009 – Príncipe – Aulas de Capoeira & História e Evolução

Na marginal a caminho do local onde são dadas as aulas de capoeira. Este edifício é o hospital.

Enquanto os garotos se divertem nas aulas de capoeira, falemos da história da ilha do Príncipe.

A ilha do Príncipe foi descoberta pelo explorador português Pêro Escobar, em 1471. Embora não exista certeza absoluta sobre o ano da descoberta da ilha, 1471 é geralmente aceite pelos historiadores. Inicialmente, a ilha até então desabitada, foi batizada de Santo Antão ou Santo António de Abade,  por ter sido descoberta a 17 de Janeiro, dia deste santo católico.¹
Mais tarde a ilha foi denominada Príncipe, em homenagem ao príncipe D. Afonso (1475 -1491), único filho do rei João II (1481-1495), que tinha o direito aos impostos cobrados sobre o açúcar aqui produzido.²

A ilha de São Tomé já tinha sido descoberta 27 dias antes, a 21 de dezembro de 1470, pelo explorador português João de Santarém, no dia de São Tomé.

A colonização do Príncipe por colonos portugueses e escravos africanos começou em 1500, quando a ilha foi concedida ao donatário António Carneiro, cuja família a possuiu durante mais de 250 anos. Após o declínio da indústria açucareira no início do século XVII até meados do século XIX, a produção de alimentos para o abastecimento de navios e o comércio de escravos dominou a economia da ilha.
Em 1753, o Príncipe voltou à Coroa quando, devido à instabilidade política em São Tomé, a capital do arquipélago foi transferida para o seu principal assentamento – Santo António, que ao mesmo tempo recebeu direitos para tornar-se uma cidade. Apesar do seu novo estatuto, Santo António permaneceu sempre uma pequena cidade com infraestruturas pouco desenvolvidas. Durante os cem anos em que permaneceu como capital do arquipélago de São Tomé e Príncipe, nem sequer providenciou uma residência oficial para o governador, que, consequentemente, dependia de acomodações particulares¹.

Em 1771, o Príncipe possuía uma população de 5.850 habitantes: 111 brancos, 165 mulatos livres, 6 escravos mulatos, 900 negros livres e 4.668 escravos negros. A maioria dos brancos eram “brancos de fora”, residentes não-permanentes, principalmente funcionários públicos, militares e clérigos. Muitos membros do exército local e outros funcionários coloniais eram do Brasil.

A pequena elite rica da ilha era constituída predominantemente por brancos e alguns mulatos, cujos membros se envolviam frequentemente em conflitos entre si ou com o governador local. Naquela época, cinco colonos brancos possuíam mais de 200 escravos cada, três brancos e um mulato possuíam mais de 150 escravos, enquanto oito brancos e dois mulatos possuíam mais de 50 escravos. Esta estrutura socioeconómica assimétrica foi típica do Príncipe durante todo o período colonial. A abolição do comércio de escravos ao norte do equador, em 1815, e o retorno da capital a São Tomé, em 1852, contribuíram para o declínio económico e demográfico do Príncipe, embora o comércio ilegal de escravos tenha continuado por várias décadas, e o café e o cacau já tivessem sido introduzidos no arquipélago de São Tomé e Príncipe. Em 1855, o Príncipe ainda tinha 4.381 habitantes: 35 brancos, 165 mulatos, 1.720 negros livres e 2.461 escravos.¹

Em 1875, ano em que a escravatura foi oficialmente abolida no arquipélago de São Tomé e Príncipe, a população do Príncipe caiu para apenas 1.946 habitantes, dos quais 45 eram europeus, 1.521 eram nativos livres e 380 eram “homens libertos” (uma designação que a legislação colonial portuguesa deu aos escravos nos últimos anos antes da abolição completa da escravidão. Assim, na altura da abolição, todos os escravos no império colonial português eram classificados como “libertos”. Isso também significava que não eram livres ainda. De facto, foi apenas uma mudança de nome, não da condição).
Muitas propriedades foram abandonadas e a ilha ficou visivelmente empobrecida. No entanto, no último quartel do século XIX, incentivados pelas isenções fiscais, os investidores portugueses adquiriram um grande número de lotes abandonados, onde montaram roças para o cultivo de café e cacau. As maiores roças do Príncipe – Sundy, Porto Real e Infante D. Henrique – foram estabelecidas durante este período. No início do século XX, no total, cinquenta e duas roças de diferentes tamanhos empregavam entre trezentos e quinhentos trabalhadores contratados africanos (serviçais), que haviam substituído os escravos imediatamente após a abolição da escravatura. Em 1908, a população de Príncipe havia aumentado para 3.830, incluindo 3.330 serviçais, 150 brancos e 350 nativos.

Naquela época, o Príncipe foi severamente atingido por um surto de doença do sono (tripanossomíase), que provavelmente foi introduzida pelos serviçais angolanos em 1880. O número de mortos chegou a tais proporções que as autoridades consideraram abandonar a ilha. Durante o período de 1902 a 1913, a doença do sono matou um total de 2.525 indivíduos nesta pequena ilha. Inicialmente, as medidas ordenadas pelas autoridades locais para erradicar a mosca tsé-tsé, transmissora da doença, foram implementadas com relutância pelos proprietários das plantações, dado que estas medidas eram intensivas em mão-de-obra, e os proprietários argumentavam que precisavam de todos os serviçais disponíveis para trabalhar nas plantações. Somente em 1913 as medidas para erradicar a mosca tsé-tsé resultaram numa diminuição significativa da taxa de mortalidade, e no ano seguinte as moscas desapareceram completamente da ilha.

Após o desaparecimento da doença do sono, a população da ilha aumentou como resultado da introdução de novos serviçais e do crescimento natural dos ilhéus nativos. Em 1921, a população do Príncipe já alcançava os 7.000, dos quais 5.409 eram serviçais, o maior número de todos os tempos. A maioria dos trabalhadores contratados no século XX veio das ilhas de Cabo Verde, nesta altura atingidas pela seca.

Nas décadas seguintes, o número de serviçais diminuiu de cerca de 2.300 em 1934 para cerca de 900 em 1961, quando, devido ao declínio da produção de cacau, apenas cinco grandes plantações sobreviveram.

A população total do Príncipe com 4.332 habitantes em 1950 permaneceu estável até 1970, uma vez que a diminuição dos trabalhadores nas plantações foi compensada por um aumento natural da população local, que até aos dias atuais é predominantemente composta por ex-trabalhadores cabo-verdianos e seus descendentes.¹

Continuando a citar Gerhard Seibert na sua recensão do livro “Histórias da Ilha do Príncipe”, do historiador Augusto Nascimento:

O autor ressalta que, devido à falta de investimentos do governo, até à década de 1960 as infraestruturas do Príncipe permaneceram deficientes e os edifícios públicos eram mal mantidos. Uma das poucas melhorias foi o estabelecimento duma conexão de voo regular com São Tomé, em 1949. No entanto, até 1965, não havia uma única estrada asfaltada no Príncipe. Somente durante o reinado do governador Silva Sebastião (1963-72), quando a luta armada em Angola, Guiné Portuguesa e Moçambique já havia começado e Portugal começou a investir mais no desenvolvimento das suas colónias, o Príncipe começou a beneficiar de vários programas de obras públicas. Na segunda metade da década de 1960, três estradas asfaltadas, uma pista de aterragem asfaltada e uma nova escola primária foram construídas no Príncipe. Após a independência de São Tomé e Príncipe em 1975, no entanto, a ilha menor continuou a sentir as consequências adversas da sua dupla insularidade. Em dezembro de 1981, a falta de fornecimento de alimentos provocou uma revolta contra o governo em São Tomé, que foi acompanhada por slogans secessionistas. Em 1995, alguns anos após a transição democrática do país, o Príncipe tornou-se uma região autónoma. O primeiro governo regional da ilha foi eleito no mesmo ano.

O fracasso do governo central em realizar eleições locais nos anos seguintes causou outro protesto popular em junho de 2006 que forçou o governo regional do Príncipe a renunciar.¹

Atualmente o Príncipe tem 8.277 habitantes³, conforme referi na crónica 3, de acordo com os últimos dados disponíveis, de 2017, do Instituto Nacional de Estatística de São Tomé e Príncipe.

O Governo Regional do Príncipe é dirigido por José Cardoso Cassandra, pelo quarto mandato consecutivo, desde 2006. O presidente da região autónoma também é conhecido por Tozé Cassandra; é engenheiro mecânico pelo Instituto Superior Técnico de Havana, Cuba; e há a possibilidade de vir a concorrer nas próximas eleições para a presidência da República de São Tomé e Príncipe.

A Norá afinal não apareceu, se calhar não lhe apeteceu hoje ter aulas. Às 17h fui-me embora para o hotel, tomar um duche, lavar o cabelo depois do dia de praia. Fiz 17,4 km de bicicleta no total.

Às seis da tarde estava eu a tomar banho quando ouvi a Norá chamar-me lá fora, e mandou um “Call me”, um daqueles SMS automáticos para eu ligar-lhe de volta. Mas eu estava a tomar banho, e já não saí. Agora é mesmo para ir dormir, amanhã os planos são acordar às 4H30, tomar o pequeno-almoço, vestir-me e sair às 5H30. Vou dar início aos percursos de GPS pela ilha. Comi uma maçã e nozes ao deitar, e bye bye.


¹ Seibert, Gerhard (2013, Outubro). Recensão de Nascimento, Augusto, “Histórias da Ilha do Príncipe”. H-Luso-Africa, H-Net Reviews. Página consultada a 8 setembro 2019,
<https://networks.h-net.org/node/7926/reviews/8354/seibert-nascimento-hist%C3%B3rias-da-ilha-do-pr%C3%ADncipe>

² Seibert, Gerhard (2016) “Património Edificado de São Tomé e Príncipe. A Roça Sundy”. In: Amaral, José Lobo de (org.). China e Países Lusófonos – Património Construído. Coleção Novos Caminhos n.º 3, p. 406. Macau: Instituto Internacional de Macau (IIM), 2016. ISBN 978-99937-45-93-8.

³ “População Recenseada e Estimada no período 2013-2017”. São Tomé e Príncipe em Números 2017, p. 9. Instituto Nacional de Estatística – INE. Página consultada a 29 Agosto 2019,
<https://www.ine.st/index.php/publicacao/documentos/file/414-stpemnumeros-2017>