Dia 14 – Tarde em Nápoles / a despedida & o regresso

Hoje é domingo, 16 de novembro de 2025.
Despertar às 6h50.
Eu, o Gabriel e a Tee vamos apanhar o autocarro das 9h55 em Castel di Sangro, para Nápoles. O Lalo irá apanhar o das 16h25. A Piera e a Sara irão levar-nos de carro a Castel di Sangro. Depois houve uma reviravolta e elas decidirão levar o Lalo para Nápoles, já que ambas se vão embora também, esta tarde, para Nápoles. Em vez do Lalo ir no autocarro, irá com elas, no carro, à tarde.
Eu tenho um voo para Lisboa às 22h35, no aeroporto de Nápoles.
Em Nápoles dão 20°C / 68°F para hoje, nublado.
Eu entretanto esqueci-me da mala da máquina fotográfica, no muro ao lado do carro da Piera, em Montenero. Vê-se na foto abaixo. Felizmente o Lalo levou-ma, e por isso voltámos a encontrar-nos em Nápoles, juntamente com a Sara. A Piera foi para casa, e a Sara foi com o Lalo encontrar-se comigo. Apesar de nos termos separado há tão poucas horas, soube bem revê-los.

Cheguei ao meio-dia a Nápoles, e o Gabriel e a Tee seguiram os seus caminhos. O Gabriel ainda vai pernoitar em Nápoles, foi para o hotel, e tem visitas já marcadas em determinados locais, entretanto esgotados; a Tee tem um voo em poucas horas para o Reino Unido; e eu tenho dez horas e meia pela frente, até ao meu voo, pelo que irei passear em Nápoles toda a tarde.
Eu já tinha estado em Nápoles há uns vinte anos, bem como em Génova, e no vulcão Etna, na Sicília. Fiz nessa altura um cruzeiro pelo Mediterrâneo, o qual parou nestas três terras. Foi um conhecimento muito superficial de todas elas, dado que o navio para apenas algumas horas, e depois segue para o destino seguinte. Hoje, às 19h35 apanharei o “Alibus”, no centro de Nápoles, para o aeroporto. Vou passar portanto sete horas e meia na cidade, novamente num conhecimento superficial – apenas verei ruas e igrejas. Creio que é necessário passar pelo menos uma semana, numa cidade, para ficar a conhecer alguma coisa. O ideal são duas semanas.

Papel higiénico.

Foi um casal de turistas italianos quem me tirou esta foto, e eu tirei-lhes também a eles, com a máquina deles. Fiquei com um ar de zombie, mas como não tenho mais nenhuma, mantive-a.
Há imagens do Maradona por todo o lado. Conforme expliquei no dia 4, o Maradona jogou no clube SSC Napoli e é adorado em Nápoles. Maradona chegou ao Napoli em 1984 e rapidamente ajudou o clube a conquistar títulos que nunca antes tinha alcançado — nomeadamente o primeiro “scudetto” da sua história (campeonato italiano) em 1987 e outro em 1990. Isto transformou o clube e a cidade. Para muitos napolitanos, Maradona representou mais do que futebol: tornou-se um herói popular, um símbolo de esperança e afirmação de Nápoles, cidade com desafios sociais e económicos.

O Vesúvio é um vulcão ativo, embora esteja em fase de dormência desde 1944, data da última erupção. A erupção mais famosa — e uma das mais devastadoras da história — ocorreu em 79 d.C., destruindo Pompeia, Herculano, Stabia e outros assentamentos romanos. Registaram-se fortes erupções nos séculos XVII e XVIII, e houve outra grande erupção em 1906. A última erupção foi em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, que destruiu as aldeias mais próximas e arrasou uma base aérea aliada. Desde então, está adormecido, mas os vulcanólogos não consideram que a sua atividade tenha terminado. Continua um dos vulcões mais vigiados do mundo. A área ao redor do Vesúvio é densamente povoada — uma das zonas vulcânicas com mais habitantes no planeta.

Onde os cruzeiros atracam. Já não me lembro se foi aqui que o meu navio atracou também. Efetivamente não me lembro de nada em Nápoles – só me lembro do fantástico navio de 14 andares, e de eu jogar basquetebol no último andar, com uma rede à volta do campo – só mar à volta. A bola parecia que ia para o mar, mas batia na rede e mantinha-se dentro do campo. Eu, e o meu então namorado, passávamos os finais de tarde a jogar basquetebol, sozinhos, antes do jantar, até anoitecer. Estes entardeceres no topo do navio, e a visita ao vulcão Etna, são as experiências mais marcantes que me ficaram na memória, desse cruzeiro pelo Mediterrâneo.

São 19h49. Cedo demais, o meu voo é apenas às 22h35. Eu pensava que era às 22h, enganei-me. Devia ter passeado mais meia hora em Nápoles. Tinha a companhia do Lalo, que me levou ao Alibus, e ainda tentámos encontrar o Gabriel, mas sem sucesso.

E agora começa outra saga. Ao fazer o check-in, que abriu tarde, já quase às 21h, a senhora do balcão diz-me que não encontra a minha reserva. Esteve muito tempo à procura – eu em pé, junto ao balcão, com as bagagens, e uma fila enorme atrás. Felizmente estava outro funcionário a atender – que curiosamente também ficou bloqueado com um casal espanhol que não conseguia acrescentar uma mala ao bilhete de avião para poder fazer o check-in. O sistema não deixava. O casal sem conseguir entrar no avião porque não conseguia fazer entrar a mala, e eu sem conseguir entrar no avião porque a minha reserva não existe. Bem-vindos à Vueling Airlines. Nunca voei com esta companhia aérea, e não está a causar boa impressão. Um nervoso miúdo começou a apoderar-se de mim. Como não existe, a minha reserva? Debitaram-me o voo e não me creditaram nada, nem me enviaram qualquer comunicação a informar que a reserva foi cancelada.
Eu imediatamente liguei para a Vueling. Comecei a ligar às 21h21. O voo é às 22h35. No seu site, a Vueling indica que tem atendimento personalizado até às 22h, hora espanhola. A hora de Itália é igual à de Espanha – e em Portugal é uma hora a menos, são 20h21 em Portugal. Liguei para o número português. E voltei a ligar. E voltei a ligar. E voltei a ligar. Só me atende uma máquina automática, que me desliga as chamadas quando não atingimos o que ela quer.
As pessoas a serem atendidas no check-in, a passarem por mim, e eu agarrada ao telefone, a tentar falar com um inexistente serviço de apoio ao cliente. Qual atendimento personalizado, qual quê. A senhora do check-in, vendo a minha aflição – e também a do casal espanhol que estava comigo, igualmente sem conseguirem entrar no avião, por causa da mala – mandou chamar um supervisor do aeroporto. Mas o supervisor nada conseguiu fazer. Se a Vueling não atende as chamadas (nem a mim, nem ao casal espanhol), e a minha reserva não existe – o que pode ele fazer?
O casal espanhol entretanto conseguiu resolver o seu problema – de alguma maneira conseguiram fazer passar a bagagem no check-in. E gradualmente todos se foram indo embora. O supervisor foi-se embora, a senhora do check-in foi-se embora, mais o seu colega. O check-in fechou, o avião partiu, e eu fiquei no aeroporto de Nápoles, às 10 e meia da noite, com as bagagens.
Isto não me está a acontecer. Nunca tal me tinha acontecido. Tantas viagens que fiz, ao longo dos anos, tantos voos que apanhei, de todas as companhias aéreas e mais algumas, e esta Vueling, na minha primeira experiência com esta companhia low cost – deixa-me apeada.
Respirei fundo.
Alguma vez hei de chegar a Lisboa, calculo que não me deixem morrer aqui em Itália.

Em primeiro lugar, tive que comprar o primeiro voo disponível, para Lisboa. A senhora do check-in recomendou-me ir ao balcão da Ryanair tratar disso. Não existe balcão nenhum da Ryanair. Não existe balcão nenhum, de nenhuma companhia aérea, neste aeroporto, vim a saber. Eis que o meu amigo Jaime – quem me ensinou o truque da canela, que eu referi na crónica 7 – entra em contacto comigo através do WhatsApp, e através de uma app que ele tem, identifica todos os voos que vão partir deste aeroporto, nas próximas horas: e efetivamente há um para Lisboa, da Ryanair, às 7 da manhã. Sentada numa cadeira do aeroporto, comprei este voo, no telemóvel. Era o último lugar disponível, neste voo. Comprei o último lugar disponível.

Em segundo lugar, preciso de carregar o telemóvel, pelo que procurei tomadas no aeroporto. O meu power bank já se esgotou. No posto das informações apontaram-me uma única tomada, a dois metros de altura, em que eu teria que ficar em pé, com o telemóvel no ar, na mão, à espera que ele carregasse. Fui perguntar por outras tomadas, e a senhora do posto de informações disse-me que talvez haja alguma no andar de cima. No andar de cima, o funcionário das limpezas disse-me que num canto do MacDonalds, onde as pessoas se sentam, existe uma tomada. E eu encontrei-a. São 11 da noite, está tudo fechado por esta altura, o aeroporto está quase deserto. Liguei o telemóvel à tomada e eis que vêm dois militares ter comigo, com uma metralhadora na mão – não posso estar aqui, tenho que ir embora. Ainda houve alguma dificuldade de entendimento – eles a falarem italiano comigo, e eu disse-lhes “Soy de Portogallo”. Isto é um misto de espanhol e italiano, mas eles perceberam-me. Talvez tenha surtido algum efeito, porque foram-se embora e eu fiquei ali, na mesma, a carregar o telemóvel. Mas nem durou dez minutos – e de certeza que foi por isso que os militares se foram embora – o aeroporto vai fechar, disse-me um segurança.
Olha, o aeroporto vai fechar, Rute Norte. Para onde é que eu vou agora, carregada com as bagagens?
Tal como eu, havia meia dúzia de pessoas assim – carregados com bagagens, todos apanhados de surpresa com esta notícia do segurança. Temos que ir para a rua? – perguntou uma rapariga. Pois, parece que sim.
Eu ainda ponderei ficar com essas pessoas, sentada à porta do aeroporto. Não fazia frio nenhum, estava uma temperatura amena. O aeroporto abre às 3h, disse o segurança. Mas o website do aeroporto diz que abre às 4. E depois pensei: então por causa do erro de uma companhia aérea, eu é que vou passar uma noite na rua? Daqui a pouco começo a ficar cheia de sono, a cabecear, e preocupada com as bagagens, sem poder perdê-las de vista. Não. O segurança disse que há um hotel aqui ao lado – e efetivamente vejo que é só atravessar a rua. Vou para este hotel e a Vueling vai pagar-me isto tudo. Vai pagar-me o bilhete da Ryanair, e vai pagar-me a noite no hotel.

Eu fiquei nesta cabine cor-de-laranja, desta foto acima. Fiquei na porta da direita. Na porta da esquerda é outro quarto. (De certeza que eu caibo ali dentro?…) 54,50€, é quanto custa uma noite nesta caixa de fósforos. 50€ é o preço da “cápsula”, como diz na fatura, e 4,50€ é uma taxa municipal de turismo.

Era quase meia noite e meia, depois de alguma espera na receção, porque haviam outras pessoas a serem atendidas, e depois de alguma discussão porque eu exigi uma fatura (e eles não queriam passar, o que é uma coisa maravilhosa) quando eu entrei nesta coisa minúscula, e me deitei tal como estava. Nem me descalcei. Nem tirei o quispo. Está tudo a acontecer-me pela primeira vez: uma companhia aérea que me cancela a reserva sem qualquer aviso, e uma noite num hotel em que eu nem sequer me descalço. Não quero saber de nada. Deixei o alarme do telemóvel para as 4h45. Às 5 tenho de estar no aeroporto. É só levantar e sair. Adormeci.

Dormi até às 4, hora a que fui à casa-de-banho, que fica a uns 20 metros da cápsula. Às 4h15 tocou o despertador do vizinho do lado, que deu tantos encontrões nas paredes, que eu não consegui dormir mais. Fosse quem fosse, não conseguia mexer-se lá dentro, e pelos vistos tinha malas para arrumar. Deu muitas cotoveladas e joelhadas nas paredes, e eu a certa altura cansei-me, e bati-lhe na parede a chamá-lo(a) à atenção. Eu ainda poderia dormir mais meia hora, se este bicho entalado me deixasse. Desisti, levantei-me e fui para o aeroporto.

Às 4h50 tinha o check-in feito. O avião partiu a horas. Cheguei a Lisboa às 9 da manhã de 2ª feira. Naturalmente que reclamei todas as despesas à Vueling, através do seu website, ainda mesmo antes do avião partir às 22h35. Responderam-me quatro dias depois: “O atraso do seu voo foi inferior a 3 horas. Por este motivo, lamentamos informar que não podemos dar seguimento ao seu pedido, uma vez que não é devida qualquer compensação.” Naturalmente que esta resposta não tem nada a ver com o meu caso. Abri imediatamente outro caso no website da Vueling, mas já ninguém respondeu. A fealdade do comportamento destas empresas é abismal, quando querem fugir às responsabilidades. Vim a perceber, posteriormente, ao telefonar para a linha da Vueling, que um funcionário, por lapso, enganou-se e cancelou a minha reserva. Avancei então para um centro de arbitragem, onde o processo está a ser acompanhado por juristas. 95% dos conflitos submetidos são resolvidos nestes centros de arbitragem. Se não forem resolvidos, passam então a tribunal. Quando isto se resolver, voltarei a esta crónica para atualizá-la.

***
Nota: Segue a atualização.
O Centro de Arbitragem de Lisboa apresentou o caso à Vueling Airlines em poucos dias, após trocar alguns emails comigo, e onze dias depois a Vueling procedeu à transferência bancária do montante total – voo da Ryanair e hotel.




Bom, mas vamos lá concluir isto. “Isto” – é a maravilhosa residência artística Frenkiel & Ponti, em Montenero Val Cocchiara.
Como se pode calcular – e depois de tudo o que mostrei nestas crónicas – creio que não existem dúvidas sobre a experiência enriquecedora que foi. É importante destacar o jantar diário, sempre realizado cedo: a partir das 19h encontrávamo-nos (por vezes até antes), o que nos permitia conviver, jantar e, antes da meia-noite, já estar a descansar, preparados para iniciar os preenchidíssimos dias bem cedo, sem perder um minuto. (Claro que há sempre quem fique a cantar até tarde, mas são outras formas de viver a mesma experiência…)
Regra geral, reuníamo-nos entre as 19h e as 22 ou 23h, o que representa três a quatro horas diárias de convívio, que se revelaram fundamentais para aproximar os artistas. Repare-se que cada um de nós tem a sua atividade: o escritor está no estúdio do escritor. O músico está no estúdio do músico. Eu estou no estúdio de pintura, com os meus horários próprios, nem sempre coincidentes com as restantes artistas visuais.
Também os dois passeios diários, com almoço incluído, promoveram momentos de grupo e fortaleceram a convivência. Contudo, a verdade é que, no dia-a-dia, cada artista tem o seu processo e trabalha sozinho. Assim, os seis jantares semanais foram essenciais: permitiram a aproximação entre todos, alimentaram as conversas, estimularam a troca de ideias e criaram um verdadeiro espaço de encontro artístico.

Apesar de eu já ter estado em Itália, tinha sido uma experiência muito breve, conforme contei, sem qualquer interação significativa com a população italiana. Desta vez consegui ir um pouco mais longe, nestes – mesmo assim, breves 14 dias. Fui muito bem recebida, muito bem tratada, e percebi a simpatia genuína existente nos calorosos italianos.

Fiquei com uma série de pinturas para terminar em Lisboa, e gostaria de prolongar estas sensações no tempo, e reproduzi-las na pintura. É uma incógnita, logo se verá. Pelo menos no meu coração ficarão.

E voltei com 1 kg a mais. Ainda assim, pensei que ia ser pior.

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