São Tomé e Príncipe: 550 km de bicicleta, sozinha, 29 dias

031 - Príncipe - Décimo Dia, Subida do Pico do Príncipe

Hoje é domingo e vou subir o maior pico do Príncipe, com 947 metros de altitude, o qual se chama precisamente “Pico do Príncipe”.

Despertador às 4h. A eletricidade é desligada agora. Acendo a luz portátil da minha máquina fotográfica, como é hábito. Todos os dias lhe carrego a bateria, claro.

O Wilton vem buscar-me na mota às 5h30. Eu estou despachada às 5h15, pelo que me sento no degrau de entrada do hotel, na rua, à espera.
Aquele pico atrás da igreja é o Pico Papagaio, com 680 metros de altitude. É lá que as excursões se fazem habitualmente. Acima dos 500 metros existem outros três picos no Príncipe: Mesa (537 m), Pico Mencorne (921 m) e o Pico do Príncipe (947 m).

Nisto aparece o atleta que eu já tinha fotografado no sexto dia, na crónica 18. São 5 e meia da manhã. Mas desta vez conseguimos falar um pouco, e eis que descubro que é uma personagem ilustre aqui do Príncipe: chama-se Ilídio Vaz e é atleta profissional com participação em competições internacionais. Eu quis logo tirar-lhe uma foto de recordação, claro. Às 5 e meia da manhã o flash ilumina tudo. E a nossa conversa na rua deve ter acordado os restantes hóspedes do hotel, aposto. Contou-me que já esteve em Macau, Congo Brazzaville, Portugal, Gabão, Etiópia e África do Sul.
Entretanto, posteriormente, fui investigar na internet e descobri que é um atleta fundista – ou seja, especialista em distâncias acima de 5.000 metros, e que em Macau ganhou a medalha de ouro na meia-maratona, em 2010. Vejo também esta notícia de 2014: “O fundista internacional da Ilha do Príncipe, Ilídio Vaz, e a meia-fundista, Dulce Conceição, de São Tomé, venceram a segunda corrida pedestre do Banco Internacional de São Tomé e Príncipe (BISTP). Cada um dos atletas levou para casa mil dólares como prémio por ter cortado a meta num percurso de 10 quilómetros.”¹

O atleta Ilídio Vaz contou-me que agora já não participa em competições internacionais. Creio que agora é treinador, se bem me recordo da nossa conversa. Neste momento está a aguardar por dois colegas para irem correr. Mas nem os seus dois colegas aparecem, nem o meu motoqueiro aparece também. Isto de acordar cedo a um domingo nem sempre é fácil.

O Wilton chegou às 5h38, já eu estava preocupada a telefonar-lhe. “Já estou a caminho” – tranquilizou-me ele. Foi o Ilídio Vaz quem nos tirou esta foto. Depois de carregarmos água, mochila, e frango com arroz dentro dum recipiente de plástico, atado num saco plástico no guiador, partimos às 5h45 em direção a São Joaquim, terra que eu ainda não conheço.

O caminho de carro ou de bicicleta é o mesmo. São 8,7 km. O guia Monuna do Parque Natural está à minha espera lá em São Joaquim, pois vive ali. A partir daí irei a pé consigo até ao Pico do Príncipe, que se vê neste mapa abaixo. Ainda temos um grande esticão a pé pelo meio da floresta.

Chegámos a São Joaquim às 6h20. Levámos 35 minutos. O Wilton é muito cuidadoso a conduzir. Passámos por buracos, poças de água e subidas íngremes cheias de lama e rochas que me causaram apreensão e receio, mas este bem cheiroso e perfumado motoqueiro deixou-me no meu destino em segurança. Logo à tarde virá buscar-me cerca das 17h, hora indicada pelo guia Monuna.

Partimos às 6h25.
Do lado direito está o guia Monuna – cujo verdadeiro nome é Manuel Sebastião, e do lado esquerdo está o seu filho Deolindo, de 21 anos. O pai decidiu trazê-lo para ele aprender o caminho. “Um dia não estarei cá” – disse o Monuna – “É preciso ensinar as novas gerações”. Eu já conhecia o Monuna dos escritórios do Parque Natural, e também tínhamos falado ao telefone para combinar os últimos detalhes antes da partida.

Como eu ainda estou tão contente nesta foto e com um ar tão vivaço (apesar de ensonado). Não faço a mínima ideia do que me espera. Só sei que vai ser duro. A minha grande preocupação neste momento são as esfoladelas em ambos os pés. Preparei uns pensos de combate hoje de manhã, e trago o adesivo e as compressas comigo, bem como a tesoura, para preparar novos pensos se for necessário. O que a brincadeira na praia do Bom Bom deu.

Meia hora depois do início da caminhada temos já este riacho. Ou rio, nem sei. Vou já ficar com os pensos nos pés todos molhados, começamos bem.

Mas o guia Monuna sugeriu passar este pedaço comigo à cavalitas. Foi lindo de se ver e infelizmente, no meio da azáfama, não fiquei com nenhuma fotografia. Teria de ser o Deolindo a fotografar, e eu teria de passar-lhe a máquina e explicar como funciona. Ora ninguém esteve para isso. Temos é que despachar-nos, pois espera-nos uma longa jornada.

O Monuna indica que em tempos havia uma estrada aqui. Agora com a proteção da biosfera deixaram tudo para a floresta crescer livremente. Indica que daqui a dois anos vai ser difícil reconhecer o caminho.

Uma cobra! Agora é que temos de parar mesmo. Tenham lá paciência, eu tenho de ver bem o bicho e fotografá-lo.

Perguntei ao Monuna se pode apanhar a cobra e passar-ma. O Monuna acedeu.

Não fizemos mal nenhum à cobra, isto que fique bem claro. Eu sinto-lhe a força, o Monuna deu-me instruções sobre como agarrá-la bem. A passagem das suas mãos para as minhas foi uma operação delicada. Eu tinha de agarrar exatamente onde ele estava a agarrar, na cabeça e na cauda. Quem tirou esta foto foi o Deolindo.
Depois tive que soltar a cobra. Como é que a solto?, perguntei ao Monuna. (Eu com uma cobra nas mãos sem saber como me livrar dela…) É atirar para longe, respondeu-me. E eu atirei-a, com as duas mãos ao mesmo tempo, para o meio dos arbustos. É preciso ter cuidado para ela não ficar agarrada a nenhuma mão. Morder-me-ia apenas com o medo, para defender-se. Mas correu bem, ela fugiu e escondeu-se.
Já tive várias vezes cobras vivas na mão, e à volta do pescoço – e muito maiores do que esta, tão pequenita. Nomeadamente na Austrália.
Questionei o herpetólogo Peter Uetz, da Reptile Database, sobre esta cobra – perguntei-lhe qual é a espécie, mas ainda não recebi resposta. Procurei todas as espécies em São Tomé e Príncipe, vi as fotos uma por uma, mas não encontrei nenhuma igual a esta. Não sei que bicharoco é este.

Eu toda contente pensando que ia agarrar noutra cobra, mas esta é pura ilusão!!

O Monuna dá instruções ao filho para passar à frente. Doravante será o Deolindo a guiar-nos. Eu vou ao meio, o Monuna vai atrás. É uma maneira do Monuna ensinar o filho a identificar o caminho. E o Deolindo vai de chinelos de enfiar no dedo, é espantoso. Leva na mão um saco preto com comida para si e para o pai. O Monuna faz o favor de levar-me o meu saco preto com o meu frango e arroz, preparado pela Kita.

O Deolindo e eu já estamos em cima, o Monuna vem aí atrás. Já estamos a trepar muito, mas estamos longe do Pico do Príncipe, diz-me o Monuna.

São 8h10, caminhamos há quase duas horas – ainda nem sequer chegámos ao Pico, quanto mais começar a subi-lo – e o Monuna dá instruções para pararmos e tomarmos o pequeno-almoço. Temos rede de telemóvel. Eu por esta altura lembrei-me de passar-lhes o meu seguro de viagem. Afinal de contas se tropeçar e cair tenho um seguro que me paga as despesas todas, mas é preciso que o seguro seja avisado imediatamente, na altura em que me levam para o hospital. Eu pago a chamada, disse-lhes, e passei o número de telefone e o número da apólice, por sms, ao Monuna. É nestas ocasiões que os seguros têm utilidade, é bom que sejam usados. (Ou não, esperemos que não…).

O Monuna tem 56 anos e há 23 que faz este caminho. Normalmente uma vez por ano, indica-me. Já esteve 8 anos sem vir, porém. “Força e coragem é o que é preciso”, diz. “Ir ao Pico do Príncipe não é para quem quer, é para quem pode”, acrescenta. Eu não disse nada, fiz silêncio, mas pensei: Bom, vamos ver se eu posso. Eu estou determinada, pelo menos. Hei-de ter força e coragem!

Questionei o Monuna sobre a existência de vacas. Hoje é o décimo dia em que estou aqui no Príncipe, e ainda não vi nenhuma. Respondeu-me que há vacas na zona da Maria Correia. Contou-me que um dia foram andando até São Joaquim e que o dono teve de pagar uma multa pelos estragos, pois comeram as plantas. Agora tem uma pessoa para cuidar delas e é ele que terá de pagar se deixá-las fugir. Indicou-me que um bezerro de 6 meses custa 15 a 20 milhões de dobras. E que antes, nas roças, no tempo do colonialismo, haviam umas 500 vacas.

O pequeno-almoço do Monuna e do filho é peixe frito com pão. Bem nutritivo, fazem-me concorrência. Eu já comi uma das minhas duas sandes pelo caminho, em andamento, e agora vou comer a segunda. Ambas de fiambre, ovo cozido e uma dose generosa de açúcar. Era o açúcar que havia na chávena que me deixaram no hotel, para o pequeno-almoço. Aqui não o poupei.
Fizemos uma pausa de 20 minutos, sentados junto à cascata.


¹ Mamata, Inter (2014, 9 Junho) “Ilídio Vaz e Dulce Conceição ganharam a II corrida pedestre do BISTP”. Téla Nón. Página online consultada a 8 Outubro de 2019,
https://www.telanon.info/desporto/2014/06/09/16670/ilidio-vaz-e-dulce-conceicao-ganharam-a-ii-corrida-pedestre-do-bistp/

032 - Príncipe - Chegada ao Topo do Pico & Descida

Tenho a camisa toda molhada do suor, menos no soutien, está visto!!! Existe a Miss Tshirt Molhada, e agora existe a Miss Tshirt Seca!!! 🙂

E deixo a nota de que esta camisola é científica. Inventam tudo. Isto tem um tecido qualquer científico, não é uma fibra normal. Custou os olhos da cara, mas é uma coisa excecional. Faça frio ou calor, mantém a temperatura corporal, e seca rapidamente. Deixa transpirar livremente e seca rapidamente. Claro que aqui no meio das floresta húmida não tem como secar, mas pelo menos mantém a temperatura corporal e é extremamente confortável.
Atrás de mim está um dos picos do Príncipe, mas ainda não é o nosso. Na foto de baixo vê-se melhor:

Este ainda não o Pico do Príncipe. Este pico deve ser um primo afastado. E do lado esquerdo está um vizinho anão. O Pico do Príncipe nem sequer consegui ainda vê-lo.

Veja-se esta descrição da Agência Nacional de Informação Geoespacial dos EUA:
O Príncipe tem uma aparência extremamente pitoresca, formada por picos em forma de agulha e massas de montanhas inclinadas que se erguem abruptamente das terras altas do interior. As fortes chuvas e a grande fertilidade do solo levaram a um crescimento de vegetação tão alto que tornou a ilha insalubre. Existem vestígios de vulcões extintos em muitas partes da ilha e grandes áreas são cobertas com pedras vulcânicas. A parte norte da ilha, embora alta, não tem uma aparência tão grandiosa quanto a parte sul, que consiste numa série de montanhas íngremes e acidentadas, cercadas por vários obeliscos naturais gigantescos e com formas fantásticas. Toda esta última massa culmina no Pico do Príncipe. Um pico proeminente que se eleva a 947 metros de altura.¹

Picos do Príncipe. O mais alto, com 947 metros, é o Pico do Príncipe.
Imagem retirada de “Maritime Safety Information”¹

O Pico do Príncipe é o que resta dum vulcão que está inativo há 15,7 milhões de anos. Os vulcões desta ilha eram inicialmente de basalto, mas depois o fonólito começou a intrometer-se nos seus núcleos. O basalto foi profundamente erodido ao longo do tempo, deixando torres espetaculares do fonólito mais duro subindo quase verticalmente da floresta tropical.²
Quer o basalto, quer o fonólito são rochas formadas a partir do magma, ou seja, a massa de rocha em fusão existente debaixo da superfície da Terra.

A ilha do Príncipe – bem como a ilha de São Tomé – faz parte da linha vulcânica dos Camarões, uma falha geológica ou rifte caracterizada por um conjunto de cadeias montanhosas e vulcões. A linha teve a sua origem há cerca de 80 milhões de anos quando a placa africana efetuou uma rotação no sentido contrário aos ponteiros do relógio. O rifte resultante abriu condutas magmáticas que permitiram a formação duma fileira de vulcões. Nove destes são ainda considerados ativos, tendo a última erupção ocorrido em 2000 no Monte Camarões. A porção do rifte que se estende pelo Atlântico adentro, foi responsável pela formação de uma fiada de ilhas que incluem Ano-Bom, Bioko e São Tomé e Príncipe.³
Imagem retirada da Wikipedia.

Tudo está molhado da humidade na floresta. Ainda não choveu desde que começámos a caminhada. E sim, isto é um caminho. Não há caminho em lado nenhum, mas o Deolindo vai orientado.

Os caminhos começam a cerrar-se cada vez mais. Só à catanada. Sim, nós vamos passar por ali.

Os olhos têm que ir bem concentrados no chão. Estas raízes são autênticas rasteiras.

Este tronco tem um “M” marcado. Foi o Monuna – cujo verdadeiro nome é Manuel Sebastião – quem o gravou, da primeira vez que fez este caminho, há 23 anos atrás. Perguntei-lhe o significado de “Monuna” – porquê Monuna? – mas não sabe. Curioso. O Monuna tem uma alcunha e não sabe porquê. Na internet não encontro nada sobre este nome.
O Monuna fez este caminho pela primeira vez há 23 anos atrás para acompanhar quatro pessoas da área da administração, contou-me. (Eu não disse nada, mas pensei: quatro administrativos no meio desta selva deve ter sido lindo. Mas talvez os administrativos tenham nascido aqui e estivessem habituados a estas andanças, de pequenos). E nessa altura o Monuna não conhecia o caminho, foi indo de acordo com o seu instinto e conhecimento da floresta.
O Monuna também me contou que um casal de portugueses esteve aqui em junho deste ano, 2019. Ele com 65 anos, ela com 57. Chegaram ao Pico. Se esta gente toda chega, eu também hei-de chegar!

E pouco depois de ter tirado esta foto não consegui tirar mais nenhuma porque começou a chover torrencialmente. Pronto, acabou-se a festa. Pelo menos a festa das fotografias. São agora 10h05.

No topo do Pico do Príncipe! Cheguei!!!! Vitória!!! Estou a 947 metros de altitude! O ponto mais alto da ilha do Príncipe!!
E são 11h! Levámos 4h40 desde que saímos de São Joaquim, já com os 20 minutos de pausa para o pequeno-almoço incluídos.

Chove copiosamente desde as 10h e pouco. Torrencialmente. Um dilúvio imparável. Inesgotável. Eu nunca tinha apanhado um dilúvio destes tão demorado e tão cerrado. Parece que estou debaixo dum chuveiro, na casa de banho. E dos mais pujantes.
Subimos em silêncio durante uma hora até chegarmos aqui. Subidas extremamente íngremes e escorregadias. Por vezes apoiei-me em troncos relativamente largos, de uns 30 centímetros de diâmetro, espetados no chão, partidos, mas que se desfaziam completamente ao meu toque, pelo que eu caía. É uma sensação terrível uma pessoa apoiar-se em algo grande, precisar do impulso para subir, debaixo de chuva torrencial, e isso desfazer-se completamente nas mãos. Ficava como que em pedaços de terra. Esta humidade desfaz tudo o que morre. É como olhar para um tronco de árvore e passar o punho no meio. Não há resistência, fica um buraco, é mole. Pelo que aprendi a verificar previamente se os troncos tinham resistência para eu apoiar-me neles. E fui-me agarrando a tudo o que podia, por vezes sob instruções do Monuna.

Fui apanhada desprevenida com este papel, bem protegido de plástico, a indicar a direção e a distância de Bruxelas. Bruxelas?!… Se algum português estiver a ver isto, e se for subir o Pico do Príncipe, que leve um papel plastificado a dizer Lisboa!!! Ou Portugal, ou seja lá que cidade for! Então? Isto é uma questão de orgulho!! Bruxelas?!… Onde é que andam os portugueses?!…

E a minha bolsa à cintura, sem estar protegida com um saco plástico. Não me apeteceu. Desinteressei-me. Achei que não era preciso, que bastava ir debaixo do impermeável – onde nem se aguentava muito tempo, como dá para perceber na foto. Ora aqui dentro está o meu telemóvel. Eu nem me dignei a pôr o telemóvel dentro dum saco plástico. E portanto está encharcado. Mas a bolsa da máquina fotográfica veio sempre protegida com um saco plástico. (Dei conta das minhas prioridades, portanto. Foi interessante constatar isto).

Só tirar esta foto já foi um sarilho. Exigiu um esforço conjunto do Monuna e do Deolindo. O Monuna agarrou num saco plástico e protegeu a câmera, como um chapéu de chuva, enquanto o Deolindo olhava pela objetiva. Ele disparou duas fotos e eu guardei-a rapidamente, com o Monuna a tentar protegê-la durante estas movimentações, com o saco plástico. Ainda fico sem telemóvel e sem câmera fotográfica, com este dilúvio.
E não vimos paisagem nenhuma, claro. Não dá para ver nada.

Estivemos aqui em cima 25 minutos, enquanto o Monuna e o Deolindo comiam novamente. Eu não me apeteceu comer o meu frango ainda. Iremos partir às 11h25. O penso de combate do pé esquerdo já saiu do sítio, ficou uma tira de adesivo enrolada debaixo do pé. Até magoa ligeiramente, quando pouso o pé no chão. Vou ter que tirá-la. O penso do pé direito vai sair agora durante a descida. E consigo lá colocar pensos novos, com esta chuvada, tudo molhado, os pés cheios de lama. Há adesivo que cole a isto? Prepara-te, Rute. Tens algumas horas de caminhada muito dura, muito íngreme e muito molhada, sem pensos a tapar as esfoladelas que ardem que se fartam.

São 12h20 e como agora um pouco do meu arroz com frango. Comi as duas pernas de frango e umas garfadas de arroz. Perguntei ao Monuna e ao Deolindo se queriam arroz, não quiseram.

Estamos completamente encharcados. A roupa está colada ao corpo. O nível de humidade continua altíssimo, claro. Felizmente parou de chover – afastámo-nos do Pico e a chuva parou. Deve chover sobretudo naquela zona. Estamos quentes da caminhada, e as esfoladelas nos pés por enquanto aguentam-se, com tudo molhado e o corpo quente a caminhar.

Não fico com vontade nenhuma de cá voltar, disse o Deolindo. Eu soltei uma gargalhada e o seu pai riu-se também. Na parte pior da descida, o Deolindo tirou os chinelos e foi descalço.

Sim, isto é para descer. Eu e o Deolindo já descemos, e atrás de mim vem o Monuna. Recordo a imagem acima, dos Picos, tirada do “Maritime Safety Information” – a última parte do Pico do Príncipe é perfeitamente escarpada. Eu simplesmente sentei-me no chão e deixei-me escorregar pela lama e folhas, como num escorrega. Nós subimos isto?, perguntei eu duas ou três vezes ao Monuna. Até me parece impossível termos subido isto. Descer é mais difícil. Fui sempre agarrada a finos troncos de árvores, e a lianas. Por duas vezes fiquei pendurada: escorreguei e fiquei com as duas mãos agarradas uma em cada galho. Alguma vez viram no National Geographic um macaco albino pendurado na floresta, com os dois braços abertos? Pelo menos o Monuna e o Deolindo tiveram essa experiência ao vivo e a cores. Vinham logo em meu socorro. Ensinavam-me onde colocar os pés. Iam-me dando instruções: à medida em que eu colocava um pé, explicavam onde colocar o outro. O Monuna às vezes escavava degraus na terra, com a catana, para eu usar. Mas eu fui escorregando sentada a maior parte das vezes, e rasguei os calções nos bolsos de trás, pois claro. Estes calções acompanham-me nas minhas aventuras há sei lá quantos anos. Vieram receber os primeiros buracos no Pico do Príncipe. Felizmente têm bolsos atrás, senão ficaria a ver-se as cuecas. Eu quero lá saber se há bichos no meio das folhas. Eu fui de rojo por aqui abaixo. Ainda levo alguma cobra comigo, é bom que elas fujam à minha aproximação, senão vão mesmo comigo por aqui abaixo. Eu aproveitaria e agarrá-las-ia e tirar-lhes-ia uma foto, que é para aprenderem a não se meterem no meu caminho. Aqui no Príncipe não há cobras venenosas, só há em São Tomé, portanto não estou preocupada.

São 15h29. Parece noite cerrada. Deixámos o topo do Pico do Príncipe há 4 horas. Caminhamos desde as 6h20 da manhã, há 9 horas, portanto. Eu estou muito cansada. Já ignoro as esfoladelas dos dois pés. Que ardam. Que abram mais, com as sandálias a rasparem sistematicamente nelas.
A partir daqui não tirei mais fotos. Falta quase uma hora para chegarmos. A certa altura pedi ao Deolindo para me levar a máquina fotográfica. Pesa 1 kg. Já estou muito cansada mesmo. Vi um vegetal colorido muito curioso agarrado a um pequeno tronco caído no chão, mas já não tinha forças. A operação de tirar a máquina da bolsa, apontar, fotografar, guardar a máquina – já era um esforço hercúleo. Mas arrependo-me hoje de não o ter fotografado. Era mesmo curioso.

A chegar a São Joaquim. Levei o repelente de insetos na mochila (que o Monuna tem às costas) e nem me lembrei disso. Deveria ter renovado o spray, mas esqueci-me que tinha o frasco na mochila. Felizmente não houve problemas. Agora nesta parte final existiam muitas melgas, mas nós não parámos um segundo, sempre a andar rapidamente, em passo acelerado nesta reta final, e elas não conseguiram pousar nem picar-me.

São 16h20. Eu estou estafadíssima, claro. Levámos 10 horas. Partimos daqui, de São Joaquim, às 6h20, e chegámos agora às 16h20. Levámos 4h40 a subir, estivemos 25 minutos no topo do Pico, e levámos 4h55 a descer. A descida foi mais complicada, portanto. Já com cansaço em cima. A chuva torrencial durante muito tempo foi o que dificultou mais, a meu ver. Já quase que nem é preciso tomar banho ao chegar ao hotel, estamos mais que lavados. Até venho com a pele engelhada, com tanta humidade e chuva.
Quem nos tirou esta foto foi o Wilton, o rapaz que me trouxe de mota esta manhã. Ele tinha instruções para estar aqui em São Joaquim às 17h, no entanto quando eu percebi que iríamos chegar mais cedo, telefonei-lhe a pedir para vir às 16. Já basta o cansaço extremo em que estou, não quero esperar uma hora em São Joaquim. Quero ir descalçar estas sandálias, calçar chinelos, tomar banho. As esfoladelas nos pés ardem-me muitíssimo. Mal consigo andar. Agora que estou a parar e a arrefecer, começam a arder loucamente. Tenho que tratá-las com pomada.

E o meu telemóvel não funcionou, pois claro. Entrou água por todos os buraquinhos. O écran tem uma mancha escura. Entrou água lá para dentro. Ainda consegui fazer a chamada, mas depois o Wilton não me ouve. Eu ouço-o a ele, mas ele não me ouve a mim. Teve de ser o Deolindo a fazer a chamada, do seu telemóvel. O Monuna está sem bateria.
Agora tenho que resolver isto. Preciso do telemóvel por causa do GPS na bicicleta. E enfim, convém dar notícias para casa, não convém desaparecer de repente.

Despedi-me do Monuna e do filho, que moram aqui, paguei-lhes o valor combinado: 70€ pelos serviços de guia, mais 5€ pela entrada no Parque Natural (eu não tinha notas de 5€, só tinha moedas de 1 e 2€; e como não aceitam moedas, paguei em dobras), e seguimos caminho. Foram uns bons guias, muito pacientes e cuidadosos. Se estivessem sozinhos fariam este percurso em quase metade do tempo. O Deolindo descalço, imagine-se.

O Wilton levou-me a dois locais, antes de deixar-me no hotel: aqui, para comprar leite (o mais barato que encontrei no Príncipe, por 30 dobras – uma marca portuguesa dos Açores); e na mercearia as pessoas que estão à porta fixaram-me e disseram: “Caiu”. Tal é o estado em que eu venho.

E ainda fomos a casa do “Preto” para ele ver o meu telemóvel. Preto?, perguntei eu ao Wilton e ao Monuna, pois foram eles que se lembraram que eu poderia ir lá tratar do telemóvel. Sim, é a alcunha. Ok, a mim chamam-me branca, e as suas alcunhas são “preto”. Eu não estou habituada a esta sinceridade e frontalidade de cores, na Europa. Na Europa quase que é preciso esconder a nossa cor, e jamais chamar as pessoas pela cor. É ofensivo. Aqui é tudo literal. Oh branca! Oh preto! Oh mulata! Não há nada mais simples. Sem dúvida que já complicámos as coisas na Europa (e na América).
Bom, mas o Preto não está em casa. Está a decorrer um jogo de futebol no estádio, deve lá estar, se calhar. Está muita gente no terraço em cima do prédio ao lado do estádio, para ver o jogo. A Kita mora ali, fez-me adeus da janela. O Wilton conduzia a mota e não me deu jeito parar tudo para sacar uma foto. Mas é o único prédio de apartamentos em Santo António. Tem dois andares, se bem me recordo. Está velhinho.

Cá está o Wilton. São 17h, cheguei ao hotel. O Wilton está a pagar a sua 125 até dezembro. Estamos em julho, já falta pouco. Levou-me um preço bem caro: 300 dobras ida e volta. Enfim, fez quatro viagens – de manhã e à tarde. Tendo em conta outros preços, o normal não chegaria a 200 dobras, virei a saber mais tarde. Mas está a pagar a mota, foi pontual, transportou-me com cuidado desde as 5 e meia da manhã, e eu não tinha combinado preço nenhum previamente (falta de experiência minha, pois deve ser sempre acordado previamente). Pronto, paguei as 300 dobras.
Na vila não choveu sequer, disse o Wilton.

Se a floresta falasse, diria: Esta veio para aqui esgatafanhar-me.
Foi neste estado que entrei no quarto do hotel. Na floresta usei os pés e também usei muito as mãos, está visto. Andei de quatro. Ali não há pejo, uma pessoa tem que safar-se como pode.
Fiquei com três picos espetados na mão, e uns arranhões nas pernas. Mas enfim, se ando no Alentejo no meio dos pastos e fico com as pernas todas arranhadas, ficar com meia dúzia de arranhões numa floresta tropical não me parece nada de especial.

Bebi um litro de leite aqui no quarto. Voltei ainda com bolachas e uma barra de cereais, na bolsa da cintura. Não me apetece comer.

O telemóvel esteve três horas ligado, para aquecer e secar. A água que entrou para o interior tem que evaporar-se. A mancha preta no écran desapareceu. Ficou uma mancha branca pequena. Mandei mensagens de Whatsapp a várias pessoas em Portugal dizendo-lhes que não se preocupassem no caso de eu não dar notícias nos próximos dias, pois o telemóvel poderá falhar.

E descansei finalmente.
A ida ao Pico do Príncipe foi extremamente dura e não recomendo a qualquer pessoa. As últimas duas ou três horas foram feitas com um cansaço significativo. Mas a sensação final é de satisfação. Grande satisfação. Fiquei muito contente comigo própria. Consegui. Se voltasse atrás, faria tudo igual. Esgatafanharia a floresta e andaria de quatro.


¹ “Maritime Safety Information”, p. 81. National Geospatial-Intelligence Agency, United States Department of Defense. Documento consultado a 9 Outubro 2019,
<https://msi.nga.mil/MSISiteContent/StaticFiles/NAV_PUBS/SD/Pub123/Pub123bk.pdf>

² “Pico do Príncipe” (s.d.) Wikipedia. Página consultada a 9 Outubro 2019,
<https://en.wikipedia.org/wiki/Pico_do_Pr%C3%ADncipe>

³ “Linha vulcânica dos Camarões” (s.d.) Wikipedia. Página consultada a 9 Outubro 2019,
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Linha_vulc%C3%A2nica_dos_Camar%C3%B5es>

033 - Príncipe - 11º Dia, Voo para a Ilha de São Tomé

Chegou a hora de abalar. O voo para São Tomé é às 10h20. Hoje é segunda-feira, 15 de julho de 2019.

Choveu torrencialmente toda a noite. Deixei o despertador para as seis, mas estou habituada a acordar mais cedo. Acordei de livre vontade às cinco. E continua a chover torrencialmente. Hoje não daria para subir ao Pico.
Acordei com dores musculares na parte de cima das pernas, na parte da frente. Foi mesmo a descida que as provocou. Pus uma pomada que trouxe de Lisboa, indicada para dores musculares ligeiras a moderadas. Nos braços também, entre os ombros e os sovacos, de me agarrar nos galhos, como os macacos. De resto estou bem.

O telemóvel cumpre as suas funções básicas. Tem uma mancha branca no canto superior esquerdo e não bloqueia, ou seja, não entra no modo de stand-by, tenho de esperar que ele se desligue sozinho ao fim dum minuto. Programei-o para 30 segundos. Nem ando com código. Não estou a usar código no telemóvel, é só ligá-lo e pronto.

O meu quarto cheira a terra e a floresta por causa das sandálias e dos calções cheios de terra e molhados. Não lavei nada. Estava demasiado cansada. E lavar agora os calções ficarão muito pesados, cada quilo no avião custa cinco euros. Continuo com as unhas das mãos e dos pés com vestígios de terra, mesmo com um banho demorado bem quente ontem à noite, não saiu.

Não havia luz às cinco quando acordei, mas voltou às seis.
São agora 6h15 e tomo o pequeno-almoço na cama. Comi tudo menos um ovo cozido que levarei comigo. Os meus pedidos para me enviarem queijo em vez de fiambre nunca surtiram efeito. Já estou a ansiar por queijo há muito tempo. A margarina não dá para nada, é pouca. No primeiro dia puseram-me a embalagem à frente, na mesa. Receber o pequeno-almoço no quarto condiciona-me. Mas hoje não estaria capaz de esperar até às 8h30 por ele.

Às 8h fui dar o arroz de feijão (do almoço de ontem) a um cão. Apareceram estes dois bonitos e com coleira. Mas vocês estão bem tratadinhos, tem de ser para outro magro e sarnento.

A cerimónia diária do hastear da bandeira, em frente ao edifício do Governo Regional, e que ainda não tinha tido oportunidade de ver. Ao final da tarde também recolhem a bandeira, e várias vezes ouvi a música. Está a chover e eu escondo-me no umbral duma porta.

Não encontrei mais nenhum cão. Começou a chover torrencialmente. Deixei o arroz aqui, onde vi o outro cão pela primeira vez.

São 8h17. De volta ao hotel, onde os hóspedes (que eu nunca tinha visto dado os meus horários madrugadores) tomam o pequeno-almoço. Continua a chover torrencialmente. Decididamente hoje não daria para subir ao Pico.
A embalagem da margarina, ou creme de barrar, ou seja lá o que for, em cima da mesa chama-me à atenção. Que bom poder tirar o que se quer.

Desmontei a bicicleta de soutien e calções, com o ar condicionado ligado. Acho que foi a primeira vez que o liguei. Efetivamente nunca ligo o ar condicionado – mas nestas lides habitualmente masculinas até fico logo com calores.

O rapaz do primeiro dia, chamado Ney, veio buscar-me às 8h50, por 250 dobras (10€). É caro, este serviço. Pago mais aqui do que em Lisboa, onde tenho inclusivamente uma distância maior da minha casa ao aeroporto. O aeroporto do Príncipe fica a 3 km de Santo António.

No aeroporto a venderem banana frita.

Aqui encontrei novamente o guia Nelito do Bom Bom; cumprimentámo-nos com um aperto de mão, e ajudou-me a levar as malas para a entrada. Pediu autorização para entrar no check-in para ajudar-me.
E eu esqueci-me de esvaziar os pneus, foi o guia Nelito e um dos funcionários do aeroporto que me ajudaram e esvaziaram ambos.
Tenho uma carrada de peso a mais. Paguei 140€ pelo excesso de peso. Dói que se farta. Todas as malas foram abertas e revistadas.
O meu passaporte está molhado, ontem subiu comigo ao Pico do Príncipe e não escapou ao dilúvio. (Se morresse, morreria bem identificada!!) Mas não me disseram nada.
Posso levar líquidos. Levo uma garrafa de água cheia.

Eram 9h35 quando finalmente me sentei na sala de espera. Muitos portugueses.
Vou de chinelos com as unhas dos pés pretas, não estou a representar devidamente a comunidade portuguesa. As unhas das mãos idem. As sandálias pesam 1 kg molhadas, paguei 5€, portanto, mas não as uso porque tenho as feridas ao ar livre, a ver se secam. Com chinelos não são necessários pensos.
Vejo as raparigas com as unhas dos pés pintadas. Parece que foi há uma eternidade que fiz o mesmo. Ao vir de férias para São Tomé e Príncipe não queria transformar-me num bicho selvagem? Livre, na floresta? Sim, foi o que pensei quando vim. Ao 11º dia já estou em fase de transformação, portanto.

Chove muito. Uns dizem que estamos na altura da gravana (época seca), outros dizem que esta já é época das chuvas. Não percebo nada.
Entretanto emitiram um aviso de que o avião saiu às 10h de São Tomé por causa do mau tempo aqui no Príncipe. Ou seja, o voo está atrasado. Só vai sair daqui ao meio-dia. Comi o ovo cozido que trouxe do pequeno-almoço. Não contava com este atraso, tenho as bolachas nas malas que já levaram. Não é permitido levar bagagem de mão. Dois funcionários ainda foram ver as bagagens comigo, ao carrinho, mas a minha mala nem se vê, no meio das outras todas, e e eu disse para deixar, que não era preciso tirá-la.
Comprei este chocolate com 75% de cacau, por 50 dobras. Não tinham o maior, senão tê-lo-ia comprado. Não há multibancos na ilha do Príncipe, atenção. É preciso ter sempre dinheiro em cash. Eu com as notas todas molhadas. Nada escapou ontem ao dilúvio. E com esta humidade e chuva constantes, nada seca.
Repare-se que o chocolate é da HBD – Here Be Dragons – a empresa do Homem da Lua, do qual falei na crónica 16.
O funcionário da loja (da tshirt vermelha) explicou-me que a lua está a crescer, o que traz chuva. Lá para 4ª feira estará cheia e parará de chover. Em São Tomé não chove. Eu já anseio por sol para secar tudo.

A minha bicicleta no carrinho. Lá ao fundo, dentro do hangar, está o outro carrinho que contém as bagagens. Um funcionário do aeroporto levou-o para lá para as malas não se molharem. As minhas bolachas estão lá ao fundo, portanto. Se a gente não se despachar, terei que ir buscá-las. Com o esforço físico intenso que ando a fazer, não aguento muito tempo sem comer. E aqui no bar do aeroporto não há comida.

Um habitante local a atravessar o aeroporto, desde Azeitona. Tal como eu fiz na crónica 14. Ainda não saí do Príncipe e já sinto saudades destas aventuras.

As esfoladelas nos pés abriram, claro, com a caminhada de ontem ao Pico do Príncipe. Deixaram de ser meras esfoladelas e passaram a ser feridas abertas. E não consigo tirar a terra das unhas nem por nada. Já nem consigo imaginar-me de saltos altos e verniz vermelho. Serei eu? A mesma Rute?

Entretanto conheci a Aleida, na sala de espera do aeroporto. É de Cabo Verde, está a fazer um doutoramento em Ciência Política e veio ao Príncipe fazer entrevistas, no âmbito desse trabalho. É de Direito Internacional Público. Tem 30 anos e já visitou 102 países! A sua universidade é em Londres, é o King’s College, o qual financiou este trabalho de dois meses em São Tomé e Príncipe.
A Aleida estava sentada na segunda fila quando foi o discurso da Biosfera, contou-me. (Na crónica 23). Viu-me nesse dia toda suja, cheia de lama, pelo que me acha hoje com muito bom aspeto. Eu ri-me.
Conversámos imenso, foi a minha companhia nesta entediante espera no aeroporto. Eu quase sem conseguir mexer-me, com as dores musculares nas pernas.

Foi a Aleida quem me tirou esta foto. Está tudo deserto porque foram-se todos embora para os respetivos hotéis, ou para casa. Afinal o avião só sai de São Tomé às 16h. Eu não tenho para onde ir, fico aqui no aeroporto à espera. Tenho é de almoçar. Preciso de comer.

Cá para mim hoje nem vai haver voo, com este tempo.

Tive mesmo de ir com um dos funcionários do aeroporto à minha bagagem, buscar bolachas e um agasalho. Faz frio. Estou cheia de frio. Ele arranjou um chapéu de chuva e fomos.

Esperámos que parasse de chover para ir almoçar a casa da tia duma senhora de São Tomé, que aguarda também pelo voo (não a fotografei) mas que vive grande parte do tempo aqui no Príncipe. A sua loja de vestuário foi assaltada recentemente, contou-nos. E quem é a tia dessa senhora? A Benvinda! Que eu visitei na crónica 17! O mundo é muito pequeno, e a ilha do Príncipe ainda mais.
Primeiro foi essa senhora. Depois eu e Aleida arrancámos debaixo de chuva. A Aleida não sabe onde é a casa da Benvinda, mas eu sei. Abrigámo-nos a meio caminho. A Aleida quis voltar para o aeroporto, quis desistir, mas eu insisti para prosseguirmos. Ela debaixo duma árvore, eu debaixo do toldo duma mercearia. Até que passou esta rapariga de tshirt amarela, com chapéu de chuva, e levou a Aleida. Depois virá buscar-me a mim. Eu fiquei à espera, debaixo do toldo. Mas a Aleida e a senhora – sobrinha da Benvinda – voltaram para trás porque a Benvinda hoje não fez comida. A rapariga do chapéu de chuva levou-me então ao restaurante ao lado. Há um restaurante aqui ao lado?! Levem-me ao restaurante, por favor!! Fazia lá ideia de que existe aqui um restaurante. A Aleida foi a correr, à chuva.

São 14h10. Todas estas pessoas são passageiros do avião. Todos comentamos entre nós: será que o tempo vai abrir e o avião consegue vir?
A sobrinha da Benvinda está ao centro, tem um casaco branco, sem mangas. Chama-se Teresa. Ao fundo está um casal de portugueses.

Só há omelete de queijo e fiambre com pão de forma. Eu e a Teresa fomos as únicas a almoçar. A omelete 95 dobras, litro e meio de água 40 dobras. Preços afixados. A estes preços e com tão pouca oferta é normal que tenhamos sido as únicas a almoçar. Eu tenho tanta fome que marcha tudo. E preciso de mais comida, isto não me chega. Isto é a entrada, agora falta o resto. Tenho que chegar com alguma urgência a São Tomé, para comer devidamente. Já estou com saudades da Kita e do Paixão!! Das pratadas de arroz, peixe e fruta-pão! (Até fiz um verso!)

À tarde parou de chover, mas quando chegou às 16h30, estava tudo cheio de nevoeiro, com muito pouca visibilidade. As pessoas comentaram que não são os pilotos habituais, com experiência. São pilotos novos, e que efetivamente saíram de São Tomé, mas voltaram para trás, nem aterraram.
Todas as pessoas que estavam no aeroporto voltaram para os hotéis e respetivas casas, portanto. Toda a gente foi distribuída por vários carros, eu apanhei boleia dum funcionário do aeroporto – eu e mais 4 ou 5 pessoas. Uma simpatia, todo este pessoal do aeroporto do Príncipe. Muito gostava eu de saber qual foi o segurança que me perseguiu, na crónica 14. Nem me atrevo a tocar no assunto.
Às cinco da tarde deixaram-me de volta no meu hotel, no mesmo quarto. Tive sorte, ainda estava disponível. Telefonei previamente ao gerente do hotel a perguntar.
Reparei que o arroz já não está no umbral da porta. O arroz que deixei esta manhã para um cão. Ao passar no carro olhei logo para lá.
O Monuna ligou-me na altura em que estavam a devolver as bagagens. A perguntar se estava tudo bem. Que guia simpático, heim? Efetivamente estou a andar um bocado devagar para o que é normal, com as dores musculares nas pernas, mas estou bem, obrigada!
Apanhou-me numa altura muito agitada, quase que nem consegui falar. Contei-lhe que o voo foi cancelado e que estou a regressar a Santo António.

Não pára de chover. Muito. Não há wifi, não há luz e quase não há água. Não dá para tomar banho.
Fui ao restaurante da Kita saber se há jantar. Hoje preciso necessariamente de jantar. Sim, há, e reservei.
Fui para lá de boleia de chapéu de chuva com uma rapariga. Regressei de boleia de chapéu de chuva com um rapaz e ainda parei para comprar leite. Ele teve a gentileza de esperar. Todos brincaram, todos se riram na mercearia, com a minha boleia à espera.

Estava eu à porta do hotel à espera que passasse alguém com um chapéu de chuva, quando passou um dos passageiros do voo cancelado, a conduzir uma pickup – virei a saber que se chama António, mas é conhecido por Machiaba. Este parou e trocámos de número de telefone. Disse que me ligaria quando soubesse alguma coisa. Ótimo. Para mim tudo é uma incógnita. No aeroporto também ficaram com os telefones de todos os passageiros. Mas às 9 da manhã garantidamente terei que estar disponível. Estarei, sim senhor.
A Mulata (ou Mónica, a empregada do restaurante) contou-me que havia uma grávida de gémeos que precisava de viajar hoje para o hospital de São Tomé. Um dos bebés está mal posicionado. Teve de voltar para trás também. O hospital aqui do Príncipe não faz esse serviço, não tem equipamento. A Própria Mónica estava à espera de medicamentos que chegavam no avião. Era o Ney que os ia buscar.

Entretanto a luz voltou às 18h. E a água também. Fui tomar banho. Desempacotar tudo outra vez. As sandálias e os calções estão molhados. Começa a cheirar a mofo. Está tudo húmido e não pára de chover.

Peixe Fumo com molho de cebolada. Uma delícia, comida quentinha muito reconfortante.

Hoje tenho dois vizinhos no restaurante e claro que tive de tirar-lhes uma foto. Ninguém escapa. Os dois amigos vieram só beber um copinho. Ainda é cedo, são 18h45. É o Manuel Andrade (à esquerda) e o Domingos Moreira. Este está casado há 20 anos e tem quatro filhos, três rapazes e uma menina. O Manuel apresentou-se apenas como “Andrade” e eu perguntei o primeiro nome. Mas Manuéis há muitos, respondeu-me. Então e Andrades, não há também?, questionei. Não, aqui distinguem-se, e ele é conhecido por Andrade. Pronto.

E quem é que vai ficar com o arroz hoje? Este pratinho é para um cão! Dei-me ao trabalho de separar as espinhas!
“Mas és muito bonita e estás muito bem tratadinha, menina!” – disse eu a esta cadelinha, que vim a descobrir pertencer à Mulata, e estar prenha. Chama-se Laica. Este arroz tem de ir para outro esquelético e abandonado.
A Mulata acabou por dar-lhe as espinhas do meu prato. Eu disse-lhe para ter cuidado, e com os ossos de frango também. Sei de alguns casos de estômagos de cães perfurados por causa dos ossos de frango. E morreram, claro.

Enquanto eu estiver no Príncipe, haverá sempre arroz neste cantinho… Isto é um armazém com várias portas, não passa aqui ninguém. Tem um quintal à frente, meio abandonado.

Telefonaram-me cerca das 21h a avisar que tenho de estar no aeroporto às 7h20. Telefonei ao Ney para combinar o transporte de amanhã, mas pedi-lhe um desconto, 10€ é muito caro. Perguntei-lhe se me leva por 5€. Fazer 3 km de carro por 10€, estas vezes todas, para trás e para a frente… Entretanto ligou-me outra pessoa, da parte do António, e eu pedi-lhe boleia. Virá buscar-me às sete. Ótimo, arranjei boleia e disse ao Ney que já não é preciso.

034 - Príncipe - 12º Dia, Voo Cancelado Ontem, é Desta que Parto do Príncipe

Acordei de madrugada, bem cedo. Hoje não choveu durante a noite. Caramba, hoje terei voo! O Machiaba virá apanhar-me às 7. Ele também irá no mesmo voo. Anda toda a gente de boleias, hoje. Eram 5h50 da manhã quando troquei uns sms consigo, a confirmar a boleia. Tudo ok!
O sino da igreja vai dando as horas.
E como aqui no hotel servem apenas o pequeno-almoço às 8h15 / 8h30, desenrasquei-me novamente com os meus cereais de chocolate trazidos de Lisboa. (O leite comprei-o ontem ao final da tarde, naquela boleia do rapaz com um chapéu de chuva). Efetivamente até pedi um desconto por não ter o pequeno-almoço incluído, ao gerente do hotel, o qual apareceu antes das 7 para receber o dinheiro. O gerente aceitou e não quis ficar com umas moedas de euro, que eu tinha para pagar o quarto, juntamente com as notas. Fiquei com um ligeiro desconto, portanto, foi simpático.

Infelizmente, mais tarde, já depois da minha partida, viríamos a desentender-nos por causa da fatura. É que eu tenho um seguro de viagem que me cobre estes percalços de voos cancelados. A seguradora aceitou pagar-me esta noite extra, mas eu tenho que apresentar o original da fatura. Ora o gerente do hotel disse-me que nesse momento não poderia passar-me uma fatura, que eu devia ter pedido com antecedência, mas que ma enviaria posteriormente. E efetivamente enviou – por Whatsapp. Já eu estava em São Tomé. Ora a seguradora só paga a despesa com o original da fatura, virei a saber mais tarde. Em primeiro lugar aborreci-me com a seguradora, pois em lado nenhum do contrato indicam que é necessário apresentar o original das faturas. Em segundo lugar, agora toca a mandar mensagens ao gerente do hotel (eu já em Portugal), tentando resolver esta questão do original. Mandar-mo por correio, talvez? Eu pago as despesas do correio. Ou então mandar-me uma cópia bem digitalizada, de boa qualidade, para eu imprimir em Portugal, e talvez consiga fazê-la passar por original. Mas qual quê. O gerente do hotel nunca mais respondeu às minhas mensagens. Vai lendo, mas não responde. Então mas será assim tão difícil mandar-me uma fatura original? Estará a ser cometida alguma ilegalidade nesta fatura? O negócio está ilícito ou quê?

Resultado: pedi ajuda a várias pessoas com contactos no Príncipe. E as pessoas ajudaram-me. (E as pessoas ajudaram-me, heim? Só tenho a agradecer, porque de facto foi um esforço memorável). Foram falar pessoalmente com o gerente do hotel. Cara a cara, no Príncipe. Eu já em Portugal. Até estou curiosa para saber o que se passa. Se eu me aperceber que existe alguma dificuldade em passar a fatura, desisto. Mas ao menos tenho de perceber o que se passa.

Bom, então o gerente do hotel está aborrecido comigo. Disse às pessoas que eu “cuspi no prato em que comi”. Fui apanhada completamente desprevenida. Não estava mesmo nada à espera disto. E então sentei-me e pensei. Que comportamento tive eu para despoletar tamanho aborrecimento por parte do gerente do hotel? Ter-me queixado da falta de papel higiénico? Tive de ir comprar papel higiénico na mercearia, a certa altura. Nunca me tinha acontecido tal em todas as viagens pelo mundo. Ou ter-me queixado por não me enviarem margarina? Ou ter-me queixado por não me enviarem fiambre, queijo nem margarina? Houve um dia em que comi pão com ovo, por não ter mais nada. O gerente do hotel indica que fez-me um favor em mandar entregar-me o pequeno-almoço no quarto, diariamente. Pelos vistos não têm esse serviço. Pronto.
E assim ficámos. Eu sem a fatura, e a seguradora contente por não ter de pagar esta despesa.

São 7h15, acabámos de chegar ao aeroporto. De camisa azul é o Machiaba, que afinal é assessor do presidente do governo regional. Tem uma filha a estudar Estomatologia em Portalegre, Portugal. Ao seu lado está o motorista que veio trazer-nos. Foi bastante simpático por parte do Machiaba ajudar-me nestas andanças de voos cancelados. Estes pequenos gestos revelam a hospitalidade dum povo em geral. A sua preocupação, o seu cuidado em manter-me a par do que se passava com os voos. Tudo isto é uma dor de cabeça para toda a gente – e eu estou apenas de férias, sem preocupações que não sejam o de ter perdido um dia nos meus passeios por São Tomé e Príncipe. Efetivamente perdi um dia. Em vez de estar fechada no aeroporto, podia ter andado a conhecer mais uma terra, na bicicleta. Mas enfim, conheci a Aleida, com quem me diverti bastante a conversar no aeroporto, a verdade seja dita, e mais as outras pessoas, como o Machiaba ou a Teresa. Muito pior estão as pessoas que precisavam realmente do voo, como aquela grávida de gémeos que a Mulata me referiu ontem.

O carro indica “China Aid”. Os amigos chineses metem o dedinho em todo o lado. Tal como os europeus e os americanos, diga-se de passagem. Mas enfim, sejamos bondosos, a ajuda internacional é absolutamente necessária, mesmo que depois hajam contrapartidas. “Em São Tomé e Príncipe, 90% do orçamento de 2019 será financiado graças à ajuda externa, informou o primeiro-ministro do país [em março de 2019]”¹

Olhem, amigos chineses, mandem também uns pratinhos de arroz chau-chau aqui para os canitos sarnentos. E já agora uns shampoozitos também, para tratá-los.

O Machiaba, a Aleida e a Teresa, a dona da loja de vestuário que conheci ontem. Cá nos encontramos todos hoje, novamente.

A Aleida também carrega nos “R’s”. Diz-me que são apenas algumas pessoas que o fazem, não são todas, e que na escola as crianças são inclusivamente gozadas. Eu parece-me que é toda a gente. Todos os Principenses carregam nos “R”. Ou então uma grande maioria. Mas a Aleida é cabo-verdiana. Pelo vistos o mal é internacional. A Aleida contou-me que uma vez, em criança, disse na escola: “O arroz está crrú!” e que foi gozada durante muito tempo por causa disto. Era conhecida pelo “arroz crrú”. Rimos à gargalhada. Comprrar frruta. Comprrar marracujá.

E eis novamente o guia Nelito do Bom Bom. Foi sem dúvida a pessoa com quem  me cruzei mais vezes na ilha do Príncipe, por todo o lado, durante estes 12 dias. Hoje é a quinta vez que nos cruzamos. E desta vez tirámos uma foto de despedida.

Esta rapariga à direita veio vender maracujás gigantes. O que é isso?, perguntei eu à Aleida, vendo-a com um saco cheio deles, dentro da sala de espera do aeroporto. A Aleida disse-me que são maracujás gigantes, que nunca tinha visto tal, e que eu posso ir comprar também, pois estão a vender lá fora. Eu vi maracujás gigantes na crónica 14, é verdade, e tenho que prová-los, sem dúvida!

Este funcionário do aeroporto (bastante simpático, foi inclusivamente arranjar-me um saco para eu guardar os maracujás) está sempre pronto para tirar fotos com as miúdas todas.
Cada maracujá custa 10 dobras (0,40€) e eu vou levar dois. A rapariga que está a vendê-los está a ter tanto sucesso que já teve de ir buscar nova carga três vezes. Eu estou carregadíssima de bagagens e bicicleta, vamos ver se os dois maracujás chegam em boas condições, não me convém levar mais. Até porque não sei se gosto.
Muito gostava eu de saber porque não vendem estas frutas no mercado. Passei 12 dias no Príncipe a ansiar por fruta, sem ter onde comprá-la.

Pior do que nós, ontem, estiveram estas pessoas, comentou a Aleida. Porque ontem entraram no avião, e voltaram para trás, pois os pilotos não quiseram aterrar. É obra, andar para trás e para a frente num aviãozito destes no meio de chuva e nevoeiro.

Entretanto ligou-me o guia Monuna para saber se está tudo bem. Perguntei igualmente se ele e o Deolindo estão bem. “Tudo bem , graças a deus”. Desejou-me boa viagem. A chamada caiu a meio, ele ficou sem saldo e eu só tenho 6 dobras, não me dá jeito gastá-las pois poderei precisar delas para ligar para a pessoa que vai buscar-me, no aeroporto. Ontem chovia tanto que não fui à loja de telecomunicações carregar mais. Mas o Monuna lá terá carregado o telemóvel entretanto, e voltou a ligar-me. Agradeci e despedimo-nos. Que grande aventura, a subida ao Pico do Príncipe.

Eu parto desta pequenina ilha com 15 números de telefone de Principenses gravados no meu telemóvel. Volta e meia trocamos umas mensagens de Whatsapp, quem o tem. (O guia Monuna não tem, por exemplo. Efetivamente raros são os que têm).

Às 8h55 entrámos para o avião. Um português que vai connosco conta-me que faz esta viagem milhentas vezes desde 2001. Trabalha em São Tomé e tem negócios no Príncipe. Nunca tinha passado uma noite extra no Príncipe por causa dum voo cancelado. A Africa Conection é quem faz este serviço, diz-me, mas o avião está avariado e então é a STP Airways que está a fazê-lo temporariamente com pilotos que não conhecem o percurso.
Já ontem no restaurante as pessoas comentavam isto mesmo, que estes pilotos são novos aqui e não estão habituados ao percurso. Se fossem os pilotos habituais, que fazem isto há anos, teriam trazido o avião mesmo com chuva.

Ao meu lado no avião irá o Machiaba. A Aleida quis ir à janela, tal como eu. Não há lugares marcados. O avião tem 35 lugares e está esgotado. Haverá outro voo à tarde para levar as pessoas de hoje – neste voo agora vão as pessoas de ontem.
O Machiaba anda armado devido às suas funções. Durante o voo a sua arma ficou com a tripulação. Vai passar uma semana a São Tomé para preparar visita do governador Tozé Cassandra ao primeiro-ministro e ao presidente de São Tomé e Príncipe. Vem aí o mês da cultura, e a Bienal Internacional (que referi na crónica 25) pelo que andam em preparativos.

Três praias onde eu estive, na bicicleta!:
A de cima, a praia Burra (crónica 30);
A da ponta, à direita, a praia Banana (crónica 27);
A cá de baixo, a praia Macaco (crónica 28).

E esta é a praia Grande, onde falei das tartarugas! (Crónica 28)

A cidade de Santo António.

A aterrar na ilha de São Tomé! Vai começar uma nova aventura!

O Machiaba quis tirar uma foto com a pessoa que veio buscar-me ao aeroporto – Célio Santiago. O Célio é o dono do alojamento onde vou ficar (eu por esta altura ainda não sei que é o dono, só vou saber mais adiante). O alojamento fica mais ou menos no centro da ilha, em Belém. Hoje às 6h45 tinha-me enviado um sms a confirmar que viria buscar-me. E depois às 9h ligou-me a perguntar se venho mesmo, se desta vez há voo. Há sim, já estou sentada no avião e faz sol, portanto hoje chegarei a São Tomé!, respondi-lhe.
Tivemos de falar ontem, claro – eu enviei-lhe um email a avisar que o meu voo tinha sido cancelado e que portanto só iria chegar hoje. (Que azáfama de voos e hotéis).

Estes ovos são para os meus pequenos-almoços, virei a descobrir em breve.

Eis o número de km feitos na bicicleta na ilha do Príncipe:

1º dia
Santo António
Chegada, não houve bicicleta

2º dia
Santo António e arredores próximos
19,7 km

3º dia
Santo António e arredores próximos
17,4 km

4º dia
Sundy
31,6 km

5º dia
Ilhéu Bom Bom
26,7 km

6º dia
Infante d. Henrique
28,6 km

7º dia
Oque Daniel / Porto Real
25,2 km

8º dia
Praia Abade
19,5 km

9º dia
Praia Banana, Praia Macaco, Praia Grande, Praia Burra
36 km

10º dia
Pico do Príncipe
Não houve bicicleta
10h de caminhada a pé

11º dia
Voo cancelado
Não houve bicicleta

12º dia
Voo para São Tomé
Não houve bicicleta

Príncipe, total: 204,7 km


¹ Nourou, Moutiou Adjibi (2019, 6 Março) “Sao Tome & Principe : 90% of 2019 budget to be funded by foreign aid (government)”. Ecofin Agency. Página consultada a 13 Outubro 2019,
https://www.ecofinagency.com/public-management/0603-39753-sao-tome-principe-90-of-2019-budget-to-be-funded-by-foreign-aid-government