053 – 17º Dia, a Caminho de Micoló e Fernão Dias

4h30, pequeno-almoço.

Às 19h adormeci a tratar das fotos. A seguir fui picada no queixo. Entre a 1h30 e as 3h voltei a ser picada, não consegui dormir. Tive de pôr spray repelente de insetos no corpo e consegui depois adormecer, cheia de sono. Picou-me na perna dentro dos lençóis. Será uma melga ou uma pulga?

Há música em altos berros toda a noite, ao longe. Ninguém dorme onde existe aquela casa. Todos os sábados é isto, apercebo-me que não existem regras de som. Hoje é domingo.

Os meus anfitriões esqueceram-se de renovar o pão. Estas carcaças são de anteontem e estão duras. Enviei uma mensagem ao Célio a perguntar o que se passa. Será que é a Virgínia que tem de tratar do pequeno-almoço? Efetivamente a Virgínia foi dispensada durante uns dias, apercebo-me, pois sou a única hóspede do resort, e tenho uns horários estranhos… A louça suja acumula-se, o caixote do lixo não é esvaziado.

Ontem e hoje já pus protetor solar nos ombros. A seguir, o anti-mosquitos. Apesar de São Tomé ser uma ilha pequena, os climas são muito diferentes. No norte é quente e solarengo: ontem passei lá o dia, e hoje vou novamente para essa zona:

Hoje o meu destino é Micoló e a seguir Fernão Dias. O GPS manda-me novamente por caminhos de terra, seguindo por Madalena e Boa Entrada.
São 5h47 e o Célio Santiago acabou de chegar com pão fresco e imensas bananas. Paciência, já comi, fica para amanhã.
A música em altos berros acabou agora também. Agora é que o pessoal vai dormir. Ainda bem, terei uma manhã sossegada e silenciosa, na bicicleta, ao som dos pássaros!!

Tenho 3 km sempre a subir até ao cruzamento da Madalena. A partir daí será quase tudo a descer. Já conheço parte do caminho, começo a ter uma ideia. Curiosamente o Maps.me não mostra novamente o gráfico da altitude (na foto acima). Se calhar não tem informação sobre isso. Já ter uma mapa com trilhos na bicicleta, em São Tomé e Príncipe, é muito bom.

São 6h42, eu já conheço este caminho e acelero por aqui abaixo, neste próximos quilómetros. Na crónica 40 tirei uma foto nesta zona, com muitas pessoas. Agora não me detive, passei a toda a velocidade, a curtir estes caminhos já conhecidos. Também sabe bem de vez em quando. A certa altura o cantil de trás caiu, veio uma criança dar-mo. Eu travei com aparato, a derrapar, com terra e pedras por todo o lado, atirando o pneu de trás para o lado, como me diverte fazer. Agradeci à menina e desta vez guardei o cantil meio vazio na mochila, às costas, para poder continuar a acelerar.

Foi um rapaz que nos tirou esta foto, ficou meio desfocada, é pena, mas mesmo assim ficou gira e mantive-a. Estamos todos a rir porque eu perguntei às pessoas se iam ficar muito sérias na foto. Então todos nos rimos com essa ideia.
Creio que esta povoação se chama Alto Poto, mas não tenho a certeza.

Este é o Elias, tem 11 anos, e foi ele próprio que construiu este brinquedo, contou-me.

A chegar a Boa Entrada.

Hoje é domingo, as pessoas vão à missa às 7h30.

Um dos edifícios da Roça Boa Entrada, que já apareceu também na crónica 41.

Os dois rapazes na minha bicicleta chamaram-me, ia eu a passar ao longe. Quem me chama? Olhei na direção das vozes e vi-os. Desviei imediatamente caminho e fui ter com eles, a pedalar. Não precisam de chamar-me duas vezes.
Então eles queriam tirar uma foto comigo. Mas estão muito envergonhados, teve de ser o rapaz da tshirt vermelha a incentivá-los e virem ter comigo. Aqui tirei-lhes esta foto de teste, para programar os parâmetros da câmera, antes de passá-la ao rapaz da tshirt vermelha para que nos fotografasse aos três.

Eu fiquei a dizer ao fotógrafo, o rapaz da tshirt vermelha, que ele devia apontar a câmera mais para baixo, para apanhar-nos de corpo inteiro, porque me pareceu que ele estava a apanhar-nos apenas da cintura para cima.

Os dois rapazes à minha volta é que não os conseguimos fazer sorrir nem por nada. Recordo que ambos é que me chamaram, a pedir-me para tirar esta foto. Eu devia ter repetido a foto até conseguir fazê-los esboçar um sorriso. Até a menina ali ao lado, que pensava não estar a ser apanhada, se ria com estas andanças, quer na foto anterior, quer nesta.

Aqui é o Fradique, também conhecido como Fredy, disse-me. Quis igualmente uma foto. Eu estou sempre pronta para tirar fotos, nem é preciso pedir duas vezes. Ainda a frase vai a meio já eu estou a apontar a máquina. “Quero uma fot…” Clique! Já está. Com o seu sorriso de galã, já não foi preciso esforço nenhum para pô-lo a sorrir. O Fredy tem Facebook e eu dei-lhe o endereço do meu site, para ele ver depois esta foto. De vez em quando manda-me um olá através do Facebook. O Ismael da crónica 41, que me ofereceu um pedaço de jaca, é seu primo, vim a saber posteriormente, através duma mensagem que me enviou no Facebook.

Chegou a altura de ir novamente à casa de banho, e já sei de experiência – por já ter feito este caminho na crónica 41 – que não vou encontrar locais desertos em lado nenhum. Ainda vou parar outra vez à casa de banho da Residência do Wilson Pires. Pelo que desta vez fui mais despachada. Fui visitar a Erpe, aqui na Vila Amélia (esta casa em frente é a sua, já apareceu na crónica 41) e ela de momento não pode vir, está a tomar banho, informaram-me estas duas raparigas. Então se não se importam podem tomar conta da minha bicicleta, que eu vou ali esconder-me no mato para fazer xixi.
E aqui estão elas à espera.
Claro que ambas se riram com o insólito e inesperado episódio. Mas eu até me sinto mais segura tendo as duas raparigas de vigia, porque isto de meter-me no mato escondida pode não ser sempre boa onda.

Entretanto a Erpe despachou-se e apareceu. O filho Rafael está sentado na minha bicicleta.

A vibrante descida até à estrada principal. Esta foi a última foto que tirei até lá chegar, não vou parar mais.

Já na estrada principal, alcatroada.

O GPS manda-me sair novamente da estrada alcatroada e mete-me por aqui. Vou em direção a Micoló. São 8h e a temperatura aumenta bastante à medida em que me aproximo do norte. Eu venho do centro, de Belém, do fresco das terras altas. Estas terras mais baixas e quentes, do norte, agradam-me. Trato já de despir a camisola de manga comprida, e fico de manga à cava.

Neste caminho no meio do nada existe esta casa. Está do lado direito, não se vê na foto. É a única casa em todo este caminho, até chegar perto do mar. De início a mulher de cor de rosa não queria que eu tirasse fotos. Disse-me que eu tinha de pagar. Já não é a primeira vez que me dizem isto. Eu (parada e desmontada da bicicleta, já a falar com os garotos) respondi-lhe que corro o mundo o inteiro e fotografo as pessoas de todo o mundo, e que nunca me pedem dinheiro. “Mas aqui somos pobres!” – retorquiu-me ela. “Então pronto, não tiro fotos”, disse eu, guardando a máquina. Entretanto chegou o homem, que acho que é marido da mulher de tshirt preta, mas não tenho a certeza. Ora ele é muito mais descontraído, como dá para perceber pelas fotos. Conversámos todos um pouco, fizeram-me perguntas sobre a minha vida em Lisboa (“Onde está o marido?” – é a pergunta fatal) e agora é que vamos tirar fotos todos, comigo inclusive, a seu próprio pedido.

A fotógrafa pôs-nos todos a cair para o lado, mas não faz mal, mantive a foto.

Este caminho para Micoló foi um dos caminhos mais bonitos que fiz na bicicleta, nesta viagem. É um trecho pequeno. Desde a curva de Água Casada (ainda na estrada principal, de alcatrão) até ao mar são uns 4 km. Mas esta parte mais bonita tem uns 2 km. Faz um calor agradável. Está silêncio. Está-se bem. Toda a vegetação amarela, quente e seca, que me faça recordar o Alentejo, faz-me sentir particularmente bem. Já em Timor tive um momento assim, em Maliana.

A chegar à Praia Água Casada.

Muito lixo. O lixo é um problema. A água irá levar isto tudo. Os peixes, as baleias, irão ingerir isto.

Prossegue o caminho em direção a Micoló.

Primeiro destino cumprido! Micoló! São 8h52. Não registei os km, mas andará pelos 23 aproximadamente. Aqui é a praia, mais à frente será a povoação. Repare-se que o cartaz tem fotos das tartarugas existentes aqui em São Tomé, e a propósito de Micoló e tartarugas, leia-se esta notícia do jornal santomense Téla Nón:

Micoló trava ímpeto do Governo em degradar o Ambiente
O Ministro da Juventude e dos Desportos, Marcelino Sanches, que comandava uma fila de camiões que pretendiam extrair areia nas praias de Micoló, acabou por ficar retido na Vila. A população bloqueou os camiões e o ministro.

Desde finais da década de 90 que a população da vila de Micoló impede qualquer tentativa de extração de areia na região. Sejam os garimpeiros ilegais, sejam os garimpeiros mandatados pelo Governo. Mesmo que escoltados por forças policiais ou militares, a população de Micoló sempre saiu ao encontro dos mesmos, bloqueando a sua saída do local. Nunca permitiu que um grão de areia fosse retirado da sua praia.

A Pesca é a principal atividade da população local, que também está a dar passos no sentido da preservação de espécies em vias de extinção, sobretudo as tartarugas marinhas.

As praias da Vila de Micoló, mais concretamente as dunas de areia que o tempo ergueu como consequência da não extração de areia, constituem os principais ninhos para desova de tartarugas na região nordeste da ilha de São Tomé.

Pelo que o Téla Nón apurou, esta quarta-feira os camiões enviados pelo Governo deveriam extrair cerca de 120 m³ de areia das praias de Micoló. O Governo precisa de areia por causa dos jogos juvenis da CPLP. O Governo quer construir na capital São Tomé campos para albergar algumas modalidades dos jogos da CPLP, nomeadamente o voleibol. Com a maioria das praias do país transformadas em pedregulho por causa da longa extração anárquica de areia, as atenções estão agora viradas para as praias de Micoló, onde a população garantiu ao longo dos anos a sua preservação. «Não entendo porque não fazem os vários jogos em diferentes praias, em vez de extraírem areias de outras praias, que além de serem essenciais para as comunidades costeiras, também são praias de desova das tartarugas marinhas», desabafou para o Téla Nón uma das testemunhas do confronto desta quarta-feira entre a população de Micoló e os camiões do Governo.”¹
(Fim de citação).

Na notícia – link abaixo – pode ser visto um vídeo das escaramuças, filmado por um dos populares – um Micolense! (Será assim o gentílico?)


¹ “Micoló trava ímpeto do Governo em degradar o Ambiente” (2018, 7 Março). Téla Nón. Página consultada a 10 Novembro 2019,
<https://www.telanon.info/sociedade/2018/03/07/26560/micolo-trava-impeto-do-governo-em-degradar-o-ambiente/>