Dia 8 – De bicicleta até ao Lago di Castel San Vincenzo / tarde de pintura

Hoje é segunda-feira, 10 de novembro de 2025.
Despertar às 6h30.
Hoje tracei um destino na bicicleta, depois de investigar no mapa: Lago di Castel San Vincenzo, um lago de águas turquesas, no meio das montanhas, que fica a 18 km de distância.

Também trouxe o “Multicentrum” comigo – o suplemento alimentar. E agora misturo mel também, nos cereais, para ganhar pujança. A bicicleta é elétrica, mas se eu não pedalar, a bateria não funciona. E nas subidas é necessário fazer alguma força. Como aqui é só montanhas – subir e descer constantemente – são percursos relativamente exigentes, que requerem alguma forma física, mesmo tratando-se de uma bicicleta elétrica.

Parto às 7h55.

A Kina.

Montenero Val Cocchiara.

Os magníficos Apeninos, a cadeia montanhosa longa e contínua que atravessa Itália de norte a sul. Têm cerca de 1200 km de comprimento. Os Apeninos são o eixo que molda a identidade física de Itália: influenciam rios, agricultura, vinhos, microclimas, arquitetura vernacular e até dialetos. Arquitetura vernacular é a arquitetura tradicional de uma região, criada pelas próprias comunidades locais, sem arquitetos formais. Usa materiais disponíveis no lugar e adapta-se ao clima, ao relevo, às necessidades práticas e às tradições culturais de quem aqui vive. É o caso da aldeia de Montenero Val Cocchiara, com as suas típicas casas de pedra.

Estou a entrar no Parque Nacional de Abruzzo-Lazio-Molise. O lago fica dentro deste parque.

O “Apenino Bike Tour” é um itinerário de cicloturismo que percorre a cordilheira dos Apeninos, de norte a sul de Itália, cobrindo cerca de 3100 km. Vejo na internet que existem estações de paragem e recarga para bicicletas elétricas, aproximadamente de 70 em 70 km. Que maravilha!

Eis a Filomena, do outro lado da estrada, a olhar para mim. Neste momento eu ainda não sei que a Filomena se chama Filomena, mas nos próximos segundos vou já saber.

Esta é a casa da Filomena, que me convidou para tomar um cafezinho. E eu aceitei.

Este é o filho da Filomena, que se chama Mimmo. Trabalha em Montenero Val Cocchiara: é motorista do autocarro escolar. E ao seu lado está um dos nove gatos da Filomena.

A Filomena tem 81 anos, disse-me.

Agradeci-lhes a simpatia e despedi-me. Aqui eu já estava na estrada, relativamente distante, prestes a partir, e com o zoom da câmera ampliado. Eu devia ter acenado, para o Mimmo e a Filomena perceberem quando a foto estava a ser tirada. Ficaram a olhar para mim, enquanto eu focava a câmera, muito sérios.

Repare-se que os sinais indicam que o desvio é interdito a motas e bicicletas. Eu nem vi isto; mas o desvio, que se prolonga apenas por uns 150 metros, é uma estrada perfeitamente normal, alcatroada. Não vi qualquer impedimento para uma bicicleta passar. Nem ninguém me disse nada. Por onde seria o caminho?… Pelo meio das árvores?…

Aqui estão o Pino e a Maria, a apanharem a azeitona.

E esta é a sua cadelinha, com 14 anos de idade. Está ali com um problema de saúde.

A Maria e o Pino disseram-me que deverão levar 4 dias para fazer esta apanha manual da azeitona.

Ei-lo, o belo Lago di Castel San Vincenzo! São 10h15.
Este lago está a 783 metros acima do nível do mar, e situa-se na província de Isérnia, na região do Molise (tal como Montenero Val Cocchiara). É um lago artificial: foi criado na década de 1950 para alimentar centrais hidroelétricas, mas hoje é um local de lazer bem integrado na paisagem. O Lago della Montagna Spaccata, que visitei na crónica 4, também é artificial: foi criado por uma barragem, ou seja, formou-se porque se construiu uma barragem que reteve a água e inundou a área.

Repare-se que, quer o portão, quer a bicicleta, ambos têm uma corrente de cadeado. Todos os acessos ao lago estão fechados com esta cerca de madeira, o que considero bizarro. Então não podemos chegar ao lago?! Quem é que manda neste lago? Alguém manda no lago? Fiz não sei quantos milhares de quilómetros, desde Portugal, e mais não sei quantos quilómetros, montanha acima, montanha abaixo, na bicicleta, para chegar ao lago – e agora não posso chegar ao lago? Oh meu amigos… Estes humanos têm a mania que são donos da natureza e do planeta. Eu já vos mostro se vou ao lago ou não. Esta também parece ser uma cerca um pouco pusilânime, não? Quase que lhe ouço a vozinha a gritar: “Passa-me!…”

E deixei a bicicleta com o cadeado – que nem sequer ficou preso à cerca. Alguém bem que pode tentar correr carregado com estes vinte e tal quilos, que eu hei de conseguir apanhá-lo.
A água não está muito fria!

O regresso é um pouco maior, são 20 km. No perfil de elevação vê-se que o ponto mais baixo onde vou estar, fica a 601 metros de altitude; e o ponto mais alto fica a 1085.
O meu destino, Montenero Val Cocchiara, está a 950 metros de altitude.

Bravo!
Esta ciclista depois voltou para baixo, e eu acenei-lhe. Ela acenou de volta. Aquela bicicleta é muito leve, com pneus finos, para alcatrão, mas mesmo assim exige muito treino, subir estas montanhas.

Estou a gostar destas terras italianas, está visto.

Volto a encontrar-me com parte do grupo da crónica 4, quando eu andava perdida e me indicaram o caminho para casa. Hoje trato de saber os nomes: Luigi, na bicicleta elétrica amarela, o Vittorio ao meu lado, e no centro, o Franco.

Entretanto fui-me embora, e enquanto fazia esta enorme subida, fui pensando que não tinha os óculos postos, na cara. Os óculos transparentes, de plástico, da bicicleta. Será que estão no bolso no casaco? Será que os pus na bolsa da cintura?
A subida é tão íngreme, que eu não quis parar para verificar. Se eu parasse, seria um sarilho para arrancar novamente. A primeira pedalada é pesada, ainda leva um segundo ou dois até a assistência elétrica funcionar. É como carregar um elefante e ainda me arrisco a cair.
Resultado: depois de fazer a subida toda, constato que deixei os óculos lá em baixo, no chão. Toca a descer tudo, antes que passe um carro e os pise.
Quando cheguei aqui abaixo, já não estava ninguém, e andei à procura no chão – são transparentes, passam perfeitamente despercebidos – mas não os encontrei. Talvez o Luigi, o Vittorio ou o Franco tenham dado conta deles, e os tenham guardado. Sabem que eu estou nas casas onde a Laura trabalha; se os acharam, talvez eu consiga reavê-los. Os óculos fazem-me muita falta, por causa dos mosquitos e partículas de terra nos olhos, em andamento.

São 13h54. Trouxe uma lata de atum, de Portugal – é verdade, ainda trouxe uma lata de atum que vai desenrascar-me esta bela refeição -, e piquei uma cebola. Tudo é oferecido pela residência, com exceção da lata de atum e do chocolate, que eu trouxe de Lisboa.

Estou a pintar com tinta acrílica, e com um médium retardador de secagem. Mas isto não me agrada, parece que estou a pintar com a papa do Nestum. (Ou com a papa do Plasmon, em Itália!).

Pintei 2 horas e meia, até às 17h30.
Dois sinos foram tocando ao mesmo tempo, muitas badaladas, uma música.

A residência ofereceu-nos novos alimentos, entretanto: mais atum, a meu pedido, e o resto por iniciativa própria. A simpatia de um torrão “𝘮𝘰𝘳𝘣𝘪𝘥𝘰”. Mal sabem os italianos o que significa “𝘮𝘰𝘳𝘣𝘪𝘥𝘰”, em português. Vou comer um torrão macabro! Mas nas artes, todavia, significa uma “pintura ou escultura delicada” – só pode vir do italiano.

Eis o Giuseppe, o pai da Piera, que chegou esta tarde de uma das ilhas da Sicília. Mas o Giuseppe também mantém casa em Nápoles, pelo que percebi. É o único filho do casal Frenkiel e Ponti. Por seu turno, teve duas filhas: a Piera e outra mais nova, que não chegámos a conhecer. Contou-nos o Giuseppe que quem teve a ideia de criar esta residência artística foi a filha mais nova. E que depois os colocou aos dois – o pai e a irmã – a trabalhar nela. Todos nos rimos.
O Giuseppe tem um doutoramento em Filosofia, mas deu aulas de Economia na London School of Economics. Teve uma série de negócios, nomeadamente bares, e também uma cadeia de pizzarias, inclusive em Brighton, onde a Tee vive, em Inglaterra. Entretanto começou a dedicar-se à agricultura. “Passei de playboy a agricultor” – disse-nos. Todos nos rimos novamente.

Cannellonis com carne. Também foi servida uma salada com um azeite muito bom. Quando o azeite é muito bom, não se põe vinagre – ensinou-nos o Giuseppe.

Ao lado esquerdo está uma garrafa de nocino, um licor italiano tradicional feito a partir de nozes verdes. As nozes são maceradas em álcool, juntamente com açúcar, casca de limão, canela e outras especiarias, dependendo da receita familiar. Depois de vários meses a repousar, o resultado é um licor forte, com cerca de 40% de álcool, muito perfumado e com sabor a noz. Normalmente bebe-se como digestivo, depois da refeição. Provei-o, é bom e fortíssimo.

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