034 – Príncipe – 12º Dia, Voo Cancelado Ontem, é Desta que Parto do Príncipe

Acordei de madrugada, bem cedo. Hoje não choveu durante a noite. Caramba, hoje terei voo! O Machiaba virá apanhar-me às 7. Ele também irá no mesmo voo. Anda toda a gente de boleias, hoje. Eram 5h50 da manhã quando troquei uns sms consigo, a confirmar a boleia. Tudo ok!
O sino da igreja vai dando as horas.
E como aqui no hotel servem apenas o pequeno-almoço às 8h15 / 8h30, desenrasquei-me novamente com os meus cereais de chocolate trazidos de Lisboa. (O leite comprei-o ontem ao final da tarde, naquela boleia do rapaz com um chapéu de chuva). Efetivamente até pedi um desconto por não ter o pequeno-almoço incluído, ao gerente do hotel, o qual apareceu antes das 7 para receber o dinheiro. O gerente aceitou e não quis ficar com umas moedas de euro, que eu tinha para pagar o quarto, juntamente com as notas. Fiquei com um ligeiro desconto, portanto, foi simpático.

Infelizmente, mais tarde, já depois da minha partida, viríamos a desentender-nos por causa da fatura. É que eu tenho um seguro de viagem que me cobre estes percalços de voos cancelados. A seguradora aceitou pagar-me esta noite extra, mas eu tenho que apresentar o original da fatura. Ora o gerente do hotel disse-me que nesse momento não poderia passar-me uma fatura, que eu devia ter pedido com antecedência, mas que ma enviaria posteriormente. E efetivamente enviou – por Whatsapp. Já eu estava em São Tomé. Ora a seguradora só paga a despesa com o original da fatura, virei a saber mais tarde. Em primeiro lugar aborreci-me com a seguradora, pois em lado nenhum do contrato indicam que é necessário apresentar o original das faturas. Em segundo lugar, agora toca a mandar mensagens ao gerente do hotel (eu já em Portugal), tentando resolver esta questão do original. Mandar-mo por correio, talvez? Eu pago as despesas do correio. Ou então mandar-me uma cópia bem digitalizada, de boa qualidade, para eu imprimir em Portugal, e talvez consiga fazê-la passar por original. Mas qual quê. O gerente do hotel nunca mais respondeu às minhas mensagens. Vai lendo, mas não responde. Então mas será assim tão difícil mandar-me uma fatura original? Estará a ser cometida alguma ilegalidade nesta fatura? O negócio está ilícito ou quê?

Resultado: pedi ajuda a várias pessoas com contactos no Príncipe. E as pessoas ajudaram-me. (E as pessoas ajudaram-me, heim? Só tenho a agradecer, porque de facto foi um esforço memorável). Foram falar pessoalmente com o gerente do hotel. Cara a cara, no Príncipe. Eu já em Portugal. Até estou curiosa para saber o que se passa. Se eu me aperceber que existe alguma dificuldade em passar a fatura, desisto. Mas ao menos tenho de perceber o que se passa.
Bom, então o gerente do hotel está aborrecido comigo. Disse às pessoas que eu “cuspi no prato em que comi”. Fui apanhada completamente desprevenida. Não estava mesmo nada à espera disto. E então sentei-me e pensei. Que comportamento tive eu para despoletar tamanho aborrecimento por parte do gerente do hotel? Ter-me queixado da falta de papel higiénico? Tive de ir comprar papel higiénico na mercearia, a certa altura. Nunca me tinha acontecido tal em todas as viagens pelo mundo. Ou ter-me queixado por não me enviarem margarina? Ou ter-me queixado por não me enviarem fiambre, queijo nem margarina? Houve um dia em que comi pão com ovo, por não ter mais nada. O gerente do hotel indica que fez-me um favor em mandar entregar-me o pequeno-almoço no quarto, diariamente. Pelos vistos não têm esse serviço. Pronto.
E assim ficámos. Eu sem a fatura, e a seguradora contente por não ter de pagar esta despesa.

São 7h15, acabámos de chegar ao aeroporto. De camisa azul é o Machiaba, que afinal é assessor do presidente do governo regional. Tem uma filha a estudar Estomatologia em Portalegre, Portugal. Ao seu lado está o motorista que veio trazer-nos. Foi bastante simpático por parte do Machiaba ajudar-me nestas andanças de voos cancelados. Estes pequenos gestos revelam a hospitalidade dum povo em geral. A sua preocupação, o seu cuidado em manter-me a par do que se passava com os voos. Tudo isto é uma dor de cabeça para toda a gente – e eu estou apenas de férias, sem preocupações que não sejam o de ter perdido um dia nos meus passeios por São Tomé e Príncipe. Efetivamente perdi um dia. Em vez de estar fechada no aeroporto, podia ter andado a conhecer mais uma terra, na bicicleta. Mas enfim, conheci a Aleida, com quem me diverti bastante a conversar no aeroporto, a verdade seja dita, e mais as outras pessoas, como o Machiaba ou a Teresa. Muito pior estão as pessoas que precisavam realmente do voo, como aquela grávida de gémeos que a Mulata me referiu ontem.

O carro indica “China Aid”. Os amigos chineses metem o dedinho em todo o lado. Tal como os europeus e os americanos, diga-se de passagem. Mas enfim, sejamos bondosos, a ajuda internacional é absolutamente necessária, mesmo que depois hajam contrapartidas. “Em São Tomé e Príncipe, 90% do orçamento de 2019 será financiado graças à ajuda externa, informou o primeiro-ministro do país [em março de 2019]”¹
Olhem, amigos chineses, mandem também uns pratinhos de arroz chau-chau aqui para os canitos sarnentos. E já agora uns shampoozitos também, para tratá-los.

E além dos chineses, dos europeus e dos norte-americanos, os amigos russos também já querem meter o dedinho em África, nomeadamente aqui em São Tomé e Príncipe. Veja-se esta notícia de Outubro de 2019:

Putin abre primeira “Cimeira Rússia-África” com quatro países lusófonos presentes
Vladimir Putin recebe cerca de 30 líderes africanos e milhares de oradores a quem tentará deixar claro que a Rússia “tem muito a oferecer aos Estados africanos”.
“Estamos a preparar e em vias de implementar projetos de investimento com participações russas na ordem dos milhares de milhões de dólares”, afirmou Vladimir Putin, numa entrevista divulgada esta quarta-feira pela agência de notícias estatal russa Tass.
A cimeira [usa uma] fórmula diplomática que reproduz os “Fóruns de Cooperação Sino-Africana” que, desde 2000, têm permitido a Pequim tornar-se o principal parceiro do continente.
Em 20 anos no poder, Vladimir Putin apenas fez três viagens à região da África subsariana, sempre com a África do Sul no centro de cada um dos roteiros, mas chegou a altura de demonstrar que os interesses africanos ocupam uma parte importante das preocupações do Kremlin. O chefe de Estado russo, numa entrevista divulgada no início da semana, cita como prova do compromisso de Moscovo com a região a “cooperação militar e de segurança”, a ajuda no combate ao vírus Ébola, a formação de “quadros africanos” pelas universidades russas, garantindo que os projetos russos em África são caracterizados pela ausência de ingerência “política ou outra”. África é um “continente importante”, com o qual Moscovo mantém “relações tradicionais, históricas e íntimas” (…).
Entre os participantes, estão os presidentes de Angola, João Lourenço, de Moçambique, Filipe Nyusi, e Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, enquanto São Tomé e Príncipe se faz representar pela ministra dos Negócios Estrangeiros, Elsa Pinto.²

O Machiaba, a Aleida e a Teresa, a dona da loja de vestuário que conheci ontem. Cá nos encontramos todos hoje, novamente.

A Aleida também carrega nos “R’s”. Diz-me que são apenas algumas pessoas que o fazem, não são todas, e que na escola as crianças são inclusivamente gozadas. Eu parece-me que é toda a gente. Todos os Principenses carregam nos “R”. Ou então uma grande maioria. Mas a Aleida é cabo-verdiana. Pelo vistos o mal é internacional. A Aleida contou-me que uma vez, em criança, disse na escola: “O arroz está crrú!” e que foi gozada durante muito tempo por causa disto. Era conhecida pelo “arroz crrú”. Rimos à gargalhada. Comprrar frruta. Comprrar marracujá.

E eis novamente o guia Nelito do Bom Bom. Foi sem dúvida a pessoa com quem  me cruzei mais vezes na ilha do Príncipe, por todo o lado, durante estes 12 dias. Hoje é a quinta vez que nos cruzamos. E desta vez tirámos uma foto de despedida.

Esta rapariga à direita veio vender maracujás gigantes. O que é isso?, perguntei eu à Aleida, vendo-a com um saco cheio deles, dentro da sala de espera do aeroporto. A Aleida disse-me que são maracujás gigantes, que nunca tinha visto tal, e que eu posso ir comprar também, pois estão a vender lá fora. Eu vi maracujás gigantes na crónica 14, é verdade, e tenho que prová-los, sem dúvida!

Este funcionário do aeroporto (bastante simpático, foi inclusivamente arranjar-me um saco para eu guardar os maracujás) está sempre pronto para tirar fotos com as miúdas todas.
Cada maracujá custa 10 dobras (0,40€) e eu vou levar dois. A rapariga que está a vendê-los está a ter tanto sucesso que já teve de ir buscar nova carga três vezes. Eu estou carregadíssima de bagagens e bicicleta, vamos ver se os dois maracujás chegam em boas condições, não me convém levar mais. Até porque não sei se gosto. Muito gostava eu de saber porque não vendem estas frutas no mercado. Passei 12 dias no Príncipe a ansiar por fruta, sem ter onde comprá-la.

Pior do que nós, ontem, estiveram estas pessoas, comentou a Aleida. Porque ontem entraram no avião, e voltaram para trás, pois os pilotos não quiseram aterrar. É obra, andar para trás e para a frente num aviãozito destes no meio de chuva e nevoeiro.

Entretanto ligou-me o guia Monuna para saber se está tudo bem. Perguntei igualmente se ele e o Deolindo estão bem. “Tudo bem , graças a deus”. Desejou-me boa viagem. A chamada caiu a meio, ele ficou sem saldo e eu só tenho 6 dobras, não me dá jeito gastá-las pois poderei precisar delas para ligar para a pessoa que vai buscar-me, no aeroporto. Ontem chovia tanto que não fui à loja de telecomunicações carregar mais. Mas o Monuna lá terá carregado o telemóvel entretanto, e voltou a ligar-me. Agradeci e despedimo-nos. Que grande aventura, a subida ao Pico do Príncipe.

Eu parto desta pequenina ilha com 15 números de telefone de Principenses gravados no meu telemóvel. Volta e meia trocamos umas mensagens de Whatsapp, quem o tem. (O guia Monuna não tem, por exemplo. Efetivamente raros são os que têm).

Às 8h55 entrámos para o avião. Um português que vai connosco conta-me que faz esta viagem milhentas vezes desde 2001. Trabalha em São Tomé e tem negócios no Príncipe. Nunca tinha passado uma noite extra no Príncipe por causa dum voo cancelado. A Africa Conection é quem faz este serviço, diz-me, mas o avião está avariado e então é a STP Airways que está a fazê-lo temporariamente com pilotos que não conhecem o percurso. Já ontem no restaurante as pessoas comentavam isto mesmo, que estes pilotos são novos aqui e não estão habituados ao percurso. Se fossem os pilotos habituais, que fazem isto há anos, teriam trazido o avião mesmo com chuva.

Ao meu lado no avião irá o Machiaba. A Aleida quis ir à janela, tal como eu. Não há lugares marcados. O avião tem 35 lugares e está esgotado. Haverá outro voo à tarde para levar as pessoas de hoje – neste voo agora vão as pessoas de ontem.
O Machiaba anda armado devido às suas funções. Durante o voo a sua arma ficou com a tripulação. Vai passar uma semana a São Tomé para preparar visita do governador Tozé Cassandra ao primeiro-ministro e ao presidente de São Tomé e Príncipe. Vem aí o mês da cultura, e a Bienal Internacional (que referi na crónica 25) pelo que andam em preparativos.

Três praias onde eu estive, na bicicleta!:
A de cima, a praia Burra (crónica 30);
A da ponta, à direita, a praia Banana (crónica 27);
A cá de baixo, a praia Macaco (crónica 28).

E esta é a praia Grande, onde falei das tartarugas! (Crónica 28)

A cidade de Santo António.

A aterrar na ilha de São Tomé! Vai começar uma nova aventura!

O Machiaba quis tirar uma foto com a pessoa que veio buscar-me ao aeroporto – Célio Santiago. O Célio é o dono do alojamento onde vou ficar (eu por esta altura ainda não sei que é o dono, só vou saber mais adiante). O alojamento fica mais ou menos no centro da ilha, em Belém. Hoje às 6h45 tinha-me enviado um sms a confirmar que viria buscar-me. E depois às 9h ligou-me a perguntar se venho mesmo, se desta vez há voo. Há sim, já estou sentada no avião e faz sol, portanto hoje chegarei a São Tomé!, respondi-lhe. Tivemos de falar ontem, claro – eu enviei-lhe um email a avisar que o meu voo tinha sido cancelado e que portanto só iria chegar hoje. (Que azáfama de voos e hotéis).

Estes ovos são para os meus pequenos-almoços, virei a descobrir em breve.

Eis o número de km feitos na bicicleta na ilha do Príncipe:

1º dia
Santo António
Chegada, não houve bicicleta

2º dia
Santo António e arredores próximos
19,7 km

3º dia
Santo António e arredores próximos
17,4 km

4º dia
Sundy
31,6 km

5º dia
Ilhéu Bom Bom
26,7 km

6º dia
Infante d. Henrique
28,6 km

7º dia
Oque Daniel / Porto Real
25,2 km

8º dia
Praia Abade
19,5 km

9º dia
Praia Banana, Praia Macaco, Praia Grande, Praia Burra
36 km

10º dia
Pico do Príncipe
Não houve bicicleta
10h de caminhada a pé

11º dia
Voo cancelado
Não houve bicicleta

12º dia
Voo para São Tomé
Não houve bicicleta

Príncipe, total: 204,7 km


¹ Nourou, Moutiou Adjibi (2019, 6 Março) “Sao Tome & Principe : 90% of 2019 budget to be funded by foreign aid (government)”. Ecofin Agency. Página consultada a 13 Outubro 2019,
<https://www.ecofinagency.com/public-management/0603-39753-sao-tome-principe-90-of-2019-budget-to-be-funded-by-foreign-aid-government>

² “Putin abre primeira “Cimeira Rússia-África” com quatro países lusófonos presentes” (23 Outubro 2019), Agência Lusa, Jornal Expresso. Página consultada a 23 Outubro 2019,
<https://expresso.pt/internacional/2019-10-23-Putin-abre-primeira-Cimeira-Russia-Africa-com-quatro-paises-lusofonos-presentes>