São Tomé e Príncipe: 550 km de bicicleta, sozinha, 29 dias

031 - Príncipe - Décimo Dia, Subida do Pico do Príncipe

Hoje é domingo e vou subir o maior pico do Príncipe, com 947 metros de altitude, o qual se chama precisamente “Pico do Príncipe”.

Despertador às 4h. A eletricidade é desligada agora. Acendo a luz portátil da minha máquina fotográfica, como é hábito. Todos os dias lhe carrego a bateria, claro.

O Wilton vem buscar-me na mota às 5h30. Eu estou despachada às 5h15, pelo que me sento no degrau de entrada do hotel, na rua, à espera.
Aquele pico atrás da igreja é o Pico Papagaio, com 680 metros de altitude. É lá que as excursões se fazem habitualmente. Acima dos 500 metros existem outros três picos no Príncipe: Mesa (537 m), Pico Mencorne (921 m) e o Pico do Príncipe (947 m).

Nisto aparece o atleta que eu já tinha fotografado no sexto dia, na crónica 18. São 5 e meia da manhã. Mas desta vez conseguimos falar um pouco, e eis que descubro que é uma personagem ilustre aqui do Príncipe: chama-se Ilídio Vaz e é atleta profissional com participação em competições internacionais. Eu quis logo tirar-lhe uma foto de recordação, claro. Às 5 e meia da manhã o flash ilumina tudo. E a nossa conversa na rua deve ter acordado os restantes hóspedes do hotel, aposto. Contou-me que já esteve em Macau, Congo Brazzaville, Portugal, Gabão, Etiópia e África do Sul.
Entretanto, posteriormente, fui investigar na internet e descobri que é um atleta fundista – ou seja, especialista em distâncias acima de 5.000 metros, e que em Macau ganhou a medalha de ouro na meia-maratona, em 2010. Vejo também esta notícia de 2014: “O fundista internacional da Ilha do Príncipe, Ilídio Vaz, e a meia-fundista, Dulce Conceição, de São Tomé, venceram a segunda corrida pedestre do Banco Internacional de São Tomé e Príncipe (BISTP). Cada um dos atletas levou para casa mil dólares como prémio por ter cortado a meta num percurso de 10 quilómetros.”¹

O atleta Ilídio Vaz contou-me que agora já não participa em competições internacionais. Creio que agora é treinador, se bem me recordo da nossa conversa. Neste momento está a aguardar por dois colegas para irem correr. Mas nem os seus dois colegas aparecem, nem o meu motoqueiro aparece também. Isto de acordar cedo a um domingo nem sempre é fácil.

O Wilton chegou às 5h38, já eu estava preocupada a telefonar-lhe. “Já estou a caminho” – tranquilizou-me ele. Foi o Ilídio Vaz quem nos tirou esta foto. Depois de carregarmos água, mochila, e frango com arroz dentro dum recipiente de plástico, atado num saco plástico no guiador, partimos às 5h45 em direção a São Joaquim, terra que eu ainda não conheço.

O caminho de carro ou de bicicleta é o mesmo. São 8,7 km. O guia Monuna do Parque Natural está à minha espera lá em São Joaquim, pois vive ali. A partir daí irei a pé consigo até ao Pico do Príncipe, que se vê neste mapa abaixo. Ainda temos um grande esticão a pé pelo meio da floresta.

Chegámos a São Joaquim às 6h20. Levámos 35 minutos. O Wilton é muito cuidadoso a conduzir. Passámos por buracos, poças de água e subidas íngremes cheias de lama e rochas que me causaram apreensão e receio, mas este bem cheiroso e perfumado motoqueiro deixou-me no meu destino em segurança. Logo à tarde virá buscar-me cerca das 17h, hora indicada pelo guia Monuna.

Partimos às 6h25.
Do lado direito está o guia Monuna – cujo verdadeiro nome é Manuel Sebastião, e do lado esquerdo está o seu filho Deolindo, de 21 anos. O pai decidiu trazê-lo para ele aprender o caminho. “Um dia não estarei cá” – disse o Monuna – “É preciso ensinar as novas gerações”. Eu já conhecia o Monuna dos escritórios do Parque Natural, e também tínhamos falado ao telefone para combinar os últimos detalhes antes da partida.

Como eu ainda estou tão contente nesta foto e com um ar tão vivaço (apesar de ensonado). Não faço a mínima ideia do que me espera. Só sei que vai ser duro. A minha grande preocupação neste momento são as esfoladelas em ambos os pés. Preparei uns pensos de combate hoje de manhã, e trago o adesivo e as compressas comigo, bem como a tesoura, para preparar novos pensos se for necessário. O que a brincadeira na praia do Bom Bom deu.

Meia hora depois do início da caminhada temos já este riacho. Ou rio, nem sei. Vou já ficar com os pensos nos pés todos molhados, começamos bem.

Mas o guia Monuna sugeriu passar este pedaço comigo à cavalitas. Foi lindo de se ver e infelizmente, no meio da azáfama, não fiquei com nenhuma fotografia. Teria de ser o Deolindo a fotografar, e eu teria de passar-lhe a máquina e explicar como funciona. Ora ninguém esteve para isso. Temos é que despachar-nos, pois espera-nos uma longa jornada.

O Monuna indica que em tempos havia uma estrada aqui. Agora com a proteção da biosfera deixaram tudo para a floresta crescer livremente. Indica que daqui a dois anos vai ser difícil reconhecer o caminho.

Uma cobra! Agora é que temos de parar mesmo. Tenham lá paciência, eu tenho de ver bem o bicho e fotografá-lo.

Perguntei ao Monuna se pode apanhar a cobra e passar-ma. O Monuna acedeu.

Não fizemos mal nenhum à cobra, isto que fique bem claro. Eu sinto-lhe a força, o Monuna deu-me instruções sobre como agarrá-la bem. A passagem das suas mãos para as minhas foi uma operação delicada. Eu tinha de agarrar exatamente onde ele estava a agarrar, na cabeça e na cauda. Quem tirou esta foto foi o Deolindo.
Depois tive que soltar a cobra. Como é que a solto?, perguntei ao Monuna. (Eu com uma cobra nas mãos sem saber como me livrar dela…) É atirar para longe, respondeu-me. E eu atirei-a, com as duas mãos ao mesmo tempo, para o meio dos arbustos. É preciso ter cuidado para ela não ficar agarrada a nenhuma mão. Morder-me-ia apenas com o medo, para defender-se. Mas correu bem, ela fugiu e escondeu-se.
Já tive várias vezes cobras vivas na mão, e à volta do pescoço – e muito maiores do que esta, tão pequenita. Nomeadamente na Austrália.
Questionei o herpetólogo Peter Uetz, da Reptile Database, sobre esta cobra – perguntei-lhe qual é a espécie, mas ainda não recebi resposta. Procurei todas as espécies em São Tomé e Príncipe, vi as fotos uma por uma, mas não encontrei nenhuma igual a esta. Não sei que bicharoco é este.

Eu toda contente pensando que ia agarrar noutra cobra, mas esta é pura ilusão!!

O Monuna dá instruções ao filho para passar à frente. Doravante será o Deolindo a guiar-nos. Eu vou ao meio, o Monuna vai atrás. É uma maneira do Monuna ensinar o filho a identificar o caminho. E o Deolindo vai de chinelos de enfiar no dedo, é espantoso. Leva na mão um saco preto com comida para si e para o pai. O Monuna faz o favor de levar-me o meu saco preto com o meu frango e arroz, preparado pela Kita.

O Deolindo e eu já estamos em cima, o Monuna vem aí atrás. Já estamos a trepar muito, mas estamos longe do Pico do Príncipe, diz-me o Monuna.

São 8h10, caminhamos há quase duas horas – ainda nem sequer chegámos ao Pico, quanto mais começar a subi-lo – e o Monuna dá instruções para pararmos e tomarmos o pequeno-almoço. Temos rede de telemóvel. Eu por esta altura lembrei-me de passar-lhes o meu seguro de viagem. Afinal de contas se tropeçar e cair tenho um seguro que me paga as despesas todas, mas é preciso que o seguro seja avisado imediatamente, na altura em que me levam para o hospital. Eu pago a chamada, disse-lhes, e passei o número de telefone e o número da apólice, por sms, ao Monuna. É nestas ocasiões que os seguros têm utilidade, é bom que sejam usados. (Ou não, esperemos que não…).

O Monuna tem 56 anos e há 23 que faz este caminho. Normalmente uma vez por ano, indica-me. Já esteve 8 anos sem vir, porém. “Força e coragem é o que é preciso”, diz. “Ir ao Pico do Príncipe não é para quem quer, é para quem pode”, acrescenta. Eu não disse nada, fiz silêncio, mas pensei: Bom, vamos ver se eu posso. Eu estou determinada, pelo menos. Hei-de ter força e coragem!

Questionei o Monuna sobre a existência de vacas. Hoje é o décimo dia em que estou aqui no Príncipe, e ainda não vi nenhuma. Respondeu-me que há vacas na zona da Maria Correia. Contou-me que um dia foram andando até São Joaquim e que o dono teve de pagar uma multa pelos estragos, pois comeram as plantas. Agora tem uma pessoa para cuidar delas e é ele que terá de pagar se deixá-las fugir. Indicou-me que um bezerro de 6 meses custa 15 a 20 milhões de dobras. E que antes, nas roças, no tempo do colonialismo, haviam umas 500 vacas.

O pequeno-almoço do Monuna e do filho é peixe frito com pão. Bem nutritivo, fazem-me concorrência. Eu já comi uma das minhas duas sandes pelo caminho, em andamento, e agora vou comer a segunda. Ambas de fiambre, ovo cozido e uma dose generosa de açúcar. Era o açúcar que havia na chávena que me deixaram no hotel, para o pequeno-almoço. Aqui não o poupei.
Fizemos uma pausa de 20 minutos, sentados junto à cascata.


¹ Mamata, Inter (2014, 9 Junho) “Ilídio Vaz e Dulce Conceição ganharam a II corrida pedestre do BISTP”. Téla Nón. Página online consultada a 8 Outubro de 2019,
https://www.telanon.info/desporto/2014/06/09/16670/ilidio-vaz-e-dulce-conceicao-ganharam-a-ii-corrida-pedestre-do-bistp/

032 - Príncipe - Chegada ao Topo do Pico & Descida

Tenho a camisa toda molhada do suor, menos no soutien, está visto!!! Existe a Miss Tshirt Molhada, e agora existe a Miss Tshirt Seca!!! 🙂

E deixo a nota de que esta camisola é científica. Inventam tudo. Isto tem um tecido qualquer científico, não é uma fibra normal. Custou os olhos da cara, mas é uma coisa excecional. Faça frio ou calor, mantém a temperatura corporal, e seca rapidamente. Deixa transpirar livremente e seca rapidamente. Claro que aqui no meio das floresta húmida não tem como secar, mas pelo menos mantém a temperatura corporal e é extremamente confortável.
Atrás de mim está um dos picos do Príncipe, mas ainda não é o nosso. Na foto de baixo vê-se melhor:

Este ainda não é o Pico do Príncipe. Este pico deve ser um primo afastado. E do lado esquerdo está um vizinho anão. O Pico do Príncipe nem sequer consegui ainda vê-lo.

Veja-se esta descrição da Agência Nacional de Informação Geoespacial dos EUA:
O Príncipe tem uma aparência extremamente pitoresca, formada por picos em forma de agulha e massas de montanhas inclinadas que se erguem abruptamente das terras altas do interior. As fortes chuvas e a grande fertilidade do solo levaram a um crescimento de vegetação tão alto que tornou a ilha insalubre. Existem vestígios de vulcões extintos em muitas partes da ilha e grandes áreas são cobertas com pedras vulcânicas. A parte norte da ilha, embora alta, não tem uma aparência tão grandiosa quanto a parte sul, que consiste numa série de montanhas íngremes e acidentadas, cercadas por vários obeliscos naturais gigantescos e com formas fantásticas. Toda esta última massa culmina no Pico do Príncipe. Um pico proeminente que se eleva a 947 metros de altura.¹

Picos do Príncipe. O mais alto, com 947 metros, é o Pico do Príncipe.
Imagem retirada de “Maritime Safety Information”¹

O Pico do Príncipe é o que resta dum vulcão que está inativo há 15,7 milhões de anos. Os vulcões desta ilha eram inicialmente de basalto, mas depois o fonólito começou a intrometer-se nos seus núcleos. O basalto foi profundamente erodido ao longo do tempo, deixando torres espetaculares do fonólito mais duro subindo quase verticalmente da floresta tropical.²
Quer o basalto, quer o fonólito são rochas formadas a partir do magma, ou seja, a massa de rocha em fusão existente debaixo da superfície da Terra.

A ilha do Príncipe – bem como a ilha de São Tomé – faz parte da linha vulcânica dos Camarões, uma falha geológica ou rifte caracterizada por um conjunto de cadeias montanhosas e vulcões. A linha teve a sua origem há cerca de 80 milhões de anos quando a placa africana efetuou uma rotação no sentido contrário aos ponteiros do relógio. O rifte resultante abriu condutas magmáticas que permitiram a formação duma fileira de vulcões. Nove destes são ainda considerados ativos, tendo a última erupção ocorrido em 2000 no Monte Camarões. A porção do rifte que se estende pelo Atlântico adentro, foi responsável pela formação de uma fiada de ilhas que incluem Ano-Bom, Bioko e São Tomé e Príncipe.³
Imagem retirada da Wikipedia.

Tudo está molhado da humidade na floresta. Ainda não choveu desde que começámos a caminhada. E sim, isto é um caminho. Não há caminho em lado nenhum, mas o Deolindo vai orientado.

Os caminhos começam a cerrar-se cada vez mais. Só à catanada. Sim, nós vamos passar por ali.

Os olhos têm que ir bem concentrados no chão. Estas raízes são autênticas rasteiras.

Este tronco tem um “M” marcado. Foi o Monuna – cujo verdadeiro nome é Manuel Sebastião – quem o gravou, da primeira vez que fez este caminho, há 23 anos atrás. Perguntei-lhe o significado de “Monuna” – porquê Monuna? – mas não sabe. Curioso. O Monuna tem uma alcunha e não sabe porquê. Na internet não encontro nada sobre este nome.
O Monuna fez este caminho pela primeira vez há 23 anos atrás para acompanhar quatro pessoas da área da administração, contou-me. (Eu não disse nada, mas pensei: quatro administrativos no meio desta selva deve ter sido lindo. Mas talvez os administrativos tenham nascido aqui e estivessem habituados a estas andanças, de pequenos). E nessa altura o Monuna não conhecia o caminho, foi indo de acordo com o seu instinto e conhecimento da floresta.
O Monuna também me contou que um casal de portugueses esteve aqui em junho deste ano, 2019. Ele com 65 anos, ela com 57. Chegaram ao Pico. Se esta gente toda chega, eu também hei-de chegar!

E pouco depois de ter tirado esta foto não consegui tirar mais nenhuma porque começou a chover torrencialmente. Pronto, acabou-se a festa. Pelo menos a festa das fotografias. São agora 10h05.

No topo do Pico do Príncipe! Cheguei!!!! Vitória!!! Estou a 947 metros de altitude! O ponto mais alto da ilha do Príncipe!!
E são 11h! Levámos 4h40 desde que saímos de São Joaquim, já com os 20 minutos de pausa para o pequeno-almoço incluídos.

Chove copiosamente desde as 10h e pouco. Torrencialmente. Um dilúvio imparável. Inesgotável. Eu nunca tinha apanhado um dilúvio destes tão demorado e tão cerrado. Parece que estou debaixo dum chuveiro, na casa de banho. E dos mais pujantes.
Subimos em silêncio durante uma hora até chegarmos aqui. Subidas extremamente íngremes e escorregadias. Por vezes apoiei-me em troncos relativamente largos, de uns 30 centímetros de diâmetro, espetados no chão, partidos, mas que se desfaziam completamente ao meu toque, pelo que eu caía. É uma sensação terrível uma pessoa apoiar-se em algo grande, precisar do impulso para subir, debaixo de chuva torrencial, e isso desfazer-se completamente nas mãos. Ficava como que em pedaços de terra. Esta humidade desfaz tudo o que morre. É como olhar para um tronco de árvore e passar o punho no meio. Não há resistência, fica um buraco, é mole. Pelo que aprendi a verificar previamente se os troncos tinham resistência para eu apoiar-me neles. E fui-me agarrando a tudo o que podia, por vezes sob instruções do Monuna.

Fui apanhada desprevenida com este papel, bem protegido de plástico, a indicar a direção e a distância de Bruxelas. Bruxelas?!… Se algum português estiver a ver isto, e se for subir o Pico do Príncipe, que leve um papel plastificado a dizer Lisboa!!! Ou Portugal, ou seja lá que cidade for! Então? Isto é uma questão de orgulho!! Bruxelas?!… Onde é que andam os portugueses?!…

E a minha bolsa à cintura, sem estar protegida com um saco plástico. Não me apeteceu. Desinteressei-me. Achei que não era preciso, que bastava ir debaixo do impermeável – onde nem se aguentava muito tempo, como dá para perceber na foto. Ora aqui dentro está o meu telemóvel. Eu nem me dignei a pôr o telemóvel dentro dum saco plástico. E portanto está encharcado. Mas a bolsa da máquina fotográfica veio sempre protegida com um saco plástico. (Dei conta das minhas prioridades, portanto. Foi interessante constatar isto).

Só tirar esta foto já foi um sarilho. Exigiu um esforço conjunto do Monuna e do Deolindo. O Monuna agarrou num saco plástico e protegeu a câmera, como um chapéu de chuva, enquanto o Deolindo olhava pela objetiva. Ele disparou duas fotos e eu guardei-a rapidamente, com o Monuna a tentar protegê-la durante estas movimentações, com o saco plástico. Ainda fico sem telemóvel e sem câmera fotográfica, com este dilúvio.
E não vimos paisagem nenhuma, claro. Não dá para ver nada.

Estivemos aqui em cima 25 minutos, enquanto o Monuna e o Deolindo comiam novamente. Eu não me apeteceu comer o meu frango ainda. Iremos partir às 11h25. O penso de combate do pé esquerdo já saiu do sítio, ficou uma tira de adesivo enrolada debaixo do pé. Até magoa ligeiramente, quando pouso o pé no chão. Vou ter que tirá-la. O penso do pé direito vai sair agora durante a descida. E consigo lá colocar pensos novos, com esta chuvada, tudo molhado, os pés cheios de lama. Há adesivo que cole a isto? Prepara-te, Rute. Tens algumas horas de caminhada muito dura, muito íngreme e muito molhada, sem pensos a tapar as esfoladelas que ardem que se fartam.

São 12h20 e como agora um pouco do meu arroz com frango. Comi as duas pernas de frango e umas garfadas de arroz. Perguntei ao Monuna e ao Deolindo se queriam arroz, não quiseram.

Estamos completamente encharcados. A roupa está colada ao corpo. O nível de humidade continua altíssimo, claro. Felizmente parou de chover – afastámo-nos do Pico e a chuva parou. Deve chover sobretudo naquela zona. Estamos quentes da caminhada, e as esfoladelas nos pés por enquanto aguentam-se, com tudo molhado e o corpo quente a caminhar.

Não fico com vontade nenhuma de cá voltar, disse o Deolindo. Eu soltei uma gargalhada e o seu pai riu-se também. Na parte pior da descida, o Deolindo tirou os chinelos e foi descalço.

Sim, isto é para descer. Eu e o Deolindo já descemos, e atrás de mim vem o Monuna. Recordo a imagem acima, dos Picos, tirada do “Maritime Safety Information” – a última parte do Pico do Príncipe é perfeitamente escarpada. Eu simplesmente sentei-me no chão e deixei-me escorregar pela lama e folhas, como num escorrega. Nós subimos isto?, perguntei eu duas ou três vezes ao Monuna. Até me parece impossível termos subido isto. Descer é mais difícil. Fui sempre agarrada a finos troncos de árvores, e a lianas. Por duas vezes fiquei pendurada: escorreguei e fiquei com as duas mãos agarradas uma em cada galho. Alguma vez viram no National Geographic um macaco albino pendurado na floresta, com os dois braços abertos? Pelo menos o Monuna e o Deolindo tiveram essa experiência ao vivo e a cores. Vinham logo em meu socorro. Ensinavam-me onde colocar os pés. Iam-me dando instruções: à medida em que eu colocava um pé, explicavam onde colocar o outro. O Monuna às vezes escavava degraus na terra, com a catana, para eu usar. Mas eu fui escorregando sentada a maior parte das vezes, e rasguei os calções nos bolsos de trás, pois claro. Estes calções acompanham-me nas minhas aventuras há sei lá quantos anos. Vieram receber os primeiros buracos no Pico do Príncipe. Felizmente têm bolsos atrás, senão ficaria a ver-se as cuecas. Eu quero lá saber se há bichos no meio das folhas. Eu fui de rojo por aqui abaixo. Ainda levo alguma cobra comigo, é bom que elas fujam à minha aproximação, senão vão mesmo comigo por aqui abaixo. Eu aproveitaria e agarrá-las-ia e tirar-lhes-ia uma foto, que é para aprenderem a não se meterem no meu caminho. Aqui no Príncipe não há cobras venenosas, só há em São Tomé, portanto não estou preocupada.

São 15h29. Parece noite cerrada. Deixámos o topo do Pico do Príncipe há 4 horas. Caminhamos desde as 6h20 da manhã, há 9 horas, portanto. Eu estou muito cansada. Já ignoro as esfoladelas dos dois pés. Que ardam. Que abram mais, com as sandálias a rasparem sistematicamente nelas.
A partir daqui não tirei mais fotos. Falta quase uma hora para chegarmos. A certa altura pedi ao Deolindo para me levar a máquina fotográfica. Pesa 1 kg. Já estou muito cansada mesmo. Vi um vegetal colorido muito curioso agarrado a um pequeno tronco caído no chão, mas já não tinha forças. A operação de tirar a máquina da bolsa, apontar, fotografar, guardar a máquina – já era um esforço hercúleo. Mas arrependo-me hoje de não o ter fotografado. Era mesmo curioso.

A chegar a São Joaquim. Levei o repelente de insetos na mochila (que o Monuna tem às costas) e nem me lembrei disso. Deveria ter renovado o spray, mas esqueci-me que tinha o frasco na mochila. Felizmente não houve problemas. Agora nesta parte final existiam muitas melgas, mas nós não parámos um segundo, sempre a andar rapidamente, em passo acelerado nesta reta final, e elas não conseguiram pousar nem picar-me.

São 16h20. Eu estou estafadíssima, claro. Levámos 10 horas. Partimos daqui, de São Joaquim, às 6h20, e chegámos agora às 16h20. Levámos 4h40 a subir, estivemos 25 minutos no topo do Pico, e levámos 4h55 a descer. A descida foi mais complicada, portanto. Já com cansaço em cima. A chuva torrencial durante muito tempo foi o que dificultou mais, a meu ver. Já quase que nem é preciso tomar banho ao chegar ao hotel, estamos mais que lavados. Até venho com a pele engelhada, com tanta humidade e chuva.
Quem nos tirou esta foto foi o Wilton, o rapaz que me trouxe de mota esta manhã. Ele tinha instruções para estar aqui em São Joaquim às 17h, no entanto quando eu percebi que iríamos chegar mais cedo, telefonei-lhe a pedir para vir às 16. Já basta o cansaço extremo em que estou, não quero esperar uma hora em São Joaquim. Quero ir descalçar estas sandálias, calçar chinelos, tomar banho. As esfoladelas nos pés ardem-me muitíssimo. Mal consigo andar. Agora que estou a parar e a arrefecer, começam a arder loucamente. Tenho que tratá-las com pomada.

E o meu telemóvel não funcionou, pois claro. Entrou água por todos os buraquinhos. O écran tem uma mancha escura. Entrou água lá para dentro. Ainda consegui fazer a chamada, mas depois o Wilton não me ouve. Eu ouço-o a ele, mas ele não me ouve a mim. Teve de ser o Deolindo a fazer a chamada, do seu telemóvel. O Monuna está sem bateria.
Agora tenho que resolver isto. Preciso do telemóvel por causa do GPS na bicicleta. E enfim, convém dar notícias para casa, não convém desaparecer de repente.

Despedi-me do Monuna e do filho, que moram aqui, paguei-lhes o valor combinado: 70€ pelos serviços de guia, mais 5€ pela entrada no Parque Natural (eu não tinha notas de 5€, só tinha moedas de 1 e 2€; e como não aceitam moedas, paguei em dobras), e seguimos caminho. Foram uns bons guias, muito pacientes e cuidadosos. Se estivessem sozinhos fariam este percurso em quase metade do tempo. O Deolindo descalço, imagine-se.

O Wilton levou-me a dois locais, antes de deixar-me no hotel: aqui, para comprar leite (o mais barato que encontrei no Príncipe, por 30 dobras – uma marca portuguesa dos Açores); e na mercearia as pessoas que estão à porta fixaram-me e disseram: “Caiu”. Tal é o estado em que eu venho.

E ainda fomos a casa do “Preto” para ele ver o meu telemóvel. Preto?, perguntei eu ao Wilton e ao Monuna, pois foram eles que se lembraram que eu poderia ir lá tratar do telemóvel. Sim, é a alcunha. Ok, a mim chamam-me branca, e as suas alcunhas são “preto”. Eu não estou habituada a esta sinceridade e frontalidade de cores, na Europa. Na Europa quase que é preciso esconder a nossa cor, e jamais chamar as pessoas pela cor. É ofensivo. Aqui é tudo literal. Oh branca! Oh preto! Oh mulata! Não há nada mais simples. Sem dúvida que já complicámos as coisas na Europa (e na América).
Bom, mas o Preto não está em casa. Está a decorrer um jogo de futebol no estádio, deve lá estar, se calhar. Está muita gente no terraço em cima do prédio ao lado do estádio, para ver o jogo. A Kita mora ali, fez-me adeus da janela. O Wilton conduzia a mota e não me deu jeito parar tudo para sacar uma foto. Mas é o único prédio de apartamentos em Santo António. Tem dois andares, se bem me recordo. Está velhinho.

Cá está o Wilton. São 17h, cheguei ao hotel. O Wilton está a pagar a sua 125 até dezembro. Estamos em julho, já falta pouco. Levou-me um preço bem caro: 300 dobras ida e volta. Enfim, fez quatro viagens – de manhã e à tarde. Tendo em conta outros preços, o normal não chegaria a 200 dobras, virei a saber mais tarde. Mas está a pagar a mota, foi pontual, transportou-me com cuidado desde as 5 e meia da manhã, e eu não tinha combinado preço nenhum previamente (falta de experiência minha, pois deve ser sempre acordado previamente). Pronto, paguei as 300 dobras.
Na vila não choveu sequer, disse o Wilton.

Se a floresta falasse, diria: Esta veio para aqui esgatafanhar-me.
Foi neste estado que entrei no quarto do hotel. Na floresta usei os pés e também usei muito as mãos, está visto. Andei de quatro. Ali não há pejo, uma pessoa tem que safar-se como pode.
Fiquei com três picos espetados na mão, e uns arranhões nas pernas. Mas enfim, se ando no Alentejo no meio dos pastos e fico com as pernas todas arranhadas, ficar com meia dúzia de arranhões numa floresta tropical não me parece nada de especial.

Bebi um litro de leite aqui no quarto. Voltei ainda com bolachas e uma barra de cereais, na bolsa da cintura. Não me apetece comer.

O telemóvel esteve três horas ligado, para aquecer e secar. A água que entrou para o interior tem que evaporar-se. A mancha preta no écran desapareceu. Ficou uma mancha branca pequena. Mandei mensagens de Whatsapp a várias pessoas em Portugal dizendo-lhes que não se preocupassem no caso de eu não dar notícias nos próximos dias, pois o telemóvel poderá falhar.

E descansei finalmente.
A ida ao Pico do Príncipe foi extremamente dura e não recomendo a qualquer pessoa. As últimas duas ou três horas foram feitas com um cansaço significativo. Mas a sensação final é de satisfação. Grande satisfação. Fiquei muito contente comigo própria. Consegui. Se voltasse atrás, faria tudo igual. Esgatafanharia a floresta e andaria de quatro.


¹ “Maritime Safety Information”, p. 81. National Geospatial-Intelligence Agency, United States Department of Defense. Documento consultado a 9 Outubro 2019,
<https://msi.nga.mil/MSISiteContent/StaticFiles/NAV_PUBS/SD/Pub123/Pub123bk.pdf>

² “Pico do Príncipe” (s.d.) Wikipedia. Página consultada a 9 Outubro 2019,
<https://en.wikipedia.org/wiki/Pico_do_Pr%C3%ADncipe>

³ “Linha vulcânica dos Camarões” (s.d.) Wikipedia. Página consultada a 9 Outubro 2019,
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Linha_vulc%C3%A2nica_dos_Camar%C3%B5es>

033 - Príncipe - 11º Dia, Voo para a Ilha de São Tomé

Chegou a hora de abalar. O voo para São Tomé é às 10h20. Hoje é segunda-feira, 15 de julho de 2019.

Choveu torrencialmente toda a noite. Deixei o despertador para as seis, mas estou habituada a acordar mais cedo. Acordei de livre vontade às cinco. E continua a chover torrencialmente. Hoje não daria para subir ao Pico.
Acordei com dores musculares na parte de cima das pernas, na parte da frente. Foi mesmo a descida que as provocou. Pus uma pomada que trouxe de Lisboa, indicada para dores musculares ligeiras a moderadas. Nos braços também, entre os ombros e os sovacos, de me agarrar nos galhos, como os macacos. De resto estou bem.

O telemóvel cumpre as suas funções básicas. Tem uma mancha branca no canto superior esquerdo e não bloqueia, ou seja, não entra no modo de stand-by, tenho de esperar que ele se desligue sozinho ao fim dum minuto. Programei-o para 30 segundos. Nem ando com código. Não estou a usar código no telemóvel, é só ligá-lo e pronto.

O meu quarto cheira a terra e a floresta por causa das sandálias e dos calções cheios de terra e molhados. Não lavei nada. Estava demasiado cansada. E lavar agora os calções ficarão muito pesados, cada quilo no avião custa cinco euros. Continuo com as unhas das mãos e dos pés com vestígios de terra, mesmo com um banho demorado bem quente ontem à noite, não saiu.

Não havia luz às cinco quando acordei, mas voltou às seis.
São agora 6h15 e tomo o pequeno-almoço na cama. Comi tudo menos um ovo cozido que levarei comigo. Os meus pedidos para me enviarem queijo em vez de fiambre nunca surtiram efeito. Já estou a ansiar por queijo há muito tempo. A margarina não dá para nada, é pouca. No primeiro dia puseram-me a embalagem à frente, na mesa. Receber o pequeno-almoço no quarto condiciona-me. Mas hoje não estaria capaz de esperar até às 8h30 por ele.

Às 8h fui dar o arroz de feijão (do almoço de ontem) a um cão. Apareceram estes dois bonitos e com coleira. Mas vocês estão bem tratadinhos, tem de ser para outro magro e sarnento.

A cerimónia diária do hastear da bandeira, em frente ao edifício do Governo Regional, e que ainda não tinha tido oportunidade de ver. Ao final da tarde também recolhem a bandeira, e várias vezes ouvi a música. Está a chover e eu escondo-me no umbral duma porta.

Não encontrei mais nenhum cão. Começou a chover torrencialmente. Deixei o arroz aqui, onde vi o outro cão pela primeira vez.

São 8h17. De volta ao hotel, onde os hóspedes (que eu nunca tinha visto dado os meus horários madrugadores) tomam o pequeno-almoço. Continua a chover torrencialmente. Decididamente hoje não daria para subir ao Pico.
A embalagem da margarina, ou creme de barrar, ou seja lá o que for, em cima da mesa chama-me à atenção. Que bom poder tirar o que se quer.

Desmontei a bicicleta de soutien e calções, com o ar condicionado ligado. Acho que foi a primeira vez que o liguei. Efetivamente nunca ligo o ar condicionado – mas nestas lides habitualmente masculinas até fico logo com calores.

O rapaz do primeiro dia, chamado Ney, veio buscar-me às 8h50, por 250 dobras (10€). É caro, este serviço. Pago mais aqui do que em Lisboa, onde tenho inclusivamente uma distância maior da minha casa ao aeroporto. O aeroporto do Príncipe fica a 3 km de Santo António.

No aeroporto a venderem banana frita.

Aqui encontrei novamente o guia Nelito do Bom Bom; cumprimentámo-nos com um aperto de mão, e ajudou-me a levar as malas para a entrada. Pediu autorização para entrar no check-in para ajudar-me.
E eu esqueci-me de esvaziar os pneus, foi o guia Nelito e um dos funcionários do aeroporto que me ajudaram e esvaziaram ambos.
Tenho uma carrada de peso a mais. Paguei 140€ pelo excesso de peso. Dói que se farta. Todas as malas foram abertas e revistadas.
O meu passaporte está molhado, ontem subiu comigo ao Pico do Príncipe e não escapou ao dilúvio. (Se morresse, morreria bem identificada!!) Mas não me disseram nada.
Posso levar líquidos. Levo uma garrafa de água cheia.

Eram 9h35 quando finalmente me sentei na sala de espera. Muitos portugueses.
Vou de chinelos com as unhas dos pés pretas, não estou a representar devidamente a comunidade portuguesa. As unhas das mãos idem. As sandálias pesam 1 kg molhadas, paguei 5€, portanto, mas não as uso porque tenho as feridas ao ar livre, a ver se secam. Com chinelos não são necessários pensos.
Vejo as raparigas com as unhas dos pés pintadas. Parece que foi há uma eternidade que fiz o mesmo. Ao vir de férias para São Tomé e Príncipe não queria transformar-me num bicho selvagem? Livre, na floresta? Sim, foi o que pensei quando vim. Ao 11º dia já estou em fase de transformação, portanto.

Chove muito. Uns dizem que estamos na altura da gravana (época seca), outros dizem que esta já é época das chuvas. Não percebo nada.
Entretanto emitiram um aviso de que o avião saiu às 10h de São Tomé por causa do mau tempo aqui no Príncipe. Ou seja, o voo está atrasado. Só vai sair daqui ao meio-dia. Comi o ovo cozido que trouxe do pequeno-almoço. Não contava com este atraso, tenho as bolachas nas malas que já levaram. Não é permitido levar bagagem de mão. Dois funcionários ainda foram ver as bagagens comigo, ao carrinho, mas a minha mala nem se vê, no meio das outras todas, e e eu disse para deixar, que não era preciso tirá-la.
Comprei este chocolate com 75% de cacau, por 50 dobras. Não tinham o maior, senão tê-lo-ia comprado. Não há multibancos na ilha do Príncipe, atenção. É preciso ter sempre dinheiro em cash. Eu com as notas todas molhadas. Nada escapou ontem ao dilúvio. E com esta humidade e chuva constantes, nada seca.
Repare-se que o chocolate é da HBD – Here Be Dragons – a empresa do Homem da Lua, do qual falei na crónica 16.
O funcionário da loja (da tshirt vermelha) explicou-me que a lua está a crescer, o que traz chuva. Lá para 4ª feira estará cheia e parará de chover. Em São Tomé não chove. Eu já anseio por sol para secar tudo.

A minha bicicleta no carrinho. Lá ao fundo, dentro do hangar, está o outro carrinho que contém as bagagens. Um funcionário do aeroporto levou-o para lá para as malas não se molharem. As minhas bolachas estão lá ao fundo, portanto. Se a gente não se despachar, terei que ir buscá-las. Com o esforço físico intenso que ando a fazer, não aguento muito tempo sem comer. E aqui no bar do aeroporto não há comida.

Um habitante local a atravessar o aeroporto, desde Azeitona. Tal como eu fiz na crónica 14. Ainda não saí do Príncipe e já sinto saudades destas aventuras.

As esfoladelas nos pés abriram, claro, com a caminhada de ontem ao Pico do Príncipe. Deixaram de ser meras esfoladelas e passaram a ser feridas abertas. E não consigo tirar a terra das unhas nem por nada. Já nem consigo imaginar-me de saltos altos e verniz vermelho. Serei eu? A mesma Rute?

Entretanto conheci a Aleida, na sala de espera do aeroporto. É de Cabo Verde, está a fazer um doutoramento em Ciência Política e veio ao Príncipe fazer entrevistas, no âmbito desse trabalho. É de Direito Internacional Público. Tem 30 anos e já visitou 102 países! A sua universidade é em Londres, é o King’s College, o qual financiou este trabalho de dois meses em São Tomé e Príncipe.
A Aleida estava sentada na segunda fila quando foi o discurso da Biosfera, contou-me. (Na crónica 23). Viu-me nesse dia toda suja, cheia de lama, pelo que me acha hoje com muito bom aspeto. Eu ri-me.
Conversámos imenso, foi a minha companhia nesta entediante espera no aeroporto. Eu quase sem conseguir mexer-me, com as dores musculares nas pernas.

Foi a Aleida quem me tirou esta foto. Está tudo deserto porque foram-se todos embora para os respetivos hotéis, ou para casa. Afinal o avião só sai de São Tomé às 16h. Eu não tenho para onde ir, fico aqui no aeroporto à espera. Tenho é de almoçar. Preciso de comer.

Cá para mim hoje nem vai haver voo, com este tempo.

Tive mesmo de ir com um dos funcionários do aeroporto à minha bagagem, buscar bolachas e um agasalho. Faz frio. Estou cheia de frio. Ele arranjou um chapéu de chuva e fomos.

Esperámos que parasse de chover para ir almoçar a casa da tia duma senhora de São Tomé, que aguarda também pelo voo (não a fotografei) mas que vive grande parte do tempo aqui no Príncipe. A sua loja de vestuário foi assaltada recentemente, contou-nos. E quem é a tia dessa senhora? A Benvinda! Que eu visitei na crónica 17! O mundo é muito pequeno, e a ilha do Príncipe ainda mais.
Primeiro foi essa senhora. Depois eu e Aleida arrancámos debaixo de chuva. A Aleida não sabe onde é a casa da Benvinda, mas eu sei. Abrigámo-nos a meio caminho. A Aleida quis voltar para o aeroporto, quis desistir, mas eu insisti para prosseguirmos. Ela debaixo duma árvore, eu debaixo do toldo duma mercearia. Até que passou esta rapariga de tshirt amarela, com chapéu de chuva, e levou a Aleida. Depois virá buscar-me a mim. Eu fiquei à espera, debaixo do toldo. Mas a Aleida e a senhora – sobrinha da Benvinda – voltaram para trás porque a Benvinda hoje não fez comida. A rapariga do chapéu de chuva levou-me então ao restaurante ao lado. Há um restaurante aqui ao lado?! Levem-me ao restaurante, por favor!! Fazia lá ideia de que existe aqui um restaurante. A Aleida foi a correr, à chuva.

São 14h10. Todas estas pessoas são passageiros do avião. Todos comentamos entre nós: será que o tempo vai abrir e o avião consegue vir?
A sobrinha da Benvinda está ao centro, tem um casaco branco, sem mangas. Chama-se Teresa. Ao fundo está um casal de portugueses.

Só há omelete de queijo e fiambre com pão de forma. Eu e a Teresa fomos as únicas a almoçar. A omelete 95 dobras, litro e meio de água 40 dobras. Preços afixados. A estes preços e com tão pouca oferta é normal que tenhamos sido as únicas a almoçar. Eu tenho tanta fome que marcha tudo. E preciso de mais comida, isto não me chega. Isto é a entrada, agora falta o resto. Tenho que chegar com alguma urgência a São Tomé, para comer devidamente. Já estou com saudades da Kita e do Paixão!! Das pratadas de arroz, peixe e fruta-pão! (Até fiz um verso!)

À tarde parou de chover, mas quando chegou às 16h30, estava tudo cheio de nevoeiro, com muito pouca visibilidade. As pessoas comentaram que não são os pilotos habituais, com experiência. São pilotos novos, e que efetivamente saíram de São Tomé, mas voltaram para trás, nem aterraram.
Todas as pessoas que estavam no aeroporto voltaram para os hotéis e respetivas casas, portanto. Toda a gente foi distribuída por vários carros, eu apanhei boleia dum funcionário do aeroporto – eu e mais 4 ou 5 pessoas. Uma simpatia, todo este pessoal do aeroporto do Príncipe. Muito gostava eu de saber qual foi o segurança que me perseguiu, na crónica 14. Nem me atrevo a tocar no assunto.
Às cinco da tarde deixaram-me de volta no meu hotel, no mesmo quarto. Tive sorte, ainda estava disponível. Telefonei previamente ao gerente do hotel a perguntar.
Reparei que o arroz já não está no umbral da porta. O arroz que deixei esta manhã para um cão. Ao passar no carro olhei logo para lá.
O Monuna ligou-me na altura em que estavam a devolver as bagagens. A perguntar se estava tudo bem. Que guia simpático, heim? Efetivamente estou a andar um bocado devagar para o que é normal, com as dores musculares nas pernas, mas estou bem, obrigada!
Apanhou-me numa altura muito agitada, quase que nem consegui falar. Contei-lhe que o voo foi cancelado e que estou a regressar a Santo António.

Não pára de chover. Muito. Não há wifi, não há luz e quase não há água. Não dá para tomar banho.
Fui ao restaurante da Kita saber se há jantar. Hoje preciso necessariamente de jantar. Sim, há, e reservei.
Fui para lá de boleia de chapéu de chuva com uma rapariga. Regressei de boleia de chapéu de chuva com um rapaz e ainda parei para comprar leite. Ele teve a gentileza de esperar. Todos brincaram, todos se riram na mercearia, com a minha boleia à espera.

Estava eu à porta do hotel à espera que passasse alguém com um chapéu de chuva, quando passou um dos passageiros do voo cancelado, a conduzir uma pickup – virei a saber que se chama António, mas é conhecido por Machiaba. Este parou e trocámos de número de telefone. Disse que me ligaria quando soubesse alguma coisa. Ótimo. Para mim tudo é uma incógnita. No aeroporto também ficaram com os telefones de todos os passageiros. Mas às 9 da manhã garantidamente terei que estar disponível. Estarei, sim senhor.
A Mulata (ou Mónica, a empregada do restaurante) contou-me que havia uma grávida de gémeos que precisava de viajar hoje para o hospital de São Tomé. Um dos bebés está mal posicionado. Teve de voltar para trás também. O hospital aqui do Príncipe não faz esse serviço, não tem equipamento. A Própria Mónica estava à espera de medicamentos que chegavam no avião. Era o Ney que os ia buscar.

Entretanto a luz voltou às 18h. E a água também. Fui tomar banho. Desempacotar tudo outra vez. As sandálias e os calções estão molhados. Começa a cheirar a mofo. Está tudo húmido e não pára de chover.

Peixe Fumo (Acanthocybium solandri) com molho de cebolada. Uma delícia, comida quentinha muito reconfortante.

Hoje tenho dois vizinhos no restaurante e claro que tive de tirar-lhes uma foto. Ninguém escapa. Os dois amigos vieram só beber um copinho. Ainda é cedo, são 18h45. É o Manuel Andrade (à esquerda) e o Domingos Moreira. Este está casado há 20 anos e tem quatro filhos, três rapazes e uma menina. O Manuel apresentou-se apenas como “Andrade” e eu perguntei o primeiro nome. Mas Manuéis há muitos, respondeu-me. Então e Andrades, não há também?, questionei. Não, aqui distinguem-se, e ele é conhecido por Andrade. Pronto.

E quem é que vai ficar com o arroz hoje? Este pratinho é para um cão! Dei-me ao trabalho de separar as espinhas!
“Mas és muito bonita e estás muito bem tratadinha, menina!” – disse eu a esta cadelinha, que vim a descobrir pertencer à Mulata, e estar prenha. Chama-se Laica. Este arroz tem de ir para outro esquelético e abandonado.
A Mulata acabou por dar-lhe as espinhas do meu prato. Eu disse-lhe para ter cuidado, e com os ossos de frango também. Sei de alguns casos de estômagos de cães perfurados por causa dos ossos de frango. E morreram, claro.

Enquanto eu estiver no Príncipe, haverá sempre arroz neste cantinho… Isto é um armazém com várias portas, não passa aqui ninguém. Tem um quintal à frente, meio abandonado.

Telefonaram-me cerca das 21h a avisar que tenho de estar no aeroporto às 7h20. Telefonei ao Ney para combinar o transporte de amanhã, mas pedi-lhe um desconto, 10€ é muito caro. Perguntei-lhe se me leva por 5€. Fazer 3 km de carro por 10€, estas vezes todas, para trás e para a frente… Entretanto ligou-me outra pessoa, da parte do António, e eu pedi-lhe boleia. Virá buscar-me às sete. Ótimo, arranjei boleia e disse ao Ney que já não é preciso.

034 - Príncipe - 12º Dia, Voo Cancelado Ontem, é Desta que Parto do Príncipe

Acordei de madrugada, bem cedo. Hoje não choveu durante a noite. Caramba, hoje terei voo! O Machiaba virá apanhar-me às 7. Ele também irá no mesmo voo. Anda toda a gente de boleias, hoje. Eram 5h50 da manhã quando troquei uns sms consigo, a confirmar a boleia. Tudo ok!
O sino da igreja vai dando as horas.
E como aqui no hotel servem apenas o pequeno-almoço às 8h15 / 8h30, desenrasquei-me novamente com os meus cereais de chocolate trazidos de Lisboa. (O leite comprei-o ontem ao final da tarde, naquela boleia do rapaz com um chapéu de chuva). Efetivamente até pedi um desconto por não ter o pequeno-almoço incluído, ao gerente do hotel, o qual apareceu antes das 7 para receber o dinheiro. O gerente aceitou e não quis ficar com umas moedas de euro, que eu tinha para pagar o quarto, juntamente com as notas. Fiquei com um ligeiro desconto, portanto, foi simpático.

Infelizmente, mais tarde, já depois da minha partida, viríamos a desentender-nos por causa da fatura. É que eu tenho um seguro de viagem que me cobre estes percalços de voos cancelados. A seguradora aceitou pagar-me esta noite extra, mas eu tenho que apresentar o original da fatura. Ora o gerente do hotel disse-me que nesse momento não poderia passar-me uma fatura, que eu devia ter pedido com antecedência, mas que ma enviaria posteriormente. E efetivamente enviou – por Whatsapp. Já eu estava em São Tomé. Ora a seguradora só paga a despesa com o original da fatura, virei a saber mais tarde. Em primeiro lugar aborreci-me com a seguradora, pois em lado nenhum do contrato indicam que é necessário apresentar o original das faturas. Em segundo lugar, agora toca a mandar mensagens ao gerente do hotel (eu já em Portugal), tentando resolver esta questão do original. Mandar-mo por correio, talvez? Eu pago as despesas do correio. Ou então mandar-me uma cópia bem digitalizada, de boa qualidade, para eu imprimir em Portugal, e talvez consiga fazê-la passar por original. Mas qual quê. O gerente do hotel nunca mais respondeu às minhas mensagens. Vai lendo, mas não responde. Então mas será assim tão difícil mandar-me uma fatura original? Estará a ser cometida alguma ilegalidade nesta fatura? O negócio está ilícito ou quê?

Resultado: pedi ajuda a várias pessoas com contactos no Príncipe. E as pessoas ajudaram-me. (E as pessoas ajudaram-me, heim? Só tenho a agradecer, porque de facto foi um esforço memorável). Foram falar pessoalmente com o gerente do hotel. Cara a cara, no Príncipe. Eu já em Portugal. Até estou curiosa para saber o que se passa. Se eu me aperceber que existe alguma dificuldade em passar a fatura, desisto. Mas ao menos tenho de perceber o que se passa.
Bom, então o gerente do hotel está aborrecido comigo. Disse às pessoas que eu “cuspi no prato em que comi”. Fui apanhada completamente desprevenida. Não estava mesmo nada à espera disto. E então sentei-me e pensei. Que comportamento tive eu para despoletar tamanho aborrecimento por parte do gerente do hotel? Ter-me queixado da falta de papel higiénico? Tive de ir comprar papel higiénico na mercearia, a certa altura. Nunca me tinha acontecido tal em todas as viagens pelo mundo. Ou ter-me queixado por não me enviarem margarina? Ou ter-me queixado por não me enviarem fiambre, queijo nem margarina? Houve um dia em que comi pão com ovo, por não ter mais nada. O gerente do hotel indica que fez-me um favor em mandar entregar-me o pequeno-almoço no quarto, diariamente. Pelos vistos não têm esse serviço. Pronto.
E assim ficámos. Eu sem a fatura, e a seguradora contente por não ter de pagar esta despesa.

São 7h15, acabámos de chegar ao aeroporto. De camisa azul é o Machiaba, que afinal é assessor do presidente do governo regional. Tem uma filha a estudar Estomatologia em Portalegre, Portugal. Ao seu lado está o motorista que veio trazer-nos. Foi bastante simpático por parte do Machiaba ajudar-me nestas andanças de voos cancelados. Estes pequenos gestos revelam a hospitalidade dum povo em geral. A sua preocupação, o seu cuidado em manter-me a par do que se passava com os voos. Tudo isto é uma dor de cabeça para toda a gente – e eu estou apenas de férias, sem preocupações que não sejam o de ter perdido um dia nos meus passeios por São Tomé e Príncipe. Efetivamente perdi um dia. Em vez de estar fechada no aeroporto, podia ter andado a conhecer mais uma terra, na bicicleta. Mas enfim, conheci a Aleida, com quem me diverti bastante a conversar no aeroporto, a verdade seja dita, e mais as outras pessoas, como o Machiaba ou a Teresa. Muito pior estão as pessoas que precisavam realmente do voo, como aquela grávida de gémeos que a Mulata me referiu ontem.

O carro indica “China Aid”. Os amigos chineses metem o dedinho em todo o lado. Tal como os europeus e os americanos, diga-se de passagem. Mas enfim, sejamos bondosos, a ajuda internacional é absolutamente necessária, mesmo que depois hajam contrapartidas. “Em São Tomé e Príncipe, 90% do orçamento de 2019 será financiado graças à ajuda externa, informou o primeiro-ministro do país [em março de 2019]”¹
Olhem, amigos chineses, mandem também uns pratinhos de arroz chau-chau aqui para os canitos sarnentos. E já agora uns shampoozitos também, para tratá-los.

E além dos chineses, dos europeus e dos norte-americanos, os amigos russos também já querem meter o dedinho em África, nomeadamente aqui em São Tomé e Príncipe. Veja-se esta notícia de Outubro de 2019:

Putin abre primeira “Cimeira Rússia-África” com quatro países lusófonos presentes
Vladimir Putin recebe cerca de 30 líderes africanos e milhares de oradores a quem tentará deixar claro que a Rússia “tem muito a oferecer aos Estados africanos”.
“Estamos a preparar e em vias de implementar projetos de investimento com participações russas na ordem dos milhares de milhões de dólares”, afirmou Vladimir Putin, numa entrevista divulgada esta quarta-feira pela agência de notícias estatal russa Tass.
A cimeira [usa uma] fórmula diplomática que reproduz os “Fóruns de Cooperação Sino-Africana” que, desde 2000, têm permitido a Pequim tornar-se o principal parceiro do continente.
Em 20 anos no poder, Vladimir Putin apenas fez três viagens à região da África subsariana, sempre com a África do Sul no centro de cada um dos roteiros, mas chegou a altura de demonstrar que os interesses africanos ocupam uma parte importante das preocupações do Kremlin. O chefe de Estado russo, numa entrevista divulgada no início da semana, cita como prova do compromisso de Moscovo com a região a “cooperação militar e de segurança”, a ajuda no combate ao vírus Ébola, a formação de “quadros africanos” pelas universidades russas, garantindo que os projetos russos em África são caracterizados pela ausência de ingerência “política ou outra”. África é um “continente importante”, com o qual Moscovo mantém “relações tradicionais, históricas e íntimas” (…).
Entre os participantes, estão os presidentes de Angola, João Lourenço, de Moçambique, Filipe Nyusi, e Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, enquanto São Tomé e Príncipe se faz representar pela ministra dos Negócios Estrangeiros, Elsa Pinto.²

O Machiaba, a Aleida e a Teresa, a dona da loja de vestuário que conheci ontem. Cá nos encontramos todos hoje, novamente.

A Aleida também carrega nos “R’s”. Diz-me que são apenas algumas pessoas que o fazem, não são todas, e que na escola as crianças são inclusivamente gozadas. Eu parece-me que é toda a gente. Todos os Principenses carregam nos “R”. Ou então uma grande maioria. Mas a Aleida é cabo-verdiana. Pelo vistos o mal é internacional. A Aleida contou-me que uma vez, em criança, disse na escola: “O arroz está crrú!” e que foi gozada durante muito tempo por causa disto. Era conhecida pelo “arroz crrú”. Rimos à gargalhada. Comprrar frruta. Comprrar marracujá.

E eis novamente o guia Nelito do Bom Bom. Foi sem dúvida a pessoa com quem  me cruzei mais vezes na ilha do Príncipe, por todo o lado, durante estes 12 dias. Hoje é a quinta vez que nos cruzamos. E desta vez tirámos uma foto de despedida.

Esta rapariga à direita veio vender maracujás gigantes. O que é isso?, perguntei eu à Aleida, vendo-a com um saco cheio deles, dentro da sala de espera do aeroporto. A Aleida disse-me que são maracujás gigantes, que nunca tinha visto tal, e que eu posso ir comprar também, pois estão a vender lá fora. Eu vi maracujás gigantes na crónica 14, é verdade, e tenho que prová-los, sem dúvida!

Este funcionário do aeroporto (bastante simpático, foi inclusivamente arranjar-me um saco para eu guardar os maracujás) está sempre pronto para tirar fotos com as miúdas todas.
Cada maracujá custa 10 dobras (0,40€) e eu vou levar dois. A rapariga que está a vendê-los está a ter tanto sucesso que já teve de ir buscar nova carga três vezes. Eu estou carregadíssima de bagagens e bicicleta, vamos ver se os dois maracujás chegam em boas condições, não me convém levar mais. Até porque não sei se gosto. Muito gostava eu de saber porque não vendem estas frutas no mercado. Passei 12 dias no Príncipe a ansiar por fruta, sem ter onde comprá-la.

Pior do que nós, ontem, estiveram estas pessoas, comentou a Aleida. Porque ontem entraram no avião, e voltaram para trás, pois os pilotos não quiseram aterrar. É obra, andar para trás e para a frente num aviãozito destes no meio de chuva e nevoeiro.

Entretanto ligou-me o guia Monuna para saber se está tudo bem. Perguntei igualmente se ele e o Deolindo estão bem. “Tudo bem , graças a deus”. Desejou-me boa viagem. A chamada caiu a meio, ele ficou sem saldo e eu só tenho 6 dobras, não me dá jeito gastá-las pois poderei precisar delas para ligar para a pessoa que vai buscar-me, no aeroporto. Ontem chovia tanto que não fui à loja de telecomunicações carregar mais. Mas o Monuna lá terá carregado o telemóvel entretanto, e voltou a ligar-me. Agradeci e despedimo-nos. Que grande aventura, a subida ao Pico do Príncipe.

Eu parto desta pequenina ilha com 15 números de telefone de Principenses gravados no meu telemóvel. Volta e meia trocamos umas mensagens de Whatsapp, quem o tem. (O guia Monuna não tem, por exemplo. Efetivamente raros são os que têm).

Às 8h55 entrámos para o avião. Um português que vai connosco conta-me que faz esta viagem milhentas vezes desde 2001. Trabalha em São Tomé e tem negócios no Príncipe. Nunca tinha passado uma noite extra no Príncipe por causa dum voo cancelado. A Africa Conection é quem faz este serviço, diz-me, mas o avião está avariado e então é a STP Airways que está a fazê-lo temporariamente com pilotos que não conhecem o percurso. Já ontem no restaurante as pessoas comentavam isto mesmo, que estes pilotos são novos aqui e não estão habituados ao percurso. Se fossem os pilotos habituais, que fazem isto há anos, teriam trazido o avião mesmo com chuva.

Ao meu lado no avião irá o Machiaba. A Aleida quis ir à janela, tal como eu. Não há lugares marcados. O avião tem 35 lugares e está esgotado. Haverá outro voo à tarde para levar as pessoas de hoje – neste voo agora vão as pessoas de ontem.
O Machiaba anda armado devido às suas funções. Durante o voo a sua arma ficou com a tripulação. Vai passar uma semana a São Tomé para preparar visita do governador Tozé Cassandra ao primeiro-ministro e ao presidente de São Tomé e Príncipe. Vem aí o mês da cultura, e a Bienal Internacional (que referi na crónica 25) pelo que andam em preparativos.

Três praias onde eu estive, na bicicleta!:
A de cima, a praia Burra (crónica 30);
A da ponta, à direita, a praia Banana (crónica 27);
A cá de baixo, a praia Macaco (crónica 28).

E esta é a praia Grande, onde falei das tartarugas! (Crónica 28)

A cidade de Santo António.

A aterrar na ilha de São Tomé! Vai começar uma nova aventura!

O Machiaba quis tirar uma foto com a pessoa que veio buscar-me ao aeroporto – Célio Santiago. O Célio é o dono do alojamento onde vou ficar (eu por esta altura ainda não sei que é o dono, só vou saber mais adiante). O alojamento fica mais ou menos no centro da ilha, em Belém. Hoje às 6h45 tinha-me enviado um sms a confirmar que viria buscar-me. E depois às 9h ligou-me a perguntar se venho mesmo, se desta vez há voo. Há sim, já estou sentada no avião e faz sol, portanto hoje chegarei a São Tomé!, respondi-lhe. Tivemos de falar ontem, claro – eu enviei-lhe um email a avisar que o meu voo tinha sido cancelado e que portanto só iria chegar hoje. (Que azáfama de voos e hotéis).

Estes ovos são para os meus pequenos-almoços, virei a descobrir em breve.

Eis o número de km feitos na bicicleta na ilha do Príncipe:

1º dia
Santo António
Chegada, não houve bicicleta

2º dia
Santo António e arredores próximos
19,7 km

3º dia
Santo António e arredores próximos
17,4 km

4º dia
Sundy
31,6 km

5º dia
Ilhéu Bom Bom
26,7 km

6º dia
Infante d. Henrique
28,6 km

7º dia
Oque Daniel / Porto Real
25,2 km

8º dia
Praia Abade
19,5 km

9º dia
Praia Banana, Praia Macaco, Praia Grande, Praia Burra
36 km

10º dia
Pico do Príncipe
Não houve bicicleta
10h de caminhada a pé

11º dia
Voo cancelado
Não houve bicicleta

12º dia
Voo para São Tomé
Não houve bicicleta

Príncipe, total: 204,7 km


¹ Nourou, Moutiou Adjibi (2019, 6 Março) “Sao Tome & Principe : 90% of 2019 budget to be funded by foreign aid (government)”. Ecofin Agency. Página consultada a 13 Outubro 2019, https://www.ecofinagency.com/public-management/0603-39753-sao-tome-principe-90-of-2019-budget-to-be-funded-by-foreign-aid-government

² “Putin abre primeira “Cimeira Rússia-África” com quatro países lusófonos presentes” (23 Outubro 2019), Agência Lusa, Jornal Expresso. Página consultada a 23 Outubro 2019,
<https://expresso.pt/internacional/2019-10-23-Putin-abre-primeira-Cimeira-Russia-Africa-com-quatro-paises-lusofonos-presentes>

035 - A Primeira Tarde em São Tomé

Um supermercado! Já nem me lembrava do aspeto dum supermercado! E andei com os seguranças todos atrás de mim, pelos corredores, porque não querem fotos! Não querem fotografias a fazer publicidade gratuita… eu aqui a oferecer-lhes publicidade gratuita, e os seguranças atrás de mim… isto é mesmo falta de visão… Há quem pague tanto para fazer este tipo de publicidade, mas estes seguranças têm receio de perder o emprego… e os donos não os informam que é bom os turistas fotografarem e fazerem publicidade… Enfim. Esta fotografia foi tirada sem flash, à pressa, mal e porcamente, antes que os seguranças me expulsassem… eu quero leite e água, tenho de comprar leite e água antes de me expulsarem por fotografar o paraíso do consumo!! Eu venho do Príncipe, não estou habituada a estas coisas!!

Leite açoriano a 20 dobras o litro (0,80€ – continua caro, mas no Príncipe é o dobro!) e garrafões de água de 6 litros a 28 dobras (1,12€), duma marca branca portuguesa. No Príncipe, um garrafão de 6 litros duma marca portuguesa era 70 dobras (2,80€). Nem sequer tinham marcas brancas à escolha. Desgraçados dos principenses.
Eu, perante tamanha abundância, acabada de chegar do Príncipe onde nem fruta consegui comprar durante os 12 dias, por não haver à venda (só consegui comprar os dois maracujás gigantes no aeroporto), parecia uma criança nos corredores do supermercado. Só faltou eu pedir à mãe para me comprar isto e aquilo. Mas a minha mãe está em Portugal, e eu já tenho o meu próprio dinheiro numa carteira minha. Ainda comprei um néctar Compal por 14 dobras (0,56€), o qual tratei logo de beber ainda dentro do carro.
Deixei no supermercado 302 dobras (12,08€) só nestas três coisas – água, leite e sumo – o que para um europeu não é nada. Mas em São Tomé é uma semana de ordenado, conforme expliquei na crónica 13, onde apresentei os ordenados médios da população. Este local deve ser sagrado para um santomense como o segurança, e tirar fotos é sem dúvida um sacrilégio.
E deram-me moedas no troco! Eu nem sabia que existiam moedas em São Tomé e Príncipe. São as primeiras que vejo. No Príncipe só vi notas.
Comprei esta carga toda baseada na experiência do Príncipe: nos 12 dias em que lá estive consumi 27 litros de água, e 4 litros de leite. (Mais os meus 8 pacotinhos de leite com chocolate). Fico já abastecida para muitos dias, portanto. Tenho 17 dias aqui na ilha de São Tomé.

A minha alma está parva. Só não caio para o lado, perante tamanha abundância, porque estou sentada dentro do carro e a porta impede-me de cair. Fruta! Mercados! Supermercados! Comida! Estou pasmada. A fortuna que paguei a levar comida na bagagem para o Príncipe, foi o melhor que podia ter feito. Comi quase tudo lá, no Príncipe. A minha bagagem veio mais leve. Felizmente bananinhas já não me faltarão, na ilha de São Tomé! Recordo que fui duas vezes ao mercado central de Santo António e em nenhuma das vezes havia fruta à venda. Quando perguntei por banana-prata ou qualquer outro tipo de fruta, disseram-me que seria difícil, para eu aparecer às seis da manhã a ver se havia alguma coisa (crónicas 5 e 13). Só havia banana-pão, para cozinhar, e legumes também para cozinhar. Fruta fresca, para comer no momento, não vendiam.

O Célio Santiago, que foi buscar-me ao aeroporto, comprou aqui bananas para colocar ao meu dispor. E eu também comprei dois cachos a esta senhora da direita, um de banana-prata (a normal, que comemos habitualmente em Portugal) e outro de banana-maçã (mais pequeninas e frutadas, parece que sabem a laranja ou maçã, perfeitamente deliciosas),  e comi logo três no carro (estão a ver o meu desespero… eu já nem espero para comer… eu venho tão esfomeada que despacho logo tudo dentro do carro).
Eu comi bem no restaurante da Kita e do Paixão, entenda-se. Mas as refeições ao longo do dia não são feitas apenas de peixe, carne e arroz. Há que lanchar, há que cear, há que comer qualquer coisa a meio da manhã. Fruta! Bananas! Bolos! Crepes! Sei lá. Eu não consegui comer nada disso no Príncipe, a não ser o que levei – os meus cereais do pequeno-almoço, por exemplo, os pacotes de leite com chocolate, as barras de cereais com frutos vermelhos, as bolachas com recheio de chocolate.
Irei comer bananas-maçã aqui na ilha de São Tomé como se nunca tivesse visto bananas em toda a minha vida. E irei comprar outras frutas também. Tenho 17 dias pela frente para encharcar-me!! Tem calma, Rute, tem calma, respira fundo.

O Célio pediu nesta oficina para encherem os pneus da minha bicicleta (pareceu mais uma ordem, não propriamente um pedido, dada através da janela do jipe… Apercebo-me que o meu anfitrião é conhecido por todo o lado).

Cheguei às 11h15 ao resort ecológico onde vou ficar nestes 17 dias. Mais ou menos no centro da ilha, numa zona chamada Belém. Aqui está a Virgínia, que vai cuidar de mim nestes dias. Ou pelo menos vai cuidar do meu quarto e dos meus pequenos-almoços. Ou pelo menos da louça que eu deixarei suja às 4 da manhã, porque efetivamente não iremos encontrar-nos a tais horas.

A casa onde vou ficar alojada nestes 17 dias na ilha de São Tomé. Há silêncio e pássaros a cantar.
Prefiro sempre alojamentos pequenos, num estilo mais caseiro, preferencialmente no campo. Sobretudo a fazer BTT, como agora. Também existem grandes hotéis em São Tomé, na cidade, alguns de 5 estrelas. Há alojamentos para todos os gostos. O Célio Santiago indica-me que cerca de 95% dos turistas vêm com pacotes das agências de viagens para os grandes hotéis da cidade. Estes resorts ecológicos ficam com 5% do mercado. Mas eu tenho a certeza que as pessoas nem sabem que isto existe. As pessoas vão a uma agência de viagens, vêm os preços, pagam e pronto. Nem sabem que existem outras coisas melhores. Pois eu passei muito tempo agarrada à internet a descobrir onde queria ficar. E descobri este mimo. Este e outros, há vários resorts ecológicos em São Tomé. Escolhi este por ficar mais no centro da ilha. Eu irei partir todos os dias de bicicleta, nas várias direções, e depois retornarei aqui.

Tenho seis rolos de papel higiénico! Um no porta-papel (ao lado da sanita, não se vê nesta foto), outro em cima do autoclismo, e mais quatro dentro da embalagem ainda por abrir! Até me parece mentira… No Príncipe tive de ir à mercearia comprar, a certa altura, pois esqueciam-se de deixá-lo no quarto…
Mais: tenho dez toalhas!! Até as contei!… Todas dobradinhas na estante, aqui na casa de banho… Caramba, desta vez não vou precisar de pedir que me troquem as toalhas… as toalhas já todas sujas, de eu chegar lamacenta e lavar-me por partes rapidamente, antes que faltasse a água, e só podendo tomar um banho completo lá para as 17h, quando a água voltasse… dá para imaginar o estado das toalhas, a certa altura. Bom, aqui tenho toalhas em fartura.

E tenho uma cozinha! Para preparar os meus pequenos-almoços! A Virgínia ensinou-me tudo – onde estão os talheres, os pratos, como se liga o gás e como se acende o fogão, onde está a frigideira para estrelar ovos, ou o fervedor para cozê-los. Mostrou-me os ingredientes no frigorífico – pão, queijo (queijo!!), fiambre, chourição, creme para barrar o pão, bananas, leite… os ovos! Uma lata de salsichas! Máquina de café! Isto vai ser uma festa às 4 da manhã. Até me parece mentira. Eu venho do Príncipe, isto tudo é anormal para mim… E paguei mais pelo alojamento no Príncipe, atenção. O alojamento do Príncipe foi mais caro do que este em São Tomé. Tudo é caríssimo no Príncipe. E escasso.

E sabem o que é melhor de tudo? É que nestes dias sou a única hóspede! Tenho este casarão todo só para mim! Estamos em julho, só são esperados hóspedes lá para agosto!

Tenho que ir montar a bicicleta!

A água que abastece a casa vem dali, da bomba à esquerda.

Sol para secar as sandálias!

O Célio Santiago fez-me o favor de encomendar o almoço no restaurante ao lado, dado que ainda não conheço nada e tenho as bagagens para arrumar. São 12h45. Escolheu Peixe Vermelho com fruta-pão assada, e escolheu muito bem, está delicioso. 60 dobras (é o preço normal, 2,40€). Efetivamente eu comeria quatro peixes iguais a este, muito leve, branquinho. E claro que a saladinha teve de sair dali, com grande pena minha.
E mais uma cerveja artesanal, aqui de São Tomé, sem rótulo, por 20 dobras (0,80€). Pelo que percebi vende-se assim mesmo, sem rótulo. Eu não sou grande apreciadora de cerveja, pelo que não sei avaliar bem, mas soube-me bem.
Estou contente, portanto.

Como sobremesa, comi um dos maracujás gigantes que comprei por dez dobras no aeroporto do Príncipe. Muito doce, muito bom. Sabe a maracujá 🙂 Comi as sementes, e tudo à volta. Ficou só a casca.

E claro, umas bolachinhas com chocolate trazidas de Lisboa… Já foram ao Príncipe e já voltaram. Ainda existem algumas!…

A Virgínia lavou meus calções e camisola do Pico do Príncipe, com sabão azul, no tanque. Sem custos, foi uma cortesia. Lá se foi o cheiro a floresta e a terra molhada. (Enfim, finalmente).
Acabei de almoçar às 13h30, estou muito ensonada, tenho que ir montar a bicicleta e estudar o percurso de amanhã. Hoje já não saio.
A Virgínia foi-se embora agora e o Célio foi no jipe à vila de Trindade, já volta. Irá pernoitar aqui no resort, para não me deixar sozinha na mansão. Eu nem me importava de ficar sozinha.

Montei a bicicleta toda, no jardim, inclusive a corrente nas mudanças, que é o mais complicado. Sempre a ouvir um estranho piar dum pássaro. Ou então é um barulho qualquer que o pássaro faz com as asas. Parecem estalidos.
No entanto ficou a faltar a parte da frente, junto aos pedais, que no transporte saiu do lugar. Bastava fazê-la passar pelo pedal, e eu estava a pensar nisso, mas fiquei com receio de estragar tudo. Ainda não estou “pro” nisto. Enviei um sms ao Célio a perguntar se conhece alguém que me veja a corrente junto aos pedais. O Célio trouxe então estes rapazes que meteram logo a corrente bem. Claro que bastava passá-la pelo pedal. Verificaram o resto, está tudo bem. Virei a descobrir mais tarde que este rapaz é o motorista do Célio.

E pronto, estou instalada na ilha de São Tomé. Vai começar uma nova etapa. Aqui já fui desencantar uma colcha no guarda-fato. É que aqui no centro da ilha faz mais fresco. Talvez uns 25 graus centígrados, o que me faz vestir uma camisola de manga comprida, e pôr uma colcha na cama, para dormir à noite. Na cidade faz mais calor. Quem gosta de sossego e fresco, esta zona central é o local ideal. (Eu só estou bem com 40 graus, mas pronto).

A rede anti-mosquitos, nas janelas, tem alguns furos aqui e ali. Ponho spray no quarto, fecho as portas para ele fazer efeito, mas aqueles furos não ajudam muito. Durante a noite os mosquitos podem entrar por ali. É que as janelas não têm vidros, são apenas ripas de madeira e as redes. Comento isto com o Célio, e este conta-me que antes tinha umas redes muito boas, que nunca se furaram, mas sujaram-se. Limpar estas redes minúsculas, em duas grandes portas, não é operação fácil. Então o Célio mandou trocar por redes novas. Ora as novas pelos vistos são de baixa qualidade, pois furaram-se rapidamente. O Célio telefonou no momento, enquanto conversávamos, a alguém para tratar disto.

Às seis da tarde comi mais uma dose de bananas, leite e bolachas. Ainda não estou em mim, com tamanha abundância de bananinhas tropicais, tão saborosas. Vou comer bananas até não poder mais. (Curiosamente nunca me fazem mal aos intestinos – creio que há pessoas que não se dão bem com bananas em excesso, não é? Pois a mim não me fazem mal nenhum).
Às 19h30, noite cerrada, já estou a cair de sono e vou dormir.

Eu estou alojada em Belém. Efetivamente o mais central seria Bombaim, mas não existem hotéis em Bombaim. Já existiu um, que encerrou. Parece que existem planos para recuperá-lo, mas por enquanto está fechado.
A capital de São Tomé e Príncipe é São Tomé, ali por baixo do aeroporto. Eu também não quis ficar muito longe da capital, para ter acesso fácil a serviços e supermercados.

036 - 13º Dia, Monte Café & a Caminho da Cascata de São Nicolau

Despertador às 4. Chove muito. Como as janelas não têm vidro – é só a rede anti-mosquitos e as tiras de madeira – os cortinados esvoaçam dentro do quarto. Além de tapada com a colcha que desencantei no guarda-fato, ainda dormi com uma camisola de manga comprida por cima da tshirt.

As portas e janelas da mansão estão todas abertas. E rapidamente descobri que afinal não é chuva, é vento nas árvores. Na cozinha, de janelas e portas abertas, com o vento a abanar as árvores e fazer voar os guardanapos, cozinho o meu primeiro pequeno-almoço noturno na ilha de São Tomé: hoje quero dois ovos mexidos.

4h30. O meu banquete matinal – noturno – está pronto. Posso servir-me do que quiser. Não me fiz rogada.

Às 5 aparecem os primeiros raios de luz, e muitos pássaros. Nomeadamente aquele muito estranho que faz estalidos a bater as asas.
Às 5h45 estou despachada e ponho o equipamento todo no quintal. A bicicleta pernoita sempre comigo no quarto. Existe uma bicicleta aqui no resort, e se eu não tivesse trazido a minha, essa servir-me-ia. É bastante boa, consideravelmente mais leve do que a minha. Mas é de homem, e grande. Para mim seria complicado. E essa bicicleta pernoita no alpendre da mansão, ao lado do meu quarto. O Célio diz-me que também posso deixar a minha no alpendre, que não preciso de levá-la para o quarto, mas está bem, está. Com tudo aberto, toda a gente tem acesso ao quintal, não há portas fechadas, vou lá deixar a minha bicicleta assim. Nem é pelo valor da bicicleta, que efetivamente está longe de ser das melhores, é mesmo pela falta que ela me faz aqui em São Tomé e Príncipe.

E qual é hoje o destino? O primeiro destino na ilha de São Tomé?
Foi-me sugerido na véspera pelo Célio Santiago: Cascata de São Nicolau. É um sítio bonito para visitar, disse-me ontem. E devo aproveitar enquanto não há chuva. Nesta zona da Cascata chove mais do que nas imediações próximas, diz-me.
E aproveitando estar na zona, devo visitar também a Roça Monte Café (fica no caminho), o Jardim Botânico e a Lagoa Amélia. Mas o Célio diz-me que não vou conseguir fazer as quatro coisas num dia.
Ok, vou então conhecer a Cascata de São Nicolau e logo vejo o que farei mais.

Curiosamente nesta imagem, a aplicação Maps.me não mostra o gráfico da altitude. Diz que são 8,8 km mas não diz a altitude.

Deixo a tradução em inglês para os leitores estrangeiros: “Sold here: fuels and lubricants”.

Há poucas bombas de gasolina na ilha, virei a descobrir. A maior parte dos abastecimentos de combustível é feita assim. No Príncipe nunca vi isto. Havia uma bomba em Santo António, e nunca vi vender combustível em quitandas. (Recordo o significado de “quitanda”: uma pequena loja ou barraca de negócio).

Isto é sempre a subir, constato. Como a aplicação Maps.me não mostra o gráfico da altitude para este destino, efetivamente eu não sei o que me espera. Mas ainda não parei de subir.

Também não há autocarros ou transportes públicos na ilha de São Tomé. À semelhança do Príncipe, o transporte é feito em carrinhas e carros privados. As pessoas pagam diretamente ao motorista.

São 6h47, nesta foto. Eu já estou corada com tanta subida. Há uma hora que estou a subir. Há mais subida para a Cascata? – perguntei eu a estas senhoras. “Ui!… Falta muita subida!…” Estou tramada. Isto do Maps.me não indicar o gráfico de altitude em certos destinos deve ser para não assustar os ciclistas. Relembro que a minha bicicleta é de mato, como dizem os santomenses, e está com 17 kg de peso. Não é feita para subidas em alcatrão. Nas partes mais íngremes vou a pé inclusivamente.

A Zizi com os filhos; e os gémeos à frente chamam-se Elisa e Eliseu. Foi a Zizi a fotógrafa da foto anterior. Aqui quis ficar ela sozinha com os filhos. O rapaz de chapéu está muito envergonhado, e ela teve de chamá-lo.

Ao centro a árvore-do-pão carregada de fruta-pão, a qual apresentei na crónica 13.
Eu tive que baixar-me aqui para arranjar a fivela da sandália. “Branca!” – chamaram-me eles (aquelas pessoas que vão ali mais à frente) “Aí na curva é perigoso!” – disseram-me. Pois têm toda a razão, parar numa curva para arranjar a sandália não foi boa ideia. Prossegui caminho rapidamente.

Cá está a roça Monte Café. Primeira paragem. Fiz adeus àquelas pessoas que iam a subir a pé, e elas acenaram de volta e continuaram a subir.
A rapariga de saia azul está à espera de transporte, aqui é uma paragem.

Papaias ou mamões. Pelo que percebo é a mesma coisa.

Uma garrafa de água de litro e meio, 40 dobras (1,60€). Caro, portanto. Recordo que no Príncipe comprei uma no Picão por 25 dobras. E no Príncipe é que costumava ser tudo ao dobro. Esta roça é turística, isto é preço de turista. Mas são 7h38, eu venho a subir na bicicleta há quase duas horas, bebi muito pelo caminho e preciso já de reabastecer. Nem sei onde existirão mais locais onde se venda. Sujeito-me a este preço, portanto.

Café a secar.

Os grãos do café a secarem.

Este rapaz faz demonstrações aos turistas sobre como se trata o café. Mas eu estou sozinha, sem guia turístico, sem pagamento acordado, pelo que a vontade de mostrar o procedimento visivelmente não é muita. Eu deixei-o em paz. Já conheço o procedimento de outras viagens.

Aqui já é cacau.

O rapaz a mostrar-me um grão de cacau.

Deixei a bicicleta aqui presa, com o cadeado, e fui visitar a loja de recordações, bem como o Museu do Café.

037 - Cascata de São Nicolau

A loja de recordações. Há ali umas pulseiras, mas nenhuma é de homem, como fiquei incumbida de encontrar pelo meu namorado.

A minha bicicleta presa ali em baixo, nas antigas bombas.

São 8h. “O museu só abre às 9, agora está nas lavagens”, disse-me esta senhora.

O Raír e o Elu. (Será assim que se escreve?) O Raír diz-me que o seu nome de escola é Nerisom. Raír será a alcunha pela qual é conhecido, portanto.

Lá em baixo a minha bicicleta atrai os garotos. Eu estou relativamente longe, eles nem dão conta que eu estou a fotografá-los com o zoom no máximo.

Eu disse à senhora que ia só passar no corredor do museu, cá fora. Eu estou a andar de bicicleta, posso lá estar uma hora aqui sentada à espera que o museu abra. Percorri o longo corredor (o que se vê atrás do Raír e do Elu), tirei estas fotos pelas janelas e fui-me embora. Fica por fazer uma visita mais detalhada, portanto.

Parto às 8h45 e escondo a garrafa de água de litro e meio aqui no meio destas ervas. Está tão bem escondidinha que espero encontrá-la quando cá voltar, no regresso da Cascata. É que não consigo beber tudo – enchi os dois cantis e ainda sobra bastante. A 40 dobras não é para deitar fora. Irá fazer-me falta quando regressar, se calhar. Escuso de comprar outra. A garrafa está dentro dum saco preto, ninguém vai vê-la.

Esta subida é interminável. Nesta casa ao lado canta-se em alto e bom som “Não há ninguém como Jesus”. Uma voz feminina acompanha outra voz do rádio. Já esta manhã, quando fotografei a gasolina, também se ouvia uma missa em altos berros, através da rádio.

“Fine Art Study” – para os leitores estrangeiros.

É uma estrada visivelmente com muito movimento, como dá para perceber 🙂 E esta bola gigante do lado direito é uma jaca! Uma jaca gigante!

Eu nunca tinha visto uma jaca deste tamanho!!

Aqui tivemos uma sessão fotográfica que demorou algum tempo. Efetivamente esta foto era apenas um teste, mas eu mantive-a. É que ambas – a Fátima e a Nija – queriam tirar uma foto comigo (e eu com elas), pelo que era necessário passar a máquina a ambas, e ambas aprenderem a mexer nela. Para facilitar-lhes o trabalho, pus a máquina no modo de “visor” – ou seja, elas estão a ver a foto como se um telemóvel fosse, no visor da máquina. Só precisam de clicar no botão do obturador. Ora a máquina é nova e eu ainda não sabia por esta altura (agora já sei) que é quase preciso comer um bife para ter forças para carregar no obturador quando ela está no modo de “visor”. Eu nunca uso este modo, eu olho sempre pela ocular (encosto o olho à máquina). Portanto eu passei a máquina à vez, a cada uma delas, e nenhuma conseguia tirar a foto. Carregavam no botão e nada acontecia. Então fui eu testar. Ficaram elas junto à bicicleta, e experimentei eu tirar a foto neste modo de visualização no monitor. E percebi que é um bocado difícil, é preciso carregar com força. Expliquei-lhes isto e ambas conseguiram então tirar uma foto comigo, se bem que uma acabasse por ficar mal. Restou esta.
Foi divertido, este episódio. Nenhuma das três desistiu.

Já estou numa altitude razoável, perto das Cascata de São Nicolau, e o tempo faz-se notar. Frio e nevoeiro. Eu estou quente de vir a subir, vou aguentando bem o fresco. Quem nos tirou esta foto foi uma menina chamada Maribel, que vai aparecer mais abaixo com um vestido branco às flores. Perguntei quem é que queria tirar a foto, e uns fugiram, envergonhados. A Maribel ofereceu-se e eu ensinei-a a agarrar na máquina, a olhar pelo óculo, e a carregar no obturador. Eu programei previamente os parâmetros. O primeiro passo é colocar-lhes a correia ao pescoço. Agarrar na máquina é o segundo passo. A máquina pesa 1 kg. Nas mãozinhas das crianças mal habituadas, as fotos ficariam desfocadas de tremerem, eventualmente, com o peso. Ensino-lhes a colocar a máquina em cima da palma da mão esquerda, bem aberta. E com a mão direita agarrar na máquina e colocar o dedo indicador no obturador. A Maribel cumpriu na perfeição as instruções.

Este garoto ao centro oferece-me este maracujá gigante. Eu agradeci-lhe, mas expliquei-lhe que ainda tenho muito para pedalar (são 9h43, nesta foto), e que não me dá jeito andar carregada. Pedi-lhe para não ficar triste, e que foi muito simpático.

De visita ao Museu Almada Negreiros, o pintor e escritor português (1893 – 1970) que nasceu aqui nesta casa, chamada “Roça Saudade”.

As paredes estão decoradas com escritos de Almada Negreiros, inclusive a casa de banho!

A Roça Saudade, além do museu, tem também este restaurante. O Emanuel trabalha aqui e convida-me a vir cá almoçar quando regressar da Cascata. Ficou de olhos fechados e eu nem reparei, devia ter tirado outra foto. O Emanuel explica-me que o menu de  degustação é 15€ ou 375 dobras, com pratos típicos de São Tomé e Príncipe. Em princípio será muito cedo para almoçar, respondo-lhe. São agora 9h46, a Cascata é já aqui ao lado, não estou a ver como vou demorar-me tanto até à hora de almoço. Mas nunca se sabe.

As crianças vendem fruta aos turistas. Mas eu estou na bicicleta, não me dá jeito andar carregada – explico-lhes. Aquelas amoras, sobretudo, são uma tentação. Mas eu posso lá comer fruta assim. (Conforme expliquei em crónicas anteriores, e em viagens anteriores, não se deve comer fruta com casca, e tem de ser lavada com água mineral).

Cascata de São Nicolau à vista!!

São 10h15 e tenho 14 km feitos. Sempre a subir!! Entetanto consegui verificar no Maps.me que foram 600 metros de subida. De longe a maior subida que fiz até agora, na bicicleta, em São Tomé e Príncipe. No Príncipe a maior subida de bicicleta foram 240 metros, no dia em que subi ao Terreiro Velho, a caminho da floresta no Infante Dom Henrique. Depois fiz 947 metros a pé ao Pico do Príncipe. Agora não estava nada à espera destes 600 metros a subir na bicicleta – e grande parte fiz a pé, entenda-se, com a bicicleta pela mão. Ainda bem que fiquei com este destino já despachado. O Célio Santiago, que mo sugeriu, meteu-me logo a pedalar a sério no primeiro dia. Eu ainda nem recuperei bem da caminhada ao Pico do Príncipe, ainda tenho um andar meio esquisito…
Bom, mas aqui estou eu, vitoriosa, às 10h15 da manhã! 🙂

038 - Jardim Botânico do Bom Sucesso

Quando me fui embora da Cascata, estavam a chegar 3 carros com turistas.

Esta povoação chama-se Nova Moca e está muito perto da Cascata de São Nicolau. São 10h44, e agora vou à Lagoa Amélia. Está decidido. Mais outra grande subida. O GPS diz que são 9 km e 500 metros de subida. A subida do Gaspar, por exemplo, na ilha do Príncipe, era 190 metros. Mas se agora fiz 14 km sempre a subir (incluindo o desvio pela Roça Monte Café) agora faço mais 9 km, porque certamente não vou voltar aqui, não vou voltar a fazer esta subida toda desde Belém para chegar a esta zona. E quando regressar ao hotel será tudo a descer, é só sentar-me na bicicleta e deixar-me ir; e posso almoçar antes aqui no restaurante-museu. Vamos a isto, Rute, força, mexe-te!

As crianças chamam-me “Branquinha! Branquinha!”, mas os adultos repreendem-nas. Este rapaz veio ver o que se passa, com tamanha agitação entre as crianças. Chama-se Arcelino, é guia turístico (apresentou-se) e conhece o Célio Santiago.
Quer as senhoras da foto anterior, quer o Arcelino, dizem-me que a Lagoa Amélia é muito longe e que leva duas horas a pé desde o Jardim Botânico. E que eu devo levar calças. (Mal sabem eles que eu não uso calças, e o que já passei no Pico do Príncipe…).
O GPS diz que são 5,2 km e 330 metros de subida até ao Jardim Botânico, desde a Cascata. Fiquei indecisa sobre o que fazer. Vai chegar a hora de almoço, e pelo andar vai chegar a hora do lanche, e eu nos caminhos da Lagoa Amélia.
Pronto, desisti e voltei para trás.

Mas eu não quero ir embora já. São 11 da manhã, posso ir até ao Jardim Botânico, e depois almoço aqui no restaurante-museu. “Ai!…” – disse alguém neste grupo, quando me viu virar a bicicleta para trás. (“Ela decidiu qualquer coisa…”) Até me ri. Pois decidi ir ao Jardim Botânico.

E vá de começar a subida.

Vou entrar na twilight zone, parece.

Tudo fica molhado com este nevoeiro. Eu também protegi o telemóvel, que ainda não recuperou da chuvada do Príncipe, quanto mais encher-se já de humidade outra vez.

Cheguei ao Jardim Botânico! São 11h45 e tenho 19,5 km. Levei 45 minutos a subir, portanto. Desde Belém até aqui são 870 metros de subida total. Mais um pouco e fazia o mesmo do Pico do Príncipe. A diferença é que agora não vou mexer uma palha para descer, sento-me e pronto, é a bicicleta que me leva. (E não andei num emaranhado de florestas e cobras!!) (Que pena…).

Está frio! Eu venho quente da subida, mas agora irei arrefecer. Trato de vestir a camisola de manga comprida que trago na mochila. Estava eu nestas lides quando apareceu a Isilda, nesta foto. Trabalha aqui no jardim botânico, trata da limpeza do jardim, e é guia. Indicou-me que estamos a 1.125 metros de altitude. Salvo erro foi este número que a Isilda me disse. Quem nos tirou a foto foi um rapaz santomense que é guia turístico e que trouxe aqui um casal de turistas no seu jipe. Deveria estar a aguardar por eles. Eu não estou com um ar muito convencido a vê-lo tirar a foto, porque a máquina não estava a conseguir focar, com este nevoeiro, e estava a recusar-se a tirar a foto. O rapaz não conseguia tirar a foto, foi à terceira ou quarta tentativa.

Sinto-me numa autêntica twilight zone, neste nevoeiro silencioso.

Esta placa fala sobre a Lagoa Amélia: (passo a transcrever):

Segundo contos populares, Amélia, uma jovem portuguesa, teria desaparecido na Lagoa Amélia, daí deriva o nome. A Lagoa Amélia é uma antiga cratera de vulcão situada a 1.450 metros de altitude no Parque Natural Obô, e dista duas horas de marcha a partir do jardim botânico de Bom Sucesso. As beiras apresentam uma associação botânica única formada por Begonia baccata e Cyathea manniana.
Hoje em dia, uma grande parte da cratera está a ser invadida por um arbusto. Nestes termos, este ecossistema natural poderá desaparecer se não forem tomadas medidas para controlar o fenómeno. Isto mostra-nos de facto que os ecossistemas são complexos e em evolução constante. Atualmente a cratera está coberta por uma camada de ervas baixas e hospeda numerosas plantas muito raras da flora de São Tomé. Este tipo de vegetação apresenta uma fisionomia muito parecida com aquela que cobre o cimo do Pico de São Tomé.

Búzio d’Obô. (Recordo que “Obô” significa floresta densa). Este búzio é uma espécie endémica de São Tomé e Príncipe, ou seja, só existe aqui e em mais lado nenhum no mundo. É um caracol gigante africano. O seu nome científico é Archachatina bicarinata, e vive nas montanhas da floresta tropical primária. Devido à perda de habitat, à coleta em massa das conchas, e à sua apanha para alimentação, este caracol gigante é uma espécie em declínio, classificada como vulnerável.¹

Estes animais têm hábitos noturnos, são polífagos (ou seja, têm uma fome insaciável) e hermafroditas, produzindo grandes quantidades de ovos, sendo muito procurados para fins medicinais, ornamentais, como animais de estimação e, por fim, pelo considerável valor, sobretudo no território africano, como recurso alimentar.
Este caracol gigante – Archachatina bicarinata – tem sofrido um declínio acentuado em ambas as ilhas – Príncipe e São Tomé – nas últimas décadas. A introdução do caracol gigante do oeste africano Archachatina marginata, ou búzio-vermelho, está entre as prováveis causas deste declínio. O búzio-vermelho existe em quase todo o país, preferindo plantações e florestas secundárias de baixa altitude, e evitando as zonas de floresta nativa. Já o endémico búzio-d’Obô encontra-se restrito às florestas nativas mais remotas. O invasor encontra-se maioritariamente em áreas mais degradadas, ocupando uma proporção muito mais significativa das ilhas.
A população atual do búzio-vermelho é composta por uma elevada proporção de juvenis, em contraste com a do endémico, em que claramente predominam os adultos.
Existem também diferenças nos padrões de atividade diária de ambas as espécies, com o endémico a ser principalmente diurno e o invasor a preferir estar ativo durante a noite. Os estudos sugerem que o declínio acentuado do búzio-d’Obô pode estar relacionado com a introdução do búzio-vermelho nas duas ilhas.²

Está a haver uma guerra de caracóis gigantes, portanto!!

Nesta caixa pequena, no chão, estão os filhotes dos búzios d’Obô. É uma creche de búzios! 🙂

Caneleira.

Jaqueira.

E pronto, terminei a visita. Passei aqui uma hora bastante agradável, ainda bem que voltei para trás. São 12h50, vou almoçar.


¹ “Archachatina bicarinata” (s.d.). Wikipedia. Página consultada a 17 Outubro 2019,
<https://en.wikipedia.org/wiki/Archachatina_bicarinata>

² Panisi, Martina (2017) “Biological invasion and the conservation of endemic island species: São Tomé Archachatina giant snails (Pulmonata: Achatinidade)”. Tese de mestrado em Biologia da Conservação, apresentada à Universidade de Lisboa, através da Faculdade de Ciências. Página consultada a 17 Outubro 2019,
<https://repositorio.ul.pt/handle/10451/31613?locale=en>

039 - Almoço & Visita à Cidade da Trindade

O terceiro gato que vejo no país! Vi dois principenses, e este é o primeiro santomense!

Cheguei ao restaurante às 13h15. Tenho 25 km na bicicleta.

Este restaurante existe há 4 anos.

Este é o quarto!!

A equipa da cozinha faz grande algazarra, e eu fui espreitá-los. Abri a porta e tirei-lhes esta foto rapidamente. Riram-se, surpreendidos com o flash.

O humor e a sátira de Almada Negreiros!
Fui lavar as mãos à casa de banho, e estes escritos estão por todo o lado.
A ver se consigo encontrar uma tradução para os leitores estrangeiros:

“You who discovered the Cape of Good Hope; and the Maritime Way of India; and the two Great Americas, and you who took annoyance to these lands and brought more annoyance from there and furthermore sang these feats…”

Entrada: um peixe chamado maxipombo – parecido com sardinha, disse-me o Emanuel, o empregado que fotografei na crónica 37.
O nome científico deste peixe é Hemiramphus balao, virei a descobrir mais tarde.
Mais:
Omelete local; fruta-pão frita; xuxu com coentros selvagens.
Tudo delicioso, desapareceu num instante. Venha o seguinte!

Este anda a sondar-me. É o quinto gato santomense que vejo!! E aquele pano deve ficar num estado excelente, com ele a fazer as unhas ali.

Segunda entrada: um peixe espadarte frito chamado peixe andala, explicou-me o Emanuel. (Cujo nome científico é Istiophorus albicans, como também virei a descobrir mais tarde). Por cima, molho com beringela, quiabo, pimento e cebola. Matabala frita (um tubérculo parecido com batata) e azeitonas casadas com baunilha. (Sim, “casadas com baunilha”, foi o que o Emanuel disse).
Tudo delicioso, desapareceu num instante. Venha o seguinte!

Prato principal: moqueca de atum, com leite de coco e óleo de palma. Arroz de mosquito (que é uma erva aromática, explicou-me o Emanuel, para tranquilizar-me). Lussua, parecido com espinafres. Legumes salteados, tais como xuxu, abóbora, feijão verde. E banana-pão frita.
Estou deliciada.

Alguém aqui quer um bocadinho de peixe, está visto.

Ah pois é. Eu venho da Twilight Zone, lá de cima do Jardim Botânico, 1.125 metros de altitude, com um nevoeiro cerrado e frio que gela até aos ossos. A descer arrefeci bastante, pois já não vim a pedalar. E aqui no restaurante já estão preparados para os clientes friorentos, ofereceram-me logo uma mantinha, que eu aceitei de bom grado. Aproveitei também para carregar o telemóvel com o power bank, enquanto almoço. É que a seguir ainda quero ir à farmácia, tenho de encontrar uma farmácia, pois preciso de adesivo para fazer os pensos de combate dos pés. O adesivo que comprei no Príncipe já se acabou.
Quem me tirou esta foto foi o Emanuel, que é fotógrafo! Tem uma página no Facebook: “Silva Photography”.

Pronto, já comeu uns bocadinhos de atum. Aquela baba no chão são os vestígios. É babão, este gato, portanto. (Ou gata, uma pessoa nunca percebe estas coisas de gatos).
E está à espera de mais. Agora come-me o atum todo.

Sobremesa: bolo preparado com pó de cacau e cajamanga. (Não é cajá-manga, apesar de provavelmente ser a mesma coisa. Em São Tomé e Príncipe diz-se “cajamanga”. Deixo também um vídeo no You Tube sobre a cajamanga anã).
Em cima, doce de maracujá gigante (ver crónica 35 sobre o maracujá gigante). Creme preparado com cacau e mel, e carambola com framboesa.

Desapareceu tudo e efetivamente estou satisfeita. Ainda bem que vou descer, na bicicleta, porque pedalar agora a subir seria muito complicado. Depois de almoço nunca gosto de pedalar, já sei de experiência de viagens anteriores.

No restaurante há outra mesa com 4 turistas e mais o guia, ou motorista, santomense. Chegaram ao mesmo tempo que eu e fomos sendo servidos ao mesmo tempo. Falam francês, mas uma das pessoas (será a guia?) fala português.
Eu acabei de almoçar às 14h30. O Emanuel oferece esta flor a todas as visitantes femininas – a mim e às outras duas senhoras do outro grupo. A flor chama-se “shampoo ginger”, diz-me. Encontro isto na Wikipedia:
“Zingiber zerumbet é uma espécie de planta da família do gengibre com caules frondosos que crescem até cerca de 1,2 m de altura. É originário da Ásia, mas pode ser encontrado em muitos países tropicais. Os nomes comuns incluem: awapuhi, gengibre amargo, shampoo gengibre e pinha”.¹
Como eu ando de bicicleta, nunca aceito estas ofertas, não me dá jeito andar carregada. Além do  mais fico sempre com pena de ver as flores a morrerem.

Cá está a minha garrafa de água de 1,5L que escondi na entrada do Monte Café, esta manhã, na crónica 37! Já ninguém se lembrava disto, aposto 🙂 Mas eu não me esqueci! Esta aguinha agora dá-me jeito, depois de almoço! Posso reabastecer os meus cantis!

Vou em busca duma farmácia. Disseram-me que há uma em Trindade. A vila fica perto do meu hotel, em Belém, e preciso mesmo do adesivo. Apesar de cansada, vou.

Cheguei a Trindade. Recordo o que escrevi na crónica 5: devido à inflação, em 2018 a dobra foi redenominada a uma taxa de 1000 para 1, pelo que atualmente diz-se: gasóleo 21 dobras (0,84€), e gasolina 25 dobras (1€).
No Príncipe o gasóleo era 21,750 dobras (0,87€) e a gasolina 26,35 dobras (1,05€).

Depois desta caminhada toda, a farmácia não vende adesivos. No Príncipe, uma ilha minúscula no meio do Atlântico, a farmácia tinha adesivos de vários tamanhos e feitios, aqui não há nenhum. Mau.
Resultado: hoje irei tomar banho sem tirar os pensos dos pés, pois preciso deles para amanhã! Vão ficar molhados, e vão secar, que remédio. Agora só há farmácias na cidade de São Tomé. Mas garantidamente não vou agora à cidade de São Tomé, estou estafada. São três e meia da tarde, eu acordei às 4 da manhã, daqui a pouco já é hora de ir dormir novamente.

No mercado de Trindade.

Para cá foi tudo a descer. Agora não me apetece subir sei lá quantos quilómetros até chegar a Belém. Telefonei ao taxista Fingui, um contacto que o Célio Santiago me deu, para alguma urgência. E o Fingui veio. O que eu não sabia (ainda não sabia) é que há uma estrada a corta-mato para Belém, e pouco a subir. Ora não faz sentido nenhum eu ir de táxi. Pedi para sair, ao fim de 1 km, portanto. Esta foi boa. Ainda paguei 50 dobras, se bem me recordo.

O taxista Fingui deixou-me aqui, para eu continuar o meu caminho de bicicleta, e eis que pára esta moto4 à minha frente. Eu creio que reconheço o condutor: é um guia com quem eu troquei algumas mensagens, ainda em Portugal, planeando a minha viagem aqui a São Tomé e Príncipe! Chama-se Mayke Jackson. Só pode ser ele. E perguntei-lhe se não me reconhece.

O Mayke já não se lembrava – afinal de contas só trocámos umas mensagens via Messenger, há uns meses atrás. É guia turístico, pelo que trata com uma série de turistas. Mas eu reapresentei-me, e o Mayke reconheceu-me finalmente. Por enquanto eu ando sozinha na bicicleta, mas mais tarde ou mais cedo poderei precisar dum guia para mostrar-me algumas partes da ilha, pelo que fiquei com o seu contacto, e dei-lhe o meu número santomense também. Aliás, uma das hipóteses que o Mayke me falou, há meses atrás, via internet, foi precisamente de passeios em moto4.

Cheguei às 16h ao resort, tenho 37 km na bicicleta. O Célio Santiago está ao computador, a trabalhar, e tem uma visita, todo janota, que não sei quem é. Ficou na foto também, que é para aprender.

O Célio tem dois filhos a estudar em Portugal: um rapaz no 3º ano de Enfermagem, que quer tirar a especialidade de Medicina Forense (ainda não existem estes especialistas em São Tomé, disse-me); e uma rapariga em Farmácia, no norte de Portugal, na Guarda (ou se calhar é mais correto dizer “na região estatística do Centro”). Dividem os livros sempre que podem, contou-me. Quando as disciplinas coincidem. A mulher está atualmente em Londres.
O Célio foi economista no banco central de São Tomé e Príncipe. Formou-se no Porto, em Portugal. Abriu este resort ecológico em 2002, quando terminou o curso. Foi camionista enquanto estudava; não tinha vícios, reuniu dinheiro, montou este negócio. Não é dado a grandes despesas e ostentações, contou-me. O seu jipe, por exemplo, é de 1998, não o substitui, todos o conhecem.
Escreve livros de economia e gestão para editoras e vende-os. Mostrou-me um documento Word que estava a escrever, enquanto falávamos. Ganha 6€ por cada livro vendido. E como não gosta de ouvir carros a passar, o barulho incomoda-o (olha, olha, já somos dois!), deixa a sua casa e vem para aqui escrever em silêncio.

Eu entretanto fui despachar-me e tomar banho, e quando terminei tinha eu uma visita: o Arcelino, o guia, que encontrei no Bom Sucesso, a caminho do Jardim Botânico (na crónica 38). É bom ter estes contactos, de confiança, conhecidos do Célio também. Já tínhamos trocado de números de telefone, no Bom Sucesso. O Arcelino levar-me-á à Lagoa Amélia, se eu decidir ir. Eu acho que não irei, porque descobri que não é lagoa nenhuma, é campo e floresta. Efetivamente não sou muito sensível a plantas e flora, que é o ponto de atração turística principal, na Lagoa. Subir aquilo tudo outra vez… não estou muito inclinada. O Arcelino também poderá transportar-me de carro até Porto Alegre, no extremo sul da ilha. Eu ainda ando a ver como farei a coisa. De bicicleta é muito longe, e tem muitas subidas e descidas, eu só iria chegar à noite. Provavelmente terei de ir de carro. Porque depois ainda tenho o regresso, que são duas ou três horas de viagem – de carro.

Fiz 37 km de bicicleta, hoje. O GPS diz 38, mas eu estou a descontar o quilómetro que fiz de táxi.
Comi 4 bananas-maçã, três bolachas e leite.  Às 19h15 fui-me deitar. Cabeceei novamente enquanto tratava das fotos e fazia o backup. Quase adormeci a meio.
Está tudo a carregar – GPS, máquina fotográfica, telemóvel, power bank. A luz portátil da máquina fotográfica não foi usada ainda, está carregada.


¹ “Zingiber zerumbet” (s.d.) Wikipedia. Página consultada a 20 Outubro 2019,
<https://en.wikipedia.org/wiki/Zingiber_zerumbet>

040 - 14º Dia, a Caminho de Guadalupe e Praia dos Tamarindos

Despertador às 4h. Hoje não há vento nem chuva, está tudo silencioso.

Hoje apetece-me uns ovinhos estrelados.

Destino: Praia dos Tamarindos, passando por Guadalupe. Foram dois destinos também indicados pelo Célio Santiago, logo no primeiro dia, como sendo bonitos, para conhecer. O objetivo é conhecer a ilha toda, mas enfim, tenho de começar por algum lado, e como tal vou já às recomendações de quem conhece.

O caminho desde Guadalupe até à praia dos Tamarindos. Repare-se que é sempre a descer. O pior será voltar depois a Belém.

Este mapa indica as estradas de alcatrão. Mas o GPS manda-me por estradas de terra, dado que eu escolho a opção “Bicicleta de Montanha” na aplicação Maps.me.

Partida às 5h25.

Este ciclista passa por mim a toda a velocidade. Eu faço-lhe adeus e tiro-lhe uma foto, pelo que ele volta para trás para cumprimentar-me.

Nada mais nada menos do que o campeão nacional de São Tomé e Príncipe, Edney Nascimento!
Isto de andar vagarosamente de bicicleta tem as suas vantagens (sou eu que ando vagarosamente… o Edney passou a toda a velocidade…). Já conheci o artista plástico Eduardo Malé (na crónica 25), o atleta Ilídio Vaz (na crónica 31), e agora o ciclista Edney Nascimento. Passam-me as celebridades todas à frente!
Vejo na Wikipedia que o Edney Nascimento foi campeão nacional em 2015, na prova de contrarelógio, e encontro esta notícia (entre outras) de 2013: “Edney Nascimento conquista a 10ª edição da corrida da francofonia. A prova [organizada pela Federação São-tomense de Ciclismo com o patrocínio da comissão nacional da francofonia] foi decidida no sprint final, onde Edney Nascimento conseguiu vencer os diretos adversários chegando à frente de Edney Quaresma e Daniel Sousa. Atemilson Quaresma chegou no quarto lugar.”¹

São 6h14, e eu perguntei a esta senhora se podia tirar-lhe uma foto, pois está tudo deserto nesta parte da estrada, e só ela e eu é que andamos por aqui. Ela riu-se e acedeu.

O GPS diz-me para seguir pela estrada à direita, em direção a Madalena. (Que efetivamente é em frente. A estrada principal vira para a esquerda).

Estas pessoas é que se meteram comigo. Chamam-me “Branca”. Já me habituei. “Mãe, vem ver a branca!” – disse um garoto. Já ontem no táxi, o Fingui estava ao telemóvel e disse: “Vou levar uma pula a Belém”.
Eu venho toda corada e transpirada, mas fazer a subida de Belém dá nisto.

Ficaram os três de olhos fechados!! Eles iam lado a lado a ocupar a estrada toda, e como a bicicleta é silenciosa, só perceberam que eu estava atrás deles, a tentar ultrapassá-los, quando lhes falei e pedi licença. Eles desviaram-se imediatamente e pediram desculpa. Eu sorri-lhes e tirei logo esta foto.

Coitadinho, ninguém dá comida a esta coisinha. É preciso mesmo lançar uma campanha de esterilização dos animais, para começar a controlar a população de animais abandonados e famintos. Senão isto nunca mais acabará.

O rapaz está a atirar pedaços de fruta-pão, parece-me, aos animais.

Deve morar aqui um ilustre… Estas casas destacam-se fortemente nas povoações.

Uma fruta-pão caída no chão. (Ver crónica 13 para mais detalhes sobre a fruta-pão).

Cacau ainda verde pendurado na árvore. Quando está maduro fica amarelo.


¹ “Edney Nascimento conquista a 10ª edição da corrida da francofonia” (19 Março 2013). Téla Nón. Página consultada a 21 Outubro 2019,
<https://www.telanon.info/desporto/2013/03/19/12719/edney-nascimento-conquista-a-10%C2%AA-edicao-da-corrida-da-francofonia/>

041 - Passando por Batepá, António Soares, Santa Margarida, Alto Poto, Poto Zambraia, Boa Entrada e Vila Amélia

Eu nem consigo desenhar isto tudo no mapa. São pequeninas povoações. O caminho que fiz neste trecho, por estradas de terra, ficou indicado no GPS, na crónica anterior.

Recordo que estou alojada em Belém. Agora vou a caminho de Guadalupe, e a seguir Praia dos Tamarindos.

Parei a bicicleta e olhei para as árvores e arbustos, em busca dum local para fazer xixi. É que não encontro nada deserto, há sempre gente por todo o lado. Estou tramada, estou a ficar aflita. No Príncipe era mais fácil, aqui em São Tomé não encontro nada deserto! E quando olhei para cima, vi este rapaz. Pois claro, tinha de haver alguém, ainda não é desta. Esta árvore é uma jaqueira, e a fruta é a jaca. E no canto inferior esquerdo está cacau. Chama-se Ismael. Vendo-me interessada na jaqueira e na jaca, propôs-se ir buscar um pedaço maduro para eu provar. Eu já comi jaca no Vietname, mas já foi há tanto tempo que nem me lembro como é. Fiquei à espera, na estrada, e o Ismael foi algures no meio no mato buscar. Levou uns minutos apenas, e voltou com este pedaço. Isto é que é ser bem recebida por um povo. Até agora só me trataram bem. Mais do que bem – mimam-me. Quem tirou esta foto foi uma senhora toda aperaltada que ia a passar, provavelmente a caminho do trabalho. Hoje é 5ª feira e são 7h30. Eu comi um bocado, dei umas dentadas, não consegui comer tudo, até porque ainda venho cheia do pequeno-almoço. Perguntei ao Ismael quanto custa uma jaca inteira, respondeu-me que uma pequena, madura, anda pelas 20 dobras (0,80€). Este pedaço era uma oferta para mim, mas eu quis agradecer-lhe o trabalho e fui buscar as moedas que tinha na carteira. Tinha 8 dobras e dei-lhas. A chegar a à Roça Boa Entrada. Recordo o que escrevi na crónica 10: as Roças são antigos edifícios do tempo do colonialismo português, grandes propriedades rurais onde se produziu cacau e café, nos finais do séc. XVIII e inícios do séc XX. Atualmente a maioria está em avançado estado de degradação, e alguns dos edifícios são habitados pela população.

Roça Boa Entrada. Devia ser linda, no tempo do seu auge.

As traseiras da Roça Boa Entrada.

O rapaz à esquerda disse-me que vai haver uma festa sábado à noite, aqui em Boa Entrada, e que eu estou convidada. Eu ri-me e agradeci. É o terceiro ou quarto convite que recebo para festas ao fim de semana. Há sempre festas ao fim de semana, nas várias povoações, apercebo-me.

A construção da nova escola secundária de Desejada.

Parei aqui um pouco, na Vila Amélia, e a Erpe meteu-se comigo (será que “Erpe” se escreve assim?). Está a dar banana cozida ao pequenito à frente, que é o seu filho Rafael. As duas meninas não sei se são filhas também. Esta descida é uma autêntica curtição para fazer BTT. Tem uns 2 ou 3 km, se calhar. Aos saltos por terra e pedras, a toda a velocidade. As pessoas nas suas casas quase nem têm tempo de ver-me passar. Muitas nem me viram, dado o silêncio da bicicleta. E é um local relativamente deserto, até me convém acelerar. Não interessa estar parada em locais muito desertos.

A chegar à estrada principal, alcatroada, que leva a Guadalupe. Conforme indica o GPS, tenho de ir para a esquerda.

Comprei uma garrafa de água de 50 ml por dez dobras, nesta quitanda à beira da estrada, e perguntei onde é que posso ir à casa de banho. A rapariga até se riu. E vendo-me aflita, foi perguntar à casa ao lado.

Ao lado da quitanda existe uma vivenda – a Residência Pires – que aluga inclusivamente um quarto a turistas. Aqui vê-se o casal espanhol que atualmente é hóspede. O dono, Wilson Pires, à esquerda, perguntou ao casal se se importavam que eu fosse à casa-de-banho, e eles não colocaram problemas, pelo que fui, no andar de cima da casa. Até me parece mentira, arranjar uma casa-de banho toda bonita, tão inesperadamente. Houve uma falha momentânea de água, eventualmente, pelo que o dono, Wilson Pires, disse-me para eu usar o bidon cheio de água que aqui está, a um canto, com um recipiente pequeno para deitar a água na sanita. (Estes recipientes usei-os tantas vezes em Timor, e nunca cheguei a saber o nome disto… tantas crónicas escritas, e nunca nenhuma alma caridosa me enviou um email a dizer como se chama!) À despedida, o meu telemóvel falhou. Desligou-se. São 9 da manhã, ainda nem cheguei a Guadalupe, e o telemóvel resolve desligar-se e recusa-se a ligar novamente. E o GPS para indicar-me o caminho? Resultado, depois de algumas tentativas de reanimação do telemóvel, desisti. Vou seguir sem GPS. Se não existirem placas com a indicação da direção de Guadalupe, e Praia dos Tamarindos, perguntarei pelo caminho. Mas o telemóvel terá que funcionar nos próximos dias, tenho a ilha de São Tomé quase toda por desbravar ainda.

042 - Guadalupe

Aqui ia a pedalar, a caminho de Guadalupe, quando estes rapazes me mostraram o cacau. Eu em andamento, a toda a velocidade, numa descida de alcatrão. Só tive um vislumbre do fruto. Mas travei – uns cinquenta metros depois, talvez, quando consegui, e eles vieram então ter comigo. De tshirt azul é o Dani, de tshirt vermelha é o Jorge.
O cacau está maduro quando é amarelo. Este está maduro e pronto a comer, portanto. Pediram-me cem dobras por ele. Eu disse que é demasiado e que também não quero ir carregada na bicicleta. Eles então decidiram parti-lo ao meio, para eu comer o que me apetecer, e que posso pagar o que quiser. Tinha uma nota de 50, dei-lha.

Eu nunca tinha comido um cacau fresco. Eles ensinaram-me como é, pacientemente e cheios de tempo. Come-se à dentada, pois claro, e dentro dos bagos há um caroço que pode ser trincado, que é relativamente suave. Há quem trinque o caroço e o coma, e há quem chupe apenas os bagos e cuspa o caroço. Isto faz-me lembrar as uvas. Também há pessoas que trincam os caroços e os comem, e outras não. Mas este caroço do cacau é grande. Aliás, mostrei um na crónica 36, quando visitei o Monte Café. E não sabe a chocolate! Nada a ver. Então experimentei as duas coisas. Trincando o caroço amarga um pouco. Os bagos são muito doces, pelo que preferi não trincar o caroço. Mas dá algum trabalho chupar os bagos, porque a carne do fruto (dir-se-á assim?) não larga facilmente o caroço. Ainda estive aqui algum tempo de volta do cacau, com eles divertidos a olharem.

E eu sinto-me muito minorca nesta foto, tirada de cima, ainda por cima com um rapaz alto e espadaúdo ao meu lado. Giros, os rapazes. Eu tenho os óculos de proteção – são para andar de bicicleta, pois ir a toda a velocidade a levar com mosquitos e terra nos olhos não é agradável nem aconselhável.

A entrar na cidade de Guadalupe. Recordo que o mapa indicando a localização de Guadalupe se encontra na crónica 40.

Aproveitei para visitar a farmácia do Centro de Saúde, a ver se encontro adesivos castanhos para os pensos dos pés.

A farmácia à esquerda. E também não têm adesivos!

Os selos que confirmam as pulverizações feitas ao longo do tempo. São as pulverizações contra o mosquito da malária (ou paludismo, como está escrito nos autocolantes; é a mesma coisa). Mostrei uma equipa de pulverizadores na crónica 17, no Príncipe.

Vou agora deixar Guadalupe, e vou em direção a Morro Peixe. Lembro-me de memória que a Praia dos Tamarindos é ao lado. Recordemos que estou sem telemóvel, e consequentemente sem GPS. Mas se andei sozinha na China, com placas em chinês, aqui é canja.

Esta placa é curiosa. Deixo a tradução em inglês para os leitores estrangeiros: “Forbidden the funerals payment in the cemitery”.

O cemitério está fechado. Hoje é 5ª feira e são quase dez da manhã, estou a ver que é difícil às pessoas irem a um cemitério visitar a família, em São Tomé e Príncipe… Não há maneira de eu encontrar um aberto. Pelo que voltei a fotografar este através das grades do portão.

043 - Morro Peixe & Visita ao Museu

Vinho de palma – das palmeiras. Está à venda. Mas tenho receio de beber, que me faça mal. Ainda fico com uma diarreia que até vejo estrelas. Aquelas águas fazem-me suspeitar.

A chegar a Morro Peixe. São 10h15 e tenho 27,6 km na bicicleta.

Acabei de descobrir que existe aqui um museu. O Museu de Morro Peixe. Que maravilha, claro que quero ir já visitá-lo. Apareceu um rapaz – chamado Ju – que se ofereceu para fazer-me uma visita guiada.

O Ju foi-me explicando tudo. A visita levou cerca de 30 minutos.

Quanto tempo leva esta sola de borracha a desaparecer?

Quanto tempo leva este plástico a desaparecer?

Os cetáceos existentes em São Tomé e Príncipe: os golfinhos Roaz Corvineiro e Golfinho Malhado (estado de conservação de acordo com a IUCN: “Pouco Preocupante”); e as baleias de Bossa, Cachalote e a baleia Piloto.

  • A baleia de Bossa tem um comprimento até 16 metros e um peso médio de 35.000 kg. O seu estado de conservação é “Pouco Preocupante”.
  • O Cachalote tem um comprimento até 18 metros, e um peso médio de 40.000 kg. O seu estado de conservação é “Vulnerável”.
  • Finalmente, a baleia Piloto tem um comprimento até 7 metros, e um peso médio de 2.000 kg. O seu estado de conservação é desconhecido, não há dados suficientes.

Este cartaz indica que a baleia Bossa visita São Tomé e Príncipe todos os anos entre julho e novembro. Eu estou agora em julho. Eu quero ver as baleias!

As três tartarugas de baixo já as apresentei na crónica 28, no Príncipe: são a Sada (“Em perigo crítico de extinção”), a Ambulância (“Vulnerável) e a Mão Branca (“Em perigo de extinção”).
As duas de cima são (transcrevo o cartaz):

  • Tartaruga Tatô (Lepidochelys olivacea) – Esta espécie é provavelmente a espécie mais abundante de tartaruga no mundo. É a espécie de tartaruga marinha mais pequena e mais abundante na ilha de São Tomé. Comprimento: 68 – 75 cm / Peso 35 – 45 kg. Estado de conservação segundo a IUCN: “Vulnerável”.
  • Tartaruga Cabeça Grande (Carettacaretta). Conhecida pela sua grande cabeça, esta espécie ocorre nos mares tropicais e subtropicais e também em águas temperadas. Em São Tomé e Príncipe, esta espécie é apenas observada no mar, uma vez que não desova no arquipélago. Comprimento: 73 – 107 cm / Peso 70 – 170 kg. Estado de conservação segundo a IUCN: “Em perigo de extinção”.

Todas em estado vulnerável e em perigo de extinção. Isto é uma tristeza muito grande.

Falei da MARAPA também na crónica 28. Transcrevo agora o cartaz:

Somos uma Organização Não Governamental  santomense – MARAPA (Mar, Ambiente e Pesca Artesanal) nacional, laica e sem fins lucrativos, fundada em Março de 1999. Missão: contribuir para o desenvolvimento sustentável das comunidades costeiras e do ambiente marinho e costeiro em São Tomé e Príncipe. A MARAPA tem por finalidade:

a) Apoiar a pesca artesanal em todos os domínios;
b) Preservar o ambiente litoral e costeiro, através da educação, sensibilização, apoio à gestão das zonas litorias e marítimas do Parque Obô e promoção de eco-turismo de base comunitária. A MARAPA trabalha desde o seu início em ambas as ilhas – Príncipe e São Tomé.

E depois desta bonita visita ao Museu, o guia Ju tirou-me esta foto. São 11h. Vou agora para o meu destino final de hoje: a Praia dos Tamarindos.

044 - Praia dos Tamarindos, Almoço & Regresso

O guia Ju do museu recomendou-me ir encomendar o almoço aqui ao restaurante, antes de ir à Praia dos Tamarindos. A rapariga que me atendeu deu uns 5 ou 6 nomes de peixes que têm disponíveis. O menu, que inclui a sobremesa, custa 200 dobras (8€). Uma das refeições mais caras que comi até agora. Mas não há escolha, dado que não existem mais restaurantes por aqui. Encomendei um peixe que ainda não provei: Peixe Azeite.

Antes de enveredar por esta estrada, a caminho da Praia dos Tamarindos, fui abordada por um grupo de raparigas. Uma delas é irmã do Ju, disse-me. Também me disse para ter cuidado ao ir sozinha para a praia. (Eu não disse nada, mas pensei: “Então? Esta praia é perigosa?”)

A placa diz: “Seja bem vindo. Usem-me, mas não me deixem suja”.

Está ali um grupinho de branquelas como eu!!

À força de tanto os rondar, para trás e para a frente na praia, acabei por chamá-los à atenção. Cumprimentámo-nos. Perguntei-lhes se podiam tirar-me uma foto. Perguntei em inglês. E perguntei-lhes também de onde são.
Do Porto, carago! São portugueses e são do Porto!! Estão cá uma semana de férias!

E foi um dos meus compatriotas que me tirou uma de dúzia de fotos aqui a andar na praia dos Tamarindos.

É meio dia, vou almoçar. Recordo que acordei e tomei o pequeno-almoço às 4 da manhã. Já lá vão 8h. Despedi-me dos meus amigos branquelas iguais a mim, desejei-lhes continuação de boas férias, e fui almoçar o meu peixe Azeite. Como será o meu peixe Azeite.

Aqui é a escola primária de Morro Peixe, e estão a fazer as matrículas para o próximo ano letivo. Cada aluno paga cem dobras (4€), disseram-me. 20 pela matrícula, 80 pela cantina.

Que grande pratada de comida. Bom, já percebi porque são 200 dobras.

Não consegui comer nem metade, mas estava tudo delicioso. Sobrou muito peixe e muito arroz, e agora não tenho nenhum cão por aqui, para dar, que pena. Curiosamente não me lembro de ver cães em Morro Peixe.

A empregada que me atendeu, e que se chama Ju (também, como o guia do museu!).

São 13h09. Tenho um problema: estou com 31 km na bicicleta, a pedalar desde as 6 da manhã, e agora de barriga cheia. Regressar ao hotel na bicicleta?… Tudo a subir? Uma porção de quilómetros a subir? Ainda por cima de barriga cheia? Não quero. Estou aqui para passar férias e divertir-me, não para sofrer. Só esta estrada de pedras, em construção, até Guadalupe, sempre a subir, já será uma tortura. Perguntei então à Ju se não conhece ninguém que me leve de carro até à cidade de São Tomé. A mim e à bicicleta. Ela foi saber. Voltou pouco depois e disse-me que são 150 dobras até Guadalupe. São 2,5 km até Guadalupe, tenham dó. De mota são 10 dobras. Se fosse até à cidade de São Tomé, ainda vá. Eu fiquei muito aborrecida e disse que já não gosto do restaurante nem do dono, pela exploração. Mas a Ju respondeu-me que o dono está em São Tomé, aquele é o jardineiro. Ah é o jardineiro que quer levar-me 150 dobras por 2,5 km?! Perguntei-lhe então se não tem nenhum amigo que me leve. A Ju sugeriu-me ir de moto-táxi, e que eu levaria a bicicleta pela mão, a andar ao meu lado. Bom, isso parece-me difícil. Depois a Ju lembrou-se que conhece o Naí, foi lá fora e viu a moto dele estacionada lá à frente, ao longe. Eu fui lá de bicicleta e chamei-o: Naí! (Até parece eu que eu o conheço também).

À esquerda está o Naí, que é motoqueiro de profissão, afinal. Mas temos o problema da bicicleta. Nisto apareceu um jipe – era o Wilson Pires, o dono da residencial onde eu fui à casa de banho, com o casal de turistas espanhóis, e mais uma senhora dentro do carro, talvez a mulher. Vieram passear a Morro Peixe. E o carro vai bem cheio, não há espaço para a bicicleta. E nisto apareceu este segundo motoqueiro, à direita, todo decidido e desembaraçado, que disse que me leva a bicicleta por 15 dobras até Guadalupe. E eu vou na outra mota com o Naí, também por 15 dobras. Negócio fechado.
Acabei por não ficar com o nome deste motoqueiro da direita. Ele prendeu a minha bicicleta tão rapidamente que eu nem dei conta. Fez tudo sozinho, nem quis ajuda. Até lhe perguntei se ele já está habituado a isto. Parece que sim, que já tinha levado outras bicicletas, pelo que percebi.

Só que antes de arrancarmos ainda tenho uma sessão fotográfica com estas duas santomenses.

Ao chegar a Guadalupe, o Naí encontra este seu amigo (ou primo?), chamado Pajó, com esta moto carrinha, e que pediu 350 dobras até a cidade de São Tomé. São 14 km. Eu achei muito e preparava-me já para pedalar (a partir daqui é alcatrão e mais ou menos a direito), quando ele sugeriu 200. Aceitei.

Neste cruzamento de Guadalupe existem muitas motas e carros de transporte público, que assistiam a tudo isto, e ouviram-se muitos gritos e risos quando o Pajó tirou esta foto comigo, e meteu o bracinho no meu ombro.

Chegada à praça de táxis da cidade de São Tomé. Agora são 7 km a subir até ao hotel. Subida muito íngreme, em alcatrão. Garantidamente não vou subir agora 7 km. Perguntei ao Pajó se me leva a Belém. Ele encostou e foi consultar a tabela de preços num papel. Não existe Trindade na tabela de preços. Eu propus 100 dobras, 300 no total, portanto, e o Pajó aceitou.

O Pajó, à esquerda, e o seu amigo Quito, também motoqueiro, que ajudou a segurar na bicicleta durante a viagem. Chegámos ao hotel, em Belém. São 14h30. O Pajó deixou-me o seu contacto para transportes futuros que eu queira, contacto esse que anotei num papel, pois o meu telemóvel não se liga, recordo – está aparentemente morto – andei durante o dia de hoje a tirar notas num papel que o Wilson Pires me deu. Sim, porque eu tenho de tirar notas durante o dia para lembrar-me disto tudo.

Fiz 32,7 km na bicicleta, e 23,5 km de moto.

O Célio Santiago, dono do resort.
Estivemos a ver preços de telemóveis junto dos seus conhecidos. Havia um Galaxy qualquer coisa por 4.000 dobras (160€). No segundo telefonema para saber se era novo ou em 2ª mão já eram 5.000 dobras.
E entretanto o meu telemóvel ligou-se. Ressuscitou. Voltou a funcionar às 15h quando o liguei à tomada para carregar. Esta é boa. Enviei novamente mensagens a várias pessoas em Portugal avisando que o telemóvel está mesmo a dar o berro, e que esteve morto hoje durante seis horas. Um amigo respondeu-me (por Whatsapp) que o meu telemóvel é bipolar.

Nesta foto o Célio Santiago está a ligar o gerador porque faltou a luz, eram 17h30. No entanto o resort fica no meio de duas ligações: falhou a de cima em direção ao Monte Café, mas a que vai para baixo em direção à cidade, mantém-se a funcionar. O Célio chegou a ligar o gerador (que faz muito barulho), mas desligou-o logo porque mudou o cabo para a ligação de baixo. Esta é boa também.

O meu quarto. Enquanto tomo banho fica assim tudo escancarado. Aliás, a casa e o quarto ficam abertos durante todo o dia. Eu não fecho à chave o quarto, até porque a Virgínia vem fazer a cama e mudar frequentemente os lençóis.

Continuo sem adesivos. Já fui a duas farmácias, na Trindade e em Guadalupe, e nenhuma tinha. Só deve haver na cidade, está visto. Voltei a tomar banho com estes, e não posso tirá-los. Já estão a descolar-se.

Preciso de voltar a Morro Peixe para fazer um passeio de barco e ver golfinhos e baleias. Tem de ser logo bem cedo, às 6 ou 7 da manhã lá. Perguntei ao Arcelino (das crónicas 38 e 39) quanto leva para transportar-me de carro até Morro Peixe. 30€ (750 dobras). O Arcelino é guia turístico e fala-me em euros, nem fala em dobras. Mas eu começo a funcionar melhor com dobras, por aqui, já estou a habituar-me aos valores e aos cálculos. Ora se eu paguei 330 dobras, hoje, para me trazerem a Belém desde Morro Peixe, ida e volta seriam 660 dobras. O preço que o Arcelino me pediu pelo carro (750 dobras) é perfeitamente justo. Mas é muito caro. Relembro que tenho 29 dias de férias. Alojamento, comida e agora transporte, durante 29 dias, sai demasiado caro. Não me interessa gastar tanto dinheiro em transportes, tendo uma bicicleta.

O Célio já me tinha indicado que posso apanhar um táxi partilhado na rua, dividindo assim a despesa entre várias pessoas, mas eu não gosto de apanhar táxis sozinha. Tenho algum receio. Hoje foi uma verdadeira aventura. Neste caso de Morro Peixe seria um táxi desde o hotel até à cidade de São Tomé, e depois outro até Guadalupe. E depois uma mota até Morro Peixe. Sim, porque os táxis partilhados funcionam como autocarros: têm um percurso fixo e não saem dele. Têm inclusivamente paragens fixas também, para apanhá-los. Depois no caminho podem fazer pequenos desvios aqui e ali, para levarem as pessoas até mesmo à porta da sua casa, mas a primeira paragem é num local fixo. E vão 5 pessoas num carro: quatro atrás, e uma à frente. Este lugar da frente é o melhor, claro. Também existem as carrinhas, que levam mais pessoas, mas aqui em Belém só há carros.

Deixo a nota, nesta despedida do 14º dia, que quase todos os dias tenho sms automáticos a pedir para eu ligar. Os chamados “Call Me”. Agora foi o Pajó, da moto-carrinha. Mas eu já gastei 50 dobras no Príncipe e carreguei outras 50, ao chegar a São Tomé. Foi o Célio Santiago quem mas carregou, no portátil. Eu dei-lhe o dinheiro, e ele carregou. Se eu me ponho a ligar a toda a gente que não quer gastar dinheiro a ligar-me, estou tramada. Estes tarifários existentes em São Tomé e Príncipe são maus. As pessoas andam sempre a conter-se para não gastar dinheiro. Conforme referi na crónica 3, existem duas companhias em São Tomé e Príncipe: a Unitel, que é a mais recente, e a CST, Companhia Santomense de Telecomunicações. O sistema que existe na Europa, de pagarmos uma mensalidade fixa que inclui chamadas (praticamente ilimitadas) para todas as redes, não existe aqui. Vim a saber que a CST tem um tarifário que inclui 60 minutos por dia de chamadas, mas apenas dentro da mesma rede. Ora há muita gente que tem Unitel. A Unitel não cheguei a saber se tem esse tarifário ilimitado, mas aparentemente não tem, senão as pessoas mudariam para ele, naturalmente. A guerra entre as operadoras aqui em São Tomé e Príncipe é feia e prejudica a população.

Ao final do dia comi este maracujá gigante, que entretanto amadureceu, três bananas-maçã e leite. E deitei-me tarde, quase às 9, depois de selecionar as fotografias, fazer o backup e preparar tudo para amanhã. Tendo em conta que irei levantar-me às quatro, 21h é muito tarde. Convém dormir 8h.

045 - 15º Dia, Praia das Pombas e Cidade de São Tomé

Hoje tenho necessariamente que ir à cidade de São Tomé, para ver se encontro uma farmácia com os adesivos para os pés. Portanto defini um percurso para aquelas bandas. Em Timor deixei a cidade de Díli para o fim, e fiz o mesmo na China – Pequim ficou para o fim – mas aqui vou ter de ser mais rápida. Vou já meter-me no meio da confusão duma cidade africana. Não posso dizer que a vontade seja muita, preferia ir para o meio da floresta, mas adesivos a quanto obrigam. Começarei por visitar a Praia das Pombas, perto da cidade. Foi o que vi no mapa. Não faço ideia que praia é esta. O GPS indica-me que são 12 km com 290 metros de subida acumulada.

Despertador às 4 (mas acordei de livre vontade uns minutos antes! O meu organismo já está a habituar-se a este esquema), e banquete às 4h30. Não há luz, e água há apenas um fiozinho. Eu já venho com a escola toda do Príncipe, pelo que imediatamente fui buscar a luz portátil da máquina fotográfica para iluminar o quarto (e agora a cozinha e a sala). Ambas – luz e água voltaram às 5h. (5 da manhã).

Partida às 5h30. É impressão minha ou cada vez está mais escuro? Quando cheguei ao Príncipe amanhecia às 5h30, mas 15 dias depois está a amanhecer um pouco mais tarde.
Em frente está a casa azul do guarda do resort, que agora não está cá, não é preciso, porque está o Célio Santiago a pernoitar aqui, para tomar conta.
Ouve-se um rádio em altos berros. Desgraçados dos que querem dormir até mais tarde. Enfim, dormir até às 7 ou 8 da manhã não me parece nada de extraordinário, pois não? Mas aqui têm que levar com um rádio logo às 5 e meia da manhã, que é para aprenderem.

Este rapaz brinca com uma cadelinha na beira da estrada. O rapaz chama-se Roney e cadelinha é a Laili.

Escola Básica de Caixão Grande.

Falei uns minutos aqui com o Orlando. Diz-me que gostava de ir conhecer Portugal, que tem duas sobrinhas lá. “Vai com deus, leve-leve” – despediu-se de mim.

“Vai bem”, despediram-se elas de mim. Eu parei uns minutos, também, na berma da estrada.

A dona desta quitanda não quis aparecer na foto, fugiu. “Vai bem”, despediu-se igualmente de mim.

A placa “Oficina de Escultores” chama-me à atenção e eu paro. À porta está o escultor em pessoa, virei a saber, o qual se chama Osório, e que me convidou a entrar e a visitar a oficina. Fui com muito gosto.

E o Osório também é uma celebridade na sua área – o artesanato. Pelo que percebi, “Osório” é o nome artístico, pois aqui em São Tomé e Príncipe é Florentino Bengala. (Curiosamente acho o seu nome verdadeiro mais artístico!)
O Osório esteve em Lisboa e em Santo Tirso a participar em feiras internacionais de artesanato. Também esteve em Estremoz, Borba (gostou muito, tem boa comida, disse-me), Fogueteiro, Porto. A Câmara Municipal aqui do distrito de Me-Zochi manda-o para estas feiras, trata de tudo. O Osório viveu um ano em Portugal, em casa de uma irmã chamada Rute. Agora ela está em Londres. Tem uma loja em Água Izé, na Boca do Inferno (lá chegarei!) onde o filho Carlos vende as peças.

Espinafres.

Estou a menos de 1 km da Praia das Pombas, e a passar numa zona que se chama “Voz da América”. Está mesmo assim, no mapa. Indica “(VOA, IBB Transmitter Site”). Procurando na internet, encontra-se logo informação (passo a citar):

A VOA [Voice of America] é a maior organização internacional de notícias multimédia dos EUA, fornecendo conteúdo em mais de 45 idiomas para públicos com acesso limitado ou nenhum acesso a uma imprensa livre. Criada em 1942, a VOA está empenhada numa cobertura abrangente e independente, e em dizer a verdade ao público. A VOA é totalmente financiada pelos contribuintes dos EUA como parte da Agência dos EUA para Mídia Global.
A missão e a independência editorial da VOA são garantidas por leis que protegem os jornalistas da VOA contra influências, pressões ou retaliações de funcionários do governo ou políticos.

Em 1976, o presidente Gerald R. Ford assinou a Carta da VOA, que afirma:

  1. VOA servirá como uma fonte confiável e autorizada de notícias. As notícias da VOA serão precisas, objetivas e abrangentes.
  1. A VOA representará a América, e não um único segmento da sociedade americana, e, portanto, apresentará uma visão equilibrada e abrangente de importantes instituições e pensamento americanos.
  1. A VOA apresentará as políticas dos Estados Unidos com clareza e eficácia, e também apresentará discussões e opiniões responsáveis sobre essas políticas.

VOA – O Serviço em Português para África teve seu início em 1976 e, desde então, transmite diariamente. Atualmente transmite uma hora e meia de notícias e informação para os seus ouvintes. O quadro do serviço é composto por jornalistas da mais alta qualidade. Também contamos com correspondentes em Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

O Serviço em Português para África, ao serviço de milhões de ouvintes, convida a sua participação no programa “A Sua Carta” (Espaço do Ouvinte). Basta enviar uma carta, ou e-mail para os endereços anotados mais adiante. O Serviço em Português para África trazendo o melhor para si!¹

O GPS está um pouco vago. Está a mandar-me para a esquerda, mas ali não há nada. Não posso saltar as grades da Voz da América! Ainda os americanos pensam que sou uma espiã de bicicleta… Pelo que irei seguir esta estrada até lá acima.

A praia é esta! Mas o GPS manda-me outra vez para a Voz da América. Mau. Terei que saltar as grades ou quê? No Alentejo já saltei muitas (eu e a bicicleta), não me digam que aqui em São Tomé e Príncipe tenho que saltar também. E não estou a gostar nada desta estrada alcatroada (e bem alcatroada), pois os carros passam a toda a velocidade rente a mim. Eu tenho uma bicicleta de mato, com pneus largos e pesados, para andar no meio do mato! Não quero saber de estradas alcatroadas com os carros a passarem a toda a velocidade rente a mim!

Então afinal parece que é este o caminho (qual caminho, isto não é caminho nenhum) aqui ao lado das grades, à esquerda. Se é que isto tem saída. Eu não vou meter-me por aqui!
Do lado direito desta estrada há um centro de saúde, vou lá sondar sobre esta praia.

Perguntei a esta rapariga se existe ali uma praia. Respondeu-me que sim. Perguntei-lhe se não quer ir lá comigo, mostrar-ma. Ela exclamou que não, que tem medo!
Bom, vou desistir desta praia das Pombas por ser excessivamente deserta e rente a uma estrada perigosa. Não gosto de estar aqui e vou seguir caminho. Tirei-lhe uma foto de cima, já chega, adeus.

São 7h30, tenho 13 km feitos. Vou para a cidade de São Tomé, em direção ao Museu Nacional. O GPS diz-me que agora são 7 km, quase tudo a direito. Bute nessa, Vanessa!


¹ “Sobre Nós” (s.d.). VOA. Página consultada a 27 Outubro 2019,
https://www.voaportugues.com/sobre-nos

046 - Pela Marginal da Cidade de São Tomé

Parto da praia das Pombas (ou mais exatamente da Estrada Nacional nº 2), passo novamente na Voz da América, depois meto pela Estrada de Pantufo e pela Marginal, até chegar ao museu.
A seguir tenho outra missão: encontrar uma farmácia que venda adesivos!!

Chama-se Geralda, diz-me. Está a vender jacas e eu tinha de parar para tirar uma foto, claro. A Geralda diz-me que passei por si hoje de manhã, em Riba Mato, e que cumprimentei-a inclusivamente. Que engraçado. Eu cumprimento toda a gente, não consigo fixar as pessoas.

A Geralda mostra-me que uma jaca não pesa muito. Isto porque eu quero uma, mas agora não me dá jeito ir carregada na bicicleta. Terá de ficar para outra altura!

Repare-se na pintura na parede, de 22 de Março de 2008, o Dia Mundial da Água: “Faz da água e do saneamento o teu mundo”.

Interessante, isto. Existem atuns com um pico espetado, aparentemente de plástico, que contém um código! Quem pescar um deste atuns, recebe 250 dobras! E não é só o pescador, é a tripulação toda do barco!

UCCLA é a União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa. A UCCLA desenvolve ações de intercâmbio e cooperação, de forma a contribuir para o desenvolvimento e o bem-estar das suas populações. Conforme indicado no seu website: “Visa fomentar o entendimento, a cooperação e o desenvolvimento económico entre os seus municípios membro.  A UCCLA foi precursora da CPLP. Foi a primeira instituição de parceria público-privada votada à cooperação para o desenvolvimento no seio da lusofonia.”¹
Da UCCLA fazem parte cidades em Portugal, Angola, Guiné-Bissau, Brasil, Timor-Leste, Moçambique, China (Macau), Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Existem duas cidades espanholas – Olivença e Santiago de Compostela, que são “Membros Observadores”.

Vou fazer uma pausa neste bar. São 8h30, tenho 20 km. O bar agora está encerrado, e vou aproveitar para comer umas bolachinhas com recheio de chocolate, que trouxe de Lisboa. Já viajaram muito, estas bolachas. Vão morrer agora neste bar. (É um bocado violento, isto, não é? Vou matá-las!)

Esta senhora anda a tratar das limpezas. Deixa-me estar aqui, não me diz nada. Quem lhe diz sou eu, que a cumprimento e peço-lhe para tirar-me uma foto. Ensinei-a a agarrar na câmera, como é hábito, expliquei-lhe onde se espreita e onde se clica.

Nasceu fotógrafa, esta senhora, e ainda não sabe. Esta foto é particularmente difícil porque está contra o sol.

Apesar das aparências, não se está muito bem aqui devido à estrada principal. O barulho constante dos carros é maçador. Não há sossego. Vou-me embora. Já matei as bolachas.

O palácio do congresso.

O hotel Pestana à direita. Esta é a Avenida das Nações Unidas.

A embaixada de Portugal. Parei para fotografar, claro. São 9h e existem muitos motards parados à porta, não sei se serão táxis. Um deles diz-me: “Estás linda!”. “Estou linda?”, perguntei-lhe de volta, enquanto focava a câmera na embaixada. Ele se calhar não estava à espera que eu lhe respondesse. “Muito obrigada”, acrescentei. E tirei a fotografia à embaixada. E ao ir-me embora, ele riu-se e disse “Boa, miúda!”. Eu ri-me também. (Esta é boa. O uso do verbo foi curioso. Eu estou linda! Não sou! Só estarei agora?)

A chegar ao meu segundo destino de hoje: o Museu Nacional, aquele edifício amarelo lá à frente. São 9h10.


¹ “UCCLA – Objetivos” (s.d.). UCCLA. Página consultada a 29 Outubro 2019,
https://www.uccla.pt/objetivos

047 - Pelas Ruas da Cidade de São Tomé

A chegar ao Forte de São Sebastião, onde é hoje o Museu Nacional de São Tomé e Príncipe.

As estátuas de João de Santarém, Pêro Escobar e João de Paiva em frente à fortaleza. São os nomes ligados ao descobrimento da ilha de São Tomé, em 1470, e da ilha do Príncipe, em 1471.

Este é o Dimas, o jardineiro do museu. Efetivamente venho a segui-lo desde a última crónica. Na última foto da crónica anterior ele já se vê ao longe. Vinha na minha direção e abordou-me. Até mete respeito, com uma enxada ao ombro. O que quererá ele? Pelo sim, pelo não, mantenho-me afastada da enxada 🙂 Ora afinal o Dimas é de uma enorme gentileza e vai ajudar-me. Ajudar-me em quê?, podem perguntar. Em que é que eu preciso de ajuda?

A minha prioridade aqui na cidade é encontrar uma farmácia que venda adesivos para pôr pensos nos pés, de forma a proteger as esfoladelas que fiz na praia do Bom Bom, no Príncipe (crónica 17). Já se passou tanto tempo que até é melhor eu recordar o que se passa: molhei os pés e as sandálias na praia, e depois fui fazer uma caminhada de 2,5 km. Resultado: com o surrafar das sandálias molhadas, e com a areia, acabou por fazer uma esfoladela em cada pé. Com a posterior subida ao Pico do Príncipe (10h de caminhada) as esfoladelas transformaram-se em feridas abertas. Entretanto já estão a sarar novamente, mas têm que estar protegidas com pensos e compressas. Já fui a duas farmácias aqui na ilha de São Tomé – Trindade e Guadalupe – e nenhuma tinha adesivos. Portanto, a minha urgência, antes de visitar seja o que for, é encontrar os adesivos.
E o Dimas, que caminhava na minha direção não sei para onde, resolveu fazer um desvio no seu caminho e levar-me à farmácia. Sim, porque a cidade de São Tomé já é relativamente grande, e percebi depois que não seria fácil chegar à farmácia sozinha. Teria que ir perguntando.
Tirei esta foto já a caminho. Eu com a bicicleta pela mão, a caminhar ao lado do Dimas e da sua enxada.

A Catedral de São Tomé, construída pelos portugueses no século XVI.

Pelo caminho encontrei a Aleida! (Das crónicas 33 e 34). Como o mundo é pequeno. Ela ia acompanhada dumas pessoas, e trocámos apenas meia dúzia de palavras. Disse-me que aqui em São Tomé já está muito calor, como ela tinha dito que estaria. Tinha-me dito isto quando estávamos com frio e a chover torrencialmente, no aeroporto do Príncipe. “Ótimo, estou muito contente!” – respondi-lhe eu, visivelmente satisfeita, e rimo-nos as duas.

O meu amigo Dimas, ao fim de 20 minutos a caminharmos, deixou-me finalmente na Delegação de Saúde, onde existe uma farmácia. Pedi-lhe para segurar na bicicleta enquanto lhe tirava uma foto. Convidou-me para almoçar Calulu no domingo com a sua família. (Hoje é sexta-feira). Calulu é um prato típico de São Tomé, feito à base de legumes. Disse-me para eu deixar o meu número de telemóvel com a funcionária do museu. Eu perguntei-lhe porque é que não anota já. Porque o dele caiu à água, não tem telemóvel, vai comprar hoje um novo! Bom, o meu também está a sofrer os males da água, mas ainda funciona!!, respondi-lhe. Ilhas tropicais nem sempre cooperam com telemóveis… isto é tudo muito aquático por aqui.

A farmácia.

Há adesivos! Finalmente tenho adesivos! A senhora farmacêutica mostrou-me uma caixa cheia deles. Quantos quer?, perguntou-me. Até respirei de alívio. Cada um 25 dobras; comprei três, com uma nota de cem, e dei as 25 dobras de troco ao Dimas, que não queria aceitar, mas eu agradeci-lhe a paciência e os vinte minutos de caminhada. E fiquei de dar o meu número de telemóvel à funcionária do museu. “Não esquece!” – pediu-me. Não esqueço, não, eu quero experimentar o calulu!

Entretanto o Dimas foi à sua vida, perguntou-me se eu sabia o caminho de volta até ao museu (agora é que irei visitar o museu), eu respondi que sim, que me orientaria (além de que tenho o GPS. Por curiosidade deixo a nota de que “farmácia” não aparecia nenhuma, no GPS, pois eu testei logo de manhã). E vou pedalando rente ao mar.

A EMEL tem uma irmã gémea aqui em São Tomé!!!

Moto-táxis.

Amendoins nas garrafas.

Ainda tenho outra coisa para comprar: pasta de dentes! A minha já está a acabar-se. Mas esta loja é grossista, e só vendem packs de seis. Mandaram-me para o supermercado ao lado.

“Quero uma foto!” – exclamou ele. Eu olhei, surpreendida com este pedido inesperado. Mas ele afinal não me tinha visto, e estava a dizer isto por causa do seu trabalho. Ele precisava de uma foto qualquer ligada ao seu trabalho e ao que estava a fazer. Quando me viu, ficou ele próprio surpreendido com a coincidência, e rimo-nos os dois. Eu apareço de máquina fotográfica ao ombro, e ele exclama “Quero uma foto!”, até a mim me surpreendeu tamanha prontidão para tirar fotos… Eu soltei uma gargalhada. E acabei mesmo por tirar-lhe uma foto.

Paguei 10 dobras por uma garrafa de água de 50 ml (0,40€) e 25 dobras por uma pasta de dentes Colgate (1€).

Este é o interior da Catedral de São Tomé. Quando ia para a farmácia, não quis fazer esperar o Dimas, que queria ele próprio despachar-se e já estava a fazer-me um favor, quanto mais esperar que eu visitasse a Catedral.

O Palácio Presidencial – residência oficial do presidente da república de São Tomé e Príncipe. Este edifício foi construído no tempo do colonialismo português, e alojava no passado o governador da colónia.

Este rapaz anda a vender pulseiras e artesanato pelas ruas. Abordou-me. Será que tem pulseiras para homem? O meu namorado encomendou-me uma. Já tenho uma feita no Príncipe, mas não sei se ele gostará. Mais vale levar-lhe duas.

Comprei esta jaca de São Tomé com um íman para o frigorífico, 50 dobras.

E como não tem pulseiras, vai desfazer um colar de sementes e vai fazer uma pulseira aqui no momento. 50 dobras também.

Chama-se Leciley da Fonseca. Tem Facebook, disse-me, mas eu não o encontro com este nome. Deve ter uma alcunha, se calhar. Deu-me o resto das sementes com que fez as pulseiras. Uma era pequena, seria para mim, mas eu não quis gastar mais 50 dobras, pelo que não a trouxe.

Mais outra pulseira para o meu namorado. Infelizmente também não gostou dela, pelo que agora tenho três pulseiras, a minha e as duas dele. E eu já tenho a mão branca de usar luvas para a bicicleta.

048 - Visita ao Museu Nacional & Almoço

São 11h e cheguei novamente ao Museu Nacional, no Forte de São Sebastião. Comi uma barra de cereais. Aqui no museu só me pediram 50 dobras no final. Eu nem sabia que se pagava, fiz a visita toda pensando que era grátis.

No interior do forte, o acervo do Museu Nacional inclui marcas da história e da cultura do país, dominado pelos colonos portugueses durante 500 anos. Um exemplo é esta sala de jantar de uma roça, simbolizando a forma como viviam os antigos patrões das plantações de cacau e café, base da economia são-tomense até à independência. A loiça e talheres apresentam o brasão da roça.¹

A Roça Boa Entrada, onde eu passei na crónica 41.

O Forte de São Sebastião foi construído no contexto de uma economia de plantação de cana-de-açúcar, entre 1566 e 1575, tendo sido consideravelmente reformulado em 1579. Foi ocupado pelos holandeses entre 1641 e 1648. No século XX foi adaptado para Comando de Defesa Marítima em 1960, e em 1975, finalmente, logo após a independência, foi metamorfoseado em museu nacional de São Tomé e Príncipe.²

Estes e muito mais detalhes podem ser vistos num documento do geógrafo João Sarmento, integrado  nas “Actas do Colóquio Internacional São Tomé e Príncipe numa perspectiva interdisciplinar, diacrónica e sincrónica”, as quais que já citei na crónica 22, a propósito de outro tema. O link deste documento sobre o Forte de São Sebastião encontra-se na bibliografia no final desta página.

O farol foi construído em 1866.

Tinha que empoleirar-me no farol, pois claro. As próximas três fotos foram tiradas aqui de cima.

Andava eu entretida a fotografar tudo, quando aparece o Mayer. Pelo que percebi trabalha ali em baixo na roulotte. E a partir de agora vamos andar entretidos a tirar fotos. Eu mostro-lhe como quero as fotos, e tiro-lhe uma primeiro. Aproveito para regular os parâmetros da câmera. E depois o Mayer vê, e tira-me outra igual. Mas depois eu acabo por manter as fotos todas, está visto. Não apago nenhuma. Pelo que as fotos seguintes estão todas em duplicado 🙂

As marcas da floresta do Príncipe mantêm-se na minha perna.

Agora é o Mayer que caminha comigo pelas ruas de São Tomé, desta vez para mostrar-me onde fica um restaurante bom e barato, diz-me. Fui eu que lhe perguntei onde é que existe um. “No Parque da Cidade”, respondeu-me. E fez questão de acompanhar-me. Estes santomenses são uma simpatia. Aqui é a entrada do Parque, já depois de caminharmos dez minutos, e aqui nos despedimos. O restaurante fica ali à frente.
Pelo caminho contou-me que tem 22 anos e completou o 11º ano com média de 12. Precisa de ter média de 16 no 12º ano para ter direito a uma bolsa e entrar na universidade. O seu Facebook é Mayer Neto e tem amigos em Lisboa, Madeira, Açores, e uma série de outras localidades. Quer ir para Cascais tirar o curso de Hotelaria. E vive em São Nicolau, perto do museu Almada Negreiros, onde eu estive nas crónicas 37 e 39.

Escolhi bife com banana frita, 150 dobras (6€). É a segunda vez que como carne, em São Tomé e Príncipe. A primeira foi no Príncipe, no restaurante da Kita, onde comi entrecosto.
Na televisão passa uma sessão do parlamento de São Tomé, muitíssimo enfadonha, com os deputados a falarem em alto e bom som. É uma boa companhia num restaurante, sem dúvida.

É meio-dia. Tenho 27,5 km. O Mayer disse-me que não vou conseguir subir até Belém por causa da moleza depois de almoço. Até me fez rir. Efetivamente a subida é bastante íngreme e eu não gosto de exercício depois de almoço, com a barriga cheia, mas hoje eu subirei os 9 km a pé, calmamente, respondi-lhe.

Ficam todos surpreendidos quando eu digo que trouxe a bicicleta de Lisboa. O Mayer inclusive, naturalmente. Expliquei-lhe que veio desmontada e que tive aulas com um mecânico de bicicletas para aprender a desmontar e montar. Eles riem-se. O rapaz das pulseiras – o Leciley da Fonseca, da crónica de ontem – perguntou-me se eu não tinha ido a nenhuma oficina montar a bicicleta, quando cheguei a São Tomé. Eu respondi que não, que fiz tudo sozinha.

Esperem lá, que tenho aqui um cliente. Também chegaram mais pessoas, ficaram outras três mesas ocupadas por duas pessoas cada.

Mas este está bonito e bem tratadinho. Mesmo assim levou com uns bocadinhos de bife e banana frita. Comeu tudo, não se fez rogado.

Acho que o Mayer tinha razão. Eu consigo lá subir 9 km agora. De barriga cheia, com a moleza depois de almoço. São 13h06. Paguei no restaurante e andei devarinho aqui no parque, a ponderar no que fazer. Telefonar ao Fingui, o taxista cujo contacto me foi dado pelo Célio Santiago?

E eis que aparece o Mayke Jackson, o guia turístico do qual já falei na crónica 39. Surgiu de repente, inesperadamente. Está de passagem e parou para cumprimentar-me. Aproveitou e brincou com a minha bicicleta. Será que tem disponibilidade para levar-me a Belém?

Combinei com o Mayke levar-me ao hotel por cem dobras, na sua magnífica pickup. Efetivamente o Mayke ia ser o meu guia em São Tomé, e chegou a apresesentar-me um programa e preços, mas eu entretanto desisti de ter um carro de apoio, como é hábito noutras viagens minhas, pelo facto das ilhas serem pequenas e de eu querer poupar dinheiro. Depois de almoço, porém, apercebo-me que não gosto mesmo de pedalar. Já ontem não quis pedalar também e regressei de moto-táxi ao hotel. O Mayke sugere-me arranjar um chá de folhas de micocó para eu conseguir regressar sem ajuda de táxis, o que me fez soltar uma gargalhada. Pelos vistos o micocó é uma planta de São Tomé e Príncipe que dá energia.

São 13h30 e o Mayke deixa-me no resort, em Belém. Ainda conversámos um pouco: o Mayke falou-me de São Tomé e Príncipe, falou-me um pouco de si, sugeriu-me alguns destinos para eu fazer aqui na ilha. Diz que o “leve-leve” não irá durar sempre, que é preciso apostar no turismo, na pesca e na agricultura para desenvolver o país, que a mentalidade de ter muitos filhos para ajudar nem sempre é boa… O Mayke tem 21 irmãos pelo pai, que tem 5 mulheres. Tem irmãos em vários países, inclusive Portugal, França, Inglaterra. Nasceu em Agostinho Neto (lá chegarei, numa crónica futura), e agora sente pena ao ver tudo a ruir.
Recomendou-me Uba Budo, Roça Bombaim e Cascata Vale do Rio. Eu registei, para não me esquecer.

Apercebo-me que o tempo vai passar rapidamente e que eu tenho muitas coisas para ver.
Hoje fiz 29,2 km bicicleta, e 9 km de carro.
O telemóvel não falhou.
Fiz dois telefonemas ao Ju do museu de Morro Peixe, e ao Pajó da moto-táxi, para combinar o passeio de canoa amanhã, para avistar golfinhos e baleias. Está tudo ok, a canoa espera-me e o Pajó vem buscar-me às 5h30.
Ao final da tarde comi bananas, nozes, leite.
Finalmente tirei os pensos dos pés para tomar banho. Há 3 dias que não via as feridas. Já quase que não tenho nada, estão quase fechadas.

E falhei numa coisa, hoje: esqueci-me completamente de deixar o meu número de telefone à funcionária do Museu, para combinar o calulu com o Dimas e a sua família, no domingo.


¹ Ramusel, Graça (2018, 12 Novembro) “São Sebastião: A fortaleza que conta a história de São Tomé”. DW – Deutsche Welle. Página consultada a 3 Novembro 2019,
<https://www.dw.com/pt-002/s%C3%A3o-sebasti%C3%A3o-a-fortaleza-que-conta-a-hist%C3%B3ria-de-s%C3%A3o-tom%C3%A9/g-46225031>

² Sarmento, João (2012) “Paisagem e memória em São Tomé e Príncipe: o Forte de São Sebastião e Fernão Dias” in Actas do Colóquio Internacional São Tomé e Príncipe numa perspectiva interdisciplinar, diacrónica e sincrónica”, pp 433-453, Lisboa. Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), Centro de Estudos Africanos (CEA-IUL), ISBN: 978-989-732-089-7 Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT), ISBN: 978-989-742-002-3. Página consultada a 3 Novembro 2019,
<https://repositorio.iscte-iul.pt/bitstream/10071/3916/1/Sarmento_STP_305_315.pdf>

049 - 16º Dia, de Mota a Caminho de Morro Peixe & Passeio de Barco

Despertador para as 4h, no entanto acordei poucos minutos antes. Já estou a habituar-me a este ritmo. E antes de tudo, em primeiro lugar, há que pôr o repelente de insetos. Atacam ao amanhecer, precisamente quando ando a despachar-me de luz acesa. Esta zona é fresca, porém. Recordo com estou a dormir com uma camisola de manga comprida por cima duma tshirt. Todavia irei percorrer a ilha, logo aos primeiros raios de luz, pelo que tenho de estar protegida, independentemente desta zona ser fresca ou não.

O Pajó vem buscar-me às 5h30, por 300 dobras. Vai levar-me a Morro Peixe, onde me espera uma canoa para avistar golfinhos e baleias. Ele próprio teve de acordar cedo como eu, pois veio de lá, buscar-me. É quase uma hora de caminho. Eu pensava que ele vinha na sua moto-carrinha, mas afinal veio nesta moto. Indicou-me que é dum amigo seu, que é emprestada, e que teria de pagar a ele também, pelo que o meu preço agora é mais caro. Não me recordo quanto, talvez mais 150 dobras, que era o que teria de dar ao amigo. Eu recusei. Cancelamos o passeio. Paciência, não vou andar de barco, fica para outro dia. Mas o Pajó disse que íamos na mesma, pelo preço combinado.

A polícia mandou-nos parar, e eu pedi para tirar uma fotografia, mas o agente riu-se e não deixou. Que pena. Era uma operação stop para verificação de documentos. O Pajó teve de mostrar a carta de condução e os documentos da mota. Tinha tudo em ordem e prosseguimos. A mim não me pediram nada, mas eu tenho o meu passaporte comigo, se necessário.

Este centro comercial só tem lojas chinesas, pelo que me disse o Pajó.

O Pajó conta-me que tem um filho de 3 anos, e que esteve uma semana no Príncipe há 4 meses atrás, com um amigo francês que mora aqui em São Tomé. Conta-me que tem duas casas, uma em Guadalupe, outra na praia das Conchas. Tem uma oficina e mesas na praia onde cozinha para os turistas. És um rapaz com uma vida de sucesso!, disse-lhe eu.

Tudo a fazer exercício, assim é que é! São 6 da manhã!

Chegámos às 6h25 a Morro Peixe.

À direita está o Ju, o guia do museu, que organizou este meu passeio de canoa com um pescador, e ao centro está a Marluce, sua irmã, e com a qual eu já me tinha cruzado anteontem, ao ir para a Praia dos Tamarindos. Foi ela que me abordou nesse dia, na estrada, dizendo-me para ter cuidado. A Marluce irá comigo neste passeio de barco. E o Ju diz-me que afinal não é uma canoa, mas que é um barco maior, com motor. Eu não fiquei contente. Não gosto de barcos grandes com motor e barulhentos, gostos de canoas pequenas e silenciosas. O barco é aquele onde o Ju tem a mão. Mas eles convencem-me que de canoa nunca mais nos despacharíamos, que é muito longe e que levaria muito tempo a remar. Acedo.

O capitão é o rapaz de calções vermelhos. Chama-se Hernâni.

Aí vamos nós os três. O barquinho até é pequenino. E eu ainda estou com um ar ensonado! Partimos às 6h40, sem demoras. Ainda fui à casa de banho do museu, primeiro.

Creio que já toda a gente terá visto golfinhos ao vivo, e eu própria vi sei lá quantas vezes, mas é sempre uma emoção. Ver estes animais no seu habitat natural, a saltarem, livres, contentes, é sempre uma emoção.

Durante esta viagem a São Tomé e Príncipe fiz dois vídeos com o smartphone. Os dois aqui, neste passeio de barco, pois é a única forma que tenho de demonstrar melhor o silêncio. A tranquilidade. Segue o primeiro: Vídeo Morro Peixe I

O grande objetivo deste passeio é ver baleias. Será muito difícil, mas nunca se sabe. Elas aparecem mais em agosto, porém em julho já começam a aparecer também, como diz no cartaz do museu (crónica 43). O Hernâni decide então afastar-se um pouco mais em direção ao alto-mar.

E eis que avistamos ao longe o repuxo de uma. Eu e a Marluce soltámos um grito. O Hernâni não viu, estava a olhar para outro lado. Um tremendo repuxo no mar, duma baleia a respirar à superfície, lá ao longe.

050 - Passeio de Barco para Avistar Golfinhos e Baleias

Voltámos a ver o repuxo da baleia mais duas vezes, muito ao longe. O Hernâni levou o barco na sua direção, a toda a velocidade, mas perdemo-la de vista. Deve ter ido para o fundo do mar e terá seguido o seu caminho. Que emoção, só ver os repuxos da baleia. Seria grande, uma baleia de bossa, ou um cachalote, os quais podem chegar aos 16 ou 18 metros de comprimento, respetivamente. Eu até pensei que ela ainda viraria o nosso barco, mesmo sem querer, se andasse perto de nós. Só as ondas que ela provoca, fariam abanar o nosso pequenino barquinho garantidamente.
Eu vi baleias enormes e de bem perto, na Patagónia (Argentina). Ainda tenho que publicar essas crónicas.

Pela segunda vez vimos golfinhos!

Connosco são 15 barcos, todos a falarem entre si. O som propaga-se espantosamente pelo mar, parece que estamos sentados numa sala a conversar. Então queriam saber se eu estou sozinha, onde é que está o marido. E eu respondo-lhes que o marido está em Portugal, que ficou a trabalhar. Perguntam-me se não quero outro aqui. Gargalhada geral. Eu respondo que não posso. Outro pergunta-me se não quero levá-lo para Portugal. Riem-se todos, gozam, e com a Marluce também. Metem-se com ela também. Deixo o segundo e último vídeo que fiz nesta viagem a São Tomé e Príncipe, com 51 segundos, que mostra um pouco desta conversa: Vídeo Morro Peixe II.

Não sei o que se terá passado, não percebi. Aparentemente este peixe caiu dum barco, não sei. O pescador pediu ao Hernâni para lho dar.

Damos o passeio por terminado. Ao regressar a Morro Peixe passamos por muitas vivendas. São as casas de ex-presidentes, ex-primeiro-ministros e ministras, e de empresários também, dizem-me.

Estas árvores são um espanto. O seu nome científico é Adansonia digitata. São os imbondeiros, uma árvore que existe no continente africano, com uma longevidade enorme. A mais velha a morrer, no Zimbabué, viveu cerca de 2.500 anos antes de entrar em colapso ao longo de 2010 e 2011. As outras três árvores que morreram, incluindo uma no Botsuana, tinham 1.250 a 1.500 anos de idade.¹
Ao longo do Zambeze, as tribos acreditam que os imbondeiros existiam ao contrário, a parte das folhas eram as raízes, mas que eram orgulhosos demais. Os deuses ficaram zangados, arrancaram-nos e atiraram-nos de volta ao chão de cabeça para baixo.²

Infelizmente não ficou bem focada, esta foto. Com o barco em andamento e a balançar fortemente nem reparei, devia ter tirado outra com maior velocidade da câmera, para congelar a imagem. Mas mantive-a, porque foi a única que tirei. (Esta foto foi tirada a 1/320 sec., f/6.3, 75 mm, ISO 100). De qualquer forma irei ter a oportunidade de fotografar novamente este tipo de árvores, daqui a uns dias.

Foto retirada de Wikipedia.

O fruto do imbondeiro pode ter até 25 centímetros de comprimento, tem no seu interior um miolo seco e comestível, desfaz-se facilmente na boca e o seu sabor é agridoce. Este fruto é rico em vitaminas e minerais.
Ao dissolver-se o fruto em água a ferver obtém-se sumo, que, depois de arrefecido, é tomado como uma bebida fresca com um sabor muito apreciado em alguns países.
A sua polpa branca, depois de seca, é utilizada para alimentação, em tempos de escassez de comida; também é referida como cura para a malária.
Tem duas vezes mais cálcio que o leite e é rico em anti-oxidantes, ferro e potássio, e tem seis vezes mais vitamina C do que uma laranja. As folhas podem ser comidas e as sementes produzem óleo comestível.
Em 2008, a União Europeia aprovou a utilização e consumo de fruto de Imbondeiro como ingrediente em barras de cereais.¹

Algumas pessoas acreditam que as mulheres que vivem em kraals, onde os imbondeiros são abundantes, terão mais filhos. Isso é cientificamente plausível, pois essas mulheres terão melhor acesso às suas folhas e frutos ricos em vitaminas, para complementar uma dieta deficiente em vitaminas.²

Um antigo hotel, agora encerrado. Aparentemente o dono morreu e os filhos ainda não pegaram nisto, contou-me o Hernâni.

Repare-se na palmeira Ravenala, ao centro, também conhecida como árvore-do-viajante, com as folhas dispostas em forma de leque. É uma árvore tropical que não tolera frio.

Creio que esta é a praia Guegue, mesmo ao lado de Morro Peixe.

A povoação de Morro Peixe. A casa branca e azul é o museu que visitei na crónica 43.
E ali à direita, na rua principal, há grande aglomerado de gente. Chegou um grupo de turistas, pelo que percebo.

Chegámos às 9h30. O passeio durou 2h50, portanto. Custou 650 dobras (26€), que paguei agora ao Hernâni.

O grupo de turistas é chinês. Há muito turismo chinês em São Tomé e Príncipe, disseram-me o Hernâni e a Marluce. Curiosamente são os primeiros que vejo. No Príncipe não me cruzei com nenhum. Hoje é o 5º dia em que estou em São Tomé, num total de 17.


¹ “Adansonia digitata” (s.d.) Wikipedia. Página consultada a 5 Novembro 2019,
<https://en.wikipedia.org/wiki/Adansonia_digitata>

² “Adansonia digitata” (s.d.) Wikipedia. Página consultada a 5 Novembro 2019,
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Adansonia_digitata>

051 - Na Praia dos Tamarindos

O Kener é um mergulhador de snorkeling que leva turistas também, consigo. Disse-me o preço e eu esqueci-me, acho que anda pelas 200 ou 300 dobras, cada mergulho. Eu fiquei com o seu número de telefone para organizar um mergulho de snorkeling nos próximos dias. Terei que ver a minha agenda. Não dou conta do recado com tanta coisa para fazer. Perguntei-lhe se não faz mergulho com botija de ar, respondeu-me que não. É que eu prefiro fazer mergulho com botija de ar. Se tenho licença PADI é para usá-la!
E os garotos daqui, que devem tê-lo visto três mil vezes, cercam-no sempre, pelos vistos, curiosos.

O que o Kener apanhou hoje.

Dez dobras por dois pequeninos cachos (oito bananas ao todo, salvo erro). Estas são bananas-maçã, as pequeninas e de sabor frutado, parece que têm sumo de laranja ou maçã misturado. Uma delícia.
Por esta altura vou acompanhada da Marluce. Eu digo-lhe que agora vou à praia dos Tamarindos dar um mergulho, e ela diz-me que vai comigo. Perguntei-lhe se alguém pode preparar-me um peixe frito com banana frita, ou fruta-pão assada, que eu pagarei a refeição. A Marluce leva-me então a sua casa, para perguntar à mãe.
Entretanto eu disse ao Pajó que já não será preciso levar-me a Belém (o Pajó é daqui desta zona, recordo), que eu logo me desenrascarei. Talvez experimente finalmente um táxi-partilhado. Logo verei, para já o meu único plano é dar uns mergulhos e almoçar a seguir.

A mãe da Marluce, cujo nome é Madalena. Está a preparar uma comida típica que se chama Filipote, o qual é feito com mandioca cozida, embrulhada em folhas de bananeira, e assado na brasa. Agora vai na fase de preparar as folhas em pequenos tubos, onde será colocada a mandioca.
A Madalena diz à filha para ela arranjar peixe para mim, que fritá-lo-á para eu comer, juntamente com banana frita. Pediu-me 10 dobras para a banana-pão, eu dei 50, também para pagar o trabalho.

A casa da Marluce, onde vou vestir o biquíni.

O quarto da Marluce, onde troquei de roupa.

Foi difícil arranjar peixe para mim. Ainda batemos a algumas portas, em primeiro lugar à do Kener, que já tinha vendido tudo. Que pena. Depois fomos a outra casa, e aí disseram que já só têm cavalas. Arranjam-me 7 cavalas por 20 dobras. Aceitei. Nem sei o que são cavalas, mas eu quero é comer. A rapariga do vestido branco foi então a esta terceira casa buscar-mas. Na foto não se vê, mas ela traz um saco na mão com as 7 cavalas, que eu e a Marluce iremos dar à mãe desta, para fritar, enquanto nós vamos à praia.

A mãe da Marluce continua entretida com os filipotes. Agora coloca a mandioca dentro dos tubos feitos com folha de bananeira.

E aí vamos nós, eu e a Marluce, à praia dos Tamarindos. Eu já com o biquíni vestido.

A caminho da praia, que dá última vez fiz de bicicleta, e agora faço a pé. Recordo que hoje o Pajó foi buscar-me de mota a Belém para fazer o passeio de barco. Hoje estou sem bicicleta.
E dois rapazes estão a jogar futebol completamente nus.

A Marluce leva-me por este atalho. Ajuda-me a levar a mochila e o capacete (que eu usei para vir de mota). Eu levo o saco de bananas, que já compartilhei com a Marluce e com a mãe, e uma garrafa de água de litro e meio.

Chegámos às 10h40 à Praia dos Tamarindos. Hoje é sábado, que surpresa, tanta gente. E só posteriormente, ao rever esta foto, é que me apercebo que estão uns branquinhos lá ao fundo. Aumentando a imagem, parecem-me ser os meus compatriotas do Porto, com os quais me cruzei na crónica 44. Mas não tenho a certeza.

Não se deixem enganar pelo céu nublado. Faz calor (o sol vai aparecer mais daqui a pouco) e a água está morna.

Ensinei a Marluce a tirar fotos com a minha máquina.

Eu venho concentrada no chão, a andar, pois existem rochas aqui nesta parte.

Já estou com a marca dos calções e da tshirt, está visto.

A Marluce não quer tomar banho. Eu perguntei-lhe, ainda em casa,  se não tem uns calções que possa levar para dentro de água, mas a Marluce diz que não lhe apetece. Aproveitamos para comer mais umas bananinhas, e a Marluce, que tem 20 anos, conta-me que passou para o 12º ano, na área de Letras, na escola de Guadalupe. São 20 dobras para ir e voltar de moto todos os dias. Os pais estão separados, a mãe sustenta-a sozinha. Quer ser hospedeira. Mas ainda não decidiu. De qualquer forma quer seguir a universidade. Não quer casar nem ter filhos para já. Eu disse-lhe que faz bem, que tem tempo, e que agora tem de estudar muito para entrar na universidade. A Marluce tem um irmão que anda numa cadeira de rodas, contou-me, o qual foi viver para Portugal, também para receber tratamentos, com 14 anos de idade. Este seu irmão tem agora 27 anos e veio a São Tomé conhecer os irmãos, há poucos meses atrás.

A Marluce está sentada debaixo duma das árvores que dão nome a esta praia: os Tamarindeiros, árvores tropicais, sensíveis ao frio, e que dão o fruto Tamarindo. O termo “tamarindo” vem do árabe, uma palavra que em português significa “tâmara da Índia”.

A Marluce insiste para que eu prove o tamarindo. É ácido. Só toquei com a língua, tenho receio que me faça doer a barriga, digo eu à Marluce. Ela ri-se.

Leio isto na Wikipedia:
Usos do tamarindeiro:

Fruto: a polpa, com sabor agridoce, é usada no preparo de doces, bolos, sorvetes, xaropes, bebidas, licores, refrescos, sucos concentrados e ainda como tempero para arroz, carne, peixe e outros alimentos.

Sementes: ao natural, servem de forragem para animais domésticos; processadas são utilizadas como estabilizantes de sucos, de alimentos industrializados e como goma (cola) para tecidos ou papel. O óleo extraído delas é alimentício e de uso industrial.

Madeira: o cerne da madeira é de excelente qualidade e pode ser usado para diversas finalidades; forte, resistente à ação de cupins, presta-se bem para fabricação de móveis, brinquedos, pilões, e preparo de carvão vegetal.¹


¹ “Tamarindus” (s.d.) Wikipedia. Página consultada a 6 Novembro 2019,
https://pt.wikipedia.org/wiki/Tamarindus

052 - Almoço em Casa da Marluce

É meio dia, vamos embora almoçar.

O pessoal veio preparado com comida! Estão todos a almoçar no meio dos Tamarindeiros!

Em casa da Marluce, os filipotes continuam a fazer-se. Cheiram bem.

Eis as minhas 7 cavalas com banana frita preparadas pela Madalena, a mãe da Marluce.

Mas tenho aqui um cliente à espera dum bocadinho.

Foram 4 peixes para mim, 1 para o gato, e 2 para a Marluce, que não quis comer no momento, guardou-os. Não sei se os deu a alguém. Banana frita então dei o prato todo, quase, pois se eu comi 5 ou 6 tiras já foi muito. Estava tudo saboroso.
Eu pensava que este era um gato bebé, tão pequeno, mas a Marluce disse-me que não, que é uma fêmea e que já teve crias!!

Está feijão na panela, a cozer.
A Madalena diz-me que tem família em Portugal. Cunhados, tio.

E entretanto o filipote ficou feito, e a Madalena – mãe da Marluce – deu-me este pedaço para eu provar. Isto é bom que se farta! Gostei bastante. A Madalena perguntou-me se eu queria mais, mas eu já estou cheia, com o peixe e com a banana frita, e agora mais este pedaço de filipote, pelo que recusei. Nem me ocorreu no momento, mas eu devia é ter-lhe comprado um ou dois para levar!

A Marluce é madrinha desta bebé, que se chama Micaela Sofia. São primas. A mãe é a Cláudia, que vai aparecer mais abaixo. A Marluce e a Cláudia vão buscar madeira para lenha, para cozer carne, e perguntam-se se quero ir com elas. Eu acedo.

A caminho da lenha, passamos em casa do irmão da Marluce, o guia Ju do museu. Esta é a sua mulher e o seu filho.

Está na hora de eu partir. Nem sei ainda como vai ser a minha viagem até Belém. Perguntei onde é que posso ir fazer xixi, e a Marluce mandou-me para este espaço, no quintal, rodeado de tapumes. Desconfio que aqui não é a casa de banho, porque cheira muito bem, cheira a água de banhos. Aqui é onde se toma banho. Se se fazem as necessidades, então o odor está totalmente camuflado. As pedras têm musgo, de estarem sempre molhadas.

E é novamente o Naí (ou Naír?) da crónica 44, quem me leva na sua moto-táxi até Guadalupe. Agora não tenho a bicicleta, pelo que é tudo mais fácil.
Despedi-me da Marluce e da sua mãe com dois beijinhos (aqui em São Tomé e Príncipe dá-se beijinhos como cumprimento, aprendi no Príncipe, quando a Mulata, no restaurante da Kita, se despediu de mim com dois beijinhos também). Antes de partir ainda fui comprar mais bananas, também para deixar à Marluce, mas já só tinham um cacho. Venderam tudo! Dei cinco dobras, e pediram-me dez. Mas depois uma senhora lembrou-se que eu tinha lá estado de manhã, e que comprei dois cachos por dez dobras, pelo que aceitaram agora as 5 dobras por um. Dei algumas bananas à Marluce, e trouxe eu outras tantas.

Paguei dez dobras ao Naí por levar-me na mota. É o preço normal. Da primeira vez paguei quinze. E ao chegar a Guadalupe, haviam duas carrinhas de táxi partilhado que iam para a cidade. Tudo à pressa, tudo a despachar-se. O preço é dez dobras, pois é partilhado entre várias pessoas, algumas apanhadas pelo caminho. É como se fosse um autocarro. Os percursos são fixos, como já comentei noutra crónica. “Oh branquinha!” – chamou-me um deles. Mas eu acabei por ir nesta carrinha com este motorista de cabelos brancos, magro, muito sério, conhecido por “Pastor”. Inspirou-me mais confiança, o outro estava a fazer um grande alarido a chamar-me.

A carrinha onde vim de táxi partilhado até à cidade. O Pastor está a estacioná-la. Diz-me para eu esperar, pois vai indicar-me onde é que se apanham os táxis partilhados até Belém.

Preciso de ajuda, preciso. Encontrar o meu táxi-partilhado no meio destes todos é uma confusão. Mas isto está tudo definido, todos têm uma paragem fixa. Eu é que sou novata e desconheço qual é.

“Capela” é uma povoação perto de Belém. O meu não estará muito longe!

É este! Trindade e “aredores”! 🙂 Belém é mesmo ao lado de Trindade!
Agradeci a paciência e a gentileza do motorista Pastor, que me trouxe até aqui e me entregou a outro motorista. Agora é preciso esperar que cheguem 5 pessoas para Trindade e arredores. Quando o táxi estiver cheio, partimos. Pelo menos uma cliente já tem!
Entretanto o motorista disse-me qualquer coisa sobre eu ter de sentar-me para verem que o táxi tem gente, pois é preciso mais gente para completá-lo. (Só faltou eu fazer-lhe continência. Obedeci e sentei-me no lugar da frente). Depois gritou com uma passageira a dizer que o carro custa dinheiro, porque ela fez qualquer coisa mais brusca. Esperei cerca de dez minutos, talvez, que o carro enchesse, e partimos.

E às 14h45 cheguei ao resort. Vim no lugar da frente, no táxi, conforme referi, dado que fui a primeira cliente a chegar. Atrás foram 4 pessoas. A viagem é muito curta, 5 minutos, mas sempre em grande subida durante 8 km. O Célio Santiago tinha-me dito que o táxi era 15 dobras. Eu dei uma nota de 20 e não recebi troco. Fiquei sem perceber qual é o preço. Quando eu saí, ficou ainda uma mulher sozinha no táxi, que seguiu viagem.

Gastei portanto 40 dobras para vir de Morro Peixe até Belém: 10 pela moto até Guadalupe, 10 pela carrinha até à cidade, e 20 pelo carro até Belém. Hoje de manhã paguei 300 dobras para ter uma mota exclusiva só para mim. A diferença é muito grande. Acho que vou aderir a esta coisa dos táxis-partilhados.

Entretanto o meu biquíni já está lavado e a secar. Tenho receio de deixar o biquíni aqui fora a secar, durante a noite, mas a bicicleta de carbono do Célio cá continua, ninguém a leva. Porém o biquíni faz-me falta, irei levá-lo para dentro do quarto, pelo sim pelo não.

Hoje passei as habituais 9 horas fora. Chegar às 3 da tarde ao resort parece muito cedo, mas eu acordei às 4 e saí às 5 e meia da manhã. São dias muito intensos – às 3 da tarde quero descansar, tomar banho, despachar-me, e às 17h30 é noite cerrada. Tenho de tratar das fotos, fazer o backup, preparar o dia de amanhã na bicicleta, e antes das 20h estarei a dormir, pronta para novas aventuras.

Aqui fazem uns 25 graus, o que para mim é frio e faz-me vestir uma camisola de mangas compridas. As galinhas esgravatam no chão e baixam-se imediatamente para comer o que aparece. São tardes tranquilas com muitos pássaros a cantar. Mas ouve-se uma música distante, em altos berros, que consegue chegar aqui.

Eu já só tenho 20 dobras de saldo no telemóvel. Perguntei no quiosque Agente CST, aqui ao lado, como é que posso passar a Moche. O pessoal fala-me muito do Moche. Então aqui no quiosque explicaram-me que são 10 dobras por dia e dá direito a 60 minutos de chamadas por dia para outros Moches. Se falarmos apenas dois minutos, paciência, perdem-se os restantes 58 minutos. Não transitam para o dia seguinte. Ou então 150 dobras por mês, disseram-me. Na loja CST do Príncipe, quando comprei o cartão, deveriam ter-me falado desta opção. Agora só faltam duas semanas para ir-me embora, já não compensa. E percebo também porque é que recebo constantemente sms “Call me”, para eu ligar-lhes. Quem é que vai pagar 10 dobras para fazer uma chamada? Ninguém quer pagar. Imaginem vocês, caros leitores, aqui em Portugal (ou onde quer que estejam) que cada vez que quisessem fazer uma chamada, tinham de carregar o telemóvel. Isto é um pesadelo. Normalmente carrega-se uma mensalidade fixa e temos as redes todas incluídas. Sim, porque aquelas dez dobras é só na mesma rede. Para outras redes – paga!… Muito gostava eu de saber os tarifários da Unitel. Devem ser iguais, pois o pessoal só me fala do Moche, não me fala da Unitel, é porque não são famosos também. Atenção que tudo isto foram os santomenses que me explicaram. Quando enviei um email à Unitel e à CST a perguntar por um cartão de telemóvel, durante as férias, nenhum me explicou os tarifários, ou enviou nenhum link com eles. Só me responderam que sim, que posso comprar um cartão no Príncipe.

Efetivamente lá me dei ao trabalho, ao escrever esta crónica, de ir a ambos os sites investigar isto. E não existe mesmo nenhum tarifário com uma mensalidade fixa que inclua todas as redes. Todas as chamadas são pagas uma a uma. Por um lado é bom, também compreendo o lado positivo da coisa – as pessoas só pagam as chamadas que fazem. Mas por outro lado, ninguém quer pagar as chamadas uma a uma, há sempre uma contenção na hora de agarrar no telefone.

053 - 17º Dia, a Caminho de Micoló e Fernão Dias

4h30, pequeno-almoço.

Às 19h adormeci a tratar das fotos. A seguir fui picada no queixo. Entre a 1h30 e as 3h voltei a ser picada, não consegui dormir. Tive de pôr spray repelente de insetos no corpo e consegui depois adormecer, cheia de sono. Picou-me na perna dentro dos lençóis. Será uma melga ou uma pulga?

Há música em altos berros toda a noite, ao longe. Ninguém dorme onde existe aquela casa. Todos os sábados é isto, apercebo-me que não existem regras de som. Hoje é domingo.

Os meus anfitriões esqueceram-se de renovar o pão. Estas carcaças são de anteontem e estão duras. Enviei uma mensagem ao Célio a perguntar o que se passa. Será que é a Virgínia que tem de tratar do pequeno-almoço? Efetivamente a Virgínia foi dispensada durante uns dias, apercebo-me, pois sou a única hóspede do resort, e tenho uns horários estranhos… A louça suja acumula-se, o caixote do lixo não é esvaziado.

Ontem e hoje já pus protetor solar nos ombros. A seguir, o anti-mosquitos. Apesar de São Tomé ser uma ilha pequena, os climas são muito diferentes. No norte é quente e solarengo: ontem passei lá o dia, e hoje vou novamente para essa zona:

Hoje o meu destino é Micoló e a seguir Fernão Dias. O GPS manda-me novamente por caminhos de terra, seguindo por Madalena e Boa Entrada.
São 5h47 e o Célio Santiago acabou de chegar com pão fresco e imensas bananas. Paciência, já comi, fica para amanhã.
A música em altos berros acabou agora também. Agora é que o pessoal vai dormir. Ainda bem, terei uma manhã sossegada e silenciosa, na bicicleta, ao som dos pássaros!!

Tenho 3 km sempre a subir até ao cruzamento da Madalena. A partir daí será quase tudo a descer. Já conheço parte do caminho, começo a ter uma ideia. Curiosamente o Maps.me não mostra novamente o gráfico da altitude (na foto acima). Se calhar não tem informação sobre isso. Já ter uma mapa com trilhos na bicicleta, em São Tomé e Príncipe, é muito bom.

São 6h42, eu já conheço este caminho e acelero por aqui abaixo, neste próximos quilómetros. Na crónica 40 tirei uma foto nesta zona, com muitas pessoas. Agora não me detive, passei a toda a velocidade, a curtir estes caminhos já conhecidos. Também sabe bem de vez em quando. A certa altura o cantil de trás caiu, veio uma criança dar-mo. Eu travei com aparato, a derrapar, com terra e pedras por todo o lado, atirando o pneu de trás para o lado, como me diverte fazer. Agradeci à menina e desta vez guardei o cantil meio vazio na mochila, às costas, para poder continuar a acelerar.

Foi um rapaz que nos tirou esta foto, ficou meio desfocada, é pena, mas mesmo assim ficou gira e mantive-a. Estamos todos a rir porque eu perguntei às pessoas se iam ficar muito sérias na foto. Então todos nos rimos com essa ideia.
Creio que esta povoação se chama Alto Poto, mas não tenho a certeza.

Este é o Elias, tem 11 anos, e foi ele próprio que construiu este brinquedo, contou-me.

A chegar a Boa Entrada.

Hoje é domingo, as pessoas vão à missa às 7h30.

Um dos edifícios da Roça Boa Entrada, que já apareceu também na crónica 41.

Os dois rapazes na minha bicicleta chamaram-me, ia eu a passar ao longe. Quem me chama? Olhei na direção das vozes e vi-os. Desviei imediatamente caminho e fui ter com eles, a pedalar. Não precisam de chamar-me duas vezes.
Então eles queriam tirar uma foto comigo. Mas estão muito envergonhados, teve de ser o rapaz da tshirt vermelha a incentivá-los e virem ter comigo. Aqui tirei-lhes esta foto de teste, para programar os parâmetros da câmera, antes de passá-la ao rapaz da tshirt vermelha para que nos fotografasse aos três.

Eu fiquei a dizer ao fotógrafo, o rapaz da tshirt vermelha, que ele devia apontar a câmera mais para baixo, para apanhar-nos de corpo inteiro, porque me pareceu que ele estava a apanhar-nos apenas da cintura para cima.

Os dois rapazes à minha volta é que não os conseguimos fazer sorrir nem por nada. Recordo que ambos é que me chamaram, a pedir-me para tirar esta foto. Eu devia ter repetido a foto até conseguir fazê-los esboçar um sorriso. Até a menina ali ao lado, que pensava não estar a ser apanhada, se ria com estas andanças, quer na foto anterior, quer nesta.

Aqui é o Fradique, também conhecido como Fredy, disse-me. Quis igualmente uma foto. Eu estou sempre pronta para tirar fotos, nem é preciso pedir duas vezes. Ainda a frase vai a meio já eu estou a apontar a máquina. “Quero uma fot…” Clique! Já está. Com o seu sorriso de galã, já não foi preciso esforço nenhum para pô-lo a sorrir. O Fredy tem Facebook e eu dei-lhe o endereço do meu site, para ele ver depois esta foto. De vez em quando manda-me um olá através do Facebook. O Ismael da crónica 41, que me ofereceu um pedaço de jaca, é seu primo, vim a saber posteriormente, através duma mensagem que me enviou no Facebook.

Chegou a altura de ir novamente à casa de banho, e já sei de experiência – por já ter feito este caminho na crónica 41 – que não vou encontrar locais desertos em lado nenhum. Ainda vou parar outra vez à casa de banho da Residência do Wilson Pires. Pelo que desta vez fui mais despachada. Fui visitar a Erpe, aqui na Vila Amélia (esta casa em frente é a sua, já apareceu na crónica 41) e ela de momento não pode vir, está a tomar banho, informaram-me estas duas raparigas. Então se não se importam podem tomar conta da minha bicicleta, que eu vou ali esconder-me no mato para fazer xixi.
E aqui estão elas à espera.
Claro que ambas se riram com o insólito e inesperado episódio. Mas eu até me sinto mais segura tendo as duas raparigas de vigia, porque isto de meter-me no mato escondida pode não ser sempre boa onda.

Entretanto a Erpe despachou-se e apareceu. O filho Rafael está sentado na minha bicicleta.

A vibrante descida até à estrada principal. Esta foi a última foto que tirei até lá chegar, não vou parar mais.

Já na estrada principal, alcatroada.

O GPS manda-me sair novamente da estrada alcatroada e mete-me por aqui. Vou em direção a Micoló. São 8h e a temperatura aumenta bastante à medida em que me aproximo do norte. Eu venho do centro, de Belém, do fresco das terras altas. Estas terras mais baixas e quentes, do norte, agradam-me. Trato já de despir a camisola de manga comprida, e fico de manga à cava.

Neste caminho no meio do nada existe esta casa. Está do lado direito, não se vê na foto. É a única casa em todo este caminho, até chegar perto do mar. De início a mulher de cor de rosa não queria que eu tirasse fotos. Disse-me que eu tinha de pagar. Já não é a primeira vez que me dizem isto. Eu (parada e desmontada da bicicleta, já a falar com os garotos) respondi-lhe que corro o mundo o inteiro e fotografo as pessoas de todo o mundo, e que nunca me pedem dinheiro. “Mas aqui somos pobres!” – retorquiu-me ela. “Então pronto, não tiro fotos”, disse eu, guardando a máquina. Entretanto chegou o homem, que acho que é marido da mulher de tshirt preta, mas não tenho a certeza. Ora ele é muito mais descontraído, como dá para perceber pelas fotos. Conversámos todos um pouco, fizeram-me perguntas sobre a minha vida em Lisboa (“Onde está o marido?” – é a pergunta fatal) e agora é que vamos tirar fotos todos, comigo inclusive, a seu próprio pedido.

A fotógrafa pôs-nos todos a cair para o lado, mas não faz mal, mantive a foto.

Este caminho para Micoló foi um dos caminhos mais bonitos que fiz na bicicleta, nesta viagem. É um trecho pequeno. Desde a curva de Água Casada (ainda na estrada principal, de alcatrão) até ao mar são uns 4 km. Mas esta parte mais bonita tem uns 2 km. Faz um calor agradável. Está silêncio. Está-se bem. Toda a vegetação amarela, quente e seca, que me faça recordar o Alentejo, faz-me sentir particularmente bem. Já em Timor tive um momento assim, em Maliana.

A chegar à Praia Água Casada.

Muito lixo. O lixo é um problema. A água irá levar isto tudo. Os peixes, as baleias, irão ingerir isto.

Prossegue o caminho em direção a Micoló.

Primeiro destino cumprido! Micoló! São 8h52. Não registei os km, mas andará pelos 23 aproximadamente. Aqui é a praia, mais à frente será a povoação. Repare-se que o cartaz tem fotos das tartarugas existentes aqui em São Tomé, e a propósito de Micoló e tartarugas, leia-se esta notícia do jornal santomense Téla Nón:

Micoló trava ímpeto do Governo em degradar o Ambiente
O Ministro da Juventude e dos Desportos, Marcelino Sanches, que comandava uma fila de camiões que pretendiam extrair areia nas praias de Micoló, acabou por ficar retido na Vila. A população bloqueou os camiões e o ministro.

Desde finais da década de 90 que a população da vila de Micoló impede qualquer tentativa de extração de areia na região. Sejam os garimpeiros ilegais, sejam os garimpeiros mandatados pelo Governo. Mesmo que escoltados por forças policiais ou militares, a população de Micoló sempre saiu ao encontro dos mesmos, bloqueando a sua saída do local. Nunca permitiu que um grão de areia fosse retirado da sua praia.

A Pesca é a principal atividade da população local, que também está a dar passos no sentido da preservação de espécies em vias de extinção, sobretudo as tartarugas marinhas.

As praias da Vila de Micoló, mais concretamente as dunas de areia que o tempo ergueu como consequência da não extração de areia, constituem os principais ninhos para desova de tartarugas na região nordeste da ilha de São Tomé.

Pelo que o Téla Nón apurou, esta quarta-feira os camiões enviados pelo Governo deveriam extrair cerca de 120 m³ de areia das praias de Micoló. O Governo precisa de areia por causa dos jogos juvenis da CPLP. O Governo quer construir na capital São Tomé campos para albergar algumas modalidades dos jogos da CPLP, nomeadamente o voleibol. Com a maioria das praias do país transformadas em pedregulho por causa da longa extração anárquica de areia, as atenções estão agora viradas para as praias de Micoló, onde a população garantiu ao longo dos anos a sua preservação. «Não entendo porque não fazem os vários jogos em diferentes praias, em vez de extraírem areias de outras praias, que além de serem essenciais para as comunidades costeiras, também são praias de desova das tartarugas marinhas», desabafou para o Téla Nón uma das testemunhas do confronto desta quarta-feira entre a população de Micoló e os camiões do Governo.”¹
(Fim de citação).

Na notícia – link abaixo – pode ser visto um vídeo das escaramuças, filmado por um dos populares – um Micolense! (Será assim o gentílico?)


¹ “Micoló trava ímpeto do Governo em degradar o Ambiente” (2018, 7 Março). Téla Nón. Página consultada a 10 Novembro 2019,
<https://www.telanon.info/sociedade/2018/03/07/26560/micolo-trava-impeto-do-governo-em-degradar-o-ambiente/>

*** Crónica 54 e seguintes ***

Olá 🙂

Houve uma reestruturação no meu site, pelo que as crónicas seguintes devem ser vistas em:

Em breve esta versão antiga será eliminada.

Obrigada, beijinhos & abraços,

Rute