26º dia – Mosteiro Wenshu / hot pot com um grupo / Museu das Doze Feiras Mensais / parque Wangjianglou / ponte Anshun à noite

Hoje é segunda-feira, 4 de maio de 2026.
É o dia do almoço no centro de Chengdu com o grupo da Shi, que conheci na crónica 23. A Shi estava na sexta-feira com um grupo de budistas a libertar peixe no rio, e convidou-me para almoçar hoje com o seu grupo de amigos. O encontro é ao meio-dia, e eu tenho de sair na estação de metro “Wenshu Monastery””. Vou já de manhã, e aproveito para visitar o mosteiro e ruas à volta.

De bicicleta até à estação de metro Taiping Temple, e depois mudança para a linha 1.

Vim deixar os bolos ao cão que vi na crónica 23. Eu creio que já o tinha visto, mas mais longe; ele costuma andar por aqui. Talvez ele goste de bolos. Deixei-os ali na parte de baixo do cimento.

Agora é que me lembrei de tirar o print do caminho. O Mosteiro de Wenshu fica no centro de Chengdu.

Já tenho um passe para as bicicletas azuis: 7,5 yuans por uma semana. Foi a Mia quem mo comprou, na minha app do Alipay. Só posso andar uma hora de cada vez, e se for ultrapassar esse tempo, tenho que finalizar o uso, e voltar a ativar. Não paguei a bicicleta até à estação de metro, nem vou pagar esta até ao mosteiro. São apenas 500 metros, mas claro que eu quero fazer tudo de bicicleta.

O Mosteiro de Wenshu, cuja entrada é gratuita, é o maior e o mais bem preservado mosteiro budista de Chengdu, e continua ativo, não é apenas uma atração turística. Foi construído durante a Dinastia Sui, por volta de 605 a 617 d.C. O local foi restaurado diversas vezes, especialmente durante a Dinastia Qing, em 1691, mas incorpora ampliações, restauros e modificações posteriores, sobretudo dos séculos XIX e XX. O templo homenageia o Bodhisattva Wenshu, conhecido como o Deus da Sabedoria.

Este é um Qilin, um animal mitológico auspicioso, guardião simbólico do espaço sagrado. As pessoas tocam nos chocalhos que ele tem ao peito para pedir sorte, proteção ou sabedoria. E eu toquei também, chocalhei-os.

Pagode da Paz dos Mil Budas. Está decorado com 999 esculturas em relevo de Buda, juntamente com uma estátua central de Buda no piso térreo, totalizando 1.000, o que explica seu nome. Representa a multiplicação da sabedoria budista e funciona como símbolo de proteção e paz. Quando o vento passa, os sinos soam.

Na China continental, a maioria das formas de jogo é ilegal. A “China Welfare Lottery” é uma das duas únicas lotarias legais, a par da “China Sports Lottery”. Ambas são controladas pelo Estado. A “China Welfare Lottery” tem como objetivo angariar fundos para projetos de assistência social e beneficência. Inclui vários tipos de jogos, desde sorteios numéricos a raspadinhas. Entre os jogos mais populares encontra-se o “Double Color Ball”, uma espécie de combinação entre o Totoloto e o Euromilhões. Segundo dados oficiais, ao longo das décadas a lotaria financiou centenas de milhares de projetos de beneficência e assistência social em todo o país.¹ Já na “China Sports Lottery”, uma parte dos fundos financia também o desenvolvimento do desporto na China.

“Wenshu” é o nome chinês de Manjushri, o bodhisattva associado à sabedoria. “Manjushri” é um nome em sânscrito. Isto causou-me alguma confusão, porque eu não sabia se estava a entrar no mosteiro certo.

São agora 11h44. Este é o restaurante que a Shi me indicou – onde vamos almoçar. Não faço ideia quantos somos, mas não interessa, estou contente por ir conhecer pessoas chinesas. Logo no parque Huanhuaxi eu perguntei-lhe se eram chineses ou estrangeiros. Eu não quero conhecer estrangeiros! – disse-lhe eu. São chineses! – exclamou ela. E também não faço ideia o que será a comida, mas vou deixar a Shi escolher por mim, porque eu não percebo nada.
A Shi disse-me agora, através do WeChat, que estão no metro, e que em breve chegarão, e que a mesa é a 5. Mas eu prefiro sentar-me ali nas escadas a observar o movimento da rua.

Bom, este restaurante deve ser muito bom, com tamanha afluência.

A placa diz: “Vinte anos de compromisso inalterável. O principal produto da loja são cogumelos selvagens naturais do Tibete; se houver cogumelos cultivados artificialmente, excluindo morchela e fungo do bambu, a compensação será de 10.000!”
A morchela é um cogumelo selvagem, e o seu cultivo é relativamente recente e ainda considerado difícil, pois continua a haver forte dependência de condições naturais. Por isso é tratada como um caso à parte: pode ser cultivada, mas não é considerada um cogumelo agrícola “normal” como os outros.
Já o “fungo do bambu” também pode ser cultivado, sobretudo em regiões da China, e é menos “selvagem”.

Cogumelo Morchela.
Foto retirada de Chengdu Morchella Science And Technology Co., Ltd. (link)

Cogumelo Fungo do Bambu, também conhecido como “Véu de Noiva”.
Foto de Vinayaraj, retirada de Wikimedia.

E vamos comer hot pot!
Como expliquei na crónica 24, o hot pot é uma refeição em que há um tacho com caldo a ferver no centro da mesa, e vão chegando pratos com ingredientes crus. Cada pessoa vai cozinhando tudo no próprio momento dentro do caldo.

Da esquerda para a direita:
Feng, 45 anos, é aqui de Chengdu;
Yang, 45 anos, fez 7h de comboio para chegar aqui ontem, e vai embora amanhã. É de Panzhihua, dentro de Sichuan. (Recordo que Chengdu é a capital da província de Sichuan). A Yang é professora de inglês e dona de uma escola de formação que oferece cursos extracurriculares de inglês para alunos dos 3 aos 18 anos. Atualmente, tem cerca de 150 alunos e veio agora acompanhar alguns destes para um exame em Chengdu;
A Shi, de 43 anos, e que já sabemos da crónica 23 que é professora de inglês;
E finalmente a Jing, de 42 anos, aqui de Chengdu, também professora de inglês.
Todas têm filhos. Só a Feng é que não sei. A Yang tem uma filha que vai em breve entrar para a universidade e quer seguir Belas-Artes.

É uma maravilha entendermo-nos todas em inglês, com exceção da Feng, mas as amigas traduzem-lhe algo que seja necessário, quando eu falo.

Aquela caixa com seis bolos, à direita, foi a Shi que a trouxe, e comprou-a naquela loja que tinha uma multidão à espera de ser atendida. Afinal é uma pastelaria. E depois de eu experimentar um dos bolos, à sobremesa, percebi claramente o porquê de ser tão famosa. Das restantes meninas, só duas quiseram um bolo, pelo que sobraram três, e eu ainda comi mais dois. A Shi queria que eu ficasse com a caixa, com o sexto e último, mas eu quero ir dar umas voltas de bicicleta, e a caixa ocupa muito espaço. Também excluí a possibilidade de comprar eu própria uma caixa inteira, precisamente por causa disto.

O almoço terminou quase às 3 da tarde, e foi perfeitamente adorável. A comida esteve constantemente a chegar, os empregados colocavam-na dentro da panela, e nós fomo-nos servindo ao longo de quase duas horas. Senti-me muito confortável no meio das quatro amigas. Algumas não se viam pessoalmente há anos, e falaram também em chinês, claro – sendo amigas há anos, tinham muita conversa para colocar em dia. Mas iam-me traduzindo aqui e ali, para eu ir estando a par. Estive também muito entretida a experimentar a comida, perfeitamente deliciosa, e não tão picante como é tradicional em Chengdu.
A Shi tem uma casa em Panzhihua, onde a Yang vive, que é uma região montanhosa, com clima ameno, ideal para férias, mas não tem lá ido e a casa está vazia. O marido hesita em alugá-la pelo trabalho e maçadas que isso poderá trazer. A Yang explica que Panzhihua é uma zona bonita escolhida por alguns chineses para viverem após a reforma. Contou-nos ainda que a sua escola de formação está agora a fundir-se com uma universidade, e que poderá passar a fazer parte dessa universidade no próximo ano, o que significa que ela poderá tornar-se professora universitária de inglês. Todas lhe demos os parabéns e brindámos. A Yang convidou-me para ir a Panzhihua, e nos mesmos moldes da NY20+, com estadia, alimentação, estúdio e material de pintura incluídos. Fiquei delirante, claro.

As quatro amigas acabaram por oferecer-me o almoço sem eu dar conta. Quando nos levantámos e despedimos, eu perguntei quanto era – quanto cabe a cada uma – e elas disseram-me que já estava pago. Não era suposto! Eu nem dei conta de terem pago. De certeza que pagaram com um QR Code e eu nem dei conta. Agradeci-lhes então o maravilhoso almoço – quer de comida, quer de companhia, e sigo agora para uma sugestão dada pela Shi: Museu das Doze Feiras Mensais de Chengdu. Eu perguntei-lhe que atrações posso visitar aqui perto e a Shi lembrou-se deste museu. O nome dele é um pouco atribulado, digamos assim. Neste mapa é chamado de “Museu do Mercado de Dezembro de Chengdu” e fica a 4,1 km de distância.

Eu sei que fotografo muitas vezes as bicicletas e motocicletas paradas nos semáforos dos peões e das bicicletas, nas passadeiras, mas isto encanta-me. Estamos todos a olhar uns para outros, frente a frente, e quando se puser verde, vamos todos na direção uns dos outros. Parece uma arena e isto diverte-me imenso. O que é certo é que nunca chocámos: vamo-nos desviando uns dos outros, frente a frente, e tudo corre bem. Se um chinês andar de bicicleta na Europa, deve morrer de susto, porque é equiparado a um automóvel e tem de andar no meio dos automóveis, e obedecer aos semáforos dos automóveis. Até calha mal uma bicicleta andar nas passadeiras, no meio dos peões – não é muito bem visto.

São 15h54 e cheguei ao “Chengdu Twelve Monthly Fɑirs Museum” – Museu das Doze Feiras Mensais de Chengdu. Foi difícil chegar aqui: fica nas traseiras de uma rua, num pátio, e o GPS só me mandava para a frente dessa rua. Tive de perguntar a uns transeuntes, que efetivamente me ajudaram.

A placa diz:
“As feiras mensais de Chengdu, cuja forma se consolidou durante a Dinastia Song, representam o auge da prosperidade comercial da antiga Chengdu. A formação e o desenvolvimento destas feiras demonstram a transição da conceção de mercado de um modelo tradicional para um modelo moderno, enquanto os elementos económicos nelas implícitos continuaram a evoluir, refletindo a inovação e a modernização da lógica comercial urbana que lhes está subjacente.
No contexto da integração de Chengdu no novo modelo de desenvolvimento de “dupla circulação”, o Museu das Doze Feiras Mensais de Chengdu tem como objetivo decifrar a civilização comercial da cidade tomando as feiras mensais como ponto de partida. O museu apresenta o percurso de desenvolvimento de Chengdu, uma cidade com milhares de anos de história, sob uma perspetiva económica e comercial, sintetiza a experiência que conduziu ao seu sucesso no desenvolvimento dos negócios e lança um olhar sobre o futuro da cidade à luz do novo modelo de desenvolvimento de ‘dupla circulação’.”
(Fim de citação)

O que é a “dupla circulação”?
A estratégia de dupla circulação foi introduzida pela China em 2020, com o objetivo de reduzir a sua dependência de mercados estrangeiros, estimular o consumo interno através do crescimento económico, e apoiar o crescimento das indústrias nacionais, particularmente as de alta tecnologia, criando assim uma economia autossuficiente. O conceito assenta em dois circuitos económicos que se reforçam mutuamente: circulação interna (domestic circulɑtion) que assenta na produção, distribuição e consumo dentro da própria China; e circulação externa (international circulation) que promove o comércio internacional, investimento estrangeiro, exportações e importações.
A ideia não é abandonar o comércio externo, mas sim fazer com que a economia chinesa dependa mais da procura interna, mantendo simultaneamente as ligações internacionais.
Neste texto do museu, a referência à “dupla circulação” serve para ligar a história comercial de Chengdu às atuais políticas económicas chinesas. O argumento é que a cidade possui uma longa tradição mercantil e que esta experiência histórica pode ajudar Chengdu a desempenhar um papel relevante no novo modelo económico promovido pelo governo chinês.

A temática deste museu é muito interessante, no entanto deparei-me com um problema: no seu interior, não há placas em inglês, estão todas em chinês. A minha visita foi breve, portanto.

Ora digam lá que este mapa exposto em toda uma parede do museu não é interessante?!
Pronto, eu confesso: fui eu que acrescentei a palavra “Portugal” ?
Ao centro, em chinês, fala na Rota Marítima da Seda, e depois na “Nova Rota da Seda do século XXI”, a iniciativa chinesa conhecida como “Belt ɑnd Roɑd Initiɑtive” (em português: “Uma Faixa, Uma Rota”) lançada em 2013 por Xi Jinping: um programa global de infraestruturas e comércio que procura reforçar as ligações da China com a Europa, África, Médio Oriente e outras regiões. Divide-se em dois grandes eixos: “Belt” (Faixa): rotas terrestres através da Ásia Central até à Europa; e “Roɑd” (Rota): rotas marítimas através do Índico, Sudeste Asiático e África até à Europa.
Se a partir do século XVI Portugal teve um papel central na antiga Rota da Seda, agora na nova já não é tão central. Portugal enquadra-se agora como uma potencial plataforma logística secundária, um potencial ponto de entrada marítima na Europa, sem ser um dos países centrais do projeto.

Quarto destino de hoje: parque Wangjianglou, famoso pelos seus bamboos. Desta vez perguntei ao DeepSeek o que há para visitar por aqui, e ele sugeriu-me este parque. Fica a 3,3 km de distância.

Este é um jogo chamado jianzi, um jogo tradicional chinês em que os jogadores mantêm uma espécie de “peteca” no ar usando principalmente os pés (mas também joelhos, ombros ou cabeça). A peça parece uma peteca de badminton, mas é mais pesada e tradicionalmente feita com penas e uma base de borracha ou metal. O objetivo é simples: não deixar o jianzi cair ao chão.

Aparentemente são trajes de cosplay, talvez de personagens de videojogos.

São agora 18h31 e vou para o quinto e último destino de hoje: a famosa ponte Anshun, que se ilumina à noite. Fica a 1,1 km de distância.
Terei de esperar um pouco e aproveito para fazer uns telefonemas para Portugal.

Ponte Jiuyan.

Por cima da Ponte Jiuyan.

Ali em baixo fica Jiuyanqiao, uma das zonas mais conhecidas da vida noturna de Chengdu. E ao fundo está a ponte Anshun. Ambas as pontes irão iluminar-se à noite.

São 20h40 e regresso à residência. Linha 13 do metro, e depois linha 9.

Paguei 4,50 yuans pelo metro (0,54€) e a bicicleta não pago nada, porque tenho o passe semanal.

Ali à frente foi onde deixei os bolos para o cão. Fui agora espreitar – ainda ali estão. O cão não gosta de bolos, ou se calhar não os viu.

São 21h38 e entro no Tianyi NongYuan Art Expo Park, onde fica a residência. Foi um dia fabuloso.
Consultei o meu saldo de dados móveis no telemóvel e verifiquei que, dos 50 GB que comprei no aeroporto à chegada, ainda tenho 48,2 GB. Mas eu andei o dia todo com os dados ligados. É certo que desativei todas as atualizações, cópias de segurança e downloads automáticos no telemóvel. Estas três coisas são feitas apenas quando tenho WiFi, ou quando dou instruções diretas para serem feitas com os dados. Só estou a usar internet para o GPS, para consultar informação na IA, e para traduzir. O Google deixou de funcionar, e por conseguinte nem pesquisas na internet eu tenho feito; pergunto tudo à IA.


¹ Rui, X. (27 outubro 2011) “China Welfare Lottery’s annual sales top 100 bln”. Website inglês da China News Service (ECNS). Página consultada a 15 de junho de 2026.
https://www.ecns.cn/cns-wire/2011/10-27/3354.shtml

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