006 – Príncipe – Praia Évora

Quando eu ia nesta estrada a pedalar (lentamente), alguém à direita cumprimentou-me e chamou-me.

Foi o Minério que me chamou, juntamente com a Lucila. Riram-se, meteram-se comigo, e eu, que nunca me faço rogada, fui logo ter com eles. A Lucila tem aqui uma quitanda, ou seja, uma pequena loja ou barraca de negócio. Vende peixe, fruta e legumes.

Estes buracos dos caranguejos intrigam-me. Eles têm que atravessar a estrada para chegar ao rio!

Entretanto chega a Tânia, sentada à esquerda. E mais uma cliente lá ao fundo. Eu sento-me com eles a conversar. Fazem-me as perguntas normais, de onde venho, o que estou aqui a fazer, se gosto de exercício – por causa da bicicleta. A Lucila repete várias vezes que eu sou muito bonita, uma boneca. Eu rio-me.
E o marido, onde é que está, perguntam-me. E filhos, tenho? Eu digo-lhes que não é marido, é namorado, e que este ficou em Portugal a trabalhar. “E filhos não quero ter”. Ficam muito espantados sobretudo com este tema dos filhos. “Dão muito trabalho e muita despesa”, acrescento. Agora é que ficam estarrecidos. Aqui em São Tomé e Príncipe ter filhos é uma riqueza. Ter 4 ou 5 filhos é habitual. Existir outra realidade totalmente oposta – não são riqueza nenhuma, são sim uma despesa – é algo difícil de compreender. Explico-lhes que na Europa uma criança sai muito cara. Tem estudos, tem universidade, tem atividades caras, tudo é caro na Europa. As crianças já não brincam todas na rua, o dia inteiro, como aqui. Muito menos trabalhar cedo. E que se eu tivesse filhos, não teria dinheiro para viajar por São Tomé e Príncipe, ou pelo mundo inteiro. “Mas quando for velhinha é bom ter os filhos” – dizem-me. Bom, eu nem sei se chego a velhinha, nem tenciono abdicar de toda a minha liberdade em nova, a pensar na companhia que os filhos porventura me darão quando for velhinha… se lá chegar!
Riem-se.
Mas depois, para ver se os tranquilizo, eu conto-lhes que efetivamente eu gostaria de ter cinco filhos. A ter filhos, teriam de ser pelo menos cinco. Ora isto é uma coisa trivial para um santomense. Mas eu explico-lhes que ter cinco filhos na Europa é um prodígio, é caríssimo, uma trabalheira desgraçada, e que eu teria de ter uma empregada para ajudar-me. Teria que ser rica e contratar uma empregada a tempo inteiro, a viver connosco, para ajudar-me. E então eles perguntam-me porque não tenho eu uma empregada. Todos os estrangeiros são ricos e têm dinheiro para uma empregada. Agora rio-me eu.

A Lucila está a temperar o peixe com um molho habitual, o qual provarei algumas vezes mais adiante, à base de lima, sal e alho.
A Lucila tem cinco filhos: quatro rapazes e uma rapariga de 11 anos. Só um rapaz está no Príncipe, todos os restantes estão em São Tomé.
Convidou-me para ir à praia Évora amanhã de manhã, domingo. A praia fica aqui em frente, seguindo esta estrada por onde eu vinha. Eu acedi. Por volta das 10h encontrar-nos-emos na praia, ótimo.

Prossigo viagem e vou já ver onde fica essa praia Évora . Vou em frente, alguma vez hei-de encontrá-la.

São agora 11 da manhã e este grupo de raparigas está a tomar o pequeno almoço. Chamam-me. Paro a bicicleta e pergunto-lhes, a rir, “Isto são horas de tomar o pequeno-almoço?”. Elas respondem-me que estiveram a limpar a igreja. “É servida?”, perguntam-me. Agradeço-lhes e explico-lhes que já comi e que estou cheia. Digo-lhes que vou visitar a praia Évora e sigo viagem, depois duma breve visita à igreja.

Roupa a secar no chão.

Em frente é a praia Évora, indica a placa. E ali à frente está uma menina curiosa comigo. Ela vai esperar por mim e eu vou perguntar-lhe o nome. Chama-se Vitória e tem dez anos. Vai precisamente a caminho da praia Évora, e far-me-á companhia. Ainda são uns 2 ou 3 km até lá. A Vitória diz que vai ter com os amigos. Então eu vou também… (olha a Rute sempre pronta).

Cá está a Vitória. Estamos a chegar à praia Évora. A placa diz em inglês e português “Bem vindo à Praia Évora”. Eu já perdi um cantil de água na descida atribulada e nem dei conta. O que vale é que ninguém vai fazer este caminho entretanto, pelo que quando me for embora irei apanhar o cantil, caído na berma da estrada. Tive sorte. Não o dei ao Francibel, só faltava perdê-lo logo no próprio dia. Era um valente castigo…

Cá estão os amigos com quem a Vitória vinha ter. A Osvaldina, de tshirt amarela, abordou-me com desembaraço. Tem 15 anos, passou para o 9º ano, quer ser hospedeira e terá que ir estudar para Lisboa. Repete-me várias vezes que tenho uma voz muito bonita. Cada vez que falo ela diz isto, o que me faz rir.
Esta foto foi tirada muito mal com a máquina em cima duma pedra, mas foi o melhor que se arranjou para ficarmos todas nela.

Esta praia Évora é muito pedregosa e tem apenas este pequeno areal à esquerda. Qual será o fascínio com esta praia, pergunto-me.

Entretanto a Osvaldina diz-me que tem de ir espremer roupa na ribeira. Disse mesmo assim – “espremer”. Ok, vou também. Deixo a bicicleta presa com o cadeado, encostada a uma árvore, e meto-me com as meninas pelo caminho de terra até à ribeira. São dez ou quinze metros. A prima da Osvaldina já lá está, chama-se Cláudia. A Osvaldina explica-me que a mãe tem uma empregada para ajudá-la, mas magoou o dedo e agora não está a trabalhar. Também tem máquina de lavar roupa, mas não há luz, pelo que vieram à ribeira.

A Cláudia está a comer peixe com banana cozida.
Conversámos um pouco mais, antes de eu ir-me embora. Na escola aprendem português, inglês e francês, contam-me.
Combinámos vir à praia amanhã às 10h, tal como como eu já tinha combinado com a Lucila. A mãe da Osvaldina far-me-á peixe grelhado. Fiquei com número da mãe, já que a Osvaldina não tem telemóvel. A seguir iremos visitar a sua roça – Nova Estrela. Maravilha, já estou cheia de planos para amanhã.

Despedi-me e regressei ao centro da cidade de Santo António para almoçar. A Vitória também regressou e acompanhou-me novamente. Desta vez eu vou mais devagar, a subir. A Vitória acompanha-me a andar. Aliás, eu fiz parte da subida a andar também.

Primeira refeição num restaurante santomense. Neste caso – mais especificamente – principense. Foi a hóspede romena do meu hotel que me falou dele, por ser o que está mais perto. Eu tinha ficado com o número de telemóvel da Kita, a dona do restaurante, e telefonei a avisar que queria um peixe grelhado. Quando cheguei, à uma e meia da tarde, vi um rapaz de mota a sair, ela disse-me que ele foi entregar o peixe. Está pronto em 45 minutos.
Aproveito para ir ao quarto do hotel, entretanto. Já há água, ótimo. Mas não há luz.

Peixe chamado “Bonito”, com banana frita, 70 dobras, ou seja 2,80€. O preço das refeições anda pelas 50 ou 70 dobras, habitualmente, explicou-me a rapariga romena. Sem bebida. Eu não bebo às refeições. Bebo litros de água por dia, desde a adolescência que dispensei as bebidas durante as refeições – nessa altura por dilatar o estômago e criar barriga, hoje em dia porque já nem sinto a falta. Bebo antes e depois.

Os bolos ficaram à espera que venha a luz.

Fui novamente ao cemitério, já depois das 14h, mas afinal só abre na 2ª feira.

E assim termina este segundo dia de viagem. Fiz 19,7 km de bicicleta, com estas voltinhas todas. Às 15h fui para o quarto tomar banho. Já há luz.
Às 17H30 é noite cerrada. Às 20h estou na cama. Comi um pouco de cereais com outro dos meus pacotes de leite com chocolate. Já devia ter comprado leite branco.
Como sempre, tenho o trabalho diário da seleção de fotos – apagar as que não interessam, ou seja, as que estão mal tiradas ou repetidas.
Hoje o dia foi bastante satisfatório. Começou às 4 da manhã. Passeio de bicicleta às 5H30. Já chega, estou bem, é altura de descansar. Amanhã será um novo dia. Amanhã vou à praia e terei a companhia da Lucila e da Osvaldina.