32º e 33º dias – De bicicleta pelo bairro Huaxing / de bicicleta pela “Greenway” / à noite partida
Hoje é domingo, 10 de maio de 2026.
O meu voo é à 1h40 da manhã, de amanhã. Ou seja, esta noite irei para o aeroporto. Tenho o domingo todo pela frente. Naturalmente que a prioridade é fazer as malas, mas não só: também tenho de fotografar as pinturas devidamente, o que é algo muito demorado e trabalhoso e irá ocupar-me algumas horas hoje. As três telas irão ficar aqui, com a NY20+, e os cinco papéis irão comigo na bagagem. Também irei fotografar estes, o que é algo demorado e difícil também, porque o papel está encarquilhado, eu tenho de colá-lo com fita-cola a uma superfície (e depois terei que eliminar essa fita-cola no computador); tem de estar muito bem iluminado, no exterior ou junto à janela – eu prefiro a luz natural; e em simultâneo é preciso evitar os focos de brilho, que impedem a visualização da pintura. Só mesmo um pintor é que sabe a dificuldade que há em fotografar devidamente uma pintura, sobretudo as de óleo, que brilham muito. Nestes meus papéis usei uma resina alquídica que a Mia me comprou aqui na China, que brilha intensamente. Muito mais dos que os mediums alquídicos que eu uso habitualmente em Lisboa (e que a Mia também me disponibilizou aqui em Chengdu – eu tive os dois à escolha). Ainda ponderei em pedir um verniz acetinado para cobrir as pinturas e retirar-lhes o brilho, mas depois decidi que ficarão assim. Brilharão para sempre, até que o papel se desfaça.


Pequeno-almoço às 8h20. Ainda tenho seis bananas, esqueci-me de colocá-las na mesa.




Foi uma voltinha apenas aqui no passeio, porque me faltam duas viagens para ser reembolsada da multa dos 20 yuans, de ontem. São montantes muito pequenos (20 yuans / 2,40€), mas é uma questão de princípio, não tenho nada que ser multada.
Só que hoje o meu passe semanal já terminou, e eu esqueci-me disso. Paguei 1,80 yuans (0,22€) para dar esta voltinha. Logo à tarde, se conseguir, depois de ter tudo feito, darei um passeio até ao meu bairro preferido: Huaxing, aqui ao lado, com a rua central cortada ao trânsito automóvel, silenciosa.









A nova equipa de estudantes voluntários, sobretudo universitários, que vêm ao fim de semana ajudar a limpar as folhas secas, preservar o ambiente e auxiliar os funcionários, no parque. O simpático Rao, à esquerda, cumprimentou-me, e entretanto vieram mais colegas seus para a foto. Da esquerda para a direita:
Rao Yulin / Peng Siyu / eu / Luo Qihong / Zhu Yanli
Estão todos na licenciatura de Caminhos de Ferro de Alta Velocidade.
E estamos a inventar símbolos com os dedos, já saímos do standard.

Duas caixas de doces, oferecidas pela NY20+.


Sendo o meu último dia na residência, brincamos com a despedida. Ainda vou jantar aqui, mas elas não têm a certeza se virão à noite. Fazemos já as despedidas então, porque talvez não nos voltemos a ver. Que tristeza, vou partir.

A Eleni no seu estúdio a trabalhar. Eu também quis fotografar a Bianca no respetivo estúdio (onde estava o Porshz), mas a Bianca já foi para o centro de Chengdu, não a apanhei.



Apresentarei uma crónica final, a seguir desta, com todas as pinturas terminadas durante a residência artística. Será a crónica 34.

São 17h23 e finalmente estou despachada. Terei de trocar de vestuário e calçado, porque não vou para o aeroporto com esta roupa que estou a usar agora, irei mais quente, preparada para os ares condicionados gelados, que me matam. As malas estão abertas, portanto, e só ficará tudo totalmente arrumado quando eu deixar o estúdio, cerca das 20h.
Às 18h é o jantar, e ainda vou andar de bicicleta depois, pela Greenway, até às 20h. Quero aproveitar até ao último minuto! Ainda aqui estou, e já sinto saudades de Chengdu.
E os bolos que deixei em cima do cimento, ali à frente, para o cão – na crónica 26 – já lá não estão.


E com esta quarta viagem “regular” de bicicleta, em 14 dias, devolveram-me os 20 yuans da multa. Fui perdoada novamente. Se a minha estadia em Chengdu não acabasse hoje, desconfio que eu iria reincidir muitas vezes…







Então vêm todas para o jantar? Ninguém avisou no grupo do WeChat que não vinha. Vamos fazer uma segunda despedida?!…

Entretanto foi necessário mudar de mesa porque aquela redonda, lá ao fundo, vai estar ocupada. E afinal ninguém apareceu, e esqueceram-se de avisar no grupo. A Anna contava vir, mas teve um contratempo à última hora.


São 19h03.







Está um entardecer maravilhoso, quente. Sinto-me bem no meio dos chengduenses e da sua valorização do lazer. Isto também é importante na vida. Terminar o dia e relaxar um pouco.
Ao pedalar nesta tarde quente, ao cheirar o feno cortado neste ambiente tranquilo, tive perfeita consciência de que sou uma sortuda em estar aqui.


São 19h53 e finalizo o meu belíssimo passeio de bicicleta. Agora que vêm os calores e as temperaturas altas, que eu tanto gosto, é que me vou embora.
E descobri que estou sem internet no telemóvel: o meu cartão de 30 dias, comprado no aeroporto, terminou ontem. Eu recebi uma dúzia de sms, ontem e hoje, dizendo que o meu cartão caduca a partir das 0h. Eu sei que hoje é o 31º dia em Chengdu, e que o meu cartão era de 30 dias. Mas a verdade é que me aconteceu o mesmo na residência artística da Arménia, e logo quando comprei esse cartão arménio no aeroporto, eu coloquei a questão: “eu vou cá estar 31 dias”; e a senhora que me atendeu disse que não fazia mal. E efetivamente a operadora de telecomunicações arménia não me cortou o cartão, continuou a dar-me internet mais um dia, e eu consegui chegar ao aeroporto. Bom, aqui na China, baralharam-me com uma dúzia de sms em chinês, que eu fui traduzindo no DeepSeek, e afinal não é a partir das 0h de hoje, foi a partir das 0h de ontem. Cortaram-me a internet sem dó nem piedade. E eu ainda tinha 47 GB disponíveis, dos 50 comprados. Acho que não há necessidade de tamanha severidade. Resultado: não consegui encerrar a utilização da bicicleta, por não ter internet. E consegui ativá-la, às 19h, porque estava noutro portão do parque, e aí eu apanhava o seu WiFi.
Mas eu não me atrapalhei nem perdi tempo a deslocar-me e a tentar ligar-me ao WiFi do outro portão, pedi ajuda a estas pessoas que iam a passar, e este homem de t-shirt branca ativou o hotspot no seu telemóvel e deu-me WiFi. Encerrei a utilização da bicicleta, paguei 4,80 yuans (0,58€) e fui buscar as bagagens.
Esta é a cultura inclusiva Bashu.




Paguei 9 yuans (1,08€) pelo bilhete do metro e a viagem durou 1h10. Recordo que o mapa com a localização do aeroporto se encontra na crónica 2.


Às 22h40 estou despachada, já fiz o check-in e passei todos os controlos. Faltam três horas para o meu voo e eu ainda podia ter andado mais uma hora de bicicleta. Porém a minha saga com o WiFi continua. Esta placa indica que para ligar ao WiFi é necessário selecionar a opção “SMS” – mas essa opção não aparece. Ainda abriu uma janela, mas com tudo em branco. Depois de uma dúzia de tentativas, eu já muito aborrecida, abriu uma página e finalmente apareceu essa opção. Eu pedi para enviar o código por SMS. Deu ok, mas o SMS com o código nunca chegou.
Estou a usar o meu cartão português, como é suposto. Mas também tentei com o cartão chinês – nenhum funciona.
Perguntei a uma rapariga, e depois a um rapaz, e ambos disseram que também não conseguiram ligar-se ao WiFi.
Existe ainda uma opção de máquinas “self-service”, disponíveis no terminal 1 e 2, porém fui em busca delas e só existem lojas de comércio e gates, não há um posto de informação ou as tais máquinas. Este aeroporto vai até ao gate cento e tal, o meu é o 21, cansei-me de andar à procura, e nas placas informativas não indica nenhum de ambos: nem posto de informação nem as tais máquinas. Um autêntico pesadelo. Até que abordei um funcionário das máquinas do check-in, que até se assustou. Ele a controlar as pessoas e as malas, e a falar comigo. E ele disse-me que a máquina do self-service está junto ao gate 8, salvo erro, já não me lembro. Ou seja, só há uma máquina em cento e tal gates. Nesta máquina, finalmente, tive de passar o meu passaporte no scanner, e saiu um papelinho com um código. Apareceu o campo para introduzir o código no meu telemóvel (vá lá) e finalmente tive internet. Isto, portanto, é que não correu bem, em Chengdu. Já não se usa, ter tanta dificuldade num acesso WiFi em qualquer aeroporto.

E o melhor disto tudo é que este pacote de leite de 250 ml passou em todos os controlos de raio-x. O limite máximo não é 100 ml? Vários frascos de 100 ml até ao máximo de 1 litro? Eu tinha-me esquecido deste pacote de leite na mochila, e agora soube-me bem bebê-lo.

É 1h20. O avião parte à 1h40 e o voo dura 11h15.

Jantar servido às 3h10 da manhã.

Parti do aeroporto Tianfu, em Chengdu, e vou para o aeroporto Charles de Gaulle, em Paris. Neste écran, no início dizia que são 8.319 km de viagem.
Em Paris tenho uma pausa de 3h25 e depois outro voo da TAP para Lisboa.

Pequeno-almoço às 10h20 da manhã, hora de Chengdu. Eu escolhi “pumpkin cottage”, e a outra opção era omelete com salsicha de vaca. Arrependi-me, nunca imaginei que o “cottage” era arroz cozido em água, acho que sem sal nenhum. Misturei-lhe os legumes daquela embalagem vermelha, acho que são pickles, sempre deu algum sabor à “cottage”.

Nestas últimas horas do voo, e tal como fiz no primeiro dia, na ida para a China, aproveito para ver mais um maravilhoso filme chinês independente: “The Earth Abides”, que pode ser traduzido para algo como “A Terra Permanece”. O filme acompanha Guang, um rapaz que foi deixado pelos pais aos cuidados do avô durante dez anos numa zona rural. Este tema remete para um fenómeno social muito relevante na China: os chamados “left-behind children” (crianças deixadas para trás), filhos de trabalhadores migrantes que permanecem nas aldeias enquanto os pais trabalham nas grandes cidades. Infelizmente estes pequenos-grandes filmes raramente têm circulação internacional, e eu tenho mesmo de fazer umas viagenzinhas na Air China para os ir vendo. Este é um problema que não é exclusivo do cinema chinês – é geral a todo o cinema independente, pelo mundo. Para ver estas pérolas, só mesmo em festivais internacionais; nas salas comerciais de cinema não passam. O que é bom não se vende, parece ser a filosofia da humanidade.




Todos falam português à minha volta. No banco de trás duas raparigas falam de uma tosta mista, que custa 8€ no aeroporto, e dizem “que exagero“. Uma tosta mista é coisa que eu já nem me lembro e apetecia-me muito uma agora. Alguma vez na vida os chineses terão provado uma tosta mista?! Não se produz queijo em Sichuan!

A aproximarmo-nos de Lisboa!

Vou passar perto da minha casa, que fica aqui ao lado do rio Tejo.

Vim no avião batizado com o nome do pintor e ceramista português Manuel Cargaleiro.
Cheguei à uma da tarde a casa, e às seis da tarde adormeci e dormi 10 horas seguidas até às quatro da manhã. Nesse espaço de cinco horas – entre a 1 e as 6 da tarde, fui à frutaria, almocei uma refeição bem tradicional: uma salada de grão-de-bico com atum, batata-doce e o ovo de pato que a Tang me vendeu, cozido no fervedor de água no meu estúdio em Chengdu (o ovo de pato é que não é tão tradicional – e curiosamente a Tang perguntou-me isto mesmo, se em Portugal existem ovos de pato – e eu respondi-lhe que não, que nem me lembro de alguma vez ver ovos de pato à venda); arrumei as bagagens todas; e lavei e estendi uma máquina de roupa.
Curiosamente também, os meus sonos ficarão regularizados já hoje, com estas dez horas de sono. Em Chengdu andei quase duas semanas a penar, e aqui a mudança foi automática. São sete horas de diferença: às seis da tarde de Portugal, quando fui dormir, para mim já era uma da manhã.
E regressei com um quilo a mais, nada mau, terei que perdê-lo agora.
Como rescaldo desta magnífica viagem a Chengdu, fica-me no entanto uma sensação de insatisfação por não ter feito nem metade do que queria: fiquei muito aquém do conhecimento que eu desejava ter da cidade. Eu não conheci nem um terço de Chengdu, e não me recordo de deixar uma cidade com uma sensação tão grande de insatisfação, por me faltarem ainda tantas coisas para conhecer. Chengdu é gigante, e se nas restantes cidades eu sempre digo que são necessárias duas semanas intensivas, de manhã à noite, para conhecê-las, aqui em Chengdu seriam necessárias pelo menos três semanas intensivas, de manhã à noite, sem pausas, para conseguir conhecer apenas o centro de Chengdu com os seus três anéis circulares. Depois ainda precisaria de outra semana para conhecer as atrações à volta, a uma ou duas horas de distância no comboio rápido. O anterior grupo de artistas, por exemplo, contou-me que foi a um spa. Ora eu fiz um spa na residência artística da Arménia, e também gostaria de ter experimentado um aqui na China. Gostaria de ter experimentado a acupunctura, gostaria de ter assistido à Ópera de Sichuan, com o seu famoso número de troca de máscaras. Ver o famoso sistema de irrigação Dujiangyan. O Museu de Sanxingdui e tantos outros. É interminável, a lista de coisas a conhecer. Ao mesmo tempo, também sinto que não pintei nem um terço do que queria. Foram 33 dias de viagem – a maior residência artística que fiz até agora – e soube-me a tão pouco, quer em termos de conhecimento da cidade, quer em termos de pintura. Ficou tanto por fazer.


