003 – Chegada à Ilha do Príncipe

Um funcionário do aeroporto mandou-me encostar as coisas (bagagens e bicicleta) a um canto da sala do check-in, para eu poder desmontar o pneu de trás à vontade, com espaço, sem ninguém em cima de mim. Foi simpático. Efetivamente só tenho a dizer bem de todo o pessoal dos aeroportos por onde passei nesta viagem: Lisboa, ilha de São Tomé e ilha do Príncipe. Nos três aeroportos fui quase mimada, posso dizê-lo. Se calhar não é comum verem uma rapariga sozinha a viajar, ainda por cima com uma bicicleta. Preciso necessariamente de ajuda, aqui e ali. Tudo maravilhoso.
E tirei o pneu de trás num minuto, com luvas de plástico. O suor novamente a escorrer-me pelas costas, aqui devido ao magnífico calorzinho desta ilha tropical. Que bom.

Eu levo uma grande carga comigo, e tive que desembolsar bem, aqui. Tenho direito a 15 kg. Ora a minha mala grande pesa 20 Kg. Levo uma tonelada de comida. De bolachas, de barras de proteína, de gel energético. Até pacotes de leite com chocolate eu levo. (E fiz bem em levar, porque bebi-os todos, e não havia nada disto à venda na pequenina ilha do Príncipe). Calculei que não existissem muitos cafés e restaurantes no Príncipe, no meio da floresta. E os que existissem não deveriam ter barras de proteína ou gel energético, produtos bem especializados que só se vendem em lojas de desporto.
E depois mais os 17 kg da bicicleta. O peso da minha bagagem (5€ por quilo extra) ficou mais caro do que os bilhetes do avião. Até doeu.

E enquanto espero pelo embarque, cabeceio de sono. Acordei às duas e meia da manhã, e nas seis horas de voo não dormi nada. Passei o tempo todo a comer, a verdade seja dita. Tira comida, põe comida, serve café, tira café, e depois casa de banho, e depois caminhar um pouco para desentorpecer – e assim se passaram as seis horas. Comparado com voos de outras viagens anteriores, que duram quase dois dias, este é uma brincadeira de crianças.

Este cartaz está afixado no aeroporto. Indica: Pense antes de comprar! A população de tartaruga de pente de São Tomé e Príncipe está entre as 10 populações de tartarugas marinhas mais ameaçadas do mundo! O comércio ilegal de souvenirs de carapaça de tartaruga incentiva a captura desta espécie criticamente ameaçada de extinção! A preservação das tartarugas marinhas está nas nossas mãos!

Muito bem, fica o alerta.
Curiosamente um segurança chamou-me à atenção – que não posso fotografar isto. A foto não estava a ficar bem por causa do flash. Tive de tentar várias vezes, com flash e sem flash, até que esta ficou razoável. Ele cansou-se de ver tantos flashes e veio ter comigo, com maus modos, autoritário, dizendo-me que não posso tirar fotos. Já conheço de experiência estes seguranças dos aeroportos mais pequenos, que gostam de exercer o seu grande poder. Tantos funcionários fardados a passarem para cá e para lá, sem me ligarem nenhuma, a verem que eu estou interessada no cartaz (e muito bem), mas este lembrou-se de exercer o seu grande poder de segurança. A tacanhez dum homem. Virei-lhe as costas e fui-me embora. Em circunstâncias normais eu teria conversado com ele, tê-lo-ia consciencializado sobre a relevância desta temática – das tartarugas em São Tomé e Príncipe e da importância de mostrar este cartaz aos turistas que chegam – mas estou numa posição frágil, cheia de bagagens, à espera dum voo, não quero problemas. Alguém conseguirá instruir estas pessoas que a segurança do país não fica em causa por se fotografar um cartaz sobre tartarugas?
Quantas mais fotos, melhor.
Ou na volta ele trafica objetos feitos com a carapaça de tartarugas e não quer divulgação nenhuma… também me ocorreu isso.

O avião está quentíssimo, não tem ar condicionado. Transpiro loucamente. Fui ao wc antes de descolar, lá à frente à direita, é minúsculo.

Curiosamente tiraram-nos temperatura à chegada. Ainda andei à procura desta funcionária para lhe perguntar o porquê (não reagi no momento, fiquei surpreendida por ter uma máquina apontada à minha testa), mas já não consegui encontrá-la. Será pelo facto do avião não ter ar condicionado? Durante o voo a coisa refrescou, lá veio um arzito fresco.

Vitória! Cheguei à ilha do Príncipe com a minha bicicleta!!
São duas da tarde!

Tenho este rapaz à minha espera no aeroporto. Chama-se Ney e a sua única função nesta minha estadia foi levar-me e trazer-me ao aeroporto. Não é muito falador. Não cheguei bem a perceber quem é; aparentemente trabalha com o gerente do hotel para onde vou.

Este é o pequeno hotel onde vou ficar. Uma residencial no centro da cidade de Santo António. Mas não na rua principal, normalmente mais barulhenta. Esta rua paralela mesmo assim vai ter grande movimento dado que existem quatro lojas nestes poucos metros. Uma loja do chinês, uma loja de bebidas (onde me abastecerei de garrafões de água), e duas mercearias.

Mas enfim, a pequenina cidade de Santo António, que tem este nome porque a ilha foi descoberta no século XV pelos portugueses no dia dedicado a este santo português, não é propriamente uma cidade muito barulhenta e agitada. Segundo dados de 2017 do Instituto Nacional de Estatística de São Tomé e Príncipe, a Região Autónoma do Príncipe tem 8.277 habitantes¹. Recordo que a ilha tem uns 30 km de comprimento e 6 km de largura. Tudo é mimoso nesta ilha. Não encontro dados atualizados sobre a população existente aqui na cidade – especificamente na cidade. Encontro apenas dados de 2012 também no INE: numa localidade chamada “Lenta-Piá” existem 1.020 habitantes². A cidade de Santo António é capaz de incluir mais algumas localidades, além desta “Lenta-Piá”. São pesquisas muito minuciosas e difíceis, na internet. Tentar perceber onde é que é esta “Lenta-Piá” e restantes comunidades é um sarilho. O INE não diz simplesmente “Cidade de Santo António”. Há várias comunidades, e todas foram contabilizadas uma a uma. Há um Santo António II, por exemplo, com 12 habitantes. Bom, mas andará pelos mil e tal habitantes.

E como é hábito, são os desembaraçados chineses que põem estas coisas de comércio a andar. Foram eles mesmo que me cambiaram euros em dobras. Um euro vale 25 dobras. O rapaz fechou os olhos com a surpresa do flash.

Aqui é a loja de bebidas. As marcas portuguesas começam a aparecer por todo o lado. Cada garrafão de 6 litros custa 70 dobras. O primeiro uso que dei às minhas recém-cambiadas dobras: 12 litros de água para começar a festa. Até os dentes vou ter que lavar com água engarrafada. Explicar isto à população é sempre difícil. Dizem-me logo que a água é boa, que posso beber à vontade. Como explicar que um estrangeiro europeu não pode beber água da torneira seja em África, seja na Ásia, porque simplesmente não está habituado aos microorganismos nela existentes. É diarreia e gastroenterite certas. Na consulta do viajante, que tive antes de partir (a milésima consulta, mas nunca a dispenso) lá me repetiram a lenga-lenga toda da água, da fruta descascada e dos legumes crus. Não posso beber água da torneira. Sim, doutora, anuí eu, como se não soubesse. Vacinas desta vez não precisei, porque simplesmente já as tomei todas. Comprimidos da malária é preciso tomar. A médica receitou-mos, mesmo comigo a dizer-lhe que não iria tomá-los porque me rebentam com o estômago. Fiquei com a receita por aviar. É um risco grande. Em São Tomé e Príncipe há o mosquito da malária, é uma zona vermelha. Venho com cinco frascos de spray anti-mosquitos para espalhar diariamente no corpo. Contabilizei um frasco por cada seis dias de viagem, com base em experiências anteriores.

Vejo referências na internet à existência duma nota de 200, mas nestes 29 dias de férias nunca vi nenhuma. O máximo que vi foi de cem. Pelo que é necessário andar com uma porção de notas no bolso. 50€ são 1250 dobras, por exemplo.

Aqui no Príncipe tudo é muito caro, tudo vem através dum barco que já foi ao fundo duas vezes, com mortes de pessoas inclusivamente. Este barco traz também a energia – para fornecer luz e água à ilha. Se o barco falha… também falha a luz e a água. Efetivamente estou sem luz e sem água, neste momento, no hotel. O rapaz que me trouxe do aeroporto disse-me que a eletricidade vem habitualmente às 17.30/18h. À meia-noite desligam-na. Depois vem às 6 da manhã até ao meio dia, disse ele.

Segundo passo: comprar um cartão de telemóvel. Existem duas companhias em São Tomé e Príncipe: a Unitel, que é a mais recente, e a CST, Companhia Santomense de Telecomunicações. Ambas me responderam rapidamente ao email que enviei, ainda em Portugal, a perguntar se posso comprar um cartão no Príncipe, logo à chegada. Eu, que não percebo nada disto, que desconheço os tarifários, tive que escolher uma ao acaso. Esta menina pediu-me o passaporte, pediu-me 80 dobras por um cartão com 50 dobras de chamadas incluídas, e eu pedi 3 GB de internet, que me custaram 200 dobras. Cada chamada custa duas dobras na mesma rede por minuto. Para outras redes não soube dizer-me.

Só me faltava a bicicleta, e ei-la também já perfeitamente operacional, toda montada. Uma mulher mecânica vale por duas!! Montei-a aqui mesmo dentro do quarto do hotel. É uma responsabilidade delicada – é bom que esteja corretamente montada, porque não é suposto eu ir a descer uma montanha a toda a velocidade, aos saltos por cima de terra e pedras, e ela desmantelar-se nas minhas mãos. Seria uma queda aparatosa. Mas não, eu montei sempre bem a bicicleta, nesta viagem. As aulas dadas pelo mecânico em Lisboa foram bem dadas. E a aluna aprendeu tudo corretamente.

Repare-se que está a escurecer e eu sem luz. Toda a ilha sem luz, aliás. Às 5 e meia da tarde é noite. Sem luz e sem água para lavar as mãos. Mal vier vou tomar um duche, vou comer cereais com dois dos meus pacotes de leite com chocolate, e vou dormir. Acordei às 2H30 da manhã, estou k.o. de sono.

Reparem que a bicicleta vem toda artilhada para esta viagem, conforme já referi. Além do sistema de segurança anti-roubo – um cadeado de aço de 2 kg (por baixo do ferro central, junto ao pneu da frente); um sistema de anti-roubo das duas rodas e do selim; vem também com três suportes de água, totalizando 1,85 litros (a bicicleta fica portanto com quase 19 kg quando está carregada de água); e finalmente um suporte para o telemóvel, no guiador, dado que vou usar o GPS no telemóvel. Os pneus têm um sistema anti-furo: têm uma espuma que fecha automaticamente o furo. A bicicleta fica mais pesada assim, mas se se espetar um prego, andarei com ele sem dar conta. Estas tecnologias são fabulosas.

Portanto já tenho água, internet e bicicleta, tudo corre bem. Fui encher os pneus à loja do chinês, porque a minha bomba é pequena, de mão, e aparentemente não consigo pôr aquilo a funcionar. A minha bomba de pé, grande, ficou em Portugal, não podia vir carregada com aquilo. Na loja do chinês ainda lhes perguntei se me vendiam uma bomba de pé. Não vendem, mas têm um serviço de encher pneus 🙂

Estas três fotos foram tiradas uns dias mais à frente, no entanto para mostrar o cadeado, publico-as já nesta crónica.

Eis o verdejante mapa da ilha do Príncipe. O aeroporto está a 3 km da cidade de Santo António.


¹ “População Recenseada e Estimada no período 2013-2017”. São Tomé e Príncipe em Números 2017, p. 9. Instituto Nacional de Estatística – INE. Página consultada a 29 Agosto 2019,
<https://www.ine.st/index.php/publicacao/documentos/file/414-stpemnumeros-2017>

² “Distribuição da população residente segundo o distrito e localidade, por grandes grupos de idade e sexo”. IV Recenceamento Geral da População e da Habitação 2012, p. 39. Instituto Nacional de Estatística – INE. Página consultada a 29 Agosto 2019,
<https://www.ine.st/index.php/publicacao/documentos/file/350-publicacao-dos-resultados-sobre-localidades-iv-rgph-2012>