022 – Príncipe – Porto Real, Cemitério & Medicina Tradicional

Questionei o Fulberto sobre que caminho posso eu tomar agora, passando por alguma terra antes de ir direta para Santo António, pois isto ainda é muito cedo. O Fulberto sugeriu-me Porto Real. Vejo no GPS que são 7,6 km até lá, sem grandes elevações. São 9h40 e parto então para o meu novo destino improvisado.

A fazer carvão.

Voltei a apanhar uns pingos de chuva pelo caminho, pelo que tive de proteger novamente o telemóvel com um saco plástico. A máquina fotográfica idem, e está dentro da mochila. É pouco prático para ir tirando fotos pelo caminho.

ATTRAP é a Associação dos Terapeutas Tradicionais da Região Autónoma do Príncipe. Este lote agro-florestal chama-se “Samé Nuna” – e conforme indica a placa é em memória de Velicina Viana dos Prazeres (conhecida por Samé Nuna), uma terapeuta de medicina tradicional aqui na ilha do Príncipe. Uma “stlijon matu”, ou seja, uma cirurgiã do mato. O Príncipe é rico em espécies de plantas medicinais e aromáticas, com tradições antigas, integradas na cultura e meios de vida da população local.
Veja-se este fabuloso trabalho de campo na área da etnofarmacologia realizado pela investigadora portuguesa Maria do Céu de Madureira, da Universidade de Coimbra:

Nas regiões mais remotas de África, os povos autóctones possuem tradições de uso de plantas medicinais que se mantêm quase imunes às mudanças ocorridas na medicina à escala mundial. Para estes povos, a cura está ligada a um mundo mágico onde os espíritos influenciam a doença e a morte, e é nas suas florestas que se encerram segredos milenares…
Em São Tomé e Príncipe um grande número de medicamentos derivados de plantas tem sido utilizado desde há séculos pela medicina tradicional. De facto, há muitos locais em que é praticamente inexistente, ou mesmo nula a prática de medicina ocidental. Com efeito, uma grande parte da população habita em zonas relativamente isoladas e de difícil acesso, uma vez que houve uma grande deterioração das infraestruturas existentes. Aqui, a medicina tradicional reveste-se de uma importância decisiva, já que é, por vezes, a única alternativa terapêutica a que as populações podem ter acesso. O Sistema Nacional de Saúde da RDSTP (República Democrática de São Tomé e Príncipe) padece de problemas semelhantes aos muitos outros países em vias de desenvolvimento. De facto, os serviços de saúde estão preferencialmente localizados nas principais zonas urbanas, o que faz com que somente cerca de 60% da população tenha acesso a serviços de saúde. Mesmo nos centros onde a medicina ocidental está bem difundida, o preço dos medicamentos importados é claramente incomportável para a grande maioria da população, o que coloca de novo a medicina tradicional num lugar de destaque, já que a cura pelas plantas medicinais está ao alcance de qualquer família. Isto leva a que grande parte da população continue a utilizar e a confiar na medicina tradicional, usando plantas que através de um longo período de tempo comprovaram ser seguras, eficazes, baratas e facilmente acessíveis. Por tudo isto, é importante assegurar a manutenção desta herança cultural e impedir a perda destes conhecimentos inestimáveis, enquanto eles ainda persistem na memória dos “mais velhos”. E foi este um dos grandes objetivos que nos norteou: contribuir para a manutenção do conhecimento local sobre as plantas medicinais, conhecimento este que tristemente parece estar a desaparecer de uma forma ainda mais rápida do que as próprias florestas. À medida que estes velhos terapeutas vão desaparecendo, desaparecem com eles gerações e gerações de sabedoria e de prática médica tradicional.¹

Em África, “curar” é restabelecer ou preservar a vitalidade humana e o funcionamento harmonioso do universo, estando a doença incluída numa categoria mais vasta de problemas, que implica a quebra de uma ordem moral e simétrica através da qual o indivíduo está ligado ao grupo social, meio ambiente, antepassados, espíritos e ordem cosmológica. A mente e o corpo não são rigidamente entendidos como duas entidades autónomas e não importa qual delas foi afetada pela doença nem se esta foi provocada por processos orgânicos ou psicológicos, pois o corpo não é visto como uma entidade independente, desligada dos outros seres, das emoções, dos espíritos e das forças da Natureza. Como consequência, as noções racionais e mágicas sobre as causas das doenças entram simultaneamente em jogo, não se fazendo uma distinção nítida entre elas. Por tudo isto, além da informação sobre as plantas utilizadas e os tratamentos tradicionais, é igualmente importante conhecer a “ideologia” médica tradicional local, incluindo aspetos filosóficos e conceptuais básicos, a forma de classificação das doenças, os métodos de diagnóstico e os tratamentos. O conhecimento sobre estes aspetos etnomédicos é sempre altamente vantajoso, uma vez que poderá fornecer dados importantes que facilitam a identificação de sintomas, doenças, tratamentos ou mesmo de passos decisivos na preparação dos medicamentos tradicionais. Como exemplo, poderemos apresentar um facto simples, como é o da recolha de cascas ser sempre feita do lado do tronco mais exposto à luz solar, evitando deste modo a recolha de material infestado por fungos e líquenes; por outro lado, os curandeiros têm sempre o cuidado de nunca retirarem anéis completos da casca das árvores, permitindo assim a recuperação mais rápida desta. Assim, tentámos recolher a maior informação possível sobre a medicina tradicional de São Tomé e Príncipe, e completámos estes dados com as informações recolhidas diretamente dos terapeutas tradicionais com quem trabalhámos. Sendo São Tomé e Príncipe um arquipélago desabitado na altura da sua descoberta, e que foi povoado essencialmente à custa de mão-de-obra escrava proveniente essencialmente do continente Africano (região do Congo e região do Benim) e, posteriormente, de contratados oriundos de outras ex-colónias Portuguesas (Angola; Cabo-Verde; Guiné, Moçambique, etc.), os conhecimentos sobre medicina tradicional são também eles oriundos desses mesmos locais. Ao longo dos séculos, a convivência dos descendentes destes diversos grupos étnicos com a flora das ilhas permitiu o desenvolvimento da medicina tradicional santomense, com a inclusão de um número razoável de espécies endémicas nos preparados tradicionais.

No entanto, pudemos constatar que entre os terapeutas tradicionais mais conceituados, existe claramente uma maior percentagem de angolares relativamente à origem étnica do curandeiro ou do seu mestre. A maior parte confirmou que era de origem angolar ou que tinha feito a sua aprendizagem com um mestre de origem angolar (grupo étnico do Sul da ilha de S. Tomé, no distrito de Caué, e que se julga serem descendentes de escravos oriundos de Angola, naufragados naquela zona da ilha). Este facto está de acordo com o descrito pelo antropólogo Paulo Valverde (2000), em que se admite que é entre os angolares do Sul da ilha de S. Tomé e entre os moncós da ilha do Príncipe que se encontram os maiores poderes de cura e os curandeiros mais temidos. Segundo este autor, consideram-se regularmente os angolares como “selvagens e atrasados”, constituindo estes o estereótipo mais intenso do primitivo; admite-se, porém, que eles possuem conhecimentos mais minuciosos sobre a natureza em que vivem e trabalham. O facto dos angolares terem estado praticamente isolados dos restantes grupos populacionais das ilhas durante séculos, pode ter levado à consolidação e manutenção mais ou menos intacta dos seus conhecimentos tradicionais até à atualidade. Este isolamento levou a que não tivessem à sua disposição nem os medicamentos ocidentais, nem os técnicos ou equipamentos de saúde da medicina ocidental, pelo que tiveram que se bastar a si próprios, mantendo e aperfeiçoando a sua sabedoria terapêutica tradicional, e aproveitando todos os recursos que a Natureza colocava à sua disposição.

Em São Tomé e Príncipe, os terapeutas tradicionais (stlijons) são bastante respeitados e admirados. Embora atualmente tenham perdido parte da influência e do prestígio de que gozavam, continuam a ser personalidades de enorme importância no tecido social, sendo muitos destes stlijons considerados homens excepcionais e dotados de poder sobrenatural. Segundo Moraes (1901), apesar dos stlijons serem também consultados pela população branca, a medicina tradicional em São Tomé e Príncipe, tal como nas restantes ex-colónias portuguesas, sofreu grandes perseguições e foi motivo de sucessivas campanhas de descrédito que lhe foram movidas pelas autoridades governamentais, chegando mesmo a sua prática ser considerada ilegal, facto este que contribuiu para o seu descrédito. Esta hostilidade foi motivada, em parte, pelo lastro histórico de repressão na Europa sobre as práticas consideradas como bruxaria, feitiçaria, magia, etc., e, em parte, porque – umas vezes erradamente, outras acertadamente – se considerou a figura do curandeiro / feiticeiro africano como um potencial foco de subversão política. Ao longo dos anos foi havendo uma lenta evolução dos testemunhos coloniais sobre a medicina tradicional e os seus praticantes, oscilando estes, em geral, entre a rejeição mais ou menos arrogante e a ironia condescendente. No final da época colonialista os curandeiros não eram já necessariamente bandidos, chegando a ser exibidos como elementos iconográficos importantes de um São Tomé folclorizado. Como exemplo disto, temos um conjunto de cinco pinturas de Pascoal Viegas, impressas por altura das comemorações dos quinhentos anos do descobrimento de São Tomé e Príncipe, em 29 de Julho de 1970, que retratavam aspetos considerados definidores da cultura Santomense, estando entre estes retratado um quintal de “um antigo cirurgião curandeiro”:¹

Quintal de “um antigo cirurgião curandeiro”, por Pascoal Viegas (1970)
Foto retirada de Plantas Medicinais e Medicina Tradicional de São Tomé e Príncipe.

No entanto, todo este processo acarretou uma progressiva degradação temporal dos poderes terapêuticos, com a perda de conhecimentos extraordinários detidos pelos mais velhos, e ainda lembrados atualmente. Outras causas têm vindo igualmente a agravar esta situação de descrédito, podendo destacar-se a grande influência da cultura ocidental entre a população das ilhas. Com efeito, a “aculturação” causada pela educação ocidental leva a que haja uma perda de interesse pela medicina tradicional, sendo muitas vezes considerados “superiores” os medicamentos ocidentais, o que os leva a serem preferidos em relação aos preparados tradicionais dos curandeiros locais. Esta situação leva a que muitos dos velhos terapeutas tradicionais contactados, não tenham atualmente descendência interessada a quem possam passar os seus conhecimentos, perdendo-se deste modo preciosas indicações na utilização de plantas medicinais.

Aprendizagem para Stlijon em São Tomé e Príncipe
Segundo o antropólogo Paulo Valverde (2000) o sistema da medicina tradicional são-tomense preconiza que a aprendizagem de um futuro mestre possa ocorrer segundo alguns padrões de ação recorrentes: pela dádiva de um mais velho por gratidão face à generosidade desinteressada demonstrada por um jovem; pela eleição de um indivíduo só por quem um mais velho se apercebeu das suas potencialidades; pela entrada espontânea, muitas vezes associada a violentas crises pessoais, de um espírito na cabeça da pessoa; ou, algumas vezes, pela busca voluntarista de um diletante que aprende com outros mais velhos, a quem pede auxílio, ou através de métodos autodidatas. Por outro lado, as redes familiares tendem a orientar a transmissão do património do conhecimento terapêutico segundo os vínculos familiares, prevalecendo uma transmissão no sentido filial, de pai ou mãe para filho e também, com grande frequência, de avó ou avô para neto, o que vem de encontro ao cenário muito generalizado em que são os avós que criam e educam os netos. Se uma pessoa der provas visíveis de querer dedicar-se ao ofício de stlijon, os mais antigos mestres da terra reúnem-se e constituem um júri que examinará o aspirante. A prova é secreta e dura bastante tempo. Se for aprovado, o novo stlijon poderá exercer livremente a clínica sem a admoestação dos colegas, mas se ficar excluído, está interdito de consultar e medicar qualquer doente, até que transite noutro exame. Noutros casos, o aspirante a stlijon deverá acompanhar o mestre (muitas vezes um familiar mais velho) e aprender com ele todos os segredos para reconhecer e preparar os mindjan-matu (remédios tradicionais do mato); esta aprendizagem é normalmente longa, decorrendo por vários anos, devendo o aspirante abster-se de relações sexuais durante esse período. O consultório dos stlijon é normalmente uma pequena cubata no quintal da casa, feita com paus do mato e coberta de n‘pavu (folhas de palmeira). Normalmente possui um pequeno púlpito com alguns objetos de culto, tais como crucifixos, velas, caveiras, totens de madeira, baga téla (panelas de barro tradicionais) ou garrafas contendo vários tipos de mindjan (remédios tradicionais). À volta deste local estão dispersos bancos de assento, onde os pacientes esperam até serem atendidos pelo stlijon.¹

Baga téla (panela de barro tradicional) usada para preparar mindjan (remédios tradicionais).
Foto retirada de Plantas Medicinais e Medicina Tradicional de São Tomé e Príncipe.

O conhecimento tradicional são-tomense é aberto e disseminado em largos setores da população, possuindo quase todos um conhecimento prático razoável sobre plantas medicinais e sobre a composição dos remédios de mato. Porém, há uma espécie de pirâmide de especialização do conhecimento tradicional. Alguns indivíduos, em especial os mestres curandeiros, detêm conhecimentos esotéricos que são suportados por práticas e manipulações especiais, possuindo simultaneamente profundos conhecimentos etnobotânicos. Como refere Paulo Valverde (2000), ser curandeiro implica uma reivindicação de superioridade face aos outros. O stlijon trata determinados tipos de doenças recorrendo a várias práticas, nomeadamente a utilização de medicamentos tradicionais, quer por via interna, quer por via externa (massagens, emplastros, banhos), mas podem também tratar doenças resultantes de tabus religiosos, especialmente devidas ao não cumprimento de obrigações para com os Nén Ké Mu (defuntos-deuses), para o que utiliza determinados ritos mágicos:

Paga santu – ritual mágico para tratar infeções dos olhos, feito nas margens de rios ou praias, pagando uma “dívida” a um santo de água.

Paga dêvê – ritual mágico para tratar o desenvolvimento deficiente de crianças, feito na foz de rios ou em cruzamentos de estradas, pagando uma “dívida” aos Nén Ké Mu (defuntos-deuses), através de oferendas e orações.

Djambis – cerimónia que visa essencialmente a cura de doentes que padecem de loucura ou fraqueza; participam nele vários curandeiros e consiste numa série de rituais com oferendas, batuques, danças, substâncias estupefacientes, terminando em êxtases e estados de possessão, por vezes bastante violentos. A cura por intermédio do djambi é conseguida graças à eliminação involuntária dos conflitos psíquicos do possesso, acompanhada de harmonização interna provocada pelo alheamento, a que o paciente é submetido no transe final. Além dos tabus, os sonhos noturnos dos pacientes são muitas vezes interpretados pelo stlijon na fase precedente da terapêutica.

Tipificação dos Terapeutas Tradicionais
Cada stlijon é especialista em determinada doença ou tipo de doenças. Há os que se dedicam aos males que afligem as crianças, tal como o bega-côlê (diarreia), enquanto outros se dedicam às doenças dos idosos, nomeadamente o lematismo (reumatismo); outros há ainda que são especialistas em problemas ósseos.
Existindo em São Tomé e Príncipe uma clara distinção entre as diferentes ocupações dos terapeutas tradicionais, convém fazer aqui uma breve caracterização de cada um dos diferentes tipos de Curandeiros:

Curandeiro – é um elemento da comunidade, geralmente idoso, que trata os seus pacientes com práticas provenientes da medicina tradicional, empregando preparações à base de plantas medicinais ou de outros recursos naturais e podendo também recorrer a determinadas orações.

Fitchicêlu (Feiticeiro) – aquele que utiliza práticas mais ou menos sobrenaturais para resolver os “problemas” das pessoas que o procuram. É habitualmente procurado para causar mal a terceiros, e as suas “virtudes” assentam essencialmente na crença da população. O seu poder é hereditário e geralmente é transmitido de mãe para filha, algumas vezes ao filho.

Entre os Curandeiros podemos ainda distinguir vários tipos de “especialistas”:

Stlijón Matu (Cirurgião do mato) – trata-se de indivíduos que recolhem nas florestas as diversas substâncias dos três Reinos da Natureza que necessitam para preparar os produtos que usam para curar, entregando aos doentes misturas prontas para serem utilizadas, de acordo com as suas instruções;¹

Sum Gino, Stlijon-matu (recolha de plantas medicinais no Obô).
Foto retirada de Plantas Medicinais e Medicina Tradicional de São Tomé e Príncipe.

Massagistas – pessoas que tratam doenças relacionadas com problemas ósseos e musculares (reumatismo, fraturas, distensões musculares, hematomas, etc.). Os seus tratamentos são geralmente de natureza externa, aplicando medicamentos preparados à base de cascas ou folhas medicinais, através de massagens ou aplicando as misturas de plantas em talas ou ligaduras, sobre as áreas do corpo afectadas;¹

Sum Ernesto (Massagista, Boa-Morte).
Foto retirada de Plantas Medicinais e Medicina Tradicional de São Tomé e Príncipe.

Tchiladô Ventosa (“Tirador de Ventosas”) – são pessoas que extraiem o “sangue mau”, responsável por inchaços e dores, aplicando ventosas feitas de chifres de boi; as ventosas são colocadas juntamente com folhas de fiá-da-mina (Kalanchoe crenata), sobre os locais afetados. Estes terapeutas não aplicam este tipo de tratamento sem consultarem um Lunário, onde estão descritas as fases da lua, pois acreditam que isso irá afetar a cura;¹

Sum Alberto, Txiladô-Ventosa
Foto retirada de Plantas Medicinais e Medicina Tradicional de São Tomé e Príncipe.

Piadô Záua (“Explicador de Urina”) – são pessoas que diagnosticam e tratam as doenças dos seus pacientes, através da observação organoléptica da urina destes (cor, cheiro, sedimentos, sabor, etc.)

Sum Pontes, Piadô-záua (Bôbô-Forro)
Foto retirada de Plantas Medicinais e Medicina Tradicional de São Tomé e Príncipe.

Patlela (Parteira Tradicional) – são geralmente mulheres idosas, que tratam as doenças das mães e das crianças, providenciando cuidados pré-natais e pós-natais, através de práticas da medicina tradicional.

San Zinha (Parteira Tradicional, Madalena)
Foto retirada de Plantas Medicinais e Medicina Tradicional de São Tomé e Príncipe.

Continuando a citar Maria do Céu Madureira:

Estudos etnofarmacológicos em São Tomé e Príncipe
Neste trabalho optámos pelo registo de informações altamente especializadas, obtidas principalmente junto dos mais respeitados terapeutas tradicionais locais, e em alguns casos também corroborada por elementos mais idosos da população. A nossa equipa de investigadores, ciente de que seria extremamente difícil estabelecer contacto e, especialmente, ganhar a confiança dos terapeutas tradicionais em expedições de curta duração, optou por permanecer em São Tomé e Príncipe por períodos de vários meses seguidos, durante o tempo em que decorreu o estudo (1997-2010).

Inicialmente a equipa de campo (constituída pela autora – Maria do Céu Madureira, e nos primeiros três anos também por Ana Paula Martins) a equipa de campo trabalhou com o Dr. E. Sardinha dos Santos, um farmacêutico do Ministério da Saúde da RDSTP, bem conhecido por muitos dos terapeutas tradicionais do país. Através dele foi possível estabelecer os primeiros contactos e iniciar o trabalho com os terapeutas tradicionais. A equipa trabalhou em estreita colaboração com cerca de 50 terapeutas tradicionais de variadas regiões das duas ilhas. Foram ainda contactados, na recolha de plantas medicinais e de receituário tradicional, numerosos elementos mais idosos cujos conhecimentos eram respeitados nas suas povoações. Além destes terapeutas e/ou especialistas, que poderemos considerar como profissionais, não podemos deixar de referir o papel extremamente importante das “mães de família”, que tratam com eficácia as doenças menos graves dos membros da família, utilizando sabiamente as plantas medicinais dos seus próprios quintais, e que nos forneceram informações preciosas.¹

Encontro notícias recentes, de 2018:
“A investigadora portuguesa Maria do Céu Madureira recebeu uma bolsa da União Africana, no valor de um milhão de dólares, para estudar plantas medicinais e promover a sustentabilidade dos recursos florestais em São Tomé e Príncipe e Angola.
“Esta bolsa vai ser de três anos e vai abranger Angola e São Tomé e Príncipe, na vertente plantas medicinais e cogumelos, que podem ser medicinais ou alimentares”.
A investigadora trabalha diretamente com os terapeutas e curandeiros tradicionais, recebendo os seus conhecimentos sobre as plantas, muitas endémicas no Príncipe, e transmitindo-lhes também os resultados das suas investigações enquanto farmacêutica.”²

Fabuloso, heim? Temos uma especialista em etnofarmacologia de renome internacional. Com um trabalho tão importante na preservação do conhecimento antigo – e ainda mais o seu desenvolvimento na medicina moderna.

E pronto, agora é que não escapei à chuva. São 10h45. Aqui nesta estrada, subitamente, veio uma carga de água tal, que eu não consegui fazer mais nada senão pedalar e tentar encontrar algum abrigo. Onde é que há abrigos aqui, digam-me lá. Tinha de ser mesmo aqui, neste descampado. (Enfim, no meio de tanta vegetação verdejante até é estranho usar a palavra “descampado”, mas para a mim e para a bicicleta é!!). É que foi um autêntico dilúvio. Esta é a última fotografia que consegui tirar até chegar a Porto Real, altura em que a chuva finalmente parou. A seguir à curva há uma arvorezita pequenita, e foi aí que me abriguei durante um quarto de hora. Depois abrandou a carga – continuou a chover, mas mais moderadamente – pelo que continuei a pedalar até chegar a Porto Real. Está calor, faz-se relativamente bem.

Chegada a Porto Real. A lama no assento e no cantil de água é idêntica à que está nas minhas costas. Por duas vezes o cantil caiu ao chão, em andamento, eu ouvi, travei e apanhei-o. Este suporte não prende nada.
Estas duas casas são escolas. Ainda há uma terceira do lado direito, que não ficou na foto.

Um pouco antes havia um grupo de pessoas; um homem veio falar comigo, cumprimentar-me, perguntar-me de onde venho. Devia ter-lhe tirado uma foto, é pena. Ainda tenho a máquina dentro dum saco plástico, dentro da mochila às costas. Tirar a parafrenália toda, e depois guardá-la novamente, leva muito tempo. Há sempre menos fotos com chuva.

A chegar à cidade de Santo António.
Ainda parei na descida de Porto Real para cumprimentar e falar com algumas pessoas que estavam sentadas à porta de sua casa. “Vai leve-leve” – despediram-se de mim assim.

O cemitério novamente fechado. Está complicado. Hoje é 5ª feira, são agora 11h30 e tenho 20,4 km. Fui perguntar numa quitanda mais à frente quando é que o cemitério abre. Disseram-me que está sempre aberto, e que o Sr. Hilário terá ido a algum lado nuns minutos, que se eu voltar daqui a pouco, já estará aberto novamente. Bom, optei por fotografar o cemitério através das grades. Ainda não é desta que consigo visitá-lo.

Toda enlameada, mas os pensos de combate continuam no sítio!!!


¹ Madureira, Maria do Céu (2012) “Plantas Medicinais e Medicina Tradicional de São Tomé e Príncipe” in Actas do Colóquio Internacional São Tomé e Príncipe numa perspectiva interdisciplinar, diacrónica e sincrónica”, pp 433-453, Lisboa. Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), Centro de Estudos Africanos (CEA-IUL), ISBN: 978-989-732-089-7 Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT), ISBN: 978-989-742-002-3. Página consultada a 25 Setembro 2019,
<https://repositorio.iscte-iul.pt/handle/10071/3917>

² “PR/São Tomé: Investigadora portuguesa recebe bolsa de um milhão de dólares da União Africana” (2018, 17 Fevereiro), Agência Lusa. Diário de Notícias. Página consultada a 25 Setembro 2019,
<https://www.dn.pt/lusa/interior/prsao-tome-investigadora-portuguesa-recebe-bolsa-de-um-milhao-de-dolares-da-uniao-africana-9125097.html>