Dia 3 – Passeio matinal de bicicleta por Montenero Val Cocchiara & Pantano / tarde de pintura
Hoje é quarta-feira, 5 de novembro de 2025.
Despertar às 6h30.
Às 8h pego na bicicleta e vou dar um passeio de prospeção pela aldeia.


O rosmaninho que existe em frente às minhas janelas.




O que é isto, um cemitério? A visita começa já por aqui, então.


O pequeno Alfredo viveu 6 meses e 8 dias, no ano de 1943. A lápide diz em italiano “I genitori posero”, ou seja, “os pais mandaram colocar” (esta lápide).





Conforme descrevi noutras crónicas, é prioritária a visita aos cemitérios dos países por onde passo, bem como o conhecimento dos hábitos e rituais fúnebres das várias culturas. A forma como um país – uma determinada sociedade e cultura – encara a morte, e cumpre rituais fúnebres, varia sobremaneira de país para país, e eu tenho tido oportunidade de observar isso, pela Europa, América, Ásia, África, Austrália. Um cemitério em Timor-Leste, por exemplo, é ricamente colorido. As campas apresentam tons claros: azuis, verdes, amarelos. Nos verdejantes cemitérios em Viena de Áustria, as pessoas andam de bicicleta no seu interior, sentam-se e leem um livro, e aqui passeei de bicicleta entre os túmulos de Beethoven, Mozart e outros. Alguns cemitérios possuem vastas planícies de relvados. Outros, densa vegetação, que praticamente impede a passagem de quem os visita (e não é por abandono, é mesmo uma opção). Outros cemitérios ostentam orgulhosamente os seus túmulos para quem passa na estrada – é o caso da Hungria (ao longo de quilómetros, os túmulos saudavam-me, à minha passagem na bicicleta). Outros países – como é o caso de Portugal – por seu turno escondem-nos atrás de muros.
Toda a filosofia de vida de um povo manifesta-se na morte.
Deixo alguns links dos cemitérios de outros países, que mostrei nestas crónicas, ao longo dos anos. Eu diria que o mais bonito foi o da Gronelândia, coberto de neve. Os de Timor-Leste são os mais originais, de tão coloridos que são. Os da China têm paisagens grandiosas, porque os seus mortos querem ficar a ver bem longe.
Amazónia brasileira (link)
Arménia (link 1 & 2)
Áustria (link) – túmulos de Beethoven, Mozart e Schubert, entre outros
Bulgária (link)
China (link 1; 2; 3; 4; 5)
Dinamarca (link) – túmulos de Kierkegaard e de Hans Christian Andersen
EUA, Idaho (link)
Gronelândia (link)
Hungria (link 1 & 2)
Ilhas dos Açores, Portugal (link 1; 2; 3; 4)
Índia, cemitério hindi (link)
Índia, cemitério cristão (link)
São Tomé e Príncipe (link 1; 2; 3)
Timor-Leste (link 1; 2; 3; 4; 5)


São 9h04, o sol brilha há mais de duas horas, mas ainda está tudo coberto de geada.


Há muitas flores frescas porque há três dias atrás foi o Dia dos Mortos, e as pessoas vieram colocar flores nas campas.


Estas cruzes de madeira com um telhado em cima, não me recordo de as ter visto noutros cemitérios. Encontro um website chamado “Seiyaku”, ativo desde 2002, com artigos escritos por vários autores de diferentes países, que apresenta uma explicação pragmática: este “telhado” protege a cruz de madeira das intempéries (chuva, neve), ou seja, esta estrutura serve para preservar a cruz.¹
Outro website – “Gw2ru” – fala de tradições eslavas antigas: por exemplo, nas cruzes ortodoxas com telhado, chamadas “golubets”, essa cobertura simboliza a “casa” do falecido no outro mundo². Este website mostra uma pintura de Vasily Perov, um pintor do século XIX:




Latas. Aqui há a tradição de colocar latas junto às campas e aos túmulos. Nas fotos acima vêem-se latas com a representação do Papa Francisco, e aqui parece-me que três estão destapadas; uma tem uma vela dentro, com a imagem de um santo; e a da direita está tapada, com a imagem de outro santo.

Este túmulo é o mais representativo da arquitetura local – é uma casinha típica de Montenero Val Cocchiara. Se bem que do lado oposto do cemitério há outro semelhante (tem-se um vislumbre dele nas fotos acima).
Repare-se também, nas várias fotografias que aqui mostro, que todos os mausoléus têm a porta aberta. Eu não estou habituada a isto em Lisboa, por exemplo. Visito regularmente os principais cemitérios de Lisboa, faço visitas guiadas sob orientação de uma equipa de historiadores da Câmara Municipal de Lisboa – com temáticas diferentes para cada visita – e todos os mausoléus habitualmente estão fechados, apenas a família tem a chave. Aqui todos estão abertos e pude espreitar todos.



Monumento dedicado aos soldados naturais de Montenero Val Cocchiara que perderam a vida nas duas Guerras Mundiais: 1915-1918 e 1940-1945. Ambas as guerras começaram um ano antes, mas a Itália entrou um ano depois, e considera então estas datas, nestas placas.
No topo, a placa castanha indica “La guerra è una follia!” (significa “A guerra é uma loucura!”) – citando um discurso do Papa Francisco em 2014, quando visitou o Cemitério Militar de Redipuglia, no nordeste de Itália, zona onde houve fortes combates na Primeira Guerra Mundial. O Papa referia-se nesse discurso à insensatez de qualquer conflito armado.




O posto dos correios.


Eu estou com alguma dificuldade em manter o capacete direito, na cabeça. Não é meu – é da residência, e ainda não atinei com ele. E fazem-me falta uns óculos escuros. Eu não trouxe óculos escuros, de Lisboa. Nunca imaginei que iria apanhar tanto sol. Vim de botas e impermeável de plástico – calças e casaco – na bagagem. E também impermeáveis de latex para os sapatos. Tudo menos óculos de sol.

O senhor Edo Mannarelli viu-me a tirar aquela fotografia – uma selfie com a câmera fotográfica no chão – e veio meter-se comigo. Eu fui apanhada desprevenida, é o meu primeiro round por Montenero, ainda estou tímida, ainda não me meti com ninguém. Também não vi quase ninguém, a verdade seja dita. O Edo é a primeira oportunidade que tenho de falar com alguém aqui de Montenero, e nem sequer tirei uma fotografia consigo, que pena.

É um casal suíço que está a viajar durante um mês. Parei a bicicleta e cumprimentei-os.




A bateria da minha máquina fotográfica está a acabar-se e eu não consigo retirá-la da máquina, para trocar por outra – inchou. Pelos vistos atingiu o tempo limite, já teve muitos carregamentos. Quando chegar a casa, irei extraí-la com a ajuda de uma faca. Resultado, agora: já não consigo colocar a câmera no chão, no modo automático, para me fotografar junto à bicicleta; a bateria não tem carga suficiente para isso. Então ficou só a bicicleta na foto, pronto.


Mas como eu queria muito ficar com uma foto minha no Pantano (recordemos que a acentuação está no “tá” – Pantáno!), com a bicicleta, mandei parar um carro que vinha com dois homens, e pedi ao passageiro do lado do condutor, um rapaz novo, talvez com 20 e tal anos, para me tirar uma fotografia. Ambos consideraram este pedido insólito, naturalmente, e custaram a sair do carro, mas o rapaz mais novo lá acedeu e veio tirar-me esta foto. Tirou-me várias, foi simpático. O condutor ficou sentado ao volante. Vê-se a sombra e um bocadinho do carro, nesta foto. Com um cenário destes – em pleno Pantano della Zittola – acho que se justifica perfeitamente mandar parar um carro para tirar uma fotografia. Devia ter tirado uma a eles também. E pelo menos fiquei com o capacete direito, na cabeça.



São 12h50.
A bicicleta ficou apenas com um tracinho da bateria a menos, após estas horas de passeio.
Nesta refeição, foi tudo oferecido pela residência, exceto o iogurte, que comprei no supermercado em Castel di Sangro, e o ovo cozido, que trouxe de Lisboa – é o segundo e último, que supostamente era para comer durante a viagem. Trouxe-os com casca; só retiro a casca no momento em que vou comê-los. Comi os deliciosos tomates (que fui buscar à porta da Piera, bem como as ameixas – dulcíssimas) cortados ao meio, com sal. O presunto está sempre na mesa, mas ainda não lhe toquei. O pão também está em cima da mesa, mas é raríssimo eu comer pão, e vai endurecer sem eu o comer.
Tenho uma porção de comida ao dispor – fome não passarei, nestas terras do Molise. Também trouxe outras coisas de Lisboa: além dos cereais matinais, figos secos e nozes, bolachas com frutos vermelhos, um mix de avelãs, amêndoas, sementes de girassol, etc, duas maçãs, uma tablete de chocolate, flocos de aveia para desenrascar alguma refeição, e até uma lata de feijão com carne, em caso de SOS.
Há vários anos que eu deixei de jantar – eliminei essa refeição do mapa. E agora tenho um jantar de grupo todas as noites. Felizmente é cedo, às 19h30. E supostamente eu devia então cortar com o almoço, pelo que opto por algo leve. Não tenciono cozinhar nada enquanto aqui estiver. Em breve irei devolver as batatas, cebolas, cenouras e alhos à Piera, para não se estragarem.

A Karolina passou a manhã a pintar. Daqui a pouco ir-se-á embora, e ficarei eu sozinha no estúdio.






Pintei quase cinco horas, hoje, até às 18h30.
O sino toca várias vezes durante o dia, não consegui ainda perceber porquê. Tocou às 18h20, por exemplo. Aliás, são dois sinos. Tocam muitas vezes.
Hoje só vi o céu azul, o verde da vegetação, e um belo sol amarelo. Foi o que eu pintei – azul, verde, amarelo. O estúdio é aquecido, é importante dizer isto, e está na temperatura máxima: 30°C / 86°F. Mesmo com a janela aberta – porque estou a usar óleo com odor e a janela tem que estar aberta – o estúdio está quente. Acho que passaria aqui a noite toda a pintar os papéis e as telas de azul, verde e amarelo. O mais básico possível. Não me canso disto; o meu cérebro está programado para tal.
Mas é hora de ir jantar. É hora de ir conviver com todos – também é bom, também quero.












O Lalo oferece-nos alguns doces que trouxe de Istambul e também da sua terra – México.


Eis a Kina! A Kina é um urso polar disfarçado de cão – a fotografia não dá para ver, mas esta cadela é gigante e mete respeito. Depois descobrimos que é uma lamechas e só quer mimos de toda a gente. A Kina foi adotada, numa quinta, queriam cuidar dela, no entanto ela ia-se embora. É um animal livre. Agora anda aqui na aldeia, dorme na rua, e toda a gente lhe dá comida. Está à nossa porta à espera de qualquer coisinha.
A Kina é da raça Pastor Maremmano-Abruzzese, originária aqui de Itália, especialmente das regiões da Maremma e dos Abruzos. É um cão de guarda de rebanho.

A Kina descobriu os nossos ovos! Encheu-os de lambidelas, roubou um e comeu-o!!
¹ “Roofed Cross or Capped Cross” (s.d.). Seiyaku. Página consultada a 26 de novembro de 2025,
https://seiyaku.com/customs/crosses/roofed.html
² Sorokina, A. (2022, 15 dezembro), “Why did Russians mount crosses with ‘roofs’ on graves?”. Gateway to Russia. Página consultada a 26 de novembro de 2025,
https://www.gw2ru.com/history/3388-russian-crosses-with-roofs


