Dia 13 – A exposição final no fondaco Pietro Narducci

Hoje é sábado, 15 de novembro de 2025.
Despertar às 6h30.
Será um dia atarefado: vamos montar a pequena exposição, vamos receber os habitantes de Montenero Val Cocchiara, e alguns de nós temos que fazer as malas. De manhã ainda vamos de carro a Castel di Sangro.
Recordo, como explicado ao longo das crónicas anteriores, que esta exposição final foi totalmente improvisada e não estava prevista. Houve uma mistura de sugestões por parte dos artistas residentes: o Gabriel, o escritor residente, encontrou uma divisão vazia, debaixo de umas arcadas, e falou-nos dela, propondo-a como local para uma eventual exposição nossa. Depois a Karolina, pintora residente, foi abordada na rua por uma das responsáveis do museu, que a convidou a visitá-lo no dia da inauguração, nas instalações da biblioteca; e por seu turno a Karolina ficou com a ideia de que poderíamos expor na biblioteca. Por outro lado, eu cruzei-me por acaso com a Giuliana, outra das responsáveis do museu – cruzámo-nos na rua, no dia 9, e eu fiquei com o seu contacto do WhatsApp. Durante a inauguração do museu, percebemos que não havia espaço na biblioteca para montarmos uma exposição, porém conhecemos a dona do espaço onde tínhamos a ideia de expor – a Amalia – que gentilmente no-lo cedeu. O Lalo, o nosso músico residente, preparou um convite, digital, que enviámos à Giuliana através do WhatsApp – convite este que foi difundido pela Giuliana a uma série de habitantes de Montenero, num grupo que estes têm.
Foi uma sequência de acontecimentos, portanto, que acabou por dar origem a esta pequena exposição final, com a participação de alguns habitantes locais.
O espaço onde vamos expor tem um nome em italiano: é um “fondaco”. Um fondaco é essencialmente um armazém tradicional, por vezes ligado ao comércio e, eventualmente, com habitação associada. Aqui em Montenero Val Cocchiara, este fondaco era um espaço misto: o piso térreo era utilizado como espaço de armazenamento das colheitas – trigo, cevada, milho e batatas – e o piso superior era o espaço habitacional de quem aqui vivia. Neste momento está desabitado e sem iluminação, pelo que colocámos uma extensão longa, existente nos estúdios, desde estes até ao fondaco, que fica mesmo em frente aos estúdios.
Eu, a Tee e a Karolina teremos trabalhos nossos expostos neste fondaco. O Lalo irá tocar uma música sua, no seu violoncelo eletrónico, criada durante a residência. E o Gabriel lerá um excerto do texto que escreveu ao longo destes dias, em inglês, numa pequena encenação realizada com a Sara, recriando o diálogo que elaborou. Os dotes de atriz, da Sara, serão aqui revelados uma vez mais, como contei na crónica 6.

Castel di Sangro

O rio Sangro.

Os bombeiros, em Itália, chamam-se “Vigilantes do Fogo”. Em inglês são os “Firefighters.” Uns vigiam, outros combatem. Mas os bombeiros, pelo menos em Portugal, têm outros papéis. Também salvam gatos em árvores muito altas. Os gatos sobem e depois não conseguem descer. Também ajudam a arrombar uma porta quando alguém perde a chave de casa. Transportam doentes nas suas ambulâncias. Intervêm em inundações, ajudando a retirar água das casas. Tantas coisas que os bombeiros fazem, além de vigiar fogos. “𝐵𝑜𝑚𝑏𝑒𝑖𝑟𝑜”, em português, também é redutor: é “o homem da bomba de água” ou “operador da bomba” — alguém que bombeia água para combater incêndios.

Na loja da direita, a Fundação Frenkiel & Ponti comprou-me os materiais para expor: uma corda e molas de roupa, para eu pendurar as telas. Eu não fazia ideia que iria expor, e não vim de Portugal preparada com nada. Uma tela da Karolina será colocada num cavalete; no entanto a Tee veio preparada – ela trouxe as suas próprias cordas e molas.

Despedida da Karolina, que parte agora de autocarro para Nápoles. Tem uma longa viagem pela frente, de comboio. A Karolina veio de comboio, desde a Alemanha, e irá regressar de comboio também. Está apreensiva, porque há agora uma greve dos comboios, em Itália, e se ela perder o primeiro, perde todas as ligações seguintes.
Uma sombra de tristeza já paira sobre nós, por esta primeira despedida – amanhã seremos todos nós. O final já começou, com grande pena nossa.

Grãos com atum. Tudo o que está nesta mesa foi oferecido pela residência, incluindo a cebola picada.

A pintura azul já está terminada, mas não há espaço para ela, no fondaco. Vai ficar aqui no chão. Todavia vamos trazer cá os visitantes da exposição, para conhecerem o estúdio, e acabarão por vê-la também. As outras ainda não estão terminadas. E as restantes já as pendurei no fondaco. Fui ajudada pelo Lalo, que prendeu a corda da roupa a pregos que foi encontrando na parede.

O cartaz digital da exposição, criado pelo Lalo. Refere que o encontro está marcado para as 15h, na biblioteca. É um pouco difícil identificar o fondaco, para as pessoas saberem onde se dirigir, pelo que optámos pela biblioteca – e daí levaremos as pessoas connosco.

Giuliana Mannarelli, Marta Felice e Maria Di Filippo. A Giuliana e a Maria falam em francês uma com a outra, além de italiano. Connosco a falar inglês e espanhol, nesta biblioteca ouvem-se muitas línguas, hoje. E eu de vez em quando também falo português, que é para aprenderem.

Lalo Hernandez / eu / Giuliana Mannarelli / Fabrizia Criscuolo (que é de Nápoles, mas vive há muitos anos em Montenero) / Gabriel Sacco.

Tommasina Ioli / Maria Di Filippo / Giuliana Mannarelli / Fabrizia Criscuolo / Carla Scalzitti.

Ora aqui temos o nosso encantador fondaco. Deve ser a 17ª vez que o mostro, nestas crónicas, alguém ainda não o tinha visto?!… 🤭

Aqueles grampos de metal na parede, à esquerda, servem para ajudar a sustê-la, em caso de terramoto, explicou-me a Giuliana. Houve um sismo grave no Molise em 2002, que causou 30 mortes, a maior parte crianças, devido ao desabamento de uma escola primária. Há registos históricos de outros terramotos no Molise: por exemplo, em 1805, um sismo de grande magnitude causou milhares de mortos.

Foi Pietro Narducci quem edificou este fondaco, no ano de 1893. Esta placa fez-se para sua memória, diz.

Caro Pietro!
Escrevo-te do ano 2025.
Passaram-se apenas 132 anos, quase que nos cruzámos.
Espero que gostes da nossa exposição!

Ao centro está Enrico Rebeggiani, que é de Nápoles, mas tem uma casa de férias aqui. Trouxe duas amigas: uma delas é a que está à esquerda, nesta foto, e outra que veste umas calças laranjas (ou amarelo-torradas?).
No opúsculo de 2021, um dos livros publicados pela “Festa del Ricordo”, que apresentei no dia 10, entre as páginas 413 e 439 são entrevistados alguns napolitanos que têm casa em Montenero, desde a década de 1950 em diante.

De vermelho está a Laura, que apresentei no dia 2. É a pessoa que cuida das casas alugadas aos turistas, ou, agora, ocupadas pelos artistas residentes.

A Piera conseguiu voltar a Montenero, este fim de semana! Acabou de chegar. Irá ver a exposição, dentro de momentos. A Moka salta de contentamento, claro.

Uns visitantes noturnos que o Lalo encontrou, e andou a mostrar-lhes a pequena exposição. Já estão de abalada. E entretanto chegou o Pietro, à direita, que já tinha aparecido em fotos anteriores – mora ao lado da biblioteca. Fomos mostrar-lhe agora a exposição, e o Lalo ainda tocou um pouco para si.

A Sara encontrou este doce – o de baixo – no supermercado, em Castel di Sangro, e trouxe-o para nós provarmos. Não me lembro o nome, mas é delicioso, uma verdadeira gulodice que é difícil parar de comer. A Sara disse-nos que há muito tempo que não via este doce à venda, e que vem do tempo da sua infância.
O de trás é o “gianduiotto” um doce do Piemonte, uma região no norte de Itália, e que já apresentei no dia 10. É uma pasta feita com chocolate, açúcar, e uma percentagem generosa de avelã do Piemonte, famosa pelo aroma intenso e pela doçura natural.

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