Timor: 831 km de bicicleta, sozinha, 26 dias

091 - Entremos numa Casa & uma Aula sobre Bua Malus

Interior da cabana que se vê em primeiro plano na foto anterior.

Casa típica da parte indonésia de Timor. Não se vêem este tipo de casas em Timor-Leste.

Ao fundo, de t-shirt branca, está o Rui, aquele que será o nosso guia local na parte indonésia de Timor, durante o dia de amanhã. Era suposto amanhã regressarmos a Timor-Leste pela mesma estrada que estou a fazer agora na bicicleta. É a estrada mais direta e alcatroada. Mas eu pedi para fazermos um caminho diferente, preferencialmente pelo campo. Ora o Valério está estrear-se na Indonésia, tal como eu, e o Sanches não conhece caminhos alternativos. A Timor MEGAtours fez-me a vontade e tivemos então de encontrar um guia local, que conheça caminhos alternativos. Será o Rui, timorense de leste a viver nos arredores de Kupang. Já está a acompanhar o Valério na pickup há algum tempo, na sua mota vermelha.

O Valério a reabastecer o cantil da minha bicicleta.

Na crónica 80 já expliquei como se prepara a substância vermelha para mascar e mostrei fotos da planta e dos frutos, pelo que remeto para essa crónica, mais completa.
Muito resumidamente:
“Bua Malus” é uma mistura constituída por noz de areca, folhas de bétel e cal. O bétel é a quarta droga psicoativa mais comum no mundo, seguindo a nicotina, o álcool e a cafeína¹. O “Bua Malus” tanto pode ser preparado com folhas de bétel, como com o fruto desta pimenteira.
Nesta foto está o pacote com cal, a noz de areca já descascada (redonda), e o fruto da pimenteira bétel.

O Rui a mostrar-me a substância vermelha. Está a fazer esta careta um bocado estranha para eu conseguir fotografar.

O Sanches, depois de mostrar-me como se faz e consome o Bua Malus. Perguntou-me se eu quero experimentar, mas tenho receio que me faça mal ao estômago. A andar de bicicleta tenho de ter muito cuidado com o que como. Só o facto de andar nas mãos, sem ser lavado, já não é aconselhável.

Os restos cospem-se para o chão. É frequente verem-se estas manchas vermelhas pelo chão, em toda a ilha de Timor.


¹ “Betel Plant” (s.d.). Encyclopædia Britannica. Página consultada a 14 Janeiro 2019,
<https://www.britannica.com/plant/betel>

092 - Entremos noutra Casa de Timor Indonésio

Ela caminhava em direção contrária à minha, mas ao ver-me passar, fez-me sinal para eu parar. (Nem era preciso fazer sinal nenhum, eu estou sempre pronta para parar e ouvir o que têm para me dizer. Mesmo que não perceba patavina). Efetivamente não percebi nada do que a senhora me disse. Imitei-a, tentei repetir os sons das suas palavras. Ela riu-se. E eu também.

Certo. Há qualquer coisa lá ao fundo. Não faço ideia o quê.

Entretanto chegou o Valério na pickup e tirou-nos esta foto. De facto tirou-nos outra antes, em que eu tenho os calções todos arregaçados para cima (a minha tentativa desesperada de não ficar com a marca dos calções e do sol na pele…). Quando vi a foto é que me lembrei. Não posso ficar assim na foto. Vou baixar as pernas dos calções e temos de tirar outra. Então o Valério explicou à senhora que tínhamos de tirar outra foto, e pelos vistos ter-lhe-á explicado em língua indonésia o motivo, porque ela olhou para os meus calções e soltou uma gargalhada.

E o Valério também me traduziu o que a senhora queria dizer-me: ela apontava lá para o fundo, porque é onde fica a sua casa. Ela quer mostrar-me a sua casa. Ora que maravilha, vamos já. O Valério voltou para trás na pickup, tem de ir buscar qualquer coisa, nem percebi o quê. Deixou-me entretida com a senhora e voltou para trás durante uns minutos. E lá fomos as duas, eu com a bicicleta pela mão, e a senhora a caminhar ao meu lado.

Sejam do lado leste ou do lado ocidental de Timor, as crianças efetivamente são todas iguais. A alegria, as brincadeiras e as festas são sempre iguais. Seja de que continente for o ser humano, dá para perceber claramente ao viajar que é igual em todo o mundo, quando é pequenino. Depois cresce e começam as diferenças e os conflitos. É uma chatice.

O horroroso parque “Taman Wisata Alam Camplong”. Por favor não visitem este parque em Kupang. Já estamos no distrito de Kupang, na parte indonésia da ilha de Timor. Não percam tempo com isto, e muito menos pagar entrada, como eu fiz (ou melhor, estava incluído pela Timor MEGAtours, que me pagou a entrada, a meu pedido – pensando eu que ia ver uma coisa muito boa). Só se quiserem ir tomar banho nas águas paradas do lago artificial. Estamos numa ilha cheia de praias azuis e transparentes, creio que não é preciso ir tomar banho num lago verde opaco.

E o miserável crocodilo preso numa cela miniatura cheia de lixo. Creio que vou mandar alguns emails para as associações protetoras dos animais, pelo mundo fora, a ver se alguém descobre este infeliz e consegue soltá-lo. Ei-lo, o crocodilo mais infeliz do mundo, no meio de lixo e águas porcas.

E pronto, o parque é só isto. O interessante é mesmo cobrarem entrada. Se eu soubesse o que sei hoje, nem que me tivessem pagado a mim, quanto mais eu pagar a eles. Adiante, rápido, prossegue a viagem.

093 - Chegada a Kupang, a Capital de Timor Indonésio

Este polícia muito novinho pediu-me para tirar uma foto consigo. Bom, ao menos é mais direto do que o militar da fronteira, que me tirou uma foto com o seu telemóvel e nem sequer ficou ele nela. Confesso que aquela arma apontada ao meu pé me deixa com um nervoso miúdo. O meu sorriso está um bocado apanhado, mas pronto. E os meus calções todos tortos de puxá-los para baixo e para cima, para não ficar com a marca do sol. (São coisas femininas, eu sei… os homens andam com a marca da t-shirt nos braços, à camionista, e não querem saber disso para nada. E já vi a marca das meias, nas pernas de alguns, isso então ainda é pior, mas os “gajos” acham que isso não interessa para nada).

Tenho 76 km feitos, são 14h, e não tenho fome nenhuma. Relembro que comi carne com arroz às sete da manhã, no hotel. E mais uma porção de outras coisas, como leite condensado. E tenho bebido água de coco. Acho que nunca tinha bebido tanta água de coco. O meu cantil da bicicleta foi enchido duas vezes com água de coco. E agora bebi apenas dois pacotes de leite com chocolate. Não quero almoçar. Faz uma ventania enorme que me empurra a bicicleta para o lado, e o trânsito em Kupang é agreste, super barulhento, pelo que passei para a pickup pouco depois de ter tirado esta foto. Eu tenho que ir inclinada para a direita, para não cair para a esquerda. Se porventura o vento parasse subitamente, eu cairia mesmo para a direita, tão inclinada que vou. Mas o vento só começou agora, não sei se é desta região de Kupang. Fiz portanto os restantes 20 km até ao hotel na pickup. Não sinto cansaço, e gostaria de ter seguido até ao fim na bicicleta, mas o vento e o barulhento trânsito são demais.

Sal. Ao longo desta estrada há muitas estantes, ou prateleiras, com sal à venda. Lá à frente vê-se outra.

Chegada ao hotel onde vou pernoitar hoje. Vou apenas deixar as bagagens no quarto e volto para baixo. A bicicleta vai ser arranjada novamente – desta vez vamos tentar descobrir o que se passa para a jante nova fazer tanto barulho a andar, conforme já referi na crónica 88. As pessoas apercebem-se da minha chegada ainda eu vou longe, com tamanho barulho. Parece que vou numa  mota.

Um conhecido do guia Sanches – Ronaldo – que vai tentar arranjar a jante. A rececionista do hotel é a sua mulher. Eu brinquei com ele e com o seu nome – também temos um Ronaldo em Portugal! (Claro que ele sabe, mas há alguém no mundo que não saiba?… Bom, na China questionei algumas pessoas que não sabiam).

E as suas duas filhas. Eu vou sentada na pickup e tirei-lhes esta foto em andamento. Dirigimo-nos para a sua casa, onde o Ronaldo vai tentar arranjar a bicicleta.

094 - Passeando em Kupang

Foi um passeio também em busca de câmbios. Precisamos de cambiar dinheiro outra vez, dado que na drogaria em Kefa não dispunham de toda a quantidade necessária. Agora vou aproveitar para pôr alguma roupa a lavar no hotel, pelo que também preciso de rupias.
O montante ainda não está disponível, deixámos o pedido e voltaremos mais daqui a pouco para levantar o dinheiro. Quem está a conduzir a pickup é o Ronaldo, o amigo do guia Sanches (que se vê ao fundo nesta foto), que vai tentar arranjar a minha bicicleta. O pai do Ronaldo tinha uma pickup igual, contou-me, e aqui em Kupang ele conhece melhor as estradas. O Valério e o Sanches vão no banco de trás, portanto, e eu à frente ao lado do condutor.

Uma das especialidades de Timor indonésio (e Timor-Leste também, creio) – umas pequenas almôndegas de carne, as quais irei provar já em Timor-Leste, com massa e caldo. Deliciosas. O que está ao lado parece ser banana frita, mas não tenho a certeza.

Pertamina, uma companhia estatal indonésia. Dos quatro fornecedores de combustível na Indonésia, apenas a Pertamina distribui combustível em todo o país. Os restantes têm bombas na área da Grande Jacarta e algumas cidades principais na Indonésia apenas.¹

Pertalite é um tipo de gasolina que tem 90 octanas.¹ 7800 rupias são 47 cêntimos de euro.

Voltámos ao local dos câmbios para levantar o dinheiro. Eu troquei 20 dólares e deram-me 280 mil rupias. No hotel, o serviço de lavandaria para uma camisola é 31.700 rupias. Uma t-shirt é 29.000 rupias. Uns calções são 23.800 rupias. Eu trouxe dois calções de ciclismo, tenho usado só uns e tenho-os lavado com sabonete (na crónica 29, por exemplo, estavam a secar ao sol). Agora foram para a lavandaria, juntamente com algumas t-shirts.

Já em casa do Ronaldo, onde este vai tentar arranjar o barulho que a nova jante faz.

A jante não tem arranjo. É material barato, “made in Indonesia”. O Ronaldo vai meter uma pasta gordurosa castanha ali dentro, para ver se conseguimos calar o barulho que faz enquanto o pneu gira.

De volta ao hotel, onde vou jantar. Estou no 10º andar. Último andar. Durante o dia vim ouvir o barulho, para experimentar, e havia silêncio. Mas agora à noite ouve-se ligeiramente o intenso trânsito lá em baixo.

Pedi uma bebida tradicional, a segunda da lista: Kopi Panas Berempah, com cardamomo. Nunca mais esqueci o cremoso iogurte de cardamomo que provei num hotel do sul da Índia, perto de Cochim. Aquele iogurte de cardamomo marcou-me para o resto da vida. Foi o mangostão na China e o iogurte de cardamomo na Índia. Pelo que agora mal vejo alguma coisa de cardamomo, quero experimentar. Esta bebida diz: “Mistura de café com cravo, canela e cardamomo”.
E ficou tudo no copo porque aquilo é intragável.
“IDR 35” é uma maneira elegante de dizer 35.000 rupias. Uma pessoa até se assusta quando vê estes números tão grandes. Então neste elegante hotel abreviam a coisa para 35, ou seja, pouco mais de 2 euros.

Pedi bife do lombo com cogumelos. São 6 da tarde. E levaram 1,40h a servir o jantar completo (bebida, prato, sobremesa). Felizmente estou com tempo, mas isto não é normal. Levaram vinte minutos para trazer o bolo de chocolate, a seguir, a ponto de eu perguntar ao rapaz se não se esqueceram de mim.

E no final queriam cobrar o jantar. Eu expliquei que têm de pôr na conta do quarto. Será a agência de viagens – Timor MEGAtours – a pagar, eu tenho pensão completa incluída nesta viagem. Disseram que não, que tenho de pagar já. Ora nem sequer tenho rupias suficientes comigo. Disse-lhes para ligarem à agência de viagens. Então passaram-me à recepção para fazerem daqui uma chamada ao Valério, mas a pessoa da receção não percebe nada do que eu lhe digo. Inglês por aqui é uma raridade. Eu só tenho uns minutos de saldo no meu cartão indonésio de telemóvel e não tenciono gastá-los aqui dentro, pois podem vir a fazer-me muita falta quando estiver a andar de bicicleta. O rapaz e a rapariga do restaurante, que supostamente têm de cobrar a refeição, também não estão propriamente empenhados em fazer-me ser compreendida. Fui-me embora. Disse-lhes que estou cansada, que fiz muitos quilómetros de bicicleta, e que tenho de ir tomar um duche. Foi mesmo assim, virei as costas e pronto. Sigam-me até ao quarto, se quiserem.
Caminhei em direção ao elevador e fiquei à espera de ver os dois a perseguirem-me. Mas não. Eles deixaram-me em paz e colocaram a despesa na conta do quarto. No dia seguinte de manhã claro que a Timor MEGAtours liquidou tudo – a estadia e a refeição. (Que cena…)


¹ “Indonesia: Fuels: Diesel and Gasoline” (s.d.). TransportPolicy.net. Página consultada a 17 janeiro 2019,
<https://www.transportpolicy.net/standard/indonesia-fuels-diesel-and-gasoline/>

095 - 19º Dia de Viagem, Adeus Kupang

Despertador às 5. Pequeno-almoço às 5.45h. Saída às 6.30h.
Na receção entregaram-me a roupa lavada. Também lavei as luvas com sabonete, ainda não secaram completamente.

O pequeno-almoço está disponível desde as 4 da manhã até às 10 horas. Gosto disto. E vou ter outro banquete, está visto. Fico já almoçada, com estes pitéus todos. Tenho de provar tudo.

“Bubur Ketan Hitam”, uma especialidade da Indonésia. É uma papa doce feita com arroz glutinoso preto, leite de coco e açúcar de palma (porque tem origem numa palmeira) ou simples açúcar da cana-de-açúcar . O arroz glutinoso preto é fervido até ficar macio, e açúcar e leite de coco são adicionados. É frequentemente descrito como “pudim de arroz glutinoso preto”. É servido como sobremesa ou lanche, para o jantar, para a hora do chá, a qualquer hora do dia; no entanto é uma escolha popular para o pequeno-almoço. Às vezes é referido simplesmente como ketan hitam ou pulut hitam, que significa “arroz glutinoso preto”, enquanto “bubur” significa papa em indonésio.¹
Eu experimentei, gostei e fui buscar mais.

Lembro que estou a comer às seis da manhã. E com vontade e prazer. (Apesar de ser cedo, não sou a única no restaurante).

Manteiga da Nova Zelândia. (Aleluia, manteiga!)

Foto tirada duma janela do hotel, no corredor.

Não sei porque é que diz “2 adultos” dado que pernoitei sozinha… (Esta é uma maneira de arranjar problemas com o legítimo, querem ver o sarilho em que este hotel vai meter-me?…) A bebida de cardamomo e o jantar ficaram em 227.480 rupias, ou seja, cerca de 14€. A lavandaria ficou-me em cerca de 11€.

E partimos na pickup. O Sanches custou a deixar o vale dos lençóis, apercebi-me entretanto. Eu e o Valério somos muito madrugadores mas o pobre Sanches não é dado a estas madrugações. Chegaram um pouco tarde e ainda sem pequeno-almoço. Ora o Valério está sempre pronto primeiro do que eu, pelos vistos tem agora um companheiro mais complicado de gerir. Ambos ficaram longe do centro, a cerca de 35 km, apercebi-me também pela quilometragem da pickup. Espera-nos uma longa viagem até Timor-Leste. Desta vez não vamos pela estrada principal, desta vez vamos pelo campo, em estradas de terra e pedras. Vamos para já buscar o Rui, o qual será o nosso guia local neste novo caminho. O Rui já apareceu na crónica 92 a mostrar-me o “Bua Malus”, a substância vermelha que se masca em Timor. Seguirá connosco até Kefamenanu, ainda na parte indonésia (crónica 88) e depois regressará a Kupang numa Microlet, ou seja, as carrinhas que fazem de transporte público.

Paragem para reabastecimento de leite. Eu perguntei por leite branco. A senhora olhou à procura, na foto anterior, e depois veio aqui ver. Só há leite com chocolate ou morango. Levámos leite com chocolate.

Visita à praia “Lasiana”, em Kupang.

Está deserta porque são 7 e meia da manhã. Ainda nem chegou o funcionário que cobra as entradas – paga-se uma entrada nesta praia. Ouvem-se as motos ao fundo, mas é relativamente silenciosa. Devemos estar a uns trezentos metros da estrada principal.

Só percebo duas palavras: Tsunami e Evacuação. Mas indo ao Google Translator vê-se o significado completo: “Waspada” significa “cuidado”. A placa indica: “Cuidado com o Tsunami, obedeça às instruções de evacuação”. Curioso, este sinal. O tempo está pacífico, por enquanto.


¹ “Bubur Ketan Hitam” (s.d.). Wikipedia. Página consultada a 20 Janeiro 2019,
<https://en.wikipedia.org/wiki/Bubur_ketan_hitam>

096 - Avaria na Bicicleta, Regresso Forçado a Kupang

Às 8.30h apanhámos o Rui, o qual será o nosso guia pela estradas rurais até Kefa. Aqui os três vão tomar o pequeno-almoço (o próprio Rui, o Valério e o Sanches).

Neste restaurante não há facas. Os três estão a comer com garfo e colher.

E aqui mandaram embalar o nosso almoço. Vamos comer pelo caminho.

Não conseguimos identificar esta árvore. Se alguém souber o nome do fruto pelo menos, que me diga, p.f., e eu atualizarei estas crónicas de acordo. O Valério ainda levou dois frutos no tabuleiro da pickup, no entanto apodreceram rapidamente. Disse-nos que em fataluco, a língua de Lospalos, chamam-se “Calaboço”. Pelo menos assim percebi.

São 9h e dou início ao passeio de bicicleta de hoje. “Selamat Datang” significa “bem vindo”.

Fiz 5 km na bicicleta e tive de parar. A bicicleta deixou de travar e faz imenso barulho a travar. Experimentámos os dois pneus.

Nada feito, chia que se farta e só trava ao fim de meia hora. É um bocado perigoso, sobretudo quando for a descer montanhas. Quando chegar a uma ravina e não conseguir travar… seria lindo se eu voasse. Voltamos portanto a Kupang, para irmos a uma oficina.

35 minutos depois chegámos a esta oficina. É preciso comprar pastilhas novas, indica o mecânico. O que eu duvidei imenso. A bicicleta estava a travar muitíssimo bem, como é que de repente deixa de travar completamente? Não houve desgaste gradual, foi súbito? Mas enfim, quem sou eu.

Como aquela oficina não tem peças, tivemos de meter-nos na pickup e ir ao centro de Kupang comprar as pastilhas novas. São duas horas de caminho, no meio do trânsito lento e infernal de Kupang.

A polícia mandou parar o camião com gado.

Novamente câmbios.

Quase ao meio dia chegámos à loja das bicicletas, com donos chineses, loja esta que tem a sua própria oficina.

O dono da loja (ou o filho?) a vender-nos as pastilhas.

Uma hora depois estamos de volta à oficina, desta vez já com as pastilhas novas.

Eu pedi para ir à casa de banho, ao lado da oficina. Tradicional, com o habitual tanque de água e o recipiente de plástico com uma pega para verter a água na sanita (embutida no chão, os chamados “vasos sanitários de agachamento”, ou em inglês “squat toilet”).

Como eu calculava, o problema não é das pastilhas. A bicicleta já tem pastilhas novas e continua sem travar. Faz uma chiadeira enorme e só trava meia hora depois. Agora é o óleo dos travões. Esta bicicleta tem travões hidráulicos, como a minha em Lisboa. Mas nesta oficina também não há líquido para os travões da bicicleta, e nós acabámos por não trazer o óleo da outra oficina, pelo que o mecânico optou por colocar um líquido das motas. Já não sei nem quero saber. Estou a ficar muito aborrecida. A trabalheira que a bicicleta nos está a dar, porque o senhor mecânico em Díli achou por bem tirar-me a jante de origem e pôr-me uma traquitana. Se eu imaginasse tal, nem teria posto os pés na oficina, quando voltei a Díli. Continuaria com as mudanças desafinadas, com os pedais de encaixe, e pronto.

Desistimos desta oficina e concordámos todos em voltar à loja das bicicletas em Kupang, onde existe uma oficina especializada. São duas da tarde.

Pertamax, Premium e Pertalite são gasolinas com diferente grau de octanas. Solar e Dexlite são dois tipos de gasóleo, sendo o Solar o de menor qualidade. Segundo o site “TransportPolicy.net”, citado abaixo, a Pertamax tem 91 octanas. A imagem diz 92, não sei. A gasolina Premium tem 88 octanas. A Pertalite tem 90 octanas. Existe uma “Pertamax Plus” com 95 octanas, que não consta neste placard.¹

De volta à loja e oficina das bicicletas. São 3 da tarde. Estas bicicletas penduradas na parede têm o preço de cem euros, aproximadamente.

A foto ficou desfocada, mas em cima da caixa está o nosso almoço, o que comprámos de manhã.

Eu estou tão sorridente porque sorrir para as fotos já é automático, está visto. Efetivamente eu não estou contente. Eu estou possessa. Um dia inteiro perdido. A esta hora era suposto eu já ter feito 30 ou 40 km de bicicleta pelo campo, a passear e a tirar fotografias calmamente, e ainda não saí desta barulhenta cidade sem graça nenhuma, a andar para trás e para a frente na pickup à procura de peças. Bom, pelo menos vou comer. E a comida até é bastante saborosa, disto não me posso queixar. Tenho na mão um cubo gigante de arroz, embrulhado em folhas de bananeira e papel. Nos saquinhos de plástico está o resto da comida. São 4 pacotes de arroz porque somos 4. E há três saquinhos a mais, com umas quaisquer iguarias excedentes.

Se isto é aborrecido para mim, que estou de férias, imaginem para quem está a trabalhar. Agradeci aos três a paciência e o trabalho que estão a ter.

Nesta oficina – finalmente especializada e entendida na matéria – agora tiveram de desfazer o que a outra oficina fez. Claro que o líquido que puseram nos travões não é o adequado. Foi necessário retirá-lo e lavar tudo muito bem. E as pastilhas não tinham problema nenhum. Qual é o problema então? Porque é que a bicicleta não trava??

E foi o dono da loja – este rapaz chinês – quem descobriu o problema. (Creio que é chinês, eu sou uma nulidade a identificar as nacionalidades pelos olhos). O Ronaldo ontem pôs aquela pasta gordurosa na jante. Ora gordura e travões nunca resultaram bem em conjunto. A gordura ter-se-á espalhado por onde não devia. A bicicleta deixou de travar. Portanto o dono da loja descobriu que a única forma de resolver o problema é comprar uma jante nova outra vez, e também um disco novo.

E assim foi.

Entretanto anoiteceu e os pais começaram a chegar com as crianças, ao final da tarde, para lhes comprarem as prendas (de aniversário, certamente).

Eles partem felizes, com as suas novas bicicletas, e eu parto (feliz também, no meio desta chatice toda?) porque a minha bicicleta finalmente está arranjada. São quase 19h. Perdemos um dia inteiro nesta viagem. Hoje fiz 5 km na bicicleta e 154 km na pickup. E agora tenho cinco pneus e sete jantes. Cinco pneus e sete jantes! E mais umas câmaras de ar. É que ainda levamos uma jante e disco extras para o caso de haver algum vestígio de óleo que suje a nova jante e disco. É o que dá tentar remediar a coisa com amigos. O Ronaldo tentou ajudar-nos e acabou por fazer-nos passar um dia na oficina. Relativamente ao mecânico em Díli, que nos meteu em todo este sarilho ao trocar o pneu sem dizer nada a ninguém, eu perguntei ao Valério se ele ainda tem a catana na pickup. O Valério riu à gargalhada.


¹ “Indonesia: Fuels: Diesel and Gasoline” (s.d.). TransportPolicy.net. Página consultada a 21 Janeiro 2019,
<https://www.transportpolicy.net/standard/indonesia-fuels-diesel-and-gasoline/>