021 – Príncipe – Sétimo Dia, Oque Daniel

Despertador às 4h15. Choveu torrencialmente durante a noite. E às 4h45 chove copiosamente outra vez. Vamos ver o que me espera.

Pequeno-almoço à luz portátil da máquina fotográfica, que descobri que aguenta quase duas horas a trabalhar, sem pausas.
O pequeno-almoço fica dentro do frigorífico, mesmo desligado durante a noite para não fazer barulho, e também porque falta a luz. A comida está sempre lá dentro para as formigas não começarem a vir.
Hoje não me mandaram manteiga (ou margarina) para barrar o pão. Enviei uma mensagem ao gerente do hotel pedindo queijo em vez de fiambre, e perguntando pela manteiga. (Nunca cheguei a obter resposta, e continuei a receber fiambre que é para aprender).

Hoje tenho de preparar uns pensos de combate.

Os pensos de combate não podem apertar os pés e cortar a circulação. Isto tem de ser feito com maneiras. Mas caramba – estes não vão sair daqui.

Hoje quero ir para oeste! O que há no oeste? Uma terra chamada Oque Daniel. Então é para aí que vou.
Conforme expliquei na crónica 19, a palavra “Oque” significa “cascata” na língua natural do Príncipe. “Língua natural” – foi assim que me disseram e eu continuei a usar também esta expressão “natural”. Mais à frente irei detalhar este tema das línguas em São Tomé e Príncipe.

Lê-se “Ôque”. Não faço ideia se tem acento ou não. Comentei esta questão na crónica 19. A placa que irei ver mais à frente, indicando o caminho, não tem acento. O GPS também não tem acento. Mas Santo António já tem – no GPS – entre outras terras que se vêem nesta imagem, portanto a aplicação “Maps.me” põe regularmente os acentos nas palavras. De forma que eu também não ponho acento em “Oque”.

O mapa está a compor-se. Só estão assinalados os locais onde estive. À medida em que os for conhecendo, vou acrescentando.

Partida às 5h55. Hoje atrasei-me. Já era suposto ter saído há 25 minutos. Andei a engonhar. E ainda por cima devo apanhar chuva. Pelo sim pelo não, levo a bolsa impermeável para a máquina fotográfica. Tanto dá para andar debaixo de água, como à chuva.

A terrível subida do Gaspar está feita – debaixo de chuva miúda, desta vez. Estou vermelha que nem um tomate e a deitar os bofes pela boca. A maior parte dela subi-a a pé. Fui cumprimentando toda a gente pelo caminho. Já toda a gente me conhece, e mais esta terrível subida do Gaspar.

Nem sabes a sorte que tens em morar cá em cima!
E estás bonito e bem tratadinho!
(Ignora-me ostensivamente, na sua altivez canina).

Olá galo, também moras aqui em cima? E ainda tens de subir um bocadinho mais, que o chão não chega…

Mais uma entrada para o Parque Natural do Príncipe. Aquele sinal triangular diz “PNP”. E eu já tenho a lente da câmera cheia de água e lama, a foto ficou toda pintalgada. Estes caminhos seduzem-me, mas o meu destino não é para ali. O meu destino é Oque Daniel, em frente. Agora não, Rute, segue lá caminho, s.f.f.

Aqui choveu torrencialmente e eu tive de parar. Sete da manhã. Abriguei-me debaixo duma árvore (é o ideal, sim, se cair um relâmpago, adeus; mas não há mais nada onde abrigar-me). Não trouxe o impermeável – calções e casaco – não me apeteceu. Agora aguento. Estive meia hora debaixo da árvore, e ainda tentei pôr a bolsa impermeável na máquina fotográfica, sem sucesso. Com chuva a cair, eu dobrada a proteger a máquina debaixo de mim, a tentar acertar nos botões e encaixes – pois não consegui. Eu até posso apanhar chuva – logo secarei – o problema é o telemóvel. Este já está protegido com um saco plástico, bem como a máquina fotográfica. A máquina dentro da bolsa também é aborrecido, pois não dá para ativar o flash nem para regular os parâmetros – tem de ficar no modo automático, ou melhor, nem isso, tem de ficar no “semi-automático”, o modo “P”, porque não dá para usar flash. No automático, a câmera ativa o flash muitas vezes. No modo “P” não ativa. Ora dentro da bolsa o flash não tem espaço para se levantar.
Enfim, deixemos as questões técnicas de máquinas fotográficas,  e prossigamos.
Ao fim de meia hora ali especada, cansei-me e fui-me embora. A chuva já está a abrandar. Pus a máquina dentro dum saco plástico, dentro da mochila, e prossegui viagem.

Já parou de chover, felizmente. Caem uns pingos raros. E é neste sentido que tenho de ir.

Haverá uma povoação no fim desta estrada? Ou vou parar outra vez à floresta deserta, como no Infante?
É isso que vou descobrir.

Terra à vista! Cheguei à Ponta do Sol!
São 8 da manhã, e tenho uns miseráveis 7 km feitos.

Cooperativa dos Apicultores da Região Autónoma do Príncipe.

Estes garotos chamam-me “Branca! Oh braaanca!” Devem estar a confundir-me com alguma mulher chamada “Branca”. Afinal de contas “Branca” é um nome. Até que a mãe deles aborreceu-se com eles. Eles então perguntaram-me como me chamo. Só aí percebi. Os garotos estão mesmo a chamar-me “branca” pela cor da pele. Esta é boa. Eu chamo-me Rute!, digo-lhes.

Já parou de chover, já guardei o saco plástico que cobria o telemóvel.

Este rapaz indicou-me que mais à frente há um espaço que eu posso visitar. Fiquei sem perceber bem que espaço é esse, mas é algo do género um “espaço de atividades”, pensei. Deu-me as indicações de como lá chegar, que eu não percebi porque não conheço nada. Hei-de tentar encontrar, vou em frente. Ou melhor, vou para onde o GPS me mandar.

Bolos de coco, com muito bom ar. Mas eu tenho sempre algum receio em comprar coisas na rua. Cedi à tentação e prossegui caminho.

O GPS manda-me sair da estrada principal e enveredar por aqui. Sou abordada por um dos habitantes da casa ao lado, que me diz que sim, que vou no caminho certo, e que ele é o dono do bar que existe lá ao fundo. Um empreendimento turístico recente.

O dono do bar chama-se Isildro e vai comigo abrir o bar. São 8h30, ele não esperava turistas tão cedo, e ainda por cima a chover torrencialmente pouco tempo antes. Tirou-me esta foto.

E agora esta foto – juntamente com o Isildro – foi tirada pelo rapaz da casa dos bolos de coco. Afinal esse rapaz é o cozinheiro deste bar turístico. Chama-se Fulberto. Ambos são primos. O Fulberto despachou-se e veio atrás de mim, também abrir o tal “espaço”.

O espaço afinal é um bar-restaurante num miradouro, e o GPS trouxe-me aqui precisamente. Este bar abriu há um mês! Aqui em São Tomé e Príncipe, normalmente não dizem “restaurante”, dizem “bar”. Já o restaurante da Kita onde eu tenho almoçado, em Santo António, também se chama “Bar”.

Ainda não são 9 da manhã, é cedo demais para almoçar aqui. Mas este belíssimo restaurante dava jeito, dava. Entretanto como os dois ovos cozidos do pequeno-almoço, que trouxe comigo.

Entretanto chega este garoto com este bolo. Foi feito pelo Fulberto e é para vender aqui no bar, à fatia. Opá, quero já uma fatia. Estes luxos no meio da floresta sabem bem.

O menu (transcrevo exatamente como está escrito):

Segunda-feira – Arroz de (não consigo perceber… algo como “cantao”… será coentro?), e fritos
Terça-feira – Feijão Moda da Terra
Quarta-feira – Os pitiscos deverços
Quinta-feira – Molho no fogo com Arroz, Peixe cozido com Banana
Sexta-feira – Uambá com Arroz, Esparguete cozido com Frango
Sábado – Pintado,  Banana com peixe Grelhado
Domingo – Fruta Pão com peixe grelhado / Banana com Molho de peixe Salgado
Mas se no caso de alguém querer fazer algum pedido especial é só ligar antes para o Fulberto. (Isto está escrito de lado, e eu corrigi os erros) 🙂
O Fulberto foi cozinheiro no restaurante do hotel Sundy Praia. Tem formação. É um chefe do Príncipe!! Os bolos de coco à porta de sua casa também foram feitos por si.

Quanto ao menu dos bolos (recordo que 50 dobras são 2€):

Bolo simples = 100 dobras (é caro, heim? Paguei 4€ por uma fatia de bolo simples! Esta esplanada de Oque Daniel aplica os preços da Riviera francesa!) (Mas deixo a nota que o Isildro e o Fulberto queriam oferecer-me a fatia de bolo. Eu é que não deixei. Então se cada turista que lhes aparecer, eles oferecerem um bolo, assim não fazem negócio).
Bolo Decorado com Ananás = 150 D
Bolo Decorado com Banana = 150 D
Bolo de Banana = 200 D
Bolo de Chocolate = 220 D (8,80€! Será o bolo inteiro?!…)
Bolo (não percebo… algo como “Borodo” com chocolate) = 220 D
Bolo Pintado = 350 D (14€? Eu não reparei nisto na altura, porque eu teria comentado com o Isildro e com o Fulberto. Mas que preços são estes? Uma fatia de bolo pintado não pode ser 14€)
Bolo de Abóbora = 200 D
Bolo especial = 300 D
Amburguer com Todo = 120 D (sim, agora vêm os hamburguers, a seguir aos bolos)
Amburguer normal = 100 D
Amburguer só com vegetais = 90 D
Pizza Romana = 200 D
Se quese outras coisas que for do meu alcanse é so reservar.

Eu com as pernas cheias de lama. Mas os pensos de combate continuam intocados nos dois pés!!

Entretanto o Fulberto vai conversando comigo. O Isildro foi-se embora, e o Fulberto vai ficar o dia todo a trabalhar aqui. Tudo é tranquilo e silencioso neste miradouro. Passar aqui os dias sozinho também não deve ser fácil. Perguntei-lhe se tem internet no telemóvel para se distrair. Não, a rede não chega aqui, responde-me. Há um problema qualquer, e não está a chegar.
Diz-me  que esta chuva é de gravana, ou seja, do tempo seco. Vai depressa. A chuva do Príncipe dura dois, três dias.
O bar abre às 7, fecha às 21. Mas se não houver clientes fecha mais cedo, às 18, pois não aguenta o frio. Almoça habitualmente sozinho; cozinha para os clientes e faz qualquer coisa para si.
Contou-me que há um casal português que trata com plantas medicinais e que quer vir para cá trabalhar nisso, e ter aqui um ponto de encontro. Também há um casal de espanhóis que quer regressar e acampar aqui. Vão permitir acampamento neste espaço. O Fulberto tem um amigo na Ponta do Sol que tinha aí um hotel, mas fechou, e agora os turistas acampam no seu quintal.

Uma capela. O Fulberto contou-me a razão da existência desta capela: a avó do Isildro (e do Fulberto, dado que são primos) fazia carvão. Enquanto trabalhava, deixava as crianças sentadas no chão, em cima dum pano. A certa altura cortou uma árvore, e esta caiu em cima dos dois filhos. Pensou que morreram. Foi a correr à cidade de Santo António, à polícia. Veio um padre e afinal as crianças estavam vivas. Ergueu-se então esta capela. Quando a avó do Fulberto e do Isildro estava viva, eles faziam uma festa anual aqui. Entretanto perderam essa tradição, mas a capela continua cá.

São 9h30 e chegam os primeiros turistas. Ou os segundos, dado que a primeira fui eu. O Fulberto vai recebê-los. E eu, que estou aqui há uma hora e pouco, já descansei, já relaxei nesta bela paisagem, conversei com o Fulberto e comi uma fatia de bolo – é hora de partir.