Dia 12 – De bicicleta até ao Lago di Barrea
Hoje é sexta-feira, 14 de novembro de 2025.
Despertar às 6 horas.
Dormi nove horas entre as 21 e as 6. E teria adormecido mais cedo se não tivesse estado a investigar percursos para a bicicleta, para fazer hoje. Decidi que quero ir ao Lago di Barrea, mas não quero repetir os mesmos caminhos que já fiz. Tenho de repetir parte do caminho de Alfedena, que tem muito trânsito. Até ajuda ao Chat GPT pedi. Deu-me uma série de opções que eu já visitei, mas sugeriu visitar a povoação de Scontrone, que já o Luigi, o Vittorio e os restantes montenerenses me tinham sugerido, na praça. Em vez de ir para Alfedena, subo a montanha e vou para Scontrone. Depois a partir de Scontrone irei para o Lago di Barrea. Não há caminhos de bicicleta entre estes dois – Scontrone e Lago di Barrea – na aplicação do Maps.me. Só há a estrada dos automóveis, e um caminho para peões – e eu vou arriscar fazer este último, porque prefiro sempre ir pelo campo. Em último caso volto para trás, se não conseguir fazê-lo. Os caminhos para peões incluem escadas, por exemplo. Ou saltar cercas. Com a minha bicicleta de BTT, mais leve, frequentemente eu agarro-a e levo-a na mão (em vez da bicicleta me levar, levo-a eu a ela!), mas com esta elétrica, pesadíssima, isso é um esforço que certamente não será possível para mim. É um risco, portanto, seguir este caminho para peões – mas vou arriscar. Serão ao todo 22 km para lá, e outros 22 para cá.




Parto às 7h38 em direção à aldeia de Scontrone. De acordo com o perfil de elevação, o ponto mais baixo onde vou passar, está a 819 metros de altitude, e o mais alto – que é Scontrone, está a 1.039 metros. Recordo que Montenero Val Cocchiara está a 950 metros.
Repare-se que vou atravessar o rio Sangro.



O Pantano coberto de geada. Aqueles pontinhos no meio são cavalos.


Scontrone à vista!
Estão 10°C / 50°F e eu tenho as orelhas geladas. Não me lembro de isto alguma vez me ter acontecido; ando sempre de bicicleta no verão.







Enrico Melone – olha-me surpreendido, ao ver-me chegar na bicicleta. Do lado esquerdo da cerca tem cavalos seus, e do lado direito vê-se a cabeça do seu cão branco – outro urso polar – que ladra furiosamente.

Eu disse ao Enrico que tenho um tio em Portugal com o mesmo nome. Em português, claro – Henrique. O Enrico conta-me que a água congelou nas torneiras.
A aplicação Maps.me mandou-me sair da estrada e enveredar por este caminho de terra – muito lamacento daqui em diante – e o Enrico diz que não, que o caminho não está bom para a bicicleta, que é melhor eu ir pela estrada. Assim fiz.

Esta é a parte de baixo da povoação de Scontrone. Eu vou lá para cima, para aquela que se vê lá ao fundo.










Estas placas parecem ser muito informativas, mas calhava bem terem uma versão em inglês. Estão exclusivamente em italiano.





Estes gatos são alimentados todas as manhãs pelo Angelo, da foto abaixo. Eu vi-o sair de casa com a embalagem da ração deles, nas mãos, e os gatos já aqui estavam à espera de si. O primeiro está armado em rufia, a olhar para mim, e não vai comer a sua dose. Tendo eu cuidado de alguns gatos de rua, já tenho a escola toda. Só quer festas, este bicho armado em rufia.

A embalagem da ração está no muro, à esquerda. Tem uma mola a fechá-la. Os gatos estão atrás do Angelo, junto às escadas.

A Beatrice vai muito à pressa, mas lá arranjou uns segundos para tirarmos esta foto. “Sou muito bruta”, descreve-se ela. Qual bruta, qual quê, digo eu, e rimo-nos.


O Alberto.




Vem aí a Ambra, de 82 anos, com a sua neta; e atrás está um napolitano, que não fiquei com o nome – está aqui a fazer uma obra (aqueles ferros pertencem à obra). Foi ele quem me tirou a foto acima, com a vista atrás de mim.

O Giovanni e a Ambra.

E agora a parte difícil: um caminho pelas montanhas até ao Lago di Barrea. Ontem à noite, em Montenero Val Cocchiara, a aplicação Maps.me dizia-me que não existiam caminhos para bicicleta entre Scontrone e o Lago. Hoje já me dá este caminho – mas é o mesmo dos peões. Ou seja, hoje também já é caminho de bicicleta. Fiquei animada. Mas a minha animação não vai durar muito tempo.

Esta placa, no início do caminho, já tem duas línguas: italiano e inglês. Refere que aqui há um sítio paleontológico, com fósseis datados de há dez milhões de anos.

Aquela cruz é um bom prenúncio do que me espera. Aqui jaz RUNA, por ter seguido este caminho numa bicicleta elétrica.

Segundo sinal animador: o caminho diz que é próprio para bicicletas! Peões, bicicletas, cavalos e animais de companhia pela trela. Só que as letrinhas pequeninas, por baixo do desenho da bicicleta, dizem “BTT” – não dizem bicicletas maricas elétricas.


Aqui decidi largar a bicicleta e seguir a pé, para ver como é que o caminho continua. É sempre a subir, não vejo o fim. Aliás, no perfil de elevação do Maps.me (na imagem acima) vê-se que é uma subida gigante, e que depois é uma descida gigante. Isto a pé é muito fácil – fazer esta caminhada deve ser ótimo, mas a bicicleta derrapa perigosamente nas pedras. Eu vou a pedalar, e ela vai a patinar nas pedras soltas e quase me faz cair. Não tem pneus para este piso. E sendo pesadíssima, é só inclinar-se um pouco para o lado, e eu cairei, com o peso.
Não quero jazer em Scontrone – ou sei lá onde estou agora – nem os scontronenses querem que eu jaza aqui, pelo que decidi voltar para trás e seguir pela estrada dos automóveis. A minha contrariedade é grande.




Já são 11h e eu ainda estou a 17 km do meu destino. Pelas montanhas eram 9,6 km, pela estrada são 17.


A chegar a Alfedena, onde passei no dia 4, a caminho do Lago della Montagna Spaccata.





Voltei a mudar o percurso do Maps.me para “bicicletas”. Aborrece-me ir pela estrada, com os carros. Mas o Maps.me volta a indicar-me percursos próprios para bicicletas BTT – aliás, como é esperado. Cumpre com perfeição a sua função. Mas mesmo assim é um BTT puxadíssimo, para quem tem grandes bicicletas e grande treino. Fui espreitar este caminho, e é novamente inadequado para a minha bicicleta. Voltei a selecionar o caminho para carros, e voltei à estrada. Daqui a pouco anoitece e eu ainda nem cheguei ao lago, quanto mais regressar.
Deixo a nota de que existem bicicletas BTT elétricas, poderosas, que fariam estes caminhos sem problemas nenhuns. Andei a vê-las numa loja especializada, em Lisboa – chegam aos 8 e 9 mil euros. O pior é que não podem ser transportadas num avião – ou pelo menos a bateria não pode. Não é permitido. Eu fiz uma investigação aturada sobre isto, há 4 ou 5 anos atrás, e cheguei a contactar um dos fabricantes de baterias, que me enviou a documentação delas. A bicicleta (pesadíssima) teria que ser transportada separada de mim. Comigo no avião é praticamente impossível, não consigo carregar com tal peso, dentro de uma caixa, sozinha, mais as bagagens. Na altura investiguei o transporte para o Japão. E vocês podem preguntar-me: e porque não alugas lá uma, no Japão, é preciso levá-la de Portugal? Pois sim, contactei uma dúzia de agências no Japão, e aquela gente só tem bicicletas elétricas de estrada. O Japão é um país altamente desenvolvido, tem quase tudo alcatroado, parece que nem conseguem conceber que hajam turistas que querem todo o terreno, querem só campo e florestas, como eu. Se é que isso é possível, no Japão, com tanto alcatrão. Foram muitos dias de estudo, podem crer que fiquei a par de tudo, e dos preços extraordinários de transportar uma bicicleta elétrica para lá, desde Portugal. “É capaz de ficar mais caro do que a bicicleta” – disse-me uma senhora, de uma transportadora, que me atendeu. Eu ri-me. Não, estas bicicletas são alguns milhares de euros. Pois, e o transporte também, concluímos, depois de ela me dar o preço.






Lago di Barrea à vista! É meio-dia.

Foi um casal de turistas italianos quem me tirou esta foto. Eu já estou vermelha, e com o quispo todo desarranjado, este lago está a dar-me luta.






Creio que vi o trilho dos caminhantes que termina no lago. Vinha da montanha e tinha as mesmas pedras brancas. Os caminhantes têm aqui um paraíso para passear em cenários grandiosos. Esqueci-me deste pormenor dos ursos – no meio das montanhas há ursos.



São 12h40 e cheguei ao meu destino! Lago di Barrea!


O Lago di Barrea situa-se no coração do Parque Nacional de Abruzzo-Lazio-Molise, na província de L’Aquila, região dos Abruzos. Foi criado de forma artificial através da barragem do rio Sangro, realizada em 1951/1952 — isto fez do lago um reservatório, originalmente pensado para produção hidroelétrica.


São 12h50 e tenho 25 km pela frente. Os 38 minutos ali indicados é para carros – este percurso é para carros. O meu telemóvel está com 45% da bateria, mas eu trouxe um power bank, está nos alforges. De qualquer forma, indo pela estrada, acho que já nem preciso do GPS, o caminho é sempre em frente até Alfedena.
Não sinto fome nenhuma – não trouxe comida nenhuma comigo, mas teria comido qualquer coisa na vila de Barrea, se tivesse fome. Ando tão bem alimentada nestas terras italianas, que o organismo está tranquilo, nem me pede combustível.



Vou em andamento, a 31 km/hora (19,3 mph) e a bateria da bicicleta só perdeu dois traços. Ainda tenho três traços. Estou numa reta, como se vê ali no GPS.


Já estou em Alfedena novamente, e deparo com este grupo sentado à beira da estrada. Claro que parei e meti-me com eles. Desta vez não fiquei com os nomes de todos – mas apenas o do Pino, com o telemóvel no ar, que é casado com a senhora que está em pé em cima do banco. São todos daqui exceto o Pino, que é de Roma, mas a sua mulher é aqui de Alfedena e têm em casa aqui. Têm um filho nas Canárias, disse-me. Ficaram com o meu Whatsapp para eu lhes enviar esta foto, e entretanto estão todos a acompanhar estas crónicas, acho eu! Adeus a todos! 😄👋


A chegar a Montenero Val Cocchiara. A torre bicuda ali à esquerda – é para onde vou.

São 14h33 e eu ainda tenho um traço na bateria da bicicleta. Desde as 7h30 que estou a andar. A bateria aguentou 7 horas em percursos exigentes, com muitas subidas, e andei sempre na potência máxima: nível 5.

Só me apetece fruta. Vou comer estas cinco maçãs, a tangerina e o iogurte.

Só por via das dúvidas, eu recordo que estou cheia de comida. Se não como, é porque não me apetece. Tenho queijo, presunto, manteiga e pão no frigorífico. Mais a comida que eu trouxe: figos secos e nozes, bolachas, um chocolate, uma embalagem de frutos secos que ainda está selada.
Está bem, apetece-me também as amêndoas e o açúcar, ali do torrão macabro. (Quem não leu a crónica 8, não percebe o que eu estou a dizer. Pronto, eu vou dizer em italiano: o torrão 𝘮𝘰𝘳𝘣𝘪𝘥𝘰).


São 18h33 e desta vez não passei pelo estúdio, hoje já estou muito cansada.
Hoje há novamente uma meditação em casa do Lalo e do Gabriel, orientada pelo Lalo, à semelhança do que fizemos no dia 4. E hoje temos uma visita: o Emiliano Ramaioli, que é aqui de Itália, de Pavia, e que estava a passar umas horas em Montenero. Encontrou a Sara e a Karolina no Pantano e decidiu ficar uma noite. Vai fazer a meditação também e vai jantar connosco.
Eu estendi-me prontamente na carpete – nesta altura do campeonato, eu medito tudo o que quiserem, quantas horas o Lalo quiser, ao som da sua suave música. Sete horas de bicicleta, foi um belo dia.





O Giuseppe foi-se embora hoje de manhã, e quem ficou a tratar do jantar foi a Sara. A Moka esconde-se atrás das suas pernas. Não aceita mais ninguém.




Também foram servidas almôndegas feitas pelo Giuseppe. Melão e chocolate. O esparguete levou algum tempo a fazer, na frigideira, e ficou muito bom.

O Emiliano está a estudar Arquitetura Paisagista na universidade, e de momento anda a viajar uns dias por Itália, de carro. Terá que regressar em breve, para as aulas. Já esteve várias vezes em Lisboa, disse-me, algumas a fazer surf.



