Timor: 831 km de bicicleta, sozinha, 26 dias

121 - De Bicicleta pelas Montanhas

Hoje estou no 24º dia da viagem, num total de 26 dias. O fim aproxima-se, com grande tristeza minha. Dirijo-me para Díli, onde pernoitarei, e amanhã à hora de almoço partirei de avião para Lisboa. Mas, de qualquer forma, cada coisa a seu tempo. Ainda tenho estas montanhas para desbravar.

Subidas não é comigo, tenho uma preguiça desgraçada e prefiro ir a pé. Aos saltos em cima de pedras então ainda é pior.

O meu assento já deu o berro. Este assento é meu, trouxe-o de Lisboa e tem mais de 1.500 km. Isto gastou-se comigo a montar e desmontar a bicicleta. Efetivamente leva-me os calções atrás se eu não me levantar como deve ser, com altura suficiente para não raspar. Conforme referi na crónica 4 – quando pedi ao mecânico em Díli que mudasse o assento para o meu – este é um assento em gel, muito confortável. Enfim, sou uma ciclista pouco dada a radicalismos – evito as subidas e tenho um sofazinho para sentar-me. Desenganem-se os que pensam que 800 km de bicicleta é uma coisa muito dura. Nada disso. Há que gozar a vida e quanto mais suave for, melhor. Aos poucos vai-se fazendo.

Eu parei (e desmontei) para fotografar a galinha com os pintainhos. Depois acabei por fotografar o assento da bicicleta. E depois vi-os aos dois: aproximei-me, cumprimentei-os e chamou-me a atenção a camisola vermelha com “Portugal”, e apontei para ela. Eles riram-se. E mesmo sem percebermos grande coisa (eu de tétum, eles de português), acabaram por explicar-me que estiveram ao serviço de Portugal e mostraram-me fotos antigas suas, de 1975:

À direita ele próprio. E ainda o pai e um colega. Foto de 1975 também.

Cabelo comprido em cima e com madeixas louras despenteadas.. estes miúdos timorenses têm cá um style…

Molhei as mãos na água. Está fria.

Estou no suco de Baboe-Leten, sub-distrito de Atsabe, distrito de Ermera.

Esta escola chama-se “Heróis do 30 de Agosto”, devido aos incidentes ocorridos em 1999, aquando da realização do referendo. Neste referendo, conforme expliquei na crónica 71, foi dado aos timorenses o poder de escolha entre uma maior autonomia dentro da Indonésia, ou a independência. O referendo foi organizado e monitorizado pela Missão das Nações Unidas em Timor-Leste (UNAMET). As milícias, protegidas pelo exército indonésio, atacaram com armas de fogo e pedras o centro de votação aqui em Baboe-Leten, matando dois funcionários da UNAMET e tentando matar um terceiro. Um local de votação especial teve de ser estabelecido em Hatulia (também em Ermera) para os deslocados internos que estavam com medo de regressar a casa para votar. Os que regressaram, no entanto, a maioria – especialmente os líderes do CNRT, funcionários da UNAMET e ativistas estudantis – voltaram aos seus esconderijos nas montanhas e florestas logo depois de votar, antecipando a violência. Muitas pessoas esconderam mantimentos e pertences nas montanhas e na floresta, na expetativa do que aí vinha. Se não saíssem depois da votação, seriam mortos.¹

A professora.

As aulas começam às 8.30h mas agora são 9.40h e ainda não chegaram todos. A  primeira aula é sempre assim, disse-me a professora. Nesta foto estão os alunos que já chegaram, faltam os restantes!

Suco de Baboe-Leten, sub-distrito de Atsabe, distrito de Ermera. (Sobre o significado de “suco” remeto para a crónica 78).

A descer e sempre a tremer com as pedras, faz a máquina fotográfica nas costas cair-me para a barriga.

Se repararem, o pneu está a levitar no ar! O rapaz atirou-o e foi a correr brincar para outro lado.

Estou a ser espiada nesta minha descida. Eles vão-me acompanhando o caminho todo, lá em cima, a correrem.


¹ “Chega! Report” (2013, Novembro). The Final Report of the Timor-Leste Commission for Reception, Truth and Reconciliation (CAVR).” Volume II, Part 7.3.: “Forced Displacement and Famine”, pág. 1313. Author, CAVR. – Jakarta: KPG in cooperation with STP-CAVR. Livro online consultado a 25 Fevereiro 2019,
<http://www.chegareport.net/download-chega-products-2/>

122 - De Bicicleta pelas Montanhas II

Café a secar ao sol. Sobre o café remeto para a crónica 120.

Algumas das cerejas já estão descascadas e no interior está então o grão do café.

Estou escondida a fazer xixi no meio dos arbustos e ouço passos atrás de mim. Sempre a virem na minha direção, titubeantes, a aproximarem-se cada vez mais. Apanhei um susto dos diabos. Mas quem é que vem na minha direção? Não posso fazer xixi descansada?
Para grande surpresa minha era este porco. Em vez de assustar-se e fugir, não. Veio bisbilhotar. Vai atacar-me ou quê? Posso ao menos terminar de fazer xixi ou tenho de ir a correr com os calções na mão?
Que coisa mais insólita. Que porco atrevido…
E depois com a pressa fiquei com uma palhinha na nádega. Subi os calções e vieram palhinhas agarradas, pelos vistos. A picarem-me de vez em quando. Estão a ver os cavalos a serem picados para acelerarem? Eu até acelerei na bicicleta, com as picadelas na nádega. A certa altura não aguentei mais, parei a bicicleta e meti a mão dentro dos calções a tentar descobrir o que está a picar-me desta maneira. A figura não é das melhores. Estava a um grupo curioso a olhar para mim. Também podias ter feito isto noutro local mais discreto, Rute. Não, teve ser na berma da estrada. E não encontrei nada. Pelo menos mantendo os calções vestidos não consegui encontrar nada. Só à noite, quando me despi para tomar banho, é que lá caiu a palhinha no chão.

Uma gigante cana de bambu!!

Lembro-me de falar dos “cavalos de vento” do simbolismo tibetano, para o qual a mente está montada numa energia ou vento interior. Esta energia é chamada de “cavalo de vento”. É a força deste cavalo de vento que determina se a nossa mente é dominada por forças negativas ou positivas. Neste momento o meu cavalo de vento leva-me pelas montanhas de Timor. É algo mais forte do que eu que está a impelir-me. Já estranho a minha própria voz ao responder “bom dia” a quem me cumprimenta. Sou eu? Sou eu que aqui vou?
Com o passar do tempo, e com a total imersão na realidade timorense, já não sou a mesma pessoa que era quando cá cheguei, no primeiro dia da viagem. Já estranho a minha própria voz.
Leva-me, cavalo de vento, leva-me pelas montanhas de Timor.

Uma alfarrobeira.

O estilo deste rapaz. Jeans desbotados slim fit. T-shirt da Levis. Uma fita com a bandeira de Portugal na cabeça. Todo este estilo é trabalhado, nada é por acaso…

E este garoto quis à viva força que eu o fotografasse. Pediu-me tanto para eu tirar-lhe uma foto. Eu nem sabia bem como tirar-lha, ele já tinha perdido a naturalidade (para eu o apanhar no seu dia-a-dia) e andava de volta de mim a pedir uma foto. Então fica aí com a minha bicicleta, disse-lhe eu. É pequenino ainda para montar esta bicicleta, teve de ficar em pé ao lado.

Bambu.

E agora entro numa “twilight zone”, com esta espécie de ninhos. Ainda não tinha visto isto em parte nenhuma de Timor, muito menos com esta abundância.

São fetos epífitos! Não são parasitas, nem são ninhos de pássaros. São fetos! Parecem secos pois no Verão é a estação seca e eles murcham.  Estes fetos estabelecem uma “relação comensal” com a árvore, ou seja, vivem associados à árvore, retirando benefícios dela, mas não a prejudicando. Efetivamente as árvores estão vivas e saudáveis. Segundo a Wikipedia:
Epifitismo é a relação comensal entre duas plantas ou algas na qual uma (epífita) vive sobre a outra (forófito) utilizando-se apenas de apoio e sem dela retirar nutrientes e sem estabelecer contacto com o solo. O epifitismo é muito comum nas florestas tropicais.
O termo “epífito” foi cunhado em 1815 por C.F. Mirbel e vem da junção dos termos gregos epí (sobre) e phyto (planta), significando, portanto, “sobre planta”.
Em geral, as epífitas vicejam sobre o tronco das árvores, dispõem de raízes superficiais que se espalham pela casca e que absorvem a matéria orgânica em decomposição disponível. Muitas vezes, as raízes são acompanhadas por um fungo microscópico que faz uma associação mutualística conhecida como micorriza, que se encarrega de transformar a matéria orgânica morta em sais minerais, facilitando a sua absorção pela planta.
As epífitas jamais buscam alimento nos organismos hospedeiros. As suas raízes superficiais não absorvem a seiva da planta hospedeira, não há qualquer relação de parasitismo. Ou seja, a presença de epífitas não prejudica a árvore ou o arbusto onde elas vegetam. A incidência de espécies epífitas diminui à medida em que aumenta a distância para a Linha do Equador, ou afasta-se das florestas húmidas para áreas mais secas.¹

Continuo no distrito de Ermera, mas já saí do subdistrito de Atsabe e estou agora no subdistrito de Letefoho, e no suco Ducurai. (Sobre o significado de “suco” remeto para a crónica 78).

Suco Ducurai, subdistrito de Letefoho, distrito de Ermera.


¹ “Epifitismo” (s.d.). Wikipedia. Página consultada a 26 Fevereiro 2019,
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Epifitismo>

123 - Almoço em Gleno, Ermera

Estou neste momento no suco de Goulolo. (Sobre o significado de “suco” remeto para a crónica 78).

Estou agora no suco de Goulolo e daqui a pouco chegarei a Borhei, sempre na bicicleta. Hoje praticamente não andarei na pickup. Vou fazer 76,5 km na bicicleta até chegar a Díli.

Atrás da casa vêem-se as árvores “Madre do Cacau” – Paraserianthes falcataria – que são usadas para fazer sombra às plantações de café (ver crónica 119 para mais detalhes). Aqui no subdistrito de Letefoho, distrito de Ermera, é uma das zonas onde se produz café para exportação. Esta zona está a cerca de 40 km de Díli.

São 13.15h e tenho 32 km feitos na bicicleta. Faltam 10 km para chegar a Gleno, onde vou almoçar. Como umas bananinhas para entreter o estômago, entretanto.

Agora estou na aldeia de Borhei, já indicada no mapa acima.

Cheguei a Gleno às 14h. Tenho 42 km na bicicleta. Venho cheia de pó. A marca do pó vê-se inclusivamente no contorno dos óculos, na cara. Tive de limpar os pingos de lama das lentes. Foi a parte mais poeirenta desta viagem a Timor, parece-me.

A Isabel vem aí com a minha comida. Só descobri estas maravilhosas almôndegas com toucinho e massa ao ver outro cliente a comê-las. Já eu tinha frango com arroz no prato, quando dei conta. Que é aquilo? – perguntei ao Valério. O Valério é fã de frango com arroz. Nunca vi alguém gostar tanto de frango com arroz. Não liga a batatas, muito menos a massa, nem quer saber de outras carnes. Só frango com arroz. Resultado: acaba por orientar-me para o frango com arroz. Nem se lembrou de apontar-me para a panela no fundo da cozinha, onde servem almôndegas com toucinho, massa e ovo cozido. Soberbas. Eu imaginava lá que aquela panela lá ao fundo tinha comida para servir. Resultado número dois: o Valério acabou por ter de mandar empacotar o frango com arroz, que eu não cheguei a tocar, e comi uma tigela de almôndegas. E ainda fui repetir, pelo que comi duas. Estas almôndegas devem ser idênticas às que vi no lado indonésio de Timor, na crónica 94, em Kupang.

Venho de Atsabe, vou para Díli e neste momento estou a almoçar em Gleno.

124 - De Bicicleta até Díli

A cidade de Gleno.

Meus amigos, tenho a confessar que nem sempre cumpri os limites de velocidade. Em Lisboa, no meio do trânsito, o limite é 50 km / hora. (Se calhar 50 também é excessivo, mas deixo essa discussão para outras núpcias). Ver uma estrada destas, deserta, e andar a 20 à hora… Efetivamente ultrapassei tudo e todos. Motas e carros. Os timorenses são mesmo cuidadosos a conduzir. Não tenho qualquer razão de queixa. Como comentei na crónica 5, se calhar os timorenses é que se assustaram comigo. Só me faltou voar.

Vou descer toda esta magnífica estradinha alcatroada. Me aguarrrrda…

Certo, certo, 20 km / hora.

Cheguei a Díli debaixo de chuva. A máquina fotográfica, às minhas costas, ainda apanhou uns pingos. O Valério a certa altura perguntou-me se eu queria a mala da máquina, mas eu recusei porque é mais um peso, e a máquina atrás das costas vai relativamente protegida em andamento. Mas aqui, no meio deste trânsito, ainda por cima a chover, desta vez passei para a pickup. Da última vez fui até ao apartamento a pedalar, atrás da pickup, e hoje queria fazê-lo também, mas paciência, tenho 76,5 km, são 5 da tarde, hora de ponta, acabou-se, Rute. Amanhã é o último dia desta viagem, tenho o avião às 13.20h. De manhã ainda vou dar uma volta de bicicleta por Díli, e tenho o Museu da Resistência para ver.

Começou a chover torrencialmente às 17.30h, pouco depois do Valério me deixar no apartamento da magnífica Vila Cardim. Desta vez fico noutro apartamento ao lado, pois o “meu” está ocupado agora. Mas eles são todos iguais. Espera-me um magnífico banho, com uma toalha gigante quase do meu tamanho, e um magnífico jantar de despedida, às 20h, na companhia do Valério e do Eduardo Massa, o dono da agência de viagens Timor MEGAtours, a qual organizou esta epopeia. (Sim, nesta altura do campeonato, depois de tudo bem detalhado nestas crónicas, até já digo que foi organizar uma “epopeia”).

O Eduardo Massa perguntou-me a que restaurante quero ir. Se quero comida chinesa, por exemplo. Até sou apreciadora (e na viagem à China não comi outra coisa durante um mês inteiro) mas agora não estou para aí virada. Perguntou-me se eu quero marisco. Também sou grande apreciadora, mas também não estou para aí virada. (Coitado do Eduardo, tem de ter uma paciência de santo com os clientes). Eu ainda lhe disse que até comia novamente uma bela canja de galinha, no hotel Timor. Mas o Eduardo não quer uma despedida assim, com canjinhas. Enfim, acabámos mesmo num restaurante português a comer uns belos bisteks com batatas fritas, grelos salteados e migas. Lá ao fundo estão umas deliciosas migas.

O Valério pediu batatas fritas, mas a gente já sabe que a coisa é complicada para ele, sem o seu arrozinho. E acabou mesmo por mandar vir um prato de arroz, pouco depois. Quais batatas fritas, o Valério é lá homem de batatas fritas. A gente bem que estranhou, mas pronto. Tudo regressou à normalidade com o seu prato de arroz. (Só faltou o frango, mas enfim). A mim faltou-me o esparguete. Eu sou lá mulher de batatas fritas. No entanto as deliciosas migas e os grelos salteados satisfizeram-me plenamente. Parto bem alimentada para as longas horas de voos e aeroportos que me esperam.

125 - Em Díli, Museu da Resistência

Alvorada às 7.30h. Tarde, para o que tem sido normal durante esta viagem. Mas o objetivo é visitar o Museu da Resistência, e este só abre às 9. Hoje não há dezenas de quilómetros para fazer na bicicleta. (Infelizmente).

Recordo que me foi dado a escolher entre ficar no hotel Timor, com pequeno-almoço incluído, ou ficar nestes apartamentos (crónica 4). Pelo sossego e tranquilidade optei pelos apartamentos. E aqui desenrasco eu própria o pequeno-almoço, com os meus cereais de chocolate trazidos de Lisboa, as belas bananinhas timorenses e manteiga de amendoim, se porventura ainda me apetecer outro petisco. Ainda tenho bolachas na mala, mas não são necessárias.

E parto na bicicleta, desta vez sem a companhia do Valério na pickup. No guiador da bicicleta vai um cadeado para prendê-la, enquanto eu visitar o Museu. Não tenho mapa nenhum de Díli. Vou mesmo com as indicações que o Valério e o Eduardo me deram na véspera. E pergunto a alguém, se me perder. Díli é uma cidade pequena, não hei-de conseguir afastar-me muito, mesmo que queira. Para já perguntei pela Universidade, pois o Museu é mesmo ao lado. Qual? – retribuíram-me. Ah pois, há várias. Procuro a UNTL – Universidade Nacional de Timor Lorosae. E lá me apontaram o caminho.

Museu da Resistência

O pior é que a corrente do cadeado é pequena demais, não consegue dar a volta à árvore. Eu até posso prender a bicicleta com a corrente, mas alguém pega nela ao ombro e vai-se embora. Ainda tentei deixá-la na entrada do Museu, no topo das escadas, onde conseguisse ir espreitá-la de vez em quando. Mas fui literalmente enxotada pelo segurança, com maus modos. Lá desci novamente as escadas a carregar a bicicleta. Fiquei portanto com receio. Telefonei ao Eduardo Massa a perguntar-lhe o que acha, se não é mais seguro mandar alguém aqui uns minutos tomar conta da bicicleta, enquanto eu visito o Museu. E o Valério estava disponível e veio na pickup. Eu estive 40 minutos no Museu, o Valério aguardou, agradeci-lhe e no final foi-se embora. Eu ainda fui dar uma volta na bicicleta, por Díli.

E aqui aconteceu um episódio insólito. Veio novamente o segurança, um homem dos seus 45/50 anos, magro e alto, todo vestido de preto – dizer-me que não posso tirar fotografias. Está a enxotar-me outra vez. Não posso tirar fotos? Isto fala dos Reinos de Timor, da chegada dos portugueses ao Oecusse, mas qual é o segredo disto? O flash estraga os placards ou quê? Então tiro sem flash.

Sem flash não se vê nada, mas quando chegar a casa logo ilumino a foto e talvez consiga ler. Este é Dom Boaventura, o Rei timorense do qual falei na crónica 51, quando passei na sua terra.
Mas o segurança ouviu o clique da máquina e veio outra vez chamar-me a atenção com maus modos. Em primeiro lugar já não estou a gostar destes maus modos, e já é a segunda vez. Em segundo lugar, mas qual é o segredo disto, afinal? Não posso fotografar um texto sobre Dom Boaventura?!… Isto é alguma informação secreta ou quê?… Isto é informação pública!
Bom.
O segurança viu a coisa mal parada, e foi fazer queixa de mim aos restantes funcionários do Museu. Isto foi lindo de se ver. “A malai está a tirar fotos!” – disse ele aos colegas, apontando para mim. Eu em pé a olhar para eles, em frente ao cartaz do Dom Boaventura. (Dá-me forças, Rei Dom Boaventura, não te submeteste e eu também não vou submeter-me. Quero tirar fotos aos textos todos! Quero saber tudo!) E que segurança é este que em vez de assegurar o Museu, vai fazer queixa às pessoas que estão a atender na bilheteira? Que coisa mais insólita, então a senhora das bilheteiras é que tem de vir manter a segurança disto e fazer-me frente?
Ora eu, vendo o segurança a apontar para mim e a fazer queixa (“A malai está a tirar fotos!”) (Queixinhas!…) pus-me em guarda. Vamos ver quem vem aí agora. Isto é informação pública, não me venham com histórias. Mas há aqui algum segredo ou quê?

Lembram-se do ouriço encardido da crónica 68? Quando eu vinha transformada num ouriço salgado e desgrenhado, depois de regressar da ilha de Ataúro, e quis jantar no elegante hotel Timor? Pois o ouriço voltou à cena agora. Mas desta vez o ouriço não está nada encardido, pelo contrário, está até bastante lavadinho e com bom aspeto. Desta vez o ouriço espetou os espinhos.
Então vieram quatro funcionários – homens e mulheres – ver o que se passa. Mas eles perceberam que a coisa estava complicada, porque mantiveram-se a cerca de seis metros de distância. Eu sou um verdadeiro ouriço com os espinhos eriçados. Não se aproximem muito mais do que isso, meus amigos, porque vamos andar todos à luta. (Estou mesmo a ver eles a agarrarem-me, eu a espernear e a ser arrastada pelo chão. Porém os meus espinhos vão espetar-vos, mantenham-se aí longe, sim…) “O Xanana Gusmão e o Ramos-Horta de certeza que querem ver isto divulgado!” – gritei-lhes eu, dos meus seis metros de distância. E repeti: “Isto é informação pública, toda a gente deve saber! O Xanana Gusmão e o Ramos-Horta querem ver isto divulgado!”. Uma das senhoras até se riu. Não se atreveu a aproximar-se, mas riu-se. Efetivamente foi o que me saiu no momento. É o povo timorense que quer justiça, são todos os heróis da Resistência – Ximenes Belo, Mari Alkatiri, Francisco Guterres Lu-Olo, Taur Matan Ruak – ou nomes menos conhecidos do público como Lere Anan Timur, Sabika Bessi Kulit, Falur Rate Laek, Riak Leman (todos vivos e alguns com páginas no Facebook!) – e mais os restantes que lutaram na Resistência, fosse ela militar ou diplomática – mas naquele momento e prestes a ser agarrada (porque eu estava a ver que eles vinham agarrar-me) foi o que me saiu.
Enfim, houve ali um impasse de alguns segundos. Eles a olharem para mim, a decidirem o que fazer, e eu a olhar para eles, com os espinhos eriçados. Até que ponderei:
Rute, tu tens de ver o Museu. É importante que vejas o Museu. Não podes ser expulsa.
E então virei-me novamente para os cartazes e ignorei os funcionários. Guardei a máquina, pu-la novamente atrás das costas, e fingi estar a ler muito atentamente os cartazes, com os funcionários todos a olharem para mim, desconfiados. Eles acabaram por ir-se embora. O Museu esteve vazio durante estes minutos, mas entretanto começaram a chegar mais malais. E veio então um responsável falar comigo. Aproximou-se perigosamente dos meus espinhos, a poucos centímetros de mim, e tentou acalmar o bicho. Num português corretíssimo pediu desculpa pelo comportamento dos funcionários e levou-me ao computador da biblioteca ver os textos todos disponíveis. O ouriço foi baixando os espinhos. O ouriço sentou-se e experimentou teclar no computador, na página oficial do Museu, e descobriu muitos textos disponíveis. Está tudo aí, disse-me o responsável. Os espinhos baixaram completamente. Tenho toda a informação disponível, não preciso de tirar fotos aos textos dos cartazes. Está bem – acedi.
E o ouriço continuou a visitar o Museu, já com os espinhos guardadinhos. Voltaram todos aos seus lugares e restaurou-se a calma no Museu da Resistência, em Díli.

Para cúmulo vejo os malais todos a tirarem fotos com os smartphones, descaradamente. Ai… então também tiro. E efetivamente estas fotos seguintes foram tiradas em silêncio, sem cliques de máquinas, com o meu smartphone, sem flash, claro. Ninguém disse nada aos outros malais nem a mim. Acho que nem deram conta. Continuo sem perceber que segredo é este que não pode ser fotografado, mas pronto. Na internet há fotos do interior do Museu por todo o lado.

Os primeiros anos após a invasão podem ser divididos em três períodos: a fuga da população civil para as montanhas; as campanhas do exército indonésio que forçaram  gradualmente a população civil a descer das montanhas; e o aprisionamento da população civil em campos depois de terem regressado das montanhas.¹

1º – Fuga para as montanhas

As testemunhas falaram das notícias que tinham recebido sobre a invasão militar indonésia de Díli, em Dezembro de 1975, e de como demorou meses e, em alguns casos, mesmo mais de um ano para os militares chegarem às áreas rurais. A população nas vilas e nas aldeias fugia para as montanhas à medida que o exército se aproximava das diferentes localidades.
“No decorrer da invasão militar indonésia a Díli, em 7 de Dezembro de 1975, antes do Natal, havia pessoas de Díli que tinham regressado a Laclo. Estas diziam-nos que “os militares indonésios tinham entrado em Díli e morto muitas pessoas. Eles mataram muitas pessoas e utilizaram tanques para tirarem tudo o que a população possuía.” Nós ouvimos esta informação e pensámos “em vez de ficar aqui e deixar que o inimigo nos destrua, é melhor fugir para o mato.” Nós tínhamos esperança que a assistência do mundo exterior chegasse rapidamente…” – Manuel Cárceres da Costa, Laclo, Manatuto.

Os testemunhos falaram de modo consistente sobre o período inicial nas montanhas como sendo uma época em que as comunidades foram capazes de subsistirem sozinhas. A comida era trazida para as montanhas; comités de mulheres e jovens organizados eram treinados nas práticas de agricultura e em cuidados de saúde. De forma geral, isto parece ter durado para a maioria das comunidades até 1977. O Sr. Gilman dos Santos, antigo trabalhador da agência norte-americana Catholic Relief Services (CRS), deu o seguinte testemunho:

“Entre 1975 e 1977, a situação alimentar no mato não era má. As pessoas podiam movimentar-se e cultivar de acordo com a época. Os militares indonésios apenas controlavam as terras nos distritos e sub-distritos, apesar de existirem confrontos nas montanhas”.

Mas à medida que os testemunhos repetiram as suas histórias sobre a escalada das campanhas militares indonésias, a vida nas montanhas foi-se tornando insuportável para a grande parte da população civil. A CAVR [Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação de Timor-Leste – para mais detalhes ver a crónica 67] ouviu testemunhos sobre as campanhas horrendas de bombardeamentos sobre as montanhas centrais de Kablaki e sobre a cordilheira montanhosa a leste do Matebian, em 1978, e em outras áreas, tais como Laclo. Ouviu sobre as campanhas de cerco, usando bombardeamentos aéreos e pelo mar e a queima de mato e de plantações, como forma de cercar as populações civis. Manuel Cárceres da Costa falou das terríveis perdas humanas desse tempo:
“Todos os dias os aviões voltavam para bombardear, todas as tardes quando precisávamos de cuidar das colheitas, os aviões regressavam. Milhares e milhares morreram, morreram de fome, morreram sem medicamentos, morreram das bombas que caíram sobre nós”.

Um padrão emergiu das comunidades constantemente em fuga, ao serem primeiro pilhadas pelos militares indonésios. Com a morte dos animais, a destruição das colheitas, cujo cuidado não era possível, e o stock de alimentos a diminuir, as pessoas começaram a morrer.

A Sr.ª Merlindi da Conceição, do distrito de Liquiça, falou com dignidade:

“As operações dos militares indonésios controlaram as áreas onde estávamos… nós escapámos para o mato na zona à volta de Tehiu, vila de Hatuquesi… A 5 de Maio de 1976, a minha avó, Maria Correia dos Santos, morreu no mato devido à falta de comida e à doença, pois não havia medicamentos… a vila de Hatuquesi enfrentava uma enorme invasão de militares… dois anos mais tarde a minha mãe, Domingas da Conceição, morreu em Daruto, de fome. Ela estava doente, mas não havia medicamentos … Um mês mais tarde, o meu irmão mais novo, Rosalino da Conceição (com 12 anos de idade) também morreu de fome… nesse tempo, no mato, apenas comíamos as folhas do feijão… três meses após a morte do Rosalino, a 26 de Setembro de 1978, a minha irmã mais nova, Elisabete (com 2 anos de idade), também morre na zona de Malaebui, em Maubara. Ela também morreu de fome”.

Quase nunca havia tempo para um enterro próprio, pois as pessoas fugiam à frente dos militares:

“… Entre aqueles que morreram, alguns havia que morriam sentados. Quando tentávamos levantá-los ou carregá-los, apercebíamo-nos que essas pessoas já estavam mortas. Outros havia que morriam a dormir. Não havia mais comida para as pessoas que tinham fugido se manterem vivas.” João Sereno (Suai, Covalima, em 1977).

Manuel Cárceres da Costa falou de ataques constantes por parte dos militares indonésios, inclusive da utilização de aviões fornecidos pelos EUA, os OV-10:

“Em Maio de 1978, a situação tornou -se ainda mais difícil. O inimigo começou a atacar a partir da fronteira… e depois em Julho de 1978, os militares começaram a cercar-nos e a destruir-nos… muitos morreram… porque tinham as pernas feridas, não podiam andar mais, mesmo bebés acabados de nascer morreram de fome. Aqueles que morreram, apenas os podíamos embrulhar em mantas e deixá-los assim mesmo. Nós não tínhamos tempo para os enterrar, pois o inimigo continuava a perseguir-nos.
… Andávamos durante a noite e, durante o dia, tínhamos de esconder-nos porque os aviões de guerra OV-10 não paravam de nos perseguir, atirando ou deixando cair bombas sobre nós, sendo que muitos amigos, familiares e outros morreram… isto continuou sem cessar…”.¹

No final dos anos 1970, dezenas de milhares de timorenses de leste, muitos deles crianças e idosos, morreram de fome provocada pela guerra.
Foto retirada de http://www.chegareport.net/, Homepage.

2º – Descer das montanhas

Os testemunhos falaram de sobreviventes, doentes e esfomeados, a descer com esforço das montanhas para se renderem aos militares indonésios entre 1978 e 1979. Gilman dos Santos, nessa altura a distribuir ajuda de emergência com a Cruz Vermelha Indonésia (mais tarde com o CRS – Catholic Relief Services), testemunhou o seguinte:

“Em 1978, a situação alimentar no mato tornou-se mais complicada, pois o exército indonésio controlava a maior parte do território, mesmo as vilas mais remotas. Este problema alimentar era confirmado pelo estado em que vinham aqueles que desciam das montanhas, estavam muito magros e doentes.”¹

3º – O aprisionamento da população civil em campos

Uma vez mais, é possível extrair padrões dos testemunhos: as pessoas desciam das montanhas em condições terríveis e quando se rendiam aos militares indonésios eram detidas em campos. Os sobreviventes chamavam-nos de “campos de concentração”. As histórias são consistentes em relatar as péssimas condições desses campos, com insuficiência de água, de alimentos ou de apoio médico. As pessoas já perto do limiar da vida, devido à fome e às doenças, eram deixadas ao abandono. Como Gilman dos Santos o descreveu:

“Os esforços dos indonésios para ajudarem nesta situação e trazerem apoio médico eram mínimos… o que estou a tentar dizer é que a maior parte das pessoas nos campos que estavam doentes, morreriam.”

O Sr. Francisco Soares Pinto deu o seu testemunho sobre as condições nos campos no distrito mais a leste, de Lautem:

“A 28 de Novembro de 1978, os militares indonésios do Batalhão 328 entraram na zona de Iliomar. Dois dias depois, estes proibiram-nos de nos afastarmos dos campos de concentração em não mais de um quilómetro… esta ordem limitou imenso a mobilidade das pessoas e nós não podíamos mais sair em busca de comida… O resultado foi que as pessoas passaram por um período de fome muito sério. Para conseguirmos sobreviver, comíamos cocos secos ou verdes… mas, passado algum tempo, deixou de haver cocos… não havia mais comida e, então, uma a uma, as pessoas morreram nos campos de concentração devido à fome. Num dia, contava-se que entre 5 a 10 pessoas morriam… De manhã à noite, podia-se ouvir as pessoas a chorar numa barraca e noutra. Nós também conseguíamos ouvir os ecos uns dos outros quando numa das barracas alguém morria e na barraca vizinha também. Numa sepultura, estavam enterrados entre 2 a 4 corpos.”

Edmundo da Cruz falou, também, das condições nos campos de Lautem, no Parlamento e em Com:

“Os militares indonésios juntaram -nos no sub-distrito do Parlamento, conjuntamente com as pessoas de Lautem. Nós ficamos no campo de concentração do Parlamento durante um ano. Durante essa estadia, sofremos muito, porque era proibido afastarmo-nos dos campos em mais de 100 metros. Como consequência,  mais de 2.000 pessoas no campo sofreram de fome. Num dia, 2 a 5 pessoas morriam esfomeadas, sobretudo crianças e idosos… os militares não nos davam nada para comer…”¹

Através destes testemunhos perturbadores, tomamos conhecimento da extraordinária resistência praticada pelas comunidades. Espalhados nas montanhas sem comida e a fugir do exército indonésio, para muitos tornou-se evidente, perante o facto de terem de descer das montanhas e de se renderem, que tinham de se organizar numa resistência clandestina contra os militares indonésios. Parece também claro que quando o exército indonésio se apercebeu desses esforços, as populações civis acabaram por sofrer terríveis abusos de direitos humanos.”¹

Ajuda de emergência limitada e tardia

Os sobreviventes falaram da diferença nas suas vidas nos campos controlados pelo exército indonésio quando a Cruz Vermelha Internacional pôde entrar e distribuir alimentos e medicamentos em 1979. Em Ataúro, em Metinaro, nos arredores de Díli, e em Lautem, no leste, testemunhas falaram sobre a importância desta assistência. O Sr. Gilman dos Santos trabalhava na altura com a agência norte-americana Catholic Relief Services, a outra única agência internacional a operar em Timor. Este deu um testemunho valioso sobre a escala e a natureza da crise humanitária nesse tempo e sobre a capacidade limitada das agências de a resolverem. No decorrer do seu trabalho com o CRS, o Sr. Gilman dos Santos viajou por todos os distritos de Timor e observou ele mesmo as condições de vida das comunidades e o papel desempenhado pelo exército indonésio.

“Em 1979, o CRS chegou. A presença de organizações internacionais em 1979 veio na sequência da terrível situação de fome em todo o país. Esta assistência chegou um ano depois do relatório sobre a visita dos Embaixadores – imaginem, um ano depois, mas ainda foi útil. Nessa altura, nunca soubemos de ninguém das Nações Unidas a  visitar o território, apesar de estarmos num imenso conflito Eu quero dizer que a assistência humanitária que chegou veio tarde, mas ainda salvou muitas pessoas. Foi tardia porque Timor estava fechado. Nem mesmo civis indonésios sabiam o que se estava a passar aqui. Os jornalistas indonésios, ou os jornalistas internacionais, não podiam relatar sobre o que se estava a passar aqui. Nós não podíamos sequer telefonar para outras partes da Indonésia. Era muito fechado, muito fechado e vigiado de perto pelo exército indonésio. Devido a este controlo rigoroso, o CRS deixou Timor ao fim de cinco anos.”

O Sr. dos Santos disse que o CRS trabalhava sete dias por semana, muitas vezes entre 16 a 18 horas por dia nos primeiros seis meses da operação, na tentativa de fazer chegar alimentos às comunidades. Ele distribuiu alimentos aos “campos de concentração” e falou da atitude obstrutiva da maior parte dos militares. “Para viajar apenas entre Díli e Baucau, tínhamos de parar 13 vezes em cada um dos comandos de distrito e sub-distrito, para que verificassem os nossos documentos. Nós já tínhamos 26 assinaturas, mas eles queriam ainda mais… havia alguns militares que eram prestáveis, em Vemasse, por exemplo, e em Turiscai e Alas… Para superar os problemas com os militares, nós dizíamo-lhes que os alimentos tinham vindo da América. Mostrávamo-lhes a bandeira dos EUA nos pacotes e os soldados indonésios tinham muito medo dos americanos. Ficamos surpreendidos com isto porque pensávamos que estes trabalhavam com eles… os soldados tiveram medo quando lhes dissemos que era da América…

Previamente o Sr. dos Santos tinha falado dos problemas de corrupção no exército em relação à distribuição dos alimentos financiados pelo governo:
“Ouvíamos frequentemente, ou víamos com os nossos próprios olhos, os militares a vender a ajuda alimentar a lojas ou àqueles que a podiam pagar”.
Questionado pelo Presidente da CAVR, o Sr. Aniceto Guterres Lopes, se o CRS foi capaz de distribuir ajuda humanitária de uma forma politicamente neutra ou se obedeciam a restrições, o Sr. dos Santos replicou:

“O CRS apenas podia distribuir alimentos às pessoas a viver em áreas controladas pelas TNI. Não podíamos distribuir alimentos às pessoas nas montanhas. As TNI não queriam que fossem distribuídos alimentos às pessoas nas montanhas, porque pensavam que dessa maneira podiam forçá-los a descer e a renderem-se…
O Sr. dos Santos elogiou a ajuda dada pela Igreja timorense e, elogiou, em particular, o Padre Locatelli, de Fatumaca, que “deu uma grande ajuda na parte leste”.

Pat Walsh, antigo Director da Secção de Direitos Humanos do Australian Council for Overseas Aid (ACFOA), falou do clima internacional que se vivia nessa altura:

“Nessa altura, a campanha da Indonésia para integrar Timor-Leste  estava a correr mal, tanto em Timor-Leste , como a nível internacional. Devido sobretudo à brutalidade e à violência da intervenção do exército indonésio, um grande número de pessoas tinha fugido para as montanhas… apesar de ser em maior número e ter equipamento superior, a Indonésia tinha falhado em derrotar a Fretilin a nível militar. Este fracasso em assegurar uma conquista rápida e total e em ganhar os corações e as mentes dos timorenses foi rodeado de recuos diplomáticos a nível internacional, com o assunto a atrair a atenção das Nações Unidas, do Congresso americano e de outros fóruns internacionais. Isto era profundamente embaraçoso, tanto para Jacarta, como para os seus principais aliados, que tinham sempre sublinhado a importância de um controlo rápido com pouca visibilidade pública…”

Pat Walsh referiu que as estatísticas indonésias de defesa obtidas pelo ACFOA nessa altura mostravam que mais de 300.000 timorenses estavam a viver em campos controlados desde Dezembro de 1978.

Pat Walsh também falou da reação complexa por parte da Igreja católica:

“Havia uma espécie de divisão de opiniões na Igreja católica em Timor-Leste. Muitas pessoas em Timor-Leste aderiram à Igreja, e Dom Martinho Lopes e, depois, Dom Carlos falaram corajosamente pela população. Mas nas minhas visitas a Nova Iorque e ao Vaticano em 1980 e em visitas frequentes a representantes do Vaticano em Jacarta, ficou claro que as preocupações dos líderes locais da Igreja eram subservientes ao que é conhecido nos estados-nação pelo interesse nacional. Ou seja, a Igreja estava preocupada com a sua relação com o Islão, em geral, e com a Indonésia, em particular.”¹

O exército indonésio achava que poderia ganhar o controle do país em menos de duas semanas. Mas no final de dezembro de 1975, tendo em vista a extensão da resistência, teve que elevar o número de tropas para 25.000, ou um soldado para 28 habitantes. As FALINTIL (Forças Armadas de Libertação Nacional de Timor-Leste) podiam contar com 30.000 pessoas muito familiarizadas com um país onde as estradas ruins e o início da estação chuvosa atrasaram o progresso do inimigo.

No final de 1976, a maioria da população havia fugido para as montanhas. O exército indonésio controlava apenas as estradas principais e fora forçado a aumentar sua presença para 40.000 homens.

O exército indonésio forçou a população a descer das montanhas, e em dezembro de 1978 admitiu ter internado 372.900 timorenses (60% da população) em 150 campos.

No final de 1979, após a morte ou captura de líderes-chave, para não mencionar a perda de 80% dos seus soldados e 90% dos seus equipamentos, o movimento de resistência pareceu estar esmagado. Tudo o que restou foram pequenos grupos espalhados por todo o país, sendo Xanana Gusmão um dos últimos líderes a ter evitado a captura pelo exército de ocupação.

No início dos anos 1980, as forças timorenses eram demasiado pequenas para travar uma guerra frontal. Em vez disso, assumiram a forma duma guerrilha móvel. Foram estabelecidas várias áreas de ação: no centro, no quadrângulo formado pelas cidades de Ermera, Liquiçá, Aileu e Díli, foram realizadas operações surpresa, como o ataque ao serviço de radiodifusão indonésia em Díli em Janeiro de 1980. Mas as forças de resistência estavam localizadas principalmente na parte leste do país, onde a maioria das ofensivas militares era conduzida.

Diante do fracasso das grandes ofensivas militares indonésias, o exército indonésio pediu ao coronel Purwanto para negociar com a resistência em março de 1983. As posições eram irreconciliáveis. Os militares indonésios queriam negociar a rendição da guerrilha. A delegação da FRETILIN, liderada por Xanana Gusmão, estava apenas disposta a aceitar o princípio de um governo “transitório” da Indonésia, com uma força de manutenção da paz da ONU, até que pudesse ser realizado um verdadeiro referendo sobre a autodeterminação.

Este impasse nas negociações permitiu a declaração dum cessar-fogo temporário entre ambos. Na frente internacional, o governo indonésio poderia argumentar que o problema estava em vias de ser resolvido. Mas também permitiu que a resistência, ainda relativamente fraca, restabelecesse contactos entre grupos dispersos e repensasse a sua organização.

O exército indonésio quebrou unilateralmente o cessar-fogo em agosto de 1983, com o lançamento duma operação destinada a limpar o que restava das forças rebeldes. Altamente móvel nesta altura, a resistência armada, composta por 6.200 combatentes divididos em dez unidades, conseguiu evitar os confrontos. Conseguiu mesmo inverter a situação, atacando vários comboios do exército indonésio, permitindo-a rearmar-se e levando os chefes do exército em Jacarta a abandonarem as operações em grande escala durante dois anos. Aproveitando a sua vantagem, a resistência realizou vários ataques no final de 1985. No espaço de dez meses, as FALINTIL realizaram 50 ataques. Em resposta, os militares indonésios lançaram uma operação destinada a acabar definitivamente com a resistência. Quarenta mil soldados foram obrigados a capturar Xanana Gusmão. Todavia, apesar do enorme apoio aéreo, os ataques às montanhas Matabéan e Kablaki não resultaram na sua captura. Entretanto, as FALINTIL, utilizando informações fornecidas por timorenses infiltrados no exército de ocupação, conseguiram vários sucessos, incluindo a libertação da cidade de Viqueque por alguns dias em outubro de 1986. Naquela época, enquanto a comunidade internacional via Timor-Leste como um “causa perdida”, Xanana Gusmão oferecia à juventude do país uma escolha simples: “uma pátria ou morte”. A grande força do exército da resistência foi nunca usar a violência contra civis, mesmo contra os transmigrantes indonésios, que começaram a chegar ao território em 1980, e que somavam cerca de 85.000, ou 9% da população, no final do período da ocupação indonésia. Em dezembro de 1987, o general Murdani, um dos iniciadores da invasão, reconheceu aos repórteres que seriam necessários anos para derrotar um movimento de guerrilha tão bem estabelecido.

Em 1989, a resistência não estava em posição de conseguir uma derrota militar e – com um punhado de grupos de apoio – a maioria dos atores da comunidade internacional continuava a fechar os olhos à situação. Mário Carrascalão, que aceitou o cargo de governador durante a ocupação indonésia, denunciou as más condições de vida em Timor-Leste no parlamento indonésio. Também destacou a contradição em proibir estrangeiros de viajar para Timor-Leste  quando o território estava ocupado há 14 anos e o exército afirmava que a situação havia sido “normalizada”. O encerramento total foi ainda mais difícil de sustentar quando o papa João Paulo II quis visitar a Indonésia no final do ano. Impedi-lo de visitar o que Jacarta reivindicou como a sua “província” mais católica teria sido reconhecer a magnitude da resistência timorense. O general Suharto, portanto, aceitou uma abertura parcial de metade dos distritos do país. Isto ofereceu novos meios de ação à população – e especialmente aos jovens. Em Outubro de 1989, apesar da presença maciça da polícia, os manifestantes desdobraram bandeiras nacionalistas em frente à imprensa internacional durante a visita papal a Díli, levando à prisão de cerca de 40 jovens. Três meses mais tarde, em Janeiro de 1990, outros protestos foram duramente tratados durante a visita a Díli por John Monjo, embaixador dos EUA na Indonésia, iniciando-se uma prática sistemática de prejudicar todas as visitas de delegações estrangeiras, com risco de vida dos manifestantes. Mas a maioria dos timorenses aguardavam a chegada duma delegação parlamentar portuguesa, marcada de 4 a 16 de Novembro de 1991. Em 1989, Xanana Gusmão ordenou às pessoas que restringissem as operações militares para evitar serem comprometidas. Conscientes da dificuldade em manter o controlo da situação, os militares indonésios reforçaram as suas condições a ponto de se tornarem inaceitáveis, levando Portugal a suspender a visita da delegação.

Em meados da década de 1990, mais de vinte anos após a invasão militar, o despertar da comunidade internacional não foi acompanhado pelos líderes das principais instituições internacionais ou dos poderes políticos globais. Mesmo o Prémio Nobel da Paz, outorgado em Outubro de 1996 a Carlos Filipe Ximenes Belo, bispo de Díli, e José Ramos-Horta, representante de Timor-Leste na ONU, não provocou qualquer reação do Conselho de Segurança da ONU nem obrigou a Indonésia a pôr termo à sua ocupação ilegal.

Em última análise, foi a crise asiática que desencadeou uma mudança profunda na situação, com início em 1997. Em maio de 1998, dez meses após o início da crise, a economia indonésia, enfraquecida pela corrupção e pelo nepotismo, mostrou a extensão de sua fragilidade, quando foi revelado que dois terços dos indonésios viviam abaixo da linha da pobreza. Depois de serem atacados pelos militares, os estudantes indonésios ocuparam o parlamento em Jacarta, forçando o general Suharto a renunciar após 33 anos no poder. O seu vice-presidente, Jusuf Habibie, sucedeu-o a 20 de maio de 1998. A 9 de junho, o novo presidente propôs um “status especial” para Timor-Leste. Seis dias depois, 15.000 estudantes timorenses tomaram as ruas de Díli para exigir um genuíno referendo sobre a autodeterminação, e a libertação de Xanana Gusmão. Durante o mês seguinte, 65.000 indonésios, a maioria transmigrantes, fugiram do país.²

E chegamos então ao referendo de 30 de Agosto de 1999,  no qual foi dado aos timorenses o poder de escolha duma maior autonomia dentro da Indonésia ou a independência. (Ver crónica 71 para restantes detalhes).

Prisão e Julgamento de Xanana Gusmão

Capturado em Díli, no dia 20 de Novembro de 1992, um ano depois do Massacre de Santa Cruz, Xanana Gusmão é interrogado pelo general Tri Sutrisno, comandante-em-chefe das Forças Armadas indonésias:

Xanana Agora, Xanana pode morrer. Já disse que posso ir para a cadeia toda a vida, sofrer choques elétricos e torturas mas a questão principal aqui é a consciência do povo.
Gen. Tri Sutrisno Não haverá paz se continuarem a lutar e a maioria do povo de Timor Oriental considera que a integração foi um sucesso.
Xanana Se eu conduzi uma luta de resistência até agora, não serei eu que diria que a maioria do povo deseja a integração. A forma como se passou a integração não é juridicamente válida.
Gen. Tri Sutrisno Creio que o povo de Timor Oriental já é livre. Timor Oriental tornou-se parte integrante da Indonésia.
Xanana Luto porque as leis internacionais conhecem o meu direito.

Levado perante um tribunal indonésio, em Março de 1993, Xanana Gusmão afirmou:
Eu sou Kay Rala Xanana Gusmão, o líder da Resistência Maubere contra a cobarde e vergonhosa invasão de 7 de Dezembro de 1975 e a criminosa e ilegal ocupação militar de Timor-Leste desde há 17 anos.
Rejeito a competência de qualquer tribunal indonésio para me julgar, e, muito menos, a jurisdição deste tribunal, implantado à força das armas e do crime, na minha pátria, Timor-Leste.
O irreversível não é o que se impõe neste momento, seja ele curto ou longo, pela força das armas. O irreversível é a correção que a história faz dos erros dos ambiciosos, dos crimes dos ditadores, das atrocidades colonialistas.

Condenado a prisão perpétua, mais tarde comutada para uma pena de 20 anos, é transferido para a prisão de delito comum de Semarang, na Indonésia, sendo depois transferido para a prisão de Cipinang, reservada a presos políticos. Daí dirige as atividades da Resistência, coordenando a luta no interior do país e as atividades diplomáticas no exterior.

Em Abril de 1998, na Convenção Nacional Timorense na diáspora, que estabeleceu o Conselho Nacional da Resistência Timorense (CNRT), Xanana Gusmão foi reafirmado por aclamação como líder da Resistência Timorense e Presidente do CNRT.

No seguimento de pressões internacionais cada vez mais fortes relativamente à libertação de Xanana Gusmão, Kay Rala Xanana Gusmão foi transferido, a 10 de Fevereiro de 1999, para uma casa-prisão em Salemba, na parte central de Jacarta, de onde será libertado a 7 de Setembro desse ano, na sequência da vitória retumbante da Resistência Timorense no Referendo de 30 de Agosto.

Aqui sou abordada por três estudantes de inglês. Um curso de seis meses, explicaram-me. O rapaz é de Manatuto, e as raparigas são de Viqueque e de Same. Três terras onde pedalei.  Pediram para me fazerem uma entrevista em inglês para praticarem. Eu disse-lhes que daqui a uma hora tenho de ir para o aeroporto e que temos de ser rápidos, mas acedi. Fizeram a entrevista, com as perguntas que lhes ocorreram ali no momento, e gravaram com o telemóvel.

Cá está o ouriço, mas agora com os espinhos baixos. Quando estavam eriçados, no Museu, nem a rapariga poderia estar ali junto a mim, teria de afastar-se, senão já estaria seriamente ferida. Estou muito à paisana, hoje – nem capacete nem calções de ciclismo. E cabelo solto. Só as luvas me traiem.

O motociclista da direita está curioso comigo. Então?… Estou aqui tão bem comportada, parada no semáforo vermelho, no meio das motas… (Até parece que não posso agarrar na bicicleta, subir o passeio e continuar viagem sem ligar a semáforos nenhuns… A liberdade duma bicicleta é extrema. Mas agora não, agora obedeço pacientemente ao semáforo, na estrada, e o motociclista mira-me, curioso).

Por esta altura já ando meio perdida; tenho de ir para o apartamento, onde o Valério me espera, mais as bagagens, para irmos para o aeroporto. Ainda vou trocar de roupa. Perguntei onde fica o Cemitério de Santa Cruz. A partir dele sei orientar-me até ao apartamento. E descobri que estava a ir em direção oposta. É maravilhoso, o meu sentido de orientação.

Cemitério de Santa Cruz à esquerda. Estou no bom caminho. Ainda fiz 8 km de bicicleta em Díli!


¹ “Relatório de actividades Junho – Julho de 2003”. Comissão Acolhimento, Verdade e Reconciliação (CAVR). Páginas 16 a 22. Documento online consultado a 3 Março 2019,
<http://www.cavr-timorleste.org/updateFiles/portuguese/Piers%20Pigou.pdf>

² Frédéric, Durand (2011, 14 Outubro) “Three centuries of violence and struggle in East Timor (1726-2008)”. Página consultada a 3 Março 2019,
<https://www.sciencespo.fr/mass-violence-war-massacre-resistance/en/document/three-centuries-violence-and-struggle-east-timor-1726-2008>

126 - Adeus Timor!

Cheguei ao apartamento às 11h, completamente transpirada, onde o Valério já me espera. Daqui a trinta minutos saímos para o aeroporto. Este calorzinho tão bom. Não há calor que me chegue. Não vale a pena tomar dez banhos por dia. Transpire-se, paciência. Quem não se der bem com o calor é melhor escolher outro destino.

Segue o detalhe final dos quilómetros feitos nesta viagem, a juntar aos reports já feitos na crónica 75 e na crónica 101:

21º Dia
Kefamenanu – Atambua – Mota-Ain
16 km na bicicleta
165 km na pickup
181 km no total

22º dia
Mota-Ain – Maliana – Suai
41 km bicicleta
76 km na pickup
117 km no total

23º dia
Suai – Zumalai – Atsabe
51 km na bicicleta
41 km na pickup
92 km no total

24º dia
Atsabe – Gleno – Díli
76,5 km na bicicleta
35 km na pickup
111 km no total

25º dia
Díli
8 km na bicicleta
12 km na pickup até ao aeroporto

Total:
831 km bicicleta
1.459 km na pickup
Total: 2.290 km

Aeroporto de Díli.

No aeroporto tive a surpresa de estarem à minha espera o Sanches e o Eduardo Massa, para se despedirem. O Valério ofereceu-me esta t-shirt do Tour de Timor, de 2011, quando ele acompanhou os ciclistas em trabalho. A minha viagem teve mais quilómetros, mas foi muitíssimo mais leve, pois eu não me meti a subir as montanhas todas de Timor, como eles fazem no Tour.
E a minha bolsa da cintura já não fecha. Há alguns dias, de facto. O fecho pifou.

E pronto, despedi-me dos três e fui para a zona de embarque, sozinha, pois só quem vai embarcar pode vir para aqui. Eu levo um saco de bananinhas timorenses atado na mochila. “Leva bananas” – disse-me a agente de segurança, nos raios-x. Ai, lá se vão as minhas bananinhas… “Não faz mal” – acrescentou ela. Uf. Efetivamente tenho várias premissas na minha cabeça, como por exemplo:

Fome = comer
Montanha = subir
Fruta = levar para Portugal

E tenho tido algumas dificuldades na vida com esta última premissa, a verdade seja dita. Só o embaraço que passei no Vietname, a querer levar aquelas frutas mal cheirosas (mas que sabem tão bem) e os funcionários do aeroporto a dizerem que não, que iríamos morrer todos dentro do avião com o pivete… São os queijos e são as frutas, temos que sofrer um pouco antes de saboreá-los, então…

Aqui estão a Dirce e o Eliseu. Foi a Dirce que se meteu comigo, em inglês. E eis que deparo com os dois vencedores dum concurso entre todas as universidades de Timor-Leste (quinze, disse-me a Dirce, se bem percebi: dez universidades em Díli, cinco noutros distritos. Eventualmente ela referir-se-á a Faculdades dentro de Universidades). A Dirce e o Eliseu vão representar Timor-Leste nas cerimónias da independência da Indonésia, dado que os seus discursos foram os vencedores. Foram inclusivamente trazidos aqui ao aeroporto com todas as honras: foram acompanhados pelo Embaixador da Indonésia. Vão no mesmo avião que eu, com destino a Bali. A seguir temos outro avião com destino a Jacarta e também vamos juntos. É a primeira vez que vão andar de avião, pelo que sem dúvida será uma grande emoção para ambos. Além da emoção de serem os vencedores entre todas as universidades de Timor-Leste, além da emoção de irem falar em público na Indonésia, ainda mais a emoção de andarem de avião. Cada qual tem um discurso preparado. Vão participar jovens universitários de vinte países, nomeadamente da Austrália, EUA, Holanda, Alemanha, França, Rússia, Inglaterra, Suriname, Uzbequistão, Malásia, Tailândia, Filipinas, Japão, Madagáscar, Índia, Arábia Saudita, Papua-Nova Guiné e Singapura (para além de Timor-Leste, claro). Entre estes vinte, será escolhido um vencedor.

A Dirce está no curso de Finanças, e pensa em ir trabalhar para o Ministério das Finanças, contou-me, e o Eliseu está no curso de Informática. O Eliseu não fala inglês e atrapalha-se com o português, pelo que foi a Dirce a interlocutora de ambos.
O Eliseu é de Gleno, em Ermera, onde eu almocei as deliciosas almôndegas com toucinho  – e o Eliseu conhece a Isabel do restaurante, pois claro (crónica 123); e a Dirce é de Lospalos, e o dono do Hotel em Lospalos onde eu pernoitei é seu cunhado (crónicas 21 e 36). Timor é uma ilha pequenina, todos se conhecem e estão ligados.
A Dirce tem oito irmãos e mudaram-se de Lospalos para Díli quando ela tinha 8 anos, porque em Lospalos não há universidade. Já o Eliseu tem dez irmãos.

Aqui vamos embarcar em Díli em direção a Bali.

Quando aterrámos em Bali, no aeroporto doméstico, tivemos de mudar de avião para Jacarta, agora no aeroporto internacional, e andámos com carrinhos e malas por corredores infindáveis, e inclusivamente pelo exterior do aeroporto. Eu estou habituada e sei que é preciso estar-se atento às placas e sinais indicando o caminho, e se necessário perguntar aos funcionários. Mas para a Dirce e para o Eliseu isto é uma confusão dos diabos, e ainda bem que estivemos juntos e andámos os três para cá e para lá, entretidos, inclusivamente a tirar fotos e a ver as lojas, até entrarmos no avião seguinte. Sempre pude ajudar. Chegámos às 14.10h a Bali e partimos às 16.50h para Jacarta.

Ambos têm dificuldade em dizer o meu nome. Chamam-me “Kuti”, curiosamente como eu era chamada na Índia também. O “R” é meio complicado para os asiáticos, está visto. E a Dirce e o Eliseu dão estalidos com a boca para demonstrar espanto. Também é um hábito timorense que de início – quando cheguei a Timor – eu não percebi. Depois comecei a habituar-me a ouvir os estalidos, enquanto conversava.

Aterrámos em Jacarta às 17.50h, e despedimo-nos. Não há beijinhos em Timor, pelo que foi só um adeus. Fazem-me confusão estes “adeuses” assim – adeus, adeus – trocámos de Whatsapps e convidei-os a visitarem-me em minha casa em Lisboa.
E pronto, a partir daí sigo sozinha o meu interminável caminho até Lisboa.

Antes de arrancar de Díli ainda descarreguei o meu email, com o cartão de telemóvel timorense. Eis que recebo um aviso do Teatro de Pequim a lembrar-me que tenho um bilhete reservado para a semana que vem. Esta é boa. Eu vou para Lisboa agora, mas até nem me importo de fazer um desvio por Pequim… Isto foi no ano passado, meus amigos! Não me digam que agora todos os anos vou receber um aviso. Até me desorientaram por uns segundos.

No avião entre Díli e Bali. Ao fundo a cidade de Díli. Que tristeza, partir. Adeus Timor!

Frango com arroz e legumes, tinha de ser. A comida preferida do Valério! Ficaria contente, ele. E esta é altamente picante.

Apanhei o avião em Jacarta às 21h até Istambul, na Turquia. Cheguei a Istambul às 4.15h da manhã, hora local, e de seguida tive um voo às 7.35h para Lisboa. O aeroporto de Istambul está empanturrado de gente, com muitas crianças a dormirem nos bancos, e adultos também, pelo que foi difícil arranjar um lugar para me sentar. As casas de banho têm filas enormes. Será sempre este movimento entre as 4 e as 7 da manhã? Ainda por cima o meu voo para Lisboa está “overbooked” e tentaram convencer-me a ir noutro, mais demorado. Ofereceram-me um crédito de 300€. Ainda hesitei. Mas estas viagens são uma tortura, não quero atrasar mais, fiquem lá com os 300€ e metam-me já neste voo, s.f.f. Tem onze horas de duração. Onze horas dentro dum avião. Felizmente dormi metade do tempo.

Cheguei a casa, em Lisboa, na 4ª feira, 15 de Agosto de 2018, às 12.15h. Foram 33 horas de viagem. Na ida para Timor foram 40h. O regresso é mais rápido devido às ligações.

Tudo em Lisboa me parece estranho, agora.
Quero ir comprar fruta. Tomar banho. A minha casa é mais uma casa, pernoitei em tantas neste último mês. Esta casa agora tem água quente e uma boa toalha.
Mas amanhã vou já trabalhar.
Dormi dez horas seguidas, sempre a sonhar com caminhos de terra que fotografo. Ao acordar de manhã, no dia seguinte, para ir trabalhar, levo alguns segundos a perceber onde estou, onde está a janela, a mesinha de cabeceira, o relógio para ver as horas, para que lado da cama saio. É a minha própria casa, mas eu experimentei tantas casas que já deixou de ser automático.

Parti com 55 kg, regressei exatamente com o mesmo peso.
O meu carro urbano parece minúsculo a conduzi-lo. Já venho habituada à enorme pickup. A porta é pequenina, o assento é pequenino, e vou aqui tão perto do chão… Parece um brinquedo. E esqueço-me de desligá-lo. Na bicicleta travo e desmonto, é mais simples. Agora no carro travo e saio. Foi abaixo por duas vezes. Falta a embraiagem, Rute, os carros têm embraiagem!
E voltar a conduzir pela direita. Isto está lindo.

127 - Epílogo

Timor-Leste nos dias de hoje. Há um turbilhão de coisas a acontecer. Basta ler as notícias recentes. Há umas boas, e outras menos, porém mostram uma única coisa: um país a palpitar de vida e a crescer. Ora vejam-se alguns exemplos:

União Europeia e Timor-Leste assinam acordo para combater malnutrição no país (Dezembro 2018):
50% das crianças sofrem de nanismo, uma das maiores taxas da Ásia, o que é um grande desafio e que exige ação obrigatória.¹

OMS confirma erradicação do sarampo e controlo da rubéola em Timor-Leste:
A Organização Mundial de Saúde (OMS) anunciou esta sexta-feira (Agosto 2018), em comunicado, que Timor-Leste erradicou oficialmente o sarampo no país e tem a rubéola e o síndroma de rubéola congénita controlados, cumprindo as metas previstas em 2014.²

ONU saúda plano de ação contra doenças não-transmissíveis em Timor-Leste (Novembro 2018):
Consumo de tabaco, elevado consumo de álcool, dieta pouco saudável, pouca atividade física estão entre os principais comportamentos de risco responsáveis por algumas das principais doenças no país: problemas cardiovasculares, cancro, doenças pulmonares crónicas e diabetes.²

Timor-Leste suspende licenças e retém navios chineses que pescaram tubarão:
No passado dia 8 de setembro [2017], os navios voltaram a ser apanhados a pescar tubarão durante uma operação conduzida em conjunto pela polícia timorense e pela organização ambiental Sea Shepherd.
A operação envolveu o navio Ocean Warrior da Sea Shepherd que com lanchas rápidas ajudou a transportar efetivos da Polícia Nacional de Timor-Leste (PNTL) que efetuaram a rusga no interior das embarcações.
Já em fevereiro, a Lusa tinha noticiado que os navios estavam a pescar ilegalmente tubarão, o que levou o Governo timorense a anunciar uma investigação interministerial que, em abril, deliberou aplicar aos 15 navios uma multa de 500 dólares (cerca de 418 euros) cada.
O ministro disse que, no caso da pesca do tubarão, o Governo fará respeitar a lista de espécies protegidas, que é “muito abrangente” e inclui espécies cobertas pela Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora (CITES) e ainda as listadas na Indonésia e na Austrália.⁴

Bióloga sugere alterações na exploração petrolífera timorense durante migração de baleias:
“O ruído subaquático é um dos principais problemas que as baleias enfrentam. Não me refiro à exploração de recursos naturais, mas ao transporte marítimo internacional, que atravessam os estreitos vizinhos. A certa altura pode haver dez grandes cargueiros ancorados em Díli. E mesmo só com os geradores ligados, sem estarem em movimento, há uma grande quantidade de ruído produzido por essas embarcações”, expôs Andrews.
Para a bióloga, esta situação representa um problema para os cetáceos, que utilizam sinais sonoros para comunicar, navegar e encontrar comida. Em 2016, a Conservation International (CI) conduziu um estudo de cinco dias a norte de Timor-Leste que permitiu identificar 11 espécies de cetáceos e mais de 2.200 exemplares.
De forma a garantir uma promoção sustentável do ecoturismo, a CI já organizou várias iniciativas no arquipélago, incluindo um ‘workshop’ de treino dirigido a operadores turísticos locais com o objetivo de maximizar o valor educacional da observação de cetáceos, e também para transmitir informações sobre como interagir com os animais sem os perturbar.⁵

Timor-Leste conquista primeira medalha de sempre nos Asian Para Games:
A atleta timorense Pascoela dos Santos Pereira conquistou a primeira medalha de sempre para Timor-Leste (bronze), em ténis de mesa, nos Asian Para Games.⁶

Seleção Timorense de Futebol, atualmente patrocinada pela Nike, e com um treinador japonês, Norio Tsukitate:
A partir de 2012, jogadores brasileiros que não detinham ascendência timorense e que nunca atuaram no Campeonato Nacional, foram naturalizados para melhorar o nível da Seleção. Tal decisão gerou críticas. Num jogo contra a Palestina, em outubro de 2015, 7 dos 11 jogadores eram brasileiros. Logo após a partida, a Federação Palestina de Futebol apresentou queixa à FIFA, alegando que os atletas naturalizados não eram elegíveis para defender Timor-Leste. Para evitar maiores problemas, o então treinador Fernando Alcântara decidiu não convocar atletas brasileiros e nomeou apenas atletas nativos, alguns com menos de 20 anos, como o defensor Ervino Soares, então com apenas 16 anos, para o jogo frente aos Emirados Árabes Unidos, válido para as Eliminatórias do Campeonato da Ásia de 2019. Timor-Leste perdeu por 8 a 0. Fernando Alcântara assumiu a responsabilidade pelo revés, mas alegou que fora obrigado a colocar em campo uma equipa inexperiente.
Em dezembro de 2016, o Comité Disciplinar da AFC [Asian Football Confederation, ou em português Confederação Asiática de Futebol] acusou a Federação de Futebol de Timor-Leste (FFTL) de usar documentos falsos e utilizar jogadores inelegíveis para representar a seleção. A decisão oficial da AFC foi tomada em janeiro de 2017: Timor-Leste foi suspenso do Campeonato da Ásia de 2023; o secretário-geral da FFTL, Amândio Sarmento, foi suspenso de qualquer atividade ligada ao futebol durante 3 anos e multado em 9 mil dólares. Com a punição, a Confederação Asiática de Futebol anulou todos os 29 jogos onde os brasileiros atuaram entre junho de 2012 e julho de 2016.⁷
Ora bolas.

Sistema interbancário desenvolvido pela portuguesa SIBS lançado em Timor-Leste:
A SIBS implementou o primeiro sistema eletrónico interbancário de Timor-Leste, o P24 que, numa primeira fase, vai abranger clientes do português BNU e do indonésio Mandiri, estando ainda a decorrer o processo de integração interna no timorense BNCTL e do também indonésio BRI. A rede abrange quer Caixas Automáticos, quer Terminais de Pagamento Automático instalados nos estabelecimentos comerciais, com acesso às principais transações bancárias.
Progressivamente, a rede aceitará cartões internacionais da marca Visa e, mais tarde, de outras redes, incluindo Mastercard e Union Pay.
O projeto inclui ainda a interligação entre as operadoras de telecomunicações (Timor Telecom, Telemor e Telkomcel), permitindo o desenvolvimento do sistema Mobile Money.
O governador do Banco Central de Timor-Leste, Abrão de Vasconcelos, sublinhou a natureza histórica deste “evento de transformação importante no sistema financeiro de Timor-Leste”, que permite aumentar o acesso ao sistema de pagamento do país e consolidar a estratégia nacional para o desenvolvimento do sistema financeiro timorense.⁸

Polícia timorense tem condições para integrar missões internacionais:
O antigo chefe de Estado, José Ramos-Horta, que falava perante o 1º Curso de Missões Internacionais da PNTL [Polícia Nacional de Timor-Leste], considerou que Timor-Leste, “pela sua experiência na crise e estando agora a viver uma situação de paz estável e consolidada, tem todas as condições para participar numa missão internacional, e representar bem a nação além-fronteiras, contribuindo para o reconhecimento e credibilidade do país”.⁹

Maioria dos LGBTI em Timor-Leste sofreu violência, incluindo “violação de correção”:
O relatório, divulgado esta semana [Novembro 2017], documenta vários testemunhos de abuso psicológico e físico, incluindo violência doméstica, casamentos forçados e tentativas, por membros da família, de mudar a orientação sexual e identidade de género das pessoas.
O primeiro estudo sobre as vidas de mulheres lésbicas e bissexuais e sobre homens transexuais em Timor-Leste foi realizado em conjunto pela organização timorense Rede Feto (Rede Mulher) e pela organização ASEAN SOGIE Caucus, que luta por direitos LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e intersexo) no sudeste asiático.
Muitos dos entrevistados tiveram de ser hospitalizados várias vezes e outros têm, ainda hoje, cicatrizes da violência que sofreram.
Comum a muitos dos relatos, especialmente de mulheres, é o facto de descreverem tentativas das suas famílias as ‘converterem’ à heterossexualidade com medidas “cruéis”, incluindo serem obrigadas a beber sangue de galinha para “as limpar”. Muitas mulheres relatam ter sido violadas por familiares com o objetivo de as ‘corrigir’.
Ryan Silveiro, coordenador regional da ASEAN SOGIE Caucus, diz que este relatório sem precedentes quer ajudar a reforçar o movimento LGBTI em Timor-Leste, país que este ano realizou a sua primeira marcha do Orgulho.¹⁰

Redes sociais cresceram 30% em 2016 em Timor-Leste e são a maior fonte de informação:
O uso das redes sociais aumentou 30% em Timor-Leste no último ano [2016], atingindo um terço da população, com a quase totalidade a ligar-se através de telemóveis móveis.
Os dados foram compilados a partir de várias fontes pela empresa Timor Social, que trabalha em desenvolvimento de estratégias de comunicação nas redes sociais.
Segundo a Timor Social o número de utilizadores das redes sociais, em particular do Facebook, é hoje maior do que “televisão, rádio e jornais juntos”. Praticamente todos os timorenses que utilizam a Internet, cerca de 400 mil (ou 33% da população de 1,22 milhões) têm perfis ativos nas redes sociais, com destaque para o Facebook que tem 400 mil utilizadores em Timor-Leste.
Segundo a Timor Social, 95% dos utilizadores de Facebook utiliza telefones móveis para aceder à rede, 40% utiliza o Facebook diariamente, sendo 62% dos perfis de homens e 38% de mulheres.¹¹

Timor-Leste é cada vez mais usado pelas redes de tráfico de droga [2016]:
As autoridades timorenses e os observadores internacionais acreditam que os traficantes estão a aproveitar-se das fronteiras porosas de Timor-Leste e da sua “insuficiente capacidade de aplicar a lei” para transportar narcóticos ilegais através de Timor-Leste para a Indonésia e para outras partes da região.
Segundo fontes timorenses citadas no documento, as drogas que transitam por Timor-Leste são quantidades desconhecidas de metanfetaminas, heroína, marijuana e cocaína.
“Timor-Leste está só a começar a focar-se e a compreender bem a dimensão das questões do tráfico. Há vontade política para combater as drogas, mas os quadros legal e de investigação necessários para montar uma estratégia nacional eficaz de combate ao tráfico de droga estão ainda a dar os primeiros passos”, conclui o Departamento de Estado.¹²

Timor-Leste apresenta um dos índices mais elevados de liberdade e democracia na Ásia. Em 2017, foi o mesmo o único país do Sudeste Asiático a receber a classificação de “livre” da Freedom House.¹³

Timor-Leste é apontado no relatório da Amnistia Internacional de 2018 em três pontos; um deles refere-se à liberdade de expressão dos jornalistas:
Jornalistas enfrentaram acusações de difamação por realizarem o seu trabalho.
No dia 1 de Junho, um tribunal na capital, Díli, libertou os jornalistas Raimundos Oki e Lourenço Vicente Martins de todas as acusações contra eles. As acusações haviam sido impetradas pelo Ministério Público em 17 de maio numa ação de difamação, seguindo as afirmações feitas em janeiro de 2016 pelo então primeiro-ministro Araújo de que os jornalistas haviam feito falsas acusações ou “denúncia caluniosa” sob o Artigo 285 do Código Criminal. As acusações estavam relacionadas com um artigo no jornal Timor Post, alegando interferência oficial durante o processo de concurso para um projecto governamental de TI.¹⁴

Timor-Leste encontra-se em 95º lugar no Índice Mundial da Liberdade de Imprensa 2018 (em 180 países):
Desde a sua ascensão à independência em 2002, nenhum jornalista foi preso por realizar o seu trabalho em Timor-Leste. Os artigos 40 e 41 da Constituição garantem a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa. Mas várias formas de pressão são usadas para impedir os jornalistas de trabalharem livremente, incluindo procedimentos legais intimidatórios, violência policial e denegação pública de meios de comunicação por funcionários do governo ou parlamentares. A instauração dum Conselho da Imprensa em 2015 constituiu um passo na direção certa, apesar das reservas expressadas pela imprensa em relação ao processo de eleição dos seus membros. Mas a lei sobre os meios de comunicação social adotada em 2014, apesar das advertências da comunidade internacional, representa uma ameaça permanente aos jornalistas e estimula a autocensura. O novo governo deve dar provas concretas da intenção de elevar Timor-Leste no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa.¹⁵

Sobre a polémica Lei de Imprensa, publicada em 2014 no Jornal da República:
Timor-Leste caiu 26 posições no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2015, classificando-se em 103 dos 180 países incluídos. Esta foi a segunda maior queda do mundo. O relatório explicou que “a criação dum conselho de imprensa e a adoção dum código de ética em outubro de 2013 foram uma decepção. Em 2014, o governo propôs uma lei nova e dura, que levou à autocensura generalizada”.¹⁶

E a Human Rights Watch indica:
“Os media tiveram um papel crucial na longa luta pela independência de Timor-Leste”, disse Phelim Kine, vice-diretor da Ásia. “O presidente deve dizer ao parlamento que uma lei de imprensa que sufoca a liberdade de expressão não obterá a sua assinatura”. “Um conselho de imprensa oficial, uma exigência de licenciamento para jornalistas e obrigações de ‘cultura nacional’ e ‘interesse público’ indefinidas são a marca dos governos antidemocráticos que querem reprimir a liberdade de imprensa”, disse Kine. “Timor-Leste não deve seguir este caminho.”¹⁷

Para perceber em detalhe esta Lei da Imprensa em vigor atualmente, basta consultar o link abaixo do La’o Hamutuk, o qual indica por seu turno outros tantos links esclarecedores. Por curiosidade deixo alguns rankings de outros países:
Portugal está em 14º, Austrália em 19º, EUA em 45º lugar, Indonésia em 124º lugar. Em primeiro lugar está a Noruega.¹⁸

Já no Índice de Percepção de Corrupção, Timor-Leste encontra-se na posição 105, em 180 países.
Portugal está em 30º, Austrália 13º, EUA 22º, e Indonésia na 89ª posição. Em primeiro lugar está a Dinamarca.¹⁹

Há um turbilhão de coisas a acontecer, portanto. Umas boas, outras menos. É um país a funcionar em pleno. Hoje o ambiente e o turismo são uma preocupação. As baleias e os tubarões. O fenómeno das redes sociais a conquistar em força a população timorense. A nova comunidade LGBTI a despontar, a qual já faz marchas, como no resto do mundo. Três pontos negativos na Amnistia Internacional. Portugal tem sete. Só há que trabalhar neles e melhorá-los.
Vamos torcer para que Timor-Leste se mantenha no bom caminho, que prospere, que dê liberdade aos seus jornalistas, e que as novas gerações se formem, ganhem experiência, e dêem continuidade ao tremendo trabalho que foi feito nestes últimos 19 anos.
Cá estaremos para continuar a apoiá-los em tudo o que for preciso.
E dar uns mergulhos nas belas praias (de preferência sem crocodilos) e mais uns passeios de bicicleta.


¹ “União Europeia e Timor-Leste assinam acordo para combater malnutrição no país” (2018, 17 Dezembro). Agência Lusa. Jornal O Observador. Página consultada a 5 Março 2019,
<https://observador.pt/2018/12/17/uniao-europeia-e-timor-leste-assinam-acordo-para-combater-malnutricao-no-pais/>

² “OMS confirma erradicação do sarampo e controlo da rubéola em Timor-Leste” (2018, 3 Agosto). Agência Lusa. Jornal O Observador. Página consultada a 5 Março 2019,
<https://observador.pt/2018/08/03/oms-confirma-erradicacao-do-sarampo-e-controlo-da-rubeola-em-timor-leste/>

³ “ONU saúda plano de ação contra doenças não-transmissíveis em Timor-Leste” (2018, 30 Novembro). Agência Lusa. Jornal O Observador. Página consultada a 5 Março 2019,
<https://observador.pt/2018/11/30/onu-sauda-plano-de-acao-contra-doencas-nao-transmissiveis-em-timor-leste/>

⁴ “Timor-Leste suspende licenças e retém navios chineses que pescaram tubarão” (2017, 22 Setembro). Agência Lusa. Jornal O Observador. Página consultada a 5 Março 2019,
<https://observador.pt/2017/09/22/timor-leste-suspende-licencas-e-retem-navios-chineses-que-pescaram-tubarao/>

⁵ “Bióloga sugere alterações na exploração petrolífera timorense durante migração de baleias”. Agência Lusa. Jornal O Observador. Página consultada a 5 Março 2019,
<https://observador.pt/2018/11/11/biologa-sugere-alteracoes-na-exploracao-petrolifera-timorense-durante-migracao-de-baleias/>

⁶ “Timor-Leste conquista primeira medalha de sempre nos Asian Para Games” (2018, 10 Outubro). Agência Lusa. Jornal O Observador. Página consultada a 5 Março 2019,
<https://observador.pt/2018/10/10/timor-leste-conquista-primeira-medalha-de-sempre-nos-asian-para-games/>

⁷ “Seleção Timorense de Futebol” (s.d.). Wikipedia. Página consultada a 5 Março 2019,
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Sele%C3%A7%C3%A3o_Timorense_de_Futebol>

⁸ “SIBS lança o primeiro sistema eletrónico interbancário em Timor Leste – o P24” (2018, 18 Dezembro). SIBS. Página consultada a 5 Março 2019,
<https://www.sibs.pt/2018/12/18/sibs-lanca-o-primeiro-sistema-eletronico-interbancario-em-timor-leste-o-p24/>

⁹ “Polícia timorense tem condições para integrar missões internacionais, diz ex-Presidente da República Ramos-Horta” (2018, 20 Julho). Agência Lusa. Jornal O Observador. Página consultada a 5 Março 2019,
<https://observador.pt/2018/07/20/policia-timorense-tem-condicoes-para-integrar-missoes-internacionais-diz-ex-presidente-da-republica-ramos-horta/>

¹⁰ “Maioria dos LGBTI em Timor-Leste sofreu violência, incluindo “violação de correção”” (2017, 10 Novembro). Agência Lusa. Jornal O Observador. Página consultada a 5 Março 2019,
<https://observador.pt/2017/11/10/maioria-dos-lgbti-em-timor-leste-sofreu-violencia-incluindo-violacao-de-correcao/>

¹¹ “Redes sociais cresceram 30% em 2016 em Timor-Leste e são a maior fonte de informação” (2017, 7 Fevereiro). Agência Lusa. Jornal O Observador. Página consultada a 5 Março 2019,
<https://observador.pt/2017/02/07/redes-sociais-cresceram-30-em-2016-em-timor-leste-e-sao-a-maior-fonte-de-informacao/>

¹² “Timor-Leste é cada vez mais usado pelas redes de tráfico de droga” (2016, 8 Março). Agência Lusa. Jornal O Observador. Página consultada a 5 Março 2019,
<https://observador.pt/2016/03/08/timor-leste-vez-usado-pelas-redes-trafico-droga/>

¹³ “Eleições antecipadas em Timor vão devolver governo a Xanana” (2018, 12 Maio). Diário de Notícias. Página consultada a 5 Março 2019,
<https://www.dn.pt/mundo/interior/eleicoes-antecipadas-em-timor-vao-devolver-governo-a-xanana-9332437.html>

¹⁴ “Timor-Leste 2017 /2018 – Freedom of expression – journalists”. Amnesty International. Página consultada a 5 Março 2019,
<https://www.amnesty.org/en/countries/asia-and-the-pacific/timor-leste/report-timor-leste/>

¹⁵ “2018 World Press Freedom Index. East Timor – Draconian Media Law”. Reporters Sans Frontières (RSF). Página consultada a 5 Março 2019,
<https://rsf.org/en/east-timor>

¹⁶ “Proposed Law on Media” (2014, 7 Fevereiro. Atualizado a 2017, 8 Junho). La’o Hamutuk. Página consultada a 5 Março 2019,
<http://www.laohamutuk.org/misc/MediaLaw/14MediaLaw.htm>

¹⁷ “East Timor: Revise Repressive Media Law” (2014, 16 Julho). Human Rights Watch. Página consultada a 5 Março 2019,
<https://www.hrw.org/news/2014/07/16/east-timor-revise-repressive-media-law>

¹⁸ “Classificação Mundial da Liberdade de Imprensa 2018”. Reporters Sans Frontières (RSF). Página consultada a 5 Março 2019,
<https://rsf.org/pt/classificacao%20>

¹⁹ “Corruption Perception Index 2018”. Transparency International. Página consultada a 5 Março 2019,
<https://www.transparency.org/cpi2018>