10º dia – Dia inteiro de estúdio com visita da Tianyi
Hoje é sábado, 18 de abril de 2026.
Hoje vou receber a visita da Tianyi Liu, que conheci no dia 3. A Tianyi ofereceu-se como voluntária para trabalhar no parque, naquele fim de semana; fez parte das equipas de estudantes, sobretudo universitários, que vêm ao fim de semana ajudar a limpar as folhas secas, preservar o ambiente e auxiliar os funcionários. A Tianyi também estava a ajudar na loja de conveniência, ajudando a apresentar os produtos e auxiliando os visitantes nas compras – como aconteceu comigo: eu não estava a perceber que bebidas eram aquelas, naqueles pacotes, e a Tianyi ajudou-me a traduzi-los e explicá-los. Ao mesmo tempo, estes estudantes acabam por viver o ambiente cultural do parque; podem visitar as exposições; e conhecer eventualmente alguns artistas, como foi também o meu caso. Tudo se proporcionou para eu e a Tianyi nos conhecermos.










A Tianyi chegou às 13h30, conforme combinámos. Veio carregada de prendas.




Claro que não era necessário trazer tantas prendas, e pelo menos a fruta irá regressar com a Tianyi, felizmente. Tive que convencê-la, e usei o pretexto (verdadeiro) de que os europeus não estão habituados à água na Ásia, e não podem comer fruta cortada, porque a faca que a cortou podia eventualmente estar molhada com água da torneira. Isto faz muita confusão a quem desconhece isto: pensa que eu – ou seja quem for – considero que a água não presta. Mas não é verdade, é apenas uma questão de não estarmos habituados aos microrganismos desta água. Os leitores das minhas crónicas anteriores já sabem que, nos hospitais europeus, existe a chamada “consulta do viajante”, onde se vacinam e aconselham as pessoas que vão viajar para outros continentes sobre este tipo de questões. Mesmo assim, há uma série de anos atrás, eu desobedeci ao médico, e comprei fruta descascada na praça – no Vietname. Foi a desgraça, e quem acompanhou as crónicas, nessa altura, sabe que fui parar ao hospital e quiseram dar-me soro, para eu recuperar. Foi terrível. Portanto, bastou essa vez para servir-me de lição: eu não como fruta descascada, tenho que ser eu própria a descascá-la, com uma faca sem água, ou seja, bem seca, que não esteja molhada com água da torneira.
Mas a verdade é que a Tianyi é um anjo e nem ligou a isto, não ficou melindrada. E estivemos tão entretidas, que nem nos lembrámos mais disto.



A Tianyi trouxe-nos o célebre chá com leite, de Chengdu. Ainda está quente. E é muito bom. Eu é que não estava a conseguir abrir o copo.

Estivemos 2h45 minutos a conversar, com uma visita incluída à galeria de arte Tianyi – curiosamente têm o mesmo nome – a Tianyi e a galeria Tianyi; e eu não falo chinês, e a Tianyi não fala inglês, pelo que conversámos sempre através dos tradutores nos nossos telemóveis. Estivemos 2h45 minutos a conversar, sempre através dos tradutores. Eu traduzia para chinês, a Tianyi traduzia para português. Ditamos as mensagens ao telemóvel, para não perdermos tempo a escrever. A Tianyi ouvia o meu português com curiosidade. De vez em quando a internet falhava, e por vezes tive que usar o tradutor da Tianyi, porque nem o WiFi nem os meus dados funcionavam.
Mas voltemos a apresentar a Tianyi: tem 20 anos de idade e está no 2º ano da universidade, a tirar Ciência e Tecnologia da Computação. Também tem uma disciplina de inglês. Explicou-me que aprende inglês desde a escola primária, com cerca de 8 anos de idade, na 3ª classe, e que no final do ensino secundário há igualmente um exame de inglês. Mas quase não praticam a conversação oral – o ensino é mais focado nos exames. Veio de táxi DiDi porque está muito calor; demora entre 5 e 8 minutos a chegar aqui. Se viesse de bicicleta seriam cerca de 15 minutos.
Leva 1h15 minutos de metro até à universidade, e o mesmo para regressar. Teve receio de não conseguir vaga na universidade mais perto, mas depois de obter os resultados verificou que podia ter ficado nesta universidade mais perto. Agora não pode pedir transferência. Explicou-me uma regra do ensino na China: os estudantes não podem pedir transferência para uma universidade de categoria igual ou superior. Há um ranking das universidades, e os estudantes apenas podem pedir transferência para uma de nível inferior. A Tianyi explica-me que a sua universidade, no geral, é quase igual à outra.
Fica emocionada quando vê o mar na televisão, ou no telemóvel. Eu mostrei-lhe um vídeo que fiz na praia da Costa da Caparica, que tenho no meu telemóvel. Expliquei-lhe que Portugal está à beira mar plantado, e que esta praia fica a 25 minutos da minha casa, de carro. “Se um dia fores a Lisboa, eu levo-te lá” – disse-lhe eu.



São agora 16h20. Foi com tristeza que vi partir a Tianyi, noutro táxi DiDi. Porque certamente nunca mais nos veremos. É sempre assim em todas a despedidas. Mas talvez a Tianyi consiga formar-se – ainda quer tirar um mestrado – e arranjar um bom emprego, com uma boa remuneração, e consiga passar férias na Europa e visitar-me.





O novo grupo de voluntários, este fim de semana. Convidei-os também a visitar o meu estúdio, noutro dia em que não estejam a trabalhar.
E eu ainda pintei mais um pouco da tela grande, no resto da tarde, até ao jantar às 18h.




Desta vez a cozinheira He também se junta a nós.

E agora a Han.


São dias felizes, é a verdade.


