060 – Santa Adelaide, Almoço em Trindade & Regresso

Este é o Silva, com quem me cruzei de manhã, na ida para a Roça Bombaim (crónica 57). Ele estava no grupo de homens sentado na berma da estrada, e disse-me “Vai bem”. Já fui e já voltei, portanto. O Silva ofereceu-me novamente vinho de palma – é o que está a beber agora, posando para a foto. Eu continuo com receio de experimentar, basta o copo estar molhado com água da torneira (ou do chafariz!!) e é gastroenterite certa.
Estou agora a chegar a Santa Adelaide, onde fiquei de visitar a Linda (também da crónica 57).

A flor chamada Bico-de-Papagaio, e vi-a no Jardim Botânico, na crónica 38! Agora a crescer livremente no exterior. É sempre emocionante ver estas coisas.

Cheguei a Santa Adelaide e perguntei pela Linda. Fiquei de visitá-la no regresso. E as crianças levaram-me a sua casa. É esta. São 13h02.

A Linda tem 11 anos e passou para o 7º ano. Nem consegui conversar nada consigo, no meio de tanta gente e tanta azáfama e tantas fotos. Eu teria de estar algum tempo por aqui, mais de uma hora, para acalmar as hostes, começarem a ignorar-me, e então conseguir ter uma conversa mais calma. Reparei que a Linda enxotou uma cabra que ia a passar à sua porta, e também um cão, que passou aqui à nossa frente na sala. Deu um pontapé a ambos. Descalça e com 11 anos, com certeza que os pontapés não são graves. Mas queria ter conversado com a Linda sobre isto. Porquê tanta animosidade pelos animais à sua volta. A cabra que ia a passar na rua nem lhe ligou nenhuma, para quê dar-lhe um pontapé. Passa-se aqui qualquer coisa, nunca vi uma criança santomense a fazer isto. Será herdado dos pais?

Este é o Elias. O Elias foi o fotógrafo de serviço. As duas fotos de cima, em que eu apareço, foram tiradas por si. Agora merece um retrato exclusivo.

E prossegue a viagem de regresso a Belém. São 13h31. Comi uma barra de cereais entretanto. A hora de almoço já chegou – e está a passar – e eu ainda tenho uma grande subida pela frente.

Cruzei-me com este casal de espanhóis, iam eles para a Cascata Bombaim. Agora estão de regresso, e passaram novamente por mim. Desta vez fotografei-os. Ele comentou que o piso é muito difícil para a mota. Pudera. Só mesmo uma bicicleta BTT ou um jipe 4×4. Ou então o camião da Roça. Motinhas e carros por aqui, é para esquecer.

Vou para Trindade e procurarei um restaurante aí. Trindade fica mesmo ao lado de Belém, recordo.

No mercado de Trindade. Perguntei às pessoas na rua onde é que existe um restaurante. Indicaram-me o mercado. Aparentemente não há mais nada. Então é no mercado que vou almoçar. São 14h11 e tenho 35 km na bicicleta.
Há peixe frito e peixe assado. Dois peixes são 25 dobras (1€). Pedi assados, e a senhora ofereceu-me ainda-me um frito. Comi três peixes chamados Maxipombo (Hemiramphus balao), que já tinha provado no Museu-Restaurante Almada Negreiros, na crónica 39.

Foto de Rui Freitas, retirada de Fishbase.

Mapa de ocorrência do Maxipombo, retirado de Fishbase.

Ele anda ali pela zona de Portugal também! Pouco, mas anda! Querem ver que também temos maxipombos à venda nos hipermercados em Portugal, e eu nunca dei conta? (Tal como o Peixe Bonito, na crónica 17, em que um leitor me enviou uma foto de Bonitos à venda no hipermercado do Colombo, em Lisboa!!)

Este cliente veio ver se ganhava uns bocadinhos. Grande parte da banana cozida foi para si – comeu uma barrigada de banana cozida. A certa altura deixou de querer, já só queria peixe. É a primeira vez que estou a comer banana cozida. Prefiro frita, esta não sabe a nada.
A senhora queria servir-me salada, eu disse que não.
Também ia cortar uma lima com a faca molhada em água, e eu disse que não.
Depois passou o prato por água e não o limpou bem antes de servir as bananas. Eu fiz tirar tudo e peguei num guardanapo para secar o prato. Disse-lhe que me faz doer a barriga, a água. Ela disse para eu abrir o guardanapo e pôr as bananas em cima, no prato. Mas o guardanapo continua molhado com água. Desisti. Comi a parte de cima das bananas, que não tocaram na água do prato. Dei o resto ao cão. Um segundo cão também apareceu, mas não quis banana cozida, ficou no chão.
É muito difícil explicar a um habitante local que um europeu só pode beber água mineral, engarrafada. Já tive o susto no Príncipe (na crónica 23), em que comi arroz que tocou na água da salada, e caí imediatamente prostrada na cama. Já não me apanham desprevenida novamente.

São 14h41, já vou a caminho de Belém.

São 14h51, cheguei ao hotel. Hoje fiz 37 km na bicicleta. Lá ao fundo, a secar, está a minha camisola cor de rosa, bem como os calções que usei na Praia dos Tamarindos. Segundo a Marluce ficaram com tamarindos colados no rabo. Aquilo não sai nem por nada. Mas parece que a Virgínia já deu conta deles.

O Rato Cabinda contou-me que esta casa pertencia a um inglês que morreu com 50 anos, com cancro dos pulmões, por fumar muito. Era seu amigo e o Rato Cabinda chegou a pernoitar aqui.
Não está ninguém em casa, as portas estão todas fechadas, eu abri a da cozinha para entrar. Abri as duas janelas do meu quarto, escancarei tudo como habitual. Hoje não há música. Silêncio total. Só pássaros e alguns gritos de crianças a brincarem ao longe.

Comi bananas e leite ao chegar. Nunca há sobremesas à venda.
Não há luz.
A minha jaca já a levaram.

A bicicleta levou uma grande tareia hoje, fez a descida desde a Roça Bombaim por pedras e buracos em alta velocidade. As motas têm de ir muito devagar, carros quase que nem há, o Rato Cabinda disse que tem de ser um 4×4. As pessoas viam-me aproximar ao longe e desviavam-se para eu passar. Eu agradecia o facto de me deixarem o melhor caminho livre, e elas respondiam “nada”. Mas eu nem podia olhar para elas, concentrada no caminho a alta velocidade, aos saltos por ali abaixo. O cadeado até desceu pelo ferro, com tanta tareia que a bicicleta tem apanhado. Em Lisboa foi colocado em cima, agora já está na parte de baixo.

Veio o motorista do Célio buscar algo à casa do guarda, com mais dois homens. O motorista foi quem arranjou a corrente da minha bicicleta. Perguntou-me se ela ficou bem. Disse-me que já há luz na Trindade, que deve estar aí a vir.

Voltou a luz e a água às 16h30.
Deitei-me às 20h.
Foi um dia altamente satisfatório.
E amanhã esperam-me novas aventuras!