Dia 4 – De bicicleta até ao Lago della Montagna Spaccata / tarde de pintura
Hoje é quinta-feira, 6 de novembro de 2025.
Despertar às 6h30.
A casa está tão quente, que logo ao despertar eu desligo o aquecedor. Nestes dias de sol, apenas voltarei a ligá-lo ao final da tarde. Durante a noite fica a 23°C / 73.4°F, mas dado que a casa tem um aquecimento instalado debaixo do chão, nunca chega a perder o calor, mantém-se sempre quente. Tudo seca durante a noite – as pequenas peças de roupa que vou lavando diariamente com sabão azul, que trouxe de Lisboa. Os restantes apartamentos, dos restantes artistas, têm máquina de lavar roupa – o meu apartamento é mais pequeno e não tem – mas a Piera disponibilizou-me a sua máquina, na sua casa.
Hoje ponho protetor solar na cara, antes de sair; trouxe uma pequenina amostra, na bagagem. Em Portugal fazem grandes tempestades, disse-me a minha mãe ao telefone. Relâmpagos, trovoadas, cheias, tornados, casas destruídas, e até um morto. Eu sou cuidadora de uma gatinha de rua, em Lisboa, e fico preocupada com ela. Ela tem uma casota, com cobertores, mas quando as chuvadas são torrenciais, ela assusta-se e foge sei lá para onde. É muito esquiva, pouco me deixa aproximar. É tão livre como a Kina, este bicho. Nascem assim, eternamente bravios.
Hoje tenho um destino: Lago della Montagna Spaccata, que fica a 15 km de distância. Foi a Piera quem me indicou este local na aplicação do “Maps.me”, no telemóvel, ontem durante o jantar, depois de eu lhe pedir sugestões de percursos.
É hora de sair da toca e desbravar estas terras italianas!




São 8h23 e este é o meu caminho. Estou em Montenero Val Cocchiara e o destino é o lago onde se encontra a bandeira axadrezada. Esqueci-me de gravar uma imagem com o plano das altitudes – subidas e descidas que vou fazer; mas dado que tenho uma bicicleta elétrica, isso já nem tem muita importância.

Lá ao fundo é o Pantano.

A Kina.








Vacas, veados e ursos – tenho de estar preparada para esta bicharada toda me aparecer pela frente. Muito gostava eu de saber se o urso me deixa tirar-lhe uma foto, antes de comer-me.

Ali em cima é a povoação de Scontrone. O meu caminho é outro, não irei lá acima.








Desde que entrei em Alfedena que estou na província de L’Aquila, na região dos Abruzos. Já não estou na província de Isernia, na região do Molise.




Eu nem sei porque vão os alforges tão cheios. No do lado esquerdo nem tenho nada meu. Só mais tarde virei a descobrir que está um cadeado ali dentro – uma corrente para a bicicleta – e dois conjuntos de ferramentas, que efetivamente viriam a fazer-me falta, porque o descanso da bicicleta desapertou-se – um parafuso desapertou-se – e eu não conseguia deixar a bicicleta em pé, com o descanso. Então deitei a bicicleta no chão, e com uma dessas ferramentas, apertei-o. No alforge do lado direito levo a minha pequena mochila azul, o tripé da máquina fotográfica (se eu precisasse de caminhar, sem a bicicleta, levaria o tripé dentro da mochila); uma garrafa pequena de água, e uma maçã.





“Stappa al lago” vem do verbo italiano “stappare”, que significa tirar a rolha, desarrolhar (normalmente uma garrafa de vinho ou espumante). Portanto, “stappa al lago” significa: “desarrolha junto ao lago / abre a garrafa no lago”. É como quem diz: “vamos celebrar ao pé do lago, abre aí a garrafa!”. E eu tratei de fazer a festa sozinha, e abri a tampa da garrafa de água 😁

Esta estrada circunda o lago.


Está fria!

O caminho de regresso vou fazê-lo com outro percurso totalmente diferente, de 13 km, através das montanhas. Reparem que na vinda eu visitei Alfedena, ali em cima.







Vacas, veados, ursos – e cavalos! Esqueceram-se dos cavalos!


Mais outra foto com excesso de luz, o que é que se há de fazer. Até brilha, Montenero Val Cocchiara.
Este caminho de regresso foi muito mais bonito, na bicicleta, do que o da ida. Só me cruzei com um carro, nestes 13 km.
Faz frio, usei sempre luvas (quentes, indispensáveis) e o fecho do quispo abotoado até ao queixo.


O Maps.me manda-me por aqui, que estranho. É certo que está ali um pouco de cimento, nos degraus, para as (motas? bicicletas?). Se fosse sempre na mesma linha, tudo bem, agora andar aos ziguezagues com uma bicicleta de vinte quilos, elétrica, não dá. E, pelo que percebo, apenas os primeiros três degraus têm esse cimento.
Voltei para baixo e fui procurar outro caminho.

Perguntei a estes montenerenses (não faço ideia qual é o gentílico de Montenero Val Cocchiara!) como é que eu posso chegar ao cemitério, na bicicleta. Eles acharam a minha pergunta estranha, e perguntaram-me porque é que eu quero ir ao cemitério. Porque a partir daí eu sei o caminho para casa! – respondi-lhes. Eu não falo italiano, e eles não falam inglês, mas eu percebi que se eu falar espanhol, os italianos percebem-me. Então fomo-nos entendendo num misto de espanhol e italiano. Expliquei-lhes que estou em casa da Piera, e um deles disse para os amigos: “Laura”. Exato! – exclamei eu, ao ouvir o nome da Laura, a pessoa que cuida das casas alugadas aos turistas. E agora ocupadas pelos artistas residentes, pois claro. Aliás, foi a Laura que me ajudou hoje de manhã a subir as escadas, com a bicicleta. Ao sair de casa, há 22 degraus para subir! Em breve irei desenrascar-me sozinha, com paciência e muitas pausas entre os degraus. Da primeira vez, quem me ajudou foi a Tee, que ia a passar e foi apanhada nesta ingrata tarefa.
Então eles apontaram-me a subida mesmo à nossa frente. Se eu subir isto tudo, vou lá dar, disseram-me. É uma subida extremamente íngreme, até à torre da igreja, no topo. Pela primeira vez usei o nível de assistência máximo da bateria da bicicleta – nível 5 – para me ajudar a fazê-la. Tenho andado sempre no nível 1.
Quando guardei a bicicleta no estúdio, às 12h50, a bateria só tinha perdido um tracinho, durante todas estas horas de passeio. É uma maravilha, esta bateria, dá-me confiança para passeios maiores.

Alguns dos artistas residentes foram às 10 horas a Castel di Sangro, com a Piera, fazer compras. A Piera trouxe-nos isto, está na entrada da sua casa, para nós nos servirmos. A Kina esqueceu-se que os ovos estão aqui, pelos vistos.

Aquela maçã trouxe-a de Lisboa, para comer na viagem. Trouxe duas, mas só comi uma. Hoje levei-a nos alforjes da bicicleta, mas não a comi. E agora vou comer aquela fruta toda, menos a maçã.
Comi duas fatias de presunto, pela primeira vez. Recordo, para quem não leu as crónicas anteriores, de outras viagens, que eu sou flexitariana, ou seja, continuo a comer carne e peixe, mas reduzi muito o seu consumo. Como sim muitos laticínios, ainda não consegui libertar-me disto. Leite, queijo, manteiga, iogurtes e também ovos. A exploração dos animais para alimentar oito biliões de humanos em todo o planeta, tornou-se confrangedora. Atingimos limites perfeitamente desproporcionais na busca do lucro rápido, e cada vez é mais complicado saber do que se passa – do que os animais passaram, antes da bênção da sua morte – para estarem nos nossos pratinhos.


De volta ao estúdio. Eu e a Karolina cruzamo-nos nesta hora – a Karolina prefere pintar de manhã, daqui a pouco ir-se-á embora, e eu ficarei a pintar até à hora de jantar. Aquelas duas telas à direita são suas – está a criar uma série de pinturas sobre o tema “Diego Maradona”, explicou-me. Este jogou no clube SSC Napoli e é adorado em Nápoles. Maradona chegou ao Napoli em 1984 e rapidamente ajudou o clube a conquistar títulos que nunca antes tinha alcançado — nomeadamente o primeiro “scudetto” da sua história (campeonato italiano) em 1987 e outro em 1990. Isto transformou o clube e a cidade. Para muitos napolitanos, Maradona representou mais do que futebol: tornou-se um herói popular, um símbolo de esperança e afirmação de Nápoles, cidade com desafios sociais e económicos.







Pintei quase cinco horas, novamente, até às 19h, hora a que estava marcada uma meditação. É verdade, hoje temos uma meditação em casa do Lalo (e do Gabriel).

Na sala do Lalo e do Gabriel. No lado direito vê-se o violoncelo elétrico do Lalo. É este que vai tocar e cantar para nós, durante uma meditação que durará 35 minutos. Ainda há outro colchão no chão, que não se vê nesta foto, para quem quiser deitar-se. Eu, cansada como estou, com quase cinco horas de bicicleta, e outras cinco de pintura, estendi-me ali mesmo na carpete e deixei-me descansar durante meia hora, a ouvir o Lalo a cantar e a tocar suavemente. Acho que não sou muito dada a meditações – e disse-o ao Lalo (mas jamais faltaria a esta meditação, com os restantes artistas residentes – exceto a Karolina, que não alinha mesmo nestas coisas), ou então creio que faço meditações com alguma regularidade, porque não noto diferença nenhuma entre uma meditação guiada – como foi esta – e o que eu faço habitualmente. Acho que nem dou conta. Eu apago – esqueço-me de tudo, esqueço-me que estou no planeta Terra – e entro noutro mundo. Talvez seja isto uma meditação.

Já de volta aos nossos animados e calorosos jantares, desta vez mais relaxados, e hoje temos “orecchie” (orelhas, em italiano) com brócolos, salpicadas com anchovas trituradas, e molho de limão. O jantar terminou tarde, quase às 11 horas: estivemos à espera que uma deliciosa tarte de maçã acabasse de fazer, feita pela Tee e pela Karolina.




