23º dia – Área húmida de Huanhuaxi / Casa-Museu de Du Fu / Museu de Sichuan / Templo Qingyang

Hoje é sexta-feira, 1 de maio de 2026. É feriado também na China – Dia do Trabalhador. Porém há uma diferença entre a China e o resto do mundo (só uma?… há muitas, mas agora refiro-me apenas ao feriado): na China, o 1 de Maio não é apenas um dia isolado — normalmente transforma-se num período de vários dias de descanso consecutivos. A razão principal é o sistema chinês de “compensação de feriados”: o governo define um bloco de feriado (por exemplo, cinco dias seguidos), e para criar esse bloco contínuo, trocam-se dias de fim de semana com dias úteis. Ou seja, as pessoas podem trabalhar num sábado ou domingo “extra”, e em troca têm dias úteis livres à volta do feriado. Isto cria o que se chama informalmente a “semana dourada” — embora a mais clássico seja no 1 de Outubro, o princípio é o mesmo. O objetivo deste sistema é incentivar o turismo interno e o consumo, permitir viagens mais longas dentro de um país muito grande, e concentrar períodos de descanso em vez de muitos feriados isolados.

Hoje está frio: 16–22°C / 61–72°F. Vou a pé até ao metro, com o chapéu de chuva aberto. Esta chuva é apenas às primeiras horas do dia, daqui a pouco já passa.
Linha 9 do metro, e depois linha 17 até ao Parque Huanhuaxi. Este parque é gratuito e no inverno abre às 7; eu já lá devia estar.

Quem é esta alma, que eu ainda não tinha visto?! Será que tem fome? Ainda é atropelado.

Este rapaz que vai à frente sabe algumas palavras de inglês, e não posso dizer que tenhamos conversado, porque o seu inglês não o permitiu, mas trocámos algumas palavras. E ele quis tirar uma selfie comigo – eu aceitei e fiz o habitual símbolo do “V”, com os dedos.

São 8h43, já não chove, nem vai chover mais hoje. Cheguei ao parque Huanhuaxi, uma vasta zona de lagos, canais, bosques e áreas pantanosas situada muito perto da casa-museu Du Fu e do museu de Sichuan, que visitarei a seguir.

Meti-me com este funcionário do parque e espreitei o seu chapéu de chuva agarrado ao queixo. Dava-me jeito um assim, para andar de bicicleta e para passear com as mãos livres! Onde é que isto se comprará?
Os chineses inventam tudo, os europeus estão tão atrasados nestas engenhocas baratas. Em Lisboa passei a usar uma cobertura preta de latex, em cima dos ténis, quando chove. Comprei na internet, enviada da China, pois claro. Entretanto romperam-se, depois de uso intensivo (que maravilha ficar com os ténis limpos e secos, em dias de chuva) e ninguém vende isto em Portugal – nem nas lojas dos chineses. Tenho de voltar a comprar na internet, uma coisa baratíssima, de 3€, ou coisa que o valha, e pagarei mais pelos portes do que pelo “cobre-botas” – é assim que se chama. Ninguém dava conta, em Lisboa, que eu tinha um cobre-botas por cima dos ténis. As pessoas pensam que são umas botas pretas, nem olham. Os transparentes dão mais nas vistas.

E aqui conheci a Shi Xing, nesta foto de casaco castanho e calças azuis. A Shi deu-me um nome em inglês, para facilitar a comunicação entre nós: Chloe. Mas eu prefiro sempre os nomes originais, chineses. A Shi fala um inglês fluente comigo, e entretanto diz-me que é professora de inglês. Foi a Shi quem me explicou o que se passa aqui: é um grupo de budistas que estão a devolver peixe ao rio. “Toda a bondade que damos, recebemos de volta” – explica-me. Compraram o peixe a este vendedor do mercado (na foto seguinte) e estão a libertá-lo.
Falámos muito brevemente, porque a Shi ia-se embora, mas fez-me um convite inesperado: na 2ª feira vai ter um almoço com amigos, e pergunta-me se eu quero ir. Claro que quero. Tenho de vir de metro até aqui. Combinado. Trocámos de WeChat, para podermos ajustar mais detalhadamente, na véspera, o ponto de encontro e as horas.

Estas são plantas de lótus.

Aqui dança-se ao som de música.

Aqui há silêncio e exercita-se o Tai Chi. Tal como expliquei na crónica 21, o Tai Chi é uma prática chinesa tradicional, ligada à filosofia taoista, que combina movimento corporal lento, respiração controlada e concentração mental.

Estas esculturas de bronze representam os “Oito Imortais do Copo de Vinho”, e celebra oito poetas chineses famosos, como Du Fu e Li Bai, em poses relaxadas ou embriagadas. Estes poetas eram famosos apreciadores de vinho da longa tradição chinesa de bebedores, e celebravam frequentemente o prazer de beber.¹
O álcool consumido na China da época era frequentemente vinho de arroz ou bebidas fermentadas semelhantes, não necessariamente o vinho de uva tal como o entendemos hoje.

O “Caminho da Poesia” decorado com poemas do poeta Du Fu.

A Casa-Museu Du Fu, ou mais exatamente, o Museu da Casa de Palha de Du Fu, dado que existe aqui uma réplica da cabana de colmo construída por Du Fu, quando viveu aqui.
Du Fu (712–770) foi um dos maiores poetas da história da China e é frequentemente considerado, juntamente com Li Bai, uma das figuras máximas da poesia da dinastia Tang, período que muitos consideram a idade de ouro da literatura chinesa. A sua influência na literatura chinesa é comparável, em termos culturais, à de William Shakespeare na literatura inglesa ou à de Luís de Camões na literatura portuguesa.

O bilhete custa 50 yuans (6€).

A visita de Mao Zedong, em 1958, a este museu.

Deng Xiaoping visitou cinco vezes o museu, entre os anos 1950 e 80.

Du Fu.

Du Fu nasceu numa família de funcionários eruditos. A sua mãe faleceu quando ele era jovem, e uma tia ajudou a criá-lo. Tentou seguir uma carreira administrativa, à semelhança do pai, mas foi reprovado nos exames imperiais. Como resultado, passou grande parte de sua juventude a viajar. Durante as suas viagens, ganhou renome como poeta e conheceu outros poetas da época, incluindo Li Bai.
Um dos acontecimentos decisivos na sua vida foi a Rebelião de An Lushan em 755, que durou quase oito anos, e perturbou severamente a sociedade chinesa. Nesses anos, Du Fu levou uma vida itinerante, escrevendo poesia sobre os eventos que testemunhou e sofreu — fome, agitação política, deslocação de populações, sofrimento dos mais pobres, responsabilidade moral dos governantes.
Por volta de 759, Du Fu refugiou-se em Chengdu. Apesar de ter vivido aqui apenas alguns anos, esse período foi relativamente estável e produtivo. Muitas das suas obras mais conhecidas foram escritas aqui, e nelas descreve a sua vida relativamente feliz.
Du Fu e a sua família começaram a viajar novamente em 768. Ele morreu na província de Hunan e deixou mulher e dois filhos.²
Du Fu escreveu igualmente versos delicados sobre jardins, rios, amizade, envelhecimento, vida familiar. Esta combinação entre observação social e sensibilidade pessoal é uma das razões da sua importância. A Encyclopaedia Britannica diz:
“A sua linguagem densa e condensada utiliza todas as conotações de uma frase e todas as potencialidades entoacionais da palavra individual, qualidades que nenhuma tradução poderá alguma vez revelar.”³

Esta escultura é feita em ébano, e é da autoria de Ye Yushan (1935-2017). Ye Yushan nasceu em Sichuan, e viveu e morreu em Chengdu. A placa – que pode ser vista na foto seguinte – refere “período dos Reinos Combatentes (340–278 a.C.)”. Conforme abordado em crónicas anteriores, o período dos Reinos Combatentes foi uma fase anterior à unificação da China pela dinastia Qin. Esse período foi marcado por guerras constantes entre estados rivais; mas também pelo surgimento de elites intelectuais e militares. Ye Yushan talvez tenha querido mostrar o “mundo antigo” da formação da civilização chinesa, uma ideia de origem histórica da cultura e do pensamento. Sendo que Du Fu representa a maturidade cultural e poética da China imperial.

Esta placa indica que vamos ver uma série de pintores famosos que pintaram orquídeas, mas depois as placas estão todas em chinês. Quando entrei no museu, também pedi um guia-áudio em inglês, para ouvir no meu telemóvel, mas não têm – só têm em chinês.

Os figos secos que eu trouxe de Lisboa já se acabaram há muito, e foi com agrado que os substituí agora por frutos secos exóticos, que nem sei o nome deles. Por exemplo, aquele cesto que está à frente das duas simpáticas raparigas, cujo fruto parece melancia. Não faço ideia o que é, e elas ainda traduziram para inglês, e depois para português, mas eu não identifiquei o nome. É “belag”, ou algo assim. É bom e comprei. É possível provar as miniaturas, que estão à frente, para escolher. 250 gramas são 70 yuans (8,40€). Escolhi uma mistura.

Esta é a réplica da cabana de colmo construída por Du Fu, quando viveu em Chengdu. Eu não dei conta que estava a ver a réplica, e não a fotografei, pelo que uso uma imagem retirada da internet.
Foto de Xue Chen, da Agência de Notícias Xinhua (link)

A entrada é gratuita, e é necessário mostrar o passaporte.

Esta placa e outras duas seguintes são muito importantes porque falam novamente da cultura Bashu, que referi na crónica 1, mostrei ligeiramente na crónica 15, aquando da visita ao Museu de Chengdu, e apresentei na crónica 17, a propósito da ciclovia “Greenway”, ao redor de Chengdu. Segue a tradução:

“No período pré-Qin, Sichuan era o centro da civilização na parte superior do rio Yangtze. De acordo com a literatura histórica, Ba e Shu faziam parte dos Nove Territórios sob o domínio do Soberano Humano na pré-história. Durante o reinado de Yu, o Grande, este dividiu o território da China em nove regiões, e Ba e Shu pertenciam à Região de Liang. Graças à liderança dos antepassados e das gerações sucessivas, Ba e Shu emergiram como dois reinos poderosos na parte superior do rio Yangtze.
Quase cem anos de investigação arqueológica revelaram que os reinos de Ba e Shu eram muito mais complexos e misteriosos do que os descritos na literatura. Os antepassados de Shu inspiraram-se em diversas culturas vizinhas e criaram um reino teocrático altamente desenvolvido, com centro na planície de Chengdu, enquanto os antepassados de Ba construíram um Estado complexo e singular, resultante de migrações e processos contínuos de integração.
Ao longo de milhares de anos, a Cultura Shu na planície de Chengdu e a Cultura Ba no leste de Sichuan e na região das Três Gargantas de Chongqing influenciaram-se mutuamente e evoluíram gradualmente para a distinta “Cultura Ba e Shu”, que interagiu com as etnias vizinhas, dando origem à “unidade na diversidade” da civilização chinesa.
No final do Período dos Reinos Combatentes, o Estado de Qin aproveitou a riqueza da região de Ba e Shu como base material para a sua ambição de unificação da China. As regiões de Ba e Shu tornaram-se gradualmente uma base logística estratégica para a unificação dos outros seis estados por Qin. Posteriormente, a cultura Ba-Shu integrou-se gradualmente na civilização chinesa.”
(Fim de citação)

O que é o “domínio do Soberano Humano”?
É um conceito da tradição mítica chinesa: o “Soberano Humano” é uma forma genérica de dizer que aqueles Nove Territórios estariam sob a autoridade de uma entidade civilizadora mítica na pré-história chinesa.

“Em 316 a.C., o exército do Estado de Qin marchou para sul e conquistou a região de Ba e Shu, pondo fim à história dos antigos estados de Ba e Shu, no sudoeste da China. A cultura Ba-Shu espalhou-se com a expansão do exército Qin e com a sua integração gradual na civilização chinesa.
Durante o seu domínio, o Estado de Qin dedicou grande parte dos seus esforços ao desenvolvimento da região de Ba e Shu, uma vez que esta constituía uma base logística estratégica para a sua ambição de unificar a China. Nesse contexto, foram desenvolvidos sistemas de irrigação e melhorias na agricultura. O Estado de Qin organizou também a migração de populações de outros estados para a região de Ba e Shu, introduzindo novos modos de produção e novas formas culturais nesta área. Consequentemente, a planície de Chengdu tornou-se conhecida como um “paraíso”, onde as cheias eram controladas e já não havia fome. A bacia de Sichuan tornou-se, assim, um importante centro estratégico para a administração do sudoeste da China nas dinastias seguintes.”

“Apesar do seu território enclausurado e rodeado por montanhas, os antigos estados de Ba e Shu absorveram o melhor da civilização primitiva da China antiga, com uma atitude aberta e inclusiva, tornando-se assim um centro de civilização na parte superior do rio Yangtze durante o período pré-Qin, surpreendendo o mundo com a sua cultura única e distinta.
Ao longo de um milénio de desenvolvimento, as culturas de Ba e Shu interagiram com as culturas das Planícies Centrais, de Jing-Chu e de Zhou-Qin, tanto em períodos de paz como de conflito. Desempenharam um papel importante na formação da civilização chinesa primitiva, no nascimento de uma nação unificada e nos intercâmbios culturais com o Sudeste Asiático.
Graças à vasta paisagem e aos recursos abundantes de Ba e Shu, o poder de Qin foi significativamente impulsionado após a sua conquista da região. A cultura Ba-Shu integrou-se gradualmente na civilização chinesa ao longo da guerra de unificação conduzida por Qin. Ba e Shu passaram a fazer parte integrante do desenvolvimento da “unidade na diversidade” da civilização chinesa, contribuindo de forma consistente para a economia, cultura, tecnologia, assuntos militares, etc.”

A árvore do dinheiro.

A árvore do dinheiro pertence à Dinastia Han Oriental (25–220 d.C.).

Recordo que Chengdu é a capital da província de Sichuan. O mapa encontra-se na crónica 1. Esta placa revela a mistura de culturas e etnias que existem em Sichuan. Segue a tradução de uma parte:

“O povo Yi, de grande coração, do sudoeste de Sichuan, o povo de caráter franco do planalto do oeste de Sichuan, o povo Qiang, de vida simples, do noroeste de Sichuan, a donzela Miao de sangue puro do sul de Sichuan e outras catorze etnias minoritárias, incluindo a etnia Hui e a etnia mongol, bem como as etnias Han e Tujia, vivem juntas em Sichuan, entre montanhas e ao longo dos rios. Diferentes características e temperamentos são conferidos a estas diversas nacionalidades pelo planalto e pela floresta. A história antiga e a esplêndida cultura entrelaçam-se e ligam diferentes culturas, costumes e tradições de várias etnias, reunindo-se para criar um caleidoscópio colorido, onde se encontram trajes típicos deslumbrantes como flores e como o brilho do entardecer nas montanhas, artes e artesanato nacionais requintados e maravilhosos, que ultrapassam a natureza, utensílios de culto misteriosos, de natureza divina e budista, etc. Todos estes elementos revelam um profundo complexo cultural nacional, com artes únicas e encantadoras e uma grande variedade de costumes folclóricos.”

Vou para o meu quarto e último destino de hoje: o Templo Qingyang.

São 14h25. Perante esta fila, ainda pensei em ir almoçar primeiro, mas depois já não teria tempo para entrar e ver o palácio com calma. Há limite de horário de entrada e a visita demora entre 1 e 2 horas. Trouxe bananas e bolos comigo e tenho também os frutos secos que comprei entretanto. Às 18h tenho o jantar na residência, também não falta muito.

O Templo Qingyang não é apenas um local histórico, é um templo taoista ativo. Continua a ser um espaço religioso em funcionamento, com monges, fiéis e atividades espirituais. O templo foi construído durante a dinastia Tang (618–907) e a maior parte das estruturas visíveis hoje resulta de reconstruções e restauros da dinastia Qing (1644–1912).

Nesta foto vê-se uma das duas cabras de bronze, verdes, na entrada, que, segundo a lenda, foram trazidas de Pequim durante a Dinastia Qing. Por isso o Templo Qingyang também é conhecido como o “Templo da Cabra Verde”. A cabra, no taoismo, é um animal auspicioso ligado a transformação e equilíbrio. Na própria palavra “Qingyang”, “qīng” (青) é uma cor tradicional chinesa que historicamente abrange várias tonalidades entre o verde, o azul e as cores escuras⁴; já “yáng” (羊) pode referir-se genericamente a ovelha, carneiro ou cabra, dependendo do contexto.⁵

Regresso à residência. Linha 13 do metro, e depois linha 9.

O bilhete do metro ficou em 3,60 yuans (0,43€) e a bicicleta ficará em 1,80 yuans (0,22€).

As cozinheiras He e Han fazem-me companhia. Conversámos um pouco com os tradutores dos nossos telemóveis. Eu uso o DeepSeek e elas usam o Doubao. Ambos são aplicações de inteligência artificial (IA) semelhantes ao Chat GPT.

Complementei esta refeição com fruta: uma manga antes e bananas depois. E mais os smarties que comprei nos Becos Kuanzhai Xiangzi, na crónica 21.


¹ “Li Bai” (s.d.) Encyclopaedia Britannica. Página consultada a 11 de junho de 2026.
https://www.britannica.com/biography/Li-Bai

² Texto de síntese a partir de duas fontes:
“Du Fu” (s.d.) Poetry Foundation. Página consultada a 11 de junho de 2026.
https://www.poetryfoundation.org/poets/tu-fu
“Du Fu” (s.d.) Encyclopaedia Britannica. Página consultada a 11 de junho de 2026.
https://www.britannica.com/biography/Du-Fu

³ “Du Fu” (s.d.) Encyclopaedia Britannica. Página consultada a 11 de junho de 2026.
https://www.britannica.com/biography/Du-Fu

⁴ “qīng” (青) Mandarin-English Dictionary & Thesaurus. Página consultada a 11 de junho de 2026.
https://www.yellowbridge.com/chinese/dictionary.php

⁵ Chan, C. (7 maio 2022) “Chinese Character: Goat, Sheep (羊)”. The Epoch Times. Página consultada a 11 de junho de 2026.
https://www.theepochtimes.com/article/chinese-character-goat-sheep-118206

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