5 – Pinturas em progresso & regresso

Recordo o que escrevi na crónica 2: o artista-residente, limitado a um espaço exíguo, é relegado exclusivamente para a mesa à esquerda, enquanto o ambiente restante carece de espaço suficiente para o trabalho artístico. Não há paredes disponíveis para expor ou criar, o chão está interdito a qualquer utilização, e a outra mesa é-lhe vedada. Esta situação traduz-se numa clara negligência para com o artista-residente, reduzido a um papel secundário e a trabalhar em condições que mais se assemelham a uma migalha concedida do que a um apoio real ao seu processo criativo.

Creio que estava capaz de pintar vinte folhas seguidas assim, branquinhas. O que é um trabalho ingrato, pois parece que não pintei nada, dado que o papel é branco.

Jamais eu tinha pintado, em toda a minha vida, de calças de neve vestidas – mas há sempre uma primeira vez para tudo. O estúdio estava, de facto, bastante quente, não se deixem enganar, mas depois do dia de ontem, em que passei uma boa parte do tempo na neve, os meus pulmões não gostaram do ar gelado e hoje estão a protestar: pedem, com urgência, muito calor. O ar condicionado está ligado, e tenho a salamandra também ligada ali ao meu lado, ambos a deitarem calor 24h por dia.
Isto do aquecimento estar ligado 24h por dia é estranhíssimo para mim, portuguesa vinda de Portugal, onde a maior parte das casas nem tem aquecimento, quanto mais ligado 24h por dia. Mas aqui nos EUA, e certamente noutros países frios, é assim mesmo, é normal. São coisas de países ricos.

O amanhecer do meu 3º dia na residência. Aqui são 8 horas de diferença em relação a Lisboa, o que me causou sérias perturbações do sono. Quem é que convence o meu organismo a não dormir desde as 4 da tarde até à meia-noite? Aqui no Idaho são 4 da tarde, mas em Lisboa é meia-noite e eu estou a cair de sono. E depois acordo à meia-noite, aqui na residência, e pareço um morcego a deambular pela casa, durante a noite. Eu viria a acertar os sonos apenas no 4º dia, quando dormi 12 horas entre as seis da tarde e as seis da manhã.

O cão Jasper apareceu a correr e afugentou os patos.

Um dos quatro medalhões de vaca que comprei no supermercado. Foi grelhado em casa da Kate e do Rick, porque o estúdio não tem chaminé nem exaustor, e a Kate não quer o estúdio com odores, seja de tinta de óleo, seja de comida. O estúdio é bastante peculiar para quem trabalha com arte, pois não é o ambiente mais adequado para um processo criativo que envolva materiais com cheiros fortes. A Kate, aliás, utiliza o espaço para outras atividades, como a produção de sabonetes e óleos para a pele, demonstrando uma total incompreensão do que realmente constitui um estúdio de pintura funcional e adequado.
Adicionalmente, não me foi dada a possibilidade de ver o meu bife a grelhar (ou de grelhá-lo eu própria), dado que não estou convidada a entrar em sua casa.

A vista do meu quarto.

A Kate Poole não aceitou que eu tivesse as pinturas no chão, insistindo que eu limitasse o meu trabalho apenas à mesa que me foi atribuída. Mas como é que coloco oito pinturas na mesa? Não cabem. Irritada, deu toques com os pés nas pinturas que estavam no chão, para conseguir aceder às gavetas, movendo-as sem qualquer cuidado. As pinturas ficaram todas desorganizadas e fora do lugar.
Durante a noite, guardei as pinturas em várias gavetas, numa tentativa de conter o odor a óleo, e duas delas deixei-as na despensa. Entretanto, constipei-me e, com as temperaturas negativas, não quero sair à noite e fazer várias viagens até ao celeiro para deixá-las aí. Não consigo transportar todas de uma vez, empilhadas, porque estão molhadas. Tenho de levar uma pintura em cada mão, e se precisar de usar o telemóvel como lanterna, só consigo levar uma de cada vez: uma mão para a lanterna, outra para a pintura.
Na manhã seguinte a Kate deu com as duas da despensa e imediatamente retirou-as e deixou-me um papel, enquanto eu tomava banho, para não deixar ali as pinturas durante a noite. Os seus preciosos sabonetes podem ficar a cheirar a tinta.

Ainda hoje me pergunto por que motivo fui selecionada para esta residência artística e qual seria o verdadeiro objetivo por detrás desta oportunidade. Publicidade à casa? Um gesto de puro altruísmo? Ou simplesmente aprender algo novo?
A Kate Poole demonstrou um completo desconhecimento acerca do meu trabalho. Não sabia que eu pintava a óleo, nunca considerou a possibilidade de eu usar materiais com odor, ignorou a fotografia que lhe enviei no portefólio da candidatura — onde apareço ao lado das oito pinturas que realizei durante a residência na Bulgária — e não deu atenção à exposição final da residência na Arménia, que contou com 14 pinturas minhas.
Esta atitude evidencia uma total falta de experiência e um amadorismo evidente da sua parte. Pelo menos agora terá aprendido alguma coisa, e talvez o próximo artista-residente tenha mais sorte.

O material que o artista-residente pode usar, se desejar. Experimentei os pastéis secos.

A minha residência artística no Idaho chegou ao fim, no 6º dia. Ontem à tarde, após a conversa sobre a criminalidade nesta região, durante a qual manifestei o meu desconforto por manter a porta sempre aberta, veio o Rick falar comigo dizendo que íamos pôr termo a esta estadia, por não estar a resultar. Pagaram-me os voos de volta a Lisboa. Eu perdi os voos que tinha comprado. Mentiram-me numa escala: disseram que tinha 7 horas de escala entre Londres e Lisboa. Quando recebi os bilhetes por email, afinal tinha uma escala de 18h45 em Londres. Eu recusei os voos, num primeiro impulso. Mas depois nem quis saber mais, tenho é que sair deste inferno. A minha mãe disse-me imediatamente para eu comprar um voo entre Londres e Lisboa, o mais cedo que conseguisse, nem que fosse 600€, que ela mo ofereceria. Quer que eu saia daqui o mais rapidamente possível.
O Rick foi levar-me ao aeroporto, com o cão Jasper.

Um amigo meu, açoriano, mas a viver há várias décadas na Califórnia – é o meu oncle John – deixou-me estas sábias palavras: “Safe travels, stay optimistic. You can handle this!”
Em português é algo como “Tu consegues lidar com isto”, ou “Tu consegues aguentar isto”.
Que grande verdade. Pois consigo. Há problemas tão graves, e a única coisa que me aconteceu foi interromper uma residência artística e regressar a Portugal antes de tempo. Efetivamente há coisas piores na vida.
Ser alvo de agressividade por parte de outra pessoa – neste caso, da dona da casa – foi profundamente perturbador, porém. Creio que estas palavras (em maiúsculas, inclusivamente) ficar-me-ão para sempre gravadas na memória: “Não vais ter NENHUMA refeição quente à tua chegada!” – conforme descrito na crónica 2. Esta reação deixou claro que esta pessoa, apesar de gerir um alojamento que habitualmente serve refeições aos clientes, ainda não está preparada para oferecer, de forma genuína, aquilo que tanto lhe custou alcançar ao longo da vida. O que oferece, fá-lo com hostilidade velada, como se estivesse a dar migalhas a um artista-residente indesejado, que deveria limitar-se a limpar a casa, confinar-se a uma mesa de pintura perdida entre sabonetes e óleos corporais, e não causar incómodos.
Mas estou saudável, estou viva, e hei de fazer mais residências artísticas, esta não foi a primeira nem a última. Nas próximas, já estarei com uma abordagem mais cautelosa ao verificar a qualidade de cada espaço. É essencial para um artista que a residência ofereça as condições ideais para o seu trabalho, como infraestrutura adequada, um ambiente inspirador e recursos que permitam um desenvolvimento criativo constante. Optarei por instituições profissionais, que compreendam as necessidades de um artista e ofereçam não apenas o espaço físico, mas também o apoio logístico e artístico necessários para uma prática consistente e enriquecedora.
Life goes on.

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