020 – Príncipe – Ainda sobre o Parque Obô & Descanso no Meio das Crianças

Fiquemos com alguns extratos adaptados do “Plano de Manejo do Parque Natural do Príncipe”. Este estudo foi financiado pela União Europeia, e elaborado para o Governo da República Democrática de São Tomé e Príncipe por dois biólogos, com a ajuda de engenheiros florestais, técnicos agrícolas, botânicos, ornitólogos e também um arquiteto. Refere-se aos anos 2004-2009, pelo que já houve evoluções entretanto:

O Parque do Príncipe é desabitado, não possui assentamentos humanos permanentes pelo relevo, elevada pluviosidade, dificuldade de acessos e inaptidão dos solos para atividades agrícolas na sua generalidade. São estes fatores que, de um modo geral, têm assegurado a ausência de grandes impactos negativos por ação humana, embora se torne premente a gestão destes espaços dado o incremento de atividades depletivas do seu património natural, como a caça não ordenada, o abate desordenado e ilegal de árvores e, sobretudo, a colheita ou captura de espécies ameaçadas e protegidas, como os papagaios e as tartarugas marinhas.

A floresta do Príncipe faz parte da floresta densa Africana que se concentra essencialmente na zona guineo-congolesa, que por sua vez é parte das florestas densas tropicais húmidas que cobrem cerca de 7% da superfície do planeta e hospedam pelo menos 50% de seres vivos.
A parte maior da área atual do PNP (Parque Natural do Príncipe) coincide de forma geral com a Floresta Húmida Primária. Esta resulta constituída por formações lenhosas com flores, brenhas, matagais e matos, ocupando uma área de aproximadamente 4.500 hectares (45 km²). [Interrompo esta transcrição para dizer que vejo várias medidas na internet. Nuns websites vejo 65 km², noutros vejo 85 km²].

Por outro lado, algumas áreas marginais do Parque e parte maior da sua Zona Tampão, caracterizam-se pela prevalência de uma outra tipologia florestal: a Floresta Secundária “Capoeira”. Trata-se duma formação florestal, originariamente de floresta primária, que foi reconvertida para fins agrícolas e que, tendo sido abandonada, se encontra em fase de regeneração. Este fenómeno de reconversão natural do território agrícola em “capoeiras” acentuou-se a partir de 1975, quando São Tomé e Príncipe alcançou a sua independência, devido ao progressivo abandono das áreas marginais das plantações. Plantações que tinham sido abandonadas no momento da independência transformaram-se em áreas de floresta secundária densa e alta.

Papel das mulheres na conservação do ambiente da ilha
A problemática ambiental em Príncipe, além de constituir por si, uma preocupação mais ou menos recente, não constitui preocupação principal das mulheres por uma razão, que se considera muito simples: o nível de degradação dos padrões de qualidade de vida, nomeadamente o baixo rendimento, a pobreza, a sub e má nutrição, as doenças, a fome, o desemprego e outros males, fazem com que o dia-a-dia das mulheres esteja direcionado no combate pela sua sobrevivência pessoal e da sua família, relegando para segundo plano tudo quanto não se enquadre pelo menos diretamente nesta luta.

Desempenhando o papel de mãe, produtora ou fornecedora de alimentos, lenha e água, as mulheres ocupam o centro do processo de consumo de recursos da família. Uma parte significativa das suas atividades tem influência direta com o ambiente; elas são as principais responsáveis pela recolha de lenha para combustível, daí a sua relação permanente e direta com as florestas, busca de água para o abastecimento familiar, remoção dos lixos nos quintais, entre outros. Neste sentido qualquer estratégia que visa proteger o ambiente e preparar um desenvolvimento nacional sustentado não terá êxito se ações concretas com vista a melhorar a situação da mulher não forem tomadas em conta.

Mapa retirado de “Plano de Manejo”¹, p. 18.

Agricultura
Atualmente não se encontra nem o camponês nem o assalariado rural permanente, até porque a maioria das roças não labora ou se labora não o faz segundo um esquema organizado em termos produtivos.” E ainda: “A atividade no espaço rural é fundamentalmente recoletora.” Enfim: “porque a terra e o mar são efetivamente generosos não se verificam sinais exteriores de pobreza generalizada (…)”.

Baseando-se nos dados recolhidos no âmbito da Consulta Pública, os produtos cultivados mais comuns na Zona Tampão do PNP são: cacau, café, banana, fruta-pão, milho, mandioca, cana-de-açúcar, coco, matabala, frutas, batata-doce.
A principal atividade agrícola na Zona Tampão permanece a produção do cacau que, desde os finais dos anos 1970 tem baixado de rendimento, devido sobretudo à queda dos preços no mercado internacional e à deterioração das infraestruturas produtivas. No período de máxima expansão, as plantações ocupavam mais de 50% da superfície da ilha.

Fauna – Mamíferos
Em São Tomé e Príncipe há 11 espécies nativas de mamíferos terrestres, 6 espécies introduzidas e 8 espécies domésticas. Algumas das espécies podem representar uma ameaça para a fauna nativa das ilhas, nomeadamente: porcos, cabras, bovinos, ovelhas, mas sobretudo gatos e cães. Relativamente a cavalos e burros, os primeiros praticamente desapareceram (sobrevive um só indivíduo nas ilhas) e os segundos estão reduzidos a um número mínimo de animais (< de 5). [Nota: estes dados sobre os cavalos e burros foram retirados dum estudo de 1994, pelo que estão ultrapassados. Se existem cavalos e burros em todo o país, eu não vi nenhum].

Parece que quando as ilhas foram descobertas pela primeira vez, não havia populações de mamíferos de tamanho maior e todas as espécies atualmente presentes foram importadas, ou introduzidas, em diferentes períodos. Uma das espécies mais conhecidas e comuns é o primata Cercopithecus mona que possui populações distribuídas por todo o país. Esta espécie é muito comum em qualquer lado da ilha. Foi notada também a presença comum de vestígios de alimentação do porco-do-mato nos territórios de planície da ilha, embora os habitantes da ilha acreditem que não haja mais indivíduos na ilha, ou que sejam muito raros.

Na ilha há também populações de gatos, de ratos (Rattus rattus e R. norvegicus), ratos domésticos (Mus musculus); e de carnívoros como a civeta Africana Civettictis civetta e a grande doninha de raça ibérica Mustela nivalis numidica, ambas introduzidas provavelmente para combater os roedores nas áreas agrícolas.

Doninha Mustela nivalis numidica
Foto retirada de Wikiwand.

Atualmente o território do PNP alberga as populações duma subespécie endémica de musaranho Crocidura poensis, e de quatro espécies de morcegos, nomeadamente: os morcegos frugívoros Eidolon helvum e Rousettus aegyptiacus princeps (subespécie endémica do Príncipe) e os morcegos insetívoros Hipposideros ruber e uma espécie do género Pipistrellus endémica do Príncipe ainda não classificada.
Como para outros grupos de vertebrados terrestres (aves), também para os morcegos é considerável o nível de endemismo (50%).¹

Musaranho-fingui
Foto retirada do jornal Público.

Interrompo aqui o “Plano de Manejo” para falar dos musaranhos.
O musaranho é um pequeno mamífero semelhante a uma toupeira. Embora a sua aparência seja a de um rato com focinho longo, um musaranho não é um roedor, como os ratos. Todos os musaranhos são pequenos, a maioria não é maior do que um rato. A maior espécie é o musaranho asiático da Ásia tropical, que tem cerca de 15 cm de comprimento e pesa cerca de 100 g; os restantes são mais pequenos, notavelmente o musaranho etrusco, com cerca de 3,5 cm e 1,8 g, que é o menor mamífero terrestre vivo. Em geral, os musaranhos são criaturas terrestres que comem sementes, insetos, nozes, vermes e uma variedade de outros alimentos entre as folhas caídas no chão e na vegetação densa, mas alguns especializaram-se em escalar árvores, viver no subsolo, viver sob a neve ou até caçar na água. Têm olhos pequenos e visão geralmente fraca, mas têm excelentes sentidos de audição e olfato. São animais muito ativos, com apetites vorazes. Os musaranhos têm taxas metabólicas anormalmente altas, acima do esperado em pequenos mamíferos comparáveis. Por exemplo, os musaranhos podem comer de uma a duas vezes o seu próprio peso corporal em comida, diariamente.²

Em 2015 o biólogo português Luís Ceríaco, o qual já apresentei na crónica 16, descobriu uma nova espécie de musaranho. Precisamente aqui no Príncipe:

Fingui, ou pequeno rato em crioulo
Acompanhado de imagens de musaranhos, Luís Ceríaco foi perguntando à população local por um “ratinho” semelhante ao que ia mostrando em fotografias e ilustrações. “Não podia dizer que era um musaranho insetívoro, porque as pessoas não sabem o que é um insetívoro. Tem de se ir ao encontro do que as pessoas conhecem.”
As respostas foram muito positivas: “Sim, há muitos desses animais por aqui”, diziam-lhe as pessoas. “E como se chama?”, perguntava-lhes o investigador. “É o fingui”, responderam-lhe.
Quanto à distribuição do musaranho-fingui, é restrita à ilha do Príncipe. Mais: apenas é conhecido na parte Norte da ilha. É uma espécie que se encontra “com muita frequência perto de construções humanas, mas também em áreas semi-abertas e em cursos de água”, escrevem os investigadores no artigo. De acordo com a população local, “é muito comum em antigas plantações de bananas, dentro de casas e perto de afloramentos rochosos”.³

Retomemos o Plano de Manejo:

Aves
De toda a fauna do Príncipe, o das aves é sem dúvida o grupo animal cuja ecologia e estado de conservação são os mais bem conhecidos.
No século XIX começaram recolhas de dados de forma cada vez mais científica e contínua no arquipélago. Este primeiro período de estudo caracterizou-se por algumas expedições de recolha de exemplares financiadas pelo Governo Britânico, pelos Museus Alemães de Hamburgo, Bremen e Szczecin (hoje Polónia), pelo museu de Lisboa, e pelo museu de Génova na Itália.
Após de um período de 20 anos sem iniciativas de estudo sobre a avifauna, a partir de 1950 começou um segundo ciclo de estudos e pesquisas caracterizadas por standards científicos mais evoluídos. Naquele ano uma equipa da Oxford University publicou uma primeira ampla recolha de conhecimentos sobre a avifauna endémica do país. Seguiram-se expedições de outras entidades, nomeadamente da Universidade dos Açores, que trabalhou sobretudo na avifauna marinha das ilhas Tinhosas.¹

Em São Tomé e Príncipe ocorrem aproximadamente 24 espécies endémicas. Destas, 16 apenas ocorrem na ilha de São Tomé, tais como:

o Íbis de São Tomé (Bostrychia bocagei),
o Beija-flor-gigante (Nectarinia thomensis),
o Mocho de São Tomé (Otus hartlaubi),
o Picanço de São Tomé (Lanius newtoni)

E 6 apenas na ilha do Príncipe:
o Tordo do Príncipe (Turdus xanthorhynchus),
o Rouxinol do Príncipe (Horizorhinus dohrni),
o Beija-flor do Príncipe (Nectarinia hartlaubii),
o Olho-branco do Príncipe (Speirops leucophoeus),
o Estorninho do Príncipe (Lamprotornis ornatus)
e o Tecelão do Príncipe (Ploceus princeps).

Nas Ilhéus Tinhosa, existem importantes colónias de aves marinhas com destaque para:
a Gaivina-de-dorso-preto (Sterna fuscata),
o Ganso-patola-pardo (Sula leucogaster)
e a Tinhosa-comum (Anous stolidus).

Tordo do Príncipe (Turdus xanthorhynchus)

Rouxinol do Príncipe (Horizorhinus dohrni)
Foto tirada pelo ornitólogo Nik Borrow.

Beija-flor do Príncipe (Nectarinia hartlaubii)

Olho-branco do Príncipe (Speirops leucophoeus)

Estorninho do Príncipe (Lamprotornis ornatus)

Tecelão do Príncipe (Ploceus princeps)

Guarda Rios de Peito Azul
Foto retirada de National Geographic

Gaivina-de-dorso-preto (Sterna fuscata)

Ganso-patola-pardo (Sula leucogaster)

Tinhosa-comum (Anous stolidus)

Quem desejar mais detalhes sobre fauna e flora de São Tomé e Príncipe, pode dedicar-se à leitura do “Plano de Manejo”, o qual foi elaborado por dois biólogos, conforme referi acima. Senão daqui a pouco ainda copio o documento todo para aqui. Hei-de voltar à fauna mais adiante, nomeadamente às tartarugas. Lá chegaremos.

Entretanto faço uma pausa muito merecida, a meu ver, no miradouro do Terreiro Velho, onde passei de madrugada mas sem me deter. Ia nessa altura com um destino traçado (e falhado por 1 km). (Não me perdoo).

Deixei a bicicleta no chão e sentei-me também no chão, a descansar e a usufruir desta magnífica paisagem. Eu e a bicicleta levámos uma tareia considerável, temos de recuperar. São 10h40 e tenho 19,8 km feitos.

Mas não fiquei sozinha por muito tempo. Este garoto aproxima-se, curioso. Eu sentada no chão.

Olá, cumprimentei-o. Como te chamas?
Joel!

E rapidamente sou rodeada de crianças curiosas. Observam com atenção a bicicleta e contam o número de cantis, apontando. (E mal sabem eles que falta um que perdi a tampa).

Esta senhora veio enxotar as crianças. Eu digo-lhe que não faz mal, para as deixar estar. Não estão a incomodar? – perguntou-me. Não, deixe-as estar. (Por enquanto está tudo sob controlo, estas crianças são bem comportadas. Às vezes podia calhar serem daquelas mais atrevidas e audazes, que eu custo a dar conta do recado, mas não, coitadinhos, são tranquilos).
Eu sentada no chão a fotografá-la de baixo.
É uma forma prática de carregar as catanas, apercebo-me.
Constatou que tenho as pernas todas picadas das melgas (tenho umas vinte borbulhas na perna direita, e menos de metade na esquerda. Foi mesmo a perna que foi roçando mais nos arbustos e lavando o repelente de insetos que tinha colocado de manhã) e perguntou-me porque não usei calças. Porque não trouxe calças de Portugal! E nem aguentaria o calor, mas pronto.

Conversámos sobre muitas coisas. Contei-lhes que cheguei agora da floresta e que vi macacos. Curiosamente as crianças responderam-me que nunca foram à floresta, lá em baixo, nem viram macacos. Eu contei-lhes que um macaco foi avisado por outro, com um berro, da minha aproximação, e que fugiu logo.

Lavam os dentes antes de se deitarem, contaram-me. Nem sei como foi a conversa parar aqui. Acho que me perguntaram por doces. Ando lá carregada com doces na bicicleta. Fazem mal aos dentes, disse-lhes eu. Pois, foi assim que a conversa foi parar à lavagem de dentes. Aliás, já encontrei qualquer coisa na internet e pedir para os turistas não darem doces às crianças, pois estão a dar-lhes cabo dos dentes. Onde é que há dentistas, ou dinheiro para dentistas? A senhora acima disse-me que não queria rir-se porque não tem os dentes da frente. E agora me lembro que quando cheguei ao aeroporto do Príncipe, vi um cartaz afixado a pedir isso mesmo, para dar outras coisas que não doces. Esse cartaz está na crónica 3.

Interessaram-se pelos pandas da minha tshirt. Perguntei se sabem onde é que os pandas existem. Responderam-me que estão na televisão.

Eu comi uma minhoca destas na Amazónia. Ou melhor, dei-lhe uma dentadinha, senti o sabor a coco e cuspi. Ainda hoje me arrependo de não ter comido o bicho rapidamente. Que parvoíce, deve ter sofrido com a minha dentada e morreu com certeza. Mais valia tê-lo comido, rapidamente. Sabia mesmo a coco e é comido na Amazónia como um acepipe. Aqui fiquei sem perceber se também se come. As crianças disseram-me que a maior atinge os 8 cm  (fizeram com os dedos, o tamanho – parece-me muito grande para uma minhoca, mas pronto) e eu disse que então esta é bebé. Disse-lhes que ela estava cheia de medo, estava a chorar, que queria voltar para junto da mãe. E elas ficaram com pena da minhoca e atiraram-na para longe. Matei uma, mas pelo menos salvei outra.

Agora tenho um espetáculo de dança e música. Aqui estou eu, sentada no chão, toda suja, com as esfoladelas no pé a arderem-me loucamente, e as crianças resolvem cantar e dançar para eu ver. São músicas sobre namorados e histórias de amor, com coreografias conhecidas. Ainda cantaram umas três músicas, todas em português.

São eles: Joel, Sandra, Vanda, Bianca, Ramisso e Joelma. Não sei se “Ramisso” se escreve assim. Tiveram de repetir-me o nome algumas vezes para eu perceber e conseguir escrever. O Ramisso é o pequenito, que não me larga o pneu da bicicleta, quer girá-lo. Está bem rechonchudo.

Por esta altura já passaram dois jipes com turistas em direção ao Parque Natural. Acordam tarde, está visto. Um deles parou e os turistas tiraram fotos de dentro do carro. Não posso crer. Um dos cenários mais fabulosos desta ilha, o motorista pára, e eles não saem do carro. Neste silêncio e tranquilidade maravilhosos, o motor incomodou-me, e desejei que partissem rapidamente. Não devo ter feito uma cara simpática, a olhar para o jipe.

E a minha mãe acabou de ligar-me, através do Whatsapp. Ouviu grande ruído de crianças à minha volta, pois claro. Eu disse-lhes que era a minha mãe, e eles fizeram grande alarido e quiseram todos ver a sua fotografia, pendurados em mim. Tive de mostrar-lhes a fotografia de perfil que ela tem no Whatsapp. Observaram todos atentamente, em silêncio, a fotografia da minha mãe.

Foram apanhar goiabas numa árvore ali ao lado e ofereceram-me. Perguntei se são doces ou ácidas, responderam “doces”. Eu disse-lhes que se calhar fazem doer-me a barriga, que tenho medo de comer. Comeram eles. Conforme já referi, informaram-me na Consulta do Viajante que não posso comer fruta com casca. Tenho tanto medo que nem me atrevo. Andar de bicicleta com diarreia e dores de estômago não deve ser agradável.

Reparem que tenho dois pezinhos bem colados a mim. Um deles encostado ao meu próprio pé, outro entre as minhas pernas. É uma das meninas que tem de estar sempre bem coladinha a mim. A certa altura começou a chorar ruidosamente com qualquer coisa que dissemos. Ainda receei que aparecesse a mãe ou o pai a perguntar o que fiz eu à criança. (Não fui eu!) Ela chora sempre quando a gente fala com ela, contou outra das meninas. E ela vá de chorar outra vez. Vamos tirar uma foto, disse eu, a ver se ela se distrai do pranto. Mas não pode ter lágrimas na foto! E ela lá se esqueceu do choro. Mas curiosamente quando chegou já tinha uma lágrima pendurada nos olhos. Deve ser mesmo habitual ela andar a chorar. Quem é que consegue fazer mal a um pezinho destes.

O Joel quer atirar-se dali. Fiquei preocupada e disse-lhe para não se atirar, senão ainda tem de ir ao médico levar uma injeção.

Aqui fomos brincar aos mortos. Que raio de brincadeira, podem dizer. Eles fingiram-se de mortos e eu fui fazer cócegas a ver se se mexiam. O Joel ganhou, conseguiu ficar quieto nas duas rondas que fiz. Divertiu-me imenso, coitadinhos, eu a tocar-lhes em pontos estratégicos onde normalmente têm muitas cócegas, e eles a esforçarem-se tanto por não se mexerem, nem sequer um sorriso.
O Ramisso ainda não consegue fazer-se de morto. Ainda não atingiu a idade para esta brincadeira. Nem sequer estou ao pé dele e ele já está a rir-se de olhos abertos.

Bom, já descansei uma hora e pouco, ali sentada a brincar com as crianças, é hora de regressar à cidade para almoçar. É meio-dia e estou a 7 km de Santo António.
As crianças ficaram em pé, reunidas, a fazerem-me adeus. Eu virei-me para trás, já a pedalar, e acenei-lhes também. Se calhar nunca mais nos veremos. Irão crescer, casar, ter filhos. Talvez algum consiga completar a universidade, e talvez seja um futuro médico, um futuro engenheiro ou biólogo, ou um futuro primeiro-ministro. Nunca se sabe. Agora são pequeninos, brincam e correm descalços, sem sequer pensarem no futuro.

À entrada da cidade cumprimentei a Lucila e a Tânia, mas não saí da bicicleta, ardem-me as feridas. Veio a Lucila ter comigo à estrada.

E depois passei pelo restaurante do Paixão: hoje têm peixe frito com banana. Carapau e peixe Bom Bom. Perguntei se há água para eu ir lavar pernas e pés; experimentaram a torneira – há água – e disseram que tenho de ser rápida. Fui-me embora para o hotel.

A bicicleta já não entra comigo no hotel. Fica presa na rua com o cadeado. Cheguei às 12h45, tenho 26,5 km na bicicleta.

Desta vez já tenho o pequeno-almoço  no frigorífico. Em cima está o tabuleiro.
Lavei as pernas e os pés, pus pomada nas feridas, e fui almoçar de chinelos. Também há luz, mas vai faltar daqui a pouco, tal como a água.

Acabei por almoçar na Kita – hoje o prato do dia é moqueca de peixe, não resisti. Muito picante, eu não sou apreciadora de picante, mas estava muito bom. 70 dobras. São agora 13h30.

O resto do meu arroz desta vez calhou a este cão. Há outros mais enfezados, mas não os encontrei.
Curiosamente ainda não vi gatos desde que cheguei. Hoje estou no sexto dia. Onde andam os gatos? Não há gatos no Príncipe?
Às 14h30 vou para o quarto comer uma sobremesa, ou seja, uma bolacha com chocolate que trouxe de Portugal (não há sobremesas na Kita), lavar os dentes, e agora tenho de ir ver se finalmente apanho o cemitério aberto; e ir aos escritórios do Parque Natural reservar um passeio ao Pico Papagaio para domingo.
Ando de chinelos, inclusive a pedalar na bicicleta, pois vou aos dois locais a pedalar. Já não caminho. Leva muito tempo, nunca mais chego. De bicicleta é tudo tão rápido.

Às 14h45 já não há água e luz.

Telefonei a um guia chamado Chandinho para combinar a ida ao Pico e às Cascatas, no domingo. Foi um casal português, que está a viajar com a filha, quem me deu o contacto. Esta família veio comigo no pequeno avião do Príncipe, e volta e meia cruzamo-nos na ilha, pois claro. Eu perguntei-lhes se já tinham ido ao Pico Papagaio – de onde se vê a cidade de Santo António. Disseram-me que não tinham isso planeado. E deixaram-me o contacto do Chandinho. Este pediu 60€ pelo carro, eu negociei para 50€; mais 30€ para o guia que me acompanhará – em princípio será o guia Biquegila que apareceu na crónica 13 – e mais 5€ de entrada no Parque Natural. É caro. É uma atividade que dura meio dia. Vou ponderar, disse eu ao Chandinho.

Entretanto navego um pouco na internet e descubro o Pico do Príncipe. O Pico Papagaio é uma miniatura de pico, ao pé do maior pico, que se chama Pico do Príncipe. Então? Mas afinal eu quero ir ao maior pico do Príncipe, quero lá saber dos outros.
O que eu fui descobrir.

Nos escritórios do Parque Natural mostram-me os destinos e a lista de preços. Nem consta o Pico do Príncipe. Não é um destino turístico. Tem 947 metros de altitude e normalmente só é autorizada a ida por motivos específicos – estudiosos, cientistas.
Eu a ver a minha vida a andar para trás.
Eu quero ir ao Pico do Príncipe.
É muito duro, dizem-me, é necessária grande capacidade física, leva um dia inteiro a subida e a descida.
Eu cada vez mais contente e decidida a ir ao Pico do Príncipe.
Indicam-me que um bom guia, experiente – aqui do Príncipe – poderá levar-me lá por 70€. Chama-se Monuna. Mais umas 60 dobras por uma mota para me levar a São Joaquim, onde começa a caminhada. E mais 5€ a entrada no Parque.
A única coisa que me preocupa são as esfoladelas nos pés. Um dia inteiro a caminhar, terei de levar uns autênticos pensos de combate, para eles não se descolarem. E provavelmente fazer novos pensos pelo caminho. Tranquilizo os funcionários do Parque: se a coisa se complicar, voltamos para trás. Não faremos o caminho todo. Só fazer uma parte dele já valerá a pena. Mas de qualquer forma tenciono chegar ao fim.
E em vez de mota, posso ir de bicicleta até São Joaquim. Ao que os funcionários – experientes nestas coisas e mais sensatos do que a Rute – disseram: e depois duma caminhada dum dia inteiro estará capaz de pedalar de volta a Santo António? Ah pois, se calhar é melhor voltar de mota. E ir também.

Bom, vou ponderar se quero meter-me nesta aventura. Também será preciso resolver a questão da comida. Tenho que falar com a Kita para saber se ela pode preparar-me comida para eu levar. Uma coisa desta envergadura não vai lá com sandes. Eu precisarei dum frango assado ou coisa que o valha.

Fui depois à farmácia comprar fita adesiva para os pensos nos pés, pois a minha acabou-se. 45 dobras (1,80€). Também fui comprar iogurtes e um garrafão de água. Entretanto começou a chover e já não fui ao cemitério. Ainda não é desta que conheço o cemitério do Príncipe.

Ao lado da farmácia há este alfaiate.

Estou no quarto às 15h30.
E foram estas merditas de esfoladelas (desculpem a linguagem, mas é o mais suave que encontro) que me impediram de fazer 1 km. Ao raspar ali em cima, repetidamente, arde como se o mundo fosse acabar. Estas minorquices, quem diria.

Foi um dia intenso, quero descansar agora. Selecionar as fotos, fazer o backup, tomar banho (quando a água e a luz vierem, às 17h), preparar as coisas para o dia seguinte (encher os cantis de água, preparar a mochila e a comida, estudar o mapa e definir um percurso). Tenho muito com que entreter-me antes de ir dormir, talvez às 19h.
E a esta hora – 19h – começou a chover torrencialmente.
Hoje fiz 28,6 km na bicicleta.
Na definição do percurso para o dia seguinte, não posso planear percursos grandes porque não tenho onde almoçar. Aparentemente só na cidade. Tenho de voltar sempre à cidade para almoçar.


¹ Albuquerque, Carlos e Cesarini, Dario (s.d.) “Plano de Manejo do Parque Natural do Príncipe 2009 – 2014”. Programa ECOFAC IV da União Europeia. Documento consultado a 23 Setembro 2019,
<https://web.archive.org/web/20110409211731/http://www.stp-parks.org/documentos_pdf/P_Manejo_Principe.pdf>

² “Shrew” (s.d.) Wikipedia. Página consultada a 23 Setembro 2019,
<https://en.wikipedia.org/wiki/Shrew>

³ Pires, Patrícia Marques (2015, 6 Abril) “Há uma nova espécie de mamífero na ilha do Príncipe”. Jornal Público. Página consultada a 23 Setembro 2019,
<https://www.publico.pt/2015/04/06/ciencia/noticia/ha-uma-nova-especie-de-mamifero-na-ilha-do-principe-1691173>