Timor: 831 km de bicicleta, sozinha, 26 dias

091 - Entremos numa Casa & uma Aula sobre Bua Malus

Interior da cabana que se vê em primeiro plano na foto anterior.

Casa típica da parte indonésia de Timor. Não se vêem este tipo de casas em Timor-Leste.

Ao fundo, de t-shirt branca, está o Rui, aquele que será o nosso guia local na parte indonésia de Timor, durante o dia de amanhã. Era suposto amanhã regressarmos a Timor-Leste pela mesma estrada que estou a fazer agora na bicicleta. É a estrada mais direta e alcatroada. Mas eu pedi para fazermos um caminho diferente, preferencialmente pelo campo. Ora o Valério está estrear-se na Indonésia, tal como eu, e o Sanches não conhece caminhos alternativos. A Timor MEGAtours fez-me a vontade e tivemos então de encontrar um guia local, que conheça caminhos alternativos. Será o Rui, timorense de leste a viver nos arredores de Kupang. Já está a acompanhar o Valério na pickup há algum tempo, na sua mota vermelha.

O Valério a reabastecer o cantil da minha bicicleta.

Na crónica 80 já expliquei como se prepara a substância vermelha para mascar e mostrei fotos da planta e dos frutos, pelo que remeto para essa crónica, mais completa.
Muito resumidamente:
“Bua Malus” é uma mistura constituída por noz de areca, folhas de bétel e cal. O bétel é a quarta droga psicoativa mais comum no mundo, seguindo a nicotina, o álcool e a cafeína¹. O “Bua Malus” tanto pode ser preparado com folhas de bétel, como com o fruto desta pimenteira.
Nesta foto está o pacote com cal, a noz de areca já descascada (redonda), e o fruto da pimenteira bétel.

O Rui a mostrar-me a substância vermelha. Está a fazer esta careta um bocado estranha para eu conseguir fotografar.

O Sanches, depois de mostrar-me como se faz e consome o Bua Malus. Perguntou-me se eu quero experimentar, mas tenho receio que me faça mal ao estômago. A andar de bicicleta tenho de ter muito cuidado com o que como. Só o facto de andar nas mãos, sem ser lavado, já não é aconselhável.

Os restos cospem-se para o chão. É frequente verem-se estas manchas vermelhas pelo chão, em toda a ilha de Timor.


¹ “Betel Plant” (s.d.). Encyclopædia Britannica. Página consultada a 14 Janeiro 2019,
<https://www.britannica.com/plant/betel>

092 - Entremos noutra Casa de Timor Indonésio

Ela caminhava em direção contrária à minha, mas ao ver-me passar, fez-me sinal para eu parar. (Nem era preciso fazer sinal nenhum, eu estou sempre pronta para parar e ouvir o que têm para me dizer. Mesmo que não perceba patavina). Efetivamente não percebi nada do que a senhora me disse. Imitei-a, tentei repetir os sons das suas palavras. Ela riu-se. E eu também.

Certo. Há qualquer coisa lá ao fundo. Não faço ideia o quê.

Entretanto chegou o Valério na pickup e tirou-nos esta foto. De facto tirou-nos outra antes, em que eu tenho os calções todos arregaçados para cima (a minha tentativa desesperada de não ficar com a marca dos calções e do sol na pele…). Quando vi a foto é que me lembrei. Não posso ficar assim na foto. Vou baixar as pernas dos calções e temos de tirar outra. Então o Valério explicou à senhora que tínhamos de tirar outra foto, e pelos vistos ter-lhe-á explicado em língua indonésia o motivo, porque ela olhou para os meus calções e soltou uma gargalhada.

E o Valério também me traduziu o que a senhora queria dizer-me: ela apontava lá para o fundo, porque é onde fica a sua casa. Ela quer mostrar-me a sua casa. Ora que maravilha, vamos já. O Valério voltou para trás na pickup, tem de ir buscar qualquer coisa, nem percebi o quê. Deixou-me entretida com a senhora e voltou para trás durante uns minutos. E lá fomos as duas, eu com a bicicleta pela mão, e a senhora a caminhar ao meu lado.

Sejam do lado leste ou do lado ocidental de Timor, as crianças efetivamente são todas iguais. A alegria, as brincadeiras e as festas são sempre iguais. Seja de que continente for o ser humano, dá para perceber claramente ao viajar que é igual em todo o mundo, quando é pequenino. Depois cresce e começam as diferenças e os conflitos. É uma chatice.

O horroroso parque “Taman Wisata Alam Camplong”. Por favor não visitem este parque em Kupang. Já estamos no distrito de Kupang, na parte indonésia da ilha de Timor. Não percam tempo com isto, e muito menos pagar entrada, como eu fiz (ou melhor, estava incluído pela Timor MEGAtours, que me pagou a entrada, a meu pedido – pensando eu que ia ver uma coisa muito boa). Só se quiserem ir tomar banho nas águas paradas do lago artificial. Estamos numa ilha cheia de praias azuis e transparentes, creio que não é preciso ir tomar banho num lago verde opaco.

E o miserável crocodilo preso numa cela miniatura cheia de lixo. Creio que vou mandar alguns emails para as associações protetoras dos animais, pelo mundo fora, a ver se alguém descobre este infeliz e consegue soltá-lo. Ei-lo, o crocodilo mais infeliz do mundo, no meio de lixo e águas porcas.

E pronto, o parque é só isto. O interessante é mesmo cobrarem entrada. Se eu soubesse o que sei hoje, nem que me tivessem pagado a mim, quanto mais eu pagar a eles. Adiante, rápido, prossegue a viagem.

093 - Chegada a Kupang, a Capital de Timor Indonésio

Este polícia muito novinho pediu-me para tirar uma foto consigo. Bom, ao menos é mais direto do que o militar da fronteira, que me tirou uma foto com o seu telemóvel e nem sequer ficou ele nela. Confesso que aquela arma apontada ao meu pé me deixa com um nervoso miúdo. O meu sorriso está um bocado apanhado, mas pronto. E os meus calções todos tortos de puxá-los para baixo e para cima, para não ficar com a marca do sol. (São coisas femininas, eu sei… os homens andam com a marca da t-shirt nos braços, à camionista, e não querem saber disso para nada. E já vi a marca das meias, nas pernas de alguns, isso então ainda é pior, mas os “gajos” acham que isso não interessa para nada).

Tenho 76 km feitos, são 14h, e não tenho fome nenhuma. Relembro que comi carne com arroz às sete da manhã, no hotel. E mais uma porção de outras coisas, como leite condensado. E tenho bebido água de coco. Acho que nunca tinha bebido tanta água de coco. O meu cantil da bicicleta foi enchido duas vezes com água de coco. E agora bebi apenas dois pacotes de leite com chocolate. Não quero almoçar. Faz uma ventania enorme que me empurra a bicicleta para o lado, e o trânsito em Kupang é agreste, super barulhento, pelo que passei para a pickup pouco depois de ter tirado esta foto. Eu tenho que ir inclinada para a direita, para não cair para a esquerda. Se porventura o vento parasse subitamente, eu cairia mesmo para a direita, tão inclinada que vou. Mas o vento só começou agora, não sei se é desta região de Kupang. Fiz portanto os restantes 20 km até ao hotel na pickup. Não sinto cansaço, e gostaria de ter seguido até ao fim na bicicleta, mas o vento e o barulhento trânsito são demais.

Sal. Ao longo desta estrada há muitas estantes, ou prateleiras, com sal à venda. Lá à frente vê-se outra.

Chegada ao hotel onde vou pernoitar hoje. Vou apenas deixar as bagagens no quarto e volto para baixo. A bicicleta vai ser arranjada novamente – desta vez vamos tentar descobrir o que se passa para a jante nova fazer tanto barulho a andar, conforme já referi na crónica 88. As pessoas apercebem-se da minha chegada ainda eu vou longe, com tamanho barulho. Parece que vou numa  mota.

Um conhecido do guia Sanches – Ronaldo – que vai tentar arranjar a jante. A rececionista do hotel é a sua mulher. Eu brinquei com ele e com o seu nome – também temos um Ronaldo em Portugal! (Claro que ele sabe, mas há alguém no mundo que não saiba?… Bom, na China questionei algumas pessoas que não sabiam).

E as suas duas filhas. Eu vou sentada na pickup e tirei-lhes esta foto em andamento. Dirigimo-nos para a sua casa, onde o Ronaldo vai tentar arranjar a bicicleta.

094 - Passeando em Kupang

Foi um passeio também em busca de câmbios. Precisamos de cambiar dinheiro outra vez, dado que na drogaria em Kefa não dispunham de toda a quantidade necessária. Agora vou aproveitar para pôr alguma roupa a lavar no hotel, pelo que também preciso de rupias.
O montante ainda não está disponível, deixámos o pedido e voltaremos mais daqui a pouco para levantar o dinheiro. Quem está a conduzir a pickup é o Ronaldo, o amigo do guia Sanches (que se vê ao fundo nesta foto), que vai tentar arranjar a minha bicicleta. O pai do Ronaldo tinha uma pickup igual, contou-me, e aqui em Kupang ele conhece melhor as estradas. O Valério e o Sanches vão no banco de trás, portanto, e eu à frente ao lado do condutor.

Uma das especialidades de Timor indonésio (e Timor-Leste também, creio) – umas pequenas almôndegas de carne, as quais irei provar já em Timor-Leste, com massa e caldo. Deliciosas. O que está ao lado parece ser banana frita, mas não tenho a certeza.

Pertamina, uma companhia estatal indonésia. Dos quatro fornecedores de combustível na Indonésia, apenas a Pertamina distribui combustível em todo o país. Os restantes têm bombas na área da Grande Jacarta e algumas cidades principais na Indonésia apenas.¹

Pertalite é um tipo de gasolina que tem 90 octanas.¹ 7800 rupias são 47 cêntimos de euro.

Voltámos ao local dos câmbios para levantar o dinheiro. Eu troquei 20 dólares e deram-me 280 mil rupias. No hotel, o serviço de lavandaria para uma camisola é 31.700 rupias. Uma t-shirt é 29.000 rupias. Uns calções são 23.800 rupias. Eu trouxe dois calções de ciclismo, tenho usado só uns e tenho-os lavado com sabonete (na crónica 29, por exemplo, estavam a secar ao sol). Agora foram para a lavandaria, juntamente com algumas t-shirts.

Já em casa do Ronaldo, onde este vai tentar arranjar o barulho que a nova jante faz.

A jante não tem arranjo. É material barato, “made in Indonesia”. O Ronaldo vai meter uma pasta gordurosa castanha ali dentro, para ver se conseguimos calar o barulho que faz enquanto o pneu gira.

De volta ao hotel, onde vou jantar. Estou no 10º andar. Último andar. Durante o dia vim ouvir o barulho, para experimentar, e havia silêncio. Mas agora à noite ouve-se ligeiramente o intenso trânsito lá em baixo.

Pedi uma bebida tradicional, a segunda da lista: Kopi Panas Berempah, com cardamomo. Nunca mais esqueci o cremoso iogurte de cardamomo que provei num hotel do sul da Índia, perto de Cochim. Aquele iogurte de cardamomo marcou-me para o resto da vida. Foi o mangostão na China e o iogurte de cardamomo na Índia. Pelo que agora mal vejo alguma coisa de cardamomo, quero experimentar. Esta bebida diz: “Mistura de café com cravo, canela e cardamomo”.
E ficou tudo no copo porque aquilo é intragável.
“IDR 35” é uma maneira elegante de dizer 35.000 rupias. Uma pessoa até se assusta quando vê estes números tão grandes. Então neste elegante hotel abreviam a coisa para 35, ou seja, pouco mais de 2 euros.

Pedi bife do lombo com cogumelos. São 6 da tarde. E levaram 1,40h a servir o jantar completo (bebida, prato, sobremesa). Felizmente estou com tempo, mas isto não é normal. Levaram vinte minutos para trazer o bolo de chocolate, a seguir, a ponto de eu perguntar ao rapaz se não se esqueceram de mim.

E no final queriam cobrar o jantar. Eu expliquei que têm de pôr na conta do quarto. Será a agência de viagens – Timor MEGAtours – a pagar, eu tenho pensão completa incluída nesta viagem. Disseram que não, que tenho de pagar já. Ora nem sequer tenho rupias suficientes comigo. Disse-lhes para ligarem à agência de viagens. Então passaram-me à recepção para fazerem daqui uma chamada ao Valério, mas a pessoa da receção não percebe nada do que eu lhe digo. Inglês por aqui é uma raridade. Eu só tenho uns minutos de saldo no meu cartão indonésio de telemóvel e não tenciono gastá-los aqui dentro, pois podem vir a fazer-me muita falta quando estiver a andar de bicicleta. O rapaz e a rapariga do restaurante, que supostamente têm de cobrar a refeição, também não estão propriamente empenhados em fazer-me ser compreendida. Fui-me embora. Disse-lhes que estou cansada, que fiz muitos quilómetros de bicicleta, e que tenho de ir tomar um duche. Foi mesmo assim, virei as costas e pronto. Sigam-me até ao quarto, se quiserem.
Caminhei em direção ao elevador e fiquei à espera de ver os dois a perseguirem-me. Mas não. Eles deixaram-me em paz e colocaram a despesa na conta do quarto. No dia seguinte de manhã claro que a Timor MEGAtours liquidou tudo – a estadia e a refeição. (Que cena…)


¹ “Indonesia: Fuels: Diesel and Gasoline” (s.d.). TransportPolicy.net. Página consultada a 17 janeiro 2019,
<https://www.transportpolicy.net/standard/indonesia-fuels-diesel-and-gasoline/>

095 - 19º Dia de Viagem, Adeus Kupang

Despertador às 5. Pequeno-almoço às 5.45h. Saída às 6.30h.
Na receção entregaram-me a roupa lavada. Também lavei as luvas com sabonete, ainda não secaram completamente.

O pequeno-almoço está disponível desde as 4 da manhã até às 10 horas. Gosto disto. E vou ter outro banquete, está visto. Fico já almoçada, com estes pitéus todos. Tenho de provar tudo.

“Bubur Ketan Hitam”, uma especialidade da Indonésia. É uma papa doce feita com arroz glutinoso preto, leite de coco e açúcar de palma (porque tem origem numa palmeira) ou simples açúcar da cana-de-açúcar . O arroz glutinoso preto é fervido até ficar macio, e açúcar e leite de coco são adicionados. É frequentemente descrito como “pudim de arroz glutinoso preto”. É servido como sobremesa ou lanche, para o jantar, para a hora do chá, a qualquer hora do dia; no entanto é uma escolha popular para o pequeno-almoço. Às vezes é referido simplesmente como ketan hitam ou pulut hitam, que significa “arroz glutinoso preto”, enquanto “bubur” significa papa em indonésio.¹
Eu experimentei, gostei e fui buscar mais.

Lembro que estou a comer às seis da manhã. E com vontade e prazer. (Apesar de ser cedo, não sou a única no restaurante).

Manteiga da Nova Zelândia. (Aleluia, manteiga!)

Foto tirada duma janela do hotel, no corredor.

Não sei porque é que diz “2 adultos” dado que pernoitei sozinha… (Esta é uma maneira de arranjar problemas com o legítimo, querem ver o sarilho em que este hotel vai meter-me?…) A bebida de cardamomo e o jantar ficaram em 227.480 rupias, ou seja, cerca de 14€. A lavandaria ficou-me em cerca de 11€.

E partimos na pickup. O Sanches custou a deixar o vale dos lençóis, apercebi-me entretanto. Eu e o Valério somos muito madrugadores mas o pobre Sanches não é dado a estas madrugações. Chegaram um pouco tarde e ainda sem pequeno-almoço. Ora o Valério está sempre pronto primeiro do que eu, pelos vistos tem agora um companheiro mais complicado de gerir. Ambos ficaram longe do centro, a cerca de 35 km, apercebi-me também pela quilometragem da pickup. Espera-nos uma longa viagem até Timor-Leste. Desta vez não vamos pela estrada principal, desta vez vamos pelo campo, em estradas de terra e pedras. Vamos para já buscar o Rui, o qual será o nosso guia local neste novo caminho. O Rui já apareceu na crónica 92 a mostrar-me o “Bua Malus”, a substância vermelha que se masca em Timor. Seguirá connosco até Kefamenanu, ainda na parte indonésia (crónica 88) e depois regressará a Kupang numa Microlet, ou seja, as carrinhas que fazem de transporte público.

Paragem para reabastecimento de leite. Eu perguntei por leite branco. A senhora olhou à procura, na foto anterior, e depois veio aqui ver. Só há leite com chocolate ou morango. Levámos leite com chocolate.

Visita à praia “Lasiana”, em Kupang.

Está deserta porque são 7 e meia da manhã. Ainda nem chegou o funcionário que cobra as entradas – paga-se uma entrada nesta praia. Ouvem-se as motos ao fundo, mas é relativamente silenciosa. Devemos estar a uns trezentos metros da estrada principal.

Só percebo duas palavras: Tsunami e Evacuação. Mas indo ao Google Translator vê-se o significado completo: “Waspada” significa “cuidado”. A placa indica: “Cuidado com o Tsunami, obedeça às instruções de evacuação”. Curioso, este sinal. O tempo está pacífico, por enquanto.


¹ “Bubur Ketan Hitam” (s.d.). Wikipedia. Página consultada a 20 Janeiro 2019,
<https://en.wikipedia.org/wiki/Bubur_ketan_hitam>

096 - Avaria na Bicicleta, Regresso Forçado a Kupang

Às 8.30h apanhámos o Rui, o qual será o nosso guia pela estradas rurais até Kefa. Aqui os três vão tomar o pequeno-almoço (o próprio Rui, o Valério e o Sanches).

Neste restaurante não há facas. Os três estão a comer com garfo e colher.

E aqui mandaram embalar o nosso almoço. Vamos comer pelo caminho.

Não conseguimos identificar esta árvore. Se alguém souber o nome do fruto pelo menos, que me diga, p.f., e eu atualizarei estas crónicas de acordo. O Valério ainda levou dois frutos no tabuleiro da pickup, no entanto apodreceram rapidamente. Disse-nos que em fataluco, a língua de Lospalos, chamam-se “Calaboço”. Pelo menos assim percebi.

São 9h e dou início ao passeio de bicicleta de hoje. “Selamat Datang” significa “bem vindo”.

Fiz 5 km na bicicleta e tive de parar. A bicicleta deixou de travar e faz imenso barulho a travar. Experimentámos os dois pneus.

Nada feito, chia que se farta e só trava ao fim de meia hora. É um bocado perigoso, sobretudo quando for a descer montanhas. Quando chegar a uma ravina e não conseguir travar… seria lindo se eu voasse. Voltamos portanto a Kupang, para irmos a uma oficina.

35 minutos depois chegámos a esta oficina. É preciso comprar pastilhas novas, indica o mecânico. O que eu duvidei imenso. A bicicleta estava a travar muitíssimo bem, como é que de repente deixa de travar completamente? Não houve desgaste gradual, foi súbito? Mas enfim, quem sou eu.

Como aquela oficina não tem peças, tivemos de meter-nos na pickup e ir ao centro de Kupang comprar as pastilhas novas. São duas horas de caminho, no meio do trânsito lento e infernal de Kupang.

A polícia mandou parar o camião com gado.

Novamente câmbios.

Quase ao meio dia chegámos à loja das bicicletas, com donos chineses, loja esta que tem a sua própria oficina.

O dono da loja (ou o filho?) a vender-nos as pastilhas.

Uma hora depois estamos de volta à oficina, desta vez já com as pastilhas novas.

Eu pedi para ir à casa de banho, ao lado da oficina. Tradicional, com o habitual tanque de água e o recipiente de plástico com uma pega para verter a água na sanita (embutida no chão, os chamados “vasos sanitários de agachamento”, ou em inglês “squat toilet”).

Como eu calculava, o problema não é das pastilhas. A bicicleta já tem pastilhas novas e continua sem travar. Faz uma chiadeira enorme e só trava meia hora depois. Agora é o óleo dos travões. Esta bicicleta tem travões hidráulicos, como a minha em Lisboa. Mas nesta oficina também não há líquido para os travões da bicicleta, e nós acabámos por não trazer o óleo da outra oficina, pelo que o mecânico optou por colocar um líquido das motas. Já não sei nem quero saber. Estou a ficar muito aborrecida. A trabalheira que a bicicleta nos está a dar, porque o senhor mecânico em Díli achou por bem tirar-me a jante de origem e pôr-me uma traquitana. Se eu imaginasse tal, nem teria posto os pés na oficina, quando voltei a Díli. Continuaria com as mudanças desafinadas, com os pedais de encaixe, e pronto.

Desistimos desta oficina e concordámos todos em voltar à loja das bicicletas em Kupang, onde existe uma oficina especializada. São duas da tarde.

Pertamax, Premium e Pertalite são gasolinas com diferente grau de octanas. Solar e Dexlite são dois tipos de gasóleo, sendo o Solar o de menor qualidade. Segundo o site “TransportPolicy.net”, citado abaixo, a Pertamax tem 91 octanas. A imagem diz 92, não sei. A gasolina Premium tem 88 octanas. A Pertalite tem 90 octanas. Existe uma “Pertamax Plus” com 95 octanas, que não consta neste placard.¹

De volta à loja e oficina das bicicletas. São 3 da tarde. Estas bicicletas penduradas na parede têm o preço de cem euros, aproximadamente.

A foto ficou desfocada, mas em cima da caixa está o nosso almoço, o que comprámos de manhã.

Eu estou tão sorridente porque sorrir para as fotos já é automático, está visto. Efetivamente eu não estou contente. Eu estou possessa. Um dia inteiro perdido. A esta hora era suposto eu já ter feito 30 ou 40 km de bicicleta pelo campo, a passear e a tirar fotografias calmamente, e ainda não saí desta barulhenta cidade sem graça nenhuma, a andar para trás e para a frente na pickup à procura de peças. Bom, pelo menos vou comer. E a comida até é bastante saborosa, disto não me posso queixar. Tenho na mão um cubo gigante de arroz, embrulhado em folhas de bananeira e papel. Nos saquinhos de plástico está o resto da comida. São 4 pacotes de arroz porque somos 4. E há três saquinhos a mais, com umas quaisquer iguarias excedentes.

Se isto é aborrecido para mim, que estou de férias, imaginem para quem está a trabalhar. Agradeci aos três a paciência e o trabalho que estão a ter.

Nesta oficina – finalmente especializada e entendida na matéria – agora tiveram de desfazer o que a outra oficina fez. Claro que o líquido que puseram nos travões não é o adequado. Foi necessário retirá-lo e lavar tudo muito bem. E as pastilhas não tinham problema nenhum. Qual é o problema então? Porque é que a bicicleta não trava??

E foi o dono da loja – este rapaz chinês – quem descobriu o problema. (Creio que é chinês, eu sou uma nulidade a identificar as nacionalidades pelos olhos). O Ronaldo ontem pôs aquela pasta gordurosa na jante. Ora gordura e travões nunca resultaram bem em conjunto. A gordura ter-se-á espalhado por onde não devia. A bicicleta deixou de travar. Portanto o dono da loja descobriu que a única forma de resolver o problema é comprar uma jante nova outra vez, e também um disco novo.

E assim foi.

Entretanto anoiteceu e os pais começaram a chegar com as crianças, ao final da tarde, para lhes comprarem as prendas (de aniversário, certamente).

Eles partem felizes, com as suas novas bicicletas, e eu parto (feliz também, no meio desta chatice toda?) porque a minha bicicleta finalmente está arranjada. São quase 19h. Perdemos um dia inteiro nesta viagem. Hoje fiz 5 km na bicicleta e 154 km na pickup. E agora tenho cinco pneus e sete jantes. Cinco pneus e sete jantes! E mais umas câmaras de ar. É que ainda levamos uma jante e disco extras para o caso de haver algum vestígio de óleo que suje a nova jante e disco. É o que dá tentar remediar a coisa com amigos. O Ronaldo tentou ajudar-nos e acabou por fazer-nos passar um dia na oficina. Relativamente ao mecânico em Díli, que nos meteu em todo este sarilho ao trocar o pneu sem dizer nada a ninguém, eu perguntei ao Valério se ele ainda tem a catana na pickup. O Valério riu à gargalhada.


¹ “Indonesia: Fuels: Diesel and Gasoline” (s.d.). TransportPolicy.net. Página consultada a 21 Janeiro 2019,
<https://www.transportpolicy.net/standard/indonesia-fuels-diesel-and-gasoline/>

097 - 20º Dia, É desta que Finalmente Partimos

Esta foto foi tirada à noite, antes de ir para o hotel. Ao fundo à direita vêem-se jacas, que também já mostrei na crónica 49, em Manufahi (Timor-Leste). E ao centro em baixo está a pitaia, que eu conheço por “dragões vermelhos” por ter aprendido em inglês quando estive no Vietname. Estas pitaias vêem-se à venda em alguns supermercados em Portugal, para quem deseja experimentar sem ir à Ásia 🙂 Vejo a seguinte informação na Wikipedia:

Imagem retirada de https://pt.wikipedia.org/wiki/Pitaia

Existem três espécies de pitaias: a pitaia-branca (rosa por fora e branca por dentro), a pitaia-amarela (amarela por fora e branca por dentro) e a pitaia-vermelha (avermelhada por dentro e por fora). Como a planta da pitaia só floresce pela noite (com grandes flores brancas), as suas flores são algumas das várias plantas chamadas de “flor da noite”. As pitaias de casca vermelha, particularmente, são grande fonte de vitamina A, e são ricas em ferro.¹

Aqui o Valério voltou a comprar-me um cacho de bananas. Novamente muito frutadas, parece que estou a comer um batido com várias frutas misturadas. Juntamente com um pacote de leite com chocolate, uma ou duas bananas foram o meu jantar. Não me apeteceu jantar. Recordo que tenho pensão completa nesta viagem, ou seja todas as refeições estão incluídas. Pelo que se não me apeteceu jantar, é porque não me apeteceu mesmo. Eu estou desejando é de ver-me livre da barulheira e do trânsito caótico de Kupang. Este hotel sossegadinho veio mesmo a calhar – daqui de dentro já ninguém me tira.
Só me arrependo hoje de não ter comprado uma jaca. Gosto tanto. Ou até mesmo uma pitaia, só para matar saudades, pois este fruto não tem grande sabor. Mas as más experiências que tive no passado, de comer fruta crua com as mãos, e de diarreias e gastroenterites, fazem-me pôr um travão nestes meus apetites. Vou ter de resolver isto de alguma forma, nas minhas próximas viagens.

Chegada ao hotel onde vou pernoitar. Foi preciso andar à procura de hotéis com quartos disponíveis, e particularmente em ruas sem trânsito, o que em Kupang não é fácil. Mas este é bastante tranquilo e confortável.

Autocolante no teto com a indicação “Kiblat”. Mostra qual a direção de Meca, para os hóspedes do hotel poderem rezar na direção certa. Estamos na Indonésia, país de muçulmanos.

Amanhece novamente em Kupang. Estou no 20º dia da viagem. Eu já não devia estar aqui, mas pronto. Pelo menos tenho uma bonita paisagem neste hotel, e um bom pequeno-almoço. Como não jantei, agora vou comer bem. São 5.45h da manhã. O pontualíssimo Valério chegou às 6, e o Sanches às 6.20h. Ambos pernoitam no mesmo quarto, enquanto viajamos os três. Desta vez tomamos todos o pequeno-almoço aqui, e a partida está marcada para as 6.45h. O Valério falou-me que nestas terras fazem massagens baratas, e contou-me que esta noite fez uma. Aliás, perguntou-me se eu queria contratar uma, mas eu estava tão saturada das oficinas e com tanto sono, que não quis. Porém creio que me arrependi, devia ter feito! Em praticamente todas as viagens faço uma massagem de uma hora para relaxar, e nesta em Timor escapou-me. O Valério foi mais esperto. Custou 11 dólares, disse-me.

O cozinheiro a preparar-me ovos mexidos, a meu pedido. Sabe bem comer assim de vez em quando; em Timor-Leste fazem falta estes bons pequenos almoços às seis da manhã. O Hotel Timor em Díli deve ter (e a estas horas) mas as pousadas e guesthouses também deveriam ter. São países quentes, convém começar os dias cedo. (Bom, os nórdicos da Europa são dos países frios e devem responder-me que nos seus países também os dias começam bem cedo). Os latinos e os timorenses é que gostam de deixar o vale dos lençóis já a manhã vai a meio. Sendo eu latina, não me enquadro nesta filosofia. Mas também não me enquadro nos países frios. Frio é que não. Portanto, meus amigos: calor e matinar… é o que está a dar. Fiz um verso e tudo. O mundo chama-me, esperam-me tantas aventuras e descobertas. Consigo lá ficar na cama mais meia hora que seja.

As crianças estão a entrar na escola, a esta hora, e há polícias por todo o lado a orientar o trânsito, sobretudo junto às escolas.

Isto é um déjà vu… aqui estou eu novamente a buscar o Rui na sua casa. Ontem foi exatamente o mesmo. Ontem fiz 5 km na bicicleta e voltámos para trás, vamos ver se hoje a coisa corre melhor.

E aqui estamos nós novamente no restaurante, para levarmos o nosso almoço embalado. O Rui aproveitou também para tomar o pequeno-almoço.

Enquanto isso eu estou na rua a tirar fotos a quem passa. E chegou este casal, que veio cumprimentar-me. São os pais adotivos do Rui, descobri pouco depois. O Rui é de Baucau, em Timor-Leste, mas veio morar para Kupang quando era criança, em fuga da guerra. Os pais mantiveram-se em Timor-Leste. Este casal também é timorense e ele é tio do Rui. Como tomaram conta dele quando fugiram para a Indonésia, o Rui trata-o por pai. Segundo a tradição timorense, nestes casos o tio é considerado “aman kiik” (ou pai mais novo) em vez de tio. Hoje o Rui trabalha na prisão de Kupang. É muito “cool” (é uma boa descrição que encontro) e vai ajudar-me em tudo o que consegue, nas minhas lides ciclísticas. Vai pedalar um bocadinho e tudo, numa subida, quem diria, com aquela bela barriga proeminente.


¹ “Pitaia”, Wikipedia. Página consultada a 22 Janeiro 2019,
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Pitaia>

098 - De Bicicleta em Timor Indonésio II

Até parece mentira. Finalmente estou a pedalar. São 8.20h da manhã. Até vou um pouco insegura, sempre à espera que a bicicleta falhe novamente. Mas agora tenho duas bicicletas, cinco pneus e sete jantes. A coisa há-de funcionar! E efetivamente funcionou, hoje farei 56,5 km na bicicleta e outros 225 km na pickup, num total de 282 km. É o dia maior e mais puxado de toda a viagem, este. Vamos regressar a Kefamenanu, cidade indonésia, onde pernoitaremos, e no dia seguinte voltaremos a entrar em Timor-Leste. Vamos por estradas alternativas dado que eu pedi à Timor MEGAtours para não fazermos a mesma estrada principal que fizemos para cá, e por isso nos acompanha o Rui, que faz de guia local, dado que conhece bem toda esta região. Quando chegarmos a Kefa (como eles dizem, abreviado) o Rui apanhará uma microlet de volta para Kupang. Já virá pela estrada principal, alcatroada e direta, será mais rápido. (As microlets são as carrinhas que fazem de transporte público).

Estamos a cerca de 40 km de Kupang e esta zona é muito bonita e tranquila. Deve ser a Sintra ou Cascais cá do sítio. Vêem-se casas coloridas, jipes, parabólicas e motos.

E apanhei um susto, foi aqui que vi o único acidente de mota desta viagem, ou mais precisamente uma scooter: um rapaz dos seus 15 anos despistou-se. A uns cem metros de mim. Ninguém lhe tocou, terá sido excesso de velocidade, ou derrapou na gravilha, não sei. Espalhou-se ao comprido e o pior é que levava uma criança duns 4 anos consigo. Ambos puseram-se em pé, a criança a chorar loucamente com sangue na cara, e o mais velho com sangue na t-shirt, da criança. E agora, eu na bicicleta, sem conseguir transportar nenhum. O rapaz deu-me a entender que queria a minha bicicleta. Então e a criança, vai como? Entretanto o rapaz levantou a scooter do chão e foi a conduzir nela, com a criança agarrada a ele, em direção à casa mais atrás, a uns duzentos metros, onde uma senhora que estava a ver tudo os recebeu e com certeza foi desinfetar a ferida da criança. E apareceram outras pessoas da casa em frente. Eu fiquei parada a assistir. Se houvesse necessidade telefonaria ao Valério e levarmo-los-íamos ao hospital. Todavia será só susto e sangue, pois aparentemente ambos estão bem e andam, serão apenas escoriações. Prossegui viagem, ainda um pouco em sobressalto, depois deles desaparecerem dentro da casa da senhora.

É professor de Filosofia da Religião numa universidade na ilha de Sumatra, contou-me. Ui, disse eu, Filosofia da Religião não é para brincadeiras… é muito pensamento… Está agora de férias e regressou à sua casa. Eu, vendo tantas casas coloridas e estando encantada com elas, perguntei-lhe se vai pintar a sua. Riu-se e respondeu que sim. E de que cor? – perguntei-lhe, curiosa. De castanho, amarelo, talvez branco – respondeu-me, rindo com o assunto inesperado. O professor estará habituado a conversas e pensamentos profundos, na universidade, e agora depara-se com uma preocupação simples (e legítima!) de cores. O bebé é seu neto, explicou-me também.

Selamat Datang, em cima, significa “bem vindo” como já expliquei na crónica 97. Selamat Jalan significa “boa viagem”. Pantai significa “praia” e Beringin é o nome da terra. Não se vê nenhuma praia, mas ela está aqui mesmo ao lado.

Vou de Kupang para Kefamenanu. Estou em Pantai Beringin.

O sinal de trânsito é curioso e significa o seguinte: é proibida a passagem a veículos cuja carga de eixos pese mais de 8 toneladas, ou cujo tamanho exceda 2.500 milímetros de largura, ou o comprimento exceda 12.000 mm.

O Valério está à minha espera na estrada à direita. Há uma montanha agora a subir, diz-me. Faço-a então no tabuleiro da pickup para sermos mais rápidos.

Imagem retirada daqui.

De volta à bicicleta.

099 - Visita a outra Casa e a uma Escola de Timor Indonésio

A senhora da foto abaixo perguntou-me se eu quero entrar. Fez-me gestos nesse sentido. Eu não me fiz rogada.

Ele foi apanhado na sessão fotográfica. Nem sei se acordou. A gente não fala nada – eu não percebo indonésio e ela não percebe português, pelo que andamos em silêncio. Bastam gestos para nos entendermos.

A professora, que simpaticamente me recebeu na escola e falou em inglês comigo. São 11 da manhã.

Outra escola. Se as placas em tétum de Timor-Leste ainda as vou percebendo, estas em indonésio não percebo nada.

O Valério a fazer a subida por mim. Nos 831 km de bicicleta, temos de descontar estes cem metros. Afinal fiz apenas 830,9 km!

100 - Pedalando Estrada Fora

Os dois militares são timorenses de leste.

Mais outro “bem vindo” (Selamat Datang), desta vez a “Desa Naitae”, ou seja, à vila de Naitae. Esta vila tem uma especificidade, todavia. É uma “Kampung KB”, ou em português, “Aldeia PF” – de Planeamento Familiar.
Encontro esta notícia de 2017 na BBC News:
“Nós vamos para o campo para motivar as pessoas. Às vezes querem ter três filhos. Nós  dizemos que dois é suficiente. Às vezes as pessoas não concordam, dois não são suficientes, ainda querem três. Fazemos um serviço de planeamento familiar uma vez por mês, especialmente para controle de natalidade, com pílulas, preservativos, implantes de DIU de longo prazo (dispositivos intra-uterinos).”

O governo indonésio lançou um programa de planeamento familiar no final dos anos 1970, com o objetivo de incentivar a população a usar contracetivos e reduzir o número de nascimentos. O número de filhos ideal numa família é considerado de dois. Quarenta anos depois o programa revelou-se fracassado: os valores duma pequena família próspera ainda não estavam vivos, como evidenciado pela fertilidade da população da Indonésia em 2012, com uma taxa de 2,6 por mãe, relativamente alta. Esta província no leste da Indonésia, onde me encontro agora – East Nusa Tenggara – registou um número elevado: 2,5. Atualmente, a taxa média de natalidade na Indonésia está no nível 2.3, ainda alto.¹

Veja-se o report do “FP2020” (o “Family Planning 2020” é o resultado do “London Summit on Family Planning”, realizado em 2012, no qual mais de vinte governos se comprometeram a abordar a política, o financiamento e a distribuição, bem como a resolver as barreiras socioculturais no acesso às informações, serviços e fornecimento de métodos anticoncepcionais às mulheres. O FP2020 trabalha com governos, sociedade civil, organizações multilaterais, doadores, setor privado e a comunidade de pesquisa e desenvolvimento para permitir que mais 120 milhões de mulheres e jovens raparigas usem contraceptivos até 2020).²

Segue o report do “FP2020”:
“O Governo da Indonésia prioritizou o uso de contracetivos modernos entre diversos grupos de mulheres e continua a melhorar a qualidade dos serviços. Desde o compromisso original do FP2020 em 2012, a Indonésia aumentou o investimento nacional no planeamento familiar e, em 2017, comprometeu-se a alocar 1,6 biliões de dólares nesta área entre 2015 e 2019. A Indonésia integrou inclusivamente o planeamento familiar no seu programa nacional de seguro de saúde, e visa expandir o seu alcance através do envolvimento do setor privado, incluindo serviços pós-parto e pós-aborto.³

Continuando com a notícia da BBC:
A partir de 2016, a Agência Nacional de Planeamento Familiar iniciou um novo projeto chamado “Kampung KB”, focado em alvos pobres, áreas urbanas densamente povoadas, vilas de pescadores, bairros de lata e outras áreas desfavorecidas. Espera-se que este novo projeto – “Kampung KB” – seja capaz de alcançar a comunidade, especialmente em aldeias, vilas e vilarejos em toda a Indonésia. Até setembro de 2017, foram desenvolvidas 1.200 “Kampung KB” em todas as províncias da Indonésia. Nova esperança deu-se também com a entrada do planeamento familiar no seguro nacional de saúde, onde tudo é suportado pelo Estado.

A maioria ou 45% das mulheres indonésias realiza contracepção por injeção, enquanto o resto consome pílulas (22,6%), usa implantes (7,5%), dispositivos intra-uterinos (DIUs) ou espirais (8,1%), faz laqueação de trompas (6,4%), e uma minoria usa preservativo (2,6%).
Em 2019, a Indonésia visa atingir pelo menos 2,8 milhões de novos utilizadores, com uma proporção de uso de anticoncecionais modernos de 65%.¹

Esta foi tirada pelo Valério. Estava aqui parado à minha espera e disse-me que as senhoras queriam tirar uma foto comigo. Chamou-me ao longe, andava eu a fotografar as alfaces: “NORTE!”. Chamarem-me assim, desta maneira, até obedeço logo. Dei meia volta na bicicleta e fui ter com eles para saber o que me querem. O Valério, bem como outros timorenses, também me chamam frequentemente de “mana”. Passei a ter muitos irmãos e irmãs em Timor. Mas desta vez fui chamada pelo meu nome. Uma das raras vezes em que me chamou pelo último nome, o Valério. Houve um dia em que ele estava distraído com qualquer coisa, ao pequeno-almoço, e eu chamei-o com a mesma autoridade: “XIMENES!” O Valério endireitou-se imediatamente e quase fez a continência. Rimo-nos. Toma lá para aprenderes, caro companheiro da pickup.

Agora é o Rui que faz esta subida por mim. Portanto em vez de 831 km (menos os cem metros do Valério, na crónica anterior – 830,9 km) afinal só fiz 830,8 km nesta viagem! Temos de ser rigorosos. Há aqui um trabalho de equipa de ciclistas.

Tenho agora 51 km de bicicleta e são 13.20h. Há uma subida de 600 metros, dizem-me. Ninguém quer fazê-la. Vou então no tabuleiro da pickup, pronto.


¹ Amindoni, Ayomi (2017, 12 Dezembro) “Kampung KB, upaya ‘mendengungkan’ kembali keluarga berencana”. BBC Indonésia. Página consultada a 27 Janeiro 2019,
<https://www.bbc.com/indonesia/majalah-42225648>

² “FP2020 – About Us”. Family Planning 2020. Página consultada a 27 Janeiro 2019,
<https://www.familyplanning2020.org/about-us>

³ “Indonesia – Commitment Maker Since 2012”. Family Planning 2020. Página consultada a 27 Janeiro 2019,
<https://www.familyplanning2020.org/indonesia>

101 - O Rochedo da Senhora que Chora

Estou agora com 57 km na bicicleta e são 14h. Vamos almoçar o que trouxemos do restaurante, esta manhã (crónica 98).

Nos 2.580 km totais estão incluídos os 838 km ao longo do rio Danúbio, na Europa Central. Estou no 20º dia da viagem em Timor e com 640 km de bicicleta até agora. 1.478 km, portanto, nestas duas viagens, até agora. Os restantes 1.102 km foram feitos em Portugal. Os 600 km da China em 2017 não estão aqui incluídos, pois não levei este GPS. Comprei-o no início de 2016, nada mau. Fiz estes 2.580 km de bicicleta em 2,5 anos, portanto. Mais os 600 km na China dá 3.180 km de bicicleta nestes 2,5 anos. (Agora, aqui em Timor, estou em Agosto de 2018). Espero fazer muitos mais no futuro. Haja saúde e dinheiro para viajar.

Segue o detalhe dos quilómetros feitos até agora, desde o último report na crónica 75:

16º dia
Oecusse
44 km na bicicleta
53 km na pickup
97 km no total

17º dia
Oecusse – Kefa – Soe
27,5 km na bicicleta
123 km na pickup
151 km no total

18º dia
Soe – Kupang
76 km na bicicleta
100 km na pickup
176 km no total

(Nota: a distância que eu fiz entre Soe e o hotel de Kupang foi de 96 km. Ou seja, fiz 76 km na bicicleta e outros 20 na pickup. Os restantes km feitos pelo Valério na pickup – 80 km – referem-se a afazeres ligados à viagem e ao seu próprio alojamento, juntamente com o guia Sanches, dado que não ficaram alojados no centro de Kupang como eu fiquei).

19º dia
Kupang oficina
5 km na bicicleta
149 km na pickup
154 km no total

20º dia
Kupang –  Kefamenanu por estradas alternativas
56,5 km de bicicleta
225 km na pickup
282 km no total

O meu já conhecido arroz embrulhado em folhas de bananeira (comemos o mesmo ontem ao almoço, na oficina), frango frito, e do lado esquerdo do arroz está uma espécie de patanisca, mas feita apenas com legumes, e puré de batata. Absolutamente deliciosa. Do lado direito estão legumes e um molho em pasta. Daquele bloco de arroz comi apenas uma parte. O resto foi para um dos cães equeléticos que por aqui andam. Também há peixe, comi uns bocadinhos de peixe também, que entretanto tiraram dos embrulhos.

O Rui, tendo crescido na Indonésia, come como os indonésios: com a mão. Conforme contei na crónica 98, o Rui é de Baucau, em Timor-Leste, mas veio morar para Kupang quando era criança, em fuga da guerra, e foi adotado pelos tios. Nasceu em 1980. Ora a invasão ocorreu entre 1975 e 1999. Hoje (em 2018, data desta viagem) tem portanto 38 anos. E trabalha na prisão de Kupang. Tem quatro filhos: 15, 11, 8 e 2 anos. A mulher faleceu há dois anos num acidente de mota em Timor-Leste, em que iam os dois, num perfeito azar: uma peça de metal numa casa atingiu-a na cabeça, em andamento. O Rui ainda não quer casar, contou-me, diz que amava muito a mulher. Eu disse-lhe que ela quereria a sua felicidade e que ele devia casar outra vez. Uns cinco anos depois do acidente, talvez, já será um luto mais do que suficiente. Quer que a filha de 15 anos comece a trabalhar primeiro, acrescentou. Está na escola secundária.

Não é sangue, é mesmo o Rui a cuspir a substância vermelha que se masca em toda a ilha de Timor – “Bua Malus”, a qual já apresentei na crónica 80.

E partimos novamente. Conforme expliquei na crónica 98, hoje temos um total de 282 km para fazer. É o dia maior e mais puxado de toda a viagem. Dadas todas as restrições que tive nos últimos dois dias – num tínhamos de passar a fronteira até determinadas horas, noutro a bicicleta avariou-se e passei o dia na oficina – hoje o Valério e o Sanches nem me disseram nada. Eu que pedale o que quiser. Estamos a caminho de Kefamenanu, cidade indonésia. Vamos por estradas rurais, em muito más condições, e não sabemos a que horas vamos chegar. Eu depois de almoço, de barriga cheia, sigo na pickup, ok, vamos acelerar agora.

O “Rochedo da Senhora que Chora” – chama-se assim – porque parece uma mulher grávida sentada. Reza a lenda que era a filha do Rei, a qual amava um homem não pertencente à nobreza. O Rei disse que ela não podia casar com ninguém de baixo nível e que se transformaria em pedra se o fizesse. E ela casou-se e aqui está o rochedo para sempre recordar o seu amor por aquele homem.
(Que romântico, vamos chorar um bocadinho…)

A pickup lá ao fundo.

Rute, a anti-lendas românticas! (Eu defenderia os encontros secretos entre eles… Qual casar e transformar-se numa rocha!… dessem umas escapadelas de vez em quando, e a criança nasceria, hoje seria adulta, já teriam netos certamente, e como o rei entretanto morreria, acabar-se-ia a maldição e eles continuariam vivos! Sejamos práticos).

102 - A Ousada Travessia da Ponte em Ruínas & Relacionamento entre Timor-Leste e Indonésia

Aproveitemos esta parte da viagem para falar do atual relacionamento entre Timor-Leste e a Indonésia. Deixo uma nota de que o facto de estarmos a atravessar uma ponte em ruínas nada tem a ver com este tema, não é nenhuma mensagem subliminar. Calhou. Ando para falar disto desde que entrámos na parte indonésia da ilha de Timor, e há sempre tanta coisa para falar, que isto tem ficado para trás. Mas nesta crónica não tenho grande coisa para contar, as imagens falam por si, pelo que vai ser agora mesmo. Senão ainda entramos outra vez em Timor-Leste e eu com este assunto pendente. De qualquer forma, o título da crónica até nem calha mal: a ousada travessia da ponte em ruínas. Enfim. Se calhar seria melhor construir a ponte em vez de deixá-la em ruínas. Não, decididamente o título não é nenhuma mensagem subliminar. Não me digam que ainda tenho de pôr este texto noutra crónica qualquer.

Relembrando:
A Indonésia justificou a invasão, em 1975, alegando a defesa contra o comunismo, discurso que lhe garantiu apoio do governo dos Estados Unidos e da Austrália, entre outros, mas que não impediu a sua condenação pela comunidade internacional.¹
Em 1999 Timor-Leste livrou-se do jugo indonésio, e, extremamente debilitado pela ocupação que durou 24 anos, foi administrado durante dois anos pelas Nações Unidas – mais especificamente pela UNTAET (Administração Transitória das Nações Unidas em Timor-Leste) até finalmente se tornar independente em 2001 e assumir as suas próprias rédeas.

Vamos então saltar para 2014.
Vejamos esta notícia de 2014, a propósito da visita do então Presidente da Indonésia, Susilo Bambang Yudhoyono, a Timor-Leste:

“Nós estamos a escrever novos capítulos da nossa história nas relações com a Indonésia e quem representou um papel importantíssimo para isso foi o Presidente Susilo Bambang Yudhoyono e o primeiro-ministro, Xanana Gusmão, bem como o antigo Presidente Ramos-Horta e o antigo chefe do executivo Mari Alkatiri”, afirmou José Luís Guterres, chefe da diplomacia timorense.

O Presidente da Indonésia, Susilo Bambang Yudhoyono, terminou hoje uma visita oficial de três dias a Timor-Leste, a última que realiza ao país enquanto chefe de Estado indonésio, com a inauguração do novo edifício do Ministério das Finanças timorense, situado junto à Avenida de Portugal, em Díli.
“Como timorenses podemos ter orgulho de, em tão pouco tempo, tendo em conta as conturbadas relações no passado, termos construído uma relação diferente, uma relação baseada no respeito mútuo, na boa vizinhança e cooperação e na fraternidade que existe entre os nossos povos”, salientou o ministro dos Negócios Estrangeiros timorense.
Segundo José Luís Guterres, a visita de Susilo Bambang Yudhoyono foi um “sucesso” e intensificou as relações entre os dois países.
“Mas o mais importante foram os 10 anos da sua Presidência onde desempenhou um papel importantíssimo”, afirmou, acrescentando que a cooperação em geral está a avançar.
Timor-Leste e a Indonésia assinaram na terça-feira vários memorandos de entendimento nos setores da educação, cultura, pescas, fronteiras e desenvolvimento regional integrado.
Susilo Bambang Yudhoyono entrega no dia 20 de outubro a Presidência da Indonésia a Joko Widodo (…)”²

Vamos agora para 2016, já sob a Presidência Joko Widodo:

A remodelação governamental decidida pelo presidente indonésio Joko “Jokowi” Widodo continua a gerar críticas no que respeita à nomeação do general Wiranto como ministro para a coordenação dos Assuntos Políticos, Legais e de Segurança. Uma tarefa que inclui as pastas dos Negócios Estrangeiros, Interior e Defesa. “Junta um insulto à injúria. No dia seguinte a ordenar uma nova ronda de execuções, o presidente Jokowi decidide pôr o controlo do aparelho de segurança em alguém que foi acusado de crimes contra a humanidade por um tribunal da ONU”. Foi desta forma que o diretor regional da Amnistia Internacional, Josef Benedict, reagiu à remodelação, anunciada a 27 de julho. O responsável para o Sudoeste Asiático e Pacífico salienta no site da organização o profundo “desrespeito dos direitos humanos”, apenas 24 horas depois da decisão presidencial de executar mais 14 pessoas.

O general nunca deixou a atividade política apesar das várias acusações internacionais sobre o seu papel durante a ocupação de Timor-Leste entre dezembro de 1975 e outubro de 1999. Decidida pelo presidente Suharto, a invasão e consequente ocupação de Timor-Leste terá originado a morte de, pelo menos, 100 mil pessoas num território com cerca de um milhão de habitantes.

Para o diretor para a Ásia do grupo de defesa de direitos humanos Human Rigths Watch, “a alegada cumplicidade no assassínio, incêndio e expulsão forçada em Timor- Leste em 1998 habilitam Wiranto a um julgamento”. “Não para um lugar no Governo”, disse Phelim Kane ao “Jakarta Post”. O general também está envolvido em acusações na própria Indonésia, como a morte de quatro estudantes nas Universidade de Trisakti, na mesma altura.³

E agora saltamos para 2018, desta vez com Joko Widodo (Presidente indonésio), a receber o Presidente timorense, Lu-Olo, na Indonésia:

O chefe de Estado timorense foi recebido com honras militares (…). Os dois presidentes, que nunca se tinham encontrado – Lu-Olo foi eleito em 2017, dois anos após a visita que Widodo efetuou a Timor-Leste -, seguiram depois para o Salão Teratai onde posaram para fotos, acompanhados das respetivas mulheres. Lu-Olo assinou o livro de visitas antes de, simbolicamente, plantar uma árvore nos jardins do complexo. Os dois chefes de Estado conversaram depois durante alguns minutos. Uma conversa que obrigou ao recurso de intérprete já que Lu-Olo falou português e Widodo indonésio.⁴

“Queremos ser um parceiro de confiança de Timor-Leste: a Indonésia pode ser o principal parceiro”, disse Widodo, recordando que já operam no país nove empresas estatais indonésias e 400 privadas com um investimento total de 595 milhões de dólares. Por isso, defendeu acordos para a proteção de investimento, bem como um reforço das conectividades, tanto terrestres como aéreas.

Lu-Olo, por seu lado, aproveitou o encontro para agradecer o apoio regional que a Indonésia tem dado a Timor-Leste. “Timor-Leste agradece o apoio contínuo do Governo da Indonésia na adesão de Timor-Leste à ASEAN [Associação de Nações do Sudeste Asiático]. Lu-Olo destacou as “excelentes relações” entre os dois países, abrangendo “muitas áreas de cooperação”, incluindo a economia, educação e segurança, bem como os “negócios e o relacionamento” entre os povos. “Espero que, no futuro, os nossos dois países possam cooperar em investimentos conjuntos em algumas indústrias primárias como a produção de sal, a agricultura e as indústrias pesqueiras”, frisou.

Lu-Olo reiterou o compromisso de se concluírem as negociações sobre a fronteira terrestre entre os dois países – faltam apenas dois pequenos segmentos (…). “Falta iniciar a discussão sobre a fronteira marítima”, recordou. [Sobre a questão das fronteiras terrestres entre Timor-Leste e a parte indonésia da ilha de Timor, irei falar sobre este tema detalhadamente um pouco mais à frente].
Noutro âmbito, Lu-Olo recordou que estão cerca de cinco mil estudantes timorenses a estudar na Indonésia e que Timor-Leste acolhe cerca de oito mil residentes indonésios.⁵

Mas nem tudo são rosas.
Paralelamente, associações como a AJAR – Asian Justice and Rights, uma associação de direitos humanos na Indonésia com representação em Timor-Leste, tem trabalhado para resolver o caso das “crianças roubadas”. Espalhados pelo vasto arquipélago indonésio, há milhares de timorenses que, à força, ainda crianças, foram retirados às suas famílias, das suas terras e levados para milhares de quilómetros de distância, obrigados a mudar de religião e até de nome. Vítimas praticamente invisíveis da ocupação indonésia de Timor-Leste e que, ainda hoje, continuam sem ver a família, sem regressar à sua terra natal, sem saber sequer se os familiares estão vivos ou onde se encontram. Do lado de Timor-Leste, os seus familiares procuram por eles, sem saber onde se encontram. Em alguns casos, até já fizeram o luto, deixando perto de casa túmulos sem corpo a lembrar um filho ou uma filha perdida.

Em 2016 um pequeno grupo de 11 homens e mulheres, alguns já pais e mães, chegou a Timor-Leste, a maioria pela primeira vez desde que foram roubados às famílias e levados para cidades e vilas na Indonésia. Galuh Wandita, da AJAR – que é responsável por este programa de reunião familiar – explicou à Lusa na altura que se trata de encontrar a “geração roubada”, um grupo de pelo menos 4.000 timorenses – segundo o relatório da Comissão de Acolhimento Verdade e Reconciliação (CAVR) – que terá sido levado de Timor-Leste. “Estamos a procurar sobreviventes de um grupo que eu acho que pode ser muito maior do que essa estimativa de 4.000. Para já, só estamos a trabalhar com contactos de outros sobreviventes, que se lembram de pessoas ou conhecem outras”, explicou.

Hoje com as suas vidas na Indonésia, é particularmente complexo procurar as reuniões. “É uma questão muito sensível para eles. Vivem na Indonésia há muitos anos, estão integrados nessa cultura e nesse país e nós tentamos apenas fazer a ponte”, explicou. “De um ponto de vista de direitos humanos, são crianças roubadas às famílias. Mas a realidade é que hoje já têm eles as suas próprias famílias, estão em novas comunidades”, notou.
Todos têm nomes diferentes daqueles com que foram batizados: desapareceram os nomes próprios e apelidos timorenses – ou portugueses – e são hoje conhecidos por nomes indonésios, a maior parte muçulmanos.

Entre os que vieram em 2016, por exemplo, Ernâni Monteiro é Mubaraj Wotu Modo, Eugénio Soares é Muhammad Irfan, e a sua mulher, com quem se casou em 2001, é também uma criança roubada, Dortea Hornai, agora Siti Latifah Dortea.

Rosita, hoje Rosnaeni, é uma das crianças roubadas há mais tempo. Em 1978 ela e a irmã foram levadas à força da sua casa em Railakolete por elementos do batalhão indonésio 612 para Makassar, onde, mais tarde, acabaram por ser separadas. Rosita nunca mais viu a irmã. As promessas de uma educação, feitas pela família indonésia de acolhimento, nunca se materializaram e Rosita passou a vida a trabalhar arduamente nos terrenos agrícolas. Fugiu muitas vezes mas era sempre devolvida a casa. Já adulta, saiu de Makassar e vive em Sulawesi Central, ainda sem acesso à educação que lhe foi prometida.

Outro elemento desse grupo de 2016, natural de Baucau, é uma das meninas roubadas em 1999, durante a debandada final dos ocupantes indonésios. Foi levada como refugiada para Atambua, no lado indonésio da ilha, e, mais tarde foi transportada num navio militar para Makassar, onde ficou ao cuidado da Fundação Islâmica Ansar. Instalada com outras crianças numa casa de acolhimento, Teresa foi regularmente espancada: não sabia rezar e era uma refugiada de Timor-Leste, de uma realidade distante da comunidade onde, à força, foi integrada. Mudaram-lhe o nome, agora é a Sity Alma, é empregada doméstica e vive a quase 2.000 quilómetros de Baucau, na cidade de Malili, nas Celebes.⁶

Por mais promissor que seja o futuro – e esperemos que o seja, que se mantenha uma relação cooperante e próspera – é necessário resolver e sarar as feridas do passado, sob pena dos ressentimentos acumulados toldarem o futuro. As vítimas de violações dos direitos humanos em Timor-Leste cometidas durante a ocupação indonésia continuam a exigir justiça e reparações, adverte a Amnistia Internacional no relatório publicado em 2018.

O relatório da Amnistia Internacional 2017/18 abrange 159 países e oferece uma análise abrangente sobre o estado dos Direitos Humanos à escala mundial. Relativamente a Timor-Leste, a Amnistia Internacional lembra que estão por cumprir as recomendações da Revisão Periódica Universal das Nações Unidas (UPR – Universal Periodic Review) para lidar com violações de direitos humanos passadas e garantir a reparação às vítimas.⁷ Apesar de ter sido criado o Centro Nacional Chega (CNC) em 2016 para implementar as recomendações feitas em 2005 pela CAVR (Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação de Timor-Leste), e em 2008 pela Comissão Verdade e Amizade entre Timor-Leste e Indonésia [Ver crónica 67 sobre o report “Chega!” e a CAVR], o Centro não recebeu mandato para responder às recomendações da CAVR sobre justiça e reparação de vítimas de graves violações de direitos humanos.⁸

E, como vimos na crónica 67, a totalidade dos acusados de crimes cometidos em Timor-Leste foram absolvidos pelo Tribunal Indonésio de Direitos Humanos. Dúvidas sobre a imparcialidade deste organismo foram levantadas por muitas organizações de direitos humanos, em particular a Amnistia Internacional, a Human Rights Watch e a Coalition for International Justice.⁹

Já o recente Nobel da Paz, de 2018 – duplo Nobel – atribuído a Nadia Murad, uma iraquiana yazidi que foi raptada e escravizada pelo Daesh, e a Denis Mukwege, um médico congolês que operou dezenas de milhares de mulheres violadas de forma bárbara¹⁰, e que demonstrou que a violência sexual estava a ser aplicada não apenas por motivações pessoais, mas usada como arma de guerra,¹¹ este duplo Nobel mostra a luta nos dias de hoje para acabar com a violência sexual na guerra e nos conflitos armados. A presidente do comité norueguês do Nobel, Berit Reiss-Andersen, afirmou que a edição de 2018 do Nobel pretende enviar a mensagem de que “as mulheres, que constituem a metade da população, são usadas como armas de guerra e precisam de proteção; e que os responsáveis devem ser responsabilizados e processados pelas suas ações”.¹²

Em Timor-Leste este foi um dos frequentes delitos ocorridos durante a ocupação indonésia. Além de fome deliberada, torturas, e todo o tipo de violência. E nenhum dos principais responsáveis está a ser responsabilizado e processado.
Enfim, vai contra tudo pelo qual lutamos nos nossos dias. É uma questão de responsabilidade, seriedade e correção de postura. Ainda há que resolver isto.

Acho que não vou mudar esta análise para outra crónica, portanto. A ponte em ruínas tem mesmo de ser reconstruída. Disse José Ramos-Horta:
“A democracia indonésia é atualmente uma das mais inspiradoras da região do sudeste da Ásia.”¹³
E eu pude comprová-lo numa coisa tão simples como tirar fotos. A tudo e mais alguma coisa, nomeadamente aos guardas e militares nas fronteiras. Ninguém me impediu de nada. Sim, eu notei que há liberdade na Indonésia. Só têm que encerrar de uma vez por todas os erros do passado.

Eles vão em sentido contrário e também hesitam, param, antes de iniciarem a travessia.

Antes de atravessar com a pickup, o Valério foi à frente a pé, seguido do Sanches e do Rui, para verem o caminho. Eu fui em 4º lugar e a pensar que se calhar terei de ligar para o 112 a chamar uma ambulância para os três, se eu conseguir escapar. A bicicleta está no tabuleiro da pickup. (Será que também há 112 na Indonésia?…)

É timorense.

A bola verde ao centro é um dos frutos que trouxemos de Kupang (crónica 96). O Valério guardou dois, mas um já teve de ir fora porque apodreceu (vêem-se os vestígios disso junto ao pneu de trás da minha bicicleta). E este vai apodrecer também e acabará por ir fora igualmente. Não sei o que nos deu na cabeça aos quatro para não abrirmos logo um dos frutos e vermos como é por dentro. Foi durante o episódio da avaria da bicicleta, ficámos todos com a cabeça noutro lado, só pode. Entretanto, apercebo-me que foi má ideia pôr o meu capacete ali, pois ficou cheio de pó. Até a botija da água eu tenho de tirar.

Segundo as placas, estamos em Soliu. A placa à esquerda indica “Corpo Consultivo da Aldeia de Soliu” e será uma casa do povo, pelo que me disse o Valério. A placa à direita refere um posto militar pertencente ao “Governo Distrital de Amfoang Noroeste, Divisão da Aldeia de Soliu”.

Saímos de Kupang às 6.45h. Estamos agora em Soliu. O nosso destino é Kefamenanu. Está a entardecer e ainda estamos a meio caminho, isto hoje promete.


¹ “História de Timor-Leste – Invasão da Indonésia” (s.d.). Wikipedia. Página consultada a 29 Janeiro 2019,
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_de_Timor-Leste>

² “Indonésia e Timor-Leste estão a escrever novos capítulos na história entre os dois países” (2014, 27 Agosto), Agência Lusa, RTP Notícias. Página consultada a 29 Janeiro 2019,
<https://www.rtp.pt/noticias/mundo/indonesia-e-timor-leste-estao-a-escrever-novos-capitulos-na-historia-entre-os-dois-paises_n762543>

³ Martins, Helder (2016, 1 Agosto), ““Carrasco” de Timor com superpoderes na Indonésia”. Jornal Expresso. Página consultada a 29 Janeiro 2019,
<https://expresso.sapo.pt/internacional/2016-08-01-Carrasco-de-Timor-com-superpoderes-na-Indonesia#gs.N01Pkwk>

⁴ “Presidente de Timor-Leste recebido com honras de Estado por presidente indonésio” (2018, 28 Junho). Agência Lusa, O Observador. Página consultada a 29 Janeiro 2019,
<https://observador.pt/2018/06/28/presidente-de-timor-leste-recebido-com-honras-de-estado-por-presidente-indonesio/>

⁵ “Presidentes de Timor-Leste e da Indonésia querem aprofundar relações bilaterais” (2018, 28 Junho). Agência Lusa, SIC Notícias. Página consultada a 29 Janeiro 2019,
<https://sicnoticias.sapo.pt/mundo/2018-06-28-Presidentes-de-Timor-Leste-e-da-Indonesia-querem-aprofundar-relacoes-bilaterais>

⁶ “Documentário sobre crianças roubadas a Timor-Leste durante ocupação indonésia” (2017, 17 Janeiro). Agência Lusa. O Observador. Página consultada a 29 Janeiro 2019,
<https://observador.pt/2017/01/17/documentario-sobre-criancas-roubadas-a-timor-leste-durante-ocupacao-indonesia/>

⁷ “Vítimas de violações de direitos humanos em Timor-Leste ainda insatisfeitas – AI”, (2018, 22 fevereiro). Agência Lusa. Diário de Notícias. Página consultada a 29 Janeiro 2019,
<https://www.dn.pt/lusa/interior/vitimas-de-violacoes-de-direitos-humanos-em-timor-leste-ainda-insatisfeitas—ai-9136169.html>

⁸ “Timor-Leste 2017/2018” (2018). Amnesty International. Página consultada a 29 Janeiro 2019,
<https://www.amnesty.org/en/countries/asia-and-the-pacific/timor-leste/report-timor-leste/>

⁹ “Eurico Guterres – Context” (2004, Dezembro). TRIAL (Track Impunity Always). Página consultada a 29 Janeiro 2019,
<https://web.archive.org/web/20071024091149/http://www.trial-ch.org/en/trial-watch/profile/db/context/eurico_gutteres_569.html>

¹⁰ Ribeiro, João Ruela (2018, 5 Outubro), “Um Nobel da Paz para que as atrocidades contra as mulheres saiam da sombra da guerra”. Jornal Público. Página consultada a 29 Janeiro 2019,
<https://www.publico.pt/2018/10/05/mundo/noticia/nobel-da-paz-atribuido-a–1846353>

¹¹ Bruno, Cátia, (2018, 5 Outubro), “´Este não é um problema só das mulheres, é um problema da humanidade.´ Denis Mukwege, o médico que sara os corpos e tenta aliviar as almas”. O Observador. Página consultada a 29 Janeiro 2019,
<https://observador.pt/2018/10/05/este-nao-e-um-problema-so-das-mulheres-e-um-problema-da-humanidade-denis-mukwege-o-medico-que-sara-os-corpos-e-tenta-aliviar-as-almas/>

¹² “Nobel da Paz 2018 vai para ativistas que lutam contra violência sexual como arma de guerra” (2018, 5 Outubro). G1. Globo. Página consultada a 29 Janeiro 2019,
<https://g1.globo.com/mundo/noticia/2018/10/05/denis-mukwege-e-nadia-murad-ganham-o-nobel-da-paz-2018.ghtml>

¹³ “Indonesia ‘tortured’ Balibo Five” (2009, 24 Julho). BBC News. Página consultada a 29 Janeiro 2019,
<http://news.bbc.co.uk/2/hi/asia-pacific/8166417.stm>

103 - Disputa de Fronteiras em Oepoli & Chegada à Meia Noite a Kefa (Indonésia)

Às 18h começou a anoitecer, e às 18.30h já é noite cerrada. A escuridão é de tal ordem, que eu para fazer xixi nem vale a pena afastar-me da pickup. Quando precisei agachei-me ao lado da roda da frente, do lado do passageiro, sem ver um palmo adiante do nariz. Aliás, se porventura houvesse um buraco ao lado da roda, eu cairia dentro dele, por não o ver. Nós vamos com os olhos habituados aos faróis da pickup e está escuro como breu, no campo, sem luzes nenhumas. Os três ficam sentados dentro da pickup, ou em pé do outro lado da pickup, conforme queiram sair ou não. Isto de viajar com três homens requer uma certa gestão logística.
A certo ponto, seriam umas onze da noite, o Valério parou, desligou o motor e os faróis, e nós saímos para esticar as pernas. Silêncio e escuridão totais. Mas à medida em que os nossos olhos se foram habituando, comecei a vislumbrar um fenomenal céu estrelado. Centenas de milhares de estrelas cintilantes. Fiquei especada a olhar, de pescoço dobrado para trás, naquele silêncio. Ou melhor, com muitos grilos e cigarras a cantarem.
As pessoas andam com lanternas na mão. Passou inclusivamente uma mota com uma família (homem, mulher e criança) e a mota ia sem luz, mas o homem, que era quem conduzia, levava uma lanterna presa na cabeça a iluminar o caminho, tal como os espeleólogos nas grutas.

São 10 da noite, agora, e chegámos a Oepoli, uma aldeia indonésia junto à fronteira com o Oecusse. A zona à frente está a ser disputada entre os dois países, estão a haver negociações entre ambos para definir a fronteira, porém está num impasse. Repare-se que o cartaz está em indonésio, porém também tem o nome da RDTL – República Democrática de Timor-Leste. O cartaz diz:

Komando Pelaksana Operasi Pamtas RI-RDTL
Sektor Barat
Pos Oepoli Sungai
Satgas Pamtas RI-RDTL Yonif 715/MTL

O que significa, segundo o Google Translator:
Comando de Operações Pamtas da República da Indonésia – República Democrática de Timor-Leste
Setor Oeste
Posto do rio Oepoli
Divisão Pamtas da RI-RDTL Batalhão 715 / MTL

Fazendo uma pesquisa adicional na internet, verifico que:
– “Pamtas” são militares do Exército Nacional Indonésio pertencentes a uma divisão de segurança fronteiriça;
– Yonif 715/MTL é o Batalhão 715 / Motuliato. “Motuliato” é o nome do Batalhão e significa “rápido e ágil”. Vejo na Wikipedia que “Yonif 715 / Motuliato” é o batalhão mais jovem nas fileiras do exército indonésio.¹

Enquanto a disputa das fronteiras se resolve e não resolve, os dois exércitos estão unidos em serviço, o que é de louvar.

São militares “Pamtas”, ou seja, pertencem à divisão de segurança fronteiriça. São dez da noite e não estão em serviço, vieram ver o que se passa ao ouvir a nossa pickup a chegar a horas inusitadas. Nem estamos a chegar, estamos de passagem, pois dirigimo-nos para Kefamenanu e ainda falta um bom bocado. Nem nós sabemos ao certo quanto. O Valério, o Sanches e o Rui pediram-lhes indicações sobre o caminho. Que será muito mau, terrível mesmo. São caminhos escuros, de terra e pedras, por vezes com declives muito acentuados, e sem uma única placa a indicar a direção. Quando chegamos a uma bifurcação, é o Rui quem tem de dizer por onde vamos. Se porventura tiver dúvidas, nestes 200 e tal quilómetros de caminho, pois enveredamos por um deles e logo se vê. (Relembro que fui eu que quis vir por aqui, por estradas alternativas. Não quis repetir a estrada principal – de alcatrão, direta – entre Kupang e Kefamenanu, que fiz ao ir para Kupang. E a Timor MEGAtours fez-me a vontade, arranjando um guia local para ajudar-nos no novo caminho).

E enquanto esta longa viagem prossegue, falemos de Oepoli e desta disputa de fronteiras. Repare-se que o militar do centro tem as duas bandeiras na t-shirt – a indonésia e a de Timor-Leste.
Fiquemos com um artigo do “The Conversation”, um site com artigos e estudos provenientes das comunidades universitárias e de investigação. (Reparem que hoje em dia é preciso muito cuidado ao escolher os sites, já que proliferam tantos de notícias falsas. Agora está na moda ganhar dinheiro com notícias falsas, portanto todo o cuidado é pouco. Antes de aproveitar algum texto ou sequer perder tempo a lê-lo, é preciso investigar muito bem a sua origem. Este “The Conversation”, que eu não conhecia, parece ser bastante interessante). Vamos ao artigo:

“Os governos da Indonésia e de Timor-Leste devem incluir a população indígena nas negociações das disputas fronteiriças entre os dois países. A comunidade indígena do povo Ambenu em Timor-Leste tem laços de parentesco com o povo Amfoang em Timor Ocidental, na Indonésia, e eles iniciaram os seus próprios diálogos para resolver os problemas decorrentes das disputas fronteiriças.

Impacto na sociedade
Duas fronteiras terrestres separam a Indonésia e Timor-Leste. No leste, um trecho de 150 km divide a ilha de Timor em dois. No oeste, dentro da província indonésia de Nusa Tenggara, uma curva de 120 km cria um enclave timorense, Oecusse, dentro do território da Indonésia. Enquanto a parte oriental da fronteira foi negociada com sucesso, a fronteira em torno do Oecusse permanece em disputa.
Esta disputa prolongada paralisou o desenvolvimento da área. Pior ainda, causou tensão entre as pessoas que ocupam a área da fronteira. Conflito e violência surgiram como resultado dessa situação incerta.

Negociações paralisadas
A Indonésia e Timor-Leste começaram a negociar as suas fronteiras em 2000 após a independência de Timor-Leste em 1999. Enquanto a fronteira oriental foi rapidamente colonizada, a fronteira em torno de Oecusse permanece sem solução.
As negociações destas fronteiras instáveis fizeram pouco progresso até hoje. A última reunião dos ministros das Relações Externas de ambos os países em janeiro de 2018 não trouxe nenhuma solução tangível.

Os dois países basearam as suas negociações fronteiriças num tratado de 1904 entre os portugueses e os holandeses, bem como numa decisão do Tribunal Permanente de Arbitragem de 1914. Mas as suas interpretações do Tratado de 1904 diferem. Negociadores indonésios insistem que a fronteira está no rio Noelbesi, que faria diminuir o território de Timor-Leste. Os negociadores de Timor-Leste dizem que a fronteira está noutro rio mais pequeno, o Nonotuinan.

Negociadores indonésios argumentaram que a base para estabelecer a fronteira não é fiável. Para além destes segmentos não resolvidos, algumas áreas do sub-distrito de Bikomi Nilulat em Timor Tengah Utara também permanecem sem serem definidas.

Diálogo dos povos indígenas
Enquanto se dão as negociações lentas entre os dois governos, as “masyarakat adat” (comunidades indígenas) dos dois países promoveram uma abordagem cultural para resolver a disputa.
Três encontros de adat masyarakat entre o povo Amfoang da Indonésia e o povo Ambenu de Timor-Leste ocorreram em Oecusse (Timor-Leste) em 2012; Kefamenanu (Timor indonésio) em 2012; e [aqui] em Oepoli em 2017.
A última reunião em Oepoli, a 14 de novembro de 2017, reuniu quatro grandes reinos de Timor. Três reis – Liurai Wahali, Liurai Sonbai e Rei Amfoang – da Indonésia reuniram-se com o Rei Ambenu, de Timor-Leste. Estavam unidos pelo espírito de “Nekaf mese e mesa Atoni Pah Meto” (Um coração uma alma, como Povo Atoni).
A reunião foi definida de acordo com a tradição de Timor, com cerimónias e rituais.
Os reis concentraram-se em reavivar laços de parentesco e paz entre pessoas com a mesma ancestralidade. Concordaram em resolver todos os problemas com base nos princípios da paz e do parentesco. Assinaram um acordo comprometendo-se a ver a fronteira entre a Indonésia e Timor-Leste como uma fronteira administrativa que não deveria limitar e separar as suas relações de parentesco.

O encontro em Oepoli constitui um caso único em que as relações internacionais, as relações sociais modernas, vão de encontro à tradição. A reunião não foi sobre a resolução da disputa da fronteira interestadual. No entanto, as suas implicações para resolver a disputa entre a Indonésia e Timor-Leste não podem ser simplesmente negligenciadas.
Na Indonésia, a inclusão do “masyarakat adat” na resolução da disputa das fronteiras foi iniciada com o apoio ativo do comando militar local. Isto abriu caminho para uma discussão em grupo em maio entre o governo da Indonésia e os académicos. O debate constatou que antes do domínio português em Timor-Leste já existiam acordos de fronteira entre os reinos timorenses, sob a forma de juramentos.
Os governos da Indonésia e de Timor-Leste devem começar a envolver os líderes indígenas nas negociações de fronteira. Devem ouvir as aspirações das comunidades indígenas para ajudar a criar uma solução sustentável que beneficie os estados e os seus povos.”²
(Fim de citação)

 

Fiquemos agora com uma análise da “International Crisis Group” (ICG), uma organização não-governamental fundada em 1995, transnacional, sem fins lucrativos, que realiza pesquisas de campo sobre conflitos violentos e desenvolve políticas para prevenir e resolver esses conflitos. (Curiosamente vejo na Wikipedia que um dos seus antigos Presidentes e CEOs foi também Ministro dos Negócios Estrangeiros na Austrália, e que este, em 1991, reconheceu oficialmente Timor-Leste como província da Indonésia, descrevendo o massacre do exército indonésio como uma “aberração”. Ok… Bom, ele disse isto em 1991 e em 1995 foi criado o ICG, o qual veio a liderar… Este mundo não tem descanso e temos de estar sempre alerta… Curiosamente a análise abaixo é tendenciosa pela falta de algumas explicações, mas deixo-a à vossa análise).³

No site do ICG as últimas notícias sobre Timor-Leste datam de 2013. Não há conflitos violentos para prevenir, aparentemente. Deixo no entanto um extrato dum seu relatório de 2010 sobre o tema de hoje – a disputa das fronteiras terrestres entre Timor-Leste e a Indonésia, porque efetivamente algumas partes mantêm-se atuais:

“A Indonésia e Timor-Leste fizeram muito para normalizar as relações após o fim do domínio indonésio na antiga província, mas a boa vontade entre as capitais ainda não é acompanhada pela total cooperação na fronteira. Os custos são maiores no Oecusse, o enclave isolado de Timor-Leste dentro do Timor Ocidental indonésio. Os negociadores até agora não conseguiram chegar a acordo sobre dois segmentos da fronteira de Oecusse, deixando em aberto o risco de que pequenas disputas locais possam ser politizadas e transformadas em conflitos maiores. Sem uma demarcação final, os passos para melhorar a gestão da fronteira porosa foram interrompidos. Iniciativas que promovam intercâmbios e diminuam o isolamento do enclave não são implementadas. À medida em que os laços entre as duas nações crescem, estas devem priorizar este assunto inacabado. Deixá-lo sem solução só pode promover o crime, a corrupção e a possibilidade de conflito.

Seja qual for a fronteira acordada, não satisfará a todos. Para aliviar este descontentamento, devem ser promovidos acordos a nível local para atividades transfronteiriças. Sem essa flexibilidade, as disputas locais de longa data vão deteriorar-se e podem transformar-se em conflito ativo.

Além das ameaças à segurança, os dois países enfrentam uma série de desafios relativos à gestão das fronteiras, nomeadamente o movimento de pessoas e bens. Embora o enclave permaneça politicamente distinto há várias centenas de anos, os laços permanecem fortes entre as famílias divididas pela fronteira. A fronteira é cruzada regularmente para casamentos e funerais. Alguns cultivam mesmo terras no outro país. Isolados do resto de Timor-Leste, os residentes do Oecusse dependem de mercadorias baratas da Indonésia.

Um esforço para construir um posto de imigração timorense perto de Citrana (em Timor-Leste) em novembro de 2008 levou a um aumento das tensões. O novo posto visava igualar um existente na Indonésia e representaria um sinal de relações normalizadas e um mecanismo para atravessar legalmente a fronteira ocidental isolada do Oecusse, mas ficava no meio dos 1.069 hectares de terras disputadas. Oficiais militares indonésios, que não tinham sido informados dos planos para construir o posto, protestaram imediatamente e pararam a construção. Uma variedade de pequenos incidentes deveram-se à entrada do TNI [Tentara Nasional Indonesia – Exército Nacional Indonésio] na área disputada, um triângulo de ricos campos agrícolas, terra conhecida como “Naktuka” (“cabeça decepada” no idioma local). Qualquer presença militar indonésia é sensível aqui: os aldeões queixam-se de que o posto de guarda fronteiriço timorense está afastado da área disputada em que vive, deixando-os vulneráveis à intimidação do lado indonésio; os guardas da fronteira explicam que a Indonésia não aceita nenhum posto mais perto. Em junho de 2009, soldados do TNI acompanharam uma pequena delegação civil liderada por Robby Manoh, um membro da assembleia distrital de Kupang e um chefe tradicional na região de Amfoang que fica ao lado de Naktuka no lado indonésio. Manoh disse que estava lá para examinar o sistema de irrigação de Naktuka, construído durante o período do governo indonésio. Tem consistentemente procurado promover a disputa das terras em Naktuka a nível nacional em Jacarta, e é frequentemente citado na imprensa indonésia, afirmando que se a reivindicação do país não for reconhecida, haverá violência. O incidente, que enfureceu os aldeões locais e foi noticiado nos meios de comunicação nacionais, elevou as temperaturas de tal forma que quando um grupo separado de sete soldados da TNI e dois civis entraram em Naktuka em setembro de 2009, houve uma reação diferente. Os indonésios começaram a fotografar um prédio do Ministério da Agricultura timorense construído recentemente. Os moradores locais confrontaram o grupo e, com efeito, prenderam-nos, escoltando-os até à patrulha de fronteira no posto em Citrana, onde foram detidos durante várias horas enquanto se fazia um esforço para contactar as autoridades nacionais em Díli. Até que foram finalmente libertados e autorizados a reentrar na Indonésia. A voluntariedade dos soldados em se submeterem ao controle dos aldeões evidenciou que a sua presença constituía pouca ameaça à segurança. Mas foi uma provocação, e uma série de novos incidentes sugerem que a Indonésia quer manter a sua reivindicação viva.

Este posto fronteiriço remoto, conhecido como Oepoli no lado indonésio, é de difícil acesso na estação chuvosa numa estrada não alcatroada. Não receberia esta atenção desproporcional por parte dos funcionários nacionais se a demarcação das fronteiras estivesse completa. O ministro da defesa indonésio fez uma visita surpresa ao posto em fevereiro de 2010, sugerindo que patrulhas conjuntas fossem formadas no dia seguinte. Depois de comunicarem com o quartel-general, os guardas timorenses da patrulha de fronteiras voltaram para explicar que não estariam disponíveis para qualquer cooperação. O ministro regressou cerca de um mês depois para fazer uma ronda aérea à área. Uma futura visita do chefe das forças armadas estava também a ser planeada. Os timorenses em Naktuka dizem que estão abertos aos desejos dos vizinhos indonésios de cultivar a terra, mas estão frustrados pelas reivindicações indonésias de que esta terra está em disputa. Dizem que pertenceu ao Oecusse desde que se podem lembrar. Um funcionário do governo timorense contou que, para neutralizar a situação em novembro de 2008, visitou o posto e ofereceu desculpas pessoais aos soldados indonésios, dando-lhes dinheiro para cigarros e cerveja. Mas não está claro se todos estão dispostos a adotar esta posição de deferência.⁴

Esta foto foi retirada dum jornal indonésio, de Jacarta, chamado “Publica News”. Encontrei esta notícia por acaso, numa busca na internet. O que seria da minha vida sem o Google Translator. Basta clicar no botão direito do rato, escolher a opção “Traduzir” e aparece tudo em português. Com falhas, claro, mas já dá para perceber a maior parte das coisas. Então a legenda desta foto diz:

“O acordo dos reis sobre as fronteiras da Indonésia e Timor-Leste no Distrito de Amfoang Leste, Kupang, NTT. (Foto: cais privado / Raja Amfoang)”

Sendo que NTT é a abreviatura do nome da região a que Amfoang pertence: Nusa Tenggara Oriental (em indonésio as siglas devem corresponder ao “NTT”).
Esta notícia de Outubro de 2018 é uma perolazinha, com foto e tudo. Em tétum é capaz de haver também, mas infelizmente o Google Translator ainda não identifica (nem traduz) o tétum. Palerma. (Palerma do Google, entenda-se).
Então vamos à notícia deste jornal indonésio. Desta vez não consigo fazer grandes verificações da fidedignidade deste, mas esta notícia não será falsa com certeza. O jornal tem bom ar, está bem organizado e não está carregado de publicidade cintilante por todo o lado. (Onde vão buscar o dinheiro então? Se calhar são patrocinados pelo Estado indonésio… se a perspetiva prevalecente nesta notícia for a dos Reis indonésios, já sabemos o porquê).

O Acordo dos Quatro Reis sobre o Limite da RI (República da Indonésia) – Timor-Leste não pode ser processado.
Os resultados do acordo dos reis das antigas regiões de Timor-Leste e da República da Indonésia tornaram-se uma referência decisiva que não pode ser violada. O acordo foi considerado o melhor após uma dezena de anos de disputas sobre as fronteiras territoriais dos dois países.
“No ano passado, construímos um acordo conjunto entre os reis leste-oeste da ilha de Timor relativamente às fronteiras regionais”, disse a figura tradicional da vila de Oepoli, Tom Kameo. Este revelou que a área é uma terra agrícola bastante extensa, atingindo 1.069 hectares. Os dois países não estabeleceram limites legais no segmento de Naktuka até agora. Portanto, quatro reis do leste-oeste, ou seja, Liurai Sila, Sonbai Sila, Benun Sia e Afo Sila assinaram o acordo em 14 de novembro de 2017 em Oepoli. “O acordo reafirma as fronteiras reais que foram estabelecidas nos tempos antigos e é legitimamente declarado nas atas”, disse Tom Kameo. Infelizmente, não há seguimento, embora representantes da República da Indonésia e de Timor-Leste também tenham sido testemunhas. O limite do território, Kameo acrescentou, é o limite natural seguindo a forma do Iron Noel (um grande rio) que foi determinado pelos antepassados naquele tempo. “Assim Naktuka faz parte do reino de Amfoang, da República da Indonésia. No entanto, os timorenses continuam a atravessar para o nosso território ”, explicou.
Se o acordo dos reis não for seguido, Tom Kameo está preocupado com a possibilidade dum potencial conflito. “Estamos a aguardar a atitude de nosso governo na Indonésia em relação a estas terras de Naktuka”, acrescentou Kameo.
(Fim de citação)

Segundo a versão indonésia, o Rei de Timor-Leste concordou que Naktuka pertence à Indonésia. Ficamos portanto a aguardar notícias em tétum, com a versão de Timor-Leste sobre o acordo estabelecido entre os quatro Reis. Não fosse já tão tarde, eu ainda iria entrevistar pessoalmente o Rei de Timor-Leste se ele aceitasse receber-me – teria a tradução do Valério, do Sanches e do Rui.

Também é possível encontrar na internet notícias significativas sobre a vida da população indonésia de Oepoli:

Outubro 2018:
“O nosso acesso à internet ainda depende da rede da Telemor, de Timor-Leste, que é de facto mais cara, e por isso a nossa grande esperança é que a Telkomsel [da Indonésia] possa entrar”, disse Wemfied a repórteres na vila de Netemnanu no domingo. Ele explicou que, para poderem ter acesso à internet na área, os moradores têm que comprar um cartão da Telemor a um preço de 30 mil rupias por cartão, e então adicionarem um vale em dólares no valor de 20 mil rupias. “Mas também é preciso comprar quatro vouchers. Pode custar 80.000 rupias usar a internet por uma semana, mesmo que seja usada com moderação”, disse ele. Segundo ele, o cartão e o vale podem ser comprados a timorenses todos os dias no Mercado de Oepoli.
“Se houver uma rede 3G ou 4G, então claro que será mais fácil para nós. O custo será mais eficiente, 100.000 rupias pode ser usado durante um mês”, disse ele. O uso da internet com os cartões da Telemor também é muito mais caro porque é necessário comprar vales de crédito que são vendidos separadamente. “Para a internet, compramos um voucher, para o WhatsApp também se compra um vale especial em separado, ao contrário do Telkomsel, cuja internet pode ser usada para todas as aplicações”, disse ele.⁵
(Fim de citação)

E  mais esta, também de Outubro de 2018:

Indonésios na fronteira com Timor-Leste esperam eletricidade barata
Vários cidadãos indonésios que vivem na vila de Oepoli, no distrito de Amfoang, sob a regência de Kupang, esperam que o governo apresente uma rede de eletricidade barata para que possam beneficiar de iluminação como os cidadãos indonésios das outras áreas da Indonésia. Esta expetativa foi transmitida pelos líderes tradicionais e pela comunidade de Tom Kameo na vila de Oepoli. Ouvimos dizer que as outras regiões têm eletricidade barata, mas aqui não temos, de modo que as grandes esperanças das pessoas nesta fronteira são depositadas nos programas de eletricidade baratos do governo”, disse Tom a repórteres em Oepoli, domingo.

Oepoli é uma área da Indonésia que está diretamente adjacente ao enclave de Timor-Leste, Oecusse. Ele e a comunidade local apreciariam os esforços do governo e da Companhia Nacional de Eletricidade, para que trouxessem eletricidade às pessoas na região da fronteira. Há quatro aldeias em Oepoli que recebem eletricidade da PLN [Central Elétrica da Indonésia], a saber, Desa Netemnanu, Netemnanu Utara, Netemnanu Selatan e Kifu, além de uma aldeia em expansão cuja rede elétrica também foi construída. “Pelo menos, esta eletricidade na fronteira faz-nos sentir o nome da independência da Indonésia, a qual tem sido comemorada há 73 anos”, disse ele.
Segundo ele, embora a rede de eletricidade tenha entrado nas aldeias da fronteira, nem todas as famílias foram conectadas ao contador por causa da limitada capacidade económica dos moradores. Segundo ele, geralmente as pessoas na fronteira são agricultores cuja renda é relativamente pequena, de modo que ainda é difícil satisfazer todas as suas necessidades básicas. “Se o custo da instalação de eletricidade for de milhões, então obviamente teremos dificuldade. Por essa razão, um programa de eletricidade barata deve chegar até nós aqui”, disse ele. Tom acrescentou que os moradores locais também não querem ficar atrás relativamente aos moradores do Oecusse, que têm eletricidade há tanto tempo.
“Esperamos que o governo e a PLN possam ajudar nesta dificuldade, pelo menos a eletricidade que já está presente possa ser desfrutada pelos cidadãos a preços acessíveis”, disse ele.⁶

Temos de ver quem é o Tom Kameo, líder tradicional aqui de Oepoli. A legenda desta foto é a seguinte: Tom Kameo, figura tradicional da comunidade de Oepoli, distrito de Amfoang, regência de Kupang, que é uma área de fronteira com o distrito de Oecusse.⁶

E finalmente esta notícia, também de Outubro de 2018. Parece que neste mês acordaram todos, deve ter acontecido alguma coisa que despertou tanta atenção nos meios de comunicação social indonésios, nesta altura. Desta vez é sobre o Centro de Saúde de Oepoli, entre outros temas:

Eksina Sora, do Centro de Saúde de Oepoli, queixou-se das várias limitações que foram sentidas, incluindo as limitações da equipa médica e também dos serviços de saúde. Além disso, o Centro de Saúde de Oepoli atende cinco aldeias com condições de terreno difíceis, não possui médicos de clínica geral, dentistas e enfermeiros dentistas.
“Técnicos de saúde ambiental, farmácias, nada existe. O encaminhamento de pacientes não pode ser feito para o Hospital Naebonat porque a distância é muito longa “, disse Eksina ao governador da NTT, Viktor Laiskodat, durante um diálogo na aldeia de Netemnanu Utara, no distrito de Amfoang Leste.

Enquanto Riki Kameo, um dos agricultores em Amfoang (…) revelou que a polícia local não possui veículos operacionais. A polícia de plantão usa principalmente motos particulares, bem como serviços de moto-táxi. O chefe do subdistrito de Amfoang, disse ele, não tem um veículo operacional.
Ao ouvir isso, o governador afirmou que iria fornecer assistência operacional em carros para o Polsek, Koramil, Puskesmas e Pos-AL em Amfoang. [Respetivamente: Polícia Setorial, Comando Distrital Militar, Clínicas de Saúde comunitárias, e os Correios]. Também disse que enviaria uma lâmpada cujo combustível não usa óleo, mas água do mar. Mil luzes serão enviadas para ajudar a comunidade, a igreja, a polícia, o comando militar e o centro de saúde.

O chefe da Agência de Gestão de Fronteiras, Paul Manehat, que orientou o diálogo com os moradores, revelou a questão da fronteira com Timor-Leste, inclusive em Naktuka. A questão do limite desta região ainda não foi resolvida até ao momento. O governador  afirmou que a comunidade de Oepoli e o povo timorense têm na verdade a mesma realidade sócio-cultural. As duas comunidades são limitadas politicamente, mas o aspeto social não. “Portanto, quero estabelecer comunicação e conversar com o Rei Ambenu do Oecusse, para que seja definida uma fronteira, e que a fronteira política não impeça a prosperidade das pessoas daqui”, disse o Governador da VBL.
Ele enfatizou que os limites existentes são linhas políticas e de soberania do Estado, e não as fronteiras sociais e culturais da comunidade. As disputas fronteiriças não devem prejudicar os esforços para melhorar o bem-estar das pessoas na região fronteiriça.⁷

Ainda aí estão? Eu arranquei às 6.45h da manhã, são agora 23.40h. Foram 17 horas de viagem. Estamos em Kefamenanu, cidade indonésia. A minha preocupação é o Valério, que conduz. O Valério é que tem de descansar. Hoje fez 282 km por estradas maioritariamente muito más, e à noite. O Valério conduz rapidamente, quase que voámos no meio daqueles campos, às vezes com subidas muito íngremes em que foi necessário ativar a tração às quatro rodas, e só com a iluminação dos faróis. Um autêntico piloto de rallies. Digo ao Valério para escolher a hora a que arrancamos amanhã, para ele descansar o que quiser. O Valério é que manda hoje. O Sanches mesmo assim é quem está pior, entre todos nós, com dores num braço. Vim posteriormente a saber que teve um acidente de mota e o braço pelos vistos não terá sido operado como deve ser. Ou se calhar não foi operado de todo. Dei-lhe dois ou três Ben-u-Rons dos mais fortes. O Rui está bem e desapareceu, enquanto andávamos nas lides dos quartos de hotel, nem tive oportunidade de me despedir de si. Aparentemente foi já apanhar uma microlet para regressar a Kupang (são cerca de 70 km em alcatrão, será rápido). Eu estou bem, efetivamente estou com a pica toda, nem que seja pela louca condução do Valério, que me faz vibrar. É impossível adormecer sendo co-piloto num rally.
Eu não quis jantar, comi apenas bananas e leite. Os três foram comendo também pelo caminho, bolachas e afins.

Mas a saga está longe de acabar. Hoje não saímos daqui. Foram 17 horas de viagem, e agora ainda tenho uma hora pela frente, nomeadamente com as lides do hotel, que não estava à nossa espera e não tem funcionários de serviço. Estes dois homens são os seguranças. São os seguranças do hotel que estão a fazer a minha cama. Estamos num terceiro andar sem elevador. Com bagagens para carregar. E depois de terem feito a cama, constatámos que este quarto não tem água quente, pelo que tiveram de mudar-me para outro (na foto seguinte).

E neste quarto não há toalhas. Agora estou no segundo andar. Ia ligar à receção através do telefone, mas levantei o auscultador e não dá sinal. Fui lá abaixo pessoalmente. O rapaz disse-me que as levam lá acima, através de gestos. Eu fiz gestos a dizer que espero aqui em baixo. E o rapaz da receção desapareceu. Como nunca mais apareciam as toalhas (eu desejando de despachar-me, a querer tomar um banho e deitar-me), e ouvindo risos na sala ao lado, fui espreitar. Os dois seguranças estavam a passar a ferro a minha toalha. Eles riram-se, ao serem apanhados assim tão inesperadamente. Eu disse que não era preciso passarem a toalha a ferro (tudo através de gestos). Eles deram-me a entender que a toalha está molhada, deixaram-me tocar-lhe. Explicaram que estão sozinhos, são dois seguranças e mais o rapaz da receção. Perguntaram de onde sou, ou pelo menos assim entendi, disseram Holanda. Eu disse Portugal, Cristiano Ronaldo. Foi uma festa. Apareceu um homem a ver o que se passava, provavelmente descontente com tanto barulho e conversa à meia-noite e meia. Porque já é meia noite e meia. Percebi depois que será o dono, ou um responsável, pois perguntou-me se estava tudo ok quando eu levei a toalha. Todos tocaram na toalha para ver se está seca ou molhada. Espero que tenham as mãos limpas. A toalha está molhada, mas o ferro não seca nada e eu quero ir dormir!

Não levei a máquina fotográfica comigo, infelizmente, para fotografar todo este episódio. Já sei que é regra de ouro, andar sempre com a máquina, e mesmo assim falho.
Se eu imaginasse que ia ser esta saga para tomar banho, eu teria deixado o banho para quando acordasse de manhã. Não sejamos puritanos, não é à meia noite – seria às sete da manhã.

O botão do autoclismo dá a volta completa, a água não pára de correr, é preciso ir mexendo no botão até conseguir parar a água. Quando se levanta aquela cobertura de cima, que está partida evidenciando que alguém já teve a mesma luta que eu, salta água por todo lado, para a cara. Já a torneira das mãos não dá para meter as mãos debaixo, não há espaço. Se repararem, a saída da água está mesmo junto à parede do lavatório.Tem de ser uma mão de cada vez, e espalmada contra a parede. As lutas com os autoclismos e torneiras na ilha de Timor têm sido uma constante, diga-se de passagem. Mas agora estamos num grande hotel com quatro andares, numa cidade (a foto da fachada está abaixo).

A cama, por seu lado, só tem lençol de baixo, não tem lençol de cima para tapar-me. O cobertor só tapa até a cintura. É um mini cobertor. Dormi com duas camisolas e mais um casaco cinzento do Valério, bem quente, emprestado.

A seta no teto a indicar a direção de Meca.

O Valério queria arrancar às 9, mas eu achei muito cedo – por sua causa – porque ele é o condutor e precisa de descansar. Pelo que lhe disse que era melhor arrancarmos às 11.30h ou meio-dia. Deixei despertador para as 10, mas acordei às oito e tal. Fiquei na ronha até às nove. Imagine-se, na ronha em Timor. Com tapa-olhos e tampões de cera nos ouvidos. Há muita luz no quarto. O pequeno-almoço ficou marcado para as 11.
Dado que o pequeno-almoço no hotel é entre as 7 e as 9, perdi o pequeno-almoço, mas quando saí do quarto à procura do Valério e do Sanches, deparo com estas duas meninas e um tabuleiro de comida. Quem será o sortudo que tem direito a pequeno-almoço no quarto, a estas horas, pensei. E afinal era para mim, elas andavam meio perdidas a tentar descobrir qual era o quarto onde deviam entregar o pequeno-almoço. Através da minha chave, constataram que é no meu. Ora bem, foi o Sanches que o encomendou para mim.

Bebi uma dose generosa de leite condensado, com o café. Se tivesse sido eu a servir-me, no restaurante do hotel, teria comido quatro vezes mais. Mas pronto, a menina Rute quis ficar na ronha.


¹ “Batalyon Infanteri 715” (s.d.). Wikipedia. Página consultada a 30 Janeiro 2019,
<https://id.wikipedia.org/wiki/Batalyon_Infanteri_715>

² Prabandari, Atin et al (2018, 10 Agosto) “Why Indonesia and Timor-Leste  should involve indigenous people in border dispute talks”. The Conversation. Página consultada a 30 Janeiro 2019,
<https://theconversation.com/why-indonesia-and-timor-leste-should-involve-indigenous-people-in-border-dispute-talks-101307>

³ “International Crisis Group” (s.d.) Wikipedia. Página consultada a 30 Janeiro 2019,
<https://en.wikipedia.org/wiki/International_Crisis_Group>

⁴ “Timor-Leste: Oecusse and the Indonesian Border” (2010, 20 Maio). International Crisis Group. Asia Briefing N°104, Díli/Brussels. Página consultada a 30 Janeiro 2019,
<https://www.files.ethz.ch/isn/116501/B104%20Timor-Leste.pdf>

⁵ Lewokeda, Aloysius (2018, 7 Outubro) “Warga perbatasan harap kehadiran jaringan internet Telkomsel”, Antara Kalbar. Página consultada a 30 Janeiro 2019,
<https://kalbar.antaranews.com/berita/366170/warga-perbatasan-harap-kehadiran-jaringan-internet-telkomsel>

⁶ “Warga Indonesia Di Perbatasan Dengan Timor-Leste  Harapkan Listrik Murah” (2018, 8 Outubro). Inakoran.com. Página consultada a 30 Janeiro 2019,
<https://inakoran.com/warga-indonesia-di-perbatasan-dengan-timor-leste-harapkan-listrik-murah/p5160>

⁷ “Masyarakat Oepoli Minta Puskesmas Terapung”. (2018, 29 Outubro). Victory News. Página consultada a 30 Janeiro 2019,
<http://www.victorynews.id/masyarakat-oepoli-minta-puskesmas-terapung/>

104 - A Caminho de Atambua para Atravessar a Fronteira

O Valério indicou que às 6 da manhã já estava levantado e que foi pôr gasóleo no carro. Disse-me algo de haver filas grandes, para abastecer.
Partimos às 11.10h, já estávamos todos prontos (o Valério, o Sanches e eu) e partimos antes da hora prevista. Estamos na cidade indonésia de Kefamenanu e hoje vamos para Atambua (também na Indonésia), atravessar novamente a fronteira para Timor-Leste, em Mota-Ain. Para já reabastecemo-nos também de leite com chocolate e água.

O camião terá alguma avaria, e puseram aquele ramo na estrada para impedir o trânsito. Tivemos de seguir pela faixa ao lado, em contramão.

Ele seguiu ao meu lado durante algum tempo, na mota, com a criança. Fez-me uma série de perguntas em inglês (as habituais – de onde sou, para onde vou…). Mas eu não gosto de andar de bicicleta com o barulho de motores atrás de mim, pelo que me cansei e acelerei mal apanhei uma descida. Ele já não conseguiu apanhar-me. É curioso, eu vou numa bicicleta, mas ele leva uma criança na scooter, não convém acelerar da mesma forma. E entretanto desistiu de seguir-me.

É uma da tarde, tenho 16 km na bicicleta, os últimos 8 a subir. Hoje temos novamente a pressão do horário – há uma fronteira a atravessar, pelo que o Valério pressiona-me para passar para a pickup.

E eu tive um ataque de fome tal, que não conseguiria pedalar mais nada, mesmo que quisesse. O pequeno-almoço hoje foi fraquíssimo. Comecei a tremer com fome, tão simples quanto isto. A máquina não tem combustível, está a soluçar. Preciso de proteínas, com bolachinhas isto já não vai lá.
O Valério, vendo que a situação ficou subitamente complicada, deu-me o seu almoço. Este é o almoço do Valério; pelos vistos tê-lo-á comprado algures, antes de sairmos do hotel. É frango, e por baixo do frango está uma placa de sementes, parece um nougat, mas não é doce. Devorei a comida quase selvaticamente, sentada no degrau da pickup, com as pernas na estrada. O Sanches anda algures em busca de bananas, pelas casas ao longo da estrada. Também tem um almoço igual, embrulhado em papel. Eu pelos vistos era suposto ir a um restaurante. Agradeci ao Valério, que agora vai ter que desenrascar-se algures, a comprar outro almoço, quando surgir um estabelecimento.

Quando as bananas chegaram, comi três, e mais um pacote de leite com chocolate. Com fome o pensamento e a razão enfraquecem, a besta animal assume o comando. Pensei nisto enquanto comia sofregamente.

Estamos em Atambua, cidade indonésia, onde as estradas estão cortadas por causa dos festejos que celebram a independência do país, a 17 de Agosto de 1945. Hoje é sexta-feira, 10 de Agosto de 2018. Ainda estamos longe da fronteira e o tempo aperta. São cerca das 3 da tarde, agora. A fronteira fecha às 17h.

Em arrumações estratégicas, antes de passar a fronteira. Parece que o Sanches comprou uma pequenina máquina de serrar, e tem receio que fique apreendida.
A mim só podem apreender-me pacotes de leite. E bananas…

105 - Retidos na Fronteira, Alojada em Casa duma Família

Adormeci na pickup. A noitada na véspera trocou-me os sonos. O Valério e o Sanches pelos vistos perderam-se, pois estamos novamente em Atambua.

E por mais que o Valério acelerasse – hoje atropelámos uma galinha (eu nem quis ver, já bastou o som do impacto, a toda a velocidade) – não conseguimos chegar a horas à fronteira. Fecha às 17h, chegámos às 17.10h. Azar.

Agora temos duas hipóteses: ou tentamos arranjar alojamento aqui, na fronteira de Mota-Ain, ou regressamos à cidade de Atambua, e amanhã de manhã fazemos novamente o caminho até aqui.
Nem pensar, não quero andar mais na pickup. Hoje só fiz 16 km de bicicleta com esta correria de fronteiras. E 165 km na pickup. Isto das fronteiras fecharem às 17h é mesmo um atrofio. Ao menos que fechassem à meia-noite. Vamos tentar arranjar alojamento aqui, portanto.

Esta foto (duma casa de banho, onde eu pedi para ir pois estava aflita) foi tirada em casa dos donos de um hotel (umas casinhas individuais, muito bem pintadinhas). O xixi saiu por aquele buraquinho. Nem quero imaginar o que está nas traseiras da casa.
Então quiseram mostrar-nos as casinhas, mas não encontram a chave. O dono levou a chave consigo. E onde está o dono das casinhas? Nas festas de Atambua. Só volta às 19h. Eu ainda sugeri que esperássemos pelo seu regresso, mas o Valério e o Sanches quiseram ir ver outros alojamentos.

Alojamento seguinte. O Sanches acha que não tem condições. Eu estou tão cansada ainda da noitada da véspera, hoje um dia aborrecido metida dentro da pickup, que eu digo-lhe que é muito bom e que posso ficar aqui. Durmo no chão, não faz mal.
Mas o Sanches não o permite.

Mais uma voltinha na pickup à procura de alojamento. Tirei esta foto da janela, em andamento. Estão a ensaiar para os festejos da independência.

Cá está a placa que já referi na crónica 74. Agora dá para ver melhor. Em frente vai-se para Atapupu. E aparentemente à esquerda vai-se virar para Atambua. Mas não. Quem se meter por aquela estrada só vai dar a Atapupu. Quem for para Atambua não pode sequer entrar naquela estrada, tem sim de passar em frente a esta casa verde.

Ainda fomos visitar uma terceira casa. Esta é a quarta. E é aqui que vou ficar, no piso de cima. Há um quarto livre para mim. O Valério e o Sanches ficarão noutro local, mas vêm cá jantar.

As escadas ao canto que eu tenho de subir para o meu quarto.

O meu quarto.

O piso de cima é totalmente ocupado por mim. E pelas osgas. Ou pequenas lagartixas Tokés, não sei. Há muitas no teto e lá ao fundo na parede vê-se uma. E cantam, alegres.

O dono do meu quarto, temporariamente instalado no andar de baixo enquanto eu cá fico. Quando entrei na casa de banho e fechei a porta, deparei com umas cuecas usadas suas, penduradas na porta. Pu-las em cima do cesto que se vê na foto anterior, de roupa suja, e rapidamente desapareceram. A mãe do rapaz, que anda a tratar de mim, levou-as, ou pô-las dentro do cesto.

Peixe frito e frango. Este jantar é só para mim. O que sobrar (e sobrou muito) ficará para a família.

Jantar só de homens. Os três (para além do Valério e do Sanches) são de Timor-Leste, mais precisamente de Lolotoi, no distrito de Bobonaro. Nos próximos dias lá andarei. Agora vivem na Indonésia e tornaram-se cidadãos indonésios. Efetivamente eu preferia ter comido com a família toda. Mas aqui os hábitos são outros. Em Timor as visitas e os homens comem primeiro (e se a visita é uma mulher, então a visita come sozinha primeiro, está visto) depois as mulheres e as crianças comem em separado. O Valério ainda jantou um bocado de peixe comigo, para fazer-me companhia. Ele e o Sanches acabaram por ficar alojados aqui também, algures, e só dei conta no dia seguinte.

As mulheres comeram em pé na cozinha. Ambas são aqui de Mota-Ain, são indonésias. As crianças nem as vi. “Bonita” – repete-me a mãe do rapaz e dona da casa, de t-shirt cinzenta. Eu rio-me. De facto encanta-me ficar alojada em casa duma família, mas isto de cada qual comer para seu lado entristeceu-me. Não gosto de ver as mulheres a trabalharem e a comerem em pé. Gosto de ver a família unida, com homens, mulheres e crianças, todos sentados à mesa em algazarra. Falei posteriormente com alguns timorenses que me disseram já estarem a tentar contrariar este hábito. Sentar a família em simultâneo à mesa, convidarem as mulheres e crianças ao mesmo tempo. Mudam-se os tempos… mudam-se as vontades.

106 - Passeio Matinal de Bicicleta até que a Fronteira Abra

O despertador tocou às 5.15h. Deitei-me às 21.20h de ventoinha ligada, à porta do quarto. Fechei a porta às 3.30h com frio. Mandei calar uma osga no meu quarto, ela interrompeu o canto e foi-se embora. Não houve melgas. A própria dona da casa disponibilizou-me um spray anti-mosquitos para pôr às 6 da tarde, antes de jantar. Efetivamente dormi pouco. Ir à casa de banho às 3 e meia da manhã é uma operação complicada. Fui de lanterna, para não estar a acender as luzes. (Eu trouxe uma lanterna comigo, de Lisboa). Estar ensonada em pé de de joelhos dobrados, depois os pés ficam com salpicos de xixi… não consigo habituar-me a estas sanitas no chão, os chamados vasos sanitários de agachamento – em inglês: “squat toilet”. Já viajei por alguns países com estas sanitas no chão, e nunca compreendi como é que as pessoas fazem xixi sem haver salpicos para fora e consequentemente sujarem os pés e pernas com eles. Já na China levantei esta questão, na crónica 9. Até hoje nunca recebi resposta de ninguém, com a técnica. Se calhar não existe técnica nenhuma, os asiáticos andam com os pés salpicados de xixi e pronto.

Banana frita e arroz cozido. O arroz cozido é um pequeno-almoço habitual em Timor. Não tem doce nenhum, e diria que nem tem sal. Não sabe a nada. Mas o Valério e o Sanches adoram-no. Eu ainda me esforcei por comer uma ou duas colheres, o Sanches riu-se e incentivou-me, mas caramba, custa um bocado para quem não está habituado. Ao menos um bocadinho de sal. Um bocadinho de açúcar, qualquer coisa. Lá saudável é o arroz, de facto.

Às 7 horas arranco. A fronteira é mesmo à minha frente, da casa onde pernoitei. Hoje vou para Maliana e Suai.
E afinal a fronteira só abre às 8. Isto está complicado… Agora tenho uma hora. Então vou dar uma volta na bicicleta durante uma hora. O Valério e o Sanches ficam na pickup, na fronteira. Pediram-me para estar aqui uns minutos antes.

Numa hora em bicicleta podem fazer-se muitos quilómetros. Interessa é que eu não me perca. Não vou sair da vila.
Mota-Ain – apesar de ser uma aldeia indonésia – tem um nome em tétum, o qual significa literalmente “ribeira-ao pé”, ou seja “foz da ribeira”, ou mais à letra, “aos pés da ribeira”. Efetivamente a ribeira está aqui muito perto.

Aí vai esta coisinha linda tão compenetrada para a escola. Hoje é sábado, pelos vistos há aulas.
E faz parte do style, as tiras dos sapatos desapertadas.

Reparem que são sete e pouco da manhã. Falámos em inglês, expliquei-lhes que estou à espera que a fronteira abra.

No meu pequeno passeio por Mota-Ain ainda consegui fazer 5 km na bicicleta. Agora estou de volta à fronteira. Faltam 15 minutos para abrir. O Valério entretém-se com jogos de telemóvel.

De volta a Timor-Leste!

Acabei de atravessar a fronteira em Mota-Ain, e dirijo-me agora para Maliana, onde almoçarei, e depois Suai, onde pernoitarei. Hoje estou no 22º dia da viagem, num total de 26.

107 - Entro em Batugade, Timor-Leste Novamente & os Cinco de Balibó

Despedi-me do Sanches em Batugade, dado que vai regressar a Díli numa microlet. Fez-nos companhia durante a parte indonésia de Timor, agora é altura de deixar-nos.

O bantengue (Bos javanicus), também conhecido como vaca Balinesa. Os bovinos balineses são animais extremamente rústicos, de pequena estatura, resistentes às doenças e às agruras das prolongadas estações secas que se registam em Timor. Nesta estação do ano, estes bovinos conseguem alimentar-se do capim seco e das folhas das árvores. Também são suplementados com palha de milho e restos das hortas. A sua principal produção é a carne e não são ordenhados.¹
Ao fundo à esquerda vêem-se os Bufálos dos Pântanos (Bubalus bubalis carabanensis), ou em tétum, “karau”. (Ver a crónica 15 para mais detalhes sobre este búfalo).

O Valério aguardava aqui por mim. Ali à frente começa a subida da montanha, pelo que passo este bocado para a pickup.

Transcrevendo o que está escrito no placard:

Na terça-feira 14 de Outubro já todos os cinco jornalistas estavam em Balibó, juntamente com José Ramos-Horta, que era na altura um dos dirigentes da Fretilin. Todos juntos acompanharam uma patrulha das tropas da Fretilin e tiveram a oportunidade de filmar uma grande concentração de barcos de guerra indonésios ao largo de Timor. Nesse mesmo dia José Ramos-Horta regressou a Díli, levando consigo filmes de ambas as equipas para enviar para a Austrália. Estes filmes constituíram uma das últimas reportagens que os cinco jornalistas conseguiram mandar para fora.

À casa onde dormiam os jornalistas chamaram “a embaixada australiana” e depois, por brincadeira, “secretariado da Commonwealth”, visto que Cunningham era neo-zelandês e Peters e Rennie eram britânicos. Pintaram uma bandeira australiana na casa esperando que ela lhes servisse de proteção em caso de ataque. Como jornalistas profissionais no exercício das suas funções não contavam virem a ser eles próprios alvo de ataque. Estavam tragicamente enganados. Os cinco foram assassinados pelas forças indonésias a 16 de Outubro de 1975.

O governo australiano levou quase um mês a confirmar a morte dos jornalistas, perante a indignação geral do povo australiano que se manifestou contra as mortes e contra a reação do governo australiano à invasão de Timor-Leste. No dia 5 de Dezembro, num cemitério de Jacarta e durante uma cerimónia em que participaram vários membros do pessoal da embaixada australiana e seus cônjuges, jornalistas australianos residentes em Timor-Leste e o secretário da Associação de Jornalistas Indonésios, foram enterrados, num só caixão, o que se dizia serem os restos mortais dos jornalistas. Nenhuma das famílias foi convidada. Em vez disso, as famílias ficaram abandonadas ao seu desgosto, com o qual tiveram que lidar nos dias, meses e anos que se seguiram. As circunstâncias destas mortes têm sido fonte de controvérsia desde então. Ninguém foi acusado do crime. Dois inquéritos levados a cabo pelo governo australiano deixaram muitas questões em aberto e nunca se realizou um inquérito judicial exaustivo.

Greg Shackleton, Gary Cunningham, Tony Stewart, Malcom Rennie e Brian Peters morreram porque estavam a relatar acontecimentos que as forças militares indonésias não queriam ver relatados. Roger East, outro jornalista australiano que foi a Timor-Leste para fazer uma reportagem sobre o destino sofrido pelos Cinco de Balibó foi morto a tiro no porto de Díli no dia 8 de Dezembro de 1975, vítima da execução em massa de civis timorenses.

Não foram os únicos a morrer. No subsequente conflito e durante os 24 anos de ocupação indonésia, calcula-se que tenham morrido mais de 200.000 pessoas em Timor-Leste. Este número inclui soldados das Falintil e civis da aldeia de Balibó bem como do circundante distrito de Maliana.

Esta Casa é-lhes dedicada.

Foi feito um filme sobre os Cinco de Balibó, em 2009, um filme australiano. “Balibo” foi a primeira longa-metragem a ser realizada em Timor-Leste. As filmagens em Díli começaram em Julho de 2008, com a polícia das Nações Unidas a fechar as estradas para permitir que as cenas fossem filmadas.² Participaram entre 60 e 70 habitantes locais, e 30 soldados timorenses vestiram-se como tropas indonésias segurando espingardas falsas nas filmagens do filme australiano “Balibo”, disse a polícia das Nações Unidas.³


¹ Lança, Augusto Joaquim de Carvalho (2009, 2 Dezembro), “Os bovinos de Timor-Leste”. Timor Agrícola. Página consultada a 5 Fevereiro 2019,
<https://timor-agricola.blogspot.com/2009_12_02_archive.html>

² “Balibo (film)” (s.d.). Wikipedia. Página consultada a 5 Fevereiro 2019,
<https://en.wikipedia.org/wiki/Balibo_(film)>

³ “ETimor capital shuts down for movie invasion remake” (2008, 31 Julho). Agence France Presse. Página arquivada consultada a 5 Fevereiro 2019,
<https://web.archive.org/web/20090726105258/http://afp.google.com/article/ALeqM5iTL-50sFQUd1pCCR572_dGGQOwAA>

108 - De Bicicleta até Maliana

Maliana foi dos meus locais preferidos em Timor-Leste. Talvez por fazer lembrar-me o Alentejo, as suas vastas planícies amarelas.

São parteiras – ou estão a estudar para parteiras – explicaram-me.

“Precisamos de mais médicos, especialmente de parteiras dado que só existe uma na nossa região.”, disse o Administrador do sub-distrito de Lolotoe, distrito de Maliana, em 2010. E o Plano Estratégico de Desenvolvimento 2011-2030¹ assim o planeou e pelos vistos está a executar:

Meta até 2020 (médio prazo):
Em 2020, todos os Postos de Saúde terão, pelo menos, um médico, dois enfermeiros e duas parteiras. (Pág. 41).

Programa de infraestruturas:
Expansão e melhoria da capacidade de formação – As funções de formação para todas as categorias de pessoal, incluindo enfermeiros, parteiras e médicos, serão aumentadas e melhoradas. Isto irá requerer novos edifícios de faculdade de enfermagem e medicina. (Pág. 50).

Meta até 2030 (longo prazo)
Haverá hospitais distritais em todos os 13 distritos. (Pág. 267)

Distrito de Bobonaro, sub-distrito de Maliana.
O nome “Bobonaro” deriva da palavra tétum “Buburbnaru” e significa “grande eucalipto”.²


¹ “Plano Estratégico de desenvolvimento 2011-2030”, República Democrática de Timor-Leste. Página consultada a 6 Fevereiro 2019,
<http://timor-leste.gov.tl/wp-content/uploads/2012/02/Plano-Estrategico-de-Desenvolvimento_PT1.pdf>

² “Bobonaro (Gemeinde)” (s.d.) Wikipedia. Página consultada a 6 Fevereiro 2019,
<https://de.wikipedia.org/wiki/Bobonaro_(Gemeinde)>

109 - Almoço em Maliana

Serviços administrativos da divisão distrital do Ministério da Saúde. Efetivamente eu pensava que era um centro de saúde e tentei entrar. Estava fechado. Mas o segurança viu-me e abriu a porta para eu espreitar. Entretanto ele indicou-me que o hospital é mais para a frente.

Um dos funcionários, um homem gordo e muito divertido, reuniu a equipa toda para esta foto. Foi buscar um a um, puxando-os, e alinharam-se todos. E depois ele disse que eu já podia tirar a foto e fugiu, deixando-os a eles todos alinhados. Claro que nos rimos todos à gargalhada, com a surpresa, e eu acabei por tirar esta foto à pressa, antes que eles dispersassem novamente.

É estagiário no 4º ano de Medicina. Faltam dois anos para terminar, contou-me.

São duas da tarde, tenho 41 km na bicicleta. Venho a pedalar desde a fronteira de Mota-Ain. Foi uma manhã bastante agradável e suave.

Este é o segundo prato, repeti tudo, com exceção do arroz. Carne de vaca com batatas fritas, massa, arroz e legumes. Tudo escolhido dos sete tabuleiros que estão em frente à senhora, na montra, com a comida já feita. Quem é que disse que não se pode comer batatas fritas, massa e arroz, tudo ao mesmo tempo? E a seguir foram duas bananas.
O que sobrou, sobretudo arroz, e mais uns bocaditos de carne que deixei propositadamente, foi para o cão que está à porta do restaurante, lá fora. Ele já deve saber que de vez em quando lhe calham uns bocadinhos. Em tétum “cão” diz-se “assu”, ensinou-me o Valério. Eis as minhas aulas de tétum recebidas do Valério:

Sim = loss
Não = lae
Como está? – Diacalai (em tétum escrito é “Diak ka lae”, vim posteriormente a descobrir, e significa literalmente “Bom ou não?”)

Diacalai, tem um assu bonito!
(Já posso dizer isto a alguém).
(Mas “ass” é rabo em inglês. Também fico com a sensação que estou a dizer à pessoa que tem um rabo bonito, mas pronto).

110 - De Carro pelas Montanhas

O mercado de Maliana, em frente ao restaurante.

Chefe do Suco Lahomea. O chefe chamava-se Mau Leto.  (Sobre o significado de “suco” remeto para a crónica 78. Maliana está dividida em sete sucos).

Dadas as condições das estradas, o transporte de pessoas não pode ser feito em autocarros normais. Não teriam capacidade para aguentar este piso.

Este menino (parece-me um rapaz) vai ser meu colega pintor. E vai bem agarradinho à mãe.

111 - As Duríssimas Estradas das Montanhas

Parámos aqui um pouco, para o Valério descansar e fumar um cigarro. Eu aproveitei para ir fazer xixi no mato. Estas questões logísticas – mais especificamente urinárias, ou também escatológicas – atormentam-nos, fazem parte das viagens, não só desta viagem, mas da viagem inteira da nossa vida; é preciso ir gerindo com descontração estas necessidades, na medida do possível. Nesta viagem até é bastante fácil, no meio de tanto campo. Nem sei se não será mais complicado nas cidades, sempre à procura de uma casa de banho. Para os homens é mais prático, em qualquer canto se desenrascam contra a parede, o que nem sempre é positivo em termos higiénicos, nas cidades, mas para as mulheres é mais complicado.
Bom, e após estas considerações sobre a vida em geral, e sobre os aspetos urinários em particular, retomemos a viagem. Entretanto demos boleia a este homem.

Venho de Maliana, estou na aldeia de Lela, e vou para o Suai.
A aldeia de Lela pertence ao sub-distrito de Maucatar, distrito de Cova Lima (a vermelho no mapa). A linha cinzenta representa a fronteira com a Indonésia.

O camião não consegue subir a estrada e impede a nossa passagem. Este é um dos camiões que transportam pessoas. O Valério vai ver se consegue ajudar. Eu filmei uns segundos, com o smartphone, e foi precisamente quando rebentou um pneu. Vê-se o susto do Valério, o que muito me faz rir. O vídeo pode ser visto aqui:
https://youtu.be/8PprJEY5eqY

Eu nem me atrevi a ir dentro da pickup, fiquei de fora a fotografar. O camião não conseguiu subir e teve de fazer marcha atrás, ficou estacionado lá em baixo.

112 - Chegada e Hotel no Suai

Fizemos uma paragem aqui para eu fotografar a árvore  e para esticarmos as pernas. O Valério fumou mais um cigarro e agora tem uma visita para conversar em tétum (a pessoa a quem demos boleia na crónica anterior), pelo que nos demorámos aqui alguns minutos. Eu fui logo picada pelas melgas, o que não é bom. Não pelas melgas, mas pelo mosquito da malária que pode picar-me também. O repelente de insetos colocado esta madrugada já não está a fazer efeito, é arriscado. É urgente chegar ao hotel, tomar banho e pôr novamente o spray. Conforme contei na crónica 2, eu trouxe três frascos de repelente de insetos para pôr no corpo, dos mais potentes do mercado, com 50% de Deet. Da próxima vez será melhor trazer mais, para poder ir renovando mais amiúde, porque os três não chegam para tantas renovações, durante os 26 dias da viagem. E estes bons repelentes são caros e nem se vendem nestes países. Vendem repelentes, mas muito mais fracos, diria quase insignificantes, por experiências anteriores. É curioso, pois é precisamente nestes países onde há uma alta incidência da malária que eles fazem falta. Em Portugal, comprar um repelente com 50% de Deet, nem se justifica. Por isso existem várias gamas, com vários graus (e cujo preço varia de acordo). Portanto, aqui não parei quieta um segundo, sempre a mexer-me para evitar que os mosquitos não consigam pousar em mim e picar-me.

Está a ser construída uma auto-estrada de 152 km, entre Suai e Beaço, em Viqueque. A primeira parte, com 30 km, foi inaugurada já depois da minha viagem, em Novembro de 2018. Recordo que esta minha viagem decorre em Julho e Agosto de 2018.
Leio o seguinte no Diário de Notícias:

“17 Novembro 2018
A obra faz parte de um projeto mais ambicioso conhecido como Tasi Mane (Mar Homem, uma referência ao mar mais agitado da costa sul, em contraste com o Tasi Feto, ou Mar Mulher, o mais calmo da costa norte).
O Tasi Mane é um projeto de desenvolvimento de toda a costa sul do país que inclui a construção da Base de Apoio de Suai – zonas logísticas, residenciais e industriais -, a refinaria de Betano, uma unidade de processamento de Gás Natural Liquefeito (GNL), um porto e o gasoduto até ao campo Greater Sunrise, no Mar de Timor. [Sobre o GNL e o Greater Sunrise, ver crónica 60].
A primeira fase da obra, no valor de 298 milhões de dólares, foi adjudicada à China Overseas Engineering Group, a que se somam mais quase 10 milhões em pagamentos por expropriações, o que implica que o custo dos primeiros 30 quilómetros da obra se cifrou nos 10,17 milhões por quilómetro.
O primeiro troço que liga Suai a Fatukahu/Mola, estende-se ao longo de 30,4 quilómetros e engloba dez pontes, quatro interseções, 20 viadutos, 20 caixas de drenagem e 60 passagens hidráulicas. O segundo troço deve começar a ser preparado em 2019.
O projeto arrancou em 2011 com estudos técnicos, prosseguiu com a identificação, aquisição e compensação de mais de 289 hectares de terras e propriedades para o projeto.”¹

A inauguração destes primeiros 30 km, foi acompanhada por um festival de atividades radicais:
“Alguns destes eventos serão realizados pela primeira vez na história de Timor-Leste”, disse [o secretário de Estado da Juventude e Desporto, Nelio Isaac Sarmento], notando que o evento é uma oportunidade de mostrar o que o país evoluiu desde a restauração da independência, em 2002.
Artes marciais mistas, motocross, ‘off road’, um rali que visitará os dois lados da fronteira entre Timor-Leste e a Indonésia, parapente e até lutas de galo fazem parte do festival que inclui uma maratona, uma meia maratona e uma prova de 10 mil metros.
Além da participação de atletas nacionais e internacionais em várias modalidades, o Suai Extreme apostará num amplo envolvimento da comunidade local, com competições desportivas, uma feira alimentar e de café, bem como outros eventos musicais.”²
(Fim de citação).

As lutas de galos é que já eram dispensáveis. Supostamente são proibidas em Timor-Leste, não percebo que vanglória é esta.

Chegámos às 19h ao hotel Suai. Tomei logo um bom banho, quente e cheio de espuma, e pus o repelente de insetos. Às 20h é o jantar no hotel.

O filho do dono do hotel, e quem nos recebeu e tratou de tudo. Chama-se Ronny Chung. O pai é chinês, a mãe é timorense. A mistura de timorenses com chineses normalmente dá estes bons resultados 🙂 O Ronny Chung é viajado e já esteve algumas vezes em Portugal, contou-me. Também me contou que um dos seus antecessores – o avô, ou bisavô – foi um dos chineses prisioneiros trazidos para Timor. E pelos vistos os seus descendentes tiveram sucesso, agora têm um hotel e um neto ou bisneto alto e espadaúdo.

O cão do Ronny, gorducho e feliz, que o segue para todo o lado. Chama-se Matthew. Dei-lhe um pouco de arroz, mas sua excelência tem mais que comer, nem ligou. Não quer saber de arroz para nada, só deve querer uns bifinhos.


¹ “Primeiro troço de autoestrada em Timor-Leste inaugurado hoje no sul do país” (2018, 17 Novembro). Agência Lusa, Diário de Notícias. Página consultada a 12 Fevereiro 2019,
<https://www.dn.pt/lusa/interior/primeiro-troco-de-autoestrada-em-timor-leste-inaugurado-hoje-no-sul-do-pais-10191548.html>

² “Festival radical marca inauguração de troço da primeira autoestrada de Timor-Leste” (2018, 16 Outubro). Agência Lusa, Diário de Notícias. Página consultada a 12 Fevereiro 2019,
<https://www.dn.pt/lusa/interior/festival-radical-marca-inauguracao-de-troco-da-primeira-autoestrada-de-timor-leste-10007546.html>

113 - 23º Dia, Passeando no Suai

Despertador às 5.35h. Matabicho às 6.30h.
Passeio matinal de bicicleta – noturno – antes do matabicho. Às 6.15h fui acordar o rapaz ou quem quer que esteja a tomar conta do hotel, bati em todas as portas que encontrei, na casa principal. Pedi para abrir o portão. Meus amigos, daqui a 15 minutos é suposto estarem a servir o pequeno-almoço, como é que ainda estão a dormir?!… E abram lá o portão do hotel, se faz favor, que eu quero ir dar uma volta de bicicleta antes.

Isto é o que se chama acordar com a pica toda.

Saí que nem um touro bravo lançado pelos campos, montada na bicicleta, e logo à saída do hotel dei de caras com este homem. Ficou muito surpreendido a olhar para mim e perguntou-me em português onde estou alojada (aqui neste hotel, respondi-lhe, apontando para trás de mim), quantos dias estou aqui (apenas esta noite, voltei a responder), quantas pessoas são (apenas eu, disse-lhe) e já anda a tirar fotos a esta hora? – perguntou-me.
Isto foi um verdadeiro interrogatório às 6.15h da manhã. Eu respondi a tudo. Rimo-nos os dois, com este inusitado episódio, noite cerrada.

Vou ver se resolvo esta cena das fotos noturnas… quando tiver dinheiro para comprar uma máquina fotográfica de melhor qualidade! A minha já tem uma porção de anos (e mesmo assim safa-me bem, noutras circunstâncias mais propícias…). É que andar de bicicleta com a máquina a tiracolo, sujeita a quedas e roubos, enfim, tira-me a vontade de investir seriamente numa câmara nova. Se eu me espalhar ao comprido, na bicicleta, a câmara vai ao chão; não anda sequer dentro da mala. Um tripé resolvia isto, mas eu vou lá andar carregada com tripés?!… Enfim, o meu objetivo número um é passear… em segundo lugar é que vêm as fotos…

O pãozinho está quente, acabado de fazer! Com doce, margarina e a minha manteiga de amendoim. Como sempre, manteiga é para esquecer. Dentro da caixa com tampa cor de laranja está açúcar.

Guardei uns pedaços de carne do jantar, no frigorífico das bebidas, aqui mesmo na sala de jantar do hotel, e comi esta manhã. Fico com maior pujança na bicicleta.

À esquerda está a aldeia de “Suai Loro”, a qual visitarei mais detalhadamente na próxima crónica.

Pela primeira vez vejo alguém a lavar os dentes. Na Índia, por exemplo, era algo frequente, ver sobretudo as crianças a lavarem os dentes à porta das suas casas. Aqui em Timor nunca vi. Esta é a primeira pessoa que apanho. E esforcei-me por chegar em silêncio, sem ele dar conta, para conseguir fotografar naturalmente, sem mudanças de posição ou atitude por causa de mim e das fotografias. Aproximei-me furtivamente, é verdade, torcendo para que nenhuma criança gritasse os seus habituais “Malai! Malai” o que trairia de imediato a minha presença.
É que não há casas de banho ou lavatórios para esta função. Só há buracos no chão e tanques de água. Das duas uma: ou as pessoas lavam os dentes nesses tanques, e bochecham a água para o chão, ou não lavam!
Quem souber resolver este mistério da escovagem de dentes em Timor, que se acuse!
Eu por acaso ainda distribuí algumas escovas de dentes e pequenos tubos de pasta de dentes, que me deram nos hotéis e pousadas. Continuei a usar os meus, e guardei os dos hotéis para distribuir mais tarde. Um dia parei a bicicleta e distribuí o conteúdo dum saquinho por duas crianças. Com gel de banho e shampoo também.

Umas mulheres riram-se à gargalhada, atrás dele (e de mim), nas casas do outro lado da rua, ao perceberem que ele tinha sido apanhado. Elas mantiveram o silêncio enquanto eu me aproximava dele. Estavam a observar tudo com atenção. E fizeram silêncio para não perturbarem a minha missão fotográfica. Riram-se depois, em voz alta, quando eu consegui a fotografia! Isto é que é cumplicidade feminina.

114 - Visita a Suai Loro

Ele cuida bem de si… Adorna o corpo com tatuagens, não tem um pingo de barriga, calçãozinho azul… Digam lá que não sabe cuidar-se.
(Pensavam o quê?… que eu era uma ciclista cega?… Estes olhinhos não vêem só estradas e bicicletas!!)

Este é o Tomás e também já promete!

– Olá Rute! Vieste visitar-me?
– Olá Porco, sim! Tu pareces um javali!
– Pois, aqui por estas terras somos assim, felpudos!
– Vou tirar-te uma fotografia.
– Ok, vê lá se não fico com os olhos fechados ou vermelhos.
– Já está! Muito bem, vou continuar a visita aqui por Suai Loro, adeus!
– Adeus Rute, tem cuidado na bicicleta, não atropeles nenhum de nós!
– Sim, tenho cuidado!

Aqui é a Frederica, vendedora de alfaces e legumes.

Todos os ciclistas que apanho, fotografo.

“Eu, Portugal!” – disse eu a alguém, apontando para mim própria.
“Eu, Timor-Leste!” – respondeu-me um rapaz, e rimo-nos todos.

Aquela coisinha magrinha lá ao fundo é que me dá dó.

115 - Em Busca dos Crocodilos

Aqui em Suai Loro vi dois crocodilos, um desapareceu logo debaixo de água, nem consegui fotografar.
Encontro esta notícia de 2016:

Ataques de crocodilos em Timor-Leste aumentam sem medidas de controlo

Um projeto de monitorização de crocodilos em Timor-Leste confirma o aumento de ataques este ano, com pelo menos 15 incidentes que causaram três vítimas mortais, segundo dados facultados à Lusa.
O projeto está a ser desenvolvido pela Direção de Biodiversidade do Ministério de Comércio, Indústria e Ambiente (MCIE), pelo Departamento de Agronomia da Faculdade de Agricultura da Universidade Nacional de Timor-Leste e pela direção de Remote Sensing and Landscape Information Systems, da Universidade de Freiburg.
Segundo os dados recolhidos até ao momento por este projeto, entre 2007 e 2014 houve pelo menos 123 vítimas de ataques de crocodilos no país, 59 das quais mortais.
A maior fatia de ataques ocorreu em zonas dos distritos de Viqueque e Lautem, incluindo em locais de destino turístico como Com e Tutuala.
Nos últimos meses, tem havido também vários casos de observação de crocodilos nos arredores de Díli e há o registo de pelo menos uma fatalidade: em abril um pescador foi mordido e acabou por morrer por causa dos ferimentos.
Mas há cada vez mais observações de crocodilos em diversos pontos de Timor-Leste, tanto na costa sul como na norte, com especial destaque, recentemente, para as costas próximas da capital, Díli.

Estanislau da Silva, ministro da Agricultura e Pescas, explicou à Lusa que o executivo está a tentar reativar contactos, especialmente com a Austrália, no intuito de responder ao problema, “algo que não é fácil”. “Mas eu sou da opinião de que se deve começar a abater os crocodilos. Este assunto é alvo de grandes debates. Mas tem de se abater os crocodilos que atacam”, afirmou.
“Devemos trabalhar com a Universidade de Darwin que tem sistemas e metodologias para identificar os crocodilos que atacam e esses devem ser abatidos”, disse.
O governante admite que questões tradicionais e culturais são um obstáculo aos esforços do Governo, especialmente na ponta leste do país onde as comunidades vivem mais arreigadas a esses aspetos, mas onde também ocorrem mais ataques.
“Temos de ver a melhor forma de comunicar com as comunidades. E estudar medidas para mitigar o problema”, disse. “Foi já apresentada uma proposta para criar aqui uma unidade de criação de crocodilos para fins comerciais. Esse investimento ainda não se concretizou mas pode vir a ocorrer”, referiu.

Sebastian Brackhane, investigador da Universidade de Freiburg e um dos responsáveis do projeto, explicou que a tendência é de um aumento de incidentes o que requer modelos de gestão focados mais na prevenção de ataque e mitigação do problema do que em conservação dos animais.
Além do mito de criação do país, da ilha crocodilo [ver a crónica 32 sobre a Lenda do Crocodilo] – há muitos rituais, poemas e outras manifestações culturais que honram o avô Lafaek (crocodilo) -, também há quem em Timor-Leste veja nos ataques uma espécie de punição da natureza contra as vítimas.
Aspetos como este condicionam as respostas das autoridades ao problema e ajudam a paralisar decisões mais concretas e amplas do executivo.

Uma das estratégias tem sido, em algumas zonas do país, estabelecer o que se intitula de Espaços de Exclusão de Crocodilos, zonas vedadas com estruturas de metal ou bambu para permitir que as comunidades realizem atividades como lavar a roupa, tomar banho ou até pescar em segurança, reduzindo o risco de ataques.

O impacto da crescente população de crocodilos – aponta-se a possibilidade até de uma migração das populações do Território Norte da Austrália (onde a sua proliferação impede, por exemplo, banhos nas praias de Darwin) – está igualmente a ter impacto ambiental.
Os crocodilos podem estar a contribuir para a queda no número de tartarugas de uma espécie local recentemente descoberta, a Chelodina timorensis, afetando outros habitats do país.
Dados disponíveis de investigações levadas a cabo em 2012 sugerem um aumento constante do número de animais da espécie Crocodylus porosus, o crocodilo de água-doce que nos anos 70 do século passado quase chegou à extinção.¹

Novamente um “manguezal”, conforme já descrevi na crónica 33, no Loré.

Aparentemente isto é um parque de estacionamento de bicicletas. E eu deixei a minha também e fui a caminhar a pé pela praia, em busca de crocodilos.

Quando eles descobriram que eu andava em busca de crocodilos, ofereceram-se prontamente para ajudar-me.

E levaram-me até esta zona, agora na maré vazia. Efetivamente estava aqui um crocodilo, e este homem estava sentado debaixo da árvore, em silêncio, a vê-lo. Ainda vi a cabecinha do crocodilo fora de água, mas nem consegui fotografá-lo, porque com tamanho alarido de tanta gente, ele fugiu logo. Eu nem tive tempo de agarrar na máquina, quanto mais de disparar. Bom, mas vi um crocodilo timorense, ou se calhar era um imigrante australiano, de acordo com a notícia acima, agora já não se sabe. Os fluxos migratórios também já chegaram aos crocodilos.

Deixei a praia, desanimada por não ver crocodilos como deve ser, e este pescador abordou-me. Eu estou parada, em pé, com a bicicleta ao meu lado, a ver se vejo crocodilos. Há tantos crocodilos e eu não vejo crocodilos porquê?! (Não queiram meter-se com uma ciclista – feminina – contrariada por não ver crocodilos…) Contou-me que não há peixe na ribeira, que não conseguiu pescar nada, vem com a rede vazia, e que tem medo dos crocodilos. Já foi mordido por um. Enquanto pesca, eles atacam-no. E levou-me a ver crocodilos. Andou uns metros para a frente (eu atrás dele, a caminhar com a bicicleta pela mão) e ainda me apontou outro, lá ao fundo. Mais uma vez vejo a cabecinha do crocodilo fora de água, e desta vez fotografei, mas precisaria de uma objetiva maior, pois a minha não apanhou nada.

Entusiasmada por ter visto mais um crocodilo, voltei à praia. Desta vez não deixei ninguém acompanhar-me para não haver ruído. O pescador que estava sentado debaixo da árvore, agora está a pescar. Pelos vistos ele estava à espera que o crocodilo se fosse embora, para poder ir para dentro de água lançar a sua rede. Agora percebo como isto é assustador. Onde o pescador está, era onde estava o crocodilo que eu não consegui fotografar. Se o bicho resolve regressar, o pescador está tramado. Bem que disse o outro pescador que já tinha sido mordido. Pudera. E depois há outro aspeto: são dois caçadores – homem e crocodilo – para o pouco peixe que deve haver por aqui. Por isso o outro pescador não conseguiu pescar nada!

No meio desta minha caça aos crocodilos, o pobre Valério está a apanhar uma seca dos diabos, à minha espera. Está a jogar um jogo no telemóvel. Eu disse-lhe que agora está sozinho, que já não tem o Sanches para lhe fazer companhia, ou o Rui, ou quem quer que seja. (“Esta garrafa de água é para a Rute, e tu bebes da ribeira!” – disse o Valério ao Sanches, um dia, fazendo-nos rir todos à gargalhada).
Sigo-o agora – eu na bicicleta, o Valério na pickup. Vai mostrar-me outra praia no Suai. São 10 da manhã.
Vi três crocodilos em Timor, portanto. O primeiro na crónica 16, na zona de Lautem, e agora estes dois. Se calhar aqui foi o mesmo crocodilo, que andava a nadar para cá e para lá, não sei.

Um furo de petróleo! A parte mais escura é dos testes ou amostragens que volta e meia fazem.

Estas ruínas pertencem a um edifício de origem portuguesa, onde eram detidos temporariamente delinquentes que a Administração Portuguesa apanhava, para cumprirem pequenos castigos, ou até serem entregues para julgamento.
Atraiu-me aqui a grande quantidade de motas, e descobri que estão a praticar alguma arte marcial ali mesmo ao lado.


¹ “Ataques de crocodilos em Timor-Leste aumentam sem medidas de controlo” (2016, 18 Maio). Agência Lusa. Jornal Online O Observador. Página consultada a 17 fevereiro 2019,
<https://observador.pt/2016/05/18/ataques-crocodilos-timor-leste-aumentam-sem-medidas-controlo/>

116 - A Caminho de Zumalai e Atsabe

Voltámos ao hotel para ir levantar o nosso almoço, encomendado pelo Valério. São agora 10.30h da manhã. Na foto, o filho do dono do hotel, Ronny Chung, que nos recebeu e entregou o almoço em cuvetes, para levarmos. Tenho por enquanto 16,5 km na bicicleta.

Paragem no “Eastern Dragon Supermarket”, com letras em chinês também, para comprar leite e bolos.

Achei curioso ver a bandeira de Portugal ali tão em cima. Quem é que conseguiu subir até ali e prender a bandeira? Quando o encontrei o Valério, mais à frente, este explicou-me que foi posta ali por altura do campeonato europeu de futebol, em 2016, em que Portugal ganhou.

Vai aqui um trânsito… Uns para a esquerda, outros para a direita…

Faz uma grande caloraça.

Saí do Suai e vou a caminho de Zumalai, e a seguir Atsabe, onde pernoitarei. Hoje farei 51 km na bicicleta e 41 na pickup, num total de 92 km.

117 - Passagem em Zumalai

Este pestinha da esquerda deve ser um verdadeiro terrorista… E gozou comigo! “Uma bicicletaaaa!…”, disse eu, quando ele chegou. E ele imitou-me como um papagaio, exatamente no mesmo tom: “Uma bicicletaaaa!…”, o que nos fez rir a todos.

Esta casa tem arquitetura indonésia. É semelhante à da crónica 91, em Timor indonésio, com aquele género de palhinhas verdes. Se calhar os moradores aqui são indonésios.

118 - As Grandes e Ventosas Montanhas de Timor-Leste

Tenho 48 km na bicicleta, são 13.20h, é hora de almoçar. Hoje temos o almoço trazido do hotel, em cuvetes. Até agora andei 6 horas de bicicleta (foram mais as paragens do que o andamento…), bebi 3 litros de água e dois pacotes de leite com chocolate.

A comer uns belos bifinhos com arroz e legumes, e a olhar o Mar de Timor, que pertence ao Oceano Índico. (Parece que não é consensual, uns dizem Oceano Índico, outros dizem Oceano Pacífico… Enfim, pelo menos “Mar de Timor” é garantido que é). (Até com os oceanos as coisas não estão definidas, em Timor… São as fronteiras marítimas, são as fronteiras terrestres, só cá faltavam os oceanos também).

Hoje tenho sobremesa! Hoje não me faltam bolos! O Valério comprou um porção de variedades na loja de Suai!

Comi dois bolos destes, um donut e uma banana. Tenho que alimentar-me bem…

Prossigo agora na pickup, de barriga cheia.

Pedi ao Valério para esperar um pouco e subi a montanha a pé. Eu estou aflita para fazer xixi, mas não existe qualquer cobertura por aqui. Lá em baixo o Valério disse para eu ir a uns arbustos, e eu experimentei baixar-me e vejo toda a gente. Ora toda a gente me vê a mim também. Não – disse eu ao Valério – aqui não pode ser, aqui vão todos ver uns calções vermelhos e um rabo branco. O Valério soltou uma gargalhada.

Deixei a câmera no chão, em contagem descrescente, e tirei esta selfie nas montanhas de Timor. Faz uma ventania enorme. Estou algures no distrito de Bobonaro. Depois da aldeia de Lepo, e antes do cruzamento para Atsabe e Bobonaro.
Também fiz um vídeo de 31 segundos que pode ser visto aqui:
https://youtu.be/pTNvS3GaA6w

Tomara nós termos o nosso eterno repouso no topo de uma montanha!

Com surpresa encontrei os três no topo, no meio desta enorme ventania. Creio que andam a pastar o gado, serão três pastores eventualmente. E se eu me surpreendi, imaginem a surpresa deles ao ver-me a mim. (O que anda esta aqui a fazer?… – devem ter-se interrogado). Apertámos todos as mãos, como cumprimento, e depois de cada aperto de mão foi outro com mais estilo, com as mãos cruzadas e os polegares entrelaçados (como descrever isto em texto?!… Como descrever um aperto de mão com as mãos cruzadas, em texto?!… Esta é boa. Olhem, só com uma imagem – espero não ser multada por estar a usar isto sem pagar… Não, pelo contrário, estou é a fazer-lhes publicidade gratuita!)

Retomo a bicicleta às 16.15h, e esqueci-me das luvas na pickup. Tive de ligar ao Valério para parar e esperar por mim. Sem luvas as mãos ficam a arder, senti logo mal comecei a andar.

119 - Chegada e Hotel em Atsabe

Luta de galos. Hoje é domingo e a população diverte-se assim. Tal como referi na crónica 31, as lutas de galos são proibidas em Timor-Leste. Mas fazem-nas sem qualquer controlo por parte das autoridades. As próprias autoridades têm galos para lutar. Aliás, até uma mota da polícia está ali. Qualquer dia alguém tem de pôr definitivamente mão na barbárie.

Eu já não aguento mais a vontade de fazer xixi (já venho assim desde as montanhas, na crónica anterior!), e não há arbustos nem zonas desertas por aqui. Então o Valério parou a pickup e foi a esta casa perguntar às pessoas se eu podia ir à sua casa de banho. É de um casal de velhotes, muito discretos, nem consegui fotografá-los, e eles deixaram-me ir. A casa de banho fica fora da casa, do lado esquerdo.

O tradicional vaso sanitário de agachamento (ou em inglês “squat toilet”), com o tanque de água ao lado, para encher o recipiente de plástico e vazar a sanita.

Igreja de Nossa Senhora das Dores, em Hauba – é o que está escrito no topo.

Eu venho do Suai (distrito de Cova Lima) e vou para Atsabe (distrito de Ermera). E neste momento estou em Hauba, no distrito de Bobonaro. Passei por três distritos num só dia!

Bananeiras e plantação de milho.

Fotografar estes placards é uma maneira de descobrir onde estou. É que aqui em Timor não existem em placas do “Bem-vindo a Batumano”, por exemplo, ou algo assim. Não há placas nenhumas mesmo, a ajudar no trânsito. Até estou interessada no facto da Comissão Europeia estar aqui a desenvolver um programa, mas assim fico a saber que estou no suco Batumano, na aldeia de Batu Ero! E posso localizar-me no mapa.

Plantação de feijão.

Nas estradas pedregosas, ainda não alcatroadas, apenas estes camiões conseguem desempenhar a função de autocarros e transportar as pessoas. Citando o blog de Augusto Joaquim de Carvalho Lança, o qual foi Professor na Faculdade de Agricultura da Universidade Nacional de Timor Lorosa’e:

“(…) [Estima-se] que mais de 43% da área de Timor-Leste tenha declives superiores a 20%, limitando-se as zonas planálticas e aluviões a ocupar apenas 12% da área total.
O relevo de Timor-Leste é bastante vigoroso. Ao contrário das restantes ilhas da Insulíndia suas vizinhas, Timor nasceu do choque das placas Australiana e Euro-asiática e não tem origem vulcânica, mas sim tectónica (enrugamento da crosta). Aparentemente a ilha de Timor continua a sua elevação das profundezas do mar.
As consequências deste fenómeno na agricultura são evidentes, pois os fenómenos erosivos são omnipresentes, e a acção do Homem dificilmente não os agrava. Os solos são, de modo geral, derivados de xisto e outras rochas sedimentares e têm forte vocação florestal. Uma notável excepção é constituída pelas ricas planícies aluviais da costa sul.
Outra consequência prática deste relevo acidentado é a dificuldade da manutenção de um sistema viário eficiente. O clima tropical característico de Timor, com as suas fortes chuvadas, torna tudo ainda mais difícil. As estradas existentes são, assim, vítimas fáceis das avalanches, deslizamentos de terreno e cursos de água torrenciais. Trata-se de um entrave importante ao desenvolvimento agrícola e nacional, contribuindo fortemente para o isolamento das comunidades rurais. As culturas do café, na zona montanhosa ocidental de Ermera, e do coqueiro e do arroz, na costa sul, serão certamente beneficiadas uma vez melhorados os acessos à capital.”¹

Já estou em Atsabe, distrito de Ermera, falta pouco para chegar à casa onde vou pernoitar.

Estas árvores são aqui conhecidas como as “Madres do Cacau” (Paraserianthes falcataria) e servem para dar sombra nas plantações de café. Formam uma paisagem espantosa. Citando novamente o blog de Augusto Joaquim de Carvalho Lança:

“A madre do cacau, ou albizia das molucas, com a sua espectacular copa estratificada, contribui para o exotismo da paisagem timorense. São omnipresentes nas zonas montanhosas do café, apesar de estarem a sofrer importantes baixas. Fundamentais para sombrear os rústicos cafezeiros de Timor, torna-se necessário arranjar o que as substitua. Os esforços da Missão Agrícola Portuguesa concentram-se na Leucaena leucocephala. A situação é, contudo, preocupante.
Estes mastodontes vegetais têm um importante papel na conservação dos solos, logo do sistema de produção de café timorense, assim como das estradas. Apesar da grossura dos seus troncos, a Paraserianthes falcataria (ex-Albizia mollucana) parece ter madeira de esferovite, tal a sua leveza. Originária do Sudeste Asiático, também se cultiva na Indonésia para a produção de papel. A sua folhagem possui bom teor azotado e palatabilidade razoável, pelo que pode ser usada como forrageira em agro-florestação. Em Timor entra na dieta dos cavalos. É uma leguminosa e fixa quantidades consideráveis de azoto.¹
(Fim de citação).

A espécie é também amplamente plantada nos trópicos, incluindo Brunei, Camboja, Camarões, Ilhas Cook, Fiji, Polinésia Francesa, Japão, Kiribati, Laos, Malásia, Ilhas Marshall, Myanmar, Nova Caledónia, Ilha Norfolk, Filipinas, Samoa, Tailândia, Tonga, Estados Unidos da América, Vanuatu e Vietname.
A Paraserianthes falcataria pode crescer numa ampla gama de solos. Não requer solo fértil; pode crescer bem em solos secos, solos húmidos e até em solos salinos a ácidos, desde que a drenagem seja suficiente. Sob condições favoráveis, as árvores podem atingir 7 metros num ano, 16 metros em 3 anos e 33 metros em 9 anos.²

Chegada ao hotel (ou guesthouse?) em Atsabe, às 18.30h. Hoje fiz 51 km na bicicleta e 41 na pickup, num total de 92 km.

Fui pedir toalhas (no quarto não havia) e mais um cobertor, que por aqui faz frio. Também não há papel higiénico, só dei conta mais tarde, e acabei por usar um dos meus (que o Valério tem um saco cheio deles no carro e vai-me dando).

O quarto tem apenas uma tomada elétrica, e eu tenho três aparelhos para carregar (GPS, máquina fotográfica, telemóvel). Para a próxima vez não me esquecerei de trazer uma ficha tripla. Então o Valério foi buscar uma extensão na sala, onde está ligada a televisão, e passou-a para o meu quarto. Somos os únicos hóspedes, hoje ninguém vai ver televisão na sala.

Comidinha muito saborosa feita aqui no momento pela senhora que nos recebeu. Enquanto andei ocupada a desempacotar tudo (e desta vez ainda tomei um duche antes de ir jantar, não depois, como tem sido hábito), a senhora esteve na cozinha a preparar tudo: frango frito com molho de tomate. No prato mais pequeno à direita está “ai-manas” – piri-piri com molho de tomate, para o Valério, já que eu não quero picante na comida.

Curiosamente ouvi o Valério a colocar spray anti-mosquitos no seu quarto, no mesmo corredor, antes de irmos jantar. Uma das latas tem um resto. Sim senhor, tanto gozou comigo, que não é preciso, que não faz falta, e afinal rendeu-se às evidências. Trocei e o Valério riu-se, apanhado em flagrante. Claro que faz falta. Pode ser a diferença entre dormir descansado ou não. Eu também pus spray no meu quarto, antes de ir jantar.


¹ Lança, Augusto Joaquim de Carvalho (2006, 4 Maio), “A Agricultura em Timor-Leste ”. Timor Agrícola. Página consultada a 21 Fevereiro 2019,
<https://timor-agricola.blogspot.com/search?q=madre+cacau>

² Krisnawati, Haruni et al (2011) “Paraserianthes falcataria (L.) Nielsen: ecology, silviculture and productivity”. Center for International Forestry Research – CIFOR, Bogor, Indonesia. Página consultada a 21 Fevereiro 2019,
<http://www.cifor.org/publications/pdf_files/Books/BKrisnawati1103.pdf>

120 - 24º Dia, Amanhecer em Atsabe & Café de Timor

Faz um frio de rachar nesta terra. Negociei o pequeno-almoço para as 6.45h (tem de ser negociado, o horário do pequeno-almoço… A senhora queria o pequeno-almoço às 7. Ora às 7 já nós temos meia hora de caminho, dado que costumamos arrancar às 6.30h, ou mesmo às 7, já com o pequeno-almoço tomado). Sendo o pequeno-almoço às 7, então eu – uma vez mais – disse ao Valério que iria comer os meus cereais de chocolate, com leite, cerca das 6.30h, e que nós arrancaríamos às 7. Mas o Valério não quer, nunca acha bem que eu coma cereais ao pequeno-almoço, isto deve fazer-lhe confusão, e tentou chegar a acordo comigo e com a senhora. Cedi para as 6.45h e ela também. Pronto, seja. Cada qual cedeu 15 minutos. Mas também é um pequeno-almoço muito parco, constituído por pão, margarina e doce (e café), e eu até gosto mais de cereais com leite. Mas convencer o Valério… Aqueles bolos todos foi o Valério que comprou na véspera, no Suai. Não sou amiga de bolos pela manhã, pelo que para já não lhes toquei. Depois de almoço já lhes trato da saúde.

E depois desta negociação toda, eis que eu acordo 45 minutos atrasada. Não posso acreditar. Deixei o despertador no telemóvel que não tem rede nem internet. Resultado: ainda tem a hora indonésia, uma hora mais tarde, que foi a última vez que apanhou wifi no hotel. Bom, acordei disparada – sobretudo por causa desta negociação dos horários – então agora sou que fico a dormir?!…  – e ainda tive de pôr protetor solar e a seguir o anti-mosquitos antes de sair do quarto. Há melgas a esvoaçar na rede. A janela não tem vidro, é só rede. Eu dormi praticamente ao relento, com três camisolas e uma t-shirt, dois cobertores e a toalha de banho por cima de mim. Já estou a ganhar prática nisto, de me tapar durante a noite com a toalha de banho. É o que dá vir para países tropicais sem imaginar que faz este frio em algumas terras. E ainda as peúgas pretas que me deram no avião. Efetivamente transpirei durante a noite. Ora agora não posso andar por aí, com tantas melgas, sem o repelente de insetos. Mais uma vez repito: não é pelas melgas, é pelo mosquito da malária, que também pode andar por aí.
O protetor solar está tão espesso, que nem sai do frasco, por causa do frio. E a seguir é que posso pôr o anti-mosquitos. Enfim, com este despertar tão apressado, cheguei 5 ou 10 minutos tarde ao pequeno-almoço. Agora as malas ainda estão por fazer, claro, quando normalmente fica tudo feito antes de ir tomar pequeno-almoço.

Partimos às 7.40h, já tarde, para meu gosto. Foram os meus 45 minutos a dormir. E pedi ao Valério para voltarmos para trás, para fazermos três ou quatro quilómetros para trás porque eu quero ir ver novamente as árvores “Madres do Cacau” (Paraserianthes falcataria). É que na véspera vínhamos um pouco à pressa porque o Valério estava preocupado com a disponibilidade do hotel. Bastaria haver um grupo de 3 ou 4 turistas e já não haveriam quartos para nós, pois o hotel é muito pequeno, parece-me que só tem 4 ou 5 quartos. Então não parámos e eu não pude ver com calma as árvores. Voltamos agora para trás, portanto. Eu fui na bicicleta a descer a montanha, em busca das árvores (sem saber bem ao certo onde estão), e o Valério atrás de mim na pickup.

Não sou a única friorenta por aqui, heim?!… Eu estou com uma camisola de manga comprida, e por baixo duas t-shirts, a pedalar.

Placard sobre o programa de demonstração de reabilitação das plantações de café. Ao centro estão os logotipos da NCBA (National Cooperative Business Association – ou em português: Associação Nacional de Empresas Cooperativas, uma organização dos EUA), e um logotipo da Nova Zelândia. Nas pontas estão os logotipos da  Cooperativa Café Timor (CCT) e do Ministério da Agricultura e Pescas. O placard detalha o programa:

  1. Poda e rejuvenescimento, Novembro 2016
  2. Utilização de adubo orgânico, Dezembro 2016
  3. Fazer socalcos nas encostas, Fevereiro 2017
  4. Seleção dos ramos/galhos novos, Setembro 2017
  5. Aparar os ramos para modelar a planta
  6. Manutenção da base/planta do cafezeiro (limpar as ervas).
  7. Gestão e manutenção

Sobre a Cooperativa Café Timor (CCT) – e citando o seu próprio site – é a maior cooperativa agrícola de Timor-Leste com 28.000 membros. Produz café, especiarias e farinha de mandioca de alta qualidade para venda nacional e exportação. A CCT é detida, gerida e composta por timorenses, operando em 11 dos 13 municípios do país.
Nos últimos 17 anos, a CCT tem prestado serviços de atenção primária à saúde “gratuitos” para benefício das comunidades rurais nas regiões produtoras de café dos municípios de Ermera, Ainaro, Aileu, Liquiçá e Manufahi. Os serviços de saúde incluem serviços médicos gerais, dentários e de saúde materno-infantil. O CCT possui serviços clínicos fixos e também móveis, reforçados com os serviços das aldeias próximas. O Programa de Saúde Masculina da CCT é um programa voluntário baseado na comunidade, o qual aborda questões de homens em saúde; nutrição; questões de género; inclusão social e gestão de renda.
Estas atividades de saúde do CCT são sustentadas pela venda de produtos agrícolas da cooperativa e funcionam em estreita colaboração com o Ministério da Saúde de Timor-Leste para melhorar o estado de saúde dos timorenses rurais.¹

Pontualmente nestas crónicas tenho falado do café, e recupero agora essas informações dispersas: na crónica 53 é indicado que “o café, introduzido em 1815, tornou-se o mais importante produto de exportação, contabilizando cerca de 80% do volume total das exportações. Escusado será dizer que os beneficiários desta economia não eram os timorenses. Um total de 40% da produção de café era propriedade de uma empresa portuguesa cujos proprietários quase nunca puseram os pés na colónia. Outros 40% pertenciam a meia dúzia de famílias portuguesas, e o restante a alguns chefes tribais timorenses.”²
Na crónica 59 é indicado que exportação de café ainda não chegou aos níveis da época colonial como uma forma alternativa de obter rendimentos.
Na crónica 38 refiro que o café é a única commoditie significativa para uma futura balança comercial, pelo que a recuperação da agricultura foi um dos primeiros passos do programa da ONU.

Escreveu assim o Padre Francisco Maria Fernandes, em 2006:
“O café deu muita prosperidade a Timor. Era muito abundante no planalto de Aileu e em Ermera [Ermera é onde eu estou agora], espalhava-se pelos 600 a 2000 metros de altitude. Era o produto mais exportado pelos portugueses e dava dinheiro ao território. Lembro-me que, antes de 1974, os amigos da Alfândega de Díli diziam que saíam de Ermera mais de 2000 toneladas de café, representando mais de metade do valor das exportações de Timor. Hoje, infelizmente, o café está muito decadente e abandonado, mas podia ser um dos mais importantes produtos de exportação de Timor.”³

Bom, e voltamos ao cartaz de hoje, com o programa de demonstração de reabilitação das plantações de café em 2016 e 2017.
O site oficial do Governo de Timor-Leste indica:

Café é o príncipe dourado da agricultura timorense. Durante cerca de um século tem sido de longe a maior fonte de rendimento para os agricultores nas montanhas e é também o principal produto de exportação de Timor-Leste (80%). O Híbrido do Timor, um cruzamento natural entre a variedade Robusta (resistente à ferrugem) e a Arábica (de grande qualidade) teve origem em Timor e depois de melhoria intensiva e seleção é hoje plantado em todo o mundo. O café orgânico certificado de Timor tem obtido um bom preço no mercado internacional e tem assim protegido os agricultures dos atuais preços baixos.
Para além do aspeto económico, o café pode também ser utilizado para proteger o solo nas encostas montanhosas que caracterizam a maior parte de Timor. Numa plantação de café, existe normalmente um andar superior, constituído por árvores leguminosas, normalmente Paraserianthes falcataria (albizia), Casuarina and Leucaena, que protegem e enriquecem o solo; um segundo andar constituído pelas plantas de café que contribuem para fixar o solo, e um terceiro andar de vegetação espontânea que serve de coberto vegetal.

Atualmente é possível melhorar bastante a produção do café em Timor-Leste. As possíveis melhorias são: substituição gradual das plantas de café que se têm transformado em árvores, a poda e limpeza das existentes, substituição das árvores de sombra (especialmente as albízias que estão a ser atacadas por Uromycladium tepperianum), e melhoria no processamento das cerejas. O preço de mercado do café é bastante influenciado pelo processamento pós-colheita (depois de apanhar o café), e Timor tem o potencial para exportar café de grande qualidade, só se e quando, se utilizarem as técnicas adequadas para o processamento.⁴

Em 2016 encontro uma notícia sobre o “Festival do Café”:

Um concurso para escolher o melhor café timorense e o melhor ‘cocktail’ usando este ingrediente são o ponto alto do primeiro Festival de Café de Timor-Leste, que a partir de segunda-feira decorre em vários pontos do país. Iniciativa da Associação de Café de Timor-Leste (ACTL), o festival, que decorre até 3 de dezembro, incluirá a primeira competição de provas de café do país, com juízes profissionais da Austrália, Canadá, México, Tailândia e Estados Unidos.
A competição está aberta a agricultores e a grupos de agricultores que têm de apresentar amostras de dois quilos de café com casca ou 1,5 quilos de café sem casca com um grau de humidade de 9 a 12%.
Apesar de ainda reduzida – Timor-Leste exporta anualmente café no valor de cerca de 20 milhões de dólares – a produção de café timorense tem vindo a viver nos últimos anos uma revitalização. Vários projetos levaram à recuperação de algumas produções importantes tendo sido lançadas várias marcas que estão agora disponíveis no mercado nacional.⁵

Encontro uma notícia já sobre a edição de 2017 no site do Governo de Timor-Leste, dizendo que quem ganhou em 2017 foi alguém de Ermera. Este vídeo de 4 minutos mostra os concorrentes a servirem os seus cafezinhos (até fico com vontade de beber um) e vê-se o vencedor. O vídeo está legendado em inglês e não carece de password no Facebook:
https://www.facebook.com/kafetimor/videos/1857078544591855/
Aparentemente a edição de 2018 já não se realizou, pois a página oficial do Festival, no Facebook, só fala da edição de 2017.

Eu fui provando o café de Timor-Leste em alguns dos meus pequenos-almoços. É raríssimo eu beber café, mas aqui fui gostando e repetindo. Não sou entendida na matéria dado que não bebo café habitualmente (se eu já tenho esta energia toda sem café, imaginem se eu bebesse uma bica ou duas por dia; acho que ficaria capaz de trepar pelas paredes, como aquela criatura dos filmes do Shyamalan) – mas adoro café – pelo que tenho prazer em bebê-lo. Os entendidos certamente seriam capazes de comentar muito melhor o café de Timor-Leste do que eu. Fui bebendo o chamado “café Timor”, que é café moído, posto em água a ferver e depois deixa-se pousar e é coado num pano ou rede fina. Por vezes servem-no já com doses generosas de açúcar.

Cá estão elas, as árvores “Madres do Cacau” (Paraserianthes falcataria) que são usadas para dar sombra nas plantações de café.
Sobre aquela espécie de ninho que se vê ao centro, num dos troncos, são fetos, e em breve irei falar deles.

Dado que não fotografei decentemente a planta do café, segue esta foto retirada da internet. Nesta foto vêem-se as cerejas, que serão descascadas e no interior contêm os grãos de café.
Foto retirada daqui.

E depois de termos voltado para trás uns quilómetros para ver as árvores, regressamos novamente a Atsabe, de onde prosseguiremos caminho. As próximas fotos foram todas tiradas na vila de Atsabe, onde eu pernoitei.

“Morto por Portugal”. Quem é que foi morto por Portugal?

Foi o Cipriano, em 1943. (Não diz mais nada! É intrigante, esta campa… o Cipriano morreu por Portugal…)
Posteriormente vim a saber que foi um chefe timorense de Atsabe, o chamado “Liurai”: Dom Cipriano Gonçalves, morto pelos japoneses durante a 2ª Guerra Mundial.

Aqui temos mais uma coisinha linda, minorca, timorense.


¹ “Cooperativa Café Timor (CCT) – About” (s.d.). Cooperativa Café Timor. Página consultada a 24 Fevereiro de 2019,
<https://hamutuk.tl/en/profiles/organisation/CCT/#people>

² Ramos-Horta, José (1987). “Funu: The Unfinished Saga of East Timor”. Capítulo “Colonial Beginnings”, pág. 20. Segunda Edição (1996), The Red Sea Press, Inc., Nova Jersey. Página online consultada a 24 Fevereiro de 2019,
<https://books.google.pt/books?id=WsFVXrVEEekC&printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false>

³ Fernandes, Francisco Maria (2006) “Macao-East Timor Historic Relations”. Review of Culture, pág. 37. Instituto Cultural do Governo da R.A.E. de Macau. Página consultada a 24 Fevereiro de 2019,
<https://www.researchgate.net/publication/280313960_A_Cultura_Mambai_em_Timor_Leste>

⁴ “Café” (s.d.). Welcome to Timor-Leste. Government of the Democratic Republic of Timor-Leste. Página consultada a 24 Fevereiro de 2019,
<http://gov.east-timor.org/MAFF/Portugues/Cafe.htm>

⁵ “Festival vai escolher melhor café de Timor-Leste” (2016, 22 Novembro). Agêncisa Lusa. Jornal online O Observador. Página consultada a 24 Fevereiro de 2019,
< https://observador.pt/2016/11/22/festival-vai-escolher-melhor-cafe-de-timor-leste/>