039 – Almoço & Visita à Cidade da Trindade

O terceiro gato que vejo no país! Vi dois principenses, e este é o primeiro santomense!

Cheguei ao restaurante às 13h15. Tenho 25 km na bicicleta.

Este restaurante existe há 4 anos.

Este é o quarto!!

A equipa da cozinha faz grande algazarra, e eu fui espreitá-los. Abri a porta e tirei-lhes esta foto rapidamente. Riram-se, surpreendidos com o flash.

O humor e a sátira de Almada Negreiros!
Fui lavar as mãos à casa de banho, e estes escritos estão por todo o lado.
A ver se consigo encontrar uma tradução para os leitores estrangeiros:

“You who discovered the Cape of Good Hope; and the Maritime Way of India; and the two Great Americas, and you who took annoyance to these lands and brought more annoyance from there and furthermore sang these feats…”

Entrada: um peixe chamado maxipombo – parecido com sardinha, disse-me o Emanuel, o empregado que fotografei na crónica 37.
O nome científico deste peixe é Hemiramphus balao, virei a descobrir mais tarde.
Mais:
Omelete local; fruta-pão frita; xuxu com coentros selvagens.
Tudo delicioso, desapareceu num instante. Venha o seguinte!

Este anda a sondar-me. É o quinto gato santomense que vejo!! E aquele pano deve ficar num estado excelente, com ele a fazer as unhas ali.

Segunda entrada: um peixe espadarte frito chamado peixe andala, explicou-me o Emanuel. (Cujo nome científico é Istiophorus albicans, como também virei a descobrir mais tarde). Por cima, molho com beringela, quiabo, pimento e cebola. Matabala frita (um tubérculo parecido com batata) e azeitonas casadas com baunilha. (Sim, “casadas com baunilha”, foi o que o Emanuel disse).
Tudo delicioso, desapareceu num instante. Venha o seguinte!

Prato principal: moqueca de atum, com leite de coco e óleo de palma. Arroz de mosquito (que é uma erva aromática, explicou-me o Emanuel, para tranquilizar-me). Lussua, parecido com espinafres. Legumes salteados, tais como xuxu, abóbora, feijão verde. E banana-pão frita.
Estou deliciada.

Alguém aqui quer um bocadinho de peixe, está visto.

Ah pois é. Eu venho da Twilight Zone, lá de cima do Jardim Botânico, 1.125 metros de altitude, com um nevoeiro cerrado e frio que gela até aos ossos. A descer arrefeci bastante, pois já não vim a pedalar. E aqui no restaurante já estão preparados para os clientes friorentos, ofereceram-me logo uma mantinha, que eu aceitei de bom grado. Aproveitei também para carregar o telemóvel com o power bank, enquanto almoço. É que a seguir ainda quero ir à farmácia, tenho de encontrar uma farmácia, pois preciso de adesivo para fazer os pensos de combate dos pés. O adesivo que comprei no Príncipe já se acabou.
Quem me tirou esta foto foi o Emanuel, que é fotógrafo! Tem uma página no Facebook: “Silva Photography”.

Pronto, já comeu uns bocadinhos de atum. Aquela baba no chão são os vestígios. É babão, este gato, portanto. (Ou gata, uma pessoa nunca percebe estas coisas de gatos).
E está à espera de mais. Agora come-me o atum todo.

Sobremesa: bolo preparado com pó de cacau e cajamanga. (Não é cajá-manga, apesar de provavelmente ser a mesma coisa. Em São Tomé e Príncipe diz-se “cajamanga”. Deixo também um vídeo no You Tube sobre a cajamanga anã).
Em cima, doce de maracujá gigante (ver crónica 35 sobre o maracujá gigante). Creme preparado com cacau e mel, e carambola com framboesa.

Desapareceu tudo e efetivamente estou satisfeita. Ainda bem que vou descer, na bicicleta, porque pedalar agora a subir seria muito complicado. Depois de almoço nunca gosto de pedalar, já sei de experiência de viagens anteriores.

No restaurante há outra mesa com 4 turistas e mais o guia, ou motorista, santomense. Chegaram ao mesmo tempo que eu e fomos sendo servidos ao mesmo tempo. Falam francês, mas uma das pessoas (será a guia?) fala português.
Eu acabei de almoçar às 14h30. O Emanuel oferece esta flor a todas as visitantes femininas – a mim e às outras duas senhoras do outro grupo. A flor chama-se “shampoo ginger”, diz-me. Encontro isto na Wikipedia:
“Zingiber zerumbet é uma espécie de planta da família do gengibre com caules frondosos que crescem até cerca de 1,2 m de altura. É originário da Ásia, mas pode ser encontrado em muitos países tropicais. Os nomes comuns incluem: awapuhi, gengibre amargo, shampoo gengibre e pinha”.¹
Como eu ando de bicicleta, nunca aceito estas ofertas, não me dá jeito andar carregada. Além do  mais fico sempre com pena de ver as flores a morrerem.

Cá está a minha garrafa de água de 1,5L que escondi na entrada do Monte Café, esta manhã, na crónica 37! Já ninguém se lembrava disto, aposto 🙂 Mas eu não me esqueci! Esta aguinha agora dá-me jeito, depois de almoço! Posso reabastecer os meus cantis!

Vou em busca duma farmácia. Disseram-me que há uma em Trindade. A vila fica perto do meu hotel, em Belém, e preciso mesmo do adesivo. Apesar de cansada, vou.

Cheguei a Trindade. Recordo o que escrevi na crónica 5: devido à inflação, em 2018 a dobra foi redenominada a uma taxa de 1000 para 1, pelo que atualmente diz-se: gasóleo 21 dobras (0,84€), e gasolina 25 dobras (1€).
No Príncipe o gasóleo era 21,750 dobras (0,87€) e a gasolina 26,35 dobras (1,05€).

Depois desta caminhada toda, a farmácia não vende adesivos. No Príncipe, uma ilha minúscula no meio do Atlântico, a farmácia tinha adesivos de vários tamanhos e feitios, aqui não há nenhum. Mau.
Resultado: hoje irei tomar banho sem tirar os pensos dos pés, pois preciso deles para amanhã! Vão ficar molhados, e vão secar, que remédio. Agora só há farmácias na cidade de São Tomé. Mas garantidamente não vou agora à cidade de São Tomé, estou estafada. São três e meia da tarde, eu acordei às 4 da manhã, daqui a pouco já é hora de ir dormir novamente.

No mercado de Trindade.

Para cá foi tudo a descer. Agora não me apetece subir sei lá quantos quilómetros até chegar a Belém. Telefonei ao taxista Fingui, um contacto que o Célio Santiago me deu, para alguma urgência. E o Fingui veio. O que eu não sabia (ainda não sabia) é que há uma estrada a corta-mato para Belém, e pouco a subir. Ora não faz sentido nenhum eu ir de táxi. Pedi para sair, ao fim de 1 km, portanto. Esta foi boa. Ainda paguei 50 dobras, se bem me recordo.

O taxista Fingui deixou-me aqui, para eu continuar o meu caminho de bicicleta, e eis que pára esta moto4 à minha frente. Eu creio que reconheço o condutor: é um guia com quem eu troquei algumas mensagens, ainda em Portugal, planeando a minha viagem aqui a São Tomé e Príncipe! Chama-se Mayke Jackson. Só pode ser ele. E perguntei-lhe se não me reconhece.

O Mayke já não se lembrava – afinal de contas só trocámos umas mensagens via Messenger, há uns meses atrás. É guia turístico, pelo que trata com uma série de turistas. Mas eu reapresentei-me, e o Mayke reconheceu-me finalmente. Por enquanto eu ando sozinha na bicicleta, mas mais tarde ou mais cedo poderei precisar dum guia para mostrar-me algumas partes da ilha, pelo que fiquei com o seu contacto, e dei-lhe o meu número santomense também. Aliás, uma das hipóteses que o Mayke me falou, há meses atrás, via internet, foi precisamente de passeios em moto4.

Cheguei às 16h ao resort, tenho 37 km na bicicleta. O Célio Santiago está ao computador, a trabalhar, e tem uma visita, todo janota, que não sei quem é. Ficou na foto também, que é para aprender.

O Célio tem dois filhos a estudar em Portugal: um rapaz no 3º ano de Enfermagem, que quer tirar a especialidade de Medicina Forense (ainda não existem estes especialistas em São Tomé, disse-me); e uma rapariga em Farmácia, no norte de Portugal, na Guarda (ou se calhar é mais correto dizer “na região estatística do Centro”). Dividem os livros sempre que podem, contou-me. Quando as disciplinas coincidem. A mulher está atualmente em Londres.
O Célio foi economista no banco central de São Tomé e Príncipe. Formou-se no Porto, em Portugal. Abriu este resort ecológico em 2002, quando terminou o curso. Foi camionista enquanto estudava; não tinha vícios, reuniu dinheiro, montou este negócio. Não é dado a grandes despesas e ostentações, contou-me. O seu jipe, por exemplo, é de 1998, não o substitui, todos o conhecem.
Escreve livros de economia e gestão para editoras e vende-os. Mostrou-me um documento Word que estava a escrever, enquanto falávamos. Ganha 6€ por cada livro vendido. E como não gosta de ouvir carros a passar, o barulho incomoda-o (olha, olha, já somos dois!), deixa a sua casa e vem para aqui escrever em silêncio.

Eu entretanto fui despachar-me e tomar banho, e quando terminei tinha eu uma visita: o Arcelino, o guia, que encontrei no Bom Sucesso, a caminho do Jardim Botânico (na crónica 38). É bom ter estes contactos, de confiança, conhecidos do Célio também. Já tínhamos trocado de números de telefone, no Bom Sucesso. O Arcelino levar-me-á à Lagoa Amélia, se eu decidir ir. Eu acho que não irei, porque descobri que não é lagoa nenhuma, é campo e floresta. Efetivamente não sou muito sensível a plantas e flora, que é o ponto de atração turística principal, na Lagoa. Subir aquilo tudo outra vez… não estou muito inclinada. O Arcelino também poderá transportar-me de carro até Porto Alegre, no extremo sul da ilha. Eu ainda ando a ver como farei a coisa. De bicicleta é muito longe, e tem muitas subidas e descidas, eu só iria chegar à noite. Provavelmente terei de ir de carro. Porque depois ainda tenho o regresso, que são duas ou três horas de viagem – de carro.

Fiz 37 km de bicicleta, hoje. O GPS diz 38, mas eu estou a descontar o quilómetro que fiz de táxi.
Comi 4 bananas-maçã, três bolachas e leite.  Às 19h15 fui-me deitar. Cabeceei novamente enquanto tratava das fotos e fazia o backup. Quase adormeci a meio.
Está tudo a carregar – GPS, máquina fotográfica, telemóvel, power bank. A luz portátil da máquina fotográfica não foi usada ainda, está carregada.


¹ “Zingiber zerumbet” (s.d.) Wikipedia. Página consultada a 20 Outubro 2019,
<https://en.wikipedia.org/wiki/Zingiber_zerumbet>