 400 de largura e 100 de altura.



São agora 17h46 e cheguei à residência. Foi um passeio de 4h30.


E hoje entrou uma nova artista, à esquerda: Eleni Maragaki, da Grécia, que trabalha entre Atenas e Londres. A Eleni trabalha com escultura, instalação e gravura expandida.



O Toni a tratar da luxuriante vegetação; o seu gato Xiao Hui a dar o passeiozinho da tarde; e a sua mulher, Li, a fugir da foto.


