1º e 2º dias – Viagem e alojamento

A viagem correu bem, parti na quinta-feira, 9 de abril, às 7h10 da manhã, a bordo de um avião da TAP Air Portugal batizado “Teófilo Braga” – escritor, poeta e antigo Presidente da República Portuguesa. Foram três horas até Bruxelas. Depois esperei 2h25 minutos até ao próximo voo direto para Chengdu, com a Air China. Este voo durou 10h20. Neste segundo voo serviram duas refeições muito saborosas, muito bem temperadas: almôndegas (o outro prato era frango, não tinham opção vegetariana) e a segunda refeição foi carne à bolonhesa. Não me recordo qual era a segunda opção.
Passámos por cima da Rússia, na zona de Moscovo. Esperei que os amigos ucranianos não se lembrassem de mandar um míssil agora. Fui sentada à janela, sem ninguém ao meu lado – numa fila de dois lugares apenas. Vi um filme chinês, magnífico, premiado nos 19.º Prémios Chineses de Cinema e Media (2019) na categoria de “Melhor Novo Realizador”: Xue Bai, com o filme “The Crossing”, com a duração de 1h40. A história acompanha a vida de uma adolescente de 16 anos que vive em Shenzhen, na China continental, mas atravessa diariamente a fronteira para estudar em Hong Kong, e acaba por se envolver numa rede ilegal de contrabando de iPhones entre as duas regiões. Não me importava de dar mais umas voltinhas na Air China só para ter acesso a estes magníficos filmes independentes, chineses, tão difíceis de chegarem às salas de cinema portuguesas.
Aterrei em Chengdu às 6 da manhã, hora local. Em Chengdu são sete horas a mais do que em Portugal.

As saudades que eu tinha destas máquinas de água quente. Eu estive na China há nove anos atrás, em 2017 – em Yunnan e em Pequim – as crónicas podem ser vistas aqui. Eu, que bebo habitualmente água morna, senti muitas saudades destas maquinazinhas. Em tantos países onde estive, só as encontrei aqui na China.

Naturalmente que as fotos aqui – no controlo do aeroporto – são proibidas, mas estava meia dúzia de pessoas com os telemóveis no ar a fotografar, e eu fiz o mesmo. Parece-me que não há nenhum risco de segurança para a China, por causa desta fotografia.

Converti euros em yuans, no aeroporto, e também comprei um cartão chinês de telemóvel válido por 30 dias (195 yuans – estou a usar o câmbio de 0,12€, pelo que 195 yuans correspondem a 23,40€). Eu vou estar aqui 32 dias, e por isso ainda quis comprar outro cartão válido por uma semana, mas não me deixaram, disseram que terei que comprá-lo nessa altura.

O ponto vermelho mostra a localização da residência, em Chengdu: “Tianyi NongYuan Art Exposition Park”. Ou também conhecido como “NongYuan International Art Village”.

O aeroporto fica a cerca de 50 km da residência.

Decidi ir de metro até à residência: linha 18 desde o aeroporto até ao “Incubation Park” (8 estações de metro), e a seguir transferência para a linha 9 até à estação de “Taiping Temple” (3 estações). Nesta altura eu ainda não sei usar a aplicação “Alipay” para tirar um bilhete do metro, pelo que um funcionário da máquina dos raios-x levar-me-á à bilheteira para eu comprar um bilhete, que tem preço variável consoante a distância que fazemos. No meu caso foram 10 yuans (1,20€). Todas as entradas do metro têm uma máquina de raio-x para as malas, e outra para as pessoas. É como nos aeroportos; eu já sabia disto, quando estive em Pequim também era assim.
A viagem de metro durou 1h15. Dez yuans foi o bilhete mais caro que paguei, em todas as vezes que usei o metro, durante este mês. Ainda por cima pago na bilheteira, que fica mais caro do que na app “Alipay”. Também há máquinas na estação para tirar os bilhetes, mas nem eu, nem o rapaz que me ajudou – o da máquina dos raios-x – nos entendemos com a máquina.
Ao longo destas crónicas irão aparecer muitas fotos do metro de Chengdu, que se revelou espantoso. Tudo está traduzido para inglês, e as estações são anunciadas nos altifalantes em inglês também (além de chinês, claro). Um dos melhores metros que usei no mundo. Eu diria que é necessário um grande esforço para nos perdermos aqui dentro: tudo está tão bem assinalado – repetidamente assinalado – que temos deliberadamente de ignorar os letreiros para nos perdermos aqui dentro. As estações são gigantes e o metro passa de 3 em 3 minutos, às vezes menos. São 16 linhas em funcionamento. Muito me diverti a fotografar tudo, inclusivamente as pessoas, que não me ligavam nenhuma. Tinham uns segundos de curiosidade, fixavam-me, e depois desinteressavam-se e eu fotograva tudo sem elas darem conta.

Depois é uma curta caminhada até à residência, e pedi ajuda a um rapaz, que abordei à saída do metro, e que ligou a sua aplicação “Amap” para me dizer o caminho. As outras aplicações a que estamos habituados na Europa não funcionam aqui. Eu, que gosto tanto do “Maps.me”, e uso-o em todo o mundo para andar de bicicleta, aqui na China revelou-se um fracasso total: não sabe identificar quase nada, e a minha residência artística nem existe – quando está perfeitamente identificada na aplicação “Amap”. Todas as aplicações a que estou habituada deixaram de funcionar na China: o Google, o Gmail e tudo o que é Google – como o “Tradutor Google”; o Maps.me, o Chat GPT, o WhatsApp. Bom, tive que instalar uma VPN no telemóvel porque preciso de consultar o Gmail, e preciso de falar para casa através do WhatsApp. Aqui na China instalei o “WeChat”, equivalente ao WhatsApp, mas tive que fazê-lo autorizada por uma pessoa na China. Eu não consegui instalar o WeChat sozinha, não estou autorizada, e depois de tê-lo instalado, não consegui autorizar ninguém em Portugal para tê-lo também, de forma a que conseguíssemos comunicar. Tive que manter o WhatsApp para telefonar para Portugal, e tive que instalar a VPN. Mas tudo o resto mudei: na internet passei a usar o Bing; no tradutor passei a usar o “DeepL”; na IA passei a usar o “DeepSeek”, em vez do “Chat GPT”. O DeepSeek é uma empresa chinesa, o ChatGPT é norte-americano. Já o DeepL foi criado por uma empresa alemã. Tudo menos Google, por estas terras. Isto está relacionado com o sistema de controlo da internet conhecido informalmente como a “Grande Firewall”. O governo chinês mantém regras rigorosas sobre conteúdos online. Serviços como o Google incluem pesquisa livre, YouTube e outros produtos onde circula informação sem controlo centralizado. Instalei então a aplicação “Lets VPN”, que custa 10€ por mês, e é tolerada pela China. Volta e meia deixa de funcionar, e depois recupera, enfim, os estrangeiros têm que falar de alguma maneira para casa, senão os familiares pensam que fomos todos raptados. Fazer uma chamada através do telemóvel, para Portugal, custa 3,74€ por minuto, e receber custa 1,99€, é incomportável.

A adorável Mia – ou o seu nome chinês: Tang Yudie – a pessoa que trata de tudo com os artistas, desde que estão no seu país. Foi a Mia quem aprovou o meu WeChat, através de um QR Code que eu lhe enviei por email. Eu às 9 da manhã em Portugal, ela às 4 da tarde em Chengdu (temos 7 horas de diferença entre os dois países, conforme referi antes). Eu enviei-lhe o QR Code que o WeChat me apresentava, e a Mia, do outro lado do mundo, aprovou-mo. A Mia tem o perfil exato para lidar com os artistas: altamente profissional, competente, e ainda por cima simpática e descontraída. Porque lidar com os artistas não é fácil, não é para toda a gente, e eu tive oportunidade de falar com outros membros da equipa que aqui trabalha, na NongYuan, e nem todos têm este talento inato, para esta função. Há um escritório, aqui dentro do parque onde fica a residência artística, e a Mia é uma das pessoas que aqui trabalha. Cada artista pede uma coisa diferente, a Mia tem que ter uma paciência de santa para lidar com cada um. Somos 4 artistas em simultâneo, a residir em casas individuais, e em rotatividade: numa semana entra um, fica aqui um mês, na semana seguinte sai outro e entra mais um, que também fica aqui um mês, e por aí afora. Durante os 33 dias, eu estive integrada em três grupos diferentes de artistas, o que é maravilhoso, porque permite-nos conhecer mais colegas, desta forma. E então eu quero pincéis de determinado formato e tamanho, quero um medium específico para óleo e outro medium específico para acrílico, quero telas de determinadas dimensões, e quero papéis de determinada gramagem. Outro quer uma argila específica para as suas obras em cerâmica, outro quer um secador de cabelo, outro uma lâmpada a apontar em determinada direção. Cada artista pede uma coisa diferente, e a Mia tem que ter o desembaraço, a leveza e a rapidez para lidar com todos estes pedidos. Não é para qualquer pessoa.
Nesta foto, na sua mão, está um saco com pacotes de leite de amendoim – ou uma bebida de amendoim – e mais uns bolinhos-pãezinhos que comprou aqui nesta loja, para me dar, para o meu pequeno-almoço. Na China não existe o pão como existe em Portugal – na China têm uma massa muito branca, cozida, pequena e redonda, ou então estes pãezinhos um pouco doces, que são mais propriamente um bolo do que um pão. Em breve eu irei complementar este pequeno-almoço com fruta e outros alimentos. A Mia explicou-me que no início serviam um pequeno-almoço, mas tornou-se impossível conjugar os interesses de todos os artistas: uns acordam mais cedo, outros acordam mais tarde, e o pequeno-almoço não estava a funcionar.

Uma das simpáticas cozinheiras, que se chama He. Irá aparecer várias vezes nas fotos, claro.

Eu irei ficar provisoriamente instalada neste hotel que existe no interior do parque, durante cinco dias, até que um dos artistas se vá embora, após completar um mês de estadia, e eu ocupe então o seu apartamento-estúdio.

Eis o primeiro grupo de artistas. A partir da esquerda:
Laurent Guez, ceramista, de Montreal, Canada;
Eu (RUNA, pintora, de Lisboa, Portugal);
Joanna Rajch, designer e ceramista, de Łódź, Polónia;
Emiliano Aiello, pintor, de Nápoles, Itália.

Eu irei trabalhar durante cinco dias neste estúdio, na companhia do Laurent, e depois quando o Emiliano se for embora, eu mudarei para o seu apartamento-estúdio. Mas poderei continuar a trabalhar aqui, se assim o desejar. A Mia esclareceu-me que posso pintar onde quiser, em qualquer local do parque, ao ar livre.

Eu estou a cabecear de sono e a tentar não dormir antes da hora normal, aqui em Chengdu. Consegui aguentar sem dormir até à uma da tarde de Portugal. Aqui são 20h. Passei a tarde na companhia dos restantes artistas: ou no estúdio com o Laurent, ou na esplanada coberta com o Emiliano e a Joanna. Um quinto artista almoçou connosco – Krishna the Fifth, da Tailândia, mas por esta altura eu estou comedida com as fotos. Claro que me arrependo hoje de não ter tirado a primeira foto do primeiro jantar.
Choveu torrencialmente durante duas horas.
Adormeci às 20h, depois de selecionar as fotos do dia, e de fazer o backup na cloud.

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