Dia 5 – Dia inteiro de estúdio
Hoje é sexta-feira, 7 de novembro de 2025.
Acordei às 7 horas com os sinos a tocar durante muito tempo.
Entrei no estúdio às 8h30 e saí às 19h10, com uma breve interrupção para almoçar.
Os dois sinos tocam constantemente, a toda a hora, é uma festa em Montenero Val Cocchiara. Hoje tocaram às 12h21, por exemplo, e outras horas estranhas.




Estou com um ar ensonado ainda.



São 12h46.

Nesta prateleira, na minha cozinha, tenho uma série de coisas que ainda nem vi com atenção. Azeite, tostas, café, chá, sal, açúcar, bolachas, mais esparguete, e outras coisas que eu nem sei o que são.

E estas são as garrafas de vinho que tenho na minha casa. As duas da esquerda estão no frigorífico, e as da direita estão nas prateleiras dos livros – vêem-se as cinco garrafas na crónica do primeiro dia, quando cheguei a esta casa e fotografei tudo. Este pessoal quer embebedar-me! E não falta ali um Porto, ao centro.

Também me deixaram estas duas Coca-Colas, água com gás e uma bebida de aveia, que se vê no dia 1 (que eu não gostei e levei para a casa da Piera, para quem quisesse bebê-la). Até gosto bastante de água com gás, mas esqueci-me completamente de bebê-la, durante a residência. Tinha que tirá-la do frigorífico, e nunca me lembrei de tal. Vai ficar tudo como está, exceto uma lata de Cola, que vou beber agora à sobremesa. Mas não consegui acabá-la.

Finalmente comi a maçã que trouxe de Portugal. As outras quatro, da residência, ali ficaram. Ainda fui buscar mais duas tangerinas à porta da Piera. Pus o presunto na mesa, mas não o comi. E lá comi um bocadinho de pão, molhado nos ovos estrelados. Aqueles tomates com sal são deliciosos, muito doces.

São 16h50.



Hoje tive que iniciar novas pinturas – a acrílico, porque as de óleo levam muito tempo a secar, e ainda a residência termina, sem eu ter saído da fase inicial. Encontrei um frasco com um médio retardador da secagem do acrílico, nas prateleiras, e estou a usá-lo. O acrílico seca demasiado depressa, não me dá tempo de nada, por vezes stressa-me até, mas com este retardador sempre ganho alguma margem de manobra. Mas é desagradável, parece que estou a pintar com gel. O calor e lentidão do óleo agradam-me muito mais. Não é só uma questão sensorial – que só por si é decisiva – é uma questão de fluidez. O óleo é uma matéria quente e maleável, que me traz tranquilidade e conforto. É a docilidade da tinta, que se deixa puxar, estender e corrigir. Dá-me tempo para trabalhar a superfície com calma, oferece um tempo operacional muito superior ao do acrílico. Por isso passo horas a pintar apenas os fundos, de uma só cor – algo que parece tão básico e rápido, como posso eu ocupar cinco horas só nisto? – podem perguntar-me. Pois, se calhar não é assim tão rápido, para ficar como quero. Além do mais, gosto de ter margens brancas à volta, o que me contém o ímpeto do gesto, que não pode ultrapassar essas margens. Tenho que pintar lentamente. Também poderia usar fita (aquelas fita-colas que se arrancam no final, quando a pintura está seca, e a pintura fica muito certinha, parece feita com uma régua), mas isso é coisa que me desagrada totalmente, nem quero ouvir falar em tal. Nada substitui a ondulação suave e a incerteza da mão humana. Não quero nada maquinal – quero todas as minhas hesitações e fragilidades ali espelhadas, nas minhas pinturas.
Se não pinto tudo a óleo, logo desde as primeiras camadas, é apenas porque preciso de avançar nas pinturas, e não posso estar eternamente à espera que elas sequem. Ou então teria que ter um estúdio gigante, em Portugal, para avançar noutras, enquanto as primeiras secassem. E nestes 14 dias da residência Frenkiel & Ponti, convém despachar-me. Não há obrigatoriedade nenhuma de apresentar obras no final – isto é muito importante referir. A Fundação Frenkiel & Ponti tem uma filosofia muito própria, de trabalho, e não exerce qualquer tipo de pressão sobre os artistas, nesse sentido – de terminar obras e de fazer uma exposição final. Nem está prevista exposição nenhuma. Nem há obrigatoriedade nenhuma de oferecer uma obra, no final. Conforme explica no seu website, a Fundação Frenkiel & Ponti procura estar à margem de todas essas regras e imposições.
Se eu estou a querer acelerar, é porque quero eu própria ver as minhas próprias pinturas influenciadas tão diretamente pelo meu dia-a-dia. Sinto urgência em passar para o papel ou para a tela todas as coisas maravilhosas que tenho visto e vivido. Estou perfeitamente consciente que sou uma pessoa afortunada por estar aqui, por ter sido selecionada para esta residência artística, por respirar o ar desta terra, e por ser acolhida tão bem, por todos.

Às 19h10 apaguei as luzes do estúdio, desliguei o aquecimento e fechei a porta à chave. Vinte minutos depois o Lalo enviou uma mensagem para o grupo, no WhatsApp, dizendo que estava trancado lá dentro! Fui buscá-lo imediatamente, claro. O estúdio do Lalo fica dois andares abaixo, eu nem dei conta que ele ainda lá estava. Rimo-nos todos.





Os sempre deliciosos jantares. Também sou afortunada por estes deliciosos jantares. Massa tagliatelle com molho de cogumelos, e finas fatias de trufas. Queijo ralado em cima. Sobremesa: duas especialidades da pastelaria local, que não fotografei. Uma espécie de pequenino croissant com creme, e uma bolacha com um doce.


