Safari ao Quénia & Seychelles

001 – Introdução

Estas foram as primeiras crónicas que escrevi. Este safari ao Quénia, com extensão a Mombassa e às Seychelles, teve a duração de três semanas, e a viagem foi feita no ano de 2003. Estas primeiras crónicas são incipientes, muito pequenas, com explicações breves, e foram enviadas por email a meia dúzia de colegas e amigos, na altura. Foi o início das grandes viagens e da sua descrição em crónicas. Todavia, mesmo incipientes, são tão ricas, com cenários tão espetaculares, que as publico agora neste website, tal como foram escritas na altura, praticamente sem alterações, apenas com uma ligeira adaptação ao novo formato dum website. As fotos sim, são muitas mais do que as que foram enviadas na altura. Publico agora fotos inéditas, portanto.
Esta viagem incluiu ainda duas pequenas excursões em Amesterdão, em caminho – ida e volta – dado que os voos fizeram escala aí, no entanto não as abordarei nestas crónicas.

002 - Chegada ao Quénia e Primeiro Safari

A viagem de Portugal para o Quénia foi muito atribulada. O nosso avião partiu meia hora atrasado, de Lisboa, supostamente por complicações derivadas da greve dos controladores de tráfego aéreo em França. Foi o suficiente para perdermos a ligação para Nairobi. Chegámos a Amesterdão, faltavam 15 minutos para o avião de ligação partir. Tivemos de voltar para trás – apanhar outro avião para Londres, o qual partia daí a 5 ou 6 horas, e onde existia uma nova ligação para Nairobi. Deram-nos senhas de almoço, senhas para telefonarmos, senhas sei lá para que mais, e pronto, só resta esperar.

Íamos nós muito desalentados, novamente pelas intermináveis passadeiras rolantes do aeroporto de Amesterdão (existe a indicação em minutos de quanto tempo se leva a chegar aos vários locais: 7 minutos para ali, 12 minutos para acolá, 9 minutos para aqueloutro…) quando damos de caras com um quiosque todo colorido “Visite Amesterdão!”. Tão booom… Trocámos algumas impressões com a rapariga que estava a atender. Sempre em inglês, claro. Deixámos de falar português em Lisboa: as próximas três semanas serão totalmente em inglês. “Falam português?” – foi a exceção. A rapariga mulata do quiosque de Amesterdão deixou-nos surpreendidos e divertidos a olhar para ela. É de Moçambique e enquanto trocávamos impressões entre nós, em português, ela apanhou-nos.

“Jambo” quer dizer “olá”. Para onde quer que vamos, cumprimentam-nos sempre com “Jambos”. E nós respondemos também com “jambos”.
“Hakuna Matata” (alguém se lembra do “Rei Leão”?) quer dizer “Tudo bem, não há problema”. Ouvimos isto constantemente, também. Mesmo nas lembranças que se trazem do Quénia, vêm frequentemente escritas estas palavras.

003 - O Atualmente Extinto Rinoceronte-Branco-do-Norte

Aqui encontro-me num hotel-observatório, construído quase todo em madeira, bem integrado na natureza, chamado “Treetops”. Fica no Parque Nacional Aberdare. Não podemos sair do hotel, e as portas encontram-se abertas apenas por questões de evacuação em caso de emergência, mas com muitos alertas para o perigo lá fora. Crianças menores de sete anos não são admitidas. Este hotel foi construído em 1932 e usado pelos caçadores britânicos, no tempo da colonização, e onde estiveram algumas individualidades importantes da época, e mesmo de tempos mais recentes, como o Príncipe Charles.

Não cheguei a perceber se se tratava de uma animação para os turistas, ou se o autocarro velhíssimo que nos transporta até ao interior do recinto não conseguiu de facto subir a rampa toda até ao hotel. Efetivamente fizeram-nos sair a cerca de 500 metros da entrada, e fomos a pé até ao hotel, acompanhados, claro, de um guarda com uma espingarda Kalashnikov na mão. Neste Parque Nacional existem maioritariamente elefantes, bastante agressivos por sinal (quem imagina os elefantes africanos uns bichinhos dóceis engana-se redondamente…). Durante estes 500 metros existem várias paliçadas de abrigo, do género das proteções das touradas, onde os forcados se escondem dentro da arena. Pareciam muito poucas e pequenas para todo o grupo do autocarro – cerca de 15 viajantes vindos de todos os lados – mas o guarda comentou que se um elefante aparecesse e nos atacasse, tinha a certeza de que todos caberíamos lá dentro. Foi gargalhada geral, claro.

Contou-nos o caso de uma turista (japonesa, se bem me recordo) que quis tirar uma foto bem perto, junto à entrada, com um bebé no colo, e deixou o elefante aproximar-se, talvez pensando que era dócil como os elefantes asiáticos – explicou-nos. E o elefante, que era uma fêmea, vinha acompanhada da cria. Todos fugiram para dentro à aproximação dos elefantes. Gritaram-lhe para entrar, o guarda chamou-a, e acabaram por não ter outra solução senão abater a mãe elefante, deixando a cria só. Protestámos com este relato, naturalmente, pela ignorância e irresponsabilidade daquela pessoa, e o guarda explicou que entre uma pessoa e um animal, este último estaria sempre em desvantagem e teria de ser abatido. Encontram-se fotos no hotel deste acontecimento, entre tantas outras afixadas.

Hotel Treetops, no Parque Nacional Aberdare.
Dado que não posso sair do hotel – existem animais selvagens à volta e não é permitido sair do hotel – uso esta foto retirada do “The Telegraph”.

Os próprios quartos de Treetops, bastante exíguos e sem casa de banho privativa, são postos de observação. Têm uma janela estrategicamente colocada, com vista para o lago. Durante a noite é colocado ao dispor dos viajantes um alarme para o caso de uma espécie rara aparecer – nomeadamente o Rinoceronte-Branco. E de facto fomos acordados a meio da noite, por uma campainha estridente dentro do quarto. Lá estava um casalinho de Rinocerontes-Brancos-do-Norte a beber água no lago. Apanhámos um susto dos diabos, a verdade seja dita, a acordar assim precipitadamente durante a noite, com uma campainha de alarme: “O que se passa? Estamos a ser atacados? Leões? Manadas de elefantes? Ou fogo? Temos de fugir?”. Afinal de contas não é todos os dias que estou no Quénia, e a meio da noite uma pessoa leva alguns segundos a reagir e a raciocinar. Foi muito ensonada que vi os dois Rinocerontes-Brancos-do-Norte, pacatamente a beberem água no lago, a ponto de pensar que tanto faz serem brancos, cinzentos ou amarelos, e fui dormir novamente.

Sudan, o último rinoceronte-branco-do-norte macho, morreu em Março de 2018.
Foto retirada do jornal “Público”.

Adenda de 2019 às crónicas de 2003:
Sobre o Rinoceronte-Branco-do-Norte

Em 2003 eu não estava de maneira nenhuma consciente do espetáculo fenomenal que foi assistir a isto. Ver um casal de Rinocerontes-Brancos-do-Norte (subespécie Ceratotherium simum cottoni), vivos, saudáveis, a beber água no seu habitat natural. Só não gaguejo com a emoção, agora, em 2019, porque estou a escrever e não a falar. O último macho do Rinoceronte-Branco-do-Norte, espécie nativa da África central, morreu em março de 2018 aos 45 anos de idade. O último macho morreu.

As duas fêmeas restantes, filha e neta, vivem juntas numa área protegida, precisamente aqui ao lado do Parque Nacional de Aberdares, onde fica o hotel Treetops, sob a proteção de seguranças fortemente armados, 24 horas por dia, 7 dias por semana. O motivo da quase extinção da espécie é a crença difundida em alguns países asiáticos de que o chifre deste animal é capaz de curar vários tipos de enfermidades, entre elas, o cancro. Não existem confirmações científicas que corroborem esta tese.

No planeta Terra, a partir de 2018, existem duas fêmeas apenas, portanto, do Rinoceronte-Branco-do-Norte. Em 2013 a espécie foi também extinta em Moçambique, depois dos últimos quinze animais terem sido mortos no Parque Transfronteiriço do Grande Limpopo.

Que tristeza profunda.

Já o Rinoceronte-Branco-do-Sul (subespécie Ceratotherium simum simun), existente no sul da África, é constituído por 19 mil a 21 mil exemplares, segundo dados de 2015.¹
O rinoceronte-branco difere do rinoceronte-negro não exatamente pela cor (ambas as espécies são acinzentadas) mas sim pelo formato dos seus lábios. Efetivamente a pele do rinoceronte-branco é escura. A explicação para o nome de rinoceronte-branco, “white rhinoceroses” em inglês, é originária da África do Sul quando a língua africâner se desenvolveu a partir do holandês. A palavra do africâner wyd (derivada do holandês wijd), significa “largo”, ou seja, “wide” em inglês, referindo-se à boca larga do rinoceronte. Os primeiros colonizadores britânicos na região interpretaram a palavra wyd por white. A partir de então, o rinoceronte da boca “larga” foi chamado de rinoceronte-branco, enquanto que o rinoceronte da boca “estreita” ou “narrow pointed”, foi chamado de rinoceronte-negro. A boca “larga” é adaptada para comer erva rasteira, e a boca “estreita” é adaptada para comer as folhas dos arbustos.¹

Posto isto – a extinção prática do Rinoceronte-Branco-do-Norte em 2018 – só hoje compreendo a emoção dos próprios especialistas pertencentes ao hotel, que acompanham os viajantes que por ali passam, e que na manhã seguinte nos perguntaram perfeitamente entusiasmados se vimos os Rinocerontes-Brancos-do-Norte. Então? Vocês não vêem isto todos os dias? – pensei, em 2003.
Pois parece que não, Rute. O cenário negro da extinção já se aproximava nessa altura.

Najin, 27 anos, e Fatu, 17 anos, são as duas únicas sobreviventes da subespécie. São a filha e a neta do Sudan.
Foto retirada do jornal “Público”.

Segundo leio no jornal “Público”, numa notícia de Julho de 2018, “Na tentativa de manter este precioso animal entre nós, uma equipa de cientistas está há vários anos a trabalhar no laboratório, recorrendo às mais recentes técnicas de procriação medicamente assistida e da investigação na área de células estaminais. Para já, segundo um artigo publicado na última edição da revista Nature Communications, conseguiram produzir o primeiro embrião híbrido, com ovócitos do rinoceronte-branco-do-sul e espermatozóides do rinoceronte-branco-do-norte. Mas os planos dos cientistas vão além disso e têm como objectivo conseguir fazer nascer um rinoceronte-branco-do-norte puro dentro de três anos. Seria o princípio do regresso de uma espécie que hoje está funcionalmente extinta.”²

Os jarros de água no chão, foi uma experiência que o “doutor” (não me recordo do nome do rapaz, só me lembro que ele se auto-intitulava “doutor”) nos mostrou. Deitando água no jarro, o fósforo que está lá dentro gira no sentido dos ponteiros do relógio – ou em sentido contrário, conforme esteja de um lado ou de outro da linha do Equador. E quando está mesmo ao centro, a água pura e simplesmente para, o fósforo não gira. Espantoso.

Linha do Equador a atravessar o Quénia.

Esta senhora a quem tirei a foto deixou-me o seu nome e morada escritos num pedaço de papel de jornal, para eu enviar-lhe a foto por correio.


¹ “Rinoceronte-branco” (s.d.). Wikipedia. Página consultada a 4 Junho de 2019,
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Rinoceronte-branco>

² Freitas, Andrea Cunha (2018, 5 Julho) “O extinto rinoceronte-branco-do-norte pode voltar?”. Jornal “Público”. Página consultada a 4 Junho de 2019,
<https://www.publico.pt/2018/07/05/ciencia/noticia/sera-possivel-trazer-de-volta-o-extinto-rinocerontebrancodonorte-1836902>

004 – Rinocerontes-Brancos-do-Sul

A par com a Sida, os búfalos e os crocodilos estão entre as principais causas de mortandade no Quénia, disse-nos o nosso guia Joseph.

Conforme expliquei na crónica 3, o rinoceronte-branco difere do rinoceronte-negro não pela cor (ambas as espécies são acinzentadas) mas sim pelo formato dos seus lábios. A boca “larga” é adaptada para comer erva rasteira, e a boca “estreita” é adaptada para comer as folhas dos arbustos.¹
Podem ser vistos os lábios estreitos do Rinoceronte-Negro neste website.

Nesta viagem não vi portanto o Rinoceronte-Negro, considerado pela IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza) como “Criticamente em Perigo”, no ano 2019.
Então e qual é a diferença entre o Rinoceronte-Branco-do-Sul e o Rinoceronte-Branco-do-Norte?
Aproveito estas duas imagens retiradas do site “Quora” para explicar:

Rinoceronte-Branco-do-Norte
Menor, com 1400-1600 kg (macho adulto); costas retas; crânio achatado; sem ranhuras entre as costelas; orelhas e rabos mais peludos; chifre frontal mais curto.
Foto retirada de Quora.

Rinoceronte-Branco-do-Sul
Maior, com 2000-2400 kg (macho adulto); dorso côncavo nas costas e proeminente; crânio côncavo; às vezes com ranhuras verticais distintas entre as costelas; mais pêlos no corpo; chifre frontal mais longo.
Foto retirada de Quora.


¹ “Rinoceronte-branco” (s.d.). Wikipedia. Página consultada a 5 Junho de 2019,
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Rinoceronte-branco>

005 - Atolados no Meio da Selva

É proibido sair do jipe. O guia – Joseph Kimani, um queniano de raiz – teria a sua carta profissional em risco se nos deixasse correr perigos desnecessários, pois em qualquer lugar pode estar um leão emboscado, ou qualquer outro animal selvagem.
Os animais não atacam os carros.

Um dia, ainda andávamos nas carrinhas que normalmente se usam por aqui (é raro haver safaris em jipes, normalmente são em carrinhas cujo tejadilho se abre) ficámos atolados no meio da selva. Seriam umas seis da tarde. Enquanto foi dia, eu fiquei num ponto ligeiramente mais alto, junto à carrinha, a observar os arredores, tentando vislumbrar algum leão ou algum búfalo, ou alguma chita, ou coisa que o valha, enquanto ambos tantavam desatolar a carrinha, tirando pás de terra, e colocando pedras junto aos pneus. Anoiteceu e nada feito. Mal caiu a noite o guia fez-nos ficar dentro da carrinha à espera que os Rangers (os guardas dos parques naturais) viessem tirar-nos daqui.
Esperámos até às 20.30h – noite cerrada, com animais selvagens por todo o lado, completamente isolados.
Chegaram os Rangers com as suas espingardas Kalashnikov ao ombro, rebocaram-nos com uma corda agarrada ao seu jipe e mal andámos uns cem metros, estava uma manada de búfalos aqui mesmo ao pé. Os búfalos são uma das principais causas de mortandade no Quénia.
No dia seguinte a agência de viagens disponibilizou-nos um enorme e magnífico jipe, apenas para nós três, dado que optámos por viajar sozinhos, apenas com o guia.

006 - Elefantes & Leões

007 - Hipopótamos, Crocodilos & Leões

Para chegarmos ao Rio Mara fizemos uns alucinantes 100 km no jipe – ida e volta – por caminhos de terra e buracos. Fomos altamente chocalhados, a toda a velocidade por ali afora, e tivemos de agarrar-nos muito bem para não darmos umas cabeçadas no tejadilho do jipe. No rio Mara vimos bastantes hipopótamos e alguns crocodilos a apanharem sol, nas margens. Descemos do jipe acompanhados por um Ranger, e caminhámos até ao ponto onde ambos os animais costumam estar, em amena convivência.

Os crocodilos temem os ruídos humanos, e como tal, o Ranger (que tirou a Kalashnikov do ombro e deixou-a na mão, pronta a entrar em ação) deu-nos instruções para caminhar lentamente, sem barulho de passos, e jamais falar em voz alta.

008 - Os Masai Mara

Marco da fronteira entre o Quénia e a Tanzânia.

No hotel.

Os Masai são um povo nómada – ou atualmente semi-nómada. O movimento de rebanhos de gado em vastas áreas em busca de melhores recursos é fundamental para o modo de vida dos Masai. Os Masai medem a sua riqueza pelo número de animais que possuem e pelo consequente número de filhos que têm. Devido à privatização e subdivisão das terras, os Masai agora são incapazes de viajar pelas vastas distâncias que cobriram no passado. Isto levou a mudanças consideráveis no seu modo tradicional de nomadismo.¹

Nesta foto os Masai executam a sua dança tradicional: uma espécie de marcha, que inclui o “adumu”, ou “aigus”, às vezes referido como “a dança saltitante”. “Adumu” e “aigus” são verbos Maa – a língua dos Masai – o primeiro significa “saltar”; e “adumu” significa “pular para cima e para baixo numa dança”.
Nesta dança é formado um círculo pelos guerreiros, e um ou dois de cada vez entra no centro para começar a saltar, mantendo uma postura ereta, muito direita, nunca deixando que os calcanhares toquem no chão.²

O pastoralismo e moranismo são duas tradições dos Masai. Os Morans, ou guerreiros, são uma classe etária de homens encarregados de proteger a comunidade de agressores externos, tanto humanos como animais. A iniciação morani é um assunto complexo que antigamente envolvia a morte de um leão e outras manifestações de bravura. Estes eventos serviam para provar a masculinidade dos homens. Com o recente clamor contra a matança de leões, o moranismo deixou praticamente de existir.¹

O meu relógio de pulso entretanto chamou a atenção dos Masai, que subitamente pararam a performance e rodearam-me, curiosos, apontando para o meu pulso. Eu ri-me. Este relógio faz sucesso em qualquer parte do mundo. Desde Nova Iorque, até ao Quénia junto do povo Masai!! Na crónica anterior dá para vê-lo relativamente bem, na foto em que eu caminho ao lado do Ranger. E ainda melhor na crónica 3, onde eu faço festas a um camaleão.

Os Masai vestem o chamado “Shuka”, um tecido tradicional originário da África Oriental, usado principalmente no Quénia e na Tanzânia. O Masai Shuka é um tecido xadrez de algodão, com a forma de um cobertor, de cores vermelho e azul vivos. O vermelho é a cor mais comum. Mas os Masai também usam o azul, ou padrões às riscas. O Shuka é conhecido por ser durável, sólido e resistente.³ Até os Masai no centro de Nairobi podem ser vistos a usar os seus shukas; e estilistas como Louis Vuitton aproveitaram o seu padrão para desenharem peças de vestuário, como se pode ver neste link.

As pequenas casas dos Masai chamam-se “enkaj” ou “engaji”. São construídas pelas mulheres e são feitas com uma mistura de lama, gravetos, ervas, bosta de vaca, urina humana e cinza.⁴ Se alguma vez tiveram mau cheiro, perderam-no por completo, posso assegurar-vos, pois estive dentro de duas, em duas tribos diferentes, uma no norte, outra no sul do Quénia.


¹ Ahmed, Zahra et al. (2014) “The Warrior’s Dilemma: Can Maasai Culture Persist in a Changing World?”. Consilience: The Journal of Sustainable Development, Vol. 13, Iss. 1 (2014), Pp. 300-311. Página consultada a 13 Junho 2019,
<https://consiliencejournal.org/wp-content/uploads/sites/25/2016/09/410-1031-4-PB.pdf>

² “Maasai people” (s.d.) Wikipedia. Página consultada a 13 Junho 2019,
<https://en.wikipedia.org/wiki/Masai_people>

³ Charlote B (2017, 12 Agosto) “Masai Shuka: Traditional Kenyan Fabric”. Afroculture.net. Página consultada a 13 Junho 2019,
<http://afroculture.net/Masai-shuka-traditional-kenyan-fabric/>

⁴ “Maasai people” (s.d.). Maasai Association. Página consultada a 13 Junho 2019,
<http://www.maasai-association.org/maasai.html>

009 - Uma Chita, um Leão & Girafas

010 - Os Tranquilos Alojamentos na Selva

Kilimanjaro, a montanha mais alta de África, com quase 6.000 metros de altitude. O Kilimanjaro tem neve no topo durante todo o ano, pelo que se torna interessante andar no meio da savana, debaixo do sol quente, e olhar para cima e ver uma coberta de neve.

“Ol Tukai” – Este foi o meu hotel favorito de toda a viagem. Fica na base do Kilimanjaro, no Parque Nacional de Amboseli. As últimas fotos da crónica anterior, do macaco a beber o meu café, já foram tiradas neste hotel. Tem extensos relvados e inspira a maior tranquilidade. Para descansar não há melhor, depois de uma intrépida semana e meia de safaris.

011 - Carne de Crocodilo, Zebra, Impala & Outras

Restaurante “Carnivore”. Aqui comemos zebra assada, almôndegas de gazela, carnes mais comuns como javali ou avestruz; e por vezes, nos vários hotéis, deliciosos e suculentos bifes de impala.

Mas a grande atração é o crocodilo. Nestas duas fotos estou a comer crocodilo com batatas. É uma carne branca, com muita gordura, que servem em cubos, numa espetada. Está bastante temperada com algo amarelo, que lhe dá o sabor a churrasco, pois é capaz de não ter por si só grande sabor.

012 – Mombassa

Após duas horas de voo desde a capital do Quénia, Nairobi, chegámos a Mombassa, a segunda cidade mais importante do país, onde vamos ficar três dias. Aqui ergue-se o Forte Jesus, construído pelos portugueses no século XVI. O porto de Mombassa desempenha um papel fundamental, servindo o Uganda, Ruanda, Burundi e Zaire.

Mal atravessámos a porta do avião, esbarrámos com um calor e sobretudo com uma humidade altíssimos. Levámos algumas horas a adaptar-nos a tão grande humidade. Parece que andamos dentro de água morna, de tal modo o ar é denso.

Mombassa sofreu ataques bombistas da Al’Qaeda em Novembro de 2002, ou seja, seis meses antes de aqui estarmos. Aliás, as ameaças permanecem enquanto aqui estamos, tendo mesmo a British Airways cancelado os voos para este destino. Andámos constantemente no aeroporto de Nairobi, inclusivamente, o alvo favorito e ameaçado pela Al’Qaeda. No hotel onde estamos alojados, está um papel afixado advertindo os hóspedes de que terão de prolongar a sua estadia no caso de estarem dependentes desta companhia aérea. Nós viajámos sempre através da KLM e não houve qualquer problema.

No aeroporto de Mombassa, enquanto aguardávamos pelas malas na passadeira rolante, um anúncio luminoso fazia publicidade a uma empresa cimenteira, dizendo: “Se os portugueses precisarem de construir outro Forte, virão ter connosco.” Para quem já está habituado a explicar aos quenianos que Portugal fica entre o Oceano Atlântico e Espanha, pois ninguém sabe quem somos, foi uma grande reviravolta ver aqui um anúncio com referência aos portugueses. (Se calhar continuam sem saber onde estamos, mas ao menos já ouviram falar dos portugueses!…)

Espetáculo de danças tradicionais, no hotel.

Este foi um episódio caricato. Ligaram o escorrega de água, na piscina. Esperaram que a água corresse um pouco, e deram-me o ok para fazer a descida. Toda lançada por ali abaixo, eis que deparo com nada mais nada menos do que esta rã. Dei um grito, tentei desviar-me com as pernas, mas nada feito. Fomos por ali abaixo, no meio da água, a toda a velocidade. Eu e a rã, a rã e eu. Caímos com um splash barulhento dentro de água. Ficou bem de saúde, a rã, como se pode comprovar pela foto. Uf…

Dentro do quarto, junto às bagagens.

013 – Seychelles

Nova partida de avião, desta vez para passar uma semana nas ilhas Seychelles. Posso dizer-vos já que de certa maneira foram um desilusão. São três ilhas, as habitadas – a maior, onde ficámos, chama-se Mahé. A segunda chama-se Praslin. E a terceira, de muito longe a mais encantadora, La Digue. Talvez tivéssemos criado muitas expetativas, com tanta publicidade, não sei.
São praias com abundante vegetação verdejante debruçada sobre elas. Praticamente mais nada.
A população local, os crioulos seychellenses, não são propriamente hospitaleiros. A começar pelo motorista do mini-bus que foi buscar-nos ao aeroporto, e o qual não trocou uma palavra connosco durante toda a viagem. Ou nós já estamos mal habituados à hospitalidade e tagarelice dos quenianos, ou aquele senhor não nasceu para a profissão que tem – lidar com turistas. Mas não, rapidamente constatámos que é geral. Na receção, nos restaurantes, na cidade. São muito fechados, e sorrir não é com eles.

Aqui tivemos a única experiência agradável com um seychelense acolhedor, um velhote que nos abordou aqui na rua, estava eu com o mapa na mão, e preparávamo-nos para apanhar o autocarro público. Indicou-nos a paragem, fez-nos adeus. E lá fomos nós. O bilhete custou três rupias, cerca de 0,75€. No Quénia a moeda era o shilling, aqui são as rupias. A funcionária que nos converteu dólares em rupias apresentava o seu ar duro e nada simpático, pois claro.

O calor e a humidade de Mombassa tornaram-se numa brincadeira ao pé das Seychelles. Aqui andamos mesmo a nadar em água morna. Não é ar, é água morna.

Vamos ao que interessa – La Digue.
Fica a 43 km de Mahé e a 6 km de Praslin. A ilha tem aproximadamente 5 por 3 km e cerca de 2.000 habitantes.

A viagem de barco até lá é que foi uma verdadeira tortura. Eu que nunca tinha enjoado, eis que sou apanhada desprevenida neste barco. Os sacos de papel disponíveis em cada banco deixam já antever o que vai passar-se. Ou talvez não, nunca imaginei tal coisa. O barco, tipo catamarã, não anda – voa. O percurso leva uma hora. Ao fim de vinte minutos não aguentei mais e a partir daí não houve sacos de papel que me chegassem. Eu nem me atrevia a levantar-me do lugar e procurar uma casa de banho, ou ar livre, ou fosse o que fosse, porque além de arriscar-me a cair, arriscava-me também a vomitar pelo caminho. Nunca imaginei tal coisa. Aguentei uma hora nisto. Tenho uma foto tirada à saída do barco (à qual vos poupo) onde eu estou branca que nem cal e com o ar mais enjoado e infeliz do mundo. Quem vê aquela foto só pode rir-se.

Não há carros, pois claro. Há táxis-bois.

Fizemos uma pequena viagem pela ilha, de táxi-boi, e parámos para ver as tartarugas gigantes, bem como uma demonstração do tratamento do coco e baunilha. Muito, muito interessante.

La Digue – posso dizer que valeu a pena fazer esta viagem de barco. A ilha é encantadora, pequena, típica, com uma das praias mais famosas do mundo, onde me encontro agora – “Anse Source d’Argent”, cheia de grandes rochedos arredondados, água azul clara, transparente, e palmeiras inclinadas sobre a água. Se alguma vez voltar às Seychelles, será para ficar em La Digue.

Dada a violência da viagem para cá, sempre a vomitar com o enjoo, no regresso não fui de meias medidas: nem sequer me sentei. Fui na parte de trás do maldito barco, em pé, a apanhar com as ondas em cima. Agarrei-me bem, para não cair borda fora (um dos marinheiros estava de olho em nós, pois eu não era a única, como podem calcular…) e uma hora depois, regressados a Mahé, eu mal conseguia abrir os olhos após tantas chapadas de água salgada. Cheguei encharcada. Mas bem-disposta! Uf…

No final da viagem, voltámos a permanecer cerca de 5 horas em Amesterdão. Desta vez já não nos inscrevemos em excursões, apanhámos um autocarro e fomos para o centro da cidade. Quatro euros um bilhete – o percurso durou 15 ou 20 minutos, lentamente, aos zigue-zagues pelos subúrbios de Amesterdão até chegarmos ao centro.
Espero lá voltar um dia destes, é uma cidade muito desenvolvida e radical. Completamente plana, toda a gente vai de bicicleta para o emprego. As famosas “Coffee Shops”… café com marijuana. Cerveja de marijuana. Chocolate de marijuana. O próprio menu do café, com estas bizarrices todas, estava à venda.
Regressámos ao aeroporto num magnífico comboio de dois andares, bastante confortável, com jornais ao dispor, que passa de 10 em 10 minutos.

26 horas após termos saído das Seychelles, chegámos a Lisboa. Completamente estafados, com a surpresa de ter um grupo maluco de amigos à nossa espera. “Então não é suposto estarem no trabalho??” – perguntei-lhes, no meio da festa toda.
E a aventura não acabou aqui – ainda nos perderam as bagagens, agora à chegada. Nós chegámos às 2 e tal da tarde, as bagagens chegaram à meia-noite, noutro voo. Vá lá…