Dia 9 – Conhecendo as gentes de Montenero Val Cocchiara / tarde de pintura
Hoje é terça-feira, dia 11 de novembro de 2025.
Hoje quero ir conhecer as gentes desta aldeia, vou ficar por aqui – sempre na bicicleta, claro.
Despertar às 7h30 – atrasei uma hora, o despertador, porque acordei às 4h20 com as duas meninas – Karolina e Sara – a cantarem com todas as forças que os vinte e tal anos de idade permitem. Estão na casa ao lado. Ouvi as músicas, e constatei que esta nova geração ouve as músicas que estiveram na berra antes mesmo de elas nascerem. Os sucessos da Cindy Lauper, por exemplo, dos anos 1980 ou 90. A Cindy Lauper nasceu em 1953, tem hoje 72 anos de idade – e como ela influenciou tantas gerações – e continua a influenciar.
Às 5h20, as duas meninas lá se deram por vencidas e foram dormir. É próprio da idade, eu fazia o mesmo, há que ter paciência. Só lhes disse mais tarde que acordei – e inclusivamente com conversas que eu consegui ouvir claramente, porque elas estavam com a janela aberta – a Sara que me permita, a sua conversa é bonita e posso contá-la aqui: a Sara quer viajar pelo mundo, e conhecer uma alma-gémea que goste das mesmas músicas. Bom, é uma visão romântica. E a verdade é que eu tenho tido alguma dificuldade com esta questão das músicas, dado os meus gostos serem um pouco diferentes das preferências mais convencionais. A última vez que me atrevi a pôr música para todos, numa viagem, foi na Austrália, em 2007. (Alguém se lembra das crónicas da Austrália, entre os meus leitores?!…). Éramos um grupo pequeno e calhava a cada um colocar a música que quisesse, no minibus onde viajávamos. Quando calhou a minha vez, eu coloquei as músicas do meu iPod, pois claro. Rapidamente fui expulsa da minha função de DJ. Nunca mais me esqueci disto. Gramei horas e horas da música daquela malta, que ia rodando à vez, sem eu ter interesse nenhum naquilo. Passo a citar a crónica 15 da Austrália, que nunca cheguei a publicar no meu website, só enviei por email a algumas pessoas, em 2007:
“Julgo que ainda nem trinta minutos tinha, no pódio, quando fui expulsa do meu posto de disc-jockey. Ouviram um pouco de György Ligeti com Steve Reich, no álbum “African Rhythms”, e este até passou (todos caladinhos), mas quando chegou ao Silk Road Ensemble, projeto iniciado pelo violoncelista Yo-Yo Ma em 1998, e o qual promove a colaboração entre artistas e instituições, bem como o intercâmbio cultural ao longo da “Rota da Seda”, foi o descalabro. Já nem me lembro do que estava a dar, mas era uma música tradicional do Turquemenistão, ou do Quirziguistão, ou sei lá de onde. Foi a rebelião geral dentro do minibus. Disseram que parecia que um gato estava a ser esfolado, e eu estava a ver que ainda me linchavam. Nunca mais tive direito a exercer o cargo de disc-jockey. O pior mesmo foi terem dito que não queriam ouvir música tradicional portuguesa. Tive de elucidar a rapariga de que a música era asiática.”


Ao fundo, o Pantano, coberto de neblina.



Repare-se que o passageiro do lado vai bem agasalhado!


Estava eu a fotografar as lindas flores desta casa, quando a Lerina aparece. É a sua casa. Não quis fotos, fugiu. Explicou-me qualquer coisa em italiano, algo sobre a roupa secar naquele espaço para onde ela vai, porque fica a cheirar melhor.






O Gabriel meteu-se por este caminho e descobriu que ali à frente à direita há uma divisão vazia, em cimento, aparentemente abandonada, e propôs-nos a todos fazer uma exposição final ali. Logo veremos.







Estava eu parada a tirar fotografias, quando aparece a Rita.


E depois aparece o Emídio, o seu marido.

Convidaram-me para tomar um cafezinho, e eu aceitei, claro.


A Rita tem 64 anos e o Emídio 77, e estão casados há 46 anos. Têm uma filha com 43 anos, e um filho com 45. O filho deu-lhes até agora cinco rapazes netos. A filha deu-lhes duas netas. Nesta foto faltam dois netos, um de 16 e outro de 18 anos, explicam-me.


Estávamos a conversar há algum tempo, quando aparece o tio da Rita – Andrea.

O Andrea nasceu em 1934, tem 91 anos de idade. Trabalhou em França, contou.
Eu estive quase uma hora em casa da Rita e do Emídio, entre as 9h45 e as 10h45, a conversar muito lentamente, porque não percebo todas as palavras do italiano. O Emídio fala algumas palavras em inglês, porque trabalhou uns tempos num hotel, disse-me. E eu ainda traduzi algumas coisas na app do Tradutor Google, no telemóvel.
Trocámos de moradas – a Rita e o Emídio pediram-me para eu enviar-lhes um postal de Portugal. Tenho de tratar disso; ainda não o enviei desde que cheguei, há poucos dias.

Depois de partir na bicicleta – nem tive tempo de fotografar a rua novamente – dei logo de caras com o Giovanni, na sua oficina, na mesma rua da Rita e do Emídio.

O Giovanni tem 81 anos. Nasceu e sempre viveu aqui em Montenero Val Cocchiara.

E entretanto chega o Giuseppe, o seu vizinho, também com 81 anos.

Tentámos todos tirar uma foto com o Luigi, mas este não quis nem por nada. Teve de ficar sozinho na foto.

Ainda esteve aqui outra pessoa, de carro, e que é limpa-neves – disseram-me, e que veio deixar aqui o Luigi. E agora o Giovanni vai levar o Luigi no seu carro, algures, acho que é a Alfedena, se bem me recordo. Éramos cinco pessoas a conversar na rua, portanto, durante uns breves minutos.







Agora conheci a Elsa, que estava a passar e viu-me a tirar fotografias.


A Giuliana vinha a subir a rua, com um saco de compras na mão. Eu estava parada, na bicicleta, a olhar e a tirar fotografias, como é hábito, e esperei que a Giuliana subisse a rua – teria inevitavelmente que passar por mim. “A bicicleta não anda?” – perguntou-me. Eu ri-me. “Anda, estou apenas a descansar” – respondi-lhe. Uma pequena mentira, porque estou mais do que descansada. Tenho outras duas fotos – porque programei a máquina para nos tirar três – e a Giuliana conseguiu pestanejar em todas elas, e ficar de olhos fechados. O saco de compras ficou atrás da máquina fotográfica. Conversámos uns minutos: a Giuliana nasceu e vive aqui em Montenero, mas fala um espanhol perfeito – e disse-me que vai inaugurar um museu, amanhã às 16h, na biblioteca, para eu aparecer e levar os restantes artistas da residência. Ela e um grupo de outras pessoas aqui da aldeia são as responsáveis pela criação deste museu, dedicado a Montenero Val Cocchiara. Claro que vou, respondi-lhe, e divulgarei. (A biblioteca fotografei-a logo no dia 2, fica ao lado da casa onde estou alojada).


Agora conheci o Nicola, à esquerda, e o Albino, à direita. O Nicola é venezuelano e trabalha aqui há 7 anos, para o Albino. Este, por seu turno, é o dono desta queijaria, à esquerda. Vê-se um pouco da bancada com os queijos à venda, por detrás da rede. O Albino explicou-me o significado da placa de madeira, na parede: “Caseificio aziendale” significa queijaria da própria exploração agrícola, ou seja, é um caseificio (queijaria) que produz queijo utilizando o leite produzido aqui mesmo em Montenero Val Cocchiara.
Como o Nicola fala espanhol, o Albino aprendeu também a falar espanhol, e assim explica-me as coisas em espanhol. Quando faltava alguma palavra, o Nicola ajudava.

Estávamos nós tão bem comportados, tão direitinhos para a foto, e chega a Giusi – che è venutɑ ɑ scombussolɑre tutto. Significa isto, em bom português: que veio destrambelhar isto tudo 🤭



Da esquerda para a direita:
Eu; Giusi; Albino; Christian; Enrico; Pasquale; Guido.
(Acho que não me enganei!)

A Piera vem aqui comprar os queijos, disse-me o Albino. Pois, são agora facilmente reconhecíveis, aqueles lá atrás.


Agora sigo a carrinha do Albino, que vai mostrar-me os seus animais, que vivem junto ao Pantano. Perguntou-me se eu queria ir pelo caminho mais curto, ou pelo mais longo. Eu escolhi o mais longo, com 6 km. A Piera já me tinha sugerido este caminho mais longo, na bicicleta, e eu já tinha tentado fazê-lo – entre o Pantano e a aldeia, no entanto fui perseguida pelos cães das quintas, pelo que dei meia volta e fugi, não cheguei a fazê-lo. Agora, atrás da carrinha do Albino, os cães só deram conta de mim quando eu já estava a passar, e perseguiram-me na mesma, e eu dei-lhes um berro. Nem o Albino nem eu parámos, claro, foi sempre a andar, e os cães acabaram por largar-me. São perigosos, os cães, porque uma dentada não mata ninguém, mas a perna e os músculos podem ficar com sequelas chatas para o resto da vida, como eu já soube de alguns casos.
Esta fotografia tirei-a em andamento, na bicicleta.

Este é do Albino e está preso, coitado, vê-se um pouco da corrente entre as patas dianteiras. Parece ser meigo, este lobito.

Este é um dos cavalos da raça Pentro, do Albino. Outros dois vamos vê-los nas fotos seguintes, e ainda há outro à solta no Pantano, no meio dos cavalos selvagens. Anda lá com eles, livremente. Há vários cavalos com donos, em Montenero Val Cocchiara, que andam livremente no Pantano, misturados com os selvagens.

Esta raça – Pentro – só existe aqui em Montenero Val Cocchiara.

Lindos cavalos da raça Pentro, pertencentes ao Albino.

É um boi, não é uma vaca.

O Albino diz-me para eu ter cuidado com a corrente elétrica.


Vai dar soro de leite aos porcos. Estes grunhiram imenso, foi uma gritaria enorme, porque queriam todos chegar ao mesmo tempo, ao soro. Empurravam-se uns aos outros. Mas o soro vai correr durante muito tempo, chega para todos, e alguns até irão banhar-se nele.





O Albino disse-me que havia um talho em Montenero Val Cocchiara, mas que fechou há três anos. Agora só há em Castel di Sangro. Nasceu apenas um menino este ano, 2025, na aldeia. No ano passado, nenhum bebé nasceu. O Albino tem uma filha de 35 anos a viver na Alemanha, e uma neta de três anos. Eu perguntei-lhe se ele vai de férias, se é possível deixar alguém a tomar conta dos animais. Ele respondeu-me que o irmão vive aqui em Montenero, e que poderia ajudá-lo, mas o Albino não quer ir de férias, não tem paciência. Como assim? – perguntei-lhe eu. Há de haver algum lugar no mundo que seja agradável, que vá de encontro aos seus gostos! O Albino respondeu-me que tinha (ou ainda tem?) uma mota, e que já fez um circuito de mota pela Europa, com amigos. Também esteve no México, nos EUA, e numa série de outros países que nem consegui fixar.
Tenho aqui um concorrente das viagens, afinal. Será que algum dia eu vou dizer que não quero viajar mais, porque não tenho paciência?… Nunca se sabe o que o destino nos reserva.

São 13h57 e eu vou para casa, almoçar. O Albino ficou lá, junto aos seus animais. Daí iria para casa também, disse-me.

A casa onde eu estou alojada, bem como os estúdios, ficam ali ao pé da torre bicuda. Ainda bem que tenho uma bicicleta elétrica para subir isto tudo.

Mas ainda tenho outra paragem inesperada – a casa do Luigi, com quem já me cruzei nas crónicas 4 e 9. O Luigi é o dono daquela bicicleta elétrica amarela, e mora aqui. Estas são as suas netas: de quispo branco é a Flavia, de quispo preto é a Carola.
A cadelinha branca é a Bianca. Ainda há um cão castanho que fugiu da foto, e que se chama Johnny, disseram-me as meninas. A Bianca não teve possibilidade de fuga.
O Luigi disse-me para eu aparecer amanhã entre o meio-dia e a uma, naquela praça onde perdi os óculos de plástico transparentes. Estarão lá todos, e pode ser que alguém os tenha visto.


A Kina.


São 3 da tarde. Só me apetece as tangerinas e os tomates. Quero ir pintar!













Hoje só me apetece pintar com castanho. Terra. Quero tudo castanho. E voltei ao óleo. Misturei-lhe um secante, para ver se consegue estar completamente seco antes da residência terminar, no domingo, dentro de cinco dias. Mas o quinto dia já não conta – porque parto de manhã, e tenho que empacotar tudo no sábado. Não convém as pinturas ficarem todas coladas umas às outras, dentro da minha mala.
Deixo portanto as pinturas em acrílico para os próximos dias. A Karolina, como não trabalha a acrílico, e usa camadas espessas de óleo, já teve que parar de pintar. Irá partir no sábado, ademais.

Ainda pintei três horas, bem bom, até às 18h35.




Caserella e fagioli, uma preparação rústica desta região do Molise. É uma sopa ou guisado de feijão enriquecido com pele de porco, ossos e carnes pobres, típica da cozinha camponesa. É daqueles pratos que alimentavam os trabalhadores agrícolas durante o inverno e são comuns em regiões pobres onde nada se desperdiçava do porco.
Acho que este foi dos meus pratos preferidos, durante toda a residência (se é possível escolher algum prato preferido, entre tantos, tão bons). Repeti três vezes. Foi o Giuseppe quem cozinhou, claro. Tempera-se com azeite já depois de estar no prato, ensinou-nos.
Na panela ao lado está outra receita, vegetariana, para a Tee, que é vegan. Todas as noites a Tee teve um prato ligeiramente diferente do nosso.




O Giuseppe contou que recomendou ao Albino colocar uma cerca elétrica, e que este não quis, disse que bastava uma cerca alta. Então os ursos entraram na mesma e comeram os porcos. Mas os ursos só comem a parte mais tenra e deixam o resto, explicou-nos.




