Amazónia Brasileira

061 - Prosseguimos o Passeio de Barco

Reservado o almoço, vamos dar uma volta pelo rio Tapajós. À chegada ao barco procuramos imediatamente a preguiça, e constatamos que ela já está no topo da árvore. Hoje não lhe damos descanso, coitada. Daqui a pouco estaremos de volta para almoçar e uma vez mais atracaremos aqui.

Pequeno lanche preparado pela mulher do guia Taketomi, para nós consumirmos durante o dia. No canto esquerdo está uma garrafa com um fenomenal sumo de taperebá.

O dono da lancha, Sr. Sebastião, mais conhecido por Sabá, que nos acompanhou durante o dia, a apanhar o fruto caranazeiro, da árvore com o mesmo nome.

Andorinha, que apesar da foto não deixar perceber, tem as costas azuis. Esta será supostamente a andorinha-azul, pois existem muitas espécies semelhantes. Estas que vimos medem cerca de 20 cm. Vimos três juntas, pousadas no tronco, na água (que se vê nesta foto), sempre muito difíceis de fotografar. São aves insetívoras,  ou seja, que se alimentam de insetos que capturam durante o voo, com o bico aberto: moscas-da-fruta, mosquitos, vespas, besouros, formigas, gafanhotos, cigarras e libélulas. A andorinha-azul pode consumir 400 moscas ou 2.000 mosquitos por dia. Estão assim muito dependentes do tempo, já que este influencia profundamente as populações de insetos. Com baixas temperaturas a quantidade de insetos tende a diminuir, ao passo que a altas temperaturas as andorinhas-azuis possuem abundância de comida. O vento, naturalmente, também influencia a disponibilidade de alimento. As andorinhas-azuis são aves migratórias: reproduzem-se na América Central e do Norte, e passam depois o verão na América do Sul. Podem ser vistas em grandes bandos.
Os seus predadores mais comuns são as corujas e as cobras.
Para acasalar, o macho normalmente seleciona dois locais para nidificar, e coloca-os à escolha da fêmea. Os machos são muito territoriais e defendem agressivamente estes locais dos outros machos. Os machos que não têm par exibem-se a voar às fêmeas que estão por perto. Esta exibição começa com o macho a sair do seu ninho num arco alargado, e depois precipitar-se rapidamente para a cavidade, pondo de fora a cabeça e cantando. As pesquisas mostram que apesar destes esforços, as fêmeas estão mais interessadas na qualidade do local para nidificar, do que nas exibições do macho. Os ninhos são normalmente feitos com folhas, ervas, gravetos, lama e penas.  A fêmea é quem o constrói, enquanto o macho reúne os materiais e defende a cavidade de outras andorinhas⁵⁷. Põem entre três a oito ovos brancos⁵⁸, ovais. O normal é serem cinco ovos.

Fruto da árvore seringueira, árvore também chamada da borracha, pois do seu látex fabrica-se a borracha. Deste fruto fazem-se resinas, vernizes e tintas⁵⁹. A árvore-da-borracha é nativa da Amazónia, e mais adiante teremos oportunidade de falar detalhadamente dela.


⁵⁷ Snyman, Nadine (2012) “Progne subis – purple martin”, Animal Diversity Web, University of Michigan. Página consultada a 28 de Setembro de 2013,
<http://animaldiversity.ummz.umich.edu/accounts/Progne_subis/>.

⁵⁸ Hill, James (1998) “How to Become a Martin Egghead”. Purple Martin Conservation Association. Página consultada a 28 de Setembro de 2013,
<http://www.purplemartin.org/update/10(3)egg.html>.

⁵⁹ Wikipedia (s.d.) “Seringueira” Página consultada a 28 de Setembro de 2013,
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Seringueira>.

062 - Um Delicioso Tambaqui

Este tambaqui terá sido talvez a melhor refeição de toda a viagem. Tenho muito boas recordações da comida, houve muitas refeições que nos marcaram positivamente, mas desconfio que este carnudo tambaqui não o esqueceremos facilmente. A foto dele a assar ficou desfocada, é pena, não dei conta no pequeno écran da máquina fotográfica, mas dada a sua importância não a apaguei. Andava eu a bisbilhotar as casinhas-restaurante da Comunidade de Ponte de Pedras, onde regressámos após o passeio de barco, e onde tínhamos deixado o tambaqui encomendado, quando dei de caras com o peixe a assar. Tratei de fotografar a cozinha também, para surpresa da rapariga que se encontrava na divisão ao lado, ao ver a casa a iluminar-se subitamente com o flash. O Filipe tinha ido à cabine telefónica da pequena comunidade tentar ligar para casa, mas esta cabine funciona apenas com cartão telefónico.

Entretanto, volta e meia, levamos umas picadelas das formigas nos dedos dos pés. Picam que se fartam. Andamos com a pomada atrás para diminuir a má sensação que deixam durante uns minutos.

Uma nota para a palavra “comunidade”, que de início provocou-nos alguma confusão. Tal como em Portugal dizemos “aldeia”, no Brasil – pelo menos aqui na Amazónia – dizem em vez disso “comunidade”. Estamos portanto na aldeia, ou na vila de Ponte de Pedras, e aquela é a cabine telefónica da localidade.

Mas voltemos ao tambaqui, que é a espécie comercial mais importante da Amazónia central (pudera…). Ele existe na bacia Amazónica, é um peixe de escamas, alcança cerca de 90 cm de comprimento, e pesa até 45 kg¹³. Aliás, ao que parece antigamente eram capturados exemplares com 45 kg. Hoje, por causa da sobrepesca, praticamente não existem indivíduos desse porte.
Os tambaquis vivem nas matas alagadas entre quatro a sete meses por ano, alimentando-se de frutos,  sementes e zooplâncton. Dada a especificidade da sua alimentação – sobretudo sementes e frutos, os seus dentes são molariformes, ou seja, semelhantes aos molares humanos. Quando o nível da água baixa, a maior parte dos adultos espalha-se pelos rios caudalosos, enquanto outra parte, mais pequena, esconde-se nas margens florestadas de lagos⁶⁰. Nesta época não se alimentam, vivendo da gordura que acumularam durante a época cheia⁶¹.

Dentes do Tambaqui


¹³ Hayashi, Prof. Dr. Carmino (s.d.), “Importância das Espécies Nativas na Piscicultura Comercial”. I Seminário de Piscicultura do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Instituto de Ciências Exatas, Naturais e Educação. Página consultada a 4 de Agosto de 2013,
<http://www.almanaquedocampo.com.br/imagens/files/Peixes%20importancia%20especie%20nativa.pdf>.

⁶⁰ Goulding, Michael e Carvalho, Mírian Leal (1982) “Life history and management of the tambaqui (Colossoma macropomum, Characidae): an important Amazonian food fish”. Revista Brasileira de Zoologia, vol.1 no.2, Curitiba. Página consultada a 28 de Setembro de 2013,
<http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-81751982000200001&script=sci_arttext&tlng=pt#fig02>.

⁶¹ Ambiente Brasil (s.d.) “Tambaqui – Colossoma macropomum”. Página consultada a 28 de Setembro de 2013,
<http://ambientes.ambientebrasil.com.br/agua/pesca_esportiva_em_agua_doce/tambaqui_-_colossoma_macropomum.html>.

063 - Esta Preguiça quer Viajar

Eu nem queria acreditar no que estava a ver. Quando chegámos junto ao barco a primeira coisa que fizemos foi olhar novamente para cima, para a árvore, tentando avistar a preguiça. Mas já não a encontrámos. Para onde terá ela ido? Até que, com grande espanto, vejo aquele bicho felpudo pendurado no nosso barco.

O Sr. Sabá tirou-a a custo. Ela guinchava, um som tão baixinho que quase não se percebia ser dela, e não queria largar o barco. Foi então pô-la numa árvore do outro lado da estrada. Recordo que existe ali uma casa e um cão à solta, pelo que ela não conseguiria atravessar. À falta de melhor quis apanhar boleia para outra ilha. Queria mudar de casa e de vida, está visto.

064 - Répteis e Aves

Enveredamos agora pelo Canal de Jarí, um canal que fica entre o rio Tapajós e o rio Amazonas. A sua travessia foi algo agitada, foi cerca de meia hora a levar com a água em cima. As mochilas e a máquina fotográfica iam bem abrigadas atrás das nossas cadeiras para não se molharem. Pela foto vê-se o estado em que chegámos. Eu não pus os óculos escuros, de facto raramente os usei nesta viagem, e portanto mal consegui abrir os olhos durante a travessia, com as chapadas de água, de frente. A minha roupa está encharcada. O que vale é que está muito calor, e apesar da elevada humidade vai secar com alguma rapidez.

O Filipe andava a tentar ligar para casa há algum tempo, se bem se recordam da sua tentativa na cabine telefónica em Ponte de Pedras. Não temos conseguido rede para ligar. Os respetivos pais já devem estar preocupados, já nos devem imaginar perdidos no meio da floresta amazónica, na barriga de alguma anaconda. Mas não, andamos tranquilamente a passear. Curiosamente, neste fim do mundo, o Filipe teve rede. Foi o Sr. Sabá que lhe disse, tenho ideia. E lá conseguiu então falar com os pais. Reparem que o seu telemóvel ia bem embrulhado num saco plástico… Eu não ando com o telemóvel comigo e só dou notícias de quinze em quinze dias, sou mais desnaturada.

Esta foto é um exercício de “Onde está o Wally?”. Eu que a tirei vejo-me grega para encontrar o bicho. Mas coloquem o rato exatamente no centro da foto, e verão que fica em cima de uma iguana. Ou de um camaleão, não faço ideia. Não consigo distinguir as duas espécies, e para agravar na Amazónia chamam de camaleões às iguanas, quando as duas coisas são diferentes. Estão a ver a cena: Olha uma iguana, dizemos nós. É um camaleão, dizem os nossos guias. Está bem.
Reza assim a Wikipedia: “Os camaleões existem sobretudo em África e em Madagascar, embora algumas espécies também sejam encontradas em Portugal, Espanha, Sri Lanka, Índia e até na Ásia Menor. Na Amazónia e na região Nordeste do Brasil, o lagarto conhecido como iguana é por vezes chamado de camaleão, embora pertença a uma família diferente. Também há casos menos frequentes de camaleões da família Chamaeleonidae na Amazónia, de origem indiana, e que foram introduzidos pelos portugueses⁶²”.
Bom, deve ser uma iguana, nesta foto. Vimos imensas, poderia fazer um livro de crónicas só com fotos de iguanas em cima das árvores.

Pássaro Socó-Boi, que tem este nome pela sua voz, a qual faz lembrar o urro da onça ou o mugir de um boi. Neste link podem ser ouvidos vários socó-bois (clicar no triângulo que se encontra em frente do seu nome – “Tigrisoma lineatum” é o nome científico do socó-boi). Esta espécie ocorre da América Central à Bolívia e Argentina e em todo o Brasil. Vive nas margens de rios, lagos e pântanos e alimenta-se de crustáceos, répteis, anfíbios, peixes e insetos. Captura as suas presas andando vagarosamente, em águas rasas ou pântanos no interior da floresta⁶³. Sobre os seus hábitos reprodutivos pouco se sabe. Faz o ninho com gravetos no topo das árvores, e em cativeiro põe três ovos⁶⁴.

Vimos ainda mais pássaros do que iguanas. Muitos pássaros mesmo, de todas as cores e tamanhos, com uma festa de chilreados. Imaginem a tranquilidade que inspira passear nestas águas calmas e solarengas a ouvir os pássaros cantar. Tantos tipos de cantos, todos misturados. Eu bem que tentava fotografar e anotar os nomes de todos eles, mas a tarefa tornou-se impossível, em primeiro lugar porque a câmera não é adequada (andar carregada com lentes extra… não quero, já me basta o peso da máquina simples; deixo essa tarefa para os profissionais) e depois porque as pessoas que nos acompanham não conhecem os nomes de todos eles. Existem 1.822 espécies de aves registadas no Brasil, sendo que mais de 800 ocorrem no Estado do Amazonas⁶⁵. Atenção que nós estamos no Estado do Pará. Ambos pertencem à Amazónia, mas calculo que o número de aves não seja muito divergente. Depois vão sendo descobertas mais espécies, como se pode ler nas notícias de Maio de 2013: uma equipa de pesquisadores brasileiros e americanos encontrou quinze novas espécies de pássaros na Amazónia, a maior descoberta do género dos últimos 140 anos⁶⁶. Fiquemo-nos portanto com algumas poucas fotos do que vimos. Deste passarito totalmente preto, com bico curvo, nesta foto, nada sei. Se alguém souber, que me diga.


⁶² Wikipedia (s.d.) “Camaleão”. Página consultada a 28 de Setembro de 2013,
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Camale%C3%A3o#Distribui.C3.A7.C3.A3o_e_habitat>.

⁶³ Wikipedia (s.d.) “Socó-Boi”. Página consultada a 28 de Setembro de 2013,
<http://www.wikiaves.com.br/soco-boi>.

⁶⁴ Planet of Birds (s.d) “Rufescent Tiger Heron (Tigrisoma lineatum)”. Página consultada a 29 de Setembro de 2013,
<http://www.planetofbirds.com/ciconiiformes-ardeidae-rufescent-tiger-heron-tigrisoma-lineatum>.

⁶⁵ Junior, Reynier Omena (s.d.) “Sons de Aves”.  Página consultada a 28 de Setembro de 2013,
<www.birding.com.br/Portugues/Sonsdeaves.htm>.

⁶⁶ Carvalho, Eduardo (2013) “Cientistas descobrem 15 novas espécies de aves na Amazônia”. Globo. com.  Página consultada a 28 de Setembro de 2013,
<http://g1.globo.com/natureza/noticia/2013/05/cientistas-descobrem-15-novas-especies-de-aves-na-amazonia.html>.

065 - Mais Pássaros e agora Botos Cor-de-Rosa

Árvore Pachira Aquática, vulgarmente conhecida como munguba ou castanheira-do-maranhão. É uma árvore nativa do sul do México até ao norte da América do Sul, na área compreendida pela floresta amazónica. É encontrada frequentemente em terrenos alagadiços, sendo porém facilmente adaptável a condições climáticas diversas, inclusive ambientes secos. Dos frutos aproveitam-se as sementes, as quais possuem um alto teor de óleo com características semelhantes a óleos comestíveis, como o de palma e amendoim. As suas castanhas são comestíveis e podem ser consumidas de diversas maneiras: cruas, assadas, cozidas ou torradas e transformadas em farinha⁶⁷. As sementes estão envoltas numa espécie de algodão, e contou-nos o Sr. Sabá que quando se abrem vê-se o algodão a esvoaçar.

Botos Cor-de-Rosa, golfinhos fluviais existentes nas bacias dos rios Amazonas e Orinoco, este situado na Venezuela e Colômbia. Ambos os rios estão interligados por um canal. Os botos cor-de-rosa alimentam-se principalmente de peixes, mas comem também tartarugas e caranguejos. Na estação seca habitam os leitos dos rios, mas na época das chuvas, quando os rios transbordam, estão espalhados por áreas alagadas tanto nas florestas (igapó) como nas planícies inundadas (várzeas), onde há uma maior oferta de alimentos⁶⁸.
Mais à frente visitaremos um local onde existem botos cor-de-rosa e onde inclusivamente lhes tocarei.

Estamos a atravessar uma área de várzea, ou seja, de planícies alagadas. Vemos nada mais menos do que uma igreja e um salão de eventos, pelo menos metade deles. Quando as águas baixarem, voltarão a ser usados pela população. Por enquanto ouve-se o chilrear de muitos pássaros, escondidos dentro deles.


⁶⁷ JorgeI, Neuza e Luzia, Débora (2012) “Caracterização do óleo das sementes de Pachira aquatica Aublet para aproveitamento alimentar”. Instituto Nacional de Pesquisas da Amazónia, Acta Amazónica, vol.42 no.1, Manaus. Página consultada a 28 de Setembro de 2013,
<http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0044-59672012000100017&script=sci_arttext>.

⁶⁸ Wikipedia (s.d.) “Boto-cor-de-rosa”. Página consultada a 28 de Setembro de 2013,
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Boto-cor-de-rosa#Distribui.C3.A7.C3.A3o_geogr.C3.A1fica_e_habitat>.

066 - Navegando pelo Canal de Jarí

Garça-Grande-Branca. Vive em regiões tropicais e subtropicais de todos os continentes, exceto Antártida. Alimenta-se basicamente de peixes, pequenos anfíbios, crustáceos e outras espécies de animais aquáticos de pequeno porte⁶⁹, capturados dentro de água; para tal mantém-se quase imóvel à espera da presa⁷⁰. Na época da reprodução, o macho da garça-grande-branca namora a fêmea exibindo as suas penas decorativas chamadas egretas. Se der tudo certo e a fêmea aceitar o convite, o casal irá construir um grande ninho de gravetos entre os galhos de uma árvore. A fêmea põe de 3 a 6 ovos azul-esverdeados.  Ambos se revezam para chocá-los⁷¹.

Pássaro Jaçanã. Habita a América Central e a América do Sul. Alimenta-se de insetos, moluscos, peixes pequenos (quando um pula e cai sobre uma folha) e sementes. Nidifica sobre folhas de nenúfares, põe quatro ovos castanho-amarelados, densamente manchados. Apenas o macho choca e zela pelas crias. Para protegerem o ninho, fingem estar com uma perna quebrada debatendo-se como se não pudessem voar (fazem o chamado “despistamento”). Os filhotes são nidífugos, logo após a eclosão saem por sobre as plantas aquáticas; já nesta idade são extremamente pernilongos e sabem mergulhar⁷².
Deixo um link onde pode ser ouvida a sua vocalização.

Árvore Abricó-de-Macaco, vulgarmente conhecida como Castanha-de-Macaco, originária da Amazónia, e existente nas Américas do Sul e Central⁷³. Os seus frutos são bolas castanhas grandes que chegam a pesar mais de três quilos. Os frutos contêm entre os seus constituintes químicos uma substância conhecida como índigo, que é o corante usado para tingir de azul as calças “jeans”.⁷⁴


⁶⁹ Sua Pesquisa.com (s.d.) “Garça”. Página consultada a 29 de Setembro de 2013,
<http://www.suapesquisa.com/mundoanimal/garca.htm>.

⁷⁰ Ambiente Brasil (s.d.) “Garça-branca (Ardea alba)” Página consultada a 29 de Setembro de 2013,
<http://ambientes.ambientebrasil.com.br/fauna/aves/garca-branca_(ardea_alba).html

⁷¹ Hayasaka, Enio e Nishida, Silvia (s.d.) “Reprodução das Aves”. Universidade Estadual Paulista. Página consultada a 29 de Setembro de 2013,
<http://www2.ibb.unesp.br/Museu_Escola/Ensino_Fundamental/Origami/Documentos/Aves.htm

⁷² Embrapa Monitoramento por Satélite (s.d.) “Jaçanã ou Cafezinho”. Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa. Página consultada a 29 de Setembro de 2013,
<http://www.faunacps.cnpm.embrapa.br/ave/jacana.html>.

⁷³ Wikipedia (s.d.) “Abricó-de-macaco”. Página consultada a 29 de Setembro de 2013,
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Abric%C3%B3-de-macaco>.

⁷⁴ Instituto de Química (2010) “Abricó-de-Macaco: Couroupita guianensis”. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Página consultada a 29 de Setembro de 2013,
<http://www.iq.ufrj.br/descomplicando-a-quimica/317-abrico-de-macaco-couroupita-guianensis.html>.

067 - Vitória Régia

Tenhamos em conta, no meio de toda esta placidez, que navegamos sobre águas onde existem piranhas, jacarés e anacondas. Nadar aqui não é de todo recomendado. O Sr. Sabá contou-nos algumas das suas experiências com sucuris, o nome pelo qual é conhecida a anaconda, na Amazónia. Iam dois barcos com um grupo de turistas, ele num deles, quando avistaram uma sucuri enrolada num jacaré com cerca de três metros. Ao aproximarem-se perceberam a situação. Existia um tucunaré morto, a flutuar, com cerca de 80 kg, estimou o Sr. Sabá. O jacaré foi comer o peixe, quando a sucuri o comeu a ele. Foi uma experiência memorável não só para ele, mas para os felizardos turistas que conseguiram ver a natureza pura e dura em ação.

Contou-nos também a experiência de um vizinho seu: uma sucuri com cerca de seis ou sete metros rodeou a mesa onde ele se encontrava, no quintal da sua casa. Recordemos o que foi dito na crónica 55: as sucuris não são venenosas, elas matam as presas por constrição, ou seja, apertando-as e esmagando-as. O homem levantou-se, foi buscar a caçadeira e deu-lhe vários tiros. Ela já ia atrás dele, no seu rasto, lentamente.

Depois de se alimentarem, as sucuris ficam um ou dois dias à tona da água enquanto o alimento é digerido. É assim que são avistadas, explicou-nos. Contou-nos ainda que um amigo seu, mergulhador noturno que pesca com arpão, pisou o que parecia ser um tronco, mas mole. Iluminou com a lanterna e viu o corpo dela, para um lado e para outro. Fugiu, claro.

As sucuris “pegam o gado dos fazendeiros”, disse-nos. Apesar de tudo isto, temos de pensar que a sucuri faz parte da natureza, tal como qualquer outro animal predador, como ursos ou leões. Da mesma forma que não podemos matar indiscriminadamente ursos e leões, também não é permitido matar sucuris. Veja-se a este propósito um vídeo, no qual um grupo de guardas ambientais foram chamados a uma fazenda, onde uma sucuri com oito metros de comprimento e 95 kg de peso apareceu e atacou os seus bezerros. O objetivo dos guardas foi apanhá-la e devolvê-la ao habitat natural, no entanto um deles ainda levou uma dentada primeiro.

Por seu turno, nestes dois vídeos podemos ver os Polícias Ambientais e um Engenheiro Florestal com duas sucuris que foram resgatadas e posteriormente libertadas no seu habitat natural:

Vídeo 1 Polícia Ambiental

Vídeo 2 Polícia Ambiental

Ainda a propósito deste tema, importa referir a existência de um organismo no Brasil, o IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente, cujas funções são o licenciamento ambiental, o controle da qualidade ambiental, a autorização de uso dos recursos naturais e fiscalização, monitoramento e controle ambiental. Manter uma sucuri em cativeiro, por exemplo, é proibido. O seu website tem uma área para denunciar casos (no separador “denuncie”).

Em março, abril, maio e junho dá-se o período das férias escolares nesta região de várzea, ou seja, de planície inundada. Nós estamos agora em junho, a água já está a descer e a preparar-se para destapar a escola, onde os alunos em breve irão ter aulas.

Dois pássaros Curicaca, uma espécie de Íbis (aves com pernas altas, pescoço longo, bico comprido e encurvado para baixo). Está presente em grande parte do Brasil onde haja vegetação aberta e lagoas, campos em solos pantanosos ou periodicamente alagados, como na Ilha de Marajó, no Pantanal, no Ceará. Encontrada também em todos os países da América do Sul até à Argentina. Vive geralmente em bandos pequenos ou solitária. Alimenta-se de gafanhotos, aranhas, centopeias, lagartixas, cobras, ratos etc. Come às vezes sapos (Bufo granulosus), facto interessante, pois o veneno desse sapo é mortal para a maioria dos animais⁷⁵. Para extrair larvas de besouro no solo, mergulha o bico na terra fofa até à base⁷⁶.
Costuma pôr de dois a quatro ovos, em ninhos de gravetos nas árvores ou mesmo grandes rochas nos campos⁷⁷.
A sua vocalização pode ser ouvida aqui (clicar no triângulo antes do seu nome científico: “Theristicus caudatus”).

Mais adiante avistámos uma canoa abandonada, o que deixou o dono do nosso barco meio intrigado e apreensivo. Não quis com certeza perturbar os seus dois turistas e não adiantou conversa. Uma canoa abandonada é mau sinal. O dono não pode fugir a nadar nestas águas, e pode portanto estar na barriga de alguma sucuri. Felizmente vimos o homem poucos metros mais à frente, no meio da vegetação a apanhar pasto para o gado.

Vitória Régia, cujo nome científico é Victoria Amazonica. É uma planta aquática, fixa,  encontrada em águas calmas e com temperatura à volta de 26 a 30 °C, originária da região amazónica. Além da Amazónia esta espécie também ocorre no Pantanal e na Bacia do Paraguai. As flores possuem um pedúnculo muito longo que oscila de acordo com a profundidade do local, podendo medir de três a oito metros de comprimento⁷⁸. O seu  nome surgiu a partir da iniciativa de um pesquisador inglês que levou as sementes para serem plantadas nos jardins do palácio real em Londres. Lá, a planta recebeu o nome da rainha – Vitória, em sua homenagem. A raiz da vitória-régia é um tubérculo parecido com a mandioca, rico em amido e sais minerais, e por isso mesmo é consumido frequentemente pelos locais⁷⁹.


⁷⁵ Wikiaves (s.d.) “Curicaca”. Página consultada a 29 de Setembro de 2013,
<http://www.wikiaves.com.br/curicaca>.

⁷⁶ Vivaterra (s.d.) “Curicaca (Theristicus caudatus)”. Sociedade de Defesa, Pesquisa e Educação Ambiental, Rio de Janeiro. Página consultada a 29 de Setembro de 2013,
<http://www.vivaterra.org.br/aves_2.htm>.

⁷⁷ Ambiente Brasil (s.d.) “Curicaca (Theristicus caudatus)”. Página consultada a 29 de Setembro de 2013,
<http://ambientes.ambientebrasil.com.br/fauna/aves/curicaca_(theristicus_caudatus).html>.

⁷⁸ Rosa-Osman et al.. (2010) “Morfologia da flor, fruto e plântula de Victoria amazonica (Poepp.) J.C. Sowerby (Nymphaeaceae)”. Acta Amazónica Vol. 41(1) 2011: 21 – 28, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazónia. Página consultada a 29 de Setembro de 2013,
<http://acta.inpa.gov.br/fasciculos/41-1/PDF/v41n1a03.pdf>.

⁷⁹ InfoEscola (s.d.) “Vitória-régia”. Página consultada a 29 de Setembro de 2013,
<http://www.infoescola.com/plantas/vitoria-regia/>.

068 - Entremos numa Casa Aquática

Barco de transporte público. Se repararem na segunda janela, ainda se consegue ver um pouco de uma rede. Os passageiros vão deitados nas redes.

Vamos visitar a casa do senhor Edilson. Tem 77 anos, é casado e tem nove filhos. A mulher encontra-se em Santarém, está doente. Têm uma casa em Santarém, e possuem gado longe – têm um homem a cuidar dele, no local. Uma das filhas mora aqui ao lado, vimos a sua casa a uns cinquenta metros. Os restantes estão espalhados pelo Brasil: em Belém, em São Paulo, e outras cidades.

Cada vez que vejo estas fotos, com os cães (são dois) pergunto-me como não foram eles já apanhados por alguma sucuri, ou mesmo por um jacaré. O Sr. Edilson vai contar-nos algumas das peripécias que tem passado com ambos – jacarés e sucuris – aqui na sua casa. Estamos em pleno habitat de ambas as espécies. Se não há fotos deles, é porque são esquivos. Mal ouvem o motor do nosso barco, afastam-se. (Com grande pena minha).

069 - A Casa do Sr. Edilson

Patos e galinhas, um verdadeiro petisco para sucuris e jacarés. Contou-nos o Sr. Edilson que há pouco tempo apareceu um jacaré grande por aqui. Andou a rondar durante alguns dias, aparecia e desaparecia, até que um dia lhe conseguiu dar um tiro e matou-o. As galinhas e os patos ficam fechados durante a noite, a capoeira está isolada com tábuas e redes, mas mesmo assim uma sucuri pequena, com pouco mais de um metro, ficou entalada num buraco. Metade fora, metade dentro da capoeira. O Sr. Edilson teve de matá-la também. Contou-nos que ter patos é um sarilho, eles andam na água e ainda por cima são curiosos. Se um pato vê algo a mexer-se, vai a nadar ver o que é. E já não volta.

Reparem nas galinhas pom penas nas patas, são da raça Brahma, originárias da Índia, do século XIX, e posteriormente geneticamente aprimoradas até se tornarem na espécie robusta que são hoje. O Brahma moderno é considerado como a maior das raças gigantes, e podem viver de dez a quinze anos. O macho pode levar até dois anos para tornar-se inteiramente adulto, o que significa que o Brahma está descartado como uma galinha de produção comercial em aviários industriais. Surpreendentemente, apesar do seu tamanho, os ovos que colocam não são maiores do que o da maioria das outras aves ditas grandes. E apesar de grandes, são dóceis com crianças e adultos, são fáceis de domesticar, e seguirão o dono prontamente pelo terreiro como um cão. Se forem mantidos num ambiente com outros tipos de aves, há que mantê-los separados das outras raças, pois apesar do seu tamanho eles são submissos⁸⁰.

Àcerca  da casa, disse-nos o Sr. Edilson que este ano iriam subir a altura dela sobre a água, pois há muitos anos que ela foi construída (disse-nos quantos, mas não anotei e esqueci-me, tenho ideia que rondava no mínimo trinta anos) e que portanto já carecia de obras, nomeadamente subir a sua altura, pois a água estava a entrar indevidamente. Estavam apenas à espera que as águas baixassem e dentro de um ou dois meses a operação seria feita. Uma operação de grande envergadura, mas rápida.


⁸⁰ Galinhas Brahma (s.d.) “A Raça Brahma”. Página consultada a 29 de Setembro de 2013,
<http://galinhasbrahma.com.br/?page_id=25>.