São Tomé e Príncipe: 550 km de bicicleta, sozinha, 29 dias

001 - Introdução

Fiz ao todo 550 km de bicicleta nas duas ilhas: 205 na ilha do Príncipe (onde estive onze dias) e 345 na ilha de São Tomé (onde estive dezoito dias). São Tomé tem uns 50 km de comprimento e 30 de largura, e o Príncipe tem uns 30 km de comprimento e 6 de largura.  Distam entre si 160 km. Sendo as ilhas tão pequenas, bem que podem perguntar-me como consegui fazer tantos quilómetros. Andei às voltas?

Efetivamente mudei de padrão, nesta minha viagem por São Tomé e Príncipe. Não ando com um carro de apoio. Comprei os voos e a estadia na internet, e vim sozinha, sem agências de viagens desta vez. Instalei-me num ponto fixo, o mais possível no centro das ilhas, e a partir daí saio todos os dias para um ponto diferente. Vou fazendo percursos em forma de estrela, digamos. Todos os dias vou – e regresso. Daí a repetição de quilómetros. Além de que sendo ilhas montanhosas, os quilómetros propagam-se nas curvas e contra-curvas. E subidas e descidas, pois claro.

Sendo o meu estilo de viagens lento, com muitas paragens e conversas pelo caminho, e ainda uns mergulhos de vez em quando, não consegui mesmo assim conhecer todos os pontinhos. Ficaram a faltar-me umas coisas aqui e ali. Vinte e nove dias não foram suficientes. Mas a maior parte do país ficou vista – e bem vista, com toda a calma. Quem tiver pressa de conhecer São Tomé e Príncipe bem que pode sair já destas crónicas, mais vale mudar já de website, porque estas vão decorrer ao ritmo das minhas pedaladas lentas e cheias de paragens e fotos. E sorrisos.

Sobre São Tomé e Príncipe não se encontra quase nada na internet – informação turística, entenda-se. Vêem-se sempre as mesmas fotos de praias, crianças sorridentes, edifícios da época colonial e pouco mais. O turista comum não conhece grande coisa, vai simplesmente aos locais habituais sugeridos pelas agências de viagens, e adicionalmente não tem muito tempo, as viagens são relativamente rápidas, de carro. Ora São Tomé e Príncipe não é só praias e crianças sorridentes, tem de haver muito mais do que isso. É esse o desafio a que me proponho: pegar na bicicleta, embrenhar-me pelos caminhos de terra e florestas, e ver o que há aqui. Onde estão vocês, meus amigos? O que andam a fazer? O que são as vossas vidas?

Vou espreitar tudo. E sou convidada a entrar em suas casas. Vou ter longas conversas, pausadas, sem pressas. Leve-leve. Esta expressão “leve-leve” é típica de São Tomé e Príncipe, e significa “suavemente, sem pressas”. Sem esforço desnecessário. Pedalar com calma. Vai leve-leve, dizem-me, acenando-me com um sorriso. Vou sim, vou leve-leve.

O povo santomense é tímido. Já estão habituados a turistas a circularem de jipe, já nem ligam. As caras pálidas passam nos seus jipes, às vezes tiram fotos da janela do carro, e na maioria das vezes só vão às praias bonitas e turísticas. Eu optei por caminhos alternativos – literalmente – pois estou a seguir trilhos para bicicleta de BTT (“bicicleta de mato”, como dizem os santomenses). Instalei a app “Maps.me” – uma maravilhosa app gratuita; fiz download do mapa de São Tomé e Príncipe, et voilà! Por vezes nem sigo por estradas, sigo por trilhos. Esta aplicação indica quatro tipos de caminhos: carro, pedestre, comboio (quando existe) e trilhos de BTT. A ponto de perguntar-me por vezes se isto é mesmo um caminho que vai dar a algum lado. Com arbustos cerrados dum lado e de outro, a roçarem em mim e na bicicleta. Só cabe uma pessoa, carros não entram, nem sequer motas. “O caminho é por ali”, diz-me um homem, apontando para a estrada. “Não, o GPS está a indicar-me que é por aqui”, respondi eu. “Sim, este caminho vai lá dar” – elucidou uma mulher. E desapareci no meio do mato. E que belas surpresas tive nesse dia, tanta gente que se encontra a trabalhar no meio do mato. Lá chegaremos.

Pelo que nestas circunstâncias, quando as pessoas se deparam com uma mulher sozinha de bicicleta pelos cantos mais recônditos e inesperados (aqui estou eu!) a surpresa é significativa. Mandam-me parar, chamam-me, querem saber mais. Não sou só eu que quero bisbilhotar, o povo santomense também tem curiosidade e enche-me de perguntas mal a timidez inicial se vai. O facto de falarmos todos português é fulcral. Fala-se português em todo o lado, não há dificuldade de abordagem.

Sendo assim, vamos partir. Levo-vos a todos sentadinhos no meu ombro, e talvez em cima do meu capacete, pequeninos, escondidos, para verem tudo com os vossos próprios olhos. Têm de colocar uns óculos de proteção e um pequenino capacete também, por segurança.

Vamos então.

002 - Chegada à Ilha de São Tomé

Desta vez levo a minha bicicleta, vai no avião comigo. Até hoje tenho sempre alugado uma no destino. É uma autêntica peripécia, posso dizê-lo. Foi a primeira vez que o fiz, e se tiver de repetir faço-o, mas é de evitar. Carregada com bagagens e mais uma bicicleta, é obra. Ainda por cima o voo parte às seis da manhã. Significa isto que tive de chegar ao aeroporto às quatro da manhã. Significa isto que tiveram de trazer-me ao aeroporto às três e meia da manhã. Eu acordei às duas e meia da manhã (ainda consegui dormir, sim, talvez duas ou três horas). Ora eu não quis ninguém no aeroporto a estas horas indecentes. Estas viagens são aventuras minhas, são esquemas meus, invenções minhas, é bom que me desenrasque. Queres levar a bicicleta, Rute? Então leva. Mas não vais meter ninguém ao barulho. Sobretudo porque quando aterrar em São Tomé, terei outro avião para a ilha do Príncipe – vou já direta – e aí não terei ninguém para ajudar-me. É bom que aprenda já no aeroporto de Lisboa.

Mas o que vale é que há sempre uma réstia de bondade e benevolência na humanidade, e fui ajudada no aeroporto de Lisboa, às 4 da manhã, por duas pessoas. Uma rapariga de mochila às costas levou-me o carrinho das bagagens enquanto eu levava a bicicleta a andar pelo chão, até às escadas rolantes. Depois um homem foi mais rápido, agarrou na bicicleta no ar e pronto, nem quis levá-la a andar (macho que é macho…). Levei eu as bagagens e ele a bicicleta no ar, com uma só mão, até à fila do check-in. Sendo negro, perguntei-lhe para onde vai (será já um simpático e prestável santomense?), mas não, ele vai para outro destino.

E esqueci-me que ainda é necessário retirar o ar dos pneus, e efetivamente pensei que fosse algo mais simples. Teve de vir um funcionário do check-in ajudar-me. Vieram dois até. Um tentou perceber como funciona – porque a bicicleta tem um sistema qualquer de segurança para não perder ar, além de que tem uma espuma anti-furos dentro; e o seu colega ficou a ajudar-me. Uma fila de gente atrás de mim – foram-se despachando nos outros balcões. Só tenho a agradecer a simpatia e paciência destas pessoas. No stress do seu trabalho, vêm ajudar-me. Podiam simplesmente dizer: desenrasca-te. Mas não, saem do seu lugar e vêm ajudar-me. E ficámos os dois com as mãos sujas de espuma do sistema anti-furos. Dei-lhe um lenço de papel, fiquei eu com outro. O suor já me escorre pelas costas e pernas. Já me é familiar esta sensação de que está um bicharoco a descer pela minha perna. É uma gota de suor.

E tive que aprender a montar e desmontar uma bicicleta, pois claro, porque o avião do Príncipe é pequeno, com vinte ou trinta lugares, com todos os milímetros bem contadinhos, pelo que tive de desmontar a bicicleta no aeroporto de São Tomé, e depois tive que montá-la à chegada, no Príncipe. Tive aulas! É verdade, antes de partir tive aulas com um mecânico de bicicletas. Duas horas de aulas numa oficina, durante as quais montei e desmontei a minha bicicleta umas dez ou quinze vezes. Fiquei toda suja de óleo, mas cumpri a missão. Caramba, quando chegar ao aeroporto de São Tomé, hei-de conseguir também. Levo umas luvas de plástico, e lenços para limpar as mãos. Neste primeiro voo – direto entre Lisboa e a ilha de São Tomé, é mais simples: basta tirar os pedais, o guiador tem de estar rodado a 90 graus e conservado firmemente nesta posição, e os pneus têm de estar vazios. Senão ainda explodem no ar. Contactei a companhia aérea STP Airways com bastante antecedência, cinco meses antes desta viagem, para ter esta informação e ver a viabilidade da coisa.

Depois quando mudar de avião para o Príncipe, é que se complica. Aterro às 11 da manhã em São Tomé, e tenho o voo para o Príncipe às 13H35. Em pleno aeroporto terei que deitar mãos à obra e desmontar os pneus.

E porque decidi levar a minha bicicleta desta vez? Porque fiz pesquisa na internet e não encontrei empresa nenhuma de aluguer de bicicletas em São Tomé e Príncipe. Ambos os hotéis onde vou ficar (nas duas ilhas) dizem-me que me arranjam uma bicicleta. Certo. Mas é de que tamanho? Eu ando em bicicletas do tamanho M ou S, depende. É de boa qualidade? É de homem ou de mulher? As mudanças são boas? A corrente não vai estar sempre a saltar, pois não? E os pneus são anti-furo? Ou vou ficar apeada sozinha no meio da floresta com furos?

Vim a saber mais tarde que há uma loja que aluga bicicletas, algures em São Tomé. No Príncipe, nada. Mas nunca eu poderia partir para uma viagem de bicicleta… sem bicicleta. E se depois a bicicleta de mulher, do meu tamanho, de boa qualidade, já estivesse alugada?

Tudo isto são riscos grandes na aventura a que me proponho, pelo que levo a minha. Fica o assunto resolvido. Tive aulas com um mecânico e paguei uma pipa de massa para transportá-la nos aviões, com certeza muito mais do que pagaria se alugasse uma no destino. Cem euros ida e volta no avião de São Tomé, e 170€ ida e volta no avião do Príncipe, mais pequenito, mais caro. Neste é ao peso: são 5€ por quilo. Foram 270€ ida e volta, portanto. A bicicleta pesa 17 kg com o cadeado, que se vê mal nesta foto, debaixo do ferro. Parece uma bateria, mas não é: é um cadeado que pesa 2 kg, e o qual mostrarei com detalhe mais adiante. A bicicleta está toda artilhada para esta emocionante viagem.

Com as revisões que foi necessário fazer-lhe, antes e depois da viagem (25€ uma revisão antes de partir, 50€ outra depois de chegar, juntamente com uma limpeza profunda, óleo e corrente inclusive) o transporte da bicicleta ficou na módica quantia de 345€. Caríssimo, portanto.

Começam já as surpresas. Conforme referi acima, neste primeiro voo – direto entre Lisboa e a ilha de São Tomé (o voo dura seis horas), é mais simples: basta tirar os pedais, o guiador tem de estar rodado a 90 graus e conservado firmemente nesta posição, e os pneus têm de estar vazios. Paga-se 50€. E a bicicleta tem de passar no tapete dos raios-x das bagagens fora de formato. O que a malta não está à espera é que este tapete seja pequeno demais para uma bicicleta. Que raio de fora de formato será este. Nem cabe uma bicicleta. Resultado: a Segurança que está a controlar o tapete diz-me que não cabe e que tenho de tirar os pneus. Ai.

Mas eu não hesitei. Tive aulas para quê? Vou já pôr em prática os ensinamentos. Tiro a bicicleta de cima do tapete rolante, deito-a no chão, e saco imediatamente das ferramentas na minha bolsa de cintura – e mãos à obra. A Segurança a olhar para mim. Eu de saia. A Rute de sainha, de joelhos no chão em pleno aeroporto de Lisboa, de ferramentas na mão, a desmontar pneus. Foi lindo de se ver. Ainda hoje solto uma gargalhada ao lembrar-me deste inesperado episódio às 4 e pouco da manhã, com uma multidão de gente a circular à minha volta.

A Segurança terá ficado surpreendida com a minha rapidez de decisão, sem hesitação, com a minha total competência na área mecânica (tudo isto é novo para mim, mas ela não sabe), porque saiu do seu lugar e veio ter comigo, agarrou ela própria na bicicleta, levou-a e colocou-a em cima do tapete rolante. Bastou tirar o pneu da frente – “Basta esse, já deve caber” – disse-me ela, e levou a bicicleta.

É importante referir já que a bicicleta está artilhada com um sistema de segurança anti-roubo. Além do cadeado de 2 kg que parece uma bateria, tem também um sistema nas duas rodas e no assento, que impede de roubá-los. Toda a gente sabe que a bicicleta pode ficar presa a uma árvore, mas que as rodas ou o assento podem ser roubados na mesma. Pois na minha não. Tem um sistema de segurança que não permite retirá-los. Tem um segredo: só quando a bicicleta está deitada no chão é que podem ser retirados (rodas e assento). Ora se estiver presa com o cadeado a uma árvore, têm que serrar a árvore ou o cadeado, para conseguir deitá-la no chão e finalmente retirarem as rodas ou o selim. Por isso eu deitei imediatamente a bicicleta no chão do aeroporto para retirar-lhe as rodas. Tenho esta pequena complicação pelo meio, que exige algum jeito e conhecimento.

Leve-leve, Rute. Leve-leve tudo se faz.

Diga-se também que este sistema anti-roubo é mais vocacionado para cidades grandes, como Lisboa, muito mais do que pequenas terras como São Tomé e Príncipe. A própria marca deste sistema anti-roubo tem um gráfico no seu website que explica isto e sugere o cadeado correto para cada ocasião. Este é um cadeado para Lisboa, onde todas as bicicletas desaparecem, ou pelo menos as rodas e assentos desaparecem. Mas eu não ia comprar dois cadeados, sobretudo porque são caros. O que me serve num local, vai servir nos outros todos. Este é de aço puro e levará umas horas até ser serrado. Entretanto chego eu à bicicleta.

O nascer do sol. Aí vou eu, São Tomé e Príncipe! Eu e a minha bicicleta!

O meu lugar é ao centro, mas ao meu lado esquerdo existem 4 lugares livres, pelo que mudei para a janela. (Esta tripulação não me conhece e ao meu desassossego de lugares dentro dum avião…) Virei a conhecer mais tarde um casal português, com uma filha, que comprou o voo um mês antes e já nem havia opção de voo direto nestas datas. Está tudo esgotado há muito tempo. Pelos vistos estas quatro pessoas faltaram. Esse casal português teve de ir noutro voo com escala. Eu comprei este voo cinco meses antes. Só existem voos diretos ao sábado. Os voos diretos são mais caros, mas dou-lhes sempre preferência pelo conforto que trazem. Sobretudo agora com a bicicleta, não daria jeito nenhum andar a mudar de avião.

Entretanto, depois de eu ter comprado os voos, estes foram alterados para as sextas-feiras. Resultado: cheguei um dia antes ao Príncipe. Era suposto chegar sábado, mas como o voo direto foi antecipado para sexta-feira, eu cheguei sexta-feira também ao Príncipe, o que significou ter de pagar uma noite adicional no Príncipe. E perdi uma noite em São Tomé, no último dia da viagem. Eu tinha alojamento pago até sábado, sem direito a reembolso, e afinal regressei a Portugal na sexta-feira antes. Esta alteração de voos implicou um custo de duas noites de alojamento, portanto. Ainda ando a tentar resolver isto com o seguro de viagem.

8H15 pequeno-almoço.

Está um frio dos diabos dentro do avião. Vou para um país tropical tapada com dois cobertores, esta gente é doida. Observo à minha volta e efetivamente as pessoas estão todas tapadas também com os cobertores azuis escuros disponibilizados no avião. Portugueses e santomenses – povos de terras quentes – a congelarem que nem pinguins dentro do avião. Para quê este frio nos aviões, é absurdo.

10H15 almoço. Este é um almoço bem matinal, mas enfim, não sobrou nada no meu tabuleiro, desapareceu tudo. Eu estou sempre pronta para almoçar às dez da manhã. Sobretudo porque acordei às duas e meia da manhã. Para mim já é hora do lanche. E estava outro passageiro a comentar atrás de mim que não lhe perguntaram se queria massa, serviram-lhe carne e pronto. Pelos vistos havia massa e questionaram outros passageiros. A mim também não me perguntaram nada. Mas para mim está ótimo, eu como tudo mesmo.

Seis horas depois… terra à vista!

Aterrámos 4 minutos antes da hora prevista. São 11 da manhã, hora local. Fazem uns deliciosos 28 graus. Pinguins portugueses e santomenses vão finalmente descongelar.
A diferença horária entre Portugal e São Tomé e Príncipe é mínima: uma hora de diferença. Aqui é uma hora a menos. Em Portugal é meio dia, portanto.

Perguntei a este Polícia se podia fotografá-lo. Porquê? – perguntou-me ele a rir-se. Porque acabei de chegar, são as primeiras impressões – respondi eu. Efetivamente também o achei bonito, este primeiro santomense que me aparece à frente, mas nem me atrevi a dizer-lhe isto. Virei a descobrir em breve que são atrevidos, os homens santomenses, é preciso ter cuidado com eles! 🙂

Chegou tudo bem, bagagens e bicicleta com uma roda solta. Fui imediatamente ajudada pelos santomenses que voaram comigo: um homem tirou a bicicleta da passadeira, uma rapariga apanhou a roda, e arrumaram-me tudo perto de mim. Esta hospitalidade e simpatia dos santomenses promete. A minha mala chegou no fim, já quase tudo vazio e deserto. Eu já a ver a coisa mal parada. Bom, é mais importante a bicicleta, essa já a tenho comigo, pensei. Se tiver que usar todos os dias a mesma roupa, paciência. Tudo o que é importante está comigo na mochila de mão, inclusive os calções e as luvas de ciclismo.
Mas não, lá veio a mala também.

Agora tenho que ir tirar a roda de trás, a mais complicada porque tem as mudanças. Tem o sistema de segurança anti-roubo, que me causa um nervoso miúdo, a verdade seja dita, e mais as mudanças. Eu tenho que saber lidar com o sistema de segurança. Nem sempre é fácil, exige alguma precisão. Nas minhas aulas com o mecânico nem sempre consegui. Às vezes é só à terceira ou quarta tentativa. Isto é mesmo à prova de roubo, nem eu própria consigo tirar a roda.

003 - Chegada à Ilha do Príncipe

Um funcionário do aeroporto mandou-me encostar as coisas (bagagens e bicicleta) a um canto da sala do check-in, para eu poder desmontar o pneu de trás à vontade, com espaço, sem ninguém em cima de mim. Foi simpático. Efetivamente só tenho a dizer bem de todo o pessoal dos aeroportos por onde passei nesta viagem: Lisboa, ilha de São Tomé e ilha do Príncipe. Nos três aeroportos fui quase mimada, posso dizê-lo. Se calhar não é comum verem uma rapariga sozinha a viajar, ainda por cima com uma bicicleta. Preciso necessariamente de ajuda, aqui e ali. Tudo maravilhoso.
E tirei o pneu de trás num minuto, com luvas de plástico. O suor novamente a escorrer-me pelas costas, aqui devido ao magnífico calorzinho desta ilha tropical. Que bom.

Eu levo uma grande carga comigo, e tive que desembolsar bem, aqui. Tenho direito a 15 kg. Ora a minha mala grande pesa 20 Kg. Levo uma tonelada de comida. De bolachas, de barras de proteína, de gel energético. Até pacotes de leite com chocolate eu levo. (E fiz bem em levar, porque bebi-os todos, e não havia nada disto à venda na pequenina ilha do Príncipe). Calculei que não existissem muitos cafés e restaurantes no Príncipe, no meio da floresta. E os que existissem não deveriam ter barras de proteína ou gel energético, produtos bem especializados que só se vendem em lojas de desporto.
E depois mais os 17 kg da bicicleta. O peso da minha bagagem (5€ por quilo extra) ficou mais caro do que os bilhetes do avião. Até doeu.

E enquanto espero pelo embarque, cabeceio de sono. Acordei às duas e meia da manhã, e nas seis horas de voo não dormi nada. Passei o tempo todo a comer, a verdade seja dita. Tira comida, põe comida, serve café, tira café, e depois casa de banho, e depois caminhar um pouco para desentorpecer – e assim se passaram as seis horas. Comparado com voos de outras viagens anteriores, que duram quase dois dias, este é uma brincadeira de crianças.

Este cartaz está afixado no aeroporto. Indica: Pense antes de comprar! A população de tartaruga de pente de São Tomé e Príncipe está entre as 10 populações de tartarugas marinhas mais ameaçadas do mundo! O comércio ilegal de souvenirs de carapaça de tartaruga incentiva a captura desta espécie criticamente ameaçada de extinção! A preservação das tartarugas marinhas está nas nossas mãos!

Muito bem, fica o alerta.
Curiosamente um segurança chamou-me à atenção – que não posso fotografar isto. A foto não estava a ficar bem por causa do flash. Tive de tentar várias vezes, com flash e sem flash, até que esta ficou razoável. Ele cansou-se de ver tantos flashes e veio ter comigo, com maus modos, autoritário, dizendo-me que não posso tirar fotos. Já conheço de experiência estes seguranças dos aeroportos mais pequenos, que gostam de exercer o seu grande poder. Tantos funcionários fardados a passarem para cá e para lá, sem me ligarem nenhuma, a verem que eu estou interessada no cartaz (e muito bem), mas este lembrou-se de exercer o seu grande poder de segurança. A tacanhez dum homem. Virei-lhe as costas e fui-me embora. Em circunstâncias normais eu teria conversado com ele, tê-lo-ia consciencializado sobre a relevância desta temática – das tartarugas em São Tomé e Príncipe e da importância de mostrar este cartaz aos turistas que chegam – mas estou numa posição frágil, cheia de bagagens, à espera dum voo, não quero problemas. Alguém conseguirá instruir estas pessoas que a segurança do país não fica em causa por se fotografar um cartaz sobre tartarugas?
Quantas mais fotos, melhor.
Ou na volta ele trafica objetos feitos com a carapaça de tartarugas e não quer divulgação nenhuma… também me ocorreu isso.

O avião está quentíssimo, não tem ar condicionado. Transpiro loucamente. Fui ao wc antes de descolar, lá à frente à direita, é minúsculo.

Curiosamente tiraram-nos temperatura à chegada. Ainda andei à procura desta funcionária para lhe perguntar o porquê (não reagi no momento, fiquei surpreendida por ter uma máquina apontada à minha testa), mas já não consegui encontrá-la. Será pelo facto do avião não ter ar condicionado? Durante o voo a coisa refrescou, lá veio um arzito fresco.

Vitória! Cheguei à ilha do Príncipe com a minha bicicleta!!
São duas da tarde!

Tenho este rapaz à minha espera no aeroporto. Chama-se Ney e a sua única função nesta minha estadia foi levar-me e trazer-me ao aeroporto. Não é muito falador. Não cheguei bem a perceber quem é; aparentemente trabalha com o gerente do hotel para onde vou.

Este é o pequeno hotel onde vou ficar. Uma residencial no centro da cidade de Santo António. Mas não na rua principal, normalmente mais barulhenta. Esta rua paralela mesmo assim vai ter grande movimento dado que existem quatro lojas nestes poucos metros. Uma loja do chinês, uma loja de bebidas (onde me abastecerei de garrafões de água), e duas mercearias.

Mas enfim, a pequenina cidade de Santo António, que tem este nome porque a ilha foi descoberta no século XV pelos portugueses no dia dedicado a este santo português, não é propriamente uma cidade muito barulhenta e agitada. Segundo dados de 2017 do Instituto Nacional de Estatística de São Tomé e Príncipe, a Região Autónoma do Príncipe tem 8.277 habitantes¹. Recordo que a ilha tem uns 30 km de comprimento e 6 km de largura. Tudo é mimoso nesta ilha. Não encontro dados atualizados sobre a população existente aqui na cidade – especificamente na cidade. Encontro apenas dados de 2012 também no INE: numa localidade chamada “Lenta-Piá” existem 1.020 habitantes². A cidade de Santo António é capaz de incluir mais algumas localidades, além desta “Lenta-Piá”. São pesquisas muito minuciosas e difíceis, na internet. Tentar perceber onde é que é esta “Lenta-Piá” e restantes comunidades é um sarilho. O INE não diz simplesmente “Cidade de Santo António”. Há várias comunidades, e todas foram contabilizadas uma a uma. Há um Santo António II, por exemplo, com 12 habitantes. Bom, mas andará pelos mil e tal habitantes.

E como é hábito, são os desembaraçados chineses que põem estas coisas de comércio a andar. Foram eles mesmo que me cambiaram euros em dobras. Um euro vale 25 dobras. O rapaz fechou os olhos com a surpresa do flash.

Aqui é a loja de bebidas. As marcas portuguesas começam a aparecer por todo o lado. Cada garrafão de 6 litros custa 70 dobras. O primeiro uso que dei às minhas recém-cambiadas dobras: 12 litros de água para começar a festa. Até os dentes vou ter que lavar com água engarrafada. Explicar isto à população é sempre difícil. Dizem-me logo que a água é boa, que posso beber à vontade. Como explicar que um estrangeiro europeu não pode beber água da torneira seja em África, seja na Ásia, porque simplesmente não está habituado aos microorganismos nela existentes. É diarreia e gastroenterite certas. Na consulta do viajante, que tive antes de partir (a milésima consulta, mas nunca a dispenso) lá me repetiram a lenga-lenga toda da água, da fruta descascada e dos legumes crus. Não posso beber água da torneira. Sim, doutora, anuí eu, como se não soubesse. Vacinas desta vez não precisei, porque simplesmente já as tomei todas. Comprimidos da malária é preciso tomar. A médica receitou-mos, mesmo comigo a dizer-lhe que não iria tomá-los porque me rebentam com o estômago. Fiquei com a receita por aviar. É um risco grande. Em São Tomé e Príncipe há o mosquito da malária, é uma zona vermelha. Venho com cinco frascos de spray anti-mosquitos para espalhar diariamente no corpo. Contabilizei um frasco por cada seis dias de viagem, com base em experiências anteriores.

Vejo referências na internet à existência duma nota de 200, mas nestes 29 dias de férias nunca vi nenhuma. O máximo que vi foi de cem. Pelo que é necessário andar com uma porção de notas no bolso. 50€ são 1250 dobras, por exemplo.

Aqui no Príncipe tudo é muito caro, tudo vem através dum barco que já foi ao fundo duas vezes, com mortes de pessoas inclusivamente. Este barco traz também a energia – para fornecer luz e água à ilha. Se o barco falha… também falha a luz e a água. Efetivamente estou sem luz e sem água, neste momento, no hotel. O rapaz que me trouxe do aeroporto disse-me que a eletricidade vem habitualmente às 17.30/18h. À meia-noite desligam-na. Depois vem às 6 da manhã até ao meio dia, disse ele.

Segundo passo: comprar um cartão de telemóvel. Existem duas companhias em São Tomé e Príncipe: a Unitel, que é a mais recente, e a CST, Companhia Santomense de Telecomunicações. Ambas me responderam rapidamente ao email que enviei, ainda em Portugal, a perguntar se posso comprar um cartão no Príncipe, logo à chegada. Eu, que não percebo nada disto, que desconheço os tarifários, tive que escolher uma ao acaso. Esta menina pediu-me o passaporte, pediu-me 80 dobras por um cartão com 50 dobras de chamadas incluídas, e eu pedi 3 GB de internet, que me custaram 200 dobras. Cada chamada custa duas dobras na mesma rede por minuto. Para outras redes não soube dizer-me.

Só me faltava a bicicleta, e ei-la também já perfeitamente operacional, toda montada. Uma mulher mecânica vale por duas!! Montei-a aqui mesmo dentro do quarto do hotel. É uma responsabilidade delicada – é bom que esteja corretamente montada, porque não é suposto eu ir a descer uma montanha a toda a velocidade, aos saltos por cima de terra e pedras, e ela desmantelar-se nas minhas mãos. Seria uma queda aparatosa. Mas não, eu montei sempre bem a bicicleta, nesta viagem. As aulas dadas pelo mecânico em Lisboa foram bem dadas. E a aluna aprendeu tudo corretamente.

Repare-se que está a escurecer e eu sem luz. Toda a ilha sem luz, aliás. Às 5 e meia da tarde é noite. Sem luz e sem água para lavar as mãos. Mal vier vou tomar um duche, vou comer cereais com dois dos meus pacotes de leite com chocolate, e vou dormir. Acordei às 2H30 da manhã, estou k.o. de sono.

Reparem que a bicicleta vem toda artilhada para esta viagem, conforme já referi. Além do sistema de segurança anti-roubo – um cadeado de aço de 2 kg (por baixo do ferro central, junto ao pneu da frente); um sistema de anti-roubo das duas rodas e do selim; vem também com três suportes de água, totalizando 1,85 litros (a bicicleta fica portanto com quase 19 kg quando está carregada de água); e finalmente um suporte para o telemóvel, no guiador, dado que vou usar o GPS no telemóvel. Os pneus têm um sistema anti-furo: têm uma espuma que fecha automaticamente o furo. A bicicleta fica mais pesada assim, mas se se espetar um prego, andarei com ele sem dar conta. Estas tecnologias são fabulosas.

Portanto já tenho água, internet e bicicleta, tudo corre bem. Fui encher os pneus à loja do chinês, porque a minha bomba é pequena, de mão, e aparentemente não consigo pôr aquilo a funcionar. A minha bomba de pé, grande, ficou em Portugal, não podia vir carregada com aquilo. Na loja do chinês ainda lhes perguntei se me vendiam uma bomba de pé. Não vendem, mas têm um serviço de encher pneus 🙂

Estas três fotos foram tiradas uns dias mais à frente, no entanto para mostrar o cadeado, publico-as já nesta crónica.

Eis o verdejante mapa da ilha do Príncipe. O aeroporto está a 3 km da cidade de Santo António.


¹ “População Recenseada e Estimada no período 2013-2017”. São Tomé e Príncipe em Números 2017, p. 9. Instituto Nacional de Estatística – INE. Página consultada a 29 Agosto 2019,
<https://www.ine.st/index.php/publicacao/documentos/file/414-stpemnumeros-2017>

² “Distribuição da população residente segundo o distrito e localidade, por grandes grupos de idade e sexo”. IV Recenceamento Geral da População e da Habitação 2012, p. 39. Instituto Nacional de Estatística – INE. Página consultada a 29 Agosto 2019,
<https://www.ine.st/index.php/publicacao/documentos/file/350-publicacao-dos-resultados-sobre-localidades-iv-rgph-2012>

004 - Príncipe - Cinco e Meia da Manhã, Primeiro Reconhecimento

Acordei às 4 da manhã. A luz foi cortada poucos minutos depois. Cheira a petróleo e ouve-se um gerador. Os galos cantam.
Vai amanhecer às 5.30h. O pequeno-almoço é servido cerca das 8h. Garantidamente não vou ficar fechada no hotel até às 8h. Ponho o repelente de insetos no corpo (eu não pus o spray no quarto antes de deitar-me, mas felizmente não houve mosquitos esta noite), bebo mais um dos meus pacotes de leite com chocolate (trouxe 8) e às 5.30h vou fazer o primeiro reconhecimento da cidade, de bicicleta.

Aqui é a bonita marginal. Localizo-a no mapa, no fim desta crónica.

Estou a estrear uma câmera fotográfica nova. A anterior, que me acompanhou durante anos, avariou-se. Já não quis repará-la, já era altura de comprar uma máquina nova, com novas funcionalidades. Uma destas funcionalidades dar-me-á muito jeito: as selfies. Estas novas máquinas vêm bem preparadas para as célebres selfies. E são muito melhores do que um telemóvel, pois claro. Esta tira 9 selfies seguidas, e programo-a se quero a primeira selfie tirada em dez segundos, ou em vinte. Dá-me tempo de afastar-me, montar a bicicleta, e andar alguns metros, enquanto ela tira depois as 9 selfies de cinco em cinco segundos. Alguma há-de ficar bem. Também tem um écran amovível, ou seja, quando coloco a máquina no chão, antes deitava-me também no chão para ver no visor. Agora isso acabou: basta-me destacar e girar o écran amovível na direção que quero. Para cima, neste caso, dado que estou em pé. Estas tecnologias são mesmo fabulosas. Nesta foto deixei a máquina em cima do muro duma casa…  et voilà. Tenho 9 fotos seguidas a pedalar nesta estrada. Esta é a melhorzita. (E entretanto apaguei todas as outras). Mas quando há gente na rua normalmente eu peço às pessoas para me tirarem várias fotos. Vou ensinar muita gente a mexer nesta máquina – a função simples de espreitar no binóculo e clicar no obturador. Os santomenses tiram muitas fotos, mas com telemóvel. Normalmente não conhecem este tipo de máquinas.

Nesta viagem tirei 6.500 fotos. Apaguei logo muitas em São Tomé e Príncipe, num trabalho diário antes de deitar-me (que tive esta noite também, antes de adormecer). Voltei para Portugal com 3.660 fotos. E num segundo trabalho de limpeza, já em Lisboa, apaguei mais 500 e tal. Tenho 3.000 fotos agora, portanto. Nestas crónicas irei mostrar a maior parte delas.

São 6 e meia da manhã e tenho aqui o primeiro contacto com as lavadeiras do rio, ou neste caso da ribeira. O primeiro de muitos contactos. É um cenário comum em São Tomé e Príncipe. A maior parte das casas não tem água canalizada. As pessoas vão todos os dias buscar água aos chafarizes públicos, distribuídos amiúde por todo o país. Além do mais, a luz e a água canalizada faltam com frequência. Recordo que saí do hotel sem luz. Tinha água, porém. Mas quando regressar daqui a pouco, para o pequeno-almoço, já não haverá água também, além da luz. É o primeiro impacto e começo já a aperceber-me da dureza da vida destas pessoas.

Com roupa para lavar, a caminho da ribeira.

Estive 45 minutos aqui sentada, a ponto de já praticamente me ignorarem. Deixei a bicicleta na estrada presa com o cadeado e meti-me pelo caminho de terra, até aqui. Falámos um pouco, eu disse-lhes que venho de Portugal. Eu ainda estou a apalpar terreno, a conhecer tudo. Em breve saberei eu própria meter-me com estas pessoas, falar mais com elas. Ainda a sondar, eu própria estou um pouco calada. Não sei bem o que dizer ainda. Tudo é novo para mim, tudo me espanta ainda.
Mas ao fim dum mês em São Tomé e Príncipe eu voltarei bem diferente. É impossível não sair marcada por uma viagem assim.

A Marginal. Eu estou alojada a uns duzentos metros dela. Fui sempre rente ao mar até à ponte; e vi as lavadeiras algures naquela estrada com a seta amarela.

005 - Príncipe - Pequeno-Almoço e Continua o Passeio por Santo António

São 7H30, regresso à Residencial para tomar o pequeno-almoço. Disseram-me que é servido às 7H30. Hoje só existem duas hóspedes: eu e uma rapariga da Roménia, que anda a viajar sozinha também. Troquei umas palavras com ela na véspera, a propósito da janela do meu quarto, que não fechava a parte das persianas. Perguntei-lhe como se fecha a janela do seu quarto, ela veio tentar ajudar-me, sem sucesso. Acabou por ser o gerente do hotel, que apareceu cerca das 19h, que me fechou a janela. Bastava um pouco de força, estas miúdas têm medo de fazer força nas coisas.

Tenho estas escadas chatas para subir e descer a bicicleta, sempre que entro ou saio. Em breve começarei a prendê-la na rua com o cadeado, nestas paragens breves. Tenho uma chave para a porta lá de baixo. Está sempre fechada à chave.

Afinal o pequeno-almoço ainda não está servido. Vou em busca da cozinha e da cozinheira, para ver o andamento das coisas. Eu estou a passear de bicicleta desde as 5 e meia da manhã, duas horas depois estou esgalgada com fome.

Um sumo e fatias de ananás. Começamos bem. Tal como expliquei na crónica 3, eu não posso beber sumos sem saber a sua exata origem. Não podem ter água da torneira. O ananás não pode ser cortado com uma faca molhada com água da torneira. Infelizmente tive que recusar. Como me apetecia comer e beber isto.

À falta de melhor, e surpreendida com a minha recusa, a senhora que vai cozinhar ao hotel (e que acabei por não ficar com o seu nome!) deu-me um ananás para eu própria cortar com uma faca seca. Efetivamente eu não devo ter direito a um ananás inteiro, ao pequeno-almoço, nesta pequena ilha de custos bem controlados, mas com a fome com que estava, desapareceu tudo num instante, antes de chegar o resto do pequeno-almoço.

São 8H30. Finalmente chega o pequeno-almoço (ou a segunda parte dele). Isto é muito tarde. Eu não posso estar às 8H30 todos os dias no hotel. Às 8H30 já eu estarei na outra ponta da ilha, de bicicleta. Irei combinar com o gerente do hotel deixarem-me o pequeno-almoço no quarto, e eu tomo-o às 4 da manhã do dia seguinte.
Os ovos vêm cozidos porque assim o solicitei. Fui questionada sobre como os queria.

Manteiga? Esqueçam lá isso. Não vou ver manteiga nunca. Mas também conservar manteiga sem luz durante metade do dia, com este calor, é capaz de ser complicado. Só mesmo com geradores.

Segunda volta, agora já mais confortável de barriga cheia.

Os santomenses carregam nos “R” ao falar. Nem todos, mas eu diria que a maior parte carrega. Vamos à prrraia. Frrruta.
E aqui escrevem mesmo: “Foto rápida – Tirrou, recebeu”!

Deixo a tradução em inglês para os leitores estrangeiros: “Sold here: wings, gizzards, drumsticks, chickens and eggs, fresh and salted meat”.

Em inglês: “Recording Studio Audio Clips Movie DJ. Animia”

Um carro do PNUD, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

Preço da gasolina: 26.350 dobras, o que corresponde a 1,05€. Gasóleo 21.750 dobras, ou 0,87€. Devido à inflação, em 2018 a dobra foi redenominada a uma taxa de 1000 para 1, pelo que atualmente diz-se 26,35 dobras e 21,71 dobras. O código da dobra é STD.
São Tomé e Príncipe assinou um acordo com Portugal em 2009, ligando a Dobra ao Euro. A taxa de câmbio foi fixada em 1 EUR = 24.500 STD. Mas nos câmbios do dia-a-dia usa-se sempre 1 EUR = 25 STD.

Este ciclista chama-se Francibel Umbelina. Tem 15 anos e passou para o 9º ano. Cruzou-se comigo na rua, enquanto eu passeava na bicicleta, e ofereceu-se para ir mostrar-me algumas coisas. Foi comigo visitar o cemitério, e a seguir foi mostrar-me a sua escola e também o estádio.

O Francibel queria que eu lhe desse um cantil de água, da bicicleta. Aqui no Príncipe não se vendem, não existem. Mas eu posso lá dar um cantil de água logo no início da viagem. Vão fazer-me muita falta, não posso, expliquei-lhe, e disse-lhe para não ficar aborrecido.
Com o tempo irei perceber que os três cantis de água exercem grande fascínio entre as crianças e adolescentes, e frequentemente vou receber pedidos para lhes dar um. Não percebem para que preciso eu de três cantis de água. Não estão habituados a ver ninguém a viajar de bicicleta um dia inteiro, para precisar de tanta água.

O cemitério está fechado. Hoje é sábado, 10 da manhã, deve fechar aos sábados. Mas o Francibel diz que abre às 14h.

A escola. As férias começaram na semana passada; têm três meses de férias.

O Estádio Regional 13 de Junho pode ser visto no mapa de Santo António da crónica anterior.

Depois do estádio o simpático Francibel disse que tinha de ir para casa, pelo que eu prossegui o meu caminho sozinha.

006 - Príncipe - Praia Évora

Quando eu ia nesta estrada a pedalar (lentamente), alguém à direita cumprimentou-me e chamou-me.

Foi o Minério que me chamou, juntamente com a Lucila. Riram-se, meteram-se comigo, e eu, que nunca me faço rogada, fui logo ter com eles. A Lucila tem aqui uma quitanda, ou seja, uma pequena loja ou barraca de negócio. Vende peixe, fruta e legumes.

Estes buracos dos caranguejos intrigam-me. Eles têm que atravessar a estrada para chegar ao rio!

Entretanto chega a Tânia, sentada à esquerda. E mais uma cliente lá ao fundo. Eu sento-me com eles a conversar. Fazem-me as perguntas normais, de onde venho, o que estou aqui a fazer, se gosto de exercício – por causa da bicicleta. A Lucila repete várias vezes que eu sou muito bonita, uma boneca. Eu rio-me.
E o marido, onde é que está, perguntam-me. E filhos, tenho? Eu digo-lhes que não é marido, é namorado, e que este ficou em Portugal a trabalhar. “E filhos não quero ter”. Ficam muito espantados sobretudo com este tema dos filhos. “Dão muito trabalho e muita despesa”, acrescento. Agora é que ficam estarrecidos. Aqui em São Tomé e Príncipe ter filhos é uma riqueza. Ter 4 ou 5 filhos é habitual. Existir outra realidade totalmente oposta – não são riqueza nenhuma, são sim uma despesa – é algo difícil de compreender. Explico-lhes que na Europa uma criança sai muito cara. Tem estudos, tem universidade, tem atividades caras, tudo é caro na Europa. As crianças já não brincam todas na rua, o dia inteiro, como aqui. Muito menos trabalhar cedo. E que se eu tivesse filhos, não teria dinheiro para viajar por São Tomé e Príncipe, ou pelo mundo inteiro. “Mas quando for velhinha é bom ter os filhos” – dizem-me. Bom, eu nem sei se chego a velhinha, nem tenciono abdicar de toda a minha liberdade em nova, a pensar na companhia que os filhos porventura me darão quando for velhinha… se lá chegar!
Riem-se.
Mas depois, para ver se os tranquilizo, eu conto-lhes que efetivamente eu gostaria de ter cinco filhos. A ter filhos, teriam de ser pelo menos cinco. Ora isto é uma coisa trivial para um santomense. Mas eu explico-lhes que ter cinco filhos na Europa é um prodígio, é caríssimo, uma trabalheira desgraçada, e que eu teria de ter uma empregada para ajudar-me. Teria que ser rica e contratar uma empregada a tempo inteiro, a viver connosco, para ajudar-me. E então eles perguntam-me porque não tenho eu uma empregada. Todos os estrangeiros são ricos e têm dinheiro para uma empregada. Agora rio-me eu.

A Lucila está a temperar o peixe com um molho habitual, o qual provarei algumas vezes mais adiante, à base de lima, sal e alho.
A Lucila tem cinco filhos: quatro rapazes e uma rapariga de 11 anos. Só um rapaz está no Príncipe, todos os restantes estão em São Tomé.
Convidou-me para ir à praia Évora amanhã de manhã, domingo. A praia fica aqui em frente, seguindo esta estrada por onde eu vinha. Eu acedi. Por volta das 10h encontrar-nos-emos na praia, ótimo.

Prossigo viagem e vou já ver onde fica essa praia Évora . Vou em frente, alguma vez hei-de encontrá-la.

São agora 11 da manhã e este grupo de raparigas está a tomar o pequeno almoço. Chamam-me. Paro a bicicleta e pergunto-lhes, a rir, “Isto são horas de tomar o pequeno-almoço?”. Elas respondem-me que estiveram a limpar a igreja. “É servida?”, perguntam-me. Agradeço-lhes e explico-lhes que já comi e que estou cheia. Digo-lhes que vou visitar a praia Évora e sigo viagem, depois duma breve visita à igreja.

Roupa a secar no chão.

Em frente é a praia Évora, indica a placa. E ali à frente está uma menina curiosa comigo. Ela vai esperar por mim e eu vou perguntar-lhe o nome. Chama-se Vitória e tem dez anos. Vai precisamente a caminho da praia Évora, e far-me-á companhia. Ainda são uns 2 ou 3 km até lá. A Vitória diz que vai ter com os amigos. Então eu vou também… (olha a Rute sempre pronta).

Cá está a Vitória. Estamos a chegar à praia Évora. A placa diz em inglês e português “Bem vindo à Praia Évora”. Eu já perdi um cantil de água na descida atribulada e nem dei conta. O que vale é que ninguém vai fazer este caminho entretanto, pelo que quando me for embora irei apanhar o cantil, caído na berma da estrada. Tive sorte. Não o dei ao Francibel, só faltava perdê-lo logo no próprio dia. Era um valente castigo…

Cá estão os amigos com quem a Vitória vinha ter. A Osvaldina, de tshirt amarela, abordou-me com desembaraço. Tem 15 anos, passou para o 9º ano, quer ser hospedeira e terá que ir estudar para Lisboa. Repete-me várias vezes que tenho uma voz muito bonita. Cada vez que falo ela diz isto, o que me faz rir.
Esta foto foi tirada muito mal com a máquina em cima duma pedra, mas foi o melhor que se arranjou para ficarmos todas nela.

Esta praia Évora é muito pedregosa e tem apenas este pequeno areal à esquerda. Qual será o fascínio com esta praia, pergunto-me.

Entretanto a Osvaldina diz-me que tem de ir espremer roupa na ribeira. Disse mesmo assim – “espremer”. Ok, vou também. Deixo a bicicleta presa com o cadeado, encostada a uma árvore, e meto-me com as meninas pelo caminho de terra até à ribeira. São dez ou quinze metros. A prima da Osvaldina já lá está, chama-se Cláudia. A Osvaldina explica-me que a mãe tem uma empregada para ajudá-la, mas magoou o dedo e agora não está a trabalhar. Também tem máquina de lavar roupa, mas não há luz, pelo que vieram à ribeira.

A Cláudia está a comer peixe com banana cozida.
Conversámos um pouco mais, antes de eu ir-me embora. Na escola aprendem português, inglês e francês, contam-me.
Combinámos vir à praia amanhã às 10h, tal como como eu já tinha combinado com a Lucila. A mãe da Osvaldina far-me-á peixe grelhado. Fiquei com número da mãe, já que a Osvaldina não tem telemóvel. A seguir iremos visitar a sua roça – Nova Estrela. Maravilha, já estou cheia de planos para amanhã.

Despedi-me e regressei ao centro da cidade de Santo António para almoçar. A Vitória também regressou e acompanhou-me novamente. Desta vez eu vou mais devagar, a subir. A Vitória acompanha-me a andar. Aliás, eu fiz parte da subida a andar também.

Primeira refeição num restaurante santomense. Neste caso – mais especificamente – principense. Foi a hóspede romena do meu hotel que me falou dele, por ser o que está mais perto. Eu tinha ficado com o número de telemóvel da Kita, a dona do restaurante, e telefonei a avisar que queria um peixe grelhado. Quando cheguei, à uma e meia da tarde, vi um rapaz de mota a sair, ela disse-me que ele foi entregar o peixe. Está pronto em 45 minutos.
Aproveito para ir ao quarto do hotel, entretanto. Já há água, ótimo. Mas não há luz.

Peixe chamado “Bonito”, com banana frita, 70 dobras, ou seja 2,80€. O preço das refeições anda pelas 50 ou 70 dobras, habitualmente, explicou-me a rapariga romena. Sem bebida. Eu não bebo às refeições. Bebo litros de água por dia, desde a adolescência que dispensei as bebidas durante as refeições – nessa altura por dilatar o estômago e criar barriga, hoje em dia porque já nem sinto a falta. Bebo antes e depois.

Os bolos ficaram à espera que venha a luz.

Fui novamente ao cemitério, já depois das 14h, mas afinal só abre na 2ª feira.

E assim termina este segundo dia de viagem. Fiz 19,7 km de bicicleta, com estas voltinhas todas. Às 15h fui para o quarto tomar banho. Já há luz.
Às 17H30 é noite cerrada. Às 20h estou na cama. Comi um pouco de cereais com outro dos meus pacotes de leite com chocolate. Já devia ter comprado leite branco.
Como sempre, tenho o trabalho diário da seleção de fotos – apagar as que não interessam, ou seja, as que estão mal tiradas ou repetidas.
Hoje o dia foi bastante satisfatório. Começou às 4 da manhã. Passeio de bicicleta às 5H30. Já chega, estou bem, é altura de descansar. Amanhã será um novo dia. Amanhã vou à praia e terei a companhia da Lucila e da Osvaldina.

007 - Príncipe - Terceiro Dia, Praia Ponta Mina

Desta vez acordei a horas mais normais, às 7H30. Choveu esta noite. Esqueci-me de colocar anti-mosquitos no quarto, isto lá lindo. Mas não fui incomodada uma vez mais, felizmente. Fui incomodada sim por música até às tantas da manhã. Ontem um rapaz passou na Lucila, também falou comigo, e convidou-me para uma festa. A Osvaldina também me convidou para outra festa, no sábado seguinte, às 20h. Todos os fins de semana há festas, pelos vistos. Meus amigos, a minha vida aqui em São Tomé e Príncipe é outra. É mais desportiva, pela manhã. À noite estou completamente estafada e cheia de sono. Quero lá saber de festas noturnas… Mas agradeci os dois convites, claro.

Hoje houve a missa de domingo, mas às 7H30 já terminou. Um belo dia para dormir até mais tarde, Rute… (Digo isto em tom de auto-censura, pois é uma altura excelente para tirar boas fotos).

Nesta foto já invadi a cozinha da Residencial. Desta vez o pequeno-almoço é servido mais cedo, às 8H15. Ontem foi às 8H30. Quinze minutos são sempre quinze minutos.

A outra hóspede da Roménia foi-se embora ontem, para a ilha de São Tomé. Sou a única hóspede agora. Pernoitei sozinha na Residencial. Chuvisca. Faz muito calor, ao comer fico a transpirar. Vejo na meteorologia que dão chuva para todos os dias.

Não há água nem luz. Faz-me um bocado de confusão estas cenas de cozinhas sem água. Não há água para lavar as mãos depois de ir à casa de banho. Ou então têm alguidares com água do chafariz.

O pneu de trás da minha bicicleta não está suficientemente cheio. A loja do chinês está fechada, hoje é domingo. E surge-me a Norá, montada noutra bicicleta. “Onde é que posso encher o pneu?” – pergunto-lhe. E aproveito peço-lhe para me tirar uma foto nesta magnífica paisagem. Com o meu telemóvel, para ser mais prático, pois tenho a máquina fotográfica dentro da bolsa impermeável, que não dá jeito nenhum para ensinar a tirar fotos. Não me canso desta paisagem – já deve ser a décima foto que aqui tiro. Para lhe explicar como quero a foto, peço à Norá para fazer de modelo. Mostro-lhe a foto e ela tira-me outra igual. E eu acabei por manter a sua foto também.

São 9 e pouco da manhã. Tenho a praia combinada com a Lucila e a Osvaldina, mas estará tempo de praia? Está quase a chover… será que elas querem ir à praia com um dia assim? Eu não sei como são os santomenses nestes dias. Está calor, está húmido. Será que vão à praia na mesma? Eu pelo sim pelo não tenho o biquíni vestido, uns calções impermeáveis para andar de bicicleta, e a máquina fotográfica já dentro da bolsa que comprei, estou a estreá-la, para dias de chuva, e que vai mesmo à água, até cinco metros de profundidade. Vê-se nesta foto, a qual foi tirada com o meu telemóvel pela Norá.

E a Norá trouxe-me até aqui. Naquela casa lá atrás, onde está um homem na mota, enchem pneus.
Eu digo que tenho praia combinada com duas pessoas, a Norá diz que vem também. Ótimo. Tem 19 anos e aguarda o resultado dos exames para seguir Medicina. Mas queria Psicologia, a mãe é que quer Medicina.
E seguimos caminho as duas em direção à Praia Évora, cada uma na sua bicicleta.
Estou a ver que na ilha do Príncipe nunca estarei sozinha, que maravilha. A todos os minutos tenho uma companhia nova.

A praia Évora está completamente deserta. Absolutamente ninguém. Nem Lucila, nem Osvaldina, nem ninguém. Com este tempo desistiram, pois claro. Só eu e a Norá, que fomos logo embora. Esta praia é um bocado agreste, isto é só rochas. A Norá sugeriu-me outra praia – a Ponta Mina, que não é muito longe daqui, disse-me. Então vamos.

Esta é a praia Ponta Mina, bem mais agradável e bonita. A entrada para esta praia fica mesmo junto às placas cuja foto tirei acima, com a Norá e as duas bicicletas. A placa apontando o caminho está por cima da “Praia Évora” e vê-se perfeitamente na crónica 6. É um pequeno caminho de terra, os carros não passam. Ainda bem que a Norá apareceu para ensinar-me estas coisas.

A máquina está dentro da bolsa impermeável, e é muito difícil tirar fotos com ela assim. Usar a máquina no modo Manual é para esquecer. Regular os botões todos é uma operação quase impossível, com ela dentro do plástico. Pelo que coloquei a máquina no modo Semi-Automático (no “P”) e saíram estas fotos escuríssimas. A máquina considera que está muita luz, e escurece automaticamente a imagem. Demais. Não está assim tão escuro. E faz calor.

Foi uma bela manhã de praia, na companhia da Norá. A Norá carrega muito nos “R”, como é apanágio dos santomenses, e às vezes custo a percebê-la. Vamos à prrraia de Ponta Mina, disse-me.

Às 11H30 fomos embora. A Norá disse-me que tinha de ir preparar o almoço. Perguntei-lhe se posso ir a sua casa, se não faz mal. Ela disse que não faz mal, e lá fomos.

Este é o Kley, o irmão da Norá. A mãe de ambos está em São Tomé.

Vou deixar a Norá a preparar o almoço; disse-lhe que me vou embora. Também tenho que ir ao restaurante ver o que servem hoje e encomendar. A Norá disse-me então que iria comigo agora mostrar-me onde dão aulas de Dança Capoeira. Logo às 15h vai ter aulas lá, e poderei ir ver. Ok, vamos então.
(As coisas vão andando assim, leve-leve).

Aqui o mapa ligeiramente aumentado.
Abaixo na totalidade:

008 - Príncipe - Visita ao Hospital & Almoço

Ora o caminho para o local onde dão aulas de Capoeira passa pelo hospital. Hospital? Eu tenho que conhecer o hospital. Lá à frente está a Norá à espera que eu tire a foto às placas. Não ficou bem à primeira.

Chegar doente e ter de subir estas escadas é obra… Mas há uma estrada para os carros que vai à volta. Bastante íngreme também. Subi-a de bicicleta na mudança mais minúscula que tenho, muito devagarinho, a pedalar, a pedalar. A Norá se bem me recordo fez quase tudo de bicicleta também, só os últimos metros a pé, mas a sua bicicleta não é tão boa, não a ajudou.

A Norá talvez tenha ficado um pouco surpreendida com a minha curiosidade pelo hospital. Eu visito os hospitais e centros de saúde de todo o mundo, este do Príncipe não seria exceção.

Também visitei um hospital na China;
O Centro de Saúde de Metinaro, em Timor
Hospital de Los Palos, em Timor
Hospital de Maliana, em Timor

Portanto, bute lá conhecer o Hospital Dr. Manuel Quaresma Dias da Graça. (Numa urgência ao telefone, uma pessoa morre antes de conseguir dizer o nome todo).
Eu quis deixar a bicicleta presa com o cadeado, mas a Norá disse que não era preciso, que ficaria ali à espera, a tomar conta dela.
Entrei então pelos corredores do hospital.

Aqui é a ala da felicidade, como se pode constatar pelos sorrisos de todos. É a ala da maternidade. Dei os parabéns às mães e avós que se encontram presentes, e nestas circunstâncias de festa todos gostam duma foto. Um hospital não é só um local de dor, também é um local de felicidade. Deparei com uma parteira que trabalha neste hospital há 40 anos! A enfermeira Manuela. Já terá visto nascer pelo menos metade da população do Príncipe, se calhar.

Aqui já não é tão bom, é a ala da pediatria. Este pequenote está com um problema que precisa de ser tratado, não sei qual, não perguntei. A mãe está a dar-lhe o almoço. Mas ele até está bonito e gordinho, esperemos que se cure e saia rapidamente daqui.

Aqui é a ala masculina, e “você é muito novo para estar aqui!” – disse-lhe eu, perguntando se podia tirar-lhe uma foto. Ele riu-se e deixou-me tirar. Também não deve ser muito grave, não tem ar disso.

E prossegue a viagem em direção ao local onde dão aulas de dança da capoeira. Ainda demorei bastante no hospital; a Norá à espera pacientemente.

A praia de Ponta Mina, com o zoom no máximo. Foi a Norá quem ma apontou. Na foto de baixo já está com o zoom normal. Vê-se o barquinho branco lá ao fundo.

É nesta casa que dão as aulas. Depois de almoço virei cá espreitar.

A Norá entretanto foi para casa e eu fui para o restaurante. A Kita está a servir-me. Era suposto eu estar sentada na mesa à espera, como noutro restaurante qualquer, mas está bem, está. Tenho que ir à cozinha bisbilhotar. Alguma vez eu sou menina de ficar sentadinha na mesa à espera. Eu nem sei como é que as pessoas têm paciência e ainda me recebem bem.

São 13h, tenho 14,9 km de bicicleta, e hoje o prato do dia é este delicioso entrecosto com arroz de legumes. Eu já tinha deixado uma dose encomendada, por telefone, ao meio-dia. Cem dobras. É carne, é mais carote. Está muito saboroso e bem temperado.

009 - Príncipe – História e Evolução (e Aulas de Capoeira)

Na marginal a caminho do local onde são dadas as aulas de capoeira. Este edifício é o hospital.

Enquanto os garotos se divertem nas aulas de capoeira, falemos da história da ilha do Príncipe.

A ilha do Príncipe foi descoberta pelo explorador português Pêro Escobar, em 1471. Embora não exista certeza absoluta sobre o ano da descoberta da ilha, 1471 é geralmente aceite pelos historiadores. Inicialmente, a ilha até então desabitada, foi batizada de Santo Antão ou Santo António de Abade,  por ter sido descoberta a 17 de Janeiro, dia deste santo católico.¹
Mais tarde a ilha foi denominada Príncipe, em homenagem ao príncipe D. Afonso (1475 -1491), único filho do rei João II (1481-1495), que tinha o direito aos impostos cobrados sobre o açúcar aqui produzido.²

A ilha de São Tomé já tinha sido descoberta 27 dias antes, a 21 de dezembro de 1470, pelo explorador português João de Santarém, no dia de São Tomé.

A colonização do Príncipe por colonos portugueses e escravos africanos começou em 1500, quando a ilha foi concedida ao donatário António Carneiro, cuja família a possuiu durante mais de 250 anos. Após o declínio da indústria açucareira no início do século XVII até meados do século XIX, a produção de alimentos para o abastecimento de navios e o comércio de escravos dominou a economia da ilha.
Em 1753, o Príncipe voltou à Coroa quando, devido à instabilidade política em São Tomé, a capital do arquipélago foi transferida para o seu principal assentamento – Santo António, que ao mesmo tempo recebeu direitos para tornar-se uma cidade. Apesar do seu novo estatuto, Santo António permaneceu sempre uma pequena cidade com infraestruturas pouco desenvolvidas. Durante os cem anos em que permaneceu como capital do arquipélago de São Tomé e Príncipe, nem sequer providenciou uma residência oficial para o governador, que, consequentemente, dependia de acomodações particulares¹.

Em 1771, o Príncipe possuía uma população de 5.850 habitantes: 111 brancos, 165 mulatos livres, 6 escravos mulatos, 900 negros livres e 4.668 escravos negros. A maioria dos brancos eram “brancos de fora”, residentes não-permanentes, principalmente funcionários públicos, militares e clérigos. Muitos membros do exército local e outros funcionários coloniais eram do Brasil.

A pequena elite rica da ilha era constituída predominantemente por brancos e alguns mulatos, cujos membros se envolviam frequentemente em conflitos entre si ou com o governador local. Naquela época, cinco colonos brancos possuíam mais de 200 escravos cada, três brancos e um mulato possuíam mais de 150 escravos, enquanto oito brancos e dois mulatos possuíam mais de 50 escravos. Esta estrutura socioeconómica assimétrica foi típica do Príncipe durante todo o período colonial. A abolição do comércio de escravos ao norte do equador, em 1815, e o retorno da capital a São Tomé, em 1852, contribuíram para o declínio económico e demográfico do Príncipe, embora o comércio ilegal de escravos tenha continuado por várias décadas, e o café e o cacau já tivessem sido introduzidos no arquipélago de São Tomé e Príncipe. Em 1855, o Príncipe ainda tinha 4.381 habitantes: 35 brancos, 165 mulatos, 1.720 negros livres e 2.461 escravos.¹

Em 1875, ano em que a escravatura foi oficialmente abolida no arquipélago de São Tomé e Príncipe, a população do Príncipe caiu para apenas 1.946 habitantes, dos quais 45 eram europeus, 1.521 eram nativos livres e 380 eram “homens libertos” (uma designação que a legislação colonial portuguesa deu aos escravos nos últimos anos antes da abolição completa da escravidão. Assim, na altura da abolição, todos os escravos no império colonial português eram classificados como “libertos”. Isso também significava que não eram livres ainda. De facto, foi apenas uma mudança de nome, não da condição).
Muitas propriedades foram abandonadas e a ilha ficou visivelmente empobrecida. No entanto, no último quartel do século XIX, incentivados pelas isenções fiscais, os investidores portugueses adquiriram um grande número de lotes abandonados, onde montaram roças para o cultivo de café e cacau. As maiores roças do Príncipe – Sundy, Porto Real e Infante D. Henrique – foram estabelecidas durante este período. No início do século XX, no total, cinquenta e duas roças de diferentes tamanhos empregavam entre trezentos e quinhentos trabalhadores contratados africanos (serviçais), que haviam substituído os escravos imediatamente após a abolição da escravatura. Em 1908, a população de Príncipe havia aumentado para 3.830, incluindo 3.330 serviçais, 150 brancos e 350 nativos.

Naquela época, o Príncipe foi severamente atingido por um surto de doença do sono (tripanossomíase), que provavelmente foi introduzida pelos serviçais angolanos em 1880. O número de mortos chegou a tais proporções que as autoridades consideraram abandonar a ilha. Durante o período de 1902 a 1913, a doença do sono matou um total de 2.525 indivíduos nesta pequena ilha. Inicialmente, as medidas ordenadas pelas autoridades locais para erradicar a mosca tsé-tsé, transmissora da doença, foram implementadas com relutância pelos proprietários das plantações, dado que estas medidas eram intensivas em mão-de-obra, e os proprietários argumentavam que precisavam de todos os serviçais disponíveis para trabalhar nas plantações. Somente em 1913 as medidas para erradicar a mosca tsé-tsé resultaram numa diminuição significativa da taxa de mortalidade, e no ano seguinte as moscas desapareceram completamente da ilha.

Após o desaparecimento da doença do sono, a população da ilha aumentou como resultado da introdução de novos serviçais e do crescimento natural dos ilhéus nativos. Em 1921, a população do Príncipe já alcançava os 7.000, dos quais 5.409 eram serviçais, o maior número de todos os tempos. A maioria dos trabalhadores contratados no século XX veio das ilhas de Cabo Verde, nesta altura atingidas pela seca.

Nas décadas seguintes, o número de serviçais diminuiu de cerca de 2.300 em 1934 para cerca de 900 em 1961, quando, devido ao declínio da produção de cacau, apenas cinco grandes plantações sobreviveram.

A população total do Príncipe com 4.332 habitantes em 1950 permaneceu estável até 1970, uma vez que a diminuição dos trabalhadores nas plantações foi compensada por um aumento natural da população local, que até aos dias atuais é predominantemente composta por ex-trabalhadores cabo-verdianos e seus descendentes.¹

Continuando a citar Gerhard Seibert na sua recensão do livro “Histórias da Ilha do Príncipe”, do historiador Augusto Nascimento:

O autor ressalta que, devido à falta de investimentos do governo, até à década de 1960 as infraestruturas do Príncipe permaneceram deficientes e os edifícios públicos eram mal mantidos. Uma das poucas melhorias foi o estabelecimento duma conexão de voo regular com São Tomé, em 1949. No entanto, até 1965, não havia uma única estrada asfaltada no Príncipe. Somente durante o reinado do governador Silva Sebastião (1963-72), quando a luta armada em Angola, Guiné Portuguesa e Moçambique já havia começado e Portugal começou a investir mais no desenvolvimento das suas colónias, o Príncipe começou a beneficiar de vários programas de obras públicas. Na segunda metade da década de 1960, três estradas asfaltadas, uma pista de aterragem asfaltada e uma nova escola primária foram construídas no Príncipe. Após a independência de São Tomé e Príncipe em 1975, no entanto, a ilha menor continuou a sentir as consequências adversas da sua dupla insularidade. Em dezembro de 1981, a falta de fornecimento de alimentos provocou uma revolta contra o governo em São Tomé, que foi acompanhada por slogans secessionistas. Em 1995, alguns anos após a transição democrática do país, o Príncipe tornou-se uma região autónoma. O primeiro governo regional da ilha foi eleito no mesmo ano.

O fracasso do governo central em realizar eleições locais nos anos seguintes causou outro protesto popular em junho de 2006 que forçou o governo regional do Príncipe a renunciar.¹

Atualmente o Príncipe tem 8.277 habitantes³, conforme referi na crónica 3, de acordo com os últimos dados disponíveis, de 2017, do Instituto Nacional de Estatística de São Tomé e Príncipe.

O Governo Regional do Príncipe é dirigido por José Cardoso Cassandra, pelo quarto mandato consecutivo, desde 2006. O presidente da região autónoma também é conhecido por Tozé Cassandra; é engenheiro mecânico pelo Instituto Superior Técnico de Havana, Cuba; e há a possibilidade de vir a concorrer nas próximas eleições para a presidência da República de São Tomé e Príncipe.

A Norá afinal não apareceu, se calhar não lhe apeteceu hoje ter aulas. Às 17h fui-me embora para o hotel, tomar um duche, lavar o cabelo depois do dia de praia. Fiz 17,4 km de bicicleta no total.

Às seis da tarde estava eu a tomar banho quando ouvi a Norá chamar-me lá fora, e mandou um “Call me”, um daqueles SMS automáticos para eu ligar-lhe de volta. Mas eu estava a tomar banho, e já não saí. Agora é mesmo para ir dormir, amanhã os planos são acordar às 4H30, tomar o pequeno-almoço, vestir-me e sair às 5H30. Vou dar início aos percursos de GPS pela ilha. Comi uma maçã e nozes ao deitar, e bye bye.


¹ Seibert, Gerhard (2013, Outubro). Recensão de Nascimento, Augusto, “Histórias da Ilha do Príncipe”. H-Luso-Africa, H-Net Reviews. Página consultada a 8 setembro 2019,
<https://networks.h-net.org/node/7926/reviews/8354/seibert-nascimento-hist%C3%B3rias-da-ilha-do-pr%C3%ADncipe>

² Seibert, Gerhard (2016) “Património Edificado de São Tomé e Príncipe. A Roça Sundy”. In: Amaral, José Lobo de (org.). China e Países Lusófonos – Património Construído. Coleção Novos Caminhos n.º 3, p. 406. Macau: Instituto Internacional de Macau (IIM), 2016. ISBN 978-99937-45-93-8.

³ “População Recenseada e Estimada no período 2013-2017”. São Tomé e Príncipe em Números 2017, p. 9. Instituto Nacional de Estatística – INE. Página consultada a 29 Agosto 2019,
<https://www.ine.st/index.php/publicacao/documentos/file/414-stpemnumeros-2017>

010 - Príncipe - Quarto Dia, a Caminho da Praia Sundy

Alvorada às 4H30. Não há luz, ilumino o quarto com os faróis da bicicleta. Mas há água, é bom, sempre consigo puxar o autoclismo, lavar-me, lavar a tigela dos cereais.

É inviável esperar pelo pequeno-almoço servido aqui na Residencial, tão tardio, às 8H30. Pelo que me desenrasco com o que trouxe de Lisboa: cereais com pacotes de leite com chocolate. Tenho de comprar leite. Tenho frigorífico no quarto. Se bem que não haja luz durante metade do dia, mas o leite há-de aguentar-se. Tenho que pedir ao gerente para me deixarem o pequeno-almoço no quarto. Eu comê-lo-ei no dia seguinte.

Amanhece. Espalho o repelente de insetos pelo corpo. Já estou a transpirar. Tenho ar condicionado, mas efetivamente nunca o ligo. E mesmo que quisesse ligar, não há luz.

Ainda não são 6 da manhã; o destino hoje é a Praia Sundy. Foi o que calhou. Acho curioso este nome e vou já investigar o que há lá. Antes de deitar-me tenho sempre duas tarefas: selecionar as fotos do dia (ou seja, apagar as que não interessam); e olhar para o mapa e escolher um destino. Não venho com nada planeado. Sundy – este nome é giro, bute lá ver. É literalmente assim. Não faço ideia onde irei amanhã, esta noite tenho que olhar para o mapa novamente e escolher outro destino. O objetivo destes onze dias no Príncipe são claros: conhecer tudo. Comecemos pelo Sundy, portanto.

Pelo sim pelo não, levo na mochila o biquíni e a bolsa impermeável para a máquina fotográfica, não vá eu querer mergulhar. O GPS diz-me que são 12 km, com uma elevação total de 220 metros. Aquele traço azul, em forma de montanha, na parte de baixo do telemóvel é o gráfico da altitude. Vê-se que tenho já uma grande subida, depois é ligeiramente a descer até à praia. Ao chegar à praia há uma descida acentuada. Mas o que não sofro para lá, sofrerei para cá, pois regressarei pelo mesmo caminho. Serão aproximadamente 24 km ao todo, portanto – ida e volta. Mas já sei que faço sempre mais porque dou sempre umas voltas extra. A ver vamos.

Esta é a subida do Gaspar, assim chamada porque vai dar a uma terra chamada Gaspar. A maior parte faço-a a pé, com a bicicleta pela mão. Vou encontrando algumas pessoas pelo caminho, a descerem em direção à cidade, e cumprimento todas. Bom dia! – digo eu a deitar os bofes pela boca.

Cá estou eu, vermelha que nem um tomate, mas vitoriosa! A primeira grande subida está feita, logo às seis da manhã para repimpar.

As pessoas esperam por um transporte para irem trabalhar. Não há autocarros na ilha do Príncipe, há carros particulares que prestam esse serviço.
Foi a senhora em pé que me tirou a foto.

Roça Gaspar? Vou bisbilhotar. Ignoro o GPS temporariamente e vou espreitar o que se passa para aqui.
Atrás levo apenas um cantil de água – é propositado para não ir muito carregada. Dois cantis de água hão-de chegar, ou então há-de haver algum local que venda água mineral!

As pessoas foram apanhadas de surpresa, com a minha chegada. São 6 e meia da manhã. Cumprimentámo-nos, trocámos meia dúzia de palavras. Deixaram-me à vontade para observar e fotografar. Um rapaz acordou agora e foi urinar atrás da casa. Rapidamente vou perceber que habitualmente não existem casas de banho nas habitações.

Existem muitas “roças” em São Tomé e Príncipe. São antigos edifícios do tempo do colonialismo português, grandes propriedades rurais onde se produziu cacau e café, nos finais do séc. XVIII e inícios do séc XX. Atualmente a maioria está em avançado estado de degradação, e alguns dos edifícios são habitados pela população.

Retomo o caminho em direção à Praia Sundy.

011 - Príncipe - Chegada à Roça Sundy

Esta foto foi tirada às 7H10. Passo pelo meio de toda esta vegetação luxuriante sem ser picada pelos mosquitos uma única vez. Paro muitas vezes para observar e tirar fotos. Um bom repelente de insetos é fulcral. De madrugada, bem como ao anoitecer, é quando os insetos mais atacam. De madrugada eu ando no meio da vegetação, na bicicleta. Recordo que não estou a tomar os comprimidos da malária porque me atacam fortemente o estômago. Havia de ser lindo pedalar quilómetros na bicicleta, durante um mês, com dores de estômago, e sem conseguir comer devidamente. Pelo que trouxe cinco frascos de repelente de insetos para espalhar no corpo, de madrugada e ao final da tarde. E só resta torcer para que corra tudo bem. Vade retro, mosquito da malária.

Aqui estou a chegar à Roça Sundy. Este edifício era o antigo hospital pertencente a esta roça. Conforme referi na crónica anterior, as roças são antigos edifícios do tempo do colonialismo português, grandes propriedades rurais onde se produziu cacau e café, nos finais do séc. XVIII e inícios do séc XX.

A palavra “roça” tem uma origem portuguesa: significa “desbravar mato”, “abrir clareiras” ou “terreno onde se roçou o mato”. Além de cacau e café, algumas roças também produziam copra (polpa seca de coco) e óleo de palma. Fazia-se criação de gado; e por vezes eram uma reserva florestal para produção de lenha ou mesmo de culturas de subsistência. As roças de maior dimensão chegavam a ter um milhar de habitantes. Eram constituídas pela Casa Principal, as Habitações dos Encarregados, as Sanzalas (habitações dos serviçais), os Armazéns, as Estufas e os Secadores. Podiam conter ainda edifícios administrativos, hospitais, escolas e igrejas.¹

A Roça Sundy foi parcialmente recuperada e é hoje um hotel de luxo, pelo que a entrada é controlada. Deixei a bicicleta apenas para tirar a foto, pois o guarda não colocou qualquer entrave à minha passagem. Também há população local a habitar alguns dos antigos edifícios, em frente ao hotel.

Reza assim uma placa explicativa:

 Em 1919, o astrónomo inglês Arthur Eddington e o seu assistente Edwin Cottingham, fizeram uma expedição histórica à ilha do Príncipe, organizada pela Real Sociedade de Astronomia do Reino Unido. A Roça Sundy, uma fazenda colonial portuguesa, foi escolhida como local para se efetuar a experiência. Durante o eclipse total do sol de 29 de Maio, fotografaram um campo de estrelas de modo a testarem a teoria da relatividade de Albert Einstein que prevê que o percurso dos raios de luz é deformado por corpos de grande massa, tais como o sol.

Eddington comparou as posições das estrelas observadas perto do sol antes e durante o eclipse. A diferença de posições indicou uma pequena deflecção consistente com a teoria de Einstein. O fenómeno da deformação do percurso da luz pela presença de corpos com massa é denominado “efeito de lente gravitacional” e é amplamente utilizado por astrónomos que hoje em dia tentam compreender a natureza do universo. Complementando uma expedição paralela ao Sobral, Brasil, esta demonstração da teoria de Einstein foi um ponto alto da ciência do século XX.

O físico alemão Albert Einstein e o astrónomo inglês Arthur Eddington, que confirmou a teoria aqui no Sundy.

Eddington fez 19 chapas fotográficas durante os 302 segundos que durou o eclipse do sol, a 29 de maio de 1919. Três das chapas fotográficas originais, captadas por Eddington aqui no Príncipe, foram oferecidas ao Observatório Astronómico de Lisboa (OAL), em reconhecimento do apoio logístico que este lhe prestou para viajar até ao Príncipe e aqui se instalar, na roça Sundy. A primeira carta que Arthur Eddington enviou ao diretor da OAL, Campos Rodrigues, é datada de 11 de novembro de 1918, o Dia do Armísticio, que marcou o fim da Grande Guerra. Nela, o cientista britânico solicitava apoio logístico para a expedição que tencionava fazer no ano seguinte, por ocasião do eclipse total do Sol. Eddington tinha-se cruzado pouco antes com a então novíssima teoria da relatividade e tinha ficado muito entusiasmado.

A Companhia Nacional de Navegação só fazia duas viagens mensais a São Tomé, e apenas uma delas ia também ao Príncipe. O OAL conseguiu assegurar a viagem a Eddington, que chegou à ilha um mês antes.
Em maio de 1919, instalado na roça Sundy, com o apoio do seu proprietário, Jerónimo Carneiro, Arthur Eddington teve um mês para preparar o trabalho que teria de concretizar durante aqueles 302 segundos decisivos – fazer o maior número possível de chapas fotográficas.²

Eis o que Arthur Eddington escreveu à mãe, quando chegou ao Príncipe:
“Minha queridíssima mãe, Falta apenas um mês para o eclipse; e hoje temos todos os nossos pertences no sítio selecionado, e começámos o trabalho de construção. Tivemos o nosso primeiro vislumbre do Príncipe às 9 horas na manhã de 23 de abril, e foi muito encantador.”³

Numa outra carta que enviou ao Observatório Astronómico de Lisboa falava da sua preocupação com a meteorologia. Se houvesse demasiadas nuvens, ou se chovesse naquele curtíssimo intervalo de tempo, a missão seria um falhanço.
Os seus piores receios não se concretizaram. Ainda choveu nesse dia, e havia algumas nuvens no céu, mas à hora certa o Sol escondeu-se e Eddington fez as suas imagens históricas.

De regresso a Cambridge, seguiram-se meses de cálculos. A 6 de novembro de 1919, o mundo ouviu pela primeira vez, a partir da Royal Society em Londres, que nesse dia estava à cunha, que uma nova e ousada teoria para explicar o universo, a teoria da relatividade geral, publicada por Einstein quatro anos antes, estava certa.²

O hotel.

Na crónica 9 falei sobre as moscas tsé-tsé, causadoras da doença do sono, a qual dizimou uma grande percentagem da população do Príncipe no início do século XX. A mosca foi provavelmente importada por serviçais provenientes de Angola, e progrediu na ilha desde os anos 1880. Os serviçais, recordo, eram os trabalhadores contratados africanos, que substituíram os escravos após a abolição da escravatura.

No período de Agosto de 1911 a Julho de 1912, a doença do sono matou mais 239 pessoas, dos quais 71 só aqui na Roça Sundy devido à renitência do seu administrador em aplicar as medidas decretadas, com a justificação de que precisavam do pessoal disponível para a colheita de cacau e tratamento das plantações. Só posteriormente, perante tamanha mortalidade, os principais roceiros se convenceram da necessidade de aplicação das medidas para erradicar a mosca tsé-tsé.

A mosca tsé-tsé (Glossina palpalis), concentra-se em poços, rios e pântanos. As medidas profiláticas propostas visavam a eliminação do habitat das glossinas por meio do derrube de árvores e da destruição de arbustos para fazer subir a temperatura acima de 35⁰ C a fim de matar as moscas, assim como a secagem dos pântanos e o abate do porco selvagem. Além disso, durante o trabalho os serviçais tinham de usar nas costas um pano preto coberto de visco para apanhar as moscas.
Adicionalmente foi decretada a constituição duma brigada de combate à doença do sono, composta também por serviçais.

Finalmente, os primeiros efeitos apareceram em 1913 quando se registou uma descida da morbidade e mortalidade em relação aos dados de 1908. Em Janeiro de 1914 a glossina tinha quase desaparecido. Neste mês a brigada apanhou em toda a ilha apenas 19 moscas, quase todas na roça Sundy, enquanto que em Janeiro do ano anterior tinham sido capturadas 21.434 glossinas . A última mosca tsé-tsé foi capturada na Roça Sundy em Abril de 1914. Consequentemente, em Fevereiro de 1915 a administração local declarou a ilha livre da doença de sono, assim como erradicado o seu agente transmissor.

Em 1956, as moscas tsé-tsé reapareceram no Príncipe, contudo, não eram infetadas, pois desta vez a doença do sono não se manifestou, nem em seres humanos nem em animais domésticos. Em dois meses, uma missão chegada ao Príncipe em Maio de 1956 capturou 66.895 glossinas.
Depois da captura da última mosca tsé-tsé em 1958, pela segunda vez o Príncipe foi considerado livre do agente transmissor da doença do sono.⁴

As casas pertencentes à antiga Roça, hoje habitadas pela população local.

O meu caminho continua. São agora 8 da manhã, tenho 9 km e pouco feitos. São 3 km até à Praia Sundy. O caminho é por onde aquele rapaz de bicicleta vem. Perguntei a dois homens no hotel, santomenses (calculo que trabalhem aqui) onde é que posso comprar fruta, nomeadamente bananas. Não há nada. Só há na cidade. Eu tenho comida empacotada comigo, bolachas e afins, mas agora calhavam bem umas bananinhas santomenses para ganhar energia. Qual quê.


¹ Pape, Duarte e de Andrade, Rodrigo Rebelo (2012, 13 de Abril) “As roças de São Tomé e Príncipe, o fim de um paradigma”, in “Buala”. Página consultada a 10 de Setembro 2019,
<http://www.buala.org/pt/vou-la-visitar/as-rocas-de-sao-tome-e-principe-o-fim-de-um-paradigma>

² Naves, Filomena (2019, 16 Maio). “Imagens feitas há cem anos na ilha do Príncipe provaram que Einstein estava certo”. Diário de Notícias. Página consultada a 10 de Setembro 2019,
<https://www.dn.pt/edicao-do-dia/16-mai-2019/interior/imagens-feitas-ha-cem-anos-na-ilha-do-principe-provaram-que-einstein-estava-certo-10903124.html>

³ “Eddington na Sundy 100 Anos Depois”, Celebrações do centenário do eclipse solar de 1919 na ilha do Príncipe, Programa e resumos, p. 20. Página consultada a 10 de Setembro 2019,
<https://content.gulbenkian.pt/wp-content/uploads/2019/05/27125118/BROCHURA_100E%40S_3.pdf>

⁴ Seibert, Gerhard (2016) “Património Edificado de São Tomé e Príncipe. A Roça Sundy”. In: Amaral, José Lobo de (org.). China e Países Lusófonos – Património Construído. Coleção Novos Caminhos n.º 3, p. 409. Macau: Instituto Internacional de Macau (IIM), 2016. ISBN 978-99937-45-93-8.

012 - Príncipe - Praia Sundy

Parece a Lara Croft! De catana na mão, rodeada de cães, deve ter ido à caça!
E repare-se também nas linhas do comboio que existia aqui antigamente.

O lixo.

O lixo é um problema dramático. Eu estou mesmo atrás da muralha da Roça Sundy, que mostrei na crónica anterior. Por detrás deste muro estão as casas da população. Não há onde deitar o lixo, não há recolha de detritos. As pessoas têm que desembaraçar-se do lixo como podem. Deitam para as traseiras das casas. Algumas queimam-no.

Um dos inúmeros chafarizes onde as pessoas vão buscar água, e aqui lavam a louça também. As casas não têm água canalizada.
Este caminho empedrado é difícil – não só para bicicletas, mas também para caminhar. São zigue-zagues em decida acentuada. Faço uso pleno da suspensão da bicicleta. Um destes rapazes disse-me para desmontar e ir a pé, que era melhor. E a certa altura foi mesmo o que fiz.

Foquei propositadamente a praia e desfoquei a barra de proteína. Afinal de contas a praia é mais interessante. Mas cheguei ao meu destino e aproveitei para comer. São 9 da manhã, tenho 12,8 km feitos.

Estas barras são muito importantes nesta minha viagem. Esta pesa 80 gramas, dos quais 20 gramas são proteína. É como comer um bife. Por aqui não se vendem bananas nem bifes, desenrasco-me com barras de proteína com sabor a chocolate e caramelo. Estas barras são vendidas nas lojas de desporto. É preciso prestar atenção às quantidades indicadas nas embalagens: estas são das melhores, andam pelos 2€ cada uma. Há barras mais baratas, mas com menos proteína. Mais uma coisinha a fazer pesar a bagagem no avião, portanto. Trouxe várias, bem como embalagens de gel energético. Tenho um destes também na bolsa da cintura, fica para daqui a pouco. Estas barras de proteína têm tal importância numa viagem destas, onde raramente existem cafés ou restaurantes para comer, que vieram comigo na mochila de mão. Se me perdessem a mala do porão, pelo menos estas barras chegariam comigo. Porque um esforço diário destes, durante um mês, não vai com bolachinhas ou com as vulgares barras de cereais que se vendem no supermercado.
Já o gel, sendo líquido, teve de ir na mala do porão.

Trouxe um power bank para carregar o telemóvel. Desde as 6 da manhã que vem com o GPS ligado.

E aqui descansei. Cheguei ao meu destino, com sucesso, e descansei. Com a perna suja de óleo da corrente. Vou estar uma hora aqui sentada. Este é um resort de luxo, na praia. Receberam-me, cumprimentaram-me, deixaram-me estar aqui sentada. Parece-me que não há mais ninguém mesmo. A bicicleta ficou no chão, no topo das escadas (na foto acima), nem lhe pus o cadeado.

São momentos de felicidade. Ainda existem momentos de felicidade, na vida. Já me perguntaram se sou feliz. Claro que não, tenho sim momentos de felicidade. Quando estou a viajar sou uma privilegiada, desde as seis da manhã que estou a viver momentos de felicidade. Estou em plena descoberta e aventura, em esforço físico e mental. Vejo o significado da palavra esforço: “Ação enérgica do corpo ou do espírito; coragem; diligência; zelo; ânimo; vigor.¹” Sim, é isto mesmo, estou alerta, todos os meus sentidos estão alerta e bem vivos, curiosos pela descoberta, e estou a ter portanto momentos de felicidade.
Acho que ninguém é feliz completamente, vamos sim tendo momentos de felicidade. Uns minutos, com sorte umas horas.

Caranguejos e cães (ou pelo menos os buracos feitos pelos caranguejos e as pegadas dos cães…)

O sol está a querer aparecer. Não se deixem enganar pelo tempo nublado. Faz calor e grande humidade. Fui lavar mãos ao mar, a água está morna. Há borboletas e pássaros coloridos a voar e a cantar.


¹ “Esforço”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [online], 2008-2013. Página consultada a 11 Setembro 2019,
<https://dicionario.priberam.org/esfor%C3%A7o>

013 - Príncipe - Fruta-Pão

Agora tenho 3 km de subida acentuada até à Roça, através dum empedrado muito difícil. Bebi o gel energético, o qual me provocou logo palpitações mais rápidas. Dá cá um estalo… Faz lembrar o Asterix a beber a poção mágica. Eu não bebo café, nem fumo. Ao beber um gel energético destes até acelero logo. À semelhança das barras de proteína, também há vários tipos de géis (isto no plural fica meio estranho, ora tentem lá dizer isto em voz alta). Este gel que trouxe hoje é dos mais pujantes: além de cafeína tem uns aminoácidos quaisquer que dão um grande estalo, pelo menos a mim, que não estou habituada a cafeína ou produtos idênticos. Eu venho quase sem treino de Lisboa – por vezes perguntam-me se treino na bicicleta antes de vir de viagem – nada, não treino nada. Nunca treinei. Não andava de bicicleta há mais de três meses. Portanto já sei que tenho de entrar em força – com as melhores barras de proteína, com os melhores géis – o melhor combustível para a máquina arrancar em força. De qualquer forma, lembro, eu ando leve-leve. O facto de ter feito 12,8 km em três horas é significativo. Um ciclista profissional faz isto em meia hora. Mas também não tira fotos pelo caminho nem se senta a conversar com ninguém. Não é esse o objetivo. Leve-leve, Rute. Vai leve-leve.

Fruta-Pão.

A fruta-pão cai assim das árvores. Ainda bem que uso capacete… levar com uma bola destas em cima não é brincadeira. É pesada: pode chegar aos 3 kg. Estas ainda estão verdes, devem ter caído com o vento. Em breve provarei a fruta-pão assada – hoje mesmo, ao almoço, nas fotos mais abaixo. Efetivamente vou comer fruta-pão várias vezes durante esta viagem. Estas bolas verdes acompanhar-me-ão toda a viagem, portanto. Na estrada e no prato. Até vão ficar coladas nos pneus da minha bicicleta. Ora as como, ora as piso. É fruta-pão por todo o lado.

A árvore da fruta-pão, que se chama “Árvore-do-Pão”.

A árvore-do-pão com uma fruta-pão pendurada (ou duas, contando com a que está em cima também).

Leio na internet o seguinte: “A polpa quando cozida ou assada, apresenta um paladar bastante semelhante ao da batata-doce e macaxeira, tornando-se mais agradável quando consumida com mel ou melaço”¹. Quem escreveu isto é do Brasil, pois em São Tomé e Príncipe não há mel nem melaço, pelo que se come simples.

E também se lê isto na internet: Ao determinar e avaliar a composição mineral da fruta-pão, concluiu-se que os altos teores de fósforo, cálcio e magnésio tornam o fruto uma boa alternativa para suplementação nutricional. Mais: a fruta-pão pode contribuir com quantidades consideráveis de energia e fornecer os principais nutrientes da dieta, tendo baixo teor de gorduras². Ora bem, vem mesmo a calhar, estou a precisar disto.

Em relação ao teor de minerais, a fruta-pão apresentou-se rica em cálcio (319,54 mg/100g), contendo ainda potássio (100,00 mg/100g), fósforo (58,23 mg/100g), magnésio (44,44 mg/100g) e cobre (21,71 mg/100g)³.

“Composição Química” retirada de Embrapa

A fruta-pão é originária da região indomalásia, principalmente das ilhas de Java e Sumatra, estando hoje espalhada por todas as regiões tropicais e subtropicais do mundo¹. A denominação binomial da árvore – ou seja, o seu nome científico – é Artocarpus altilis. “Artos” é a palavra grega para “pão”e “karpos” é “fruta”. O nome foi dado por dois botânicos alemães – pai e filho – Johann Forster e J. Adam Forster⁴, que viajaram com o Capitão James Cook em 1772, numa viagem de circum-navegação do mundo. Já a palavra “altilis” vem do latim, e significa “engordar, criar para comer”.

Existem duas variantes da fruta-pão: O Artocarpus altilis (variante Apyrena) é mais conhecido por fruta-pão de massa, cujo fruto tem 15 a 20 cm de diâmetro, atingindo de 1 a 3 kg de peso. A fruta não tem sementes. A sua casca inicialmente é áspera, coberta por placas poligonais, tornando-se lisa e amarelecida ao amadurecer. Esta é a variante existente em São Tomé e Príncipe.

O Artocarpus altilis (variante Seminífera) é a fruta-pão que contém sementes e cujo fruto apresenta na parte externa da casca inúmeros “picos” e coloração verde-amarelada quando maduro, sendo o seu aspeto muito semelhante ao da jaca. Se esta variante existe em São Tomé e Príncipe, eu não a vi.

A árvore-do-pão é de crescimento rápido, atingindo em média 25 a 30 metros de altura, com copa mais ou menos frondosa. O melhor clima para a fruta-pão é o quente e húmido. Nestas regiões apresenta um bom desenvolvimento vegetativo e boa produtividade, no entanto se há uma estiagem prolongada ou se o tipo de solo não retém humidade em quantidade satisfatória, ocasiona a queda dos frutos muito antes de completarem o seu desenvolvimento. A árvore necessita também de ambiente ensolarado, visto não tolerar áreas sombreadas.

A sua produção é bastante variável, dependendo dos tratos proporcionados. Árvores adultas podem produzir anualmente de 50 a 80 frutos, registando-se casos de 100 ou mais por safra, com peso médio de 1 a 1,5 kg/fruto. A fruta-pão não resiste a fortes pancadas, sendo porém facilmente transportada a grandes distâncias e mantendo uma boa conservação por muitos dias, mesmo a temperatura normal¹.

A madeira é de cor amarela dourada, que vai escurecendo com a idade. É muito leve, durável, macia, e bastante resistente. Tradicionalmente, é amplamente utilizada para construção de casas e canoas por causa da sua resistência a térmitas e vermes marinhos. Também é usada para fazer tigelas, esculturas, móveis e até pranchas de surf⁵.

Sobre os usos medicinais: As flores tostadas são esfregadas nas gengivas ao redor dos dentes doloridos para aliviar a dor. O látex é massajado na pele para tratar ossos quebrados e entorses e é enfaixado na coluna vertebral para aliviar a dor ciática. É comummente usado para tratar doenças da pele e doenças fúngicas, como aftas. Esta última também é tratada com folhas esmagadas. Látex diluído é tomado internamente para tratar diarreia, dores de estômago e disenteria. Látex e suco das folhas esmagadas são tradicionalmente usados nas ilhas do Pacífico para tratar infeções nos ouvidos. A raiz é um adstringente e é usada como um purgante; quando macerada, é usada como cataplasma para doenças da pele. A casca é usada em várias ilhas do Pacífico para tratar a dor de cabeça. Nas Índias Ocidentais, a folha amarelada é transformada em chá e tomada para reduzir a tensão alta. O chá também é pensado para controlar o diabetes. As folhas são usadas em Taiwan para tratar doenças do fígado e febres, e um extrato das flores foi eficaz no tratamento do edema de ouvido. Extratos de casca exibiram fortes atividades citotóxicas contra células de leucemia em cultura de tecidos, e extratos de raízes e casca do caule mostraram alguma atividade antimicrobiana contra bactérias Gram-positivas, e pode ter potencial no tratamento de tumores⁵.

A propagação da Árvore-do-Pão é feita de duas maneiras, consoante a variedade. A fruta-pão com sementes propaga-se através destas mesmas sementes. A fruta-pão de massa propaga-se utilizando-se a sua capacidade de produzir brotações ou rebentos das raízes, os quais devem ser retirados em dia chuvoso e encanteirados diretamente no solo ou em embalagens previamente preparadas com uma mistura de terra vegetal, areia e cinza. Caso não se constate brotações, as mesmas podem ser provocadas, machucando-se, ferindo-se, ou mesmo anelando-se as raízes de uma planta adulta. Este método é muito comum sendo bastante utilizado pelos agricultores¹. Significa isto que a dispersão geográfica da árvore-do-pão está largamente dependente dos humanos⁶.

Os europeus descobriram a fruta-pão no final do século XVI. Ficaram maravilhados e encantados com uma árvore que produzia frutos ricos em amido que, quando assados no fogo, pareciam pão recém-cozido em textura e aroma⁷.

Distribuição da Árvore-do-Pão. Imagem retirada de Kew Science

Como é que a árvore saiu da região Indomalásia e se espalhou pelo mundo? Os ingleses aparentemente terão sido os pioneiros. Creio que toda a gente ouviu falar do filme “Revolta na Bounty”, de 1962, com o ator Marlon Brando. Bom, as novas gerações provavelmente nunca ouviram falar. “Revolta na Bounty” conta a história do famoso motim a bordo do navio Bounty, que começa em 1787 e se desenvolve durante uma longa viagem no mar. O capitão William Bligh é o responsável pelo barco. A sua crueldade sem limites vai fazendo aumentar o clima de tensão imanente. A tripulação, chefiada pelo imediato Christian Fletcher (Marlon Brando) insurge-se contra o capitão, acabando por se revoltar. O filme foi nomeado para sete Óscares em 1963⁸.

A viagem do Bounty, comandado por William Bligh, foi celebrada na história e na literatura pelo seu final melodramático; não tão amplamente conhecido é o facto de que a sua missão era tão incomum quanto o seu desfecho era violento. William Bligh estava envolvido num projeto de considerável importância científica e económica. Ia tentar transportar árvores de fruta-pão, vivas, do Tahiti, a principal ilha do Arquipélago da Sociedade, no sul do Pacífico, para as Índias Ocidentais britânicas no outro lado do mundo.

O projeto da fruta-pão surgiu das necessidades dos plantadores britânicos nas Índias Ocidentais. No século XVIII, nas ilhas da Jamaica, Barbados, São Vicente, Granada e Trinidad plantava-se amplamente a cana-de-açúcar. Os plantadores, lamentando a quantidade de terra e tempo ocupados na produção de alimentos (mandioca, inhame e banana) para alimentar os seus escravos, pensaram ter visto uma solução na fruta-pão. Notícias desta comida fabulosa foram trazidas para a Europa por vários exploradores dos Mares do Sul, incluindo o aventureiro Capitão Cook.

Os plantadores das Índias Ocidentais estavam fascinados: a cultura da fruta-pão usaria relativamente poucas terras, a planta espalha-se rapidamente, não é danificada por furacões, tem frutos quase o ano todo, não necessita de cultivo e está bem adaptada ao clima caribenho. A maior dificuldade era que a árvore não podia ser cultivada a partir de sementes; teria que ser transportada milhares de quilómetros para ser transplantada dos Mares do Sul para as Índias Ocidentais. Isso significa uma viagem de vários meses ao redor do Cabo Horn ou do Cabo da Boa Esperança, durante o qual as delicadas árvores tropicais teriam que ser alimentadas cuidadosamente e protegidas do mar, do ar salgado e do frio das baixas latitudes. Os colonos apelaram ao Reino para ajudar nesta missão.

Sir Joseph Banks, presidente da Royal Society, que havia sido naturalista na primeira viagem de Cook aos Mares do Sul e conhecia a fruta-pão em primeira mão, assumiu a sua causa. Persuadiu o Rei George III a fretar um navio e escolheu como seu capitão Bligh, que também navegou com Cook e tinha um grande interesse pela história natural. Para acompanhar Bligh como guardiões das árvores, Sir Joseph selecionou dois horticultores dos Jardins de Kew chamados David Nelson e William Brown. Elaborou instruções detalhadas para ajudá-los. O capitão e a tripulação do navio, disse ele, teriam que desistir das suas melhores acomodações e suportar alguns inconvenientes para cuidar das plantas. “É necessário que a cabine seja usada para o único propósito de fazer uma espécie de estufa, e a sua chave será dada à custódia do jardineiro… Não são permitidos cães, gatos, macacos, papagaios, cabras ou qualquer animal a bordo, exceto os porcos e aves para uso da Companhia; e eles devem ser cuidadosamente confinados às suas gaiolas. Todas as precauções devem ser tomadas para evitar ou matar os ratos sempre que for conveniente. Como o veneno será constantemente usado para destruí-los e também às baratas, a tripulação não deve queixar-se se alguns deles, que podem morrer dentro da embarcação, causarem um cheiro desagradável”.

Foto 908 – Capitão William Bligh Foto retirada de Royal Museums Greenwich

O Bounty partiu de Inglaterra a 15 de outubro de 1787. Partiu fazendo a rota ao redor da América do Sul, mas não conseguiu contornar o Cabo Horn; depois de trinta dias de batalha com o vento e as correntes, Bligh virou e atravessou o Atlântico Sul para ir pela outra rota ao redor da ponta de África. Chegou ao Cabo da Boa Esperança a 22 de maio. Aqui passou quarenta dias a reparar e reabastecer o navio. A 24 de outubro, depois duma viagem dum ano, o navio chegou ao Tahiti⁹, onde tiveram de esperar mais cinco meses para que as plantas estivessem prontas para serem transportadas.

No momento em que finalmente zarparam para as águas das Caraíbas, já com as plantas a bordo, os homens de Bligh já se tinham habituado à vida fácil e paradisíaca naquela ilha da Polinésia – e às mulheres tahitianas. Muitos deles não queriam sair. E assim, a 29 de abril de 1789, apenas com um mês de viagem através do Pacífico Sul em direção às Índias Ocidentais, o imediato Fletcher Christian e outros 18 tripulantes descontentes forçaram Bligh, e mais 18 dos seus partidários, a partir num bote salva-vidas de 7 metros. Atiraram todas as plantas da fruta-pão ao mar e partiram com o navio sozinhos¹⁰.

Mergulhado num bote salva-vidas com 18 membros da sua tripulação e com comida suficiente para uma semana, Bligh navegou o alto mar e enfrentou tempestades perigosas durante um período de 48 dias, usando a sua memória dos poucos mapas que tinha visto destas águas praticamente desconhecidas. A sua conclusão desta viagem de 3.618 milhas (6,701 km) em segurança na ilha de Timor, ainda é considerada como a mais notável façanha de navegação marítima e navegação jamais realizada num pequeno barco. Como sinal da sua estima e confiança, o Almirantado Britânico promoveu o jovem tenente Bligh a capitão – e meteu-o noutra missão de dois anos, de volta ao Tahiti em busca da infernal fruta-pão.

2126 plantas de fruta-pão foram transportadas desde o Tahiti, em vasos e banheiras, armazenadas no convés e no viveiro abaixo do convés. O jardineiro da expedição descreveu as depredações infligidas pelas “extremamente problemáticas” moscas, frio, “o prejudicial ar do mar”, água salgada e água racionada; no entanto, 678 sobreviveram até chegar às Índias Ocidentais, sendo entregues primeiro a São Vicente e, finalmente, à Jamaica. E foi em fevereiro de 1793 que o capitão William Bligh, cumprindo por fim sua importante missão, supervisionou o seu primeiro depósito de 66 espécimes de fruta-pão do Tahiti, todos “nas melhores condições”, nos Bath Botanical Gardens.

O navio de Bligh, chamado Providence, tinha chegado a Port Royal, em Kingston, em 1793, com alguma fanfarra, a sua “floresta flutuante”, segundo um oficial do navio, “ansiosamente visitada por números de todos os níveis e graus” – tanto que outro oficial reclamou,”O comum civismo de andar à volta do navio com eles e explicar-lhes as Plantas tornou-se, pela sua frequência, atribulado.”¹¹

Foto 909 – Joseph Banks Foto retirada de The Royal Society

E depois de todo este tempo e problemas, ninguém gostou da fruta-pão. Os escravos recusaram-se a comê-la. Embora o nome comum “fruta-pão” venha da suposta semelhança da fruta com o pão acabado de cozer, o consenso mais amplo é que o seu sabor é insípido. Alguns comparam-na a um cruzamento entre batata mal cozida e banana. Outros mencionam pasta de papel. Passaram-se algumas décadas até que o novo alimento fosse geralmente aceite nas ilhas, época em que a escravidão, abolida no Império Britânico em 1834, já era uma coisa do passado¹².

Os britânicos não estiveram sozinhos nos seus esforços para levar a fruta-pão às suas colónias tropicais. Os franceses centraram os seus esforços de introdução de plantas no Jardim Botânico de Pamplemousse, nas Ilhas Maurício. O amendoim (Artocarpus camansi) foi coletado nas Filipinas em 1776 e enviado para colónias francesas nas Caraíbas e em outros locais na década de 1780 em diante. Uma variedade de fruta-pão tonganesa sem sementes, conhecida como kele kele, chegou à Martinica, Guadalupe e a Caiena, Guiana Francesa, no final da década de 1790⁷.

A árvore disseminou-se nos trópicos americanos como ornamental, tendo sido também usada para sombrear café e cacau na Venezuela. Atualmente, a fruta-pão prospera nos trópicos e subtrópicos, onde vive 80% da população faminta do mundo.

Sobre São Tomé e Príncipe – especificamente – não se encontra nada na internet. Os ingleses têm a sua história publicada por todo o lado. Terá sido levada pelos portugueses para alimentar os escravos? Ou para fazer sombra ao café e ao cacau? Ou as duas coisas? Deve existir um livrinho de páginas amareladas escondido numa biblioteca, algures, com este tema. Mas ninguém digitaliza essa alma penada. Esse livrinho amarelado escondido na prateleira poeirenta duma biblioteca tem de ser digitalizado e disponibilizado na internet. Ou pelo menos publicado o resumo e o autor, para sabermos que ele existe. Isto pressupondo que o livrinho existe mesmo. Eu não quero acreditar que ninguém estudou o assunto, que nenhum entendido na matéria investigou como chegou a fruta-pão a São Tomé e Príncipe.

Cacau. Ainda está verde. Quando fica amarelo é que está maduro.

A chegar à Roça Sundy.

A antiga fábrica – ou oficinas – da Roça Sundy.

Este edifício branco é a capela da Roça.

A cadeira de rodas em frente a este caminho é intrigante. Eu já estou sem água e sem comida. Tenho de chegar rapidamente à cidade de Santo António. Preciso dum restaurante, preciso de comer, e tenho de reabastecer-me de água. Trouxe apenas dois cantis de água, em vez dos três, e não foi uma boa opção. É que não há nada onde comprar. Senão ainda ia espiolhar este lindo caminho pelo meio da floresta.

A chegar à cidade. Levei 55 minutos desde a Roça Sundy. Não há nada melhor do que a ameaça de fome e sede, bem como a perspetiva dum restaurante, para fazer-me acelerar… Foram agora 12,1 km na volta. Total: 24,9 km.

Porque estará esta multidão na rua? Inclusivamente um carro da polícia. E coloquei esta questão a um pequeno grupo ali reunido. Está a haver um despejo, disseram-me. E depois ouvi um rapaz troçar: “E estão todos especados a olhar para a desgraça do homem?!”

Já não entro com a bicicleta no hotel porque não tenho paciência de subir e descer escadas com ela, fica presa na rua. Com um cadeado destes, bem que podem ficar toda a tarde a serrá-lo. (Como se alguém ligasse à bicicleta… ninguém se aproxima sequer. O meu receio são mesmo as crianças que querem brincar e experimentá-la. Acontecer algo à bicicleta aqui seria fatal. Não há peças. Nem cantis de água se vendem, quanto mais peças especializadas de ciclismo. Teria que mandar vir de fora).

O restaurante da Kita hoje está fechado. Pelos vistos fecha às segundas-feiras. Fui ao restaurante da marginal, uma bonita esplanada a ver o mar, e estava tudo deserto, apenas uma rapariga a arrumar as coisas.  “Hoje não temos nada”, disse-me. E não explicou mais nada. Eu fiquei a olhar. (Terá morrido alguém? Será que fecharam para férias? Posso cá voltar noutro dia?…) “Então e quando é que vão ter?” – perguntei. “Amanhã” – respondeu-me. Será o mesmo da Kita, também fecham às segundas-feiras. “Hoje são só limpezas”, esclareceu-me.

Então onde é que eu vou almoçar? Bom, vou dar uma volta de bicicleta pela cidade à procura de restaurantes. Tirei esta foto quando andava a deambular de bicicleta à procura deles. Também fui à procura da Norá, que entretanto me enviou um “Call me”, um daqueles sms automáticos para eu ligar de volta. Aproveitei e fui bater-lhe à porta para questioná-la sobre restaurantes. Mas a Norá não está, veio à porta uma senhora que me informou isto. Perguntei-lhe a ela sobre restaurantes, e ela indicou-me um nesta rua.

“O que servem hoje?” – questionei ao dono deste restaurante, que vai aparecer numa foto mais abaixo. “Molho de fogo” – respondeu-me. Vendo o meu ar intrigado, esclareceu: “É um prato típico do Príncipe, feito com peixe seco”. E eu fui espreitar o que as pessoas estão a comer. “Tenho receio de não gostar” – disse-lhe – “deve ter muitas espinhas e eu não gosto”. E eu ia arrancar na bicicleta, mas o dono disse: “Não, não tem espinhas, são todas retiradas!”. Eu muito hesitante. “Bom, vamos lá experimentar isso. Pode dar-me um bocadinho para eu experimentar?” – perguntei eu, encostando a bicicleta à parede, na entrada. Disse-me para sentar-me nesta mesa à direita, e esperei.

Para surpresa minha, veio o prato inteiro. Era suposto eu provar apenas, e se gostar é que viria o prato inteiro, mas ele não terá percebido. E trouxe-me também fruta-pão assada, no prato à direita. Vai ser a minha estreia com a fruta-pão e com o molho de fogo. Pois não sobrou nada. Ou melhor, sobrou arroz, e pouco mais de uma fatia da fruta-pão. O molho de fogo é bom mesmo. É picante! Normalmente tento evitar o picante, não sou propriamente adepta, mas agora ou vai ou racha. Pelo que percebo tem quiabos, que eu gosto bastante. Perguntei qual é o peixe, mas o dono pensou, hesitou, até que disse que não sabe qual é. E não tem espinhas mesmo. Muito bom. A fruta-pão nem sei bem como descrever. Talvez um misto de castanhas cozidas e batatas cozidas. Tem um sabor muito discreto. Alimenta bem uma ciclista já esfomeada, por esta altura. Afinal de contas acordei às 4 e meia da manhã. Quem acorda às 7, almoça à uma. Eu acordei 2 horas e meia antes, deveria almoçar 2 horas e meia antes também. É como acordar às 7 e almoçar apenas às 15H30. É certo que comi a barra de proteína e o gel energético, efetivamente comi um bife a meio da manhã, mas nada substitui um pratinho de comida verdadeiro como este. Por cem dobras. Um pouco caro, mas pronto, é uma especialidade, é mais caro.

O dono do restaurante chama-se Paixão e gere este negócio com a mulher. A mulher não está aqui agora. “Qual é o menu amanhã? – perguntei. “Eu combino com a minha mulher ao final do dia o menu do dia seguinte” – explicou-me. “Ainda não sei o que vai ser amanhã”. Perguntei por sobremesa. Respondeu o mesmo que a Kita ontem: “Às vezes temos, mas hoje não”. Fui para o quarto comer uns chocolates que trouxe de Lisboa. Antes disso o Paixão esteve a ver o meu GPS – a minha aplicação do Maps.me (aquele telemóvel é o meu) e a falar-me de várias terras no Príncipe para eu visitar na bicicleta. Falou-me do Bom Bom, entre outras. Lá chegarei, lá chegarei.

Antes de ir para o hotel passei pelos escritórios do Parque Natural para informar-me sobre passeios neste. À porta, de calças amarelas, está um dos guardas e guias do Parque. Chama-se Biquegila, disse-me. Nem sei se é assim que se escreve. “Tem um nome muito estranho” – disse-lhe eu a rir-me. A pessoa que pode inscrever-me num passeio não está aqui de momento, terei que regressar mais tarde.

Fui então ao quarto buscar os meus comprimidos da malária para entregá-los no hospital. É verdade, tenho comprimidos da malária comigo – são os que levei para Timor no ano passado e que não pude tomar porque me provocam fortes dores de estômago. São três caixas. Cada caixa custou 34,67€. Ou seja, tenho 104,01€ de comprimidos contra a malária comigo. É mais caro do que a passagem do avião para o Príncipe, que custou 82€ (mais uma carga enorme de peso excessivo pago a 5€ o quilo, é certo). 104,01€ equivale a 2.600 dobras, uma pequena fortuna no Príncipe. Há quem não receba isto num mês de ordenado. De facto duas pessoas na ilha de São Tomé dir-me-ão qual é a sua remuneração mensal. Uma dessas pessoas trabalha na função pública e ganha 3.000 dobras mensais (120€). Outra pessoa trabalha para um particular em serviços de limpezas, e ganha 2.000 dobras mensais (80€). Consultando os dados do Instituto Nacional de Estatística de São Tomé e Príncipe – dados de 2017, são os últimos disponíveis à data a que escrevo – o melhor ordenado está na área dos transportes e comunicações: 10.000 dobras mensais (400€). O ordenado mais baixo está na pecuária e pescas, com 1.300 dobras mensais (52€). A função pública ganha uma média de 2.600 dobras mensais¹³, precisamente o preço deste medicamento que eu tenho na mão. O ordenado dum mês dum funcionário público está na minha mão, encarnado nuns miseráveis comprimidos. Comprimidos estes que podem salvar uma vida!

Efetivamente quem me sugeriu isto – dar os comprimidos em São Tomé e Príncipe – foi a médica que me fez um check-up geral, em Lisboa. O meu check-up anual. Já nem sei como, calhou em conversa eu dizer que não posso tomar os comprimidos, que tenho três caixas para dar. E ela perguntou-me porque não os deixei em Timor. Nem me lembrei de tal. É evidente, devia tê-los deixado lá. Bom, então agora vou deixá-los em São Tomé e Príncipe.

A bicicleta ficou presa e eu entrei no hospital. Pela segunda vez. Já conheço tudo lá dentro.

O que eu não estava à espera é que me recusassem os comprimidos. Tive que andar à procura de alguém que pudesse atender-me e a quem eu pudesse explicar o porquê de eu estar a dar estes comprimidos. Uma enfermeira que estava de saída, já tinha despido a bata, andou à procura de alguém ligado à farmácia. Veio uma (farmacêutica? não sei) de bata branca falar comigo. Despachou-me num minuto. O hospital tem um protocolo, disse-me. E enumerou-me três ou quatro outros medicamentos. Este não usam. Bom, confesso que fiquei um pouco contrariada. Esta coisa custa o ordenado dum mês de muita gente. Eu não posso tomar isto porque me rebenta com o estômago. Mas pronto, o hospital tem um protocolo. E fui-me embora com os comprimidos. Não me digam que isto ainda vai voltar para Portugal outra vez. Vi um centro de saúde no outro dia, logo no segundo dia, vou lá agora. Pode ser que no centro de saúde me aceitem os comprimidos.

A caminho do centro de saúde passei pela Lucila e pela Tânia. Parei, desmontei e fui cumprimentá-las. Sentei-me um pouco. Contei-lhes do episódio dos comprimidos contra a malária. Perguntei-lhes se não conhecem ninguém com malária que queira tomá-los. A pergunta é insólita e rapidamente acrescentei: “É bom que não conheçam!! É bom que não haja ninguém com malária no Príncipe!!” Resultado: “Eu deixo-vos os comprimidos. Se alguém precisar de comprimidos contra a malária, pode tomá-los”. E deixei-lhes também a fatura da farmácia portuguesa onde os comprei, com o preço especificado para que não existam dúvidas. Espero que os vendam, que façam algum dinheiro, e que os comprimidos ajudem alguém a combater ou a prevenir a malária. Isga-se.

Entretanto perguntei à Lucila e à Tânia se sabem onde posso comprar uma vela e fósforos. Tenho que resolver isto, eu acordo às 4 da manhã, só amanhece às 5.30h, tenho que iluminar o quarto de alguma forma. Os faróis da bicicleta até dariam jeito… se eu tivesse trazido o cabo correto para carregá-los. Enganei-me no cabo, trouxe outro qualquer que não serve neles. Então a Tânia levou-me a uma casa (que descobri ser uma mercearia bem escondida) onde me venderam a vela e os fósforos por dez dobras. No caminho passámos por estes dois homens e eu aproveitei logo para fotografá-los. Pedi antes. Anuíram.

Despedi-me da Lucila e da Tânia e fui ao mercado comprar fruta. Quero bananas, ananás e sap-sap – uma fruta que ambas me falaram e mostraram a sua árvore, lá ao fundo. Também quero comprar leite. Esta fotografia tirei-a no mercado, às únicas bananas maduras que estão à venda. Mas a senhora que está a vender disse-me que são banana-pão, não tem banana-prata. A banana-pão é para cozinhar. A banana-prata é para comer no momento, crua. Resultado: não há fruta nenhuma para eu comprar. No mercado disseram-me que é difícil arranjar fruta, para eu ir às 6 da manhã ver se chegou alguma coisa.

Numa das quitandas ao lado do mercado perguntei por leite. (“Quitanda” é uma pequena loja ou barraca de negócio). 75 dobras, fresco, numa arca frigorífica alimentada a gerador, porque a esta hora não há luz na ilha, só vem ao final da tarde. Isto é caríssimo. Mas eu ainda não me habituei à moeda – aos cálculos – e aos preços praticados no Príncipe. São as primeiras compras que faço. Pelo que comprei o pacote de leite a preço de turista (alemão, se calhar, porque em Portugal um litro de leite destes custa 70 cêntimos ou menos. 75 dobras são 3€). Se a menina Rute tivesse comprado numa das duas mercearias que existem na sua própria rua – do seu hotel – teria comprado a metade do preço, mas pronto. A Rute ainda não sabe nada. Um litro de leite no Príncipe custa 35 dobras, ou seja 1,40€.  O preço está marcado. O mais barato que encontrei foram 30 dobras. E mesmo assim são caríssimos. Mas o leite vem de Portugal, é transportado num barco de São Tomé que de vez em quando vai ao fundo e morrem pessoas. Tudo é caro no Príncipe. Haverá alguém que beba leite no Príncipe, a este preço? E quase não há vacas em todo o país, não se produz leite nem queijo. Andei em busca de vacas, e questionei várias pessoas quer no Príncipe, quer em São Tomé. Onde andam as vacas? Só há vacas aqui e ali. São muito caras, dizem-me. Comprar um bezerro custa não sei quantos milhões de dobras. Só as empresas é que têm vacas. Se existirem cinquenta vacas em todo o país, já é muito.

Também perguntei por pacotes pequenos de leite com chocolate. Não têm. Eu trouxe oito pacotes, já só tenho um. Todos pagos a peso de ouro no avião. Os oito pacotinhos pesam 1,6 kg. A 5€ o quilo, no avião, foi lindo. Vou sair desfalcada desta ilha para conseguir alimentar-me devidamente. Ou então tenho que ir pescar e apanhar fruta-pão das árvores.

Cá estão as “quitandas”, pequenas lojas ou barracas de negócio, na rua central de Santo António.

Às 15H30 recolhi-me no quarto. Não há água nem luz. Fiz hoje 31,6 km na bicicleta. Velocidade máxima 51,6 km/h. Dei-lhe bem. Até a água vir, às 17h, estou estendida na cama a selecionar as fotos do dia e a fazer os backups na cloud. Estas modernices são fabulosas. Posso estragar a máquina, posso perdê-la, podem roubar-ma – que as fotos estão salvaguardadas na cloud. Máquinas há muitas. Fotos já é mais complicado repetir tudo. Sempre a ouvir um gerador a trabalhar ao lado do hotel. Até às 4 da manhã. E mesmo assim ouvem-se muitas motas. No quarto aparentemente não renovam o papel higiénico, logo ao 3º dia tive de pedir um rolo. Como é que se raciona o papel higiénico, digam-me lá. Ando a mendigar papel higiénico. Tenho que comprar um rolo também, está visto. Vieram fazer a cama e deixar-me o pequeno-almoço no quarto hoje de manhã, com menos um ovo (e protestei por isso junto do gerente do hotel) e apenas um quarto dum ananás. Lá se foi o meu ananás inteiro. E o pior é que não consigo comprar fruta. O quarto tem wifi, frigorífico, ar condicionado. Mas de nada servem o frigorífico e o ar condicionado, pois estão sempre desligados com os cortes de luz. Às 18H30 voltou a faltar a luz, mas aparentemente continua a haver água. Escuridão total. Receio sempre estar a tomar banho e faltar a água. Mas vá lá, veio novamente ao fim de 5 minutos. Foi só um susto. Antes de deitar-me, tenho que planear o destino de amanhã. Para onde queres ir amanhã, Rute?


¹ Calzavara, Batista Benito Gabriel (1987) “Fruticultura Tropical, a Fruta-Pão”. Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, e Centro de Pesquisa do Trópico Húmido – CPATU. Página consultada a 12 Setembro 2019, <https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/383722/1/DOCUMENTOS41CPATU.pdf> ² Bezerra, Erick dos Anjos et al (2017) “Biometria e características físico-químicas da fruta-pão (Artocarpus altilis)”. Revista Verde de Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável, V.12, Nº 1, pp. 100-104. Página consultada a 12 Setembro 2019, <https://www.gvaa.com.br/revista/index.php/RVADS/article/view/5027/4283> ³ Moreira, D.K.T. et al (s.d.) “Obtenção e Caracterização Físico-Química do Amido de Fruta-Pão”. Universidade Federal do Pará e Embrapa Amazónia Oriental, Laboratório de Agroindústria. Página consultada a 12 Setembro 2019, <https://www.alice.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/409398/1/5242.pdf> ⁴ “Artocarpus altilis” (s.d.). Wikipedia. Página consultada a 12 Setembro 2019, < https://es.wikipedia.org/wiki/Artocarpus_altilis > ⁵ “Artocarpus altilis” (s.d.), World Agroforesty. Página consultada a 12 Setembro 2019, <http://old.worldagroforestry.org/treedb/AFTPDFS/Artocarpus_altilis.PDF> ⁶ “Artocarpus altilis” (s.d.) Kew Science, Royal Botanical Gardens. Página consultada a 12 Setembro 2019, <http://powo.science.kew.org/taxon/urn:lsid:ipni.org:names:582598-1> ⁷ “Breadfruit History” (s.d.). National Tropical Botanical Garden. Página consultada a 12 Setembro 2019, <https://ntbg.org/breadfruit/about/history> ⁸ Mata, Mariana (s.d.) “Revolta na Bounty”. Cinecartaz, Público. Página consultada a 12 Setembro 2019, <https://cinecartaz.publico.pt/filme.asp?id=35388> ⁹ Howard, Richard A. (1953) “Captain Bligh and the Breadfruit”. Scientific American. Página consultada a 12 Setembro 2019, <https://www.jstor.org/stable/24944162?seq=1#page_scan_tab_contents> ¹⁰ Kiniry, Laura (2018, 18 Maio) “The Island Fruit That Caused a Mutiny”. BBC. Página consultada a 12 Setembro 2019, <http://www.bbc.com/travel/story/20180517-the-island-fruit-that-caused-a-mutiny> ¹¹ Alexander, Caroline (2009, Setembro) “Captain Bligh’s Cursed Breadfruit”. Smithsonian Magazine. Página consultada a 12 Setembro 2019, <https://www.smithsonianmag.com/travel/captain-blighs-cursed-breadfruit-41433018/> ¹² Rupp, Rebecca (2016, 28 Abril) “Breadfruit and ‘The Bounty’ That Brought It Across the Ocean”. National Geographic. Página consultada a 12 Setembro 2019, <https://www.nationalgeographic.com/people-and-culture/food/the-plate/2016/04/28/breadfruit-and-the-bounty-that-brought-it-across-the-ocean/> ¹³ “Salários” in “São Tomé e Príncipe em Números 2017”, p. 26. Instituto Nacional de Estatística – INE. Página consultada a 12 Setembro 2019, <https://www.ine.st/index.php/publicacao/documentos/file/414-stpemnumeros-2017>

014 - Príncipe - Quinto Dia, a Caminho do Ilhéu Bom Bom

Despertador às 4h30. Para sair às 5h30. Não há luz. Uso o flash portátil. Afinal não preciso da vela, esqueci-me que tenho uma poderosa luz portátil para a máquina fotográfica, com nove intensidades diferentes.

Há água. O pequeno-almoço foi trazido na véspera, conforme contei. Esteve no frigorífico. Se bem que o desliguei durante a noite porque fazia muito barulho. Hoje só tenho um ovo, amanhã voltarei a ter dois. Normalmente os hóspedes comem ovos mexidos, e eu vi a rapariga romena a comer, e ela não tinha só um ovo mexido. Isto aqui tem de ser tudo lutado.

Já não tive papel higiénico hoje de manhã. Vou ter de comprar eu própria. Tive de andar à procura de lenços e guardanapos na minha bagagem, isto é absurdo. Terá sido esquecimento da pessoa que vem limpar o quarto diariamente?

Partida às 5h55 em direção ao ilhéu Bom Bom. Foi o que o dono do restaurante  – o Paixão – me falou logo ontem, parece que é muito bonito. Seja, vou então ao ilhéu Bom Bom. São 9,2 km com 180 metros de subida acumulada. Mas às 5h55 é tarde, mesmo assim. É suposto partir quando amanhece, às 5h30. Amanhã vou levantar-me mais cedo.

Pus o repelente de insetos no corpo. Ainda não usei protetor solar desde que cheguei, está sempre nublado e eu continuo branquelas. Levo biquíni comigo na mochila.

Principe Island Map

A vender banana frita (no recipiente no chão) e pão (no outro recipiente tapado).

São 5h59 da manhã!! Esta malta já pula e transpira há sei lá quanto tempo! Amanhã vou mesmo acordar mais cedo!!!

Encontrei a enfermeira Manuela, a parteira que fotografei no hospital. Vai ao banco, não quis tirar uma foto comigo, e convidou-me para almoçar em sua casa. Mora numa terra chamada Azeitona. Eu lembro-me de ver a placa, ontem. Deixou-me o seu número de telefone. Disse que “o Príncipe de hoje não é o mesmo de ontem e que tenho de ter cautela; há muita gente que vem de fora”. Eu contei-lhe que estive ontem no hospital para oferecer uns comprimidos da malária, que não a vi, e ela disse-me que há muita falsificação de medicamentos e que se calhar por isso não mos aceitaram.

A subida do Gaspar. Esta subida logo no arranque, mata-me. Um rapaz passa por mim a pé, a descer, e diz-me que tenho de ir a pedalar. Está bem, está. “Vai leve-leve”, dizem-me outras pessoas. Que remédio tenho eu.

Fruta. Estou sedenta de fruta. Que fruta é esta? Será que a vendem?

Deixei a bicicleta na berma da estrada e entrei pelo quintal. Devagarinho, se calhar um pouco furtivamente. Ainda as pessoas se assustam comigo, de capacete na cabeça, inesperadamente.

Mas que fruta é esta?! É do tamanho de ananazes, mas não são ananazes. Será isto o sap sap?

Até que apareceu o dono. Acho que é o dono. Esta fruta é maracujá, disse-me. Maracujá? Gigante? “E vende-a?” – perguntei. Agora não posso ir carregada com uma fruta deste tamanho, acabei de sair do hotel, tenho todo o percurso para fazer, mas quando regressar, posso comprar uma. Disse-lhe onde estava alojada, se ele podia mandar fruta para lá. Ele conhece o gerente do hotel, parece.

Eu vou em frente, em direção ao aeroporto.

Quem havia de encontrar – o Minério! Que conheci na quitanda da Lucila, logo no primeiro passeio pela cidade (na crónica 6). Mora aqui. Aquele garoto é o filho.

Breadfruit Sao Tome Principe

A Árvore-do-Pão, da qual já falei na crónica 13. A fruta chama-se “fruta-pão” e provei-a assada ontem ao almoço.

Este episódio foi insólito e perturbante. A rapariga, que deverá andar pelos 15 ou 16 anos, vai a caminhar com um cinto preso ao pé. Rapidamente percebi que ela vai alheada. Sofre de uma deficiência mental, e veio um homem e uma mulher atrás dela, ambos dos seus 50 ou 60 anos, talvez. Um deficiente mental já é delicado num país europeu; são necessárias instituições próprias para cuidar destes. Ou os chamados “cuidadores”, a família que abandona o emprego para se dedicar a eles. Imagine-se agora na pequena e pobre ilha do Príncipe. Nem creches existem em número suficiente para as crianças normais, quanto mais uma instituição para cuidar dum deficiente mental. E quem é que pode deixar o trabalho para ficar em casa a cuidar? Esta família fará o que pode. Cada membro deve revezar-se a tomar conta, provavelmente. E pelos vistos a rapariga tem de estar presa, porque senão vai-se embora. Calmamente. A caminhar por ali afora.

Uma entrada para peões, no aeroporto!!
Repare-se que hoje trago os três cantis de água. Ontem faltou-me a água, hoje já trouxe os cantis todos.

Olha a Rute a meter a rodinha lá dentro…

Bom, se as pessoas passam… eu também passo.

Vou levantar voo!!!!
Estou à espera a qualquer momento que venha um segurança do aeroporto perseguir-me. E efetivamente quando regressei, quando ia sair do aeroporto e retomar o meu caminho em direção ao Bom Bom, veio mesmo um segurança atrás de mim. Estou frita. Fugi a sete pés. Ou a sete pedais! Meti a mudança mais pesada e fugi a toda a velocidade. (Estão mesmo a ver a imagem? Eu e os meus três cantis de água a fugirmos a toda a velocidade em pleno aeroporto?) O segurança veio a pé atrás de mim – era uma luta desigual. Ele teria que meter-se num daqueles carrinhos do aeroporto. Havia de ser lindo, eu numa bicicleta a fugir na pista dum aeroporto, perseguida por um carrinho.
Este episódio do aeroporto foi emocionante e perfeitamente insólito. Hoje só me acontecem coisas insólitas.

As pessoas atravessam o aeroporto neste caminho para irem para ali. O que há atrás deste portão?

Foi mesmo isso que perguntei a esta senhora que aí vem:
– O que há ali atrás?
– É uma comunidade – respondeu-me.
– Uma aldeia?
– Sim.
– Então vou atrás de si.
– Então vamos – respondeu-me ela.

Eu juro-vos pela minha vida que a conversa foi esta. Sem tirar nem pôr. Hoje tudo é insólito. Esta senhora chama-se Benvinda e esteve quatro meses em Portugal há nove anos atrás. Se calhar por isso achou normal eu andar ali a passear de bicicleta e segui-la a partir de agora. Estará habituada aos excêntricos portugueses. Os portugueses serão excêntricos? É que a Benvinda não mostrou qualquer espanto com nada. É normalíssimo, tudo o que está a acontecer. Será que muita gente a segue neste ponto?

015 - Príncipe - Azeitona & Praia Bom Bom

Aqui vou a seguir a Benvinda. Eu vou a caminhar ao seu lado a conversar. Na foto de cima a Benvinda esperou que eu tirasse a foto, mas nesta eu disse-lhe que podia continuar a andar, e assim fotografei-a também.

Agora não fiquei com uma foto decente da Benvinda. Esta ficou desfocada, mas é a única que tenho, mais perto, pelo que a mantenho. As ervas lá à frente é que estão bem focadinhas… ai Rute, que paciência.

A Benvinda tem 64 anos, e uma neta chamada Cláudia que está em França, e a qual acabou a faculdade agora. A neta tem 22 anos e já viajou aos Açores e a Inglaterra. A filha da Benvinda, que se chama Augusta, viveu no Cacém, em Portugal, e foi assim que a Benvinda esteve quatro meses em Portugal há nove anos atrás. Agora a filha está em França. A Benvinda mora junto ao aeroporto e trabalha aqui. Esta terra chama-se Azeitona, é onde vive a enfermeira Manuela. A Benvinda conhece-a, pois claro.
Convidou-me para ir visitar a sua casa, no regresso do Bom Bom. Disse que lá para as 10h30 já estaria em casa.
Diz que o Príncipe é uma terra calma por enquanto, é pacífica. Por enquanto, reiterou. Não há bandidos, disse.

A Benvinda veio capinar. Chama-se assim, capinar. Ao seu lado está o filho que tem 49 anos. “Parecem irmãos” – disse eu à Benvinda, o que a fez rir. Esta terra é do Estado, explicou-me. Vão plantar milho, mandioca, feijão.

Despedi-me e voltei a atravessar o aeroporto para retomar o meu caminho em direção ao Bom Bom. (Foi então que se deu a perseguição policial da crónica anterior). Esta estufa já está na estrada a caminho do Bom Bom.

O GPS diz-me para seguir em frente. Só quando regressei é que reparei que a placa de baixo, que não consigo ver agora, é a que indica “Bom Bom”. Faltam 4 km para a Praia Bom Bom.

São 7h50 da manhã. Quem tinha de vir buscar água, já veio.

Este não é o mesmo chafariz, é outro. As pessoas abastecem-se de água nestes chafarizes, os quais existem em relativa abundância.

Desci a toda a velocidade e um dos cantis de trás caiu. Este suporte não presta, já é a segunda vez que um cantil cai. E eu só soube porque veio um jipe atrás de mim, pertencente ao resort lá em baixo, em que o condutor abrandou ao meu lado (eu em andamento lento à espera que ele me ultrapassasse) para dizer-me que o cantil está a cerca de 300 metros atrás. Lá fui eu, subir aquilo outra vez, à procura do cantil. Felizmente veio outra carrinha para baixo, creio que também pertencente ao resort, com o cantil, para dar-mo. Tive sorte. Muita sorte.

Aparentemente esta foto não tem grande interesse. Mas tem uma razão para existir e aqui vai dar-se um acontecimento decisivo no resto da viagem.  Hoje estou no 5º dia. É que aqui fiz uma pausa estratégica para trocar os cantis de água – como os de trás têm tendência para cair, eu passo a água possível para o da frente, que entretanto já bebi todo. E normalmente bebo o da frente primeiro porque consigo tirá-lo em andamento, não preciso de parar a bicicleta para beber. Os de trás estando vazios já não caem. Aproveitei e fui à casa de banho. É invisível, a casa de banho, mas ela existe ali no meio dos arbustos. Há muitas melgas a esvoaçarem à minha volta, mas eu não sou picada. Tenho o repelente de insetos posto. Ora estava eu descansada nestas minhas lides (já em pé, felizmente, junto à bicicleta) quando passa uma pickup a certa velocidade, para cima, com um homem branco, que estranhou eu estar aqui, terá ficado surpreendido, e quis ser prestável, pelo que acabou por travar um pouco mais acima, e fez marcha atrás para chegar ao pé de mim. Eu preparada para partir. Uma pickup parar ao pé de mim, eu tenho de estar alerta. Isto de viajar sozinha não pensem que confio em tudo. Numa bicicleta de BTT fujo rapidamente, dá-me uma certa segurança. Agora estava apeada, pelo que montei, pronta para desaparecer. Bom, o senhor é português; trabalhará no hotel lá em baixo; e perguntou-me se está tudo bem. Agradeci, claro. Disse-lhe que precisei de ir à casa de banho e ele soltou uma gargalhada. E partimos os dois. Ele para cima, eu para baixo.
Ora no meio desta agitação não apertei devidamente a tampa dos dois cantis que troquei a água. Nem me lembrei mais de tal.

O guarda do hotel mandou-me estacionar a bicicleta ao lado dos outros carros. Do lado esquerdo estão vários carros estacionados, não ficaram na fotografia. Ok. É a primeira vez que me mandam estacionar a bicicleta num parque de carros. A minha bicicleta fica aqui estacionada, mas com cadeado. E já agora onde é que anda a tampa do cantil de trás? Pois voou na descida. Que cena. São uns 2 km a descer – uma grande descida. Agora não vou subir tudo à procura da tampa. Quando regressar, esperemos que tenha a sorte de encontrá-la. Informei o guarda de que perdi a tampa, e se ele conseguir falar com os colegas para ver se a encontram no caminho, ótimo.

São 8h30 e tenho 11 km feitos.

Tens sorte, cãozinho, em pertencer aqui ao hotel… Só podes pertencer aqui ao hotel, tão gordinho e bonito… E atrevido!

Enquanto fotografava a praia, veio uma onda maior e molhou-me os pés. Eu não me importei, as sandálias secam num instante.
Mal sei eu as consequências futuras disto.

Uma pausa para descansar, comer e contemplar. O ilhéu Bom Bom é ali atrás, ainda falta um bocadinho para terminar.

Este é o ovo cozido que trouxe do pequeno-almoço.

Deixei a bicicleta aqui presa com o cadeado e fui para o ilhéu. Ao ver esta foto dou conta que deixei a bicicleta mal posicionada, de facto o pneu da frente está a tapar o caminho às pessoas, devia ter tido mais cuidado.