016 – Príncipe – Caminhada pelo Ilhéu Bom Bom

Existe um trilho no ilhéu Bom Bom, com 1,7 km. É o trilho TR5 (“TR” de Trilho Recomendado). Há vários trilhos na ilha no Príncipe. Na crónica 15 era o TR4 de 3 km. E hei-de encontrar mais nos próximos dias. Está muito giro, isto, organizado pelo Parque Natural do Príncipe – Reserva da Biosfera. Por aqui ninguém faz BTT, ainda não há trilhos para BTT. Eu vou então fazer este trilho a pé.

De vez em quando vou furando teias de aranha para passar. Ou elas fazem a teia rapidamente, ou não passa por aqui gente há algum tempo. Ainda me perdi no caminho – a certa altura perdi o trilho e tive que voltar para trás, onde ainda o identificava, e seguir noutra direção. Um trilho destes é uma segurança total. É um ilhéu turístico, com cancelas e guardas para entrar. O pior que poderia acontecer-me era escorregar e torcer um pé.
Estou toda equipada – calções de ciclismo, luvas, capacete. Uma ciclista sem bicicleta a fazer uso de outros músculos nas pernas (sujas de óleo da corrente). Raramente tiro o capacete – ele não pesa nada e é arejado. Só a maçada de andar com ele na mão… mais vale ficar na cabeça. E as luvas não as tirei porque de vez em quando dão jeito para agarrar nos arbustos, em necessidade de equilíbrio. Esta é uma selfie tirada com a máquina no chão. Não há mais ninguém no ilhéu. Sou a única criatura humana no pequenino ilhéu.
Demorei-me, usufruí.

Lagartixa do Príncipe (Trachylepis principensis)

Posteriormente estive a ver as fotos dos répteis existentes em São Tomé e Príncipe na maravilhosa “Reptile Database”, uma base de dados construída com a colaboração de centenas de cientistas por todo o mundo, bem como de pessoas que se dedicam ao estudo dos répteis como hobby – como é o meu caso.
Aparentemente esta será a Lagartixa do Príncipe (Trachylepis principensis), mas não tenho a certeza. Se for mesmo ela, só existe aqui no Príncipe. É endémica, ou seja, não existe em mais lado nenhum no mundo.
Então enviei um email a Peter Uetz – biólogo, herpetólogo e administrador daquela base de dados – perguntando se é mesmo um Trachylepis principensis. Se poderia ajudar-me a identificar esta linda criatura solarenga. Se não é um Trachylepis principensis, então o que é?

O Dr. Peter Uetz teve a gentileza de responder-me uma vez mais (porque já não é a primeira vez que trocamos emails: no ano passado, a propósito da cobra timorense Trimeresurus insularis trocámos algumas impressões), e encaminhou o meu email para o biólogo português Luís Ceríaco. Ora este biólogo português tem feito um trabalho fabuloso na área da herpetofauna em São Tomé e Príncipe (e também em Angola e Namíbia, pelo que li), tendo já identificado e catalogado uma série de espécies endémicas daqui, de São Tomé e Príncipe. Irei referi-lo algumas vezes, durante estas crónicas. Precisamente esta Lagartixa do Príncipe foi uma dessas espécies identificadas por si, como nova espécie.
E efetivamente o biólogo Luís Ceríaco confirmou que esta lagartixa é mesmo a Trachylepis principensis – ajuda que agradeço imenso desde já.
E esta minha foto será incluída na “Reptile Database”, com a minha identificação como fotógrafa do bicharoco.

E pensar nisto, que esta lagartixa só existe aqui no Príncipe. Uma ilha minúscula com 30 km de comprimento e 6 km de largura. Este bicharoco só existe aqui. Em mais parte nenhuma do mundo pode ser visto – senão aqui aos meus pés.

Já estou de volta à praia. Levei 1h15 e fiz mais 700 metros do que o indicado na placa: fiz 2,5 km. Terei dado alguma volta extra?
A praia está completamente cheia destes bicharocos, os quais não consegui fotografar bem. São caranguejos-ermitões, os quais aproveitam cascas de moluscos vazias para se abrigarem e viverem. Não param quietos, fogem, tenho de andar dobrada a persegui-los com o zoom no máximo. E convém ter cuidado para não pisar nenhum. Estender a toalha no chão deve ser uma experiência interessante. Será que eles vão para cima da toalha? E para cima das pessoas? É que são muitos mesmo. Se calhar daqui a pouco vão-se embora, não sei. Pelo menos agora estão muito azafamados. Eu sentei-me numa rocha e comi uma das minhas barras de 20 gramas de proteína, a observá-los e à bonita praia.

Faz calor, grande humidade, a água está morna, eu terminei uma caminhada de 2,5 km. Tenho de ir ao banho!! Tenho o biquíni na mochila, só preciso de trocá-lo em algum lado. Antes de partir na caminhada fui a uma casa-de-banho aqui ao lado do restaurante, vou lá agora novamente trocar de roupa.

Vou perder o repelente de insetos que pus no corpo, paciência. A esta hora não há mosquitos, eles atacam sobretudo de manhã e ao anoitecer. São agora 11 da manhã. Saí de casa às 6, há cinco horas que ando a passear.

Parti ao meio dia destas bonitas praias. Foi um dia bem passado.

Este hotel do Bom Bom, bem como os hotéis da Roça Sundy e da Praia Sundy – três hotéis ao todo – pertencem ao multimilionário sul-africano Mark Shuttleworth. Este nasceu em 1973 e é administrador da multinacional sul-africana Here Be Dragons (HBD) – “Aqui Sejam Dragões”. Curioso e audaz, este nome, não é? Vamos ser dragões! Enfim, os benfiquistas e os sportinguistas não devem achar graça à coisa.
Mark Shuttleworth é o responsável por grande parte do investimento no desenvolvimento sustentável do Príncipe, seja no turismo ou na conservação ambiental.
Não podia passar estas crónicas sem falar de si, portanto.

Fiquemos com este artigo do Diário de Notícias:

Mundialmente é apelidado de “afronauta”, mas no Príncipe é conhecido como o “homem da Lua”. Em 2011 descobriu e apaixonou-se pela ilha quase esquecida no mapa, assumindo desde essa altura o seu desenvolvimento sustentável em colaboração com o governo regional. É o “patrão” de quase toda a população: tem três hotéis na ilha (Bom Bom Principe Island, Hotel Roça Sundy e o Sundy Praia Lodge), um projeto de reabilitação da agricultura orgânica, contribui para o desenvolvimento das infraestruturas, como o aeroporto e estradas, e reabilita edifícios na cidade de Santo António. Numa ilha com pouco mais de 7 mil habitantes, é difícil não trabalhar para Mark – nem que seja indiretamente.
Mark enriqueceu numa altura em que a internet estava a crescer. Em 1996, enquanto estudava finanças e tecnologias da informação na Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, fundou a Thawte. Foi uma das empresas pioneiras a trabalhar na segurança de transações na internet. Três anos depois, segundo a TechRepublic, vendeu-a à gigante americana Verisign por mais de 500 milhões de euros. O primeiro «chuto para a Lua» que o tornou milionário.¹

Visita do Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, à ilha do Príncipe, em Maio de 2019. Nesta foto aperta a mão a Mark Shuttleworth.
Foto retirada de Diário de Notícias.

O empresário sul-africano é também conhecido por ter sido o primeiro africano no espaço depois de ter gastado 20 milhões de euros em 2002 num lugar na nave Soyuz e numa estadia de nove dias na Estação Espacial Internacional, tornando-se num dos primeiros turistas espaciais da história.
“O homem da Lua”, como é conhecido nas ruas do Príncipe, é agora responsável por um sonho de sustentabilidade para uma das ilhas mais pobres do mundo mas ao mesmo tempo das mais ricas no que toca a biodiversidade ambiental.
Por isso, a fundação que faz parte da HBD – Fundação Príncipe – candidatou a ilha, com sucesso, a reserva da Biosfera da UNESCO (em breve falarei disto, numa crónica futura), um sinal de que o empenho no desenvolvimento económico da ilha deve ir de mãos dadas com a preservação do ambiente.
“Abraçámos o projeto Biosfera porque é algo acima de nós, é algo da ONU, e é uma forma de mostrarmos a toda a gente, em particular à população, que estamos muito felizes por estarmos subordinados a uma grande autoridade”, explicou Buster Howes, administrador da HBD no Príncipe.
Neste projeto, “a ONU irá dar as ordens e nós iremos executar”, disse Buster Howes, o qual deu o exemplo do projeto de um viveiro de árvores que está em preparação, com “100 mil árvores para reabilitar a floresta” autóctone, degradada ao longo dos anos pela plantação intensiva de cacau e óleo de palma.
Na ilha existem cerca de 20 espécies vegetais autóctones, um exemplo da biodiversidade do Príncipe mas também do país. São Tomé e Príncipe “tem 10% da terra firme das Galápagos”, um arquipélago que tinha menos aves indígenas. “Se Darwin tivesse vindo aqui em vez das Galápagos teria visto uma maravilha ecológica”, considerou o administrador da HBD.²

A infraestrutura aeroportuária do Príncipe foi requalificada em 2015. A obra também foi promovida pela Here Be Dragons (HBD) e o aeroporto passou a dispor duma pista com 1.850 metros, apta a receber aviões com capacidade para 50 a 60 passageiros.³

Já na Roça Sundy existe outro projeto custeado pela HBD, que procura dinamizar pequenos negócios que completem a oferta turística existente. Uma antropóloga portuguesa – Rita Alves – conta com o apoio de dois artesãos para ensinar as mulheres a fazerem pequenas peças de artesanato para depois vender.
“O projeto Leve Leve compreende um conjunto de senhoras que estão desempregadas” e o objetivo é “transformar o artesanato em meio de subsistência e tentar retirar receitas do que elas sabem”. À semelhança do resto do país, a ilha do Príncipe tem um desemprego elevadíssimo, em particular entre as mulheres e os mais jovens.
Para a antropóloga portuguesa, que está no Príncipe há vários anos, o objetivo é redinamizar práticas antigas de modo a criar novas receitas, principalmente num momento em que a ilha é cada vez mais procurada por turistas.
“Há práticas que já não são feitas e que queremos recuperar, como é o caso das “bonecas de folha de bananeira”, uma tradição que se perdeu e que agora Rita Alves quer voltar a ter como ex-libris da ilha. “É um brinquedo que as mulheres costumavam fazer quando eram mais novas e agora já não fazem. Mas antigamente faziam, vestiam, batizavam e tinham casamentos e padrinhos”, uma prática ancestral que se perdeu, salienta a antropóloga.⁴

Leio também no Diário de Notícias que Mark Shuttleworth vem uma vez por ano ao Príncipe.¹


¹ Gomes, Nuno Mota (2019, 29 Maio) “Quem é o milionário a quem Marcelo aperta a mão na Ilha do Príncipe”. Página consultada a 17 Setembro 2019,
<https://www.dn.pt/mundo/interior/quem-e-o-milionario-a-quem-marcelo-aperta-a-mao-na-ilha-do-principe-10956467.html>

² “Ilha do Príncipe, a paixão do primeiro cosmonauta africano” (2017, 6 Março). Agência Lusa, Diário de Notícias. Página consultada a 17 Setembro 2019,
<https://www.dnoticias.pt/mundo/ilha-do-principe-a-paixao-do-primeiro-cosmonauta-africano-BG1019065>

³ “Euroatlantic voa para a Ilha do Príncipe” (2019, 12 Março). Publituris. Página consultada a 17 Setembro 2019,
<https://www.publituris.pt/2019/03/12/euroatlantic-voa-para-a-ilha-do-principe/>

⁴ “Mulheres da ilha do Príncipe reaprendem artesanato para atrair turistas” (2016, 13 Agosto). Agência Lusa, Dinheiro Vivo. Página consultada a 17 Setembro 2019,
<https://www.dinheirovivo.pt/economia/mulheres-da-ilha-do-principe-reaprendem-artesanato-para-atrair-turistas/>