029 – Príncipe – Almoço no Picão

Agora quero ir visitar a Praia Burra. Hoje é o dia das praias. Não me apetece ir já caminho de Santo António só por causa do almoço. Além do mais já não tenho mais tempo no Príncipe para visitar o que falta. Amanhã é domingo e vou fazer a subida do Pico do Príncipe. Na 2ª feira parto de manhã para São Tomé. E efetivamente ainda faltam meia dúzia de coisas para visitar. Não vou conseguir fazer tudo, está visto.

É meio dia e vinte, e antes de mais eu preciso de água. Relembro que ando apenas com dois cantis de água porque perdi a tampa do terceiro no 5º dia. No hotel da Praia Banana, junto à praia, vendiam água: 50 cl 50 dobras. Eu compreendo que a água tem de ser transportada de Portugal até São Tomé, e depois de São Tomé até ao Príncipe, e depois especificamente até à Praia Banana. Mas enfim, dar 2€ por uma garrafa de 50 cl que custa 20 cêntimos no supermercado, custa-me um bocado. Recusei. Hei-de encontrar uma quitanda que venda água mineral. E já agora pode ser que alguém me prepare um peixe assado com fruta-pão, por estas bandas, para eu poder almoçar e continuar o passeio. É que se vou a Santo António já não saio, já não vou fazer novamente a subida do Gaspar para voltar aqui.

A chegar novamente ao Picão, depois de grande subida. Recordo que o mapa com o Picão se encontra na crónica 26. Ali naquela casa à direita, com a porta aberta, está uma senhora, e eu vou perguntar-lhe onde é que posso comprar água e almoçar. Ela chama o neto e pergunta-lhe a ele também.

Aparentemente há uma loja nesta estrada principal do Picão que vende água. Mas aqui é só bebidas alcoólicas, responderam-me, quando perguntei. É mais à frente.

É aqui que vendem garrafas de água mineral.

25 dobras, 1,5L. Valeu a pena esperar. Enchi os dois cantis de água e bebi o resto. Deixei a garrafa vazia logo aqui, com o rapaz.
Agora vou em busca do restaurante que a senhora me falou – o restaurante da Ilídia, também na rua principal do Picão. Já passei pela entrada, tenho que voltar para trás, dado que aqui só vim buscar água.

Para os leitores estrangeiros perceberem a placa: “Health Center”.
Leio na internet o seguinte sobre o programa Stabex:
“O  Stabex é  um dos principais instrumentos financeiros previstos nas Convenções de Lomé a  favor dos Estados da África, das Caraíbas e do Pacífico. Tem  como objetivo a estabilização das suas receitas de exportação, em princípio destinada à Comunidade, relativamente a 49  produtos de origem agrícola, entre os quais o café e o cacau.”¹

Ou seja, no caso do café e do cacau descerem de preço nos mercados internacionais, a União Europeia financiava a diferença, de forma a que os produtores tivessem o mesmo nível de rendimentos. Este programa Stabex esteve em vigor entre 1975 e 2000. Esta placa já será muito antiga.

A caminho do restaurante encontrei o funcionário dos escritórios do Parque Natural. Cumprimentámo-nos. Mora no aeroporto e está aqui de visita, disse-me.

Eis a Ilídia, a dona do restaurante. Há muitos clientes e uma grande azáfama e algazarra, com música em altos berros. Hoje é sábado. No início veio um homem à porta atender-me e eu pedi para chamar a Ilídia. Virei a saber daqui a pouco que era o Vargas, o seu marido.
É uma da tarde e tenho 23 km feitos na bicicleta. O céu está muito carregado e começou a chuviscar.

Como é hábito eu não me sento à mesa. Ando por aqui a ver cozinhar. E o restaurante está muito cheio e com muito barulho, também não quero ir para o meio daquela confusão, e só homens. Aqui é a Naiselene (será assim que se escreve?) a fritar o peixe. Trabalha aqui, claro. Perguntei se posso comer um peixe grelhado no carvão só com sal. Quero evitar os fritos. Estranharam muito eu querer apenas sal no peixe. Nem limão?, perguntaram-me. Não, eu gosto de peixe e de carne assados só com sal, sem mais temperos nenhuns. Vai demorar um pouco, disse-me a Ilídia. Não faz mal, estou com tempo.

Fruta-Pão a assar. (Apresentei a fruta-pão na crónica 13).

A Naiselene pergunta-me qual dos dois peixes quero.

O Vargas, marido da Ilídia.

Esta menina também se chama Rute. Às costas está o Jonathan. Ambos são filhos da Naiselene.

Banana frita.

O meu peixe grelhado só com sal, com fruta-pão assada. A Ilídia convidou-me a comer em sua casa (colada ao restaurante, com ligação direta à cozinha e à sala onde servem os clientes).

Em cima da mesa está o meu almoço.

O rapaz é o primo Fábio. Assistem a desenhos animados na televisão, em português. A Rute reprovou agora o 5º ano, pelo que para o ano vai repeti-lo. Tens de estudar muito, digo-lhe eu. Para seres médica e ganhares mais dinheiro. Ao que ela me respondeu imediatamente: “Não há universidade no Príncipe”. Vais para São Tomé!
Como estas crianças já sabem que têm o destino traçado. É muito caro ir estudar para São Tomé. A mãe trabalha num restaurante, é difícil ter dinheiro para mandá-la estudar fora. A sua sorte seria destacar-se, ter boas notas, ser a melhor da turma, e aí muito certamente iriam buscá-la como bolseira para uma universidade em São Tomé ou em Portugal, como eu em breve virei a conhecer, uma dessas melhores alunas a quem foram buscar e meteram numa universidade portuguesa.

A Naiselene e o filho Jonathan, muito mimado pela mãe, que o estrafega com beijos.

A Naiselene a falar com o marido. Chama-se Alcides e trabalha como supervisor na proteção das tartarugas, contou-me a Naiselene.
São agora 14h25. Almocei muito bem (não consegui comer nem metade), fui muito bem recebida e é hora de partir. Destino: Praia Burra. É com cada nome…


¹ “Observações gerais – Sistema Stabex” (s.d.) Comissão Europeia, Press Release Database. Página consultada a 6 Outubro 2019,
<https://europa.eu/rapid/press-release_ECA-95-2_pt.htm>