024 – Príncipe – Oitavo Dia, Praia Abade

Hoje é sexta-feira, 12 de julho. Acordei à meia-noite com sirenes dos bombeiros e gritos das pessoas. Carros e motos em debandada geral, a apitar. Pus-me em pé num salto, pronta para sair, para fugir se necessário.
Mas rapidamente percebi que os gritos são de alegria e festa. Na avenida principal. Lançaram fogo de artifício.
Comemora-se a independência de São Tomé e Príncipe! 12 de Julho de 1975 tornou-se independente!

Ora mas para o meu debilitado estômago, acordar em sobressalto com esta descarga de adrenalina não foi propriamente bom. Bebi leite frio do frigorífico, o que o acalmou.
A música acabou à uma e meia da manhã.
Cheira a petróleo todas as noites.

Despertador às 4h15. Não há luz, como habitual. Ilumino o quarto com a luz portátil da máquina fotográfica.
Pedi queijo, veio fiambre na mesma. Planta não veio. Não há nada para barrar o pão a não ser aquela colher vermelha de doce, ao lado dos ovos. Comi a fruta (hoje tenho papaia em vez de ananás!) e levo os ovos e duas sandes de fiambre e açúcar comigo. Normalmente como tudo, mas hoje não estou capaz. E nunca tinha feito sandes de açúcar em toda a minha vida, mas lá está… uma pessoa tem que experimentar tudo. Eu não aprecio por aí além fiambre, prefiro queijo. E sem nada para barrar o pão… aquilo vai ficar tudo empastelado na boca. Ora como é que eu engano a Rute? Meto-lhe açúcar, e vou ver que ela saliva logo… Já não fica empastelado e marcha tudo. A ver vamos.

Planeei na véspera, antes de dormir, um percurso pequeno: vou à Praia Abade. São apenas 7,2 km, com uma elevação de 190 metros. Ir e voltar, 15 km. Estou demasiado frágil para fazer um percurso maior. Os meus intestinos agora ressentem-se, pois claro. Também não gostaram da água. O estômago já está bom, agora é a fase dos intestinos, e esperemos que não tenha de andar a correr a caminho da casa de banho – ou das árvores. Como é que eu pude cometer um deslize daqueles – não limpar a água do prato ontem ao almoço. Faço-o sempre. Limpo sempre com um guardanapo. Já é excesso de confiança. Também já era altura do meu organismo se habituar, com tantas viagens. A água é diferente, certo, mas habitue-se, então? Não é altura já de habituar-se?
Agora ando Ultra-Levur, pois claro. Trouxe um anti-diarreico mas o melhor de tudo é que é uma marca que eu desconhecia, não estou habituada à embalagem, então pensei que me tivesse esquecido de trazê-lo. Como não o identifiquei, não tomarei nada. Só vou tomar o Ultra-Levur, um probiótico para regular a flora intestinal. E vai ser suficiente. Foram apenas umas gotas de água no prato, não é grave por aí além. Adelante.

Recordo que todos os pontos assinalados no mapa foram locais que já visitei e que podem ser vistos nas crónicas anteriores. Agora vou para a Praia Abade.

Partida às 5h45.

Fui ao hospital à procura da enfermeira Manuela, mas não está. O número de telefone que me deu falta-lhe um algarismo, e assim não consigo ligar-lhe, como fiquei de fazer, para combinar o almoço. Deixei recado com a senhora que estava a lavar as escadas da entrada e também a um homem que lá estava parado.

Não fui longe, começou a chover e eu abriguei-me neste alpendre, ao lado do posto da polícia. São 6h. Observo a pessoas a passarem. Algumas vão com chapéu de chuva, outras caminham desprotegidas.

Entretanto alguém ao lado começa a cantar. É uma voz feminina e canta uma música bonita. Ela não sabe que eu estou aqui. Eu estou em silêncio. Mas vou espreitar, vou inclinar-me por cima do muro e vou ver a cantora – é uma rapariga. E ela viu-me a mim também e já não cantou mais.
Eu aproveitei para comer uma das sandes de fiambre com açúcar, e deu resultado, comi com gosto. Ai não.

Perante esta inesperada visita às 6 e pouco da manhã, a menina cantora veio ver o que se passa. Veio espreitar-me. Chama-se Aragisa. Está de chuva, digo-lhe eu. “A chuva já vai parrar” – confortou-me ela, carregando nos “R” como é apanágio dos principenses e santomenses em geral.

Mal a chuva abrandou, eu parti. Despedi-me da Aragisa e parti. Aqui já vou na subida em direção à Nova Estrela.
Tenho um impermeável vestido – calções e casaco. Ambos custaram-me uma fortuna, eu jamais imaginei que existissem sequer impermeáveis deste preço. Mas após aturada investigação na internet, tive que render-me às evidências. Os de Goretex são os melhores, e parece que são feitos de ouro, com tal preço. Mas eu precisava de algo realmente bom para o clima de São Tomé e Príncipe. E para outras viagens que venha a fazer em climas chuvosos. Eu venho preparada para a chuva, portanto. Pode chover à vontade. Este impermeável deixa transpirar, e não se estraga com o repelente de insetos que me cobre a pele. É que existem impermeáveis muito bons, mas estragam-se com o spray dos insetos, imagine-se. Descobri isto sei lá quantas horas depois de andar a estudar impermeáveis na internet. Claro que o melhor impermeável de todos é uma capa de plástico. Mas andar de bicicleta com uma capa de plástico… em vez de ficar molhada com a chuva, ficaria completamente encharcada com o meu próprio suor. Prefiro a chuva, neste clima relativamente quente. Portanto um bom impermeável é que aquele que não deixa entrar a chuva, e que deixa sair o suor. As tecnologias são mesmo fabulosas. Inventaram um tecido que faz isto. E eu tenho-o vestido.
Não tenho desculpa, portanto, para não pedalar debaixo de chuva.

Nesta foto atrapalhei-me um bocado a tirar a parafrenália toda da mochila – a máquina fotográfica está dentro dum saco plástico, dentro da mochila. Debaixo de chuva eu quis tirar-lhe uma foto. E ela esperou, gentilmente, a sorrir, vendo-me naquela azáfama. Descalça. Ela quer lá saber de impermeáveis e de sacos plásticos. Explicou-me que leva óleo de coco, e explicou-me como se faz (as duas paradas na estrada, a chuviscar). Mas ela fala mal o português, eu quase não percebi nada, e ela própria custa a perceber-me também. Ainda não tinha encontrado ninguém que não falasse sem problemas o português. Vai leve-leve, disse-me, como despedida.

Pouco depois cruzei-me com dois rapazes dos seus 16 anos. Eles a descer, eu a subir.
Então vão à chuva?, perguntei-lhes.
Sim!
Não têm chapéu de chuva?
Não!
Rimo-nos os três e seguimos caminho. Afinal de contas eu também vou à chuva, devem eles ter pensado.

Pouco depois veio um autêntico dilúvio de chuva. Uma coisa espantosa. Torrencial. Eu abriguei-me debaixo duma grande árvore e esperei. Mesmo debaixo da árvore cai-me chuva em cima, com tamanha carga de água.

São 7h45, estou quase a chegar à praia Abade, e finalmente parou de chover. Mas aquela primeira praia lá em baixo ainda não é a Praia Abade. Faltam talvez uns quinhentos metros, é a praia seguinte.

Agora sim, cheguei à Praia Abade. São 8h e tenho 10 km feitos. Ainda fui ao hospital de manhã, tenho uma volta extra, portanto, porque não é tanto até à Praia.
Sentei-me aqui em frente a esta placa (onde deixei a câmera a tirar-me as selfies) e comi a segunda sandes de fiambre e açúcar. Estou bem do estômago, felizmente, e ainda não precisei de ir a correr para o meio das árvores. Só para proteger-me da chuva, mais nada 🙂

Praia Abade

Sentei-me na raiz da árvore e comi os dois ovos cozidos que trouxe do pequeno-almoço.

Mas não estive sozinha por muito tempo. Chegou o Moisés. O Moisés quer à viva força que eu o fotografe a fazer o pino. Dá verdadeiras ordens. Brranca!, chamou-me. O meu nome é Rute!
Rute!, passou a chamar-me.

O pequenote chama-se Esteva. E ainda não consegue imitar o Moisés. O Moisés mata-o a ele e mata-me a mim. Não me larga, não posso parar de tirar-lhe fotos, não consigo descansar.

Moisés, vai para casa, já estou cansada! Ou então vou eu, que estás a cansar-me! O Moisés respondeu: “Vamos todos parra casa. Vais parra casa?” Sim, vou, respondi-lhe. Depois encheu-me a perna e o pé de areia, com aquela agitação toda. Dada a má experiência recente com areia nas sandálias (cá estou eu com os pensos de combate) aborreci-me a sério com ele.

Os dois rapazes no barco trazem cascas de coco.

O Elísio tem 17 anos e anda no 9º ano na escola na Nova Estrela. Universidade só em São Tomé ou Portugal, e é muito caro, não consegue, conta-me. Dei-lhe o meu website para poder acompanhar as crónicas. O Elísio foi buscar um pequeno tablet a casa para poder anotar.

Bicicleta de corrida, dizem. Ficam encantados com o número de cantis. Ficam espantados quando lhes digo que aquilo é um cadeado que pesa 2 kg. E apalpam o selim, de gel. Esqueci-me de comentar no início destas crónicas que este selim não é o original da bicicleta, é o habitual selim de gel que eu uso, muito confortável.

São 9h15, estive 1h15 a descansar aqui na praia, a conversar com os garotos e com o Elísio, e entretanto vou-me embora. O Elísio pergunta-me se vou à Roça do Abade. É seguir em frente, mas é muito a subir, diz-me. Há lá um hotel, mas agora está fechado, o dono foi para fora, conta-me também. Eu só de ouvir falar em subidas desisto logo. Depois da chuvada que já apanhei hoje, e a recuperar das maleitas do estômago, não vou subir à Roça do Abade. Vou regressar a Santo António. Despedi-me deles todos e parti.