010 – Príncipe – Quarto Dia, a Caminho da Praia Sundy

Alvorada às 4H30. Não há luz, ilumino o quarto com os faróis da bicicleta. Mas há água, é bom, sempre consigo puxar o autoclismo, lavar-me, lavar a tigela dos cereais.

É inviável esperar pelo pequeno-almoço servido aqui na Residencial, tão tardio, às 8H30. Pelo que me desenrasco com o que trouxe de Lisboa: cereais com pacotes de leite com chocolate. Tenho de comprar leite. Tenho frigorífico no quarto. Se bem que não haja luz durante metade do dia, mas o leite há-de aguentar-se. Tenho que pedir ao gerente para me deixarem o pequeno-almoço no quarto. Eu comê-lo-ei no dia seguinte.

Amanhece. Espalho o repelente de insetos pelo corpo. Já estou a transpirar. Tenho ar condicionado, mas efetivamente nunca o ligo. E mesmo que quisesse ligar, não há luz.

Ainda não são 6 da manhã; o destino hoje é a Praia Sundy. Foi o que calhou. Acho curioso este nome e vou já investigar o que há lá. Antes de deitar-me tenho sempre duas tarefas: selecionar as fotos do dia (ou seja, apagar as que não interessam); e olhar para o mapa e escolher um destino. Não venho com nada planeado. Sundy – este nome é giro, bute lá ver. É literalmente assim. Não faço ideia onde irei amanhã, esta noite tenho que olhar para o mapa novamente e escolher outro destino. O objetivo destes onze dias no Príncipe são claros: conhecer tudo. Comecemos pelo Sundy, portanto.

Pelo sim pelo não, levo na mochila o biquíni e a bolsa impermeável para a máquina fotográfica, não vá eu querer mergulhar. O GPS diz-me que são 12 km, com uma elevação total de 220 metros. Aquele traço azul, em forma de montanha, na parte de baixo do telemóvel é o gráfico da altitude. Vê-se que tenho já uma grande subida, depois é ligeiramente a descer até à praia. Ao chegar à praia há uma descida acentuada. Mas o que não sofro para lá, sofrerei para cá, pois regressarei pelo mesmo caminho. Serão aproximadamente 24 km ao todo, portanto – ida e volta. Mas já sei que faço sempre mais porque dou sempre umas voltas extra. A ver vamos.

Esta é a subida do Gaspar, assim chamada porque vai dar a uma terra chamada Gaspar. A maior parte faço-a a pé, com a bicicleta pela mão. Vou encontrando algumas pessoas pelo caminho, a descerem em direção à cidade, e cumprimento todas. Bom dia! – digo eu a deitar os bofes pela boca.

Cá estou eu, vermelha que nem um tomate, mas vitoriosa! A primeira grande subida está feita, logo às seis da manhã para repimpar.

As pessoas esperam por um transporte para irem trabalhar. Não há autocarros na ilha do Príncipe, há carros particulares que prestam esse serviço.
Foi a senhora em pé que me tirou a foto.

Roça Gaspar? Vou bisbilhotar. Ignoro o GPS temporariamente e vou espreitar o que se passa para aqui.
Atrás levo apenas um cantil de água – é propositado para não ir muito carregada. Dois cantis de água hão-de chegar, ou então há-de haver algum local que venda água mineral!

As pessoas foram apanhadas de surpresa, com a minha chegada. São 6 e meia da manhã. Cumprimentámo-nos, trocámos meia dúzia de palavras. Deixaram-me à vontade para observar e fotografar. Um rapaz acordou agora e foi urinar atrás da casa. Rapidamente vou perceber que habitualmente não existem casas de banho nas habitações.

Existem muitas “roças” em São Tomé e Príncipe. São antigos edifícios do tempo do colonialismo português, grandes propriedades rurais onde se produziu cacau e café, nos finais do séc. XVIII e inícios do séc XX. Atualmente a maioria está em avançado estado de degradação, e alguns dos edifícios são habitados pela população.

Retomo o caminho em direção à Praia Sundy.