Timor: 831 km de bicicleta, sozinha, 26 dias

061 - O Fenomenal Mergulho no Triângulo de Coral

O Triângulo de Coral cobre áreas dentro de seis países – Timor-Leste, Indonésia, Filipinas, Malásia, Ilhas Salomão e Papua Nova Guiné. Tem a forma de um triângulo porque os cientistas identificaram que estes são os limites que delineiam o epicentro da biodiversidade marinha no Planeta Terra.¹

CTSP – Coral Triangle Support Partnership (em português: Parceria de Apoio ao Triângulo de Coral).
A CTSP é um consórcio de três ONG’s: o World Wildlife Fund, The Nature Conservancy e a Conservation International. O programa trabalha com doadores como a USAID, o Governo da Austrália e o Banco Asiático de Desenvolvimento.
Mapa retirado de: http://ctatlas.reefbase.org/pdf/CTSP_Priority_Sites.pdf

O Triângulo de Coral compreende pouco mais de 1,5% da área total dos oceanos no mundo. No entanto a área total de recifes de corais no Triângulo de Coral representa 30% dos recifes de coral do mundo. É aqui que existe a maior diversidade de corais do mundo: 76% (605) das espécies de corais do mundo (798). Em comparação, aproximadamente 8% das espécies de corais (61) ocorrem no Caribe.
O Triângulo de Coral compreende também a maior diversidade de peixes de recife de coral do mundo: 37% (2.228) das espécies de peixes de recife de coral do mundo (6.000). Em comparação, 7% (420) das espécies de peixes de recife de coral do mundo ocorrem nas ilhas havaianas.
Os países do Triângulo de Coral têm alguns dos números mais altos de espécies endémicas de peixes de recife no mundo (particularmente na Indonésia, Filipinas e Papua Nova Guiné).²
Os recursos biológicos do Triângulo de Coral sustentam diretamente as vidas de mais de 120 milhões de pessoas que vivem nesta área, e beneficiam outros milhões em todo o mundo.
O Triângulo de Coral é considerado o epicentro global da biodiversidade marinha e uma prioridade global para a conservação.³

Em 2009, os seis governos da região do Triângulo de Coral – os “CT6” (do inglês “Coral Triangle”) – assumiram o compromisso de salvaguardar os seus recursos marinhos e garantir rendimento e segurança alimentar para os milhões de pessoas que dependem desta região. Esta parceria, chamada “The Coral Triangle Initiative on Coral Reefs, Fisheries, and Food Security (CTI-CFF)”, ou em português, “Iniciativa do Triângulo de Coral para os Recifes de Coral, Pesca e Segurança Alimentar”, concentra-se na política, gestão de pescas, áreas marinhas protegidas e adaptação às alterações climáticas.⁴

Através do CTI, os membros do Triângulo de Coral concordaram defender a conservação da biodiversidade centrada nas pessoas, o desenvolvimento sustentável, a redução da pobreza e a repartição equitativa dos benefícios. O CTI procura reduzir a pobreza através do desenvolvimento económico, segurança alimentar, meios de subsistência sustentáveis para as comunidades costeiras e conservação da biodiversidade através da proteção de espécies, habitats e ecossistemas.

Apesar do seu valor significativo, os ecossistemas de recifes de corais do Triângulo de Coral estão entre os mais ameaçados do mundo. Aproximadamente 95% estão em risco – a sobrepesca afetou quase todos os recifes da região, práticas de pesca destrutivas são comuns, a poluição terrestre é significativa e o desenvolvimento costeiro uma ameaça crescente. As futuras ameaças da mudança climática e da acidificação dos oceanos irão agravar estes problemas. Trabalhando em colaboração com parceiros de desenvolvimento, organizações não-governamentais e comunidades, o CTI alcançou vários marcos para uma melhor gestão e práticas de conservação destes valiosos ecossistemas e recursos.²

A caminho de Bikeli, onde o Natalino tem família. Nem eu sabia que iria passar antes por um centro de mergulho. Nem eu imaginava sequer o que me esperava.

Um supermercado.

Ao pedalar estrada fora, em direção a Bikeli, acompanhada pelo Natalino na sua bicicleta também, vejo um placard na berma da estrada a publicitar mergulhos. Mergulhos? Vamos lá ver o que é aquilo, disse eu ao Natalino.

Fizemos cerca de 6 km de bicicleta até aqui. E agora eu quero fazer mergulho. Ah pois quero, não posso perder esta chance. Custa 50 dólares, uma hora, e mais 2 dólares para a comunidade local. Não tenho o fato de banho comigo, estou de cuecas e soutien, e não me apetece fazer mais 12 km de bicicleta (6 para trás, e novamente 6 para chegar aqui), em plena hora do calor (são duas e tal da tarde), por uma estrada péssima, para ir buscar o fato de banho. Eu vou de cuecas mergulhar, por baixo do fato de mergulho. O soutien ainda o tirei. Mudei de roupa numa pequena cabana, e deixei-a lá pendurada, num gancho na parede. Felizmente tenho o meu cartão com a Licença de Mergulho – a Licença Padi – comigo, na bolsa de cintura. Tenho o passaporte e mais alguns cartões, nomeadamente a Licença Padi. O responsável que aceitou a minha inscrição e pagamento, pediu-ma. Que sorte, senão teria mesmo de voltar para trás na bicicleta para ir buscá-la.

Estas fotos foram tiradas pelo rapaz da foto anterior, salvo erro italiano, que trabalha aqui, e que há-de ser um magnífico mergulhador, mas fotografia não é com ele. É o melhor que se arranja, dado não estarmos propriamente com tempo e condições para grandes sessões fotográficas. Só proteger a máquina da água, dentro do barco, a salpicar por todo o lado, já é um sarilho. Aqui estou com o instrutor que me deu uma breve formação antes de sairmos no barco, e que me acompanhará neste mergulho. O rapaz também nos acompanhará mais ao longe. Fizemos apenas uns 5 ou 10 minutos no barco. Os recifes de coral estão aqui mesmo na margem. Há quem venha fazer snorkeling aqui – quem não sabe ou não quer mergulhar.

Recife de Coral em Timor-Leste
Imagem retirada de:
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/2e/Timor_Coral_Reef.jpg

Mapa das Zonas de Corais em Timor-Leste
A cor-de-rosa: zona de recifes de coral. Na ilha de Ataúro é precisamente um dos locais onde estou a mergulhar.
Mapa retirado de:
http://ctatlas.reefbase.org/pdf/Marine%20Protected%20Areas%20(MPAs)%20in%20Timor-Leste.pdf

De regresso. O mergulho durou 56 minutos, e descemos a 17,6 metros de profundidade. Fizemos cerca de 400 metros na horizontal.
Eu tenho lá palavras para descrever o que vi. Eu vi um mundo colorido, cheio de peixes coloridos. Água a 27 graus. Agarrei num Pepino-do-Mar. Observei os peixes coloridos a observarem-me a mim, curiosos. Alguns grandes, com cerca de cinquenta centímetros. Infelizmente não tenho uma câmera fotográfica para usar debaixo de água. Ainda pedi que me alugassem uma aqui no centro de mergulho, mas não têm. Uma falha crassa, num centro de mergulho, não terem máquinas fotográficas subaquáticas para alugar. Eu já fiz outro mergulho idêntico na Austrália, na Grande Barreira de Coral, e a experiência foi idêntica. Entenda-se: extasiante. Mesmo assim esta experiência de Timor-Leste foi melhor, porque apesar de ser a Grande Barreira de Coral, eu na altura não tinha a Licença Padi e não pude ir tão fundo. Tenho de publicar aqui neste meu site essas crónicas. Nessa altura alugaram uma máquina fotográfica, se bem que era das mais simples, com qualidade baixa, pelo que as fotos também não ficaram nada de especial. Nada como mergulhar e ver com os próprios olhos todas estas cores, toda esta alegria subaquática, toda esta vida. Se bem que o instrutor me tivesse mostrado também uma área mais negra, onde os recifes de coral já estão mortos, cinzentos, sem vida. Poluição? Não faço ideia, mas é uma grande ameaça, e fiquei consciente dela. Tudo isto que eu estou a ver hoje, tão vivo, tão alegre, tão colorido, pode desaparecer um dia, com as alterações climáticas e a falta de cuidado humano.

Mesmo com os 27 graus de temperatura da água eu subi para o barco a tremer convulsivamente de frio. Decididamente devo ser um animal ectotérmico, como os répteis, conforme já comentei na crónica 52. É o amigo Toké e sou eu. Precisamos de sol para nos aquecermos. “Poor little thing” – disse o instrutor, a ver-me tremer e bater os dentes convulsivamente, na viagem de regresso, sentada no barco.
Venho a tremer, mas venho muito contente.


¹ “The Coral Triangle”(s.d.). The Coral Triangle Center. Página consultada a 29 Novembro 2018,
<http://www.coraltrianglecenter.org/where-we-work/>

² “History of CTI-CFF” (s.d.). The Coral Triangle Initiative. Página consultada a 29 Novembro 2018,
<http://coraltriangleinitiative.org/about>

³ “About Coral Triangle” (s.d.). The Coral Triangle Atlas. Página consultada a 29 Novembro 2018,
<http://ctatlas.reefbase.org/coraltriangle.aspx>

⁴ “Coral Triangle Support Partnership”. World Wildlife Fund. Página consultada a 29 Novembro 2018,
<https://www.worldwildlife.org/partnerships/coral-triangle-support-partnership>

062 - De Bicicleta pela Ilha de Ataúro

A viagem continua. Eu e o Natalino, (o qual esperou pacientemente durante a hora em que fui mergulhar, e quando eu saí do mar e do barco se mostrou praticamente tão entusiasmado quanto eu, pelo mergulho) continuamos de bicicleta em direção a Bikeli, para visitar o seu tio e primos.

Relembro que fui mergulhar de cuecas, por baixo do fato de mergulho. Eis uma experiência nova na minha vida: andar de bicicleta, com calções de ciclismo (com esponja, portanto) e com as cuecas encharcadas em água. Enfim, as partes femininas não são propriamente dadas a estas coisas. (Nem femininas, nem masculinas! Quem é que gosta de andar com as cuecas molhadas?!…) Felizmente as cuecas e os calções (cuja esponja tratou de absorver a água) secaram rapidamente, com este belíssimo calor que faz em Ataúro. O único vestígio com que fiquei para o resto do dia foram os meus olhos vermelhos. Muitíssimo vermelhos. Isto não são maneiras de chegar ao pé da família do Natalino (nem do Natalino, nem de ninguém). Parece que injetei qualquer coisa e fiquei com os olhos raiados de vermelho. Efetivamente estive um bocado atrapalhada com a máscara, debaixo de água, pois ela deixava entrar água. Eu tive de pôr em prática, várias vezes, os ensinamentos do curso de mergulho relativamente a expulsar a água de dentro da máscara, debaixo de água. Aliás, eu tive de tirar a máscara debaixo de água; voltar a fazer o rabo de cavalo que entretanto se desmanchou devido às sucessivas tentativas de resolver a coisa com a máscara; voltar a pô-la; e tirar a água de dentro dela. Os três debaixo de água, com bolinhas de ar a saírem dos tubos. O instrutor e o rapaz italiano a olharem, à espera que eu me penteasse a sei lá quantos metros de profundidade. Reparem que é impossível andar debaixo de água com cabelo comprido solto. Eu devia parecer uma medusa.  Até que finalmente o instrutor fez qualquer coisa, apertou-me devidamente o elástico da minha máscara, creio, e o resto do mergulho decorreu com normalidade. Agora pareço um bicho agressivo, salgado e despenteado, com os olhos raiados de vermelho. O Natalino sabe o que se passou, conheceu-me no meu estado normal, com olhos normais, e mais penteadinha, mas a família dele ainda vai assustar-se comigo. Pedi-lhe para explicar-lhes, em tétum, o porquê de eu estar com este aspeto. Não sou um bicho raivoso, de olhos vermelhos.

Pensava eu que indo junto ao mar, o caminho era todo a direito. Qual quê.

Que eu me recorde, nunca tinha visto campas com telhados.

Já ao final da tarde chegámos a Bikeli, a casa do tio do Natalino (na foto, juntamente com a sua filha – prima do Natalino, portanto). Foram 12 km até aqui. É uma ilha pequenina, Ataúro. Agora temos outros 12 de volta, e vamos chegar já de noite, à Vila Maumeta. O Natalino veio quatro vezes a Ataúro, a primeira vez com um turista, em trabalho, contou-me. Desde 2001 que não via esta família, não conseguiu ter tempo para visitá-los nas anteriores vezes em que cá veio. Tinha 3 anos quando esta parte da família o viu pela última vez, em 2001. A família esperava-o hoje porque o seu irmão telefonou a avisar que ele vinha. Felizmente que eu não desisti do passeio de bicicleta, depois do mergulho, senão ainda não seria desta.
Repare-se no canto superior direito no milho pendurado. Tem uma rede à volta para que os pássaros não o depeniquem.

O tio do Natalino gentilmente ofereceu-me um coco para beber, que eu aceitei de bom grado. O dia hoje foi – e continua a ser – muito intenso, pelo que beber água de coco cai maravilhosamente bem. E faz bem ao estômago, lembro-me de viagens anteriores.

O primo do Natalino.

De regresso à guesthouse, na Vila Maumeta. Agora temos 12 km pela frente. Os golfinhos dizem “Goodbye Biqueli”.

Digam lá que o rapaz não se trata. Este rapaz ataurense! (Creio que o gentílico de Ataúro é “ataurense”?)

De regresso à pousada. A aquecerem a água para o meu banho, o qual será dado de corrida com aqueles recipientes de plástico com uma pega. Amanhã quando regressar a Díli e à bela Vila Cardim, logo tomarei um banho fumegante como deve ser.

“I cannot walk properly“ – disse o Natalino, com um andar meio esquisito (ou em português, “Não consigo andar como deve ser”), o que me fez soltar uma gargalhada. A bicicleta do Natalino é de pior qualidade; a minha é toda racing, muito leve, e com mudanças mais ou menos afinadas. A minha bicicleta suplente (usada agora em Ataúro pelo Natalino) é mais pesada e as mudanças não estão afinadas. O mecânico entregou-nos a bicicleta em Díli sem as mudanças devidamente afinadas, é espantosa a qualidade deste serviço. É certo que eu tenho treino de bicicleta, e o Natalino não. Mas o Natalino joga futebol, e não subiu ontem o Ramelau a pé, nem fez 58 km de bicicleta a seguir. Vem descansadinho de Díli. Eu é que já nem consigo andar como deve ser também. Efetivamente eu ainda nem recuperei do dia de ontem. Foram 58 km maioritariamente a descer, mas sempre em posição tensa, com o rabo para trás, joelhos fletidos, suspensa no ar, a saltar por cima de buracos e pedras a toda a velocidade. É muito cansativo e ainda me doem as pernas, de ontem. Com esta tareia de hoje – e mais um mergulho de uma hora – se eu me vejo na cama até digo que é mentira.

Jantei esparguete com tomate, e pedi ovo para complementar, pelo que me trouxeram dois ovos cozidos. A salada não posso comer, conforme referi na crónica 21. Legumes crus molhados com água da torneira não posso comer; só posso beber água engarrafada. E acabei por dar um ovo ao Natalino (há um certo tráfico de ovos cozidos, nesta viagem, agora dou conta. No outro dia foi o Valério que me deu um; em certo dia andava eu com um ovo cozido na bolsa da cintura; e agora dou este ao Natalino. A comidinha aqui em Timor-Leste não é para deitar fora). E o que sobrou do meu esparguete foi para o cão mais magro que aqui anda. Um castanho. Foi uma luta desgraçada para manter outros dois afastados, mais gorduchos, da pousada, sem afastar o próprio cão castanho, que julgava que eu estava a enxotá-lo a ele também; mas consegui. (Como explicar a um cão que se está a enxotar o outro do lado, e não ele? Cão castanho, come! Cão branco, sai daqui!)

063 - 14º Dia, Ataúro como Local de Degredo

Choveu torrencialmente durante a noite. Às 4 da manhã alguém deixou cair algo de lata e automaticamente os galos começaram todos a cantar. Mas é um grande cantorio. E os galos lá ao longe respondem aos desta ponta. Há aqui uma rivalidade de cantorio entre eles, apercebo-me.
Eu dormi com a rede anti-mosquitos posta. Tive uma noite descansada. O gerador incomodou-me um bocado, trabalha toda a noite, só pára entre o meio dia e as seis da tarde. Se desligarem o gerador, não há luz durante a noite. E durante aquele intervalo de horas, de dia, não há eletricidade.
Cumpri o meu ritual habitual de protetor solar e repelente de insetos, e fui tomar o pequeno almoço, marcado para as 7.30h. Tarde, para meu gosto. E às 7.55h ainda não tinha chegado ninguém. Esta malta não liga a horários. O Natalino terá saído às 7, de bicicleta, para ir comprar os bilhetes do barco, de regresso a Díli. Partimos ao meio-dia.

O meu quarto é a casinha do meio, do lado direito.

Este nem se digna a abrir os olhos, comigo ali ao pé a tirar-lhe uma fotografia. Está bem tratadinho e é seguro de si. Não sente medo nem comigo a rondá-lo. É um dos cães da guesthouse. Dá gosto ver cães assim, livres, gordos e seguros de si, a ignorarem-me redondamente.

Matabicho à vista!!! (Entenda-se: “pequeno-almoço”! Não é nenhum bicho, é mesmo o pequeno almoço que finalmente está a ser tratado).

Manteiga é que não há em Timor. Ainda só comi manteiga verdadeira no hotel em Los Palos. Pãozinho quente com manteiga derretida… Ai ai. Aqui pedi manteiga e trouxeram-me esta margarina culinária. Pronto, a embalagem diz em português, inglês e francês “Margarina para Propósitos Múltiplos” – Product of Indonesia.

Ann-Kathrin Zieger, da Alemanha, uma artista residente que está a trabalhar n”As Bonecas de Ataúro”. Mais à frente irei visitar o atelier, mostrarei algumas fotos, e falarei deste projeto. A Ann – que assina como “Ann Cut Design” – recebeu-nos, a mim e ao Natalino, ontem à chegada. Eu sem conhecer nada, perfeitamente estranha, a tentar perceber o que se faz por aqui, e a Ann já mais que batida, há quase dois meses a viver aqui, a dar-me dicas sobre o que fazer. A Ann está a ensinar as mulheres locais a coser e a fazer estampagem de tecidos. Era suposto trabalhar apenas até às 14 horas, contou-me, mas tem trabalhado muito mais. Todo o seu trabalho é pago, e tem alojamento e comida incluída. Quando se for embora vai trabalhar para a Alemanha, teve uma boa oportunidade de emprego, contou. Vai ensinar crianças na área das artes.

As Bonecas de Ataúro, projeto sobre o qual falarei mais à frente quando visitar o atelier.

Entretanto o Natalino chegou. Disse que não conseguiu comprar os bilhetes, que a bilheteira estava fechada e só abre às nove. Pelo que voltaremos lá às 9h30, eu desta vez irei consigo.
A Ann entretanto contou-nos uma história engraçada, a propósito já nem sei do quê: aborreceu-se com os militares que têm o quartel aqui em frente da pousada, os quais passam um mês em Ataúro, em treinos e formação. Eles punham música em altos berros às quatro da manhã. Eles gozaram e responderam-lhe “Vai dormir, malai!”. (Recordo que “malai” significa “estrangeira” em tétum). Ora as mulheres locais revoltaram-se com isto e foram lá todas chatear-se com eles. Que elas próprias precisam de dormir, e que a Ann está a trabalhar com elas, a contribuir para este projeto de Ataúro, das Bonecas. As mulheres de Ataúro saem prejudicadas se o projeto não funcionar.
E nunca mais houve barulho.

Cá está o cão castanho que estou empenhada em engordar.
O Natalino quase que não come nada. Comeu apenas um pão e metade da omelete. Comi metade do pão dele e dei o resto ao cão – meia omelete e meio pão, portanto. E eu teria comido tudo se não houvesse um cão para dividir…

Eu arranco para um passeio matinal de bicicleta, e aproveito para ir com o Natalino até ao porto, pois ele quer comprar os bilhetes do barco. Também vai de bicicleta.

Homenagem aos Desterrados de Ataúro, 1980-1987, dedicado à Resistência Timorense. Ataúro efetivamente tem um passado negro, dado ter sido local de deportações  durante a ocupação indonésia. A ilha do Ataúro – dada a pequenez da sua superfície e a carência de meios de comunicação, é um campo de concentração natural. O mar substitui o arame farpado e a espingarda vigilante das sentinelas.¹

Deixo uma carta de 1984 de presos políticos de Ataúro dirigida ao Bispo D. Ximenes Belo, por altura da sua visita a Ataúro. A carta está escrita em português. Relembro que durante a ocupação indonésia, o uso do português foi proibido, impondo-se a língua indonésia. O português era usado como língua de resistência, pela Fretilin e pelas outras organizações da resistência nas suas comunicações internas e no contacto com o exterior. Este uso do português, muito mais do que o do tétum, conferiu-lhe uma enorme carga simbólica.²

A carta indica:
“Agradecemos à Igreja Católica em Timor, que através da sua representação em Ataúro, nos tem diminuído os nossos problemas pelas ajudas humanitárias, dentro das suas possibilidades, é claro, desde que pisámos esta terra em 1980”. (…) “[Agradecemos também à] Cruz Vermelha Internacional que veio realmente suprir a fome e a doença que causaram em nós muitas mortes antes da sua chegada, neste campo de concentração dos presos políticos”.

Nesta carta os presos referem que souberam de outros prisioneiros que foram mandados embora de Ataúro, no entanto não chegaram a casa. Terão sido transferidos para outros locais ou prisões. Esses prisioneiros não puderam levar nada consigo, “aquilo que com muito sacrifício se conseguiu adquirir aqui, como porcos, cabritos, galinhas, camas, cadeiras, milho, etc. (…) cada pessoa só tinha direito de levar consigo 2 ou 3 casais de galinhas”. Acrescentam que tendo deixado “pais, mulheres e filhos por lá, vivendo em miséria e desprezados não só pelo inimigo direto, mas também pelos timorenses”, deixam o pedido ao Bispo para que interceda junto das autoridades indonésias para que os deixem voltar, mas não para serem enviados para outros locais. Para isso, mais vale ficarem em Ataúro.
Finalmente, no sexto ponto, reiteram o pedido sobre os rapazes estudantes que já completaram o curso em Ataúro, para que possam continuar os estudos em Díli.

Deixo também um vídeo da RTP, com uma reportagem feita em 1983 pelo jornalista Rui Araújo, precisamente aqui, em Ataúro, e que portanto é outra relíquia:
https://arquivos.rtp.pt/conteudos/timor-timur-parte-i/

Citando o site da RTP:
“Em destaque a situação na ilha de Ataúro, onde se encontram presos timorenses familiares de guerrilheiros do movimento de luta pela independência FRETILIN, o controlo militar exercido pela Indonésia na ilha, a precariedade na agricultura que se traduz na falta de alimentação para a população, a presença da língua portuguesa e da religião católica no território, e as conversações internacionais em curso para restabelecer a paz”.

Voltarei a este tema – os deportados de Ataúro – mais à frente, quando chegar a Díli e visitar a antiga prisão.

Um parque de campismo para os turistas.

Chegámos ao porto, onde o barco atracará novamente. Não há bilheteira nenhuma, quando o barco chegar é que venderão os bilhetes, claro. E afinal parece que o barco sai às 9 de Díli, pelo que nós só partiremos de Ataúro às duas da tarde. Relembro que os barcos e os horários não são muito certos em Timor. Ou nada certos.


¹ Barreto, Madalena Salvação (2014, Agosto) “Deportação, colonialismo e interações culturais em Timor: o caso dos deportados nas décadas de 20 e 30 do século XX”. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL). In Atas da 1ª Conferência Internacional “A Produção do conhecimento Científico em Timor-Leste‟, Julho 2015. Coordenação de Francisco Miguel Martins e Vicente Paulino. Edição: Unidade de Produção e Disseminação do Conhecimento do Programa de Pós-Graduação e Pesquisa da UNTL. Página consultada a 3 Dezembro 2018,
<http://repositorio.untl.edu.tl/handle/123456789/180>

² “Línguas de Timor-Leste – Português” (s.d.). Wikipedia. Página consultada a 3 Dezembro 2018,
<https://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADnguas_de_Timor-Leste#Portugu%C3%AAs>

³ Carta dos Presos Políticos de Ataúro a D. Ximenes Belo (1984, 14 Dezembro). Cidac, Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral. Documento consultado a 3 Dezembro 2018,
<http://xdata.bookmarc.pt/cidac/tl/TL4941.pdf>

⁴ Araújo, Rui e Feyo, José Manuel Barata (1983, 22 Março) “Timor-Timur – Parte I” [Reportagem de televisão]. A Grande Reportagem. RTP. Vídeo consultado a 3 Dezembro 2018,
<https://arquivos.rtp.pt/conteudos/timor-timur-parte-i/>

064 - Os Pequenos Pescadores de Ataúro & Local de Degredo (Cont.)

Escola Secundária Técnico-Vocacional de Pesca de Ataúro (Ensino Público).

Ataúro foi porém local de deportações não só de timorenses durante a ocupação indonésia, mas também de portugueses durante a colonização portuguesa. Aliás, durante a colonização portuguesa, não era só o ilhéu de Ataúro que era local de deportações, era a própria ilha de Timor. Deixo alguns extratos ligeiramente adaptados para estas crónicas, de um estudo muito interessante de Madalena Salvação Barreto:

“A presença portuguesa em Timor, desde a chegada dos primeiros missionários nos inícios do século XVI até meados do século XIX, resumiu-se a apenas alguns pontos ocupados no litoral, tendo o interior do território permanecido largamente isento de uma presença territorial expressiva que marcasse a soberania ou assinalasse uma colonização do espaço feita por comunidades de portugueses.
Timor era uma ilha retalhada em pequenos reinos independentes, pequenas “repúblicas democráticas” bem diferenciadas política, social e etnologicamente umas das outras, cada uma governada pelo seu Liurai (régulo) que fazia guerra ou alianças políticas e matrimoniais com os vizinhos, ou com o Governo português, conforme entendia. Somente a partir de meados do século XIX, continuando o processo já no século XX, é que a autoridade portuguesa se estendeu a todo o território timorense, organizada administrativamente por postos de comando, onde um oficial militar deveria gerir a vida da sociedade timorense. A verdade é que as terríveis condições de comunicação com o exterior e mesmo a nível interno, transformaram Timor numa Colónia praticamente sem colonos europeus. Mesmo a guarnição militar era na sua grande maioria originária das restantes Colónias. Numa colónia “sem colonos”, os poucos europeus que ali viviam eram missionários, militares ou degredados. Os primeiros registos encontrados de degredados a serem enviados para Timor datam do século XVIII. Para além dos degredados, são escassas as referências a indivíduos de origem europeia que se tenham fixado nesta ilha. Ao longo da história, o degredo para as várias possessões ultramarinas foi muitas vezes utilizado pela coroa portuguesa como pena por crimes cometidos. Não só pelo Governo central de Portugal continental, mas também de outras colónias. Há registos de vários presos enviados pelo Governo de Macau. Na realidade, tratava-se de tentar aproveitar os presos para resolver o problema da falta de capital humano europeu nas colónias e em Timor em particular. De resto, mesmo os militares que prestavam serviço em Timor, na sua maioria, eram enviados para aquele local como castigo e raramente a título voluntário. Por esta razão, Timor foi ganhando fama de Colónia penal e assim ninguém queria ali servir. E, infelizmente, antes do século XX, poucas informações temos relativamente ao tempo de permanência do geral dos degredados na Colónia, onde viveram, o que fizeram durante a sua estadia, como foram integrados na vida social, etc…

Existiam dois campos de concentração, um no enclave do Oecussi e outro na ilha de Ataúro. No Oecussi existia um verdadeiro campo de concentração, com profundos e largos fossos cheios de água e, em volta, os postes de arame farpado. Metralhadoras em posição vigiavam o campo de um alto próximo. Um comandante, à frente de uma força indígena e empunhando um chicote, dava ordens. Tinha dois barracões de madeira cobertos com folhas de palmeiras, ambos situados nas imediações de um arrozal, terreno húmido e povoado de milhões de mosquitos. Não havendo nem quinino nem mosquiteiros à disposição, muitos terão sucumbido ao paludismo.
Num relatório, um médico reportou que vários deportados já haviam chegado fortemente debilitados pela longa e dura viagem e que nestas condições, em vez de recuperarem, muitos poderiam mesmo morrer. A alimentação que lhes era distribuída, milho cozido e vegetais, era insuficiente do ponto de vista nutritivo. A má nutrição e as más condições em que alguns viveram, quer nos campos de concentração, quer nas prisões, foram apontadas como causas diretas de morte de alguns deportados.

Em 1932 o Governo central acabou por dar ordem de soltura a estes deportados, embora sem permissão para sair da Colónia de Timor. Assim, é de crer que a passagem de cerca de 600 deportados por Timor ao longo dos anos 1931 e 1933, terá deixado marcas na História. A certa altura o número de deportados quase dobrava o da população civil europeia ali residente.
Considerando que os deportados estavam interditos de sair da Colónia, que foram enviados para diferentes pontos do território onde passaram a ter residência fixa e obrigação de se apresentar todas as semanas, e sendo que nestes locais a presença europeia era muito ténue, poderemos pensar na possibilidade de a presença deste grupo de deportados ter contribuído mais para a colonização e para o intercâmbio cultural entre portugueses e timorenses, que a simbólica presença portuguesa dos três séculos anteriores.

No que concerne às relações profissionais dos deportados, sabemos que os primeiros anos não foram fáceis. Houve alguns entraves ao imediato e próspero desenvolvimento dos estabelecimentos comerciais iniciados por deportados, ainda que mais tarde muitos tenham conseguido vingar. Aquando da chegada deste grupo ao território, a grande maioria do comércio em Timor estava nas mãos dos chineses e, segundo José Simões Martinho, estes “não tinham quaisquer problemas em sentar-se como iguais ao lado de um indígena, fosse para negociar ou para socializar. Pelo contrário, os deportados impunham uma relação de hierarquia, exigindo o respeito da sua “superioridade”, o que fazia com que o timorense tivesse pouca vontade de comerciar com o branco”. Para além disso, a característica de prisioneiro destes novos comerciantes (mal conotada também na sociedade timorense) também dificultou a aderência da população às novas lojas. Foi o caso de dois deportados (Teófilo Duarte não refere os nomes) que abriram uma padaria e uma barbearia em Díli. No início, ambas as lojas passaram por grandes dificuldades porque a população tinha medo que o padeiro envenenasse o pão ou que o barbeiro ferisse algum pescoço com a navalha de barbear. Segundo Teófilo Duarte, foi preciso ser o Governador a dar o primeiro passo e frequentar tais lojas. Só ao fim de algumas semanas e vendo que o Governador continuava vivo e em forma, é que as populações acederam a frequentá-las também.

Ambos os autores referem as idas ao mercado como o acontecimento social da semana. O mercado era um lugar essencial na sociabilidade timorense e também para os europeus que com eles queriam contactar. Para Timor, só foram deportados homens. Mulheres europeias seriam muito provavelmente somente as senhoras que acompanharam os maridos que para ali foram destacados como militares ou administrativos. Sabemos também que os deportados tinham uma série de obrigações dada a sua condição. Uma delas era a proibição de se relacionarem socialmente com qualquer outro europeu. Assim sendo, estes deportados, todos homens, estavam restritos a relacionarem-se somente entre eles ou com a população timorense. Tendo isto em conta, o mercado era o local onde os deportados, para além das compras para a semana, procuravam conhecer mulheres timorenses. Muitas famílias se criaram nesta altura, dando origem a numerosos filhos luso-timorenses.”¹
(Fim de citação)

Este delicioso estudo histórico, sociológico e antropológico tem nove páginas (entre as páginas 14 e 24 do documento citado abaixo) e recomendo vivamente a sua leitura completa.


¹ Barreto, Madalena Salvação (2014, Agosto) “Deportação, colonialismo e interações culturais em Timor: o caso dos deportados nas décadas de 20 e 30 do século XX”. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL). In Atas da 1ª Conferência Internacional “A Produção do conhecimento Científico em Timor-Leste‟. (2015, Julho). Coordenação de Francisco Miguel Martins e Vicente Paulino. Edição: Unidade de Produção e Disseminação do Conhecimento do Programa de Pós-Graduação e Pesquisa da UNTL. Página consultada a 4 Dezembro 2018,
<http://repositorio.untl.edu.tl/handle/123456789/180>

065 - Visita a uma Fábrica de Costura - As Bonecas de Ataúro

Cá está a fábrica das Bonecas de Ataúro. De acordo com o seu website oficial:

“A Boneca de Ataúro iniciou-se em 2007, numa pequena sala, a partir de conhecimentos básicos de costura e com apenas quatro costureiras – das quais uma ainda trabalha na cooperativa – e fundada pela artista e desenhadora suíça Ester Piera Zuercher, com o apoio do Padre Luís Fornasier. Com base na remota e bela ilha de Ataúro – 25 km ao norte da costa de Díli – é um projeto nascido de muito amor, paixão e trabalho árduo da comunidade.
Em 2008, perante uma oportunidade que a vida lhes ofereceu, este grupo de costureiras de bonecas concorreu a um concurso lançado pela UNICEF, para a produção de 3.200 bonecas a serem oferecidas às crianças do ensino pré-escolar de Timor-Leste, tendo-lhes sido adjudicado o trabalho. Em 2009, a exposição na Fundação Oriente, em Díli – gentilmente apoiada pelo Instituto Camões de Portugal – dotou a Boneca de Ataúro de uma forte visibilidade. O projeto rapidamente se expandiu para além de Ataúro, atravessando oceanos até à feira de empreendimento social Exponor no Porto, permitindo que também o público internacional pudesse encontrar as nossas bonecas.
A história continua e em 2015, a nossa cooperativa juntou-se ao Manukoko Rek, um restaurante e pousada localizados perto da nossa oficina. Um eco-resort, gerido pela comunidade e onde se cozinha a melhor comida local, pizza e pasta fresca do país.
Acreditamos que a educação é fundamental para o nosso desenvolvimento, pelo que, na medida das nossas possibilidades, fornecemos à nossa equipa formação nas áreas de alfabetização básica, contabilidade, informática, marketing e língua portuguesa e inglesa. Da mesma forma, acreditamos que a educação criativa é muito importante para desenhar e desenvolver os nossos produtos, contudo, infelizmente, a educação formal de arte e desenho ainda não existe em Timor-Leste. Assim, decidimos criar o programa de residência artística, que traz artistas internacionais a Ataúro. Trabalhando todos juntos, melhoramos e desenvolvemos as nossas habilidades criativas. O programa das residências artísticas tem provado ser um enorme sucesso.
Até agora tivemos uma vasta gama de influências muito interessantes, vindas de vários artistas – agora amigos – a professora portuguesa Isabel Maria Gaspar Ribeiro, a ilustradora italiana e educadora criativa Elena Tognoli, a desenhadora japonesa Mayumi Hayashi, o fotógrafo timorense Bernardino Soares, a artista americana especialista em produção de papel artesanal Alyssa Casey, a desenhadora de jóias timorense Risza Lopes da Cruz, a cantora americana Jen Shyu, a especialista australiana em produção têxtil Kath Ashworth e a artista australiana especialista em bordados Dijanne Cevaal.

Como Cooperativa que somos, os lucros são distribuídos equitativamente e cada membro tem poder de voto em todas as decisões tomadas. Somos cerca de 60 membros que diretamente ganham o seu salário na cooperativa mas, na realidade, entre prestadores de serviços ou através da compra da produção de outros artesãos, sabemos que este projeto tem um impacto significativo na economia da ilha, trazendo um rendimento real a cerca de 10% da população de Ataúro.”¹

Cá está a Ann Zieger, da Alemanha, conforme já apresentei na crónica 63, a atual artista residente que está a trabalhar n”As Bonecas de Ataúro”. A Ann assina como “Ann Cut Design”, e fiquei encantada com os seus desenhos simples e coloridos.

Depois da visita à fábrica fui dar uma volta de bicicleta pelos arredores (o Natalino foi descansar logo mal chegámos do porto, que bem merece) e dei com este grupo, entretido a ver vídeos no smartphone do rapaz mais velho ao centro. Quem nos tirou a foto foi uma das crianças.

Um dos quartos da pousada onde estou, a Manukoko Rex, a qual se associou às Bonecas de Ataúro, conforme referido acima. A decoração deste quarto foi feita pela Ann, tal como a de outros dois que ela foi mostrar-me. Ainda não foram inaugurados, um deles ainda tem a tinta a secar. Cada quarto tem temas e cores diferentes. Este chama-se “Selva” e também cheira a tinta fresca.

Dei um peixe ao Natalino, que finalmente parece estar esgalgado com fome. Desta vez sou eu que não tenho fome. Ao pequeno almoço foi ao contrário. Mas tenho de almoçar porque daqui a pouco partimos no barco.

Em conversa com o Natalino, este mostrou muito espanto quando lhe contei que em Portugal e outros países europeus a taxa de natalidade diminuiu fortemente, que as pessoas não querem ter filhos, e que os governos já dão incentivos a quem queira ter filhos. Em Timor é normal ter-se mais de cinco filhos, pelo que o Natalino não cabia em si de espanto, e estive a explicar-lhe que ter um filho na Europa hoje em dia é muito caro. Todas as despesas associadas – estudos inclusive, a escola, a universidade. O Natalino não seguiu a universidade, fez um curso de inglês, e eu expliquei-lhe que na Europa alguns casais recusariam ter filhos se não conseguissem ter garantias de conseguir pôr o filho ou a filha na universidade. O Natalino perguntou-me a média de ordenados em Portugal, questão difícil. Expliquei-lhe que o ordenado mínimo é 580€, e enfim, se calhar a média andará pelos 900 ou mil euros. O que ele achou imenso.

Por seu lado o Natalino explicou-me que em Timor apenas as crianças cumprimentam os pais com beijos; não usam este tipo de cumprimento aqui. Efetivamente os asiáticos não são dados a cumprimentos com beijinhos, isto é coisa de europeus e americanos (e australianos. Já não me lembro como cumprimentei os australianos, quando os visitei na sua terra, mas também é com beijinhos, sim).

E o meu arroz foi para este cão magricela.


“Boneca de Ataúro” (s.d.). Página oficial – “Boneca de Ataúro”. Página consultada a 5 Dezembro 2018,
<http://bonecadeAtaúro.com/files/documents/Boneca-catalogue-2017-18-%28web%29.pdf>

066 - Adeus Ataúro

Junto ao porto parámos nesta loja para comprar água.

Às duas da tarde o porto está deserto. Nem barco, nem passageiros. Não há barco nenhum. O Natalino, eu e as bagagens estamos sozinhos no porto. É necessário contratar um barco privado para nos tirar de Ataúro. E a Timor MEGAtours tratou disso. O bilhete para cá foram 5 dólares, pelo menos era o que estava escrito nele. E agora para lá são 60 dólares por cada um de nós. 120 dólares ao todo.
Eu estou de férias e a gostar de Ataúro, não me importava de ficar cá mais uns dias. Mas mesmo assim senti a prisão. De férias e a gostar, e tenho esta sensação de prisão – como é que saio daqui agora? Nem quero imaginar os prisioneiros e os deportados… Esses não tinham saída mesmo.

O Natalino e eu estamos empenhados em cronometrar o tempo desta viagem. Partimos às 14.19h, vamos ver quanto tempo levamos.

Atracámos às 15.29h. Levámos portanto 1,10h a chegar a Díli. No outro barco foram 4 horas!

067 - Em Díli, a Antiga Prisão - Comarca Balide

Deixo a bicicleta nas instalações do Benfica, onde vai fazer uma revisão, sobretudo afinar as mudanças, que nunca ficaram bem afinadas desde o primeiro dia, conforme referi na crónica 4. Não consigo meter a última mudança de trás. Vai ficar agora resolvido, felizmente. Qualquer dia tenho eu de aprender a fazer isto. Também vão ser mudados os pedais. Efetivamente andei estes nove dias sem pedais, o que não facilita no terreno pedregoso de Timor. Tinha apenas os ferros de encaixe. As minhas sandálias é que são fortes, de todo o terreno, e agarraram relativamente bem a esses ferros.

Orlando – o mecânico, e a sua bicicleta, com a qual vai fazer o Tour de Timor em breve. Esta bicicleta sua tem pneu 29. A minha, alugada aqui em Timor, tem pneu 26. Pequeno, para meu gosto. Em Lisboa uso uma de 27,5. Mas durante muitos anos usei o de 26, foi um regresso ao passado. Esta moda dos pneus grandes é recente.

Visita à antiga prisão de Díli – Comarca Balide.

Conforme já descrito na crónica 38, e para nos situarmos em termos de datas: em 1999 Timor-Leste livrou-se do jugo indonésio, e, extremamente debilitado pela ocupação que durou 24 anos, foi administrado durante dois anos pelas Nações Unidas – mais especificamente pela UNTAET (Administração Transitória das Nações Unidas em Timor-Leste) até finalmente se tornar independente em 2001 e assumir as suas próprias rédeas.
Deixo um extrato dum livro de Michael Leach:
“A Comarca Balide, ou Prisão de Balide, é fulcral na formação da identidade nacional pós-colonial timorense. Estes difíceis locais do património cultural são especialmente importantes no processo de articulação duma visão nacionalista da história e identidade timorenses, uma vez que estão intimamente ligados a processos mais amplos de reconciliação nacional e justiça pós-conflito em Timor-Leste. Não é por acaso que a Comarca Balide é hoje o local onde se guardam os registos da Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação de Timor-Leste (CAVR). O repositório mais importante das memórias nacionais da ocupação indonésia está aqui, na Comarca Balide. Prisão da época colonial portuguesa construída em 1963, foi usada como uma instalação de encarceramento por vários regimes, incluindo a unilateralmente declarada República Democrática de Timor-Leste, por curta duração, no final de 1975. Foi usada durante esse pouco tempo pela Fretilin para colocar os prisioneiros dos partidos políticos da oposição – a UDT e a Apodeti. Após a guerra civil de 1975, Timor foi posteriormente invadido e ocupado pela Indonésia, nesse mesmo ano de 1975, e esta prisão foi a partir de então um centro de interrogatórios indonésio dirigido pela notória polícia militar e organizações de inteligência Kodim e Morem. A importância da Comarca como local de dor e sofrimento sob sucessivos regimes tornou-a  a melhor escolha simbólica para sede da CAVR após a independência. Quando as atividades de coleta de testemunhos da CAVR foram encerradas no final de 2005, o local foi designado como um memorial permanente e arquivo para os documentos, incluindo os milhares de testemunhos de vítimas.”¹

A proposta inicial de reabilitar a Comarca veio da Associação de ex-Prisioneiros Políticos (ASSEPOL) em 2000, e foi adotada pela então nascente CAVR como um local apropriado para albergar a “história dos direitos humanos” de Timor-Leste. Em 2002, um memorando de entendimento determinou que a Comarca se tornaria o escritório da CAVR em Díli durante o período do seu mandato, e depois mantida como um arquivo com o objetivo de longo prazo de “preservar a antiga prisão de Balide para as gerações futuras como um memorial à repressão, e como um centro para a promoção dos direitos humanos e da reconciliação em Timor-Leste ”.
Restaurado com o apoio dos governos japonês e irlandês, o edifício da Comarca ficou pronto para a abertura formal das audições da CAVR em fevereiro de 2003. A inspiração original da ASSEPOL não foi esquecida, com o folheto publicitário apresentando uma citação dum dos membros do comité fundador: “Mostraremos que podem crescer flores numa prisão”. O processo de restauração foi participativo e inclusivo, com ex-prisioneiros fortemente envolvidos na definição dos aspetos decorativos e outras características da restauração, como forma de terapia de reabilitação. Uma mulher que passou a sua infância aqui enquanto a mãe esteve presa, transformou os pátios internos em jardins. Ex-prisioneiros políticos também construíram os móveis e atris no espaço de reuniões existente no pátio. Antes da abertura, outro ex-prisioneiro conduziu uma cerimónia tradicional de purificação. Desta forma, o projeto de restauração da Comarca foi concebido tanto como um local para recuperação pessoal, como um repositório histórico nacional.
Em Dezembro de 2005, no final do período de mandato da CAVR, a Comarca tornou-se um memorial permanente para as vítimas de violações dos direitos humanos em Timor-Leste, e sede do secretariado técnico pós-CAVR, encarregado de divulgar o relatório da CAVR e manter os seus arquivos. O processo de conversão da Comarca num memorial e repositório histórico foi realizado consultando a UNESCO e outros museus internacionais relevantes.¹
Duas outras organizações independentes também têm sede aqui: o projecto “Memória Viva” da Associação dos ex-Prisioneiros Políticos (ASSEPOL) e o Gabinete de Apoio de Timor-Leste da Comissão da Verdade e Amizade (CTF).²

Um método inovador de preservar a memória dos abusos dos direitos humanos é através da conservação dos grafítis feitos pelos prisioneiros. No total são 65 grafítis, preservados no todo ou em parte, incluindo um dum futuro comissário da CAVR preso durante a era indonésia. A maioria dos grafítis está em português, e muitos expressam simples lembranças de prisioneiros, como “Aqui jaz Zeca”. Outros marcam longos períodos de prisão arbitrária nos primeiros anos da ocupação indonésia, como uns riscos na parede em que um prisioneiro lamenta: “Passei o meu passado nesta cela”. Alguns mostram sentido de humor sob a adversidade, como aquele que declara “cela especial para candidatos à liderança mundial”. Outros, no entanto, são mais perturbadores, como os encontrados nas celas de isolamento: “Torturaste o meu corpo nos grilhões do teu império”. Alguns grafítis nas celas de isolamento registam talvez o último testamento de prisioneiros políticos, como um datado de 10 de agosto de 1976, nove meses após a invasão indonésia, em que uma lista de nomes segue-se a uma gravação na parede: “Nesta cela de morte estiveram… ”
Enquanto as salas internas da Comarca foram renovadas, os grafítis dos prisioneiros estão conservados sob molduras de plástico [exemplo na foto acima], debaixo das modernas camadas de tinta, onde muitos foram inadvertidamente preservados em tempos indonésios.¹

O objetivo do programa de apuramento da verdade da CAVR consistia em documentar violações de direitos humanos cometidas por todas as partes envolvidas no conflito político entre Abril de 1974 e Outubro de 1999. As estratégias adotadas foram a recolha sistemática de testemunhos em cada subdistrito, a investigação focalizada e a realização de audiências públicas. Foi procurada documentação de fontes em Timor-Leste e no estrangeiro, incluindo documentos e outros materiais relevantes.
A Comissão reuniu 7.669 testemunhos dos 13 distritos e 65 subdistritos de Timor-Leste. A Comissão trabalhou em conjunto com uma coligação de organizações não governamentais de Timor Ocidental para dar aos timorenses de leste residentes em Timor Ocidental a oportunidade de prestarem testemunho.
A Unidade de Investigação da Comissão realizou mais de 1.000 entrevistas centradas nos seguintes temas: fome e deslocação, forças de segurança indonésias, Fretilin/Falintil, prisão e tortura, mortes extrajudiciais e desaparecimentos forçados, crianças, mulheres, e conflito interno armado.
Os entrevistados incluíam pessoas que interpretaram papéis significativos nos acontecimentos e que ocuparam cargos de liderança nas várias fases do conflito, bem como perpetradores e vítimas. Comissários e funcionários conduziram estas entrevistas em Díli, nos distritos, em Portugal e na Indonésia. Em meados de 2003, a Comissão iniciou várias entrevistas com figuras-chave nacionais, conhecidas como entrevistas VIP. Além de fornecerem um testemunho pessoal da experiência direta, estas entrevistas permitiram à Comissão investigar antecedentes e detalhes de organizações e acontecimentos. A Comissão realizou 15 entrevistas VIP, em Timor-Leste e na Indonésia, incluindo Timor Ocidental.
Em Junho de 2003, a Comissão conduziu um inquérito estatístico sobre o número de timorenses cuja morte resultou diretamente do conflito, de privação, de combate armado, de fogo cruzado, de morte ilícita ou de desaparecimento forçado. Embora tenham sido feitas várias tentativas no passado para calcular o número de mortes devido a estas causas, esta foi a primeira oportunidade que qualquer organização teve de proceder a uma investigação objetiva sobre o número de mortes ocorridas durante o conflito.³
No final destes trabalhos, em 2005, foi emitido um relatório muito detalhado e minucioso, com 3.128 páginas, com o título “Chega!”, o qual pode ser consultado neste link:
http://www.chegareport.net/download-chega-products-2/

“O Relatório da CAVR constitui um marco importante na busca da justiça, verdade e reconciliação em Timor-Leste. Espero sinceramente que seja uma contribuição duradoura para a construção da nação timorense e que ajude a prevenir a repetição de tais eventos trágicos em Timor-Leste e noutros locais.” – Kofi Annan, Secretário-Geral da ONU (Julho de 2006).⁴

Os milhares de documentos e testemunhos recolhidos pela CAVR (Comissão Acolhimento, Verdade e Reconciliação). Seguem alguns deles, retirados dum relatório da CAVR datado de 2003:

“Foi demonstrada a estratégia militar indonésia de exílio e de aprisionamento na ilha de Ataúro, na tentativa de separar a população dos guerrilheiros da resistência, ainda nas montanhas. Aparentemente, o aprisionamento em Ataúro foi utilizado contra aqueles que ainda tinham familiares nas montanhas.
Rosalina da Costa foi a mais velha sobrevivente a prestar testemunho. Falou de como a sua família foi separada após a invasão e de como foi ficar para trás numa vila depois de todos terem fugido para o mato:

 “O meu marido e quatro dos nossos filhos correram para o mato. Eu fiquei para trás com uma das nossas crianças. Durante três anos, não nos rendemos… um militar indonésio violou-me sexualmente e um colega seu violou a E., apesar de ela estar grávida na altura. Eles violaram-nos durante sete meses… o exército indonésio violava as mulheres, estivessem casadas ou não.
Em 1981, durante a Operação Kikis ou “Escudos humanos”, em Aitana, eu e os meus filhos fomos transferidos para Ataúro… estivemos presos em Ataúro durante quatro anos, sete meses e sete dias… em Ataúro era horrível, não havia comida… Regressamos a Same, mas as pessoas de lá não nos aceitaram. Chamavam-nos batar fuhuk (milho estragado), diziam que éramos da Fretilin e não nos davam comida … O meu marido foi para o mato. Até hoje, ainda não sei se ele está vivo ou morto.”

Joana Pereira, de Quelicai, no distrito de Baucau, testemunhou o seguinte: 

“O meu irmão mais velho, Pascoal Freitas, tinha a alcunha de Nixon, ainda estava no mato, com uma arma e envolvido no conflito com o exército indonésio… A 29 de Agosto de 1981, o Quelicai Koramil (comando do exército indonésio ao nível do sub-distrito) disse-nos: “Quem ainda tiver família no mato tem de ser punido”. E, então, o Koramil fez uma lista de todos os nossos nomes… apenas mais tarde soube que íamos ser presos na ilha de Ataúro, porque o Nixon ainda estava no mato. Nesse tempo, eu tinha 13 anos de idade e o Mateus tinha apenas 9 anos.
… no dia seguinte… o Quelicai Koramil levou-nos em direção ao porto de Laga, guardados por quatro camiões armados,… e depois no dia 30 de Agosto… os militares indonésios levaram-nos a nós e a outras famílias em direção a Díli, no navio de guerra número 502…
A 1 de Setembro de 1981, fomos mandados para a ilha de Ataúro, no navio de guerra número 511, às oito horas da manhã… quando chegamos lá, eu e o meu irmão fomos separados. Ele ficou na casa número 22, com 60 outras pessoas. Eu fiquei na casa 24, com mais 70 pessoas.
… Devido à distribuição de comida ser tão insuficiente, havia fome… Então, muitos morreram porque não havia comida suficiente. As pessoas de Viqueque e de Lospalos. Entre 2 a 5 pessoas morriam todos os dias, especialmente crianças e mulheres e homens idosos.
Eu fico muito triste quando falo sobre isto. A minha irmã mais nova morreu. A minha mãe e pai já não estão comigo. Estou muito triste… Sinto que isto foi resultado da guerra, nós sofremos pela terra de Timor. Peço à CAVR e ao governo que lembrem as pessoas que morreram em Ataúro… registem os seus nomes.”

A vila de Mauxiga, nas montanhas centrais de Ainaro, também sofreu imenso nessa altura. Na audiência pública sobre as Mulheres e o Conflito, realizada em Abril, Olga da Silva Amaral deu um testemunho emocionante. Nessa audiência, dois homens deram o seu testemunho sobre as atividades clandestinas contra o exército indonésio em Mauxiga, em Agosto de 1982, e a subsequente sanção. Abílio dos Santos Belo estava entre o grupo capturado e enviado para Ataúro: 

“Os militares ordenaram-nos que entrássemos no barco. Aí, eu vi os meus irmãos e irmãs mais velhos, a minha mãe e a minha avó… Chegámos a Ataúro a 1 de Setembro de 1982… não nos levaram para a prisão, porque todas as barracas estavam cheias… a temperatura era muito elevada, o que matou muitas crianças e pessoas idosas… nós continuamos na vila de Ataúro… durante este aprisionamento em Ataúro, sofremos imenso. Era difícil encontrar comida, medicamentos e roupas. Apenas recebíamos assistência do exército indonésio na forma de milho bolorento… isso não era comida suficiente… três meses depois, a Cruz Vermelha Internacional entrou em Ataúro. As nossas vidas começaram a melhorar… A Outubro de 1984, as pessoas presas em Ataúro regressaram a Díli…”

António Pires fugiu para as montanhas, sendo mais tarde capturado pelo exército indonésio. Ele falou do castigo infligido na população civil:

“Membros de… quatro aldeias foram… capturados, mesmo as crianças e os idosos. Estes foram levados para o Koramil, onde foram brutal e sadicamente torturados. Foram despidos completamente, agredidos com paus, queimados com pontas de cigarro, feridos com choques elétricos, atados com cordas, pendurados numa árvore, mortos, esfaqueados com lanças, afogados na água, torturados debaixo do sol ardente, as mulheres foram violadas e outros, enterrados vivos.

Abílio dos Santos Belo concluiu:

“Para a população de Mauxiga, 20 de Agosto de 1982 é um dia histórico, tal como Kraras e o 12 de Novembro. As pessoas de Mauxiga estão tristes. Por favor escrevam os nossos nomes e isso ajudará a curar as nossas feridas.”⁵

Outubro de 2015 marca 10 anos desde que a CAVR entregou o Chega! Report ao Presidente de Timor-Leste, Xanana Gusmão. A AJAR (“Asia Justice and Rights” – uma organização não-governamental) e os seus parceiros estão a fazer um balanço do impacto do Chega!, reunindo os pontos de vista das vítimas e dos defensores dos direitos humanos nos seus assuntos inacabados. Nesta foto, familiares de desaparecidos do incidente de Marabia (junho de 1980) lembram os seus entes queridos.
Foto retirada de http://www.chegareport.net/, Homepage.

Uma cena duma das inovadoras cerimónias de reconciliação comunitária da CAVR.
Foto retirada de http://www.chegareport.net/, Homepage.

Seguem alguns processos de reconciliação nas comunidades, levados a cabo pela CAVR em 2003:

  • 13 de Junho: Ermera – Matata: 14 Deponentes, 7 Vítimas & comunidade.
    Razão da Audiência: Membro da milícias, incêndio de casa, roubo de animais, agressão, intimidação.
    Ato de Reconciliação da Comunidade: Construir um novo mastro para a bandeira para o Dia da Independência, limpar a terra em volta do escritório da vila, pedir perdão, prometer não repetir.
  • 17 de Junho: Ermera – Tokoluli: 3 Deponentes, Comunidade
    Razão da Audiência: Membro da milícia, incêndio de casa.
    Ato de Reconciliação da Comunidade: Pedir perdão, prometer não repetir.
  • 20 de Junho: Ermera – Fatukero: 10 Deponentes, 9 Vítimas & comunidade.
    Razão da Audiência: Membro da milícia, envolvimento na administração indonésia, agressão, intimidação, membro de um partido da juventude indonésio.
    Ato de Reconciliação da Comunidade: Pedir perdão, prometer não repetir.
    N.B. 1 dos Deponentes não foi capaz de reconciliar com uma das vítimas, outras provas de natureza de crime grave (agressão) – o depoimento foi devolvido ao OPG.
  • 21- 22 de Junho: Díli – Suleur: 18 Deponentes, comunidade (2 vítimas directas foram identificadas durante a audiência).
    Razão da Audiência: Membro da mílicia, ameaças, intimidação sobre membros da comunidade.
    Ato de Reconciliação da Comunidade: Pedir perdão, prometer não repetir. Os Deponentes deram a sua palavra de que estariam ao serviço dos líderes locais durante três meses para cumprir qualquer tipo de trabalho comunitário. Os Deponentes deram dinheiro, uma cabra e vinho para as cerimónias prosseguirem.
  • 23 de Junho: Bobonaro – Atudara: 6 Deponentes, 8 Vítimas & comunidade.
    Razão da Audiência: Incêndio de casa, ameaça & intimidação, agressão.
    Ato de Reconciliação da Comunidade: Serviço comunitário de reparar a casa do Padre um dia por semana, durante três meses. Pedir perdão, prometer não repetir.
  • 24 de Junho: Manufahi – Betano: 18 Deponents, 13 Vítimas & comunidade.
    Razão da Audiência: Ataques da Fretilin a apoiantes da UDT em 1975, incêndio de casa, roubo, agressão e difamação (1999).
    Ato de Reconciliação da Comunidade: Pedir perdão, prometer não repetir.
    N.B. 1 dos Deponentes não pode participar devido à morte recente da mulher.
  • 30 de Junho: Bobonaro – Odomau: 3 Deponentes, Vítimas & comunidade.
    Razão da Audiência: Membro da mílicia, elaboração de cerimónias para a milícia, envolvimento no serviço de política indonésio, incêndio de casa e destruição de propriedade.
    Ato de Reconciliação da Comunidade: Serviço comunitário de limpar a Igreja um dia por semana durante três meses, pagamento de um porco para sacrifício. Pedir perdão, prometer não repetir.
  • 3 de Julho: Baucau – Venilale: 5 Deponentes, Vítimas & comunidade.
    Razão da Audiência: Membro da milícia e difamação.
    Ato de Reconciliação da Comunidade: Pedir perdão, prometer não repetir.
    N.B. 1 dos Deponentes faltou à audiência.
  • 5 de Julho: Oecussi – Bana Ufe: 2 Deponentes, 2 Vítimas & comunidade.
    Razão da Audiência: Incêndio de casa.
    Ato de Reconciliação da Comunidade: Pagamento simbólico de arroz, sal, dois porcos e vinho de palma para uma refeição comunitária. Pedir perdão, prometer não repetir.
  • 10 de Julho: Aileu – Remixio: 1 Deponente, 15 Vítimas & comunidade.
    Razão da Audiência: Agressão, incêndio de casa, intimidação à comunidade.
    Ato de Reconciliação da Comunidade: Incapaz de se reconciliar – o depoimento foi devolvido ao OPG. O funcionário CRP regressará para explorar a possibilidade uma segunda audiência.
  • 11 de Julho: Oecussi – Hau Ufe: 12 Deponentes, 9 Vítimas & comunidade.
    Razão da Audiência: Membro da milícia, incêncdio de casa, agressão e roubo.
    Ato de Reconciliação da Comunidade: Pagamento simbólico de vinho de palma para um refeição comunitária. Pedir perdão, prometer não repetir.
  • 15 de Julho: Manufahi – Welaluhu: 6 Deponentes, 6 Vítimas & comunidade.
    Razão da Audiência: Abuso de autoridade – Chefe do sub-distrito e Chefe da Vila (desde 1985), intimidação e atividades das mílicias (1999).
    Ato de Reconciliação da Comunidade: Pedir perdão, prometer não repetir.
  • 18 de Julho: Bobonaro – Purugua: 4 Deponentes, 1 Vítimas & comunidade.
    Razão da Audiência: Suspeita de coloboração com o exército indonésio, membro da milícia.
    Ato de Reconciliação da Comunidade: Tarefas gerais de limpeza um dia por semana por três meses. Pedir perdão, prometer não repetir.
  • 21 de Julho: Bobonaro – Asalao: 18 Deponentes, 13 Vítimas & comunidade.
    Razão da Audiência: Incêndio de casa, roubo de animais e propriedade e agressão.
    Ato de Reconciliação da Comunidade: Tarefas gerais de limpeza um dia por semana & reparar a casa do Padre por três meses. Pedir perdão, prometer não repetir.
  • 22 de Julho: Manufahi – Babulu: 20 Deponentes, 16 Vítimas & comunidade.
    Razão da Audiência: Destruição de propriedade, agressão e membro da milícia.
    Ato de Reconciliação da Comunidade: Pedir perdão, prometer não repetir.
    N.B. 3 dos Deponentes não conseguiram reconciliar-se com a vítima, por envolvimento num crime sério (agressão) – os depoimentos foram devolvidos ao OPG.⁵

O exército indonésio treinou e armou diversas milícias. Protegidas pelo exército indonésio, estas milícias e bandos paramilitares desencadearam ondas de violência por todo o território de Timor-Leste. Em finais de Janeiro de 1999, depois do Presidente indonésio Habibie ter anunciado que daria a Timor-Leste a opção de escolher a autonomia sob soberania indonésia, ou a sua separação da Indonésia, surgiu uma rede de treze milícias regionais. Estas milícias foram formadas para intimidar os timorenses a apoiarem a contínua integração de Timor à Indonésia. Estas milícias eram apoiadas abertamente pelo exército indonésio; estando a maior parte baseadas nos quartéis militares regionais.
Os treze grupos de milícias eram chefiados por timorenses conhecidos pela sua colaboração com o exército indonésio. Nem todos são novos. Alguns surgiram nos anos 1970, após a invasão indonésia, mas as três piores – Aitarak (Díli), Besi Merah Putih (Liquiçá) e Mahidi (Suai) – foram criadas em 1999. Eurico Guterres, o líder do Aitarak, é um antigo ativista pró-independência que trocou de campo após a sua detenção pelas forças indonésias, em 1989, quando estas descobriram que estava envolvido num plano para assassinar o Presidente indonésio Suharto durante a visita a Díli.⁶ Nascido em Viqueque, órfão de pai e mãe (o pai foi morto por militares indonésios nos primeiros anos da ocupação⁶), criado por um civil indonésio, viria a tornar-se chefe da denominada Gardapaksi, um auxiliar paramilitar indonésio criado em 1995. O líder da milícia em Baucau é um oficial ao serviço das Kopassus. A milícia Halilintar em Bobonaro, um dos grupos mais antigos, é chefiada por João Tavares, antigo chefe tradicional, membro do partido pró-Indonésia Apodeti antes da invasão em 1975. Diz-se que algumas das milícias não são provenientes de Timor-Leste. Correram ainda notícias de que metade da milícia Laksaur da região de Suai era formada por habitantes de Timor Ocidental.⁷

O julgamento destes criminosos de guerra tem sido alvo dos media, aos longo dos anos. Uma das primeiras notícias que encontro data de 2003, no Jornal Correio da Manhã:
“Os crimes cometidos, em 1999, em Timor-Leste, pela polícia Indonésia e pelas milícias vão ser finalmente julgados. Depois do comandante geral das Forças Armadas indonésio, General Wiranto ter sido formalmente acusado, é a vez do ex-comandante da polícia de Timor-Leste, general Timbul, e os comandantes das milícias Aitarak e Mahid, Eurico Guterres e Câncio Lopes de Carvalho respetivamente.⁸

No ano 2000, a Administração Transitória das Nações Unidas em Timor-Leste (ATNUTO – ou UNTAET em inglês) criou um sistema judicial destinado especificamente a processar os seguintes crimes: genocídio, crimes de guerra, crimes contra a humanidade, assassinato, crimes sexuais e tortura. A jurisdição para processar estes crimes particularmente graves foi conferida ao Tribunal Distrital de Díli, com uma configuração especial, composta por juízes timorenses e internacionais. As sentenças proferidas por este Tribunal podem ser levadas perante um Tribunal de Recurso também localizado em Díli e igualmente composto por juízes tanto timorenses como internacionais. Sentenças variando de 11 meses a 33 anos de prisão foram proferidas.
Paralelamente, a Indonésia estabeleceu um procedimento destinado a julgar as atrocidades cometidas em Timor-Leste. Uma Comissão Nacional de Inquérito, cujo relatório final foi publicado em 31 de janeiro de 2000, levantou acusações diretamente contra 33 indivíduos, incluindo vários líderes militares. Um Tribunal de Direitos Humanos – uma jurisdição ad hoc com a tarefa específica de julgar esses indivíduos – foi posteriormente criado. Das 33 pessoas designadas pela Comissão de Inquérito, apenas 18 foram condenadas. 12 foram absolvidas pelo tribunal de primeira instância, 4 no recurso e 1 no recurso final perante o Supremo Tribunal. A única pessoa condenada foi Eurico Guterres, cuja pena de prisão foi fixada em 10 anos pelo Supremo Tribunal da Indonésia em março de 2006.⁹ Em 2008, o Supremo Tribunal indonésio anunciou a sua absolvição, porém. O motivo apresentado foi que a formação da sua milícia em 1999 foi ordenada pelo então governador da província de Timor-Leste, ele próprio libertado em 2004.¹⁰

No resultado final, a totalidade dos acusados de crimes cometidos em Timor-Leste foram assim absolvidos pelo Tribunal Indonésio de Direitos Humanos. Dúvidas sobre a imparcialidade deste organismo foram levantadas por muitas organizações de direitos humanos, em particular a Amnistia Internacional, a Human Rights Watch e a Coalition for International Justice.⁹


¹ Leach, Michael (2008) “Difficult Memories: the independence struggle as cultural heritage in East Timor”. In “Places of Pain and Shame: Dealing with ‘Difficult Heritage’”, Edição de William Logan e Keir Reeves. Part II, Wartime Internment Sites, Páginas 148 a 150. Londres e Nova Iorque, Routledge, Taylor & Francis Group. Livro online consultado a 9 Dezembro 2018,
<https://books.google.pt/books?id=TOp9AgAAQBAJ&printsec=frontcover&hl=pt-PT#v=onepage&q&f=false>

² “The Comarca” (s.d.). Commission for Reception, Truth and Reconciliation (CAVR). Página consultada a 9 Dezembro 2018,
<http://www.cavr-timorleste.org/en/comarca.htm>

³ “Apuramento da verdade”, Comissão Acolhimento, Verdade e Reconciliação (CAVR). Página consultada a 9 Dezembro 2018,
<http://www.cavr-timorleste.org/po/Apuramento%20da%20verdade.htm>

⁴ “Chega! Report” (2013, Novembro). The Final Report of the Timor-Leste Commission for Reception, Truth and Reconciliation (CAVR). / author, CAVR. – Jakarta: KPG in cooperation with STP-CAVR. Contracapa. Livro online consultado a 9 Dezembro 2018,
<http://www.chegareport.net/download-chega-products-2/>

⁵ “Relatório de actividades Junho – Julho de 2003”. Comissão Acolhimento, Verdade e Reconciliação (CAVR). Página consultada a 9 Dezembro 2018,
<http://www.cavr-timorleste.org/updateFiles/portuguese/Piers%20Pigou.pdf>

⁶ Nogueira, Andreia (2015, 4 dezembro) “Regresso de Portugal foi para branquear imagem – Eurico Guterres”. Agência Lusa, Sapo.pt. Página consultada a 9 Dezembro 2018,
<https://24.sapo.pt/noticias/internacional/artigo/regresso-de-portugal-foi-para-branquear-imagem-eurico-guterres_20057276.html>

⁷ “Questões e Respostas sobre Timor-Leste” (s.d.) Human Rights Watch (HRW). Página consultada a 9 Dezembro 2018,
<https://www.hrw.org/legacy/portuguese/press/1999/timor-bck0908-por.htm>

⁸ “Timor-Leste: Comandantes das Milícias Acusados” (2003, 28 fevereiro). Jornal Correio da Manhã. Página online consultada a 9 Dezembro 2018,
<https://www.cmjornal.pt/mundo/detalhe/timor-leste-comandantes-das-milicias-acusados>

⁹ “Eurico Guterres – Context” (2004, Dezembro). TRIAL (Track Impunity Always). Página consultada a 9 Dezembro 2018,
<https://web.archive.org/web/20071024091149/http://www.trial-ch.org/en/trial-watch/profile/db/context/eurico_gutteres_569.html>

¹⁰ “Supremo indonésio absolve Eurico Guterres” (2008, 5 Abril). Jornal Expresso. Página consultada a 9 Dezembro 2018,
<https://expresso.sapo.pt/dossies/dossiest_actualidade/CriseemTimorLeste/supremo-indonesio-absolve-eurico-guterres=f285667#gs.pbd7R_8>

068 - Cemitério de Santa Cruz

A ilha de Ataúro em frente. À direita, o Cristo-Rei, onde o Valério me leva agora na pickup. Já tenho pouco tempo antes de anoitecer, não há tempo para passeios de bicicleta em Díli. A seguir iremos ao Cemitério de Santa Cruz; a seguir jantar; e a seguir cama. Ainda fica a faltar o Museu da Resistência, o qual vai ficar para o 25º dia da viagem, quando eu regressar aqui a Díli. Com organização a gente faz tudo. Eu também podia passar um dia ou dois em Díli, mas optei por andar nas povoações mais distantes. Interessa-me mais. E a Timor MEGAtours fez-me a vontade. Em Díli não ficarei muito tempo. Serão duas tardes e uma manhã, ao todo. Hoje é a segunda tarde. Amanhã às 7 da manhã partimos para o Oecusse.

“Sem o filme do massacre de Santa Cruz, a situação de Timor-Leste nunca teria atingido a proporção que atingiu a nível internacional” – diz Arnold Kohen, ativista Pró-Timor, sobre o filme de Max Stahl. Este filme do jornalista Max Stahl correu o mundo inteiro, e certamente apenas as gerações mais novas não o terão visto. Nunca é demais recordar, pelo que deixo o link para o vídeo de cinco minutos disponível na RTP Arquivo:
https://arquivos.rtp.pt/conteudos/1991-massacre-de-santa-cruz/

Arnold Kohen refere ainda dois outros vídeos, dos jornalistas portugueses Adelino Gomes e Rui Araújo, pelo seu impacto em Portugal. A reportagem de Rui Araújo, feita na ilha de Ataúro em 1983, com a duração de 30 minutos, já a vimos na crónica 63. Deixo novamente o link:
https://arquivos.rtp.pt/conteudos/timor-timur-parte-i/

Relativamente ao vídeo do jornalista Adelino Gomes, feito em Outubro de 1975, e com a duração de 4,27 minutos, deixo agora o link também. Apesar do vídeo não estar relacionado diretamente com o Massacre de Santa Cruz, efetivamente revela o início de todos os acontecimentos. O vídeo tem alguns cortes, e mostra a cidade de Díli em 1975, dois meses antes da invasão pela Indonésia.

Deixo uma breve introdução, para que o vídeo possa ser compreendido rapidamente:
Aquando da revolução do 25 de Abril 1974, em Portugal, surgiram em Timor alguns partidos políticos para a disputa das primeiras eleições livres. Os três principais eram:

  • Fretilin (Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente, que como o nome indica, preconizava a independência imediata de Timor-Leste);
  • UDT (União Democrática Timorense, que nesta primeira fase defendia a autoderminação orientada para uma federação com Portugal);
  • E a Apodeti (Associação Popular Democrática de Timor, a favor da integração na Indonésia).

A crónica do jornalista Adelino Gomes mostra Díli em Outubro de 1975, após os conflitos entre estes três partidos na luta pelo poder: nas eleições municipais realizadas em meados de 1975, os candidatos da Fretilin ganharam mais de 55% dos votos. Em segundo lugar ficou a UDT, e em terceiro a Apodeti. O resultado da eleição foi contestado pelos partidos derrotados, que imediatamente entraram em conflito contra o partido vencedor. O conflito arrastou-se desde agosto e durou até dezembro de 1975, com a Fretilin capturando ou expulsando todos os opositores do território. Durante estes conflitos constituiu-se o braço armado do partido, as Forças Armadas de Libertação Nacional de Timor-Leste (FALINTIL), que anos mais tarde, após a independência da Indonésia, tornar-se-ia a base das Forças de Defesa de Timor-Leste.

Segue o link do vídeo de Adelino Gomes, com as imagens de Díli:
https://arquivos.rtp.pt/conteudos/cronica-de-Díli/

Um mês depois destas filmagens, em novembro de 1975 Timor-Leste declarou a sua independência de Portugal, e a Fretilin recebeu apoio massivo da população para que assumisse o poder na ilha. A Austrália e a Indonésia acusavam a Fretilin de ser comunista (ou marxista), por ter um programa com fortes tendências coletivistas. Aliado a isto, o nome da Fretilin soava semelhante ao do movimento marxista-leninista Frelimo, que atuava em Moçambique. A desconfiança das principais potências regionais (Austrália e Indonésia) empurrou a Fretilin para o campo marxista – que acabou por apoiar o movimento. A escalada da Guerra Fria levou os Estados Unidos e a Austrália a dar suporte à fatídica invasão e ocupação da Indonésia sobre os territórios de Timor, ocorrida poucos dias depois da proclamação da independência.¹

À memória de Leovigildo de Mascarenhas Inglês e de um seu companheiro d’armas. Oficial do exército português, nasceu em 2.9.1839. Morreu ao serviço da Pátria em 5.11.1912 como Chefe de Estado Maior do Comando Militar de Timor.

À inolvidável memória de Maria da Conceição G. da Costa Mousinho. Nasceu em Torres Novas (Portugal) aos 4 de Fevereiro de 1890. Faleceu em Dilly aos 18 de fevereiro de 1926. Lágrimas sentidas de pungente saudade do seu inconsolável marido e extremosos filhos e paes. R.I.P.
(Recordo que R.I.P. é a sigla para “Requiescat in pace”, expressão em latim que significa “descansa em paz”. Costuma também ser usada em inglês – “Rest in Peace”).

Deixo a nota de que quando comecei a escrever estas crónicas – da minha viagem de bicicleta por Timor – tomei a decisão clara de não enveredar por questões políticas, ou não passar o tempo todo a falar de guerras e ocupações. Afinal de contas trata-se das minhas férias, das crónicas da minha viagem. Não a enciclopédia britânica. E tenho resistido. Cada qual que investigue por si, no caso de não ter acompanhado de perto a História de Timor – da ilha de Timor no geral, ou em particular da RDTL, a República Democrática de Timor-Leste. Mas chegada agora a estas crónicas de Díli, não tive escapatória. Ou pelo menos a curiosidade e o desejo de conhecimento levou-me a ler tudo e mais alguma coisa, e depois apercebo-me que posso partilhar este conhecimento. Enfim, já que andei a estudar mais aprofundadamente a matéria, e parecendo-me tão importante e decisiva na compreensão da história de Timor-Leste, deixei os vídeos e as explicações.

Mas agora volto ao dia de hoje, à minha viagem, ao meu cansaço, que já se faz tarde, e sobretudo ao meu jantar. É que eu almocei um pequeno peixe em Ataúro. Estou esfomeada. Ensonada (já) e esfomeada.
Então o Valério deixou-me às seis da tarde no Hotel Timor, no centro de Díli, onde eu já tinha estado a almoçar na primeira tarde que aqui estive, na capital (crónica 3 – onde é que já vai a crónica 3…). Ora o elegante Hotel Timor – ou as elegantes senhoras que atendem no Hotel Timor – olharam para o ouriço salgado e desgrenhado que lhes entrou pelo restaurante adentro, às seis da tarde, para jantar. Eu não estava consciente de que me tinha transformado num ouriço, entretanto, em Ataúro. E lembrei-me que nem tomei um banho decente, na véspera, depois de mergulhar nas profundezas, no meio dos belíssimos corais e peixes coloridos. Estou salgada, transpirada da bicicleta, e com o cabelo muito despenteado e empoeirado. Eu não lavei o cabelo por não ter uma casa de banho decente. Cabelo encaracolado misturado com sal e pó, é na melhor das hipóteses, curioso. Um bicho selvagem. Um ouriço espetado. Dei conta da minha nova encarnação através do olhar das elegantes senhoras do Hotel Timor. Ei-lo, o ouriço desgrenhado, cansado e esfomeado, de calçõezitos, a pedir comida às elegantes senhoras do Hotel Timor. Timorenses, claro. Só faltava atenderem-me pessoas de outra nacionalidade; estou em Timor-Leste, quero ser atendida por timorenses. Então as elegantes senhoras do Hotel Timor, habituadas a receberem a elite num dos melhores restaurantes de Timor inteiro, olharam-me com altivez (eu em pé atrás do balcão, o qual fotografei na crónica 3) e perguntaram-me de onde venho. E se quero comer a estas horas, seis da tarde.
Isto começa bem.
O ouriço desgrenhado encolheu-se um pouco. As senhoras é que mandam nisto, tenho de ter cuidado com elas. Se as senhoras decidem que eu não como, estou tramada.
– Venho de Ataúro, respondi. (Em pé, atrás do balcão).
– Ah, vem de Ataúro… deve estar muito cansada – responderam-me.
Já melhorou um pouco, compreenderam-me.
– Sim, venho de Ataúro e estou muito cansada, corroborei.
– E o que quer comer? – perguntaram-me com altivez.
Ai que isto dito assim já voltou a não soar bem. O ouriço desegrenhado encolheu-se outra vez. Estou prestes a ficar sem jantar, decididamente. O que quero eu comer, perguntam-me elas.
– Há uma lista que eu possa consultar?… – perguntei.
E as senhoras passaram-me uma lista para as mãos.
– Estou com o Eduardo Massa, da Timor MEGAtours, acrescentei, a ver se abona alguma coisa a meu favor, ter uma origem, alguém a acompanhar-me, ouriço desgrenhado e empoeirado, e agora com as pernas todas picadas das melgas. Fui picada enquanto andava a visitar a prisão. Nem quero imaginar estar fechada numa cela daquele tamanho a ser picada pelos mosquitos. Só ser picada com a cela aberta já custa.
E eis que se fez luz. Ao ouvir o nome de “Eduardo Massa” e “Timor MEGAtours” fez-se luz. As senhoras mudaram. Fui imediatamente sentada numa mesa. Uf. Finalmente vou jantar. E escolhi almôndegas, do menu. Vou comer almôndegas com esparguete!! O que seria da minha vida sem esparguete.
O Eduardo Massa convidou-me para jantar, mas não às seis da tarde. Eu não aguento mais tempo – nem a fome, nem o sono. Se tomo um banho e vou dormir digo que é mentira. Venham daí as almôndegas, por favor. O Eduardo terá que desculpar-me.

Eu comia uns quatro pratos destes, mas pronto. Estavam deliciosas, as almôndegas com molho de fricassé. Vou agora tomar um monumental banho na Vila Cardim, e vou dormir que nem uma pedra. Hoje só fiz 12 km de bicicleta, em Ataúro (6 até ao porto, e outros 6 de volta à guesthouse), mas as lides do mar e dos barcos cansam mais do que dez dias de bicicleta.


¹ “Luta pela independência contra Portugal” (s.d.), in “Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente”. Wikipedia. Página consultada a 10 Dezembro 2018,
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Frente_Revolucion%C3%A1ria_de_Timor-Leste_Independente>

069 - 15º Dia, a Caminho do Enclave de Oecusse

Dormi umas belas 8 horas até às 5.45h da manhã, hora a que o despertador tocou. A coisa já está resolvida, já regularizei os sonos de acordo com o fuso horário de Timor-Leste, que tem 8h a mais relativamente a Lisboa. Cumprido o ritual do protetor solar e do anti-mosquitos, seguido pelo pequeno almoço, partimos às 7 da manhã. O Valério veio buscar-me à Vila Cardim, carregámos as bagagens e as bicicletas, e parto para já na pickup para ir buscar o Sanches, o guia da Timor MEGAtours que conhece a parte indonésia da ilha de Timor, e portanto vai connosco para indicar o caminho ao Valério, além de tratar das burocracias da passagem da fronteira. O Valério vai estrear-se também na Indonésia. Eu dissse ao Eduardo Massa, da Timor MEGAtours, que eu o Valério nos haveríamos de desenrascar sozinhos, não têm um GPS? Mas não, a agência quis colocar um guia connosco. A parte das fronteiras, sobretudo, é muito complicada, virei a perceber.

Recordo que me foi dado a escolher entre ficar num hotel (com pequeno almoço incluído) ou num apartamento. Na crónica 4 optei pelo apartamento, devido ao silêncio e tranquilidade. No apartamento não servem refeições, pelo que recorri com prazer aos cereais que trouxe de Lisboa.

Chegada a casa do guia Sanches, o qual irá acompanhar-nos nesta parte da Indonésia.

A mulher do Sanches e o próprio. Às sete e pouco da manhã levam com uma inesperada sessão fotográfica.

O filho do Sanches. Felizmente bem mais bonito do que o pai!

Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações.

Estátua de Nicolau Lobato, nomeado em 1977 Presidente da República Democrática de Timor-Leste, Presidente da Fretilin e Comandante-em-Chefe das Falintil. Morreu no ano seguinte, nos combates contra a invasão indonésia. Tinha então 32 anos de idade. O aeroporto de Díli também tem o seu nome.

Já com o Sanches connosco, dentro da pickup, perguntei ao Valério se não seria oportuno eu ir de bicicleta, nesta bela estrada à beira mar plantada. Aparentemente eles acham que tem muito trânsito. Haviam de andar em Budapeste, Copenhaga, Viena, Lisboa…. para saberem o que é trânsito intenso. Já nem digo Amsterdão, que praticamente tem só vias reservadas para ciclistas. De qualquer forma hoje temos uma restrição de horário: às 17h a fronteira fecha, pelo que temos de despachar-nos. Bom, mas até às 17h ainda farei umas dezenas de quilómetros na bicicleta, e outros tantos na pickup.

Uns poucos metros mais à frente, já na bicicleta, nesta estrada, vou deparar com um cenário horrendo: um leitãozinho atropelado, morto e ensanguentado, enquanto a mãe, rodeada de outros pequenos leitões, lhe toca com o nariz e o lambe. A pequena criatura inanimada e ensanguentada, e a mãe sem o largar. Acelerei e olhei em frente. Nem posso ver isto. Claro que com tantos animais a circularem livremente à beira da estrada, galinhas e porcos sobretudo, isto tem de acontecer.

É “Liquiçá” que se escreve, e é nessa direção que vou. O Valério está na estrada que vira à direita, à minha espera.

Eu estava a fotografar as duas casas, e quando disparei passou o rapaz na bicicleta. Imediatamente desviei a mira para ele, a pedalar. E ele respondeu-me, fez-me adeus.
A casa da esquerda diz “Posto Polícia Nacional de Timor-Leste”.

070 - A Prisão de Ai Pelo

Eles pedalavam a uma velocidade considerável, embalados, e eu, que tinha parado para tirar a fotografia ao rapaz das amêijoas, montei e tive de acelerar consideravelmente para ultrapassá-los. Cumprimentei-os em andamento e mais à frente parei, desmontei, e preparei-me com a máquina fotográfica para apanhá-los, assim que aparecessem na curva. Eles não estavam à espera disto.
A única coisa que posso dizer é que espero andar à velocidade desta senhora, quando eu chegar à sua idade. É que me deram luta para ultrapassá-los.

Relembro que em Timor se conduz pela esquerda. Na crónica 5 já relatei algumas das experiências derivadas desta condução (estranha).

“Vida Diak Petroleo, Lda”. Pelos dados que encontro na internet, só existe aqui no município de Liquiçá. É uma empresa de Timor-Leste¹. Segundo o site da Autoridade Nacional do Petróleo e Minerais de Timor-Leste, a Vida Diak paga uma licença anual de 2.400 dólares². Optou por pagar semestralmente, e vejo uma publicação do “Jornal da República de Timor-Leste”, de agosto de 2018, indicando que esse pagamento semestral foi feito.³
Isto é o que se chama bisbilhotar tudo. Sim senhor, está tudo em ordem, a viagem prossegue.

Contexto Histórico (1ª Fase de Construção)

O edifício conhecido como Prisão do Ai Pelo, que funcionou igualmente como Posto de Comando e Alfândega da antiga administração colonial portuguesa, é um edifício de típica arquitetura colonial, construído entre finais do século XIX e inícios do século XX. Foi provavelmente mandado erigir pelo Governador António Francisco da Costa (1888-89).
A primeira fase de construção data de 1889, altura em que foi construído o edifício principal e provavelmente as casernas adjacentes, que albergavam os militares aí residentes. Construído num estilo neoclássico e pesado, o edifício central funcionava então como posto alfandegário, administrativo, e como prisão.
Em finais do século XIX, Timor vivia uma grave crise económica e política. Desde o tempo do Governador Alfredo de Lacerda Maia (1884-1887), as guerras entre régulos, e entre estes e a administração colonial portuguesa, eram uma constante. Acresce que a prática de contrabando agravava a situação económica, com a venda de produtos locais a ser realizada em Kupang, no Timor holandês, reduzindo a margem de lucro da administração portuguesa.
Para procurar contrariar esta tendência, o governo colonial ordenou a construção de vários postos alfandegários, com o objetivo de melhor fiscalizar o transporte e venda de produtos locais. Para além do Ai Pelo, foram construídas alfândegas em Liquiçá, Maubara, Batugade e Oecusse, a oeste de Díli; e em Manatuto, Baucau e Laga, a leste da capital. A maior parte destas estruturas são ainda hoje visíveis.

Manuel Viegas Carrascalão, Deportado Político Português

Manuel Viegas Carrascalão (pai), nasceu em Portugal em 1901. Tipógrafo de profissão, foi acusado pelo governo português de ser anarco-sindicalista e de conspirar contra as autoridades, sendo preso pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) e torturado.
Deportado para Timor em 1925 ou 1926, veio juntamente com outros opositores ao regime, entre os quais José Ramos Felipe, tio de José Ramos Horta.
Preso no Ai Pelo durante dois anos, aí voltou a ser torturado. Libertado por bom comportamento, foi desterrado para Venilale, onde casou. Como preso político, não podia trabalhar, tendo começado a ensinar a ler e a escrever português, e fazendo ainda pequenos trabalhos como carpinteiro e pedreiro. Como revolucionário, nunca deixou de incutir nas pessoas à sua volta um sentimento anti-regime.
Levado para trabalhar numa fazenda do Estado em Liquiçá (antiga Granja Eduardo Marques, atual Fazenda Algarve), foi juntando dinheiro, tendo acabado proprietário dessa plantação.

Segunda Guerra Mundial e Abandono

Julga-se que em 1939, no seguimento das fortes chuvas que caíram sobre Díli e Liquiçá, que provocaram inundações e perda de vidas humanas e infraestruturas, a prisão do Ai Pelo tenha sido finalmente desativada.
Em Fevereiro de 1942, no contexto da Segunda Guerra Mundial, o Japão invade Timor. Antes, em Dezembro de 1941, forças australianas e holandesas haviam entrado no antigo território português, contra a vontade do Governo da metrópole, e pondo em causa a decisão por este tomada de manter Portugal fora do conflito. Essa decisão terá justificado a ocupação militar japonesa de Timor, a qual aconteceu de forma rápida e em grande escala. A antiga Prisão do Ai Pelo, ou a parte que dela sobreviveu às intempéries de 1939, torna-se então num dos postos de comando do novo ocupante.
Bombardeado por forças australianas ou japonesas e parcialmente destruído, o Ai Pelo não voltaria a ser reconstruído. Em Agosto de 1945, quando a Segunda Guerra Mundial termina e Timor regressa novamente à administração portuguesa, o que resta da antiga cadeia é a imagem de um edifício negro e em ruínas.

Pelo que me explicou o Valério, que fala indonésio (ele teve de aprender na escola a língua indonésia, durante a ocupação, quando era criança – recordo que o português era proibido, e as escolas indonésias não ensinavam o tétum), esta placa – segundo a data que lá está, é de 1992 – indica que é um monumento histórico protegido. Ou seja, durante a ocupação a Indonésia colocou aqui esta placa indicando que considerava estas ruínas um monumento histórico. É uma preocupação curiosa, e pelo que me contam houve vários monumentos protegidos pela Indonésia, durante a ocupação. Vamos já embora daqui, senão ainda temos dez páginas de análise sobre esta curiosa preocupação, na altura da ocupação (e destruição). Hoje esta placa tornou-se ela própria um monumento histórico.

Todas as restantes placas, que li com atenção, colocadas pelo Ministério do Turismo, Arte e Cultura de Timor-Leste, deixo para vocês lerem, quando vierem aqui passar férias. (Não posso mostrar tudo, senão ninguém quer cá vir por já ter visto tudo!!)


¹ “Vida Diak Petroleo, Lda”. Timor-Leste eProcurement Portal. Página consultada a 12 Dezembro 2018,
<http://www.eprocurement.gov.tl/vendors/show/5230;jsessionid=11CAC988E227071C3106F2C1B7A59109>

² “2016 – Received Licensing Fee – Fuel Filling Station” (2017, 6 Junho). Autoridade Nacional do Petróleo e Minerais de Timor-Leste. Página consultada a 12 Dezembro 2018,
<http://www.anpm.tl/annual-payment-fee/>

³ “Anunsiu Publico No. T/PRAC/2018/12 – Taxa Selu ba Atividade – Vida Diak Petroleo, Lda”. Jornal da República de Timor-Leste, 2018, Série II, Nº 31. Documento consultado a 12 Dezembro 2018,
<http://www.mj.gov.tl/jornal/public/docs/2018/serie_2/SERIE_II_NO_31.pdf>

071 - A Igreja do Massacre de Liquiçá

Continuando o tema das milícias, iniciado na crónica 67.
O Presidente da Indonésia, Habibie, num programa de democratização geral, realizou um referendo em Timor-Leste, a 30 de Agosto de 1999,  no qual foi dado aos timorenses o poder de escolha de uma maior autonomia dentro da Indonésia ou a independência. Ou seja, o objetivo era determinar se Timor-Leste permaneceria parte da Indonésia como uma Região Autónoma Especial, ou se separaria daquela e se tornaria independente. O referendo foi organizado e monitorizado pela Missão das Nações Unidas em Timor-Leste (UNAMET) e 450.000 pessoas estavam aptas a votar, incluindo 13.000 timorenses fora dos limites territoriais do Timor-Leste.¹

Desde o início dos anos 1990, uma lei indonésia aprovava milícias que “defendessem” os interesses da nação em Timor-Leste. O exército indonésio treinou e equipou diversas milícias, que serviram de ameaça contra o povo durante o referendo. Apesar das ameaças, mais de 98% da população timorense foi às urnas no dia 30 de agosto de 1999 para votar na consulta popular.

As milícias, protegidas pelo exército indonésio, desencadearam uma onda de violência antes da proclamação dos resultados. Homens armados mataram nas ruas todas as pessoas suspeitas de terem votado pela independência. Milhares de pessoas foram separadas das famílias e colocadas à força em camiões, cujo destino ainda hoje é desconhecido (muitas levadas para Kupang, no outro lado da ilha de Timor, pertencente à Indonésia). A população começou a fugir para as montanhas e a buscar refúgio em edifícios de organizações internacionais e nas igrejas. Os estrangeiros foram evacuados, deixando Timor entregue à violência dos militares e das milícias indonésios.²

No dia 4 de Setembro de 1999 foram anunciados os resultados. O “sim” à independência ganha com 78,5%. Não há festa nas ruas, porque muitos timorenses já se tinham refugiado nas montanhas logo no dia da votação. De imediato começa a campanha de violência organizada em larga escala pelos militares indonésios em articulação com as milícias armadas. As casas e a sede da Missão de Observação Portuguesa em Timor-Leste (MOPTL) são atacadas. Depois dum cerco à missão por milícias armadas, cerca de 30 portugueses e 60 timorenses obtêm refúgio na sede da UNAMET (Missão das Nações Unidas em Timor-Leste).³
A polícia e o exército não tomaram qualquer iniciativa para parar os ataques das milícias, chegando nalguns casos a juntar-se a elas.⁴

Conforme referido na crónica 67, estas milícias surgiram em finais de Janeiro de 1999, depois do Presidente indonésio Habibie ter anunciado que daria a Timor-Leste a opção de escolher a autonomia sob soberania indonésia, ou a sua separação da Indonésia. Era uma rede de treze milícias regionais. Os treze grupos de milícias eram chefiados por timorenses conhecidos pela sua colaboração com o exército indonésio. Alguns surgiram nos anos 1970, após a invasão indonésia, mas uma das três piores – Besi Merah Putih (em Liquiçá) – foi criada em 1999. A campanha de intimidação e de terror das milícias parece ter chegado ao seu auge em Abril, quando esta milícia massacrou cerca de quarenta e cinco refugiados no interior desta igreja em Liquiçá, tendo depois saqueado casas e escritórios de alegados apoiantes da independência em Díli. Ninguém foi preso por causa das barbáries, apesar dos seus promotores serem sobejamente conhecidos.

A violência das milícias continuou durante todo o mês de Julho, tendo culminado num ataque a um comboio de víveres para refugiados de uma ONG. (Por esta altura, cerca de 40.000 pessoas tinham sido deslocadas por causa da violência das milícias). A indignação internacional levou à prisão de sete jovens suspeitos, nenhum dos quais responsável pela organização do ataque, e a uma diminuição dos atos de terror da milícia nas semanas seguintes. Uma nova vaga de violência começou após a abertura, em Julho, dos centros de recenseamento para registar os eleitores para a consulta popular sobre a autonomia/independência.
Dois meses depois, no sábado de manhã, 4 de Setembro, quando foram anunciados os resultados do referendo, as milícias iniciaram o que parecia ser uma ofensiva planeada e coordenada por todo o território, mas sobretudo em Díli e nas regiões ocidentais, nomeadamente Liquiçá, Bobonaro, Suai e Ermera. Qualquer timorense associado de alguma maneira à Missão da ONU em Timor-Leste, denominada UNAMET, era atacado. Foram igualmente atacados os jornalistas estrangeiros e indonésios alegadamente simpatizantes do movimento independentista e os escritórios e as casas de apoiantes pró-independência. Houve ataques à residência de D. Ximenes Belo e à Diocese de Díli. Milhares de deslocados foram atacados nos seus locais de refúgio e alguns milhares terão sido deportados para Timor Ocidental.⁴

Estão a ensaiar cânticos. Fiquei a ouvi-los durante alguns minutos, em pé, à porta.


¹ “Referendo de independência de Timor-Leste de 1999” (s.d.). Wikipedia. Página consultada a 13 dezembro 2018,
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Referendo_de_independ%C3%AAncia_de_Timor-Leste_de_1999>

² “História – Invasão Indonésia” (s.d.) in “Timor-Leste”. Wikipedia. Página consultada a 13 dezembro 2018,
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Timor-Leste>

³ Alvarez, Luciano (2017, 7 Junho) “Cronologia dos tempos da brasa em Timor”. Jornal Público. Página consultada a 13 dezembro 2018,
<https://www.publico.pt/2017/06/07/politica/noticia/cronologia-dos-tempos-da-brasa-em-timor-1774940>

⁴ “Questões e Respostas sobre Timor-Leste” (s.d.) Human Rights Watch (HRW). Página consultada a 13 Dezembro 2018,
<https://www.hrw.org/legacy/portuguese/press/1999/timor-bck0908-por.htm>

072 - Alternando de Bicicleta e de Carro

Senti-me tentada a saltar a vedação e dar a volta à lagoa na bicicleta. O pior é passar a bicicleta. Teria de telefonar ao Valério, para ele voltar para trás e ajudar-me. Mas o placard a avisar da presença de crocodilos acabou por dissuadir-me.

Esta cabana está um pouco afastada da estrada, talvez a duzentos metros. Foram os habituais berros das crianças que me chamaram à atenção: “Malai! Malai!” – gritaram. (Lembro que “malai” significa “estrangeira”). Quando eu travei, voltei para trás, e fui ver o que se passava, eles fugiram a rir-se.

O Forte de Maubara, construído pelos holandeses em 1756 dado que nessa altura Maubara era um enclave holandês no território português de Timor. No Tratado de Lisboa, assinado em 1859 entre Portugal e Holanda, os holandeses cederam o reino de Maubara a Portugal, em troca de possessões na ilha de Flores. O Liurai de Maubara (ou seja, o líder timorense) não aceitou bom grado esta transferência de poder, e provocou uma rebelião contra os portugueses. Foi com a ajuda de outros Liurais leais aos portugueses que acabou por ser vencido. O mesmo sucedeu poucos anos depois, desta vez pela etnia Kemak, que se rebelou contra o colono português. Os conflitos foram sangrentos, com 15 aldeias tomadas e queimadas. E novamente em 1893, altura em que o Liurai atacou dois postos militares portugueses em Dato e Vatuboro e tentou recuperar os holandeses como potência protetora.¹ Maubara deu luta, portanto.

São dez e meia da manhã e tenho 38 km na bicicleta. O Valério espera por mim aqui, e sugere-me que eu passe para a pickup, durante alguns quilómetros, indicando que a estrada vai ser má e que vai ter algumas subidas. Temos a pressão do horário – há uma fronteira a passar hoje, a qual fecha às 17h, e temos de despachar-nos. Acedi.

De volta à bicicleta.


¹ “Maubara” (s.d.). Wikipedia. Página consultada a 16 Dezembro 2018,
<https://de.wikipedia.org/wiki/Maubara>

073 - Almoço nos Barbecues da Praia

É meio dia e tenho 50 km feitos na bicicleta. Vejo a pickup do Valério lá ao fundo, à minha espera. Não gosto, neste caso é mau sinal. Eles – o Valério e o Sanches – querem que eu passe para a pickup, para irmos mais depressa, pois temos duas fronteiras para passar. Temos de sair de Timor-Leste e fazer uns quilómetros dentro da Indonésia, até entrar novamente em Timor-Leste, no enclave do Oecusse. São duas fronteiras, e a última fecha às 17h. Isto das fronteiras fecharem é um stress. Ainda vamos ter de acampar algures, se não conseguirmos chegar a horas. Fiz-lhes a vontade, reticente. Logo agora que tenho umas estradas tão boas, a direito. E houve uma subida em que o Valério me empurrou, para acelerarmos. Parecia uma criança a ser empurrada no triciclo! 🙂

Já dentro da pickup. Os restaurantes à frente, à beira mar, onde vamos almoçar.

Chama-se Lina e fala português, inglês, tétum e uma quarta língua que só percebi “kema”. Não encontro nada parecido, nas 15 ou 16 línguas faladas em Timor-Leste. Vejo que em Liquiçá se fala “tocodede”, mas isto não me parece nada semelhante a “kema”. Bom, fala quatro línguas, é o que interessa.

Arroz embrulhado em folha de coqueiro. Muito bom, é feito com leite de coco e açafrão, e é uma especialidade timorense chamada “Catupa” ou “Katupa”. Vejo que a Timor MEGAtours tem um percurso dedicado à gastronomia de Timor-Leste, neste link, onde refere também a catupa.
Por seu turno, o peixe chama-se em tétum “combom”; pelo menos assim percebi.

Tenho a confessar que ainda fiz uma birra, antes de almoçar, porque o novo guia que nos acompanha, o Sanches, disse que só iríamos almoçar cerca das duas da tarde. Era quando haveriam restaurantes. Então eu tratei de comer bananas e bolachas para aguentar mais duas horas. Afinal ao meio dia paramos aqui. Resultado, eu tenho a barriga cheia de bananas e bolachas. Como é que querem que eu almoce agora?, perguntei. E ainda estivemos todos indecisos sobre o que fazer. O Valério foi buscar uma caixinha de plástico para guardar o peixe e levarmos connosco. Enfim. Entretanto o peixe ainda levou algum tempo a assar, eu fui passear pela praia, tirei algumas fotografias, fiquei um pouco mais calma e decidi sentar-me e comer o que conseguisse. O Valério foi-me passando pedaços de peixe, que rapidamente iam desaparecendo do prato. Cada um que desaparece, aparece outro. Pareço um gato, mas pronto. O Sanches ainda não percebe nada destas lides ciclísticas e alimentares, coitado. É o seu primeiro dia connosco. Ainda fica muito espantado a ver a bicicleta a entrar e sair da pickup várias vezes, conforme é necessário, e eu a resistir a largá-la. “Há subidas” – diz o Valério. E eu largo logo a bicicleta.

Experimentei hoje a cerveja indonésia que se bebe por aqui. Não sou boa avaliadora porque efetivamente não ligo a cerveja. Só misturada com um refrigerante gaseificado de lima-limão, ou então melhor ainda, com groselha. Portanto não gostei. O que é normal, deve ser boa, portanto. E não estava fria. Não há frigoríficos aqui.

074 - A Demorada Passagem da Fronteira para a Indonésia

Hora e meia.
Uma hora e meia à espera que todas as autorizações fossem dadas, para sairmos de Timor-Leste e entrarmos na parte indonésia da ilha de Timor. E ao que parece foi preciso pagar qualquer coisa a mais. Já não estou habituada a isto. Eu ando na Europa livremente. Como é que numa ilhazita minúscula como esta é este atrofio? Só há dois países e estão fechados numa ilha! Se fosse a chegada dum barco do estrangeiro, ainda vá. Agora as fronteiras terrestres dentro duma ilha minúscula que eu corro de uma ponta à outra em bicicleta?

Ainda por cima a fronteira fecha para almoço entre as 12 e as 14h. (Soltei uma gargalhada). Está toda a gente à espera que os agentes voltem de almoço. Nós esperámos uns vinte minutos, dado que chegámos já perto das 14h.

Estamos na fronteira de Mota-Ain, a três quilómetros de Batugade e a 115 km de Díli.

Bom, eu aproveitei os vinte minutos para meter-me com as pessoas. Não têm para onde fugir, coitadas, é sempre a altura ideal para meter-me com elas. Sentei-me ao lado deste rapaz, como quem não quer nada, e disse-lhe olá. Muito bem cheiroso, muito perfumado. E eu cheia de terra e pó, da bicicleta. Estou em desvantagem. Então ele é professor de Farmácia na Universidade de Díli. Falou em inglês comigo. Vai passar uns dias de férias a Atambua, na parte indonésia da ilha de Timor. Temos aqui um professor universitário muito bem cheiroso, portanto.

Este senhor chama-se José Gusmão e disse-me que é primo do Xanana Gusmão. Os pais de ambos são primos, especificou. E mostrou-me uma foto em que ele está junto do Xanana Gusmão. É uma honra estar perto do Xanana Gusmão, seja primo ou não, é bom que estime a foto. O rapaz da foto anterior é seu sobrinho. Ai que o professor estava a ser controlado pelo tio, teve de portar-se bem. Então este senhor chamado José Gusmão falou em português comigo e contou-me que esteve em Portugal em 2011, nomeadamente em Lisboa, Porto e Leiria. A filha tirou Comunicação Social em Leiria, e agora trabalha em Timor (disse-me a empresa, mas não percebi o nome). Ele e o sobrinho vão passear a Atambua e voltam amanhã. Também é professor em Díli, e disse-me o nome da escola, mas não percebi também.
Entretanto a fronteira abriu e fomos todos embora, despachar-nos. Mal sabia eu a complicação que ainda iria ser.

Já saímos de Timor-Leste. E para entrarmos na Indonésia é preciso obter a aprovação de quatro capelinhas: alfândega, militar, imigração e polícia. Todos eles querem papéis, pagamentos e vistos. Eu sentei-me e esperei. Fui tirando umas fotos enquanto o Sanches e o Valério corriam que nem umas baratas tontas entre todas as capelinhas, a mostrar a papelada e a pagar o que fosse preciso. Não se trata de tudo no mesmo sítio. Há mesmo capelinhas separadas e às vezes distantes umas das outras. É preciso estar em boa forma física para este exercício. Eu até posso emprestar-lhes as minhas bicicletas.

Hora e meia depois aqui estamos nós na parte indonésia de Timor. Vamos em direção a Atambua. As placas aqui são curiosas: a mota vai em direção a Atapupu, e nós não vamos por esta estrada. Nós vamos por outra que está antes da casa verde. Se nos metermos por esta estrada vamos dar erradamente a Atapupu. Portanto nos cruzamentos é preciso olhar para longe, para as placas que já estão nas estradas erradas e não virar para elas.

As bandeiras coloridas celebram a Declaração da Independência da Indonésia, a 17 de Agosto de 1945. Hoje é sábado, 4 de Agosto de 2018.

Aparentemente já serão preparativos para a festa que se avizinha.

075 - Um Furo!!

Chegámos à fronteira às 16.40h. Recordo que fecha às 17h. O Valério conduziu como na Fórmula 1. Fomos a acelerar loucamente e conseguimos chegar vinte minutos antes de fechar. Estamos na fronteira de Wini.

Vejo na sua farda as siglas DJBC, no ombro. Fazendo pesquisa na internet encontro “Direktorat Jenderal Bea Cukai”, em língua indonésia,  o que significa, segundo o Google Translator, Direção Geral das Alfândegas e Impostos Especiais.

O Benediktus é da Imigração. São as únicas coisas que consigo ler. “Imigrasi”, diz no seu peito.

Há uma multidão a querer passar a fronteira para entrar no enclave do Oecusse, como se pode ver na foto. Mas também são quase 17h, a fronteira vai fechar. Quem queria passar, já passou.

Depois de muitos carimbos, vamos para a última etapa da fronteira indonésia.

Na farda indica “TNI”, ou seja, Tentara Nasional Indonesia – Exército Nacional Indonésio. Metem-me medo, estes TNI, e o seu aterrorizante passado no tempo da ocupação indonésia de Timor-Leste. Mas este militar ainda usava fraldas, nesse tempo.

Agora é a fronteira de Timor-Leste. Já saímos da Indonésia, vamos entrar no enclave do Oecusse, pertencente a Timor-Leste. Oecusse também se pode dizer Oecussi, ou ainda Oecusse-Ambeno, ou Oecussi-Ambeno.

E é a partir da fronteira de Timor-Leste que eu quero fazer os primeiros quilómetros de bicicleta. Acabou-se o stress dos horários e das fronteiras. Irei atrás da pickup até ao hotel.

Mas não vou.
A bicicleta tem o pneu de trás vazio. Curiosamente eu ouvi um estrondo pouco depois de sair de Díli. Foi o primeiro de vários furos. O pneu tem vários furos, já nem enche. O que é muito estranho porque eu tinha câmeras de ar de gel, ou seja, daquelas que quando há um furo, elas fecham automaticamente.
O que aconteceu então? Em Díli a bicicleta foi para revisão, e na oficina do Benfica o mecânico fez o favor de trocar o pneu de trás sem avisar ninguém. Pior: trocou por um pneu normal, sem gel. Eu fiquei possessa. Absolutamente possessa. Estou prestes a pegar numa arma, no meio destas fardas todas,  e dar um tiro ao mecânico em Díli. Ou a esta distância talvez seja melhor um míssil. Eu estou com 430 km de bicicleta feitos até agora, a maior das vezes em terrenos duríssimos. E ele tira-me o pneu de gel. Eu nem dei conta, até agora, que até a jante é outra. Tive de ir ver nas fotos tiradas nos dias anteriores, para comparar. Efetivamente são bastante diferentes.

Agora a prioridade é arranjar a bicicleta. Eu até podia ir a pedalar na bicicleta suplente, mas não há tempo para isso. Temos que ir para a cidade procurar uma oficina, antes que fechem, pois está a anoitecer. E pneus de gel é para esquecer. Vamos ter que andar preparados para os restantes furos que virei a ter no resto da viagem.

Eu nem tirei mais fotos a coisíssima nenhuma a não ser oficinas. A minha entrada na capital do Oecusse, que se chama Pante Macassar, onde pernoitarei, foi em busca de oficinas. Quero lá saber das paisagens. O Sanches ainda tentou acalmar-me, disse para irmos para o hotel, e que depois logo resolveríamos o furo a seguir. Eu respondi-lhe, a deitar faíscas pelos olhos, que nem que tenha de dormir aqui no chão, não saio daqui enquanto a bicicleta não estiver arranjada. Esta foto foi tirada no mercado. Nem fotografei o mercado, só fotografei a oficina que existe ao lado do mercado.
E tivemos mesmo de sair, porém, pois nesta oficina só arranjam motas.
Por esta altura o Sanches ligou ao mecânico, a perguntar-lhe o que se passou. E passaram-me o telefone. Ouvi um pedido de desculpas, do outro lado, e eu não disse nada. Eu nem consegui dizer nada. Se dissesse, porventura diria alguma palavra muito feia, pelo que optei por ficar em silêncio e passei novamente o telefone ao Sanches. As faíscas dos meus olhos estão a incendiar tudo à minha volta, como naqueles filmes de ficção científica.

Finalmente encontrámos uma oficina que arranja bicicletas. Mas não vai ser feito arranjo nenhum. Nem sei porquê. Acho que é por ter tantos furos, isto já não tem solução. Para desenrascar optou-se por colocar a jante e o pneu da bicicleta suplente na minha. É que a bicicleta suplente não tem nem metade da qualidade da minha (que não é minha, é alugada). Andar no terreno pedregoso de Timor com a bicicleta suplente havia de ser lindo. Essa bicicleta é para passear na vila, não para fazer centenas de quilómetros. Ainda me faltam centenas de quilómetros até ao fim desta viagem.
Mas fiquei portanto com a bicicleta a andar, remediada provisoriamente. O mecânico em Díli vai enviar-nos um pneu novo, por avião, assim ficou decidido.
Mal sei eu, por esta altura, as consequências nefastas que esta história do pneu irá ter nos próximos dias. Mais vale manter-me na ignorância, por enquanto. Segue, Rute, segue. Guarda as faíscas. Devia era tê-las usado para matar as melgas que me picaram todo o tempo em que estive na oficina.

Segue o resumo de quilómetros feitos até agora. São 26 dias de viagem, hoje vou no 15º:

4º dia
Díli – Manatuto – Baucau
38 km na bicicleta
86 km na pickup
124 km no total

5º dia
Baucau – Com
47 km na bicicleta
43 km na pickup
90 km no total

6º dia
Com – Lospalos – Tutuala
59 km na bicicleta
10 km na pickup
69 km no total

7º dia
Ilha de Jaco
16 km na pickup
Não houve bicicleta

8º dia
Tutuala – Lospalos
35 km na bicicleta
Não andei na pickup.

9º dia
Lospalos – Loré – Lospalos
20 km na bicicleta
86 km na pickup
106 km no total

10º dia
Lospalos – Viqueque
27 km na bicicleta
108 km na pickup
135 km no total

11º dia
Viqueque – Same – Ramelau
54 km bicicleta
114 km na pickup
168 km no total

12º dia
Subida a pé do Ramelau. Descida de bicicleta até Alieu – Díli.
58 km na bicicleta
19 km na pickup
77 km no total

13º dia
Ilha de Ataúro
23,6 km na bicicleta
A pickup não foi para Ataúro. 6 km num tuk tuk.

14º dia
Ataúro – Díli
12 km na bicicleta.
6 km num tuk tuk.
Pequeno passeio em Díli na pickup, km não contabilizados.

15º dia
Díli – Oecusse
56 km bicicleta
82 km na pickup
138 km no total

Ao 15º dia tenho portanto 430 km na bicicleta, e 564 na pickup, num total de 994 km feitos. Não estou a contar os 12 km de tuk tuk em Ataúro. Se os incluir, então terei 1.006 km feitos. Como se pode verificar, os percursos diários de bicicleta são relativamente pequenos. Nem dão para cansar. Na viagem à Europa Central os percursos diários, com boas estradas sempre a direito, eram bastante maiores. Mesmo na China cheguei a ultrapassar os cem quilómetros diários. O objetivo nesta viagem a Timor é conhecer a ilha praticamente toda, pelo que também não posso alongar-me na bicicleta, temos que despachar-nos, e então passo para a pickup. Senão estas férias, conforme já comentei noutra crónica, em vez de 26 teriam 260 dias.

076 - Anoitecer e Amanhecer no Oecusse

De volta à minha bicicleta – que já anda – retomei as fotos. Tenho que acalmar-me. Já tens a tua bicicleta, Rute, tem calma. Com o pneu da outra bicicleta, mas tens. Tira lá umas fotozinhas em Pante Macassar. Vê lá o que se passa por aqui.
Bom, esta rapariga tem uma grande moto!!

Cheguei à pousada, às 19.15h, toda picada das melgas. Tenho que tomar banho e renovar o repelente de insetos com urgência. O meu problema não são as melgas, o meu problema é a ameaça da malária. Se as melgas me picam, o bastardo do mosquito da malária também pode picar-me.

Este restaurante está a uns 500 metros da pousada, e eu fui na bicicleta atrás da pickup. Não sabia que era tão perto, isto quase mais valia irmos os três a pé. O Sanches ainda se sentou comigo à mesa, para fazer companhia, mas ele não quer comer nada. Calculo que este restaurante seja para os turistas. O pessoal da agência de viagens irá provavelmente a outro mais típico (este é português) e com certeza mais barato. O Valério tem sempre comido comigo, e efetivamente comemos quase sempre a mesma coisa, conforme já comentei noutra crónica, mas agora já são duas pessoas, e ainda por cima este restaurante é caro. Para os padrões portugueses talvez não seja, mas tendo em conta os restantes restaurantes timorenses onde temos comido, este é caro. Então o Sanches sentou-se à mesa comigo só para fazer-me companhia, sem fome para jantar. Alguma vez. Não é a minha onda. Coitado do Sanches, está a fazer tudo corretamente, como está habituado em trabalho (ainda por cima é o número 2 da Timor MEGAtours, ou seja, quando o boss está fora, é ele que assume). Também me abre e fecha a porta da pickup, quando eu entro e saio. Ai. Isto vai acabar. Não é a minha onda, caríssimo e educadíssimo Sanches. Durante o dia, eu toda empoeirada e transpirada da bicicleta, e ele abre-me a porta. É o número 2 da Timor MEGAtours e faz tudo esmeradamente aos seus ilustres clientes. Mas eu não sou uma velhinha de 90 anos, vinda do palácio real… Eu não quero companhia para jantar, assim alguém a olhar para mim, nem quero que me abram a porta da pickup. O Sanches riu-se e foi-se embora. Terá ido jantar com o Valério algures, ou pelo menos fazer-lhe companhia a ele.
Neste restaurante estavam dois grupos de portugueses. Cumprimentámo-nos. E nada mais. Podia esperar-se uma grande festa ao ver-se compatriotas aqui, mas não, parece que é normal haverem portugueses, ninguém se liga. Em 15 dias eu só vi um casal de portugueses no barco de Ataúro, mas pronto, aqui no Oecusse há muitos mais, pelos vistos.

O que seria da minha vida sem esparguete. Qualquer oportunidade de comer esparguete é bem vinda. Estava tudo delicioso, e o doce de natas a seguir, maravilhoso.

Alvorada na pousada! São seis e pouco da manhã. Mas estes já acordaram há muito mais tempo do que eu. O cantorio começa noite cerrada. Agora ainda é noite cerrada também. Enfim, seriam umas 4 quando começou o cantorio. O galo, agora, ao fotografá-lo, cantou orgulhosamente, à minha aproximação. Também houve cantorio no meu quarto, esta noite. Um amigo toké resolveu dar o ar da sua graça. Mas eu já comecei a ganhar experiência: Xiu! – ordenei-lhe. E ele calou-se, coitadinho. (Quem chegou agora às crónicas e não sabe o que é um “toké”, o lagarto-cantor, remeto para a crónica 30). O que me preocupou mais foi ouvir de vez em quando qualquer coisa a silvar. Fsst! Parece uma cobra a silvar. Mas tenho uma cobra no quarto a silvar? Enfim, o sono é o melhor remédio para muitas coisas, e deixei a cobra a silvar e adormeci. Desde que não suba para a minha cama… siga lá a sua vida. Só de manhã descobri que é um spray na parede, ligado à eletricidade. Nem sei para o que é, se um anti-mosquitos, se um perfumador.

Ontem antes de nos deitarmos, estivemos os três – Valério, Sanches e eu – a delinear o percurso para o dia de hoje, com o mapa aberto no chão e nós sentados nos degraus da pousada. Vamos fazer 72 km pelo Oecusse em direção a Kefa, no Timor indonésio. Mas não. Afinal não pode ser porque o mecânico de Díli vai enviar-nos um novo pneu de gel para a bicicleta. Por avião. Hoje é domingo, o avião chega na manhã de 2ª feira. Vem de Díli. E não há avião ao domingo. Temos de passar o domingo aqui. Também pode ser enviado por autocarro para Kefa, ou mesmo Kupang, onde é suposto estarmos na 2ª feira. Mas o mecânico tem medo que o pneu se extravie no autocarro. Tem de vir por avião. A questão é que eu vou no 15º dia da viagem. Para cumprir o programa e conseguir ver tudo a que me propus, não posso perder um dia assim, sem mais nem menos, à espera de um avião. No entanto, eu anulei um dia em Díli, quando lá estive. Não quis ficar mais tempo na cidade, quis partir para o interior, pelo que ganhámos assim um dia. Bom, está decidido, passamos então o domingo por aqui, amanhã de manhã recebemos o pneu, e partimos então para Kefamenanu.

Têm duas cozinhas. Está visto que custam a largar a antiga. Agora que a malai anda aqui a tirar fotos, convém ir para a nova… O pequeno almoço está marcado para as 6.45h, mas a esta hora a menina ainda está a descascar as batatas.

Continua a não haver nada para barrar o pão. Se não fosse a nossa manteiga de amendoim, que viaja connosco, estávamos tramados.

077 - 16º Dia, Oecussi-Ambeno, Enclave Timorense no Território Indonésio

Partimos às 7.45h. Hoje levamos um guia local connosco, chamado Ego, o qual irá aparecer nas fotos mais à frente. Vou dar um passeio de bicicleta pelo Oecusse, irei visitar uma aldeia remota e ver e ouvir a sua música tradicional, e regressaremos à noite a esta mesma pousada. Ao final da tarde poderei fazer um pouco de praia, se houver tempo e se me apetecer.

Hoje é domingo, dia de missa. Há uma multidão a caminhar pelas ruas em direção à igreja. Todos bonitos e perfumados.

Que linhas faciais belíssimas tem este garoto ao centro. Quando crescer, se mantiver os traços, bem que poderá ser o próximo top-model timorense.

Os também bonitos rapazes do Oecusse. Adolescentes. São iguais em qualquer parte do mundo, os rapazes adolescentes. Sejam timorenses, portugueses ou australianos, estão na idade parva, mas pronto. É próprio e a gente acha graça. Tirar-lhes esta foto foi um sarilho, exigiu algumas tentativas e anulações.

Isto parece um desfile de moda, não me canso de fotografar as pessoas.

Saio do centro da cidade, Pante Macassar, e prossigo viagem. O Valério, o Sanches e o Ego vão mais à frente, como é hábito. As estradas por enquanto são boas.

De acordo com o site do Governo de Timor-Leste:
Oecussi-Ambeno foi o primeiro ponto da ilha de Timor em que os portugueses se estabeleceram, pelo que é usualmente considerado o berço de Timor-Leste. Em 1556, um grupo de frades dominicanos estabeleceu o primeiro povoado em Lifau, a meia dúzia de quilómetros a oeste de Pante Macassar. Em 1702, Lifau tornou-se capital da colónia ao receber o primeiro governador enviado por Lisboa, estatuto que manteve até 1767, quando os portugueses decidiram transferir a capital para Díli, como resultado das frequentes incursões das forças holandesas. Será só em 1859, com o Tratado de Lisboa, que Portugal e Países Baixos dividiram a ilha entre si: Timor Ocidental para os holandeses, com sede em Kupang, e Timor-Leste para os portugueses, com sede em Díli, reconhecendo Oecussi-Ambeno como um enclave português no espaço holandês.
A invasão indonésia do até então Timor Português ocorreu em Oecussi uma semana antes de no resto do território – foi em 29 de Novembro de 1975 que Pante Macassar foi ocupada pela quinta coluna do exército indonésio. Contudo, mesmo sob ocupação indonésia, Oecussi-Ambeno continuou a ser administrado como parte da província de Timor Timur (a designação de Timor-Leste na língua indonésia), tal como sucedia no tempo dos portugueses. Por conseguinte, aquando do reconhecimento da independência de Timor-Leste, em 2002, Oecussi-Ambeno permaneceu naturalmente parte integrante da nação Timorense. Para além das línguas oficiais do país, o tétum e o português, no distrito de Oecussi-Ambeno grande parte da população expressa-se em baiqueno.¹

E veja-se esta notícia de 2015:
Isolado durante os últimos cinco séculos e praticamente esquecido, quer durante a ocupação indonésia, quer durante o período da independência, Oecusse está hoje a viver um movimento sem precedentes. Dezenas de empresas trabalham no terreno, inúmeros projetos estão a ser feitos ao mesmo tempo, o número de estrangeiros é o mais elevado em muitos anos – só portugueses são cerca de 50 – e uma fatia significativa do Orçamento do Estado está canalizado para a região.
Lojas, casas, pequenos negócios que mostram uma comunidade de 70 mil habitantes (na capital são cerca de 10 mil) [atualmente, em 2018, andam pelas 12 mil] a despertar depois de uma letargia provocada pelo abandono e esquecimento.
As ligações regulares por mar (e desde 2015 por ar) evidenciam o crescente interesse do enclave, com cada vez mais passageiros e cada vez mais negócios, procurando responder a uma procura também sem precedentes. A procura é tanta que o pequeno mercado, que não estava minimamente preparado para este furacão de obras, muitas vezes sente carências, inclusive de produtos essenciais como cimento ou outro material de construção.
Transportar coisas de Díli é caríssimo – um contentor que custe 5.000 dólares para viajar da Europa até Díli pode custar 20 mil só para ir de Díli até Oecusse – pelo que o lado indonésio da ilha de Timor é o recurso mais usado. Apesar disso, Díli é o recurso para alimentar novos negócios – já abriram vários restaurantes, estão pensados outros serviços e até vai abrir uma ‘filial’ da única discoteca de Timor-Leste.²

(Deixo a nota de que esta discoteca efetivamente abriu, à beira mar. No entanto fechou há 2 ou 3 anos porque o dono quer fazer daquele espaço um lugar para convenções, reuniões ou mesmo festas).


¹ “Divisões Administrativas – Distrito de Oecussi-Ambeno”. Governo de Timor-Leste. Página consultada a 23 Dezembro 2018,
<http://timor-leste.gov.tl/?p=91>

² Sampaio, António (2015, 6 Novembro) “Oecusse, enclave timorense que é hoje terra do pó, onde os miúdos ainda dizem boa tarde”. Agência Lusa, Sapo Notícias. Página consultada a 23 Dezembro 2018,
<https://www.sapo.pt/noticias/oecusse-enclave-timorense-que-e-hoje-terra-do_563c59b68f3b01ed6ca70db6>

078 - Uma Família do Oecusse

Missa a decorrer. Há altifalantes para se ouvir cá fora. Creio que um deles (ou se calhar o único) está por detrás do ramo mais baixo da árvore, vê-se um bocadinho dele.

Um timorense com cabelos encaracolados. Até travei logo. Fiz inversão de marcha e fui ter com ele, para grande surpresa sua, e disparei algumas fotos mesmo junto à sua cara. Pus as mãos à volta da minha cabeça, como se estivesse a agarrar numa bola grande, para ele perceber que eu estou interessada no seu curiosíssimo cabelo encaracolado espetado no ar. Deve ter alguma ascendência africana, só pode. E os óculos?!… Este oecussiano tem cá um style…

Pronto, acabou-se o alcatrão. Não devo ter mais do que 20 km, desde que deixámos a cidade de Pante Macassar. A partir de agora é terra e pedras outra vez. E é bom que o Valério esteja algures onde eu o veja, para saber para onde viro. (Sim, estava na estrada à direita, bastou eu avançar uns metros e vi-o logo).

Entrei neste quintal para fotografar as vacas e o búfalo. É um bocado atrevido da minha parte, se calhar, entrar assim pelos quintais das pessoas. Deixei a bicicleta no chão, já dentro do quintal, e avancei de capacete na cabeça e máquina fotográfica em riste.

Felizmente sou sempre bem recebida. À direita está o chefe da família, Bernardo da Cruz Anuno, que tem o padrinho em Trás-os-Montes, contou-me. E também a madrinha, que se chama Marcolina. Fala português comigo. Já foi chefe de suco (já vou falar abaixo sobre os “sucos”) e militar ao serviço de Portugal. Está agora a tratar dos papéis para receber uma compensação monetária de Portugal por isso mesmo.

Uma foto com o Sr. Bernardo, para a posteridade. Repare-se na campa atrás de nós. Questionei-o sobre quem é. É da sua mulher, que faleceu há oito anos.

Aqui está um dos seus filhos, o Udiano, de quem recebo agora de vez em quando umas fotos do Oecusse, através do Whatsapp. E o Udiano recebe fotos de Lisboa, em troca. Atrapalha-se um pouco com o português, e vai falando melhor comigo em inglês. Tirou um curso de inglês, de três meses, na Embaixada dos EUA, em Díli.

Por esta altura o Valério já deve perguntar-se por onde é que ando que nunca mais apareço. Agradeci a hospitalidade e simpatia, e prossegui viagem. O Sr. Bernardo explicou-me os parentescos todos, relativamente a estas pessoas, e ainda há outro filho que não aparece nas fotos (creio que nesta foi ele próprio o fotógrafo), mas eu não consegui fixar. São irmãos, sobrinhos, filhos, netos, primos.

Esta família vive numa aldeia chamada Baqui, a qual pertence ao suco Naimeco, e ao sub-distrito de Pante-Macassar.

O que é um “suco”?
A menor divisão administrativa de Timor-Leste é o suco, que pode ser composto por uma ou mais aldeias. Existem 498 sucos no território, numa média de 7 por subdistrito. O distrito de Baucau é o que tem um maior número de sucos, 63, e o distrito de Ainaro o que apresenta menos divisões, 21 sucos. Analisando a média distrital de número de sucos por subdistritos, os distritos mais centrais salientam-se como os mais segmentados administrativamente. Aileu e Ermera possuem a média mais elevada, 11 sucos por distrito, e Ainaro e Oecussi-Ambeno apresentam a média mais baixa, 5 sucos por subdistrito.¹

Exemplo: no distrito de Oecusse existe o sub-distrito de Oesilo. Dentro do sub-distrito de Oesilo existem três sucos: Usitasae, Bobometo e Usitaqueno.


¹ “Divisões Administrativas – Sucos” (s.d.). Governo de Timor-Leste, República Democrática de Timor-Leste. Página consultada a 25 Dezembro 2018,
<http://timor-leste.gov.tl/?p=91>

079 - As Casas Típicas do Oecusse

O Valério (e o Sanches e o Ego) estavam aqui parados à minha espera para visitarmos esta casa típica do Oecusse. Trata-se de uma Casa Sagrada, ou em tétum “Uma Lulik”. Sobre estas Uma Lulik remeto para a crónica 22.

Estendi a mão para tocar, mas não pude, disseram-me que não se pode tocar porque este é o centro sagrado. Eu recolhi imediatamente a mão, em sinal de respeito – e de temor – não quero trazer azar nem para mim nem para ninguém! As pessoas riram-se. Em baixo, neste poste central, encontram-se as primeiras espigas da colheita do ano que aqui são colocadas para os antepassados. No outro poste ao fundo, são guardadas as espigas para a sementeira do próximo ano. Por isso estão colocadas por cima do sítio onde cozinham para protegê-las da bicharada.
À esquerda está uma cama.

De camisola vermelha é o Ego, o guia local que nos acompanha.

Este amuleto (poderá ser chamado de amuleto?) serve para afastar os maus espíritos da casa. Também é sagrado e não se pode tocar-lhe.

Faço uma interrupção – no seguimento daquele pequeno cemitério – para deixar duas fotografias tiradas no Museu do Oriente, em Lisboa, duma estátua mortuária de cavalo com cavaleiro, oriunda aqui do Oecusse. Representa o cavalo que transporta a alma dum morto para a mítica terra dos antepassados.

O Valério aqui estava à minha espera, indica-me que há subidas, para eu passar para a pickup.

Alguém comprou esta galinha. Perguntei a quem pertence, mas o Sanches deu-me uma resposta vaga. Talvez seja do nosso guia local, o Ego. Comprou uma galinha. E custou dez dólares, disse-me depois o Valério. (Dólares americanos, recordo que a moeda em Timor-Leste é o dólar americano). O pior é que esta estrada é tão acidentada que as caixas andam para trás e para a frente no tabuleiro da pickup, onde eu vou em pé na parte das subidas. Chegou a um ponto em que eu tive de dar um berro, lá de cima, mandar parar e tirar as caixas, senão a galinha ainda morre esmagada com elas, nomeadamente a caixa frigorífica onde vão as águas. Mal consigo agarrar-me eu, no meio daqueles trambolhões todos, quanto mais ainda agarrar nas caixas. Então estas foram arrumadas dentro da pickup, o melhor possível, no banco de trás. É que hoje somos 4 na pickup. Por enquanto segue a galinha e sigo eu, no tabuleiro da pickup, na parte das subidas. Pobre bicho amarrado. Mas ao menos já nada lhe cai em cima.

A senhora que está sentada no chão perguntou-me se eu conheço a Mariana, que mora em Portugal perto do Cristo-Rei. Curiosamente não conheço nenhuma Mariana, seja em que parte de Portugal for. Perto do Cristo-Rei só pode ser Almada. Se a Mariana de Almada estiver a ver estas crónicas e conhecer esta senhora, que se acuse.

080 - Música Tradicional do Oecusse & Bua Malus

Eu vou em pé no tabuleiro da pickup. O Valério conduz, e dentro da pickup vão também o guia Sanches, e o guia local Ego.

Por estradas muito complicadas chegámos à aldeia de Nibin, a qual pertence ao suco de Usitaqueno, e ao sub-distrito de Oesilo. (Sobre o significado de “suco” remeto para a crónica 78, a qual mostra também o mapa dos sucos existentes no Oecusse).
Aqui estão à minha espera para fazer uma pequena performance musical, com música e dança tradicionais do Oecusse.

Pode ser visto um pequeno vídeo desta performance aqui:
https://youtu.be/XP2QZLKxXhc

Foi das raras fotos onde consegui apanhar alguém a rir abertamente, e consequentemente ver os dentes em mau estado, bem como a substância vermelha que se masca aqui em Timor e arredores – Indonésia, Índia, Filipinas, Malásia, Myanmar, e com certeza outras regiões. Chama-se “Bua Malus”, e é uma mistura constituída por noz de areca, folhas de bétel e cal. O “Bua” é a noz da areca, que é o fruto de uma palmeira. As folhas de bétel são o “Malus”. E a parte da cal varia de região para região. Há quem misture tabaco de mascar, em vez de cal. Ou outras especiarias como cardamomo.

Palmeira de Areca, e o seu fruto: nozes de Areca.
Imagem retirada de: https://pt.wikipedia.org/wiki/Noz_de_areca#/media/File:Betel_nuts_(from_top).jpg

Folhas da pimenteira chamada “Bétel”.
Imagem retirada de: https://pt.wikipedia.org/wiki/Piper_betle#/media/File:Piper_betle_plant.jpg

Veja-se esta descrição da Wikipedia sobre a noz de areca:
Por vezes a noz de areca é designada incorretamente como noz de bétel devido a ser consumida quase sempre em combinação com as folhas provenientes da planta que produz a pimenta de bétel. A palmeira de areca é uma das plantas mais populares do mundo. A sua semente, a noz de areca, possui um sabor fresco e apimentado e é usualmente mascada ou mastigada inteira, sendo às vezes lascada ou ralada, frequentemente misturada com temperos de acordo com a tradição local, tais como cal e especiarias, tudo isto embrulhado em folhas de bétel. Os restos são cuspidos. Este costume constitui uma tradição e hábito popular. Sendo um estimulante, em geral é mascada junto com uma pequena quantidade de cal, e o mascador é facilmente reconhecido pelo fluxo abundante de saliva vermelha, que mancha os lábios e os dentes.
Os princípios ativos mais importantes da noz de areca são a arecaina e a arecolina, alcaloides cujos efeitos são comparáveis aos da nicotina. É descrito como estimulante, brandamente intoxicante e inibidor de apetite.
Além do efeito estimulante do sistema nervoso central causando um relaxamento alegre ou sensação de euforia e uma agradável sensação na boca, alguns afirmam que possui qualidades afrodisíacas. Certas pessoas chegam mesmo a afirmar que o seu consumo melhora a capacidade de aprendizagem e de raciocínio, facilita a respiração, melhora a disposição e reduz a pressão cardíaca. Pode ainda ter usos medicinais, tal como a redução das cáries, a remoção de ténias e outros parasitas intestinais mediante a ingestão de umas poucas colheres de noz de areca em pó, da própria noz ou tabletes contendo o extrato dos alcalóides.
No entanto, mastigar regularmente a noz de areca é extremamente prejudicial para os dentes. A noz de areca tinge a saliva da pessoa dum vermelho vivo e enegrece os dentes, provocando danos muitas vezes irreversíveis. Muitos mascadores habituais de bétel perdem os dentes já na idade de vinte e cinco anos. Além disso, a Agência Internacional para a Pesquisa do Cancro (IARC – International Agency of Research on Cancer) classifica a noz de bétel como um cancerígeno conhecido. Dosagens altas podem causar diarreia e tonturas. Doses muito altas podem ser mortais. O uso a longo termo pode causar habituação. Em pesquisas efetuadas entre consumidores que tanto usaram o tabaco como a noz de bétel disseram que, entre os dois, acharam mais difícil vencer o hábito de mascar a noz.¹

E veja-se esta descrição da Encyclopædia Britannica sobre a pimenteira bétel:
Bétel, também chamado de paan, pinang ou penang, é uma planta cujas folhas são usadas para fins de mastigação em vastas áreas do sul da Ásia e das Índias Orientais. A mastigação de bétel é um hábito estimado de um décimo da população mundial, e o bétel é a quarta droga psicoativa mais comum no mundo, seguindo a nicotina, o álcool e a cafeína. Em alguns casos, cardamomo, gengibre amarelo ou outro aromático é adicionado para dar sabor e estimulação, e algumas tradições adicionam tabaco para mascar.²

No entanto o “Bua Malus” tanto pode ser preparado com folhas de bétel (cujo nome científico é “Piper Betle”), como com o fruto desta pimenteira. Esta foto foi tirada um pouco mais à frente, nesta viagem, comigo a ter uma aula sobre “Bua Malus” (vou ter uma aula sobre isto, sim). Na mão do guia Sanches está o pacote com cal, a noz de areca já descascada, e o fruto da pimenteira bétel. Este fruto é mais forte, tem sementes dentro e dura mais tempo a secar do que as folhas. Estas duram apenas dois dias e são mais fracas. Quando são usadas as folhas de bétel, nestas são logo embrulhadas a noz e a cal para mascar. Quando é usado o fruto da bétel, começa-se por mastigar a noz e vai-se mordendo aos poucos o fruto da bétel, e só depois se vai pondo aos poucos na boca um pouco de cal.

Deixo uma foto de outra planta da família, muito semelhante: a “Piper colubrinum” pare se perceber como cresce o fruto. Procurei uma foto por todo o lado, na internet, da Piper Betle com o fruto, inclusive no Google Académico, porém não encontrei em lado nenhum. Existem muitas publicações no Google Académico sobre a Piper Betle, no entanto nenhuma tem fotos. Esta malta anda a estudar as coisas sem ver como são. Até já me questiono se a Piper Betle dá fruto, ou se os timorenses vão buscar o fruto noutra espécie de Piper.

Foto da espécie “Piper colubrinum” com o fruto.
Imagem retirada de: https://sv.wikipedia.org/wiki/Piper_colubrinum#/media/File:Piper_colubrinum_09.JPG

Esta Casa Sagrada (ou em tétum: “Uma Lulik” – ver crónica 22 sobre as Casas Sagradas), é nova, acabou de ser construída há pouco tempo, e fui convidada a visitá-la no seu interior.

Este rapaz, muito interessante para as ciclistas que passam pela aldeia de Nibin, tem 41 anos e pelo que percebi é funcionário público.

Reparem nas pernas tatuadas.

E chegou a hora de partir, a viagem prossegue!

Aldeia de Nibin, a qual pertence ao suco de Usitaqueno, e ao sub-distrito de Oesilo.


¹ “Noz de areca” (s.d.). Wikipedia. Página consultada a 27 Dezembro 2018,
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Noz_de_areca>

² “Betel Plant” (s.d.). Encyclopædia Britannica. Página consultada a 27 Dezembro 2018,
<https://www.britannica.com/plant/betel>

081 - Também há Bananas no Oecusse

Continuemos a falar do Oecusse, enclave timorense na Indonésia. Na crónica 77 falei do desenvolvimento deste distrito. Mas nem tudo são rosas, como aliás podemos ir vendo pelas fotos. Um dos grandes problemas é a água potável, por exemplo. Ou mesmo a eletricidade, se bem percebo o relatório “Oecusse em Números”, lançado em 2016 pela Direção Geral de Estatística e pelo Ministério das Finanças de Timor-Leste. Neste relatório podem ser consultados dados minuciosos sobre a população, clima, número de alunos e professores, médicos e centros de saúde, coberturas em termos de vacinação, doenças que surgiram (21 casos de malária em 2015, 83 de malnutrição, entre outros – página 42), religião (católica é a esmagadora maioria), dados sobre o emprego (355 pessoas estavam inscritas à procura de emprego. Sendo a população de 70.224 pessoas, corresponde a 0,5%, mas desconfio que haverá muita gente que não se regista), número de funcionários públicos (1.462), número de polícias (273 no total – página 51), dados sobre a criminalidade (lideram as ofensas à intregidade física, com 181 casos reportados, logo seguidos de violência conjugal, com 59 casos; 24 casos de contrabando e 9 casos de homicídio, entre outros – página 52. Há um caso de exibicionismo sexual!); participação nas eleições; e dados sobre a agricultura (o Oecusse produz tomate, cenoura, melância (pressuponho que “Pateka – (Malansia)” seja melância…), beringela, agrião, entre outros produtos que já não consigo traduzir. Quem lidera de longe é a fruta “Jaca” (Kulu Jaka), se bem percebo com 40 toneladas de produção em 2016 – página 62 – diz “Produção/ton/Ha/ano”. Toneladas, hectares? Não é claro. O gráfico da página seguinte já é mais claro, diz “Total Production (ton)”.
Outros dados que podemos encontrar neste minucioso relatório são ainda o número existente de aves de criação; a distribuição de área florestal; número de pescadores; áreas de negócio (lidera de longe o comércio a retalho e de produtos alimentares); número de veículos existentes; estabelecimentos hoteleiros e número de clientes; acesso à eletricidade (aqui não percebo bem, ou vejo o número de 23.355, serão as pessoas? Num total de 70.224 pessoas, serão 33%? – página 76) ou o acesso a água potável, onde se vê que num total de 15.656 casas de família, 5.307 ainda não têm água potável¹. É um relatório de 2016, recordo. Esta minha viagem decorre em 2018. Em dois anos pode haver uma evolução considerável, mas não existe informação disponível mais atualizada.

Nesta placa da USAID (“US” – de Estados Unidos da América, e “AID” que significa “Ajuda” – Ajuda dos EUA, portanto) lê-se que estes – os EUA – estão a intervir precisamente nesta área. “Bee Mos” significa “água potável”. Fornecimento de Água Potável (ou água limpa), Saneamento, Higiene e Gestão de Recursos Naturais. No site da USAID pode ler-se:
“A região de Oecusse-Ambeno, no lado ocidental da ilha de Timor, é caracterizada por baixos níveis de produção de alimentos, pela falta de abastecimento adequado de água potável e pelo isolamento do resto do país. Como é típico das terras altas de Timor-Leste, a ecologia é frágil e tem o impacto negativo da agricultura de corte e queima, que também afeta negativamente os recursos hídricos já inadequados.
O projeto da USAID trabalha com comunidades que estão localizadas principalmente em locais remotos e montanhosos, onde a infraestrutura rodoviária é deficiente e o acesso durante a estação chuvosa é difícil. A falta de fontes de água limpa, saneamento e práticas higiénicas na área leva a muitos problemas de saúde evitáveis. Muitas das fontes de água estão contaminadas, resultando numa série de doenças transmitidas pela água, como diarreia, que afetam particularmente os idosos e crianças menores de cinco anos.”²

A vendedora de bananas está a mascar “Bua Malus” (ver crónica 80 para mais detalhes sobre o Bua Malus).
Estas bananas são muito frutadas, parece que estou a comer banana misturada com sumo de laranja.

De passagem pela aldeia de Pune, no suco Usitasae. (Sobre o significado de “suco” remeto para a crónica 78, a qual mostra também o mapa dos sucos existentes no Oecusse).


¹ “Oecusse em Números – Estatística Região Oecusse 2016”. Direção Geral de Estatística de Timor-Leste e Ministério das Finanças de Timor-Leste. 4ª Edição, 2016. Documento consultado a 30 Dezembro 2018,
<http://www.statistics.gov.tl/wp-content/uploads/2018/01/Oecussi-em-Numeros-2016-Revised1-2.pdf>

² “Increasing Community Resilience in Oecusse” (último update a 14 Agosto 2018). USAID. Página consultada a 30 Dezembro 2018,
<https://www.usaid.gov/timor-leste/project-descriptions/increasing-community-resilience-oecusse>

082 - Churrasco para o Almoço

Está tudo deserto. Mas parei quando vi este homem, cumprimentei-o, e depois vi o seu boné. Deixou-me tirar-lhe fotos. E entretanto começaram a reunir-se pessoas, todas a tentarem perceber de onde apareci e o que estou aqui a fazer. O Valério vai algures mais para a frente. Vai tratar do almoço, aparentemente.

A senhora trabalhava no tear tranquilamente, ainda consegui vê-la uns segundos assim. Até que eu apareci e vimo-nos com uma multidão à nossa volta. Ela está a tecer o chamado “Taís”, ou seja, o tecido tradicional de Timor-Leste, que os timorenses utilizam como vestuário, não só no dia-a-dia, mas sobretudo em ocasiões especiais, em cerimónias e festas religiosas. São também utilizados como decoração. Ela está a usar um tear tradicional de madeira. Este tecido de muitas cores – o Taís – é elaborado artesanalmente por mulheres, nestes teares tradicionais de madeira, a partir de fio de algodão tingido por vezes com corantes naturais.

Este rapaz parece uma estrela de cinema, e posou quando eu lhe pedi, para fotografá-lo. Mas de onde sai um miúdo destes, no meio das cabanas do Oecusse? Será que estuda na cidade e está aqui de férias? Parecem todos top-models, nesta terra!

Eu continuo a seguir em frente, alguma vez hei-de encontrar o Valério.

Cá está o Valério, com o Sanches e o Ego, a tratarem do almoço. São 14.15h e tenho 26 km na bicicleta.

Fiquei em estado de choque quando percebi que a galinha da crónica 79, que seguia comigo no tabuleiro da pickup, nas subidas, afinal era o meu almoço. Eu não sou vegetariana, eu sempre comi carne, mas enfim, nunca vejo os bichos vivos antes de comê-los. Já vêm esquartejados aos pedaços, em embalagens individuais, no supermercado. Uma pessoa nem pensa que aquilo já teve patas, respirou e viveu. Claro que têm de ser mortos, mas as gentes das cidades, como eu, por mais foitas que sejam, custam sempre a tomar consciência crua e dura disto. Coitadinha da galinha. Foi o Valério que a matou. O Valério faz criação de porcos, conforme já referi na crónica 39, pelo que estará habituado a estas coisas do campo. Espero que a tenha morto rapidamente.

Terminado o almoço prosseguimos viagem. Eu continuo na bicicleta.
Aqui vêem-se alguns exemplos de cestaria, outra das artes tradicionais de Timor-Leste.

083 - A Chover... Acolhida numa Casa do Oecusse

O Búfalo dos Pântanos (Bubalus bubalis carabanensis), ou em tétum, “karau”. (Ver a crónica 15 para mais detalhes sobre este búfalo).
E o céu está a ficar cada vez mais negro.

Eu vou a passar na estrada, junto destas casas, e respondi aos gritos das crianças: “Malai! Malai!” (ou seja, “estrangeira”).
Olhem, esta malai gostava de ir conhecer a vossa casa e descansar aí um bocadinho convosco…
E olhei para dentro da cerca. As casinhas tão bonitas ali a chamarem por mim. Será que me deixam entrar?
E entrei mesmo. Convidaram-me para entrar e ainda me ajudaram a levar a bicicleta.

Esta é a casa do José e da mãe Teresina – ambos em primeiro plano na foto. O José tem casa em Díli, está duas semanas de férias e veio visitar a mãe, explicou-me. Aqui no Oecusse falam baiqueno e pouco tétum, mas usam o tétum sempre que se dirigem a alguém de fora. O José e a Teresina não falam português. Fomo-nos entendendo por palavras aqui e ali, que serão parecidas em tétum e em português.

Claro que não estava tanta gente dentro desta casa, mas com a minha visita inesperada, vieram todos espreitar. Entretanto começou a chover. Fiquei sentada um pouco, junto da D. Teresina, enquanto os miúdos se riam, divertidos. O José permaneceu em pé. Eles dizem-me que eu sou bonita. Eu rio-me e agradeço. O José diz-me que esta casa não é bonita. Eu acho-a bonita, é uma casa tradicional do campo. Pelos vistos o José deve ter uma casa em Díli que achará mais bonita. E ensinam-me a dizer “chuva” em tétum. Ou se calhar é em baiqueno, não sei: diz-se “udan”.

O Valério já deve andar à minha procura, ainda por cima a chover. Eu expliquei-lhes isto, e eles perceberam. Há um Valério a conduzir um carro, que há-de vir à minha procura certamente. E eis que ouço um carro a aproximar-se. Levantei-me rapidamente e espreitei à porta. É mesmo o Valério, que voltou para trás. Claro que nem me vê; eu dei um berro e chamei-o. A pickup parou. E o Valério viu-me, à porta da cabana, a fazer-lhe adeus. Continua a chover.

O Sr. José ajudou-me novamente a levar a bicicleta, desta vez para a pickup. Parece que não, mas está a chover, e com pingas gordas. Pelos vistos ele não quer saber da chuva, com esta descontração toda.

Esta foto já foi tirada pelo Valério, rapidamente, com a máquina à chuva.

Entretanto parou de chover. O Valério estava preocupado por atravessar esta ribeira. Contou-me que morreram aqui alguns membros das Nações Unidas, mais exatamente seis coreanos, há uns anos atrás. Houve umas grandes enxurradas que arrastaram os carros. Os corpos nunca foram encontrados e acabaram por serem dados como desaparecidos. Bom, mas a chuva hoje será significativamente bem mais moderada, pois nem encheu isto de água, para azar destas pessoas, que assim não apanham camarão – estas pessoas vêm apanhar camarão. E pediram-nos boleia – se podemos levá-las no tabuleiro da pickup. Então vamos lá. Eu por enquanto vou ao lado do Valério, e no banco de trás vão o Sanches e o Ego, o guia local que nos acompanha hoje.

As pessoas a regressarem às suas aldeias, com as redes para apanhar camarão.

A partir daqui passo novamente para a bicicleta. Já parou de chover e não há ameaça de voltar a chuva. As pessoas prosseguem na pickup, de boleia.

Chegada à entrada da cidade de Pante Macassar, onde pelos vistos todos me aguardam, não é só o Valério! E observam com muita atenção tudo o que faço. Tirei os óculos, as luvas, o capacete, tirei o elástico do cabelo e soltei-o. Quando termino o passeio de bicicleta faço sempre isto – solto o cabelo. Estas pessoas não despegaram o olhar de tudo o que fiz, curiosas, ali a centímetros de mim. Haja descontração. Eu ri-me para elas, elas riram-se também.

084 - O Divertido Entardecer numa Praia do Oecusse

Estou agora em Lifau, e este monumento celebra a chegada dos portugueses. Recordo a crónica 77:
Oecussi-Ambeno foi o primeiro ponto da ilha de Timor em que os portugueses se estabeleceram, pelo que é usualmente considerado o berço de Timor-Leste. Em 1556, um grupo de frades dominicanos estabeleceu o primeiro povoado em Lifau, a meia dúzia de quilómetros de Pante Macassar. Em 1702, Lifau tornou-se capital da colónia ao receber o primeiro governador enviado por Lisboa, estatuto que manteve até 1767, quando os portugueses decidiram transferir a capital para Díli, como resultado das frequentes incursões das forças holandesas.¹

Historicamente, o Oecusse interagiu com comércio e comerciantes estrangeiros que aqui viveram temporariamente enquanto aguardavam a conclusão de negócios ou a mudança de ventos. À semelhança do resto da ilha de Timor, existem pequenos vestígios desta realidade ao longo do enclave. Uma área perto de Lifau é conhecida como lago da China, já que era o lugar de atracagem dado aos comerciantes chineses pela população de Oecusse.  É possível encontrar referências chinesas a Timor-Leste desde o século treze. O comércio internacional já existente foi formalizado através da chegada dos portugueses, quando Lifau se tornou a capital portuguesa na ilha. O nome Lifau provem de Lean Faun, o qual significa povo estrangeiro.

Atualmente, muitas empresas estrangeiras com empregados de países tão diversos como Brasil, Irlanda, América, Portugal, China e Indonésia operam neste momento no Oecusse, e línguas tão diversas como tétum, inglês, mandarim, lais meto (baiqueno), português e indonésio fazem regularmente parte da atmosfera de trabalho em Oecusse.²

A maior parte das pessoas fala a língua local, baiqueno. O tétum é falado fluentemente pela maioria, mas apenas empregue quando outros que não falam baiqueno entram na conversação. Igualmente, as línguas internacionais que são o português e o indonésio são faladas com alguma independência pela maioria, enquanto que o inglês é um recém-chegado ativo.  Algumas vezes, as reuniões de negócios podem ser conduzidas em inglês para incluir cidadãos estrangeiros, mas poucos falam inglês fora de Pante Macassar.

Vivem mais de 70.000 timorenses no Oecusse, a maioria – 12.000 – vivem em Pante Macassar.  Existe uma comunidade de expatriados vibrante, com mais de 2.000 estrangeiros a viverem na área, incluindo portugueses, indonésios, chineses e irlandeses.

O Oecusse é uma “Região Administrativa Especial” e faz parte da ZEESM – Zonas Especiais de Economia Social de Mercado de Timor-Leste (na próxima crónica vou desenvolver esta matéria). O site da ZEESM, publicitando o Oecusse, indica:
Qualquer pessoa que tenha visitado o Oecusse nota imediatamente que este é um local seguro, tal como demonstrado pelos números que ilustram uma extremamente baixa taxa de criminalidade.  A confiança social baseia-se em profundas relações familiares, cuja proteção se estende aos visitantes.  Num relatório recente, 96% da população do Oecusse confiaria num vizinho para levar dinheiro até a um familiar em Díli em caso de emergência.  Eventos comunitários tais como festivais, serviços religiosos, católicos e tradicionais, são bastantes participados.³

A praia de Lifau está barrada aos locais. E aos malai também (“malai”, recordo, significa “estrangeiro” – é o que as crianças gritam à minha passagem). Perguntei ao Valério e ao Sanches porque está a praia barrada, e ainda por cima de forma tão deselegante. Parece uma praia de um bairro de lata. A bonita praia de Lifau assim tão maltratada. Disseram-me que é para impedir que as pessoas vão para lá fazer lixo. Esta é boa. Mais lixo do que existe nesta parede de latas e ferros velhos. Então veio um homem abrir um buraco nestas latas para eu passar e ir tirar algumas fotografias. Se calhar mais valia fazer uma campanha de sensibilização da população local, para não deixarem lixo na praia, e contratar alguém para ir limpando. Ainda hoje me pergunto se este é o verdadeiro motivo para barrarem o acesso à praia. Parece-me tão absurdo que se calhar existe outro motivo oculto que não querem contar aos malai.

Felizmente estes miúdos também passaram as barreiras de lata. Sentei-me na areia a vê-los. Já faz fresco, não estão propriamente 30 graus, e ainda vi alguns com frio, mas nesta brincadeira e agitação nem ligam.

Este “sereio” ficou com um dedinho do pé fora da areia. Quando vimos o dedinho espetado, fora da areia, rimos todos tanto à gargalhada que eu mal conseguia aguentar-me em pé.

De regresso à cidade – Pante Macassar. Hoje fiz 44 km na bicicleta, e outros 57 na pickup, num total de 97 km. E voltei ao delicioso restaurante português. São agora 19.30h. Efetivamente ainda procurámos outros restaurantes, pois comida portuguesa tenho eu durante todo o ano, e agora em Timor não estou assim tão carente das minhas origens. Mas é domingo e estão fechados. Encontrámos um aberto, mas tinha a comida em tabuleiros, já feita, e tudo à base de fritos. Voltei portanto ao português e voltei a pedir esparguete à bolonhesa. Não me canso de esparguete. Todas as oportunidades de comer esparguete devem ser aproveitadas. E outra vez natas do céu, que já nem fotografei (fica a foto na crónica 76). Desta vez há um casal espanhol. Portugueses e espanhóis estão todos a ver o motociclismo na televisão.


¹ “Divisões Administrativas – Distrito de Oecussi-Ambeno”. Governo de Timor-Leste. Página consultada a 3 Janeiro 2019,
<http://timor-leste.gov.tl/?p=91>

² “A região de Oe-Cusse”. (s.d.). ZEESM – Zonas Especiais de Economia Social de Mercado de Timor-Leste. Página consultada a 3 Janeiro 2019,
<https://www.zeesm.tl/pt/oe-cusse-pt/a-regiao-de-oe-cusse/>

³ “Povos de Oé-Cusse” (s.d.). ZEESM – Zonas Especiais de Economia Social de Mercado de Timor-Leste. Página consultada a 3 Janeiro 2019,
<https://www.zeesm.tl/pt/oe-cusse-pt/povos-de-oe-cusse/>

085 - 17º Dia, à Espera do Avião e do Pneu & ZEESM

Hoje vou-me embora do Oecusse, irei pernoitar em Soe, na parte indonésia de Timor, e depois de amanhã vou para Kupang, a capital de Timor indonésio. Entretanto às 8 horas chega o avião “James” aqui a Pante Macassar, diz-me o Sanches, avião esse onde vem o pneu e jante novos para a minha bicicleta. São agora seis e meia da manhã. Já estou cheia de cremes e sprays – protetor solar e repelente de insetos. Esta noite esqueci-me de fechar a mala grande, vamos ver se não tenho nenhuma supresa. Ainda levo um toké timorense para a Indonésia. (Quem não leu as crónicas todas e não sabe o que é um “toké”, remeto para a crónica 30). Também é preciso limpar os dois pares de óculos para andar de bicicleta, de preferência todas as manhãs. Os escuros e os incolores. Têm uma mistura de protetor solar, repelente de insetos, suor e pó. Se não tenho o cuidado de limpá-los todas as manhãs, já que acordo cedo e tenho tempo, simplesmente deixarei de ver.
No quarto, as torneiras estão sempre a pingar – a do lavatório das mãos (em que fecho a torneira de segurança e resolvo o assunto) e a do chuveirinho da sanita (que só fechando a água toda do quarto, e aqui não tenho acesso).

E antes do pequeno-almoço vou ver o que se faz por aqui, nestas terras do Oecusse. Ainda é noite e eu precisaria de um tripé para tirar estas fotos noturnas. E uma câmera de melhor qualidade. Mas já dá para ficar com uma ideia do que é o amanhecer em Pante Macassar. No pátio da pousada esvoaçam imensos morcegos, fazem razias sobre mim e ouço o roçar das suas asas. Lindos morceguinhos esvoaçadores.

Aqui passou uma mulher grávida, a caminhar na areia mesmo junto ao mar, com certeza a fazer exercício. Fiz-lhe adeus e ela fez-me outro de volta.

Um avô com os quatro netos. Estavam em grande azáfama dentro de casa, e eu parada na bicicleta a olhar. Até que me viram e vieram falar comigo. O senhor explicou-me que tem um filho em Díli e outro em Inglaterra. Pelo que percebi ele cuida destes quatro netos. Perguntei-lhe se não vão à escola, respondeu-me que hoje – segunda-feira – é feriado, não há escola.

Este rapaz veio procurar o amigo, nesta casa dos quatro netos. Mas o amigo ainda não está despachado, pelo que ele se foi embora.

A criança, que andará pelos 4 anos, deu o tradicional berro mal me avistou: “Ei malai!”. Até embaraçou os pais, que se riram a olhar para mim. Eu ri-me também. Isto está programado nas crianças. Neste silêncio e tranquilidade, este berro infantil fez-nos rir a todos. Andam os três a passear na praia, também.

Falemos então da ZEESM, que já abordei na crónica anterior.
ZEESM significa “Zonas Especiais de Economia Social de Mercado” e abrange duas zonas: Oecusse e a ilha de Ataúro.
A Região Administrativa Especial do Oecusse é uma autoridade administrativa regional do Governo de Timor-Leste. A ZEESM é um programa de desenvolvimento nacional.¹
O Presidente de ambas é Mari Alkatiri, nascido em Díli, um dos membros fundadores da Fretilin – o movimento de resistência contra a ocupação Indonésia, e por duas vezes Primeiro-Ministro. É um dos raros muçulmanos em Timor-Leste, onde 97% da população é católica.

O governo de Timor-Leste aprovou a criação da Região Administrativa Especial de Oecusse em 2014. O governo refere que a criação desta região vai permitir que o Oecusse passe a ter “autonomia administrativa, financeira e patrimonial.” A proposta de lei inclui a ilha de Ataúro como pólo complementar na área do turismo.
A Zona Especial de Economia Social de Mercado visa o desenvolvimento regional através da criação de zonas estratégicas “atrativas para investidores nacionais e estrangeiros.” “O intuito é retirar ao Oecusse o estatuto de enclave e conferir-lhe o estatuto de pólo de desenvolvimento nacional, sub-regional e regional, ficando Ataúro no âmbito deste pólo, direcionado para o turismo integrado”.²

Esta zona económica especial do Oecusse é um dos grandes projectos do governo de Timor-Leste que visa trazer sustentabilidade económica antes que a sua reserva de petróleo e gás seque.³

Foi pedido ao Banco Mundial para que colaborasse com uma série de estudos relacionados com as oportunidades nesta zona económica especial. O Banco Mundial indica no seu website: “A transferência de responsabilidade significativa para o desenvolvimento do Oecusse à autoridade da ZEESM reflete uma aproximação política e colaboração entre o Primeiro Ministro Xanana Gusmão e o Dr. Alkatiri”. ⁴
O relatório emitido pelo Banco Mundial sobre o Oecusse, em 2016, indicou por exemplo as seguintes restrições ao desenvolvimento do turismo:
“As principais restrições atuais são a infraestrutura, água, analfabetismo e mão-de-obra não qualificada.”
E neste âmbito – o turismo – deixou as seguintes recomendações:
– Fortalecer e apoiar iniciativas culturais. Existe a necessidade de inventariar todos os grupos ligados às artes e ao artesanato para fornecer suporte de qualidade.
– Criar e implementar padrões regulatórios, como programas de classificação de hospedagem, a fim de garantir uma experiência de visitante de qualidade e fomentar o setor.
– Reunir sistematicamente os dados para a elaboração de políticas futuras (estatísticas do turismo e feedback dos visitantes).
– Desenvolver níveis educacionais e iniciativas de formação em hospitalidade.
– Melhorar a infraestrutura de transportes à medida em que a economia de visitantes cresce, em etapas, atendendo à demanda e permitindo ajustes nos planos conforme necessário.
(Pág 9 e 10)

Este relatório do Banco Mundial deixa as seguintes estatísticas sobre o Oecusse:

  • 61% da população está abaixo da linha de pobreza; (pág. 13)
  • 35% da população entre os 5 e 29 anos nunca frequentou a escola; (pág. 13)
  • 3% dos homens e zero mulheres obtiveram um diploma universitário. (pág 14)
  • Já o capital social é alto no Oecusse – o crime é baixo e o tecido comunitário, baseado na confiança, é excepcionalmente alto. O crime é baixo no total de Timor-Leste e ainda mais baixo no Oecusse. (pág. 15)

Sobre o comércio no Oecusse, o relatório do Banco Mundial deixa dados bem claros:
Existem poucas estatísticas formais sobre o comércio entre Oecusse e Timor Ocidental (ou seja, a parte indonésia da ilha), mas é claro em entrevistas que existe algum comércio legal e também ilegal. A maior parte do comércio no Oecusse é conduzida por importadores dedicados que trazem produtos de Timor indonésio. De acordo com entrevistas realizadas a importadores, aproximadamente 75% de todos os bens (em termos de valor) trazidos para o Oecusse vêm da Indonésia, em comparação com 25% do continente Timor-Leste. Os materiais de construção e os bens de consumo embalados, em particular, provêm da Indonésia, enquanto os produtos alimentares provêm mais comumente de Timor-Leste, embora muitos deles sejam eles próprios importações.
Existem sete importadores, e a maioria deles opera dois a três camiões duas a três vezes por mês, de Kupang (a capital de Timor indonésio) até Oecusse. Cada camião tem capacidade para 24 toneladas e transporta mercadorias no valor aproximado de 30 a 40.000 dólares. Isto sugere que, entre todos os importadores, há entre 672 e 1.512 toneladas importadas para o Oecusse todos os meses.
De acordo com os próprios importadores, a maioria desses camiões regressam à cidade de Kupang sem carga, destacando assim que há pouca produção no Oecusse.
(Pág 30 e 31)

O comércio com o resto de Timor-Leste é particularmente desafiador pelo isolamento do Oecusse. O ferry de ida e volta duas vezes por semana que liga Pante Macassar no Oecusse, a Díli, leva 13 horas. O operador do ferry informa que este está quase totalmente lotado durante alguns meses do ano e que animais e mercadorias consideráveis são transportados dessa maneira em ambas as direções. A capacidade limitada do ferry representa uma barreira ao comércio com Díli, embora não esteja claro que a capacidade, em vez do preço, seja a principal barreira. O ferry está frequentemente próximo da capacidade mas existe alguma flutuação. O impacto do preço do bilhete de 40 dólares no comércio deve estar sujeito a um estudo mais aprofundado. No entanto, se o preço for reduzido, a demanda aumentará e uma capacidade maior provavelmente será necessária.

Já o transporte terrestre entre Oecusse e Díli é um desafio. O tempo total de viagem é entre sete e dez horas, dependendo dos procedimentos de fronteira. No entanto, para viajar é necessário obter vistos com antecedência, mesmo para os cidadãos de Timor-Leste. Isto geralmente leva três dias, custa 45 dólares e exige o fornecimento de fotos de passaporte, demonstração de verbas e planos, e formulários preenchidos. Além disso, o veículo que está a ser usado para o transporte tem de ter uma licença. Isto requer o pagamento de mais 20 dólares e quatro documentos adicionais, bem como deixar o registo do veículo junto do Ministério dos Transportes em Díli, o qual só pode ser recuperado no regresso.

Adicionalmente, os procedimentos nas fronteiras são relativamente lentos. Isto é em parte porque no lado indonésio a documentação deve ser apresentada a quatro instituições: alfândega, militar, imigração e polícia. Além disso, a experiência prática e entrevistas sugerem que é comum ser convidado a fazer mais pagamentos ilegais.
(pág 34 e 35)
(Disto já nós sabemos, quando tive de atravessar a fronteira para chegar aqui ao Oecusse – crónica 74).

Este relatório do Banco Mundial é muito interessante, tem 68 páginas, e não posso agora transcrevê-lo todo para estas crónicas. Até sobre a brucelose fala (sobre este tema ver a crónica 46 ou a página 37 deste relatório do Banco Mundial. Aqui referem que um programa de erradicação da brucelose pode custar milhões de dólares, levar dez anos, e não ter resultados 100% garantidos). Recomendo portanto a sua leitura completa, e deixo um último extrato, desta vez sobre as qualificações e ordenados no Oecusse:

O Oecusse tem uma população relativamente baixa, o que restringe as suas oportunidades de desenvolver fábricas e manufacturas. De acordo com o Census de 2010, apenas 11% da população total do Oecusse completou o ensino médio e apenas 3% tem qualificação superior. Neste contexto, é provável que as indústrias transformadoras altamente qualificadas sejam extremamente difíceis de atrair. Dado este nível de capital humano no Oecusse hoje, a única possibilidade que vale a pena ser avaliada na indústria transformadora é a de manufacturas leves especializadas. Há muitos exemplos disto, como produção de vestuário e produção de calçado. Nestes setores, os equipamentos e as matérias-primas são usualmente importados, o produto é processado e, em seguida, os produtos finais são exportados para mercados externos.
Muitos países e Zonas Económicas Especiais basearam o crescimento em manufacturas leves de baixa qualificação. No entanto, aqueles que normalmente são mais bem sucedidos nesta área normalmente são capazes de tirar proveito de custos salariais muito baixos. Por exemplo, o sucesso da Etiópia em atrair indústrias intensivas em mão-de-obra da China baseou-se na sua oferta de salários muito baixos; 35-53 dólares por mês para trabalhos não qualificados, em média. O Vietname teve um sucesso semelhante no passado, embora esteja agora sob alguma pressão de aumento dos salários, apesar do seu salário médio, não especializado, nas manufacturas ainda ser apenas 73-131 dólares e os seus trabalhadores terem produtividade relativamente alta.
Infelizmente para o Oecusse, o salário médio em Timor-Leste para aqueles que estão empregados já é de 503 dólares por mês e o salário mínimo obrigatório é de 115 dólares por mês. Este nível de salários faz com que o Oecusse fique de fora na maioria dos tipos de produção que exige mão-de-obra pouco qualificada. É provável que seja extremamente difícil atrair investidores para fabricar no Oecusse com estes custos salariais, especialmente tendo em conta o relativo défice de competências.
(Pág 43)

Entra então em cena a ZEESM.
Eis um trecho retirado do seu website:
“Construímos pontes de modo a que seja mais fácil atravessar os rios. Construímos estradas para que as pessoas possam ter acesso às escolas, instalações de saúde e mercados. Melhorámos o acesso para e de Oé-Cusse através da melhoria do respetivo porto, aeroporto e acesso terrestre.  Reforçámos a irrigação, uma área crítica da agricultura.
Estabelecemos uma central elétrica que fornece três vezes a capacidade de energia necessária para o desenvolvimento atual e estamos a expandir a rede e o acesso mensalmente, de quilómetro a quilómetro.”⁵

A ZEESM – explicou Mari Alkatiri numa entrevista em 2014 ao jornal “Plataforma Macau” – praticamente vende-se sozinha: afinal não é todos os dias que mesmo a Ásia, uma das regiões do globo em maior crescimento, vê nascer um projeto que representa um investimento de 4,11 mil milhões de dólares até 2025, dos quais 2,44 mil milhões injetados nos próximos quatro anos. Cerca de 67% (2,75 mil milhões de dólares) desse valor é garantido por investimento público, sendo o valor restante (1,36 mil milhões) angariado no setor privado.⁶

Deixo alguns parágrafos deste jornal – “Plataforma Macau”, um semanário publicado em papel (em português e em chinês) e em versão web também em inglês⁷:

Mas afinal o que é que vai ser a ZEESM? “O objetivo central é o combate à pobreza. Mas todos agora falam de combater a pobreza sem que o modelo de desenvolvimento nos leve a isso. Porque não há inclusão, porque não há uma genuína participação dos cidadãos. Há simplesmente desenvolvimento industrial ou zonas de livre mercado. É o que tem acontecido em todas as zonas especiais. E que dá como resultado a marginalização da maioria”, explica o ex-chefe de Governo.
“O conceito de economia social de mercado parte do princípio de que a componente social deve ser considerada central, mas não fugindo da dinâmica do mercado. Porque é o mercado que vai criar o desenvolvimento”, sublinha.
Neste caso, insiste, o objetivo é implementar projetos numa gama variada de setores – que incluem habitação, infraestruturas públicas, zonas industriais, comerciais, turísticas, desenvolvimento industrial e agrícola, investigação e outras – onde “todo e qualquer cidadão seja um participante no processo de trabalho e um beneficiário nos resultados”. “Não só porque é remunerado mas porque pode ter retornos financeiros, económicos e sociais, que em última análise ampliam o mercado. Cria-se mais poder de compra, melhora-se a qualidade de vida das pessoas. Its a ‘win-win’ solution”, refere.
Estes clusters de desenvolvimento integrado serão, na prática, implementadas ao longo de três grandes fases de investimento, uma primeira até 2018, com um investimento total projetado de 2,44 mil milhões de dólares, o maior ‘bolo’ de todo o projeto. A parte pública, de cerca de 1,28 mil milhões de dólares, será destinada a aspetos como o aeroporto, porto, infraestruturas básicas hidroelétricas e de saneamento, distribuição de gás e energia, telecomunicações e estradas. O investimento privado, de até 1,42 mil milhões de dólares seria, por seu lado, para habitação, a reabilitação do hospital de Oecusse, hotéis, um pólo industrial, uma zona logística e escritórios, entre outros.
Para a segunda fase (2019-2021) a previsão é de um investimento total de mais de 966 milhões de dólares dos quais 154 milhões públicos (porto de pesca, central eólica, unidade de biomassa, saneamento e outras infraestruturas básicas) e mais de 812 milhões privados (habitação, escolas, apartamentos, escritórios, zonas comerciais e estações de serviço).
Finalmente na terceira fase o investimento rondaria os 711 milhões de dólares dos quais cerca de 102 milhões públicos e 609 privados, neste último caso para uma universidade, resorts turísticos, mercados, centro cultural e centros espirituais.
“O que se tem feito em Timor-Leste é só injetar dinheiro para o consumo. Há algumas infraestruturas públicas, mas de péssima qualidade, algumas privadas, mas também de qualidade que deixa muito a desejar. O que se pretende realmente é investir nas infraestruturas básicas mas com qualidade e permitir que, com isso, se criem condições para que investimento privado seja produtivo e com qualidade, não apenas para servir o consumo”, defende.
“Continua a não haver economia em Timor. A economia em Timor é de importação e de consumo. Não temos uma economia produtiva. O objetivo de Oecusse é ser a referência, que se prove que é um país pequeno e que, por isso, deve integrar a sua economia numa realidade geopolítica e geográfica maior. É preciso que o país saiba escolher os parceiros certos e saiba fazer essa integração beneficiando os outros”.⁶

De regresso à guesthouse, às 7, para tomar o pequeno-almoço. Desta vez há torradas.

Uma romãzeira.

Ficou desfocada, mas mantive-a. A placa indica “ETV Palaban”, ou seja, Escola Técnico-Vocacional de Palaban (Palaban é o nome da terra, aqui em Pante Macassar – e onde também fica o aeroporto). Quando parei a bicicleta para fotografar, ia um homem a passar, timorense, dos seus 30 anos, e eu perguntei-lhe o que é isto. Ele respondeu-me que é uma escola de televisão. E eu, naquele momento, estranhei, mas porque não haveria de acreditar?… De facto há maiores necessidades no Oecusse do que uma escola de televisão, mas enfim. Afinal ele estava a pregar-me uma partida. Se eu te encontrar outra vez, rapaz, eu te direi.

Loja de fotocópias onde o Valério e o Sanches vão tratar da papelada para passarmos a fronteira novamente para o lado indonésio.

O avião a chegar. Lá dentro vem o meu pneu de gel, supostamente.

Esta placa está na sala de espera do aeroporto. Só então percebi que o avião “James” que o guia Sanches tanto fala, afinal será o avião “ZEESM”. Aqui no aeroporto encontrei o casal de espanhóis que estava na véspera a jantar no restaurante português, e afinal apenas ele é espanhol; ela é portuguesa – e são os donos do restaurante. Vão passear a Díli no avião “James”. Foram eles que me esclareceram – “Que avião James é este?…” – perguntei-lhes. “Avião James?” – devolveram-me a pergunta. “Sim, avião James. É a companhia área?”. E então chegámos à conclusão que deve ser o avião “ZEESM”, mas não ficámos com a certeza, mesmo assim. O avião aterrou às 8.45h e até lá estivemos a falar um pouco. Perguntei-lhes como é que vieram parar aqui ao Oecusse. De onde veio a decisão de abrir um restaurante aqui, e como é cozinhar pratos portugueses, com ingredientes portugueses. Então ele – que é espanhol – já tinha estado em trabalho várias vezes aqui no Oecusse, pelo que conhecia a terra. E juntamente com a mulher decidiram investir por aqui. Não podem ausentar-se muito tempo, disseram-me, é preciso estar sempre a supervisionar o restaurante e a equipa. A cozinha é tipicamente portuguesa, e o cozinheiro (ou cozinheiros?) tiveram de aprender tudo, e cumprir com rigor as regras de confeção.
Entretanto o avião chegou e eles entraram para um pequeno autocarro, juntamente com os restantes passageiros, e foram levados para a pista. Eu continuei sentada à espera, com a bicicleta ao meu lado. O novo pneu e jante já devem ter sido descarregados do avião e devem estar aí a chegar.

E entretanto, para grande surpresa minha, um homem veio a correr na minha direção, pega na minha bicicleta com muito maus modos e dirige-se para fora da sala de espera com ela, a correr. A sala de espera é um cubículo exterior, com bancos de pedra e grades à volta. Se estiver vento, levamos com o vento, por exemplo. E eu fui a correr atrás dele. Isto não está a acontecer – em frente a esta gente toda vai roubar-me a bicicleta? Onde estão o Valério e o Sanches? Preciso de ajuda!
Afinal é um funcionário, muito irritado pelo facto da bicicleta estar ali. Nem disse nada, nem explicou nada, nem me convidou a sair. Simplesmente agarrou na bicicleta e correu lá para fora com ela, furioso. Ia deitá-la ao chão, mas finalmente ter-se-á feito alguma luz no seu espírito. Se calhar é melhor não tratar assim os clientes, nem atirar com os seus bens para o chão, desta maneira. Eu agarrei na bicicleta (e ele largou-a), comigo ainda a tentar perceber o que se passa. Não houve uma única palavra em todo este episódio. Será mudo?
Fui ter com o Valério e com o Sanches, junto à pickup, estacionada ao lado do cubículo, e contei-lhes o sucedido. Eles não viram. O Sanches riu-se e disse que o funcionário não sabe que esta bicicleta dorme todas as noites comigo, que é muito bem tratada. E o Valério tentou perceber quem é o funcionário, tão bruto, e tentou acalmar-me, rindo-se também com o facto da bicicleta ser muito estimada. “Calma, calma” – disse-me.
Cá está o treino em educação e hospitalidade que é preciso dar ao pessoal que lida com o público, nesta área do turismo. Mas foi o único caso que me sucedeu em toda a viagem, diga-se.

Já chegou o novo pneu com gel mandado pelo mecânico em Díli. O Valério mudou-o ali mesmo, eu testei, funciona. Prosseguimos viagem comigo na pickup, para já. Estamos agora em Pante Macassar e temos de passar a fronteira para a Indonésia (o Valério recomenda-me estar dentro da pickup). Vamos em direção a Kefa – ou Kefamenanu – uma cidade na parte de Timor indonésio.


¹ “ZEESM TL e RAEOA” (s.d.). ZEESM TL – Zonas Especiais de Economia Social de Mercado de Timor-Leste. Página consultada a 6 janeiro 2018,
<https://www.zeesm.tl/pt/zeesm-tl-e-raeoa/>

² “Lançada a primeira pedra inaugural da ZEESM” (2014, 26 Maio). Sapo Notícias. Página consultada a 6 janeiro 2018,
<http://noticias.sapo.tl/portugues/info/artigo/1386802.html>

³ Davidson, Helen (2017, 25 Maio) “Timor-Leste’s big spending: a brave way to tackle economic crisis or just reckless?”. The Guardian. Página consultada a 6 janeiro 2018,
<https://www.theguardian.com/world/2017/may/25/timor-leste-spending-big-economic-crisis>

⁴ “Timor-Leste – Oecusse Economic and Trade Potential : Overview of Oecusse Today and Long Term Potential” (2016). World Bank, Washington, DC. License: CC BY 3.0 IGO. Página consultada a 6 janeiro 2019,
<https://openknowledge.worldbank.org/handle/10986/24726>

⁵ “Trabalho” (s.d.). ZEESM TL – Zonas Especiais de Economia Social de Mercado de Timor-Leste. Página consultada a 6 janeiro 2018,
<https://www.zeesm.tl/pt/o-nosso-trabalho/>

⁶ Sampaio, António (2014) “Chineses querem comprar todo o projeto de Oecussi”. Plataforma Macau. Página consultada a 6 janeiro 2018,
<http://www.plataformamacau.com/lusofonia/timor-leste/chineses-querem-comprar-todo-o-projeto-de-oecussi/>

⁷ “Plataforma Macau – Descrição” (s.d.). Diáspora Lusa. Página consultada a 6 janeiro 2018,
<http://www.diasporalusa.pt/empresas/plataforma-macau/>

086 - Passagem da Fronteira para Timor Indonésio

O Valério e o Sanches disseram-me que esta casa, no Oecusse – mais precisamente no sub-distrito de Oesilo, foi onde o Eduardo Massa, da Timor MEGAtours, nasceu e cresceu. Fui espreitar a casa. Agora pertence ao Estado e tem inclusivamente um militar a tomar conta dela. Fizeram-me assinar um livro de presenças. No topo diz “Ministério da Administração Estatal”.

Um amigo de infância do Eduardo Massa, que descobri por acaso. Estava a fotografar a casa e as divisões, e este terá achado graça e perguntou-me quem sou eu. Respondi que ando a passear com a Timor MEGAtours, do Eduardo Massa, o qual nasceu aqui. E afinal eles conhecem-se. Telefonei ao Eduardo e passei-lhe o telemóvel. O telemóvel que ele tem no ouvido é o meu. Falaram em tétum e foi engraçado ver dois amigos de infância, com tantas recordações que terão, a falarem um com o outro tanto tempo depois, inesperadamente.

Chegámos à fronteira com a Indonésia. São 11h. Esta casinha pertence à parte de Timor-Leste. A seguir vamos para as casinhas indonésias. São uma dúzia de casinhas que temos de passar. É preciso mostrar os papéis em todas.

Todas as casinhas que temos de visitar. Ainda há mais do lado esquerdo. Isto é pior do que o jogo do monopólio e das casinhas que temos de passar. Em cada casinha do monopólio arriscamo-nos a ter de pagar qualquer coisa, e aqui também. O próprio relatório emitido pelo Banco Mundial (ver crónica anterior) sabe disso. Conforme já referi na crónica 74 quando atravessámos a outra fronteira, são quatro instituições a passar: alfândega, militar, imigração e polícia.

No peito do agente diz “Health Quarantine” (Quarentena de Saúde) e no ombro tem as siglas “KKP”: Kementerian Kelautan dan Perikanan, ou seja, Ministério dos Assuntos Marítimos e das Pescas.

No peito tem escrito “Polri”, ou seja, Polícia Nacional.

“Bea Cukai” significa alfândega.

Na parte indonésia de Timor vêem-se muitas imagens destas, de militares com armas nas mãos. Assusta um pouco. Há muitos complexos militares. Pergunto-me se não será uma maneira fácil de ocupar a população masculina. Não é propriamente agradável para um turista percorrer um país com tantas imagens de militares e armas. Irei ver e fotografar uma série de pinturas como esta. E considero este fenómeno interessante e merecedor de um estudo sociológico e cultural aprofundado sobre a nação e o povo indonésio. (Se calhar já existe?). Enfim, afinal de contas tudo é muito recente, a ocupação de Timor-Leste terminou há 19 anos apenas. Será altura de começar a lavar a cara, a apagar estas coisas tão pouco amigáveis. Curiosamente os contactos que tive com agentes indonésios, sobretudo aqui nas fronteiras, não têm nada a ver com esta imagem agressiva que passam. Fui sempre bem tratada, com cuidado até. Aqui – nesta fronteira – tive de ir à casa de banho. Um rapaz fardado ouviu o Valério (que falou em indonésio) e imediatamente me levou à casa de banho, com delicadeza até. Pedem-me fotos, sorriem, são curiosos. São outra geração, afinal de contas. Um militar é sempre um militar, em guerra terá que agredir e matar, mas em tempos de paz todos têm as suas famílias, mães, pais, mulheres e filhos, estudos e educação. Eu própria queria ter seguido a carreira militar. Se voltasse atrás, no passado, mudaria isto na minha vida. Portanto é uma questão do Estado indonésio começar a mostrar outra cara, mais pacífica. Os tempos das invasões e das torturas supostamente já lá vão.

Uma rapariga a viajar sozinha. Sozinha mesmo sozinha. Eu tenho o Valério (e agora o guia Sanches, temporariamente, na parte da Indonésia), tenho a pickup e uma agência de viagens – a Timor MEGAtours – a tratar-me de tudo e a acompanhar-me com atenção e cuidado. Só o Valério já é quase o meu guarda-costas. Admiro a coragem de uma rapariga assim, a viajar nas “microlets”, as carrinhas privadas que transportam pessoas, com todos os riscos que isso implica e os acontecimentos que já sucederam no passado nestas “microlets”, nomeadamente no Brasil. Um casal entrou numa, e pelo menos ela nunca mais saiu. Só apanhar um táxi em Lisboa, às tantas da manhã, já me deixa com um nervoso miúdo, quanto mais uma carrinha privada na Indonésia ou onde quer que seja. As pessoas dizem-me que sou muito corajosa em viajar sozinha, mas eu não me acho assim tão corajosa. Pelo menos comparada com estas pessoas. Eu tenho sempre alguém a cuidar de mim, alguém atento, se apareço ou não, onde estou, com um número de telefone permanente. Claro que há riscos, mas podem ser minimizados. Tal como comentei na crónica 13, qualquer um de nós pode morrer atacado à porta da sua casa. Ou numa tranquila aldeia em Portugal. Portanto é com espanto e até temor que olho a bravura de uma menina bonita como esta, que me disse o país de origem e eu esqueci-me (é da Bélgica?); ainda trocámos algumas palavras – perguntou-me se lhe dava boleia até Kefa – claro que dou. O Valério ajudou-a a colocar a sua pesada mochila no tabuleiro da pickup (e ela fez-me referência à pujança de um rapagão como o Valério – rimo-nos as duas) mas depois acabou por desistir ao saber que após a fronteira eu iria seguir na bicicleta, mais lentamente portanto. Então tirou a sua mochila e foi contratar uma microlet para a levarem.

O militar sorridente da “TNI”, ou seja, Tentara Nasional Indonesia – Exército Nacional Indonésio, indicou que precisava de tirar-nos uma fotografia para passarmos a fronteira. Tirou uma foto a cada uma de nós. Achei isto muito sofisticado, tirar-nos uma fotografia com o telemóvel, e certamente transferi-la por email para o computador, ou bluetooth, ou seja o que for. Nada disso, o malandro queria mesmo ficar com uma foto das duas raparigas. Eu até tiraria uma selfie com ele, tantas selfies que já tirei nesta viagem, e ele ficaria com melhor recordação – ao menos eu estaria na sua companhia, mas pronto, o rapaz é tímido (enfim, não muito, dado que está em funções militares e mesmo assim é atrevido a tirar fotografias). Tal como comentei na crónica 75, na outra fronteira que passámos, estes TNI metem-me medo, com o seu aterrorizante passado. Mas tal como na crónica 75, também este rapaz ainda usava fraldas, nesse tempo.

Finalmente passámos a fronteira. Passámos as casinhas todas. Mostrámos a papelada toda.Temos tudo em ordem. Finalmente vou dar umas pedaladas em território indonésio.

Os miúdos da ilha de Timor são todos iguais, já dá para perceber logo nos primeiros minutos de bicicleta por Timor indonésio. Miúdos, ou aqui adolescentes. Seja na parte de Timor-Leste, seja na parte de Timor indonésio, a festa é a mesma, como se pode ver pelas fotos. Eu estou atrás da professora. Quando vi esta foto no computador nem eu própria me via. Eu estou na foto muito bem rodeada!

Fui chamada por esta senhora e mais outra, que não fotografei (e arrependi-me). As senhoras chamam-me, curiosas. Eu vou ter com elas, paro a bicicleta e vou ter com elas. E agora falar indonésio é mais complicado. O tétum tem muitas palavras parecidas ao português, e vamo-nos desenrascando. Mas a língua indonésia já não tem nada a ver. O Valério já está a ensinar-me algumas coisas e já sei dizer “Bom Dia” – é “Selamat Pagui”. Em tétum, bom dia… é bom dia. Aqui tenho que lembrar-me do Selamat Pagui. Concentrar-me na estrada, na condução pela esquerda, estar atenta aos cumprimentos, e lembrar-me do Selamat Pagui instantaneamente, ao passar na bicicleta, confesso que não está a dar bom resultado. Comecei a dizer “Hello” e todos respondem. Curiosamente em Timor-Leste ninguém responde ao “Olá” e ao “Hello”, por isso rapidamente substituí pelo “Bom dia” (e respondem-me sempre). Aqui na parte indonésia respondem ao “Hello”, pelo que desisti do Selamat Pagui. Além de que indo a determinada velocidade na bicicleta, as pessoas até ouvem o Selamat, mas o Pagui já era.

087 - Precisamos de Rupias e de Almoçar

O novo pneu da bicicleta faz muito barulho. Algo aqui não está bem. As pessoas apercebem-se da minha chegada ainda eu vou longe, com tamanho barulho. Neste silêncio parece que vou numa  mota. Vamos ter que resolver isto.

Chegamos a Kefa (nome abreviado de “Kefamenanu”) e eu passo para o tabuleiro da pickup. O Valério e o Sanches andam em busca dum banco para trocar dólares por rupias. Recordo que a moeda usada em Timor-Leste é o dólar americano.

Uma loja de bolos! Como me encantam as lojas de bolos. Em Timor-Leste ainda não há nenhuma, pelo menos que eu tenha visto em Díli, não há. São sinais de riqueza, estas lojas de bolos. Já há dinheiro para bolos e lojas de bolos.

Um bolo custa 2.500 rupias. A rupia não vale nada. Dez mil rupias são 60 cêntimos de euro. Eu nem tenho bem noção destas contas e preciso de recorrer à máquina calculadora do telemóvel para me entender com isto. 2.500 rupias são 15 cêntimos. Eu estou esgalgada com fome, mas ninguém tem rupias! Já corremos metade dos bancos de Kefa, e ninguém converte dólares em rupias. Estamos tramados. Precisamos de rupias para almoçar! Ninguém quer dólares americanos por aqui.

Recordo que eu vou em pé no tabuleiro da pickup, o que me dá uma visibilidade tremenda da cidade.

Mais outra loja de bolos. Já estou a ficar nervosa com a falta de rupias e tantos bolos à minha volta. Mas efetivamente eu quero almoçar, não quero bolos.

Vamos almoçar! O guia Sanches trouxe algumas rupias consigo, de Timor-Leste, e hão-de chegar para o almoço.  Senão passamos a tarde toda a entrar em bancos, cheios de fome. Agora vou experimentar a comida indonésia. O sistema é o mesmo de Timor-Leste, apercebo-me. A comida já está feita e exposta em tabuleiros.

Fui moderada na escolha. Eu não quero comer picante, o que limita também as opções. À esquerda é um ovo estrelado. Junto ao ovo cozido está batata doce frita. Não convém eu fazer grandes experiências alimentares enquanto pratico desporto. Andar de bicicleta com dores de estômago não é agradável. E estava tudo saboroso.
(E mais um sumo de mirtilo, sob insistência do Valério para que eu bebesse alguma coisa. Normalmente não bebo às refeições. Bebo litros de água durante o dia. Este sumo é curioso, vem com mirtilos inteiros dentro da lata. Dado que bebi diretamente da lata, não foi sem surpresa quando entrou o primeiro mirtilo na boca, inesperadamente).

088 - Continuação de Carro até Soe, em Timor indonésio

Estas três fotos foram tiradas no restaurante. Ainda bem que eu já tinha comido tudo, por esta altura, quando fui à casa de banho e aproveitei para espiolhar. A casa de banho é igual a todas, na ilha de Timor. Uma sanita e um tanque ao lado, com o recipiente com uma pega, para deitar água para dentro da sanita. Autoclismos é uma raridade.

Finalmente, nesta drogaria trocaram-nos dólares por rupias. Nos bancos não fazem câmbios. Tem de ser numa drogaria com donos chineses. O que seria o comércio mundial sem os chineses.

O guia Sanches precisou de uma mochila para guardar as centenas de milhares de rupias que recebeu, como conversão dos dólares americanos. Agora percebi porque trouxe ele uma mochila vazia, de Timor-Leste. Ficou cheia agora. Não há bolsos nem carteira que aguentem. Somos três – hotel para três, comida para três, mais a gasolina e quaisquer outras despesas que surjam. Vamos passar três dias na parte indonésia de Timor. O Sanches parece o pai natal com a mochila às costas.

O Valério e o Sanches compraram-me este gelado. Seis mil rupias (ou seja, 36 cêntimos). É o mais caro de todos. Escolhi-o não por ser o mais caro – longe de mim – mas porque era o mais atraente, com cobertura de chocolate e amêndoa. Faz-me lembrar o Magnum lisboeta (e europeu).
Nesta loja de telemóveis (que não fotografei, é uma loja igual a qualquer outra, de telemóveis) ambos tentaram comprar cartões de telemóvel indonésios. Temos de comunicar entre nós – sobretudo eu na bicicleta – e o meu cartão timorense não permite chamadas estrangeiras. É um daqueles cartões descartáveis, praticamente só para turistas ou pessoas que vão em negócios ou em trabalho. Mas não deixam. Aqui na parte indonésia não é permitido comprar cartões de telemóvel indonésios. Temos de ter uma família indonésia. O Valério sugeriu então ir constituir família aqui em Kefa, por uma noite, para resolvermos o assunto. Foi motivo de gargalhadas para o resto da viagem. Eu também posso procurar um indonésio interessante e propôr-lhe casamento, para conseguir igualmente o meu cartão de telemóvel. Como é possível que esta gente tenha lojas de bolos por todo o lado, e não venda um simples cartão de telemóvel a turistas. Ainda não inventaram os cartões descartáveis, válidos por 15 ou 30 dias, está visto. Timor-Leste não tem lojas de bolos, mas tem cartões de telemóvel! Prefiro os cartões de telemóvel!
Enfim. Em último caso tenho o meu telemóvel português. Pago 5 euros por cada minuto de chamada, mas em último caso uso-o.
Felizmente não foi preciso porque lá conseguimos três cartões de telemóvel por portas e travessas. Constituímos família, pronto.

À esquerda está um dos milhares de cartazes distribuídos por todo o lado, com um anúncio a tabaco. Associar imagens desportivas a tabaco é delicado. São muitos e sempre associados a imagens de desporto. Até é difícil tirar uma foto na parte indonésia sem apanhar estes cartazes. Mais à frente vou apanhar outro.

Resolvidos todos os nossos assuntos – passagem de fronteira, câmbio para rupias, almoço – são 3 da tarde. Eu não quero terminar a viagem às 3 da tarde. É cedo demais para ir para o hotel, e aqui em Kefa é uma barulheira desgraçada, só fumo, carros e motas. Isto não tem graça nenhuma para passear de bicicleta. Vamos embora – propus ao Valério e ao Sanches. Vamos já seguir para o próximo destino.
E assim fizemos. Vamos agora em direção a Soe. O nosso objetivo é Kupang, mas não dá para fazer tudo num só dia.

Estamos em Soe. E agora encontrar alojamento tranquilo e silencioso, longe da estrada principal. Não temos nada marcado, claro. Nem sequer era suposto pernoitarmos aqui. Estava planeado ficarmos em Kefa.

Depois de algumas buscas, inclusive uma guesthouse muito pacata, a uns trezentos metros da estrada principal, numas ruelas – mas esgotada – viemos parar a este hotel. A entrada para os carros está na beira da estrada, mas o hotel (o edifício) fica relativamente afastado, e sem espaço aberto para a estrada, o que isola o louco ruído do tráfico destas cidades barulhentas, cheias de motas. E tem wifi – depois de muito pedir.
Aqui na Indonésia é uma hora a menos do que em Timor-Leste.

Deram-me a escolher entre dois ou três quartos. Escolhi este, no rés-do-chão. Mal sabia eu que iria ter a companhia dum porco, a roncar de vez em quando, pois o curral fica mesmo ao lado do meu quarto, nas traseiras. E muitas moscas da pocilga, na casa de banho. Antes de sentar-me na sanita é preciso enxotar as moscas, que têm asas redondas. Há uma pequena janela, na parede, no topo, só com uma rede, pelos vistos insuficiente para impedir a sua entrada. Pus o spray anti-mosquitos na casa-de-banho, deixei atuar, e quando voltei tinha um cemitério de moscas.
Faz frio à noite. Tive de reforçar o vestuário. Voltei a dormir com cinco camisolas vestidas e as meias que me deram no avião.

Não há água quente, apesar de dizerem que sim. Eu detesto tomar banho de água fria, muito menos com o frio que faz nesta terra. Ando a tremer de frio. Tomei portanto um banho semicúpio com o chuveiro da sanita. (Alguém sabe o que é um banho semicúpio? É o que dá visitar o encantador Museu do Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa. Aprendem-se estas coisas… Ainda por cima é grátis, a entrada. Recomendo! E vão ver ao dicionário o significado da palavra, tal como eu fiz na altura, que remédio… eu sabia lá o que era um banho semicúpio). Só têm chuveiro de parede, portanto eu teria de tomar banho de corpo inteiro, cabelo inclusive, se usasse o chuveiro da parede. Mas o Valério e o Sanches tiveram água quente. Alguma coisa se passou com o meu. Quanto mais depressa formos embora de Soe, melhor. Só estamos de passagem. Eu não quis jantar sequer, não tenho fome. Tenho bananas, leite e bolachas, se quiser petiscar algo no quarto. O Valério e o Sanches foram jantar e eu não quis ir com eles. O Sanches insistiu muito, tive de tranquilizá-lo. O Valério já sabe que de vez em quando não me apetece jantar, não tenho fome, mas o Sanches ainda não sabe disto.

Hoje só fiz 27,5 km na bicicleta. Fizemos mais 123 km na pickup, num total de 151 km, desde Oecusse até aqui a Soe. As estradas na Indonésia foram boas, pelo que foi um dia ligeiro, marcado apenas pelas maçadas da fronteira e dos câmbios.

089 - 18º Dia, a Caminho de Kupang

Hoje esperam-me 76 km de bicicleta, praticamente nem vou andar na pickup. A estrada entre Soe e Kupang é boa. Dormi bem, mesmo com o vizinho porco, que dormiu toda a noite também, caladinho. Dormi entre as 21h e as 6 da manhã. Às 21h na Indonésia já são 22h em Timor-Leste.

Pequeno-almoço às 7. Há um grupo de cerca de 20 italianos e mais uns franceses e ainda outras nacionalidades. Ouvem-se muitas línguas europeias por aqui.

Banana frita.

Carne e arroz ao pequeno-almoço, que maravilha. Bebi café com uma dose generosa de leite condensado. Dado que não jantei, agora de manhã estou cheia de fome. Comi imenso e com prazer, logo às 7 da manhã. Está tudo muito saboroso. Ainda temos a nossa manteiga de amendoim, que comi com pão.

O Valério e o Sanches ficaram no hotel e eu fui dar uma volta por Soe. A placa diz “Kefamenanu” porque eu voltei para trás, para conhecer a cidade. Hoje iremos em sentido oposto, em direção a Kupang.

Já em direção a Kupang. Regressei ao hotel para ir buscar o Valério e o Sanches, e partimos em direção a Kupang. O meu pneu teve de ser mudado outra vez porque o barulho da jante nova é insuportável. Além de que agora é só alcatrão, pelo que posso usar o pneu da bicicleta suplente (mais liso). O pneu novo é mais cardado, adequado para terra e pedras. Seja como for, o barulho que faz não é próprio de uma bicicleta, veículo silencioso por natureza. Vamos mesmo ter de resolver isto em Kupang.

090 - De Bicicleta em Timor Indonésio

Uma árvore jaqueira, que dá a a deliciosa fruta chamada jaca. Cheira mal que se farta, mas é doce e saborosíssima. Também já mostrei jacas na crónica 49, em Manufahi.

Ao fotografar a jaqueira, eles apareceram. Afinal de contas eu é que estou no quintal deles, aparentemente. Saí da estrada, deixei a bicicleta na berma e vim fotografar a jaqueira. Os três rapazes não sabem falar inglês, mas a rapariga sim e ainda falámos durante algum tempo. Ela tem 21 anos e estuda na Universidade Nusa Cendana, uma universidade pública em Kupang. Disse-me que está na “Animal Science Faculty”, ou seja, Faculdade de Ciência Animal. Não é veterinária, é diferente. Vejo que algumas universidades portuguesas também têm este curso, ou pelo menos uma especialização, como é o caso da Universidade de Évora e da Universidade do Porto. No site da primeira, indica sobre a licenciatura em Ciência Animal:

“Saídas Profissionais:

  • Empresas que investigam, produzem e/ou comercializam tecnologias, alimentos, equipamentos ou medicamentos para animais.
  • Empresas de biotecnologia (por ex., envolvidas em melhoramento animal, transferência embrionária ou na utilização de animais transgénicos para a produção de proteínas/tecidos animais para uso em medicina humana ou veterinária).
  • Empresas ou outras Entidades associadas:
    1. à utilização dos animais em serviços de companhia, desporto ou lazer (por ex., produção/treino de cães de raça, oferta de atividades equestres, jardins zoológicos, parques naturais ou animais de interesse cinegético/turístico).
  • Empresas farmacêuticas com desenvolvimento/testagem de produtos em animais (por ex., medicamentos ou produtos de beleza) ou outras entidades que investigam na área da saúde animal/humana, recorrendo a animais experimentais.” (etc, etc).¹

Eu disse-lhe que ela parecia mais nova, e afinal já tem 21 anos e é tão inteligente. Ela riu-se.

A partir de agora o meu cantil da bicicleta está cheio com água de coco. Não me canso de beber água de coco. É ligeiramente doce e alimenta tão bem. São agora 11 da manhã e tenho 40 km feitos na bicicleta. É tudo a direito, não há subidas. Faz muito calor, com certeza mais de 30 graus. Tão bom. O calor nunca é demais. (Como comentei noutras crónicas de outra viagem qualquer – da Índia talvez? – quando todos morrermos assados com o aquecimento global, eu devo ser a última a morrer, de certeza… darei o último pio quando estivermos talvez com 60 graus…)

Pelo que percebo ele está à espera de transporte, numa paragem de autocarro (ou carrinhas “microlets”).


¹ “Ciência e Tecnologia Animal – Saídas Profissionais”. Universidade de Évora, Departamento de Zootecnia. Página consultada a 13 janeiro 2019,
<http://www.dzoo.uevora.pt/index.php/dzoo/ensino/licenciaturas/ciencia_e_tecnologia_animal>