25 dias na China, sozinha, de bicicleta

091 - Visita ao Templo de Xing Jiao

O Templo Xing Jiao foi construído em 1415 durante a Dinastia Ming. Quando se entra ficamos num pequeno hall que era dedicado às visitas. O segundo hall é chamado o “Hall do Rei”, e é o separador de dois páteos. Finalmente, continuando em frente, vamos dar um terceiro hall, com cinco Budas dourados, chamado o “Hall Principal”. Este templo possui ainda um portão principal, e edífícios contíguos, totalizando uma área de 6.240 m². Segundo informação disponibilizada no próprio Templo, este foi incluído em 2006 na lista de relíquias culturais chinesas a proteger, e é uma lembrança de como a vila de Shaxi (também conhecida por Sideng) era um importante ponto de paragem na Rota do Chá e dos Cavalos. Na sua diversidade cultural, é um representante do Budismo Tântrico, da cultura minoritária Bai, do Confucionismo, e da própria cultura comercial da China.

Planta Arisaema Erubescens (mais dados na foto abaixo). Aparentemente tive o privilégio de vê-la quando subi a montanha a pé (ver foto na crónica 74). Nesses dias também vi uma raiz arrancada, mas não a fotografei. Fiquei bastante contente ao vê-la aqui desenhada e explicada. Pelos vistos é tóxica, e vive entre os 1.100 e os 3.200 metros de altura.

Traduzindo: na medicina, este tubérculo seco é usado na tosse persistente com catarro, nas apoplexias, hemiplegias, epilepsia e tétano. Já o tubérculo crú é usado nos carbúnculos, e mordidas de insetos e cobras.

Dentro do Tempo Xing Jiao existe uma série de informação sobre Shaxi. Neste cartaz é indicado que Shaxi pertence ao condado de Jianchuan, e que existem vestígios culturais, comerciais e agrícolas datados de 1.000 A.C. No século VII este vale fértil tornou-se numa área militarmente e estrategicamente importante, e no século XIII foi conquistado por forças da Mongólia. Refere ainda que 90% da população pertence à etnia Bai. Existem 22.000 habitantes em Shaxi e a agricultura é o principal modo de subsistência. Estima-se que cada lar subsista com 120 dólares anuais, ficando abaixo do índice da linha de pobreza definido pelo Banco Mundial, de menos de 1 dólar por dia. (Este cartaz será anterior a 2015, pois entretanto o Banco Mundial atualizou o valor do índice para 1,90 dólares por dia).

Outro cartaz refere que Yunnan é uma das províncias mais pobres da China. Entre os habitantes das áreas rurais, 2.86 milhões vive em absoluta pobreza, enquanto 7.64 milhões têm baixos rendimentos. Yunnan enfrenta condições climatéricas adversas e isolamento geográfico, o que atrasa o desenvolvimento económico e desafia o desenvolvimento local. Possui uma população culturalmente diversificada, com 25 grupos étnicos minoritários. Estes grupos étnicos abrangem apenas 8,4% da população nacional, no entanto têm uma proporção muito grande dentro da camada mais pobre, na China, de acordo com o Census de 2000. Adicionalmente, a população está a ser influenciada pela rápida introdução de ideais dominantes na sociedade, os quais invadem e prejudicam fortemente os seus hábitos étnicos tradicionais.

O Hall principal com os Cinco Budas dourados representa uma das principais combinações do Budismo Tântrico.

092 - Fugi (do Verbo Fugir)

Tenho a tarde por minha conta. O motorista Nong Bu e a guia foram-se embora depois de almoço. Já me entretive bastante tempo no templo Xing Jiao, a ler aqueles cartazes todos. Sabe-me bem encontrar as coisas em inglês, com muitas explicações e informações. Estou sedenta de informação.
Depois andei mais uma hora a passear pela vila, no meio da multidão de turistas orientais. Mas isto já é muita gente e muito comércio para meu gosto. Peguei na bicicleta e fui-me embora, para fora da vila. Ter uma bicicleta e poder fugir para relativamente longe, de forma rápida, é magnífico. Dá uma grande liberdade.

Curiosa, esta placa: “Abrigo de Emergência”. E voltei a ver outra mais à frente, noutra cidade. Muito interessante. É suposto abrigarmo-nos do quê? Será de uma chuvada torrencial? Ou serão mesmo bombardeios?!… Estes abrigos normalmente eram usados para bombardeios, na Europa.

Sentei-me aqui, em silêncio.  A vila, a confusão, o barulho, o bulício – estão lá à frente. Assim passei hora e meia. Entretive-me a ler o manual de instruções da minha câmera fotográfica, para aperfeiçoar-me. Vi-me grega (ou chinesa?…), nestes dias cinzentos e de grande luminosidade, para apanhar fotos decentes do céu, pelo que fui relembrar alguns dos inúmeros menús da câmera. Ainda chuviscou. Tive até de proteger a câmera dentro da sua mala. Desde que apanhei a chuvada em Meiquan, no passeio a cavalo (crónica 28), a mala agora anda sempre ao ombro, para os casos de urgência. Tenho de comprar uma câmera resistente à chuva, está visto. Quando tiver dinheiro para isso.

Ao jantar, na companhia do motorista Nong Bu e da guia (tínhamos combinado encontrar-nos às 19h, no meu hotel, e daí iríamos a pé para um restaurante), temos “Fish Pot”, ou seja, mais um delicioso hot pot, desta vez de peixe. Um peixe local, do rio. Em cima, à esquerda, estão ovos cozidos com uma espécie de gelatina e pepinos, muito bom. O pepino não era cozido, pelo que não o comi. Já molhou o resto da comida, mas enfim, comi uns bocadinhos dessa comida, esperando que corra tudo pelo melhor. Tantas viagens feitas, já é altura do meu estômago se deixar de esquisitices. E lá estão as malaguetazinhas no meio dos bróculos, claro. O porco frito, no canto inferior direito, também está bastante picante.

Este é o mesmo cão da crónica 90 – o que ia na mota, sentado atrás do dono. Pelos vistos é um mimado e faz parte da vida dele. Aqui é um restaurante, e o dono do cão talvez seja também o dono do restaurante. Está cheio de clientes (não fotografei) e ainda tirei duas ou três fotos ao cão, com o flash a iluminar tudo e a chamar a atenção das pessoas, que já se viravam para trás a olhar para mim, até que desisti e fui-me embora. Mas mantive a foto. Há uma mesa reservada para sua excelência, portanto. Já tem um focinho branco, está a atingir uma provecta idade.

De regresso ao meu hotel.

093 - Ao Décimo Sétimo Dia... Amanheceu

A rotina é sempre a mesma: 7.30h despertar. Ferver água mineral no fervedor elétrico existente no quarto, deitar fora, pôr nova água e amornar. Beber uma garrafa de água morna logo antes do pequeno almoço. Meio litro. Sabe-me bem e é a primeira garrafa de umas quatro ou cinco, durante o dia.
O pequeno almoço hoje vai ser tomado, a meu pedido, num restaurante turístico já virado para ocidentais. Panquecas, ovo estrelado e bacon frito. Nada saudável, comer fritos logo de manhã, mas enfim, em 25 dias foi o único do género. E ainda uma salada crua, que não comi. Conforme explicado na crónica 8, nós ocidentais, não devemos beber água da torneira (daí eu ferver a água no fervedor e deitar fora – quero eliminar qualquer vestígio que lá haja) nem alimentos crús, como saladas. Portanto a salada ficou no prato, com grande pena minha.
A vista da esplanada do restaurante é soberba: o teatro – agora fechado ao público – que terá sido construído na mesma altura do Templo Xing Jiao, em frente, no século XV. Tão velhinho. Tanta gente que ele viu passar ali. E agora uma portuguesa a comer panquecas. E atrás de mim está um casal holandês. Parece-me que são holandeses. Eu toda besuntada de protetor solar e anti-mosquitos.

Esta noite não choveu. Hoje esperam-me 109 km de bicicleta. Quase todos na bicicleta elétrica da guia, uma maravilha.

Hoje, pela segunda vez, pego na bicicleta elétrica da guia. Esta bicicleta só tem um problema: não tem travões. Ou melhor, tem travões, claro, mas estão a funcionar muito mal. Vou ter de gerir muito bem a situação e mais à frente quase vou ter um acidente por causa disto. Mas o objetivo é subir montanhas com ela. Numa das descidas vi-me mesmo forçada a trocar pela minha, a normal, a qual trava impecavelmente bem.

094 - De Bicicleta por Montanhas e Vales... e a Diferença no Ratio entre Homens e Mulheres

A China tem muitos mais milhões de homens do que mulheres.
Falemos hoje deste tema.
Em 2020, estima-se que haverão 30 milhões de homens mais do que mulheres . As projeções para 2030 indicam que mais de um quarto dos homens chineses não se casarão.¹ Surge assim um problema grave, criado pelo desequilíbrio, que é o chamado Guanggun (literalmente “ramos nus”, ou os “homens que sobraram”).²
A corrida para encontrar uma mulher adequada – e conquistá-la antes de outro – levou alguns homens a envidarem grandes esforços para encontrar uma esposa. Gastam somas avultadas em medidas criativas, às vezes mal sucedidas, para conquistar uma mulher. Em 2015, um empresário chinês de 40 anos processou uma agência de encontros sediada em Xangai por não lhe encontrar uma esposa, após ter pago a essa empresa 7 milhões de yuans (1 milhão de euros) para realizar uma busca extensa. Num outro caso, um programador de computadores da cidade de Guangzhou comprou 99 iPhones como parte de uma elaborada proposta de casamento para a sua namorada. Infelizmente, ele foi rejeitado, com a sua humilhação exacerbada quando as fotos do evento foram amplamente compartilhadas nas redes sociais.¹

Dados do Gabinete Nacional de Estatística mostram que, no final de 2015, existiam 704 milhões de cidadãos do sexo masculino e 670 milhões de cidadãs do sexo feminino na China continental. Em média, 114 rapazes nasceram por cada 100 raparigas, em comparação com a média mundial de 103 para 107. Entre a população nascida na década de 1980, havia 136 solteiros para cada 100 mulheres solteiras e entre os nascidos nos anos 1970, o número de solteiros aumenta para 206.
Para evitar esta discrepância nos nascimentos, em novembro de 2002 a identificação do sexo fetal por razões não médicas, bem como os abortos seletivos após verificação do sexo foram oficialmente proibidos na China. No entanto, é difícil controlar as práticas devido a deficiências na regulamentação e também ao desenvolvimento da tecnologia.
De acordo com o objetivo estabelecido no Plano Nacional de Desenvolvimento da População (2016-2030), até 2020 a proporção rapaz-rapariga ao nascer deve ser igual ou inferior a 112 para 100 e a proporção em 2030 deve ser estabilizada em 107 para 100. Isso significa que serão necessários 13 anos para o índice voltar ao normal e, assim, portanto, o país tem que lidar com os homens sobrantes nascidos nas últimas três décadas, desde que foi implementada a política do filho único, e ainda os restantes dos 13 anos seguintes.²

Porquê esta diferença na quantidade de homens e mulheres?
Na crónica 63 falei do Hukou, e na crónica 78 falei da “política do filho único”. Ambos estão interligados e vão desembocar agora nesta problemática. A preferência ancestral das famílias pelos filhos rapazes remonta à grande dependência da agricultura na generalidade das famílias, que ainda hoje é regra no interior da China, embora com cada vez menos peso, e também à segurança que os filhos homens dão aos pais durante a velhice. Quando casam, as mulheres passam a ter como prioridade a família do marido, sem poderem muitas vezes dar apoio aos próprios pais. Se esta preferência era pré-existente, a política do filho único intensificou-a. Na impossibilidade de ter mais do que um filho, os casais tudo faziam para que fosse rapaz. Por vezes, os pais dão às filhas nomes como Laidi ou Yindi, que significam “traz um pequeno irmão”, colocando desde logo à primogénita o rótulo de indesejada.³
Mesmo o governo reconhece o problema e expressou preocupação com as dezenas de milhões de jovens que não encontrarão noivas e poderão recorrer a medidas drásticas como raptar mulheres, tráfico sexual, e outras formas de crime ou agitação social.⁴

A dificuldade dos homens em encontrarem uma esposa é mais aguda nas áreas rurais, mais pobres, dificuldades essas que são agravadas pelo facto das antigas tradições definirem que o marido deve oferecer um nível decente de segurança financeira antes de conseguir uma esposa.¹
Citando um artigo do jornal “The Guardian”:
Para Jin, que trabalha nas fábricas do Delta do Rio das Pérolas, o casamenteiro foi o seu segundo primo. “O meu primo trouxe [uma rapariga] para nos encontrarmos numa praça pública na aldeia, e depois deixou-nos sozinhos”, lembra Jin. “Alguns minutos depois, essa rapariga deixou claro que seria essencial eu possuir um apartamento, mas que ela poderia esperar até mais tarde por um carro. E para ela estaria bem se o apartamento não estivesse no centro da cidade, mas eu tinha que ter um depósito de pelo menos 200 mil yuans [cerca de 28.000€]”.

Em 2010, o principal sindicato endossado pelo estado entrevistou milhares de migrantes rurais em dez cidades em todo o país, concluindo que “o aspeto determinante da experiência dos migrantes” é o sentimento de solidão devido à falta de perspetivas românticas. Uma outra pesquisa descobriu que mais de 70% dos trabalhadores da construção civil (quase exclusivamente migrantes rurais) relataram a solidão emocional como o aspeto mais doloroso das suas vidas.
Liu tem 33 anos e é solitário. Quando era adolescente, deixou a escola para ajudar os seus pais no campo, mas depressa se aventurou para o sul, para Shenzhen, na fronteira com Hong Kong, na esperança de ganhar mais dinheiro. Quando eu o conheci, ele estava a trabalhar 12 horas por dia, seis dias por semana, a montar iPhones numa das fábricas da Foxconn (…).
Sem educação avançada, Liu é apenas qualificado para empregos inseguros e pouco qualificados. As longas horas e salários baixos tornam os aspetos práticos do namoro ainda mais assustadores. “Não é porque eu seja uma pessoa tímida. Eu simplesmente não tenho dinheiro suficiente para sentir-me confiante”, diz ele. “Quando um homem tem dinheiro, todas as mulheres se sentem destinadas a ser a sua namorada”.

Ora existe um vínculo óbvio entre homens jovens irritados e agitação social. Num Estado de partido único que valoriza a estabilidade social acima de tudo, essa crescente coorte de milhões de jovens desfavorecidos e sexualmente frustrados é um desenvolvimento indesejável.
A abolição do Hukou é crucial para superar a divisão rural-urbana. Ambos os governos centrais e locais remendaram o sistema, porém mais reformas são improváveis. Isso porque o aumento das oportunidades para os migrantes rurais significa necessariamente aumentar a concorrência para a classe média urbana estabelecida – eles próprios uma força social chave na estabilização da sociedade. Os líderes do Partido Comunista não eleitos e perenemente inseguros sentem que não podem arriscar a instabilidade adotando políticas sociais redistributivas significativas.⁵

Com esta diferença no ratio entre rapazes e raparigas, surgem inúmeras outras questões a nível social. O fardo financeiro para os homens também torna mais difícil para muitas mulheres encontrarem um parceiro. Por outro lado, um grande número de homens, em parte devido aos custos financeiros do casamento, optam por casar-se mais tarde. E quando eles se estabelecem, muitas vezes procuram mulheres mais jovens. As diferenças de idade de 10 a 20 anos ou mais são comuns em casamentos chineses.
Os próprios pais acabam por envolver-se e sofrer com a situação. Os pais consideram que são responsáveis ​​por ajudar o seu filho adulto a começar uma família. Eles pressionam o filho ou a filha a encontrar um parceiro, a namorar e a preparar-se para um casamento. “O ‘blind date’ (ou ‘encontro às cegas’) organizado pelos pais, ainda é muito popular”, diz Melinda Hu, que tem 32 anos e é solteira. “Os pais enfrentam grandes críticas sociais se a sua filha ou filho não se casar, de modo que normalmente os pais de uma rapariga estão ansiosos para deixar a sua filha ir a um encontro às cegas e casar-se antes de chegar aos 30.”¹
O mesmo se passa com os rapazes:
“Quando Liu voltou para sua aldeia de infância para celebrar o Ano Novo Chinês, os seus pais haviam arranjado uma tarefa já familiar e deprimente para ele: uma série de ‘speed dates’. Durante uma semana na província rural de Jiangxi, ele conheceu meia dúzia de potenciais esposas em encontros que ele sentiu como se fossem entrevistas de emprego. Liu espera passar pelo mesmo processo no próximo ano, sem muitas esperanças de sucesso”.⁵

Existem também os mercados matrimoniais ao ar livre. Em Xangai existe um dos maiores, onde os pais de adultos solteiros se reúnem todos os sábados e domingos do meio dia às 17h para trocar informações sobre os seus filhos. O principal objetivo é encontrarem um cônjuge adequado para estes. Os pais publicam anúncios manuscritos sobre os seus filhos solteiros indicando detalhes como a idade, altura, trabalho, rendimento, educação, valores familiares, signo chinês do zodíaco, e personalidade. Toda essa informação está escrita num pedaço de papel, que é então pendurado em cordas longas entre os anúncios de outros pais sobre os seus filhos. Os pais caminham conversando com outros pais para ver se há um ajuste harmonioso.⁶ Se ambos os pais encontrarem um par que pareça funcionar, eles trocam informações de contacto e tentam marcar um encontro às cegas entre ambos os filhos.

E no final, temos de ter em conta que mesmo que uma união se realize, as coisas nem sempre terminam bem. Casamentos precipitados podem levar a divórcios também apressados. Num município da província de Henan, 85% de todos os divórcios no período de 2013 a 2015 envolveram casais migrantes rurais. O governo manifestou a sua preocupação com as altas taxas de divórcio e os “casais temporários” – constituídos por indivíduos que se casam nas suas aldeias e depois regressam às cidades e formam outros relacionamentos aí.⁵

Efetivamente, à medida em que a China se torna mais rica e mais poderosa no primeiro mandato de cinco anos do presidente Xi Jinping, o país está a enfrentar uma mudança profunda: as taxas de casamento diminuem enquanto os divórcios estão a aumentar acentuadamente. A tendência, já prevalecente nas economias desenvolvidas, tem implicações muito mais graves para a China: necessita muito de casais para darem à luz mais bebés de forma a aliviar o envelhecimento rápido da população, bem como gerar compras relacionadas com a família, já que Pequim tenta manter o crescimento baseando-se no consumo. A queda da taxa de casamentos aumenta as incertezas de gastos (…) Os solteiros, sem dúvida, gastam menos do que os lares de famílias de casados, nomeadamente em eletrodomésticos, casas, e serviços relacionados com a família, levando as empresas a comercializar produtos mais pequenos e baratos, como frigoríficos e panelas elétricas de arroz, além de construirem apartamentos mais pequenos.
“Tudo isso permite que as pessoas vivam uma vida confortável sem se casar”, disse Alina Ma, analista sénior de estilo de vida na consultora Mintel. “Isso significa que ficam solteiros por longos períodos de tempo”.
“O casamento é mais sobre companheirismo agora”, disse Yu, professor assistente na Academia Chinesa de Ciências Sociais. “As mulheres podem obter isso escolhendo a coabitação também”.⁷

A modernidade está a apoderar-se da China. Enquanto as fomes pontuais e a permanente turbulência ensinavam as gerações mais velhas a valorizar a estabilidade acima de tudo, as crianças nascidas durante os anos de crescimento da China tendem a aumentar o grau de exigência. Criados numa dieta constante de filmes de Hollywood e telenovelas coreanas, a geração Y da China, ou seja, aqueles nascidos na década de 1980, começaram a perguntar-se se não haverá espaço para um pequeno romance nos seus relacionamentos.⁸
Lentamente tem havido uma mudança na forma como as pessoas se encontram e como os homens atraem as mulheres, começando a ser colocado atualmente maior ênfase no amor do que em considerações práticas como a segurança financeira. O namoro online está a crescer rapidamente na China, tal como em outras zonas, e aplicativos de mensagens como o WeChat são formas cada vez mais populares de conhecer pessoas. “O namoro na China começa a estar cada vez mais aberto e mais familiarizado com as formas dos países ocidentais nos últimos anos”, diz Jun Li. “As novas gerações têm mais opções e estão a seguir os seus corações em vez dos pais”.¹

Conclusão
Mas deixemos os namoros e os casamentos, e regressemos ao assunto inicial: a diferença nos ratios entre homens e mulheres. Qual poderá ser a solução para este problema?
Segundo Zhai Zhenwu, professor de Estudos Populacionais da Universidade Renmin da China, os especialistas concordam que a chave é mudar a preferência tradicional da população pelas crianças do sexo masculino e trabalhar no sentido da igualdade de género. A sensação de igualdade de género ainda é fraca atualmente. O preconceito tradicional contra as raparigas só pode ser alterado com a urbanização, a industrialização e a educação. “Precisamos educar a próxima geração e estabelecer o terreno para a igualdade de género”, diz Zhai. “A crise dos ramos nus não será resolvida até que a visão dos jovens em relação à procriação seja alterada”.²


¹ Budden, Rob (2017, 14 fevereiro). “Why millions of Chinese men are staying single”. BBC. Página consultada a 19 Fevereiro 2018,
<http://www.bbc.com/capital/story/20170213-why-millions-of-chinese-men-are-staying-single>

² Jing, Liu (2017, 13 fevereiro). “30 million Chinese men to be wifeless over the next 30 years”. China Daily. Página consultada a 19 Fevereiro 2018,
<http://www.chinadaily.com.cn/china/2017-02/13/content_28183839.htm>

³ Ribeiro, João Ruela (2017, 30 Janeiro). “Depois de três décadas a impedir nascimentos, a China precisa de bebés”. Jornal Público. Página consultada a 19 Fevereiro 2018,
<https://www.publico.pt/2017/01/30/mundo/noticia/depois-de-tres-decadas-a-impedir-nascimentos-a-china-precisa-de-bebes-1760068>

⁴ “One-child policy” (s.d.). Wikipedia. Página consultada a 19 Fevereiro 2018,
<https://en.wikipedia.org/wiki/One-child_policy>

⁵ Wanning, Sun (2017, 28 Setembro). “My parents say hurry up and find a girl’: China’s millions of lonely ‘leftover men”. The Guardian. Página consultada a 19 Fevereiro 2018,
<https://www.theguardian.com/inequality/2017/sep/28/my-parents-say-hurry-up-and-find-a-girl-chinas-millions-of-lonely-leftover-men>

⁶ “Shanghai marriage market” (s.d.). Wikipedia. Página consultada a 19 Fevereiro 2018,
<https://en.wikipedia.org/wiki/Shanghai_marriage_market>

⁷ Wang, Yu (2017, 17 Outubro). “No One In China Wants To Get Married Anymore, And It’s Making Beijing Nervous”. Forbes. Página consultada a 19 Fevereiro 2018,
<https://www.forbes.com/sites/ywang/2017/10/17/no-one-in-china-wants-to-get-married-anymore-and-its-making-beijing-nervous/#481ce01caa0b>

⁸ Sheehan, Matt (2015, 4 Julho; atualizada 2017, 6 Dezembro) “Tinder Has Nothing on Shanghai’s Bustling Marriage Market”. Huffpost. Página consultada a 19 Fevereiro 2018,
<https://www.huffingtonpost.com/2015/04/07/welcome-to-the-shanghai-marriage-market_n_7018038.html>

Um cemitério.

Ela demorou uma eternidade a subir a estrada. Veio lá de baixo, lentamente, sempre a fixar-me. Estaria a ver se eu me ia embora, certamente. Mas eu tenho todo o tempo do mundo.

Elas estavam sentadas, à beira da estrada. Parei imediatamente a bicicleta. Ainda tive de voltar para trás, pois não consegui parar mesmo em frente. Vou a alguma velocidade, não estaco no momento. Dei meia volta, na estrada, a pedalar, e voltei para junto delas. Elas riram-se, cumprimentámo-nos, fizeram-me as habituais perguntas que eu não compreendo.

Fui vendo pequenas borboletas azuis, com cerca de dois centímetros de diâmetro. Pássaros brancos e negros, do tamanho de uma andorinha, com uma pequena cauda de penas. Pássaros castanhos um pouco maiores, e com uma crista castanha também.

Um túmulo isolado.

095 - Almoço e Subida da Montanha em Bicicleta

À uma da tarde chegámos a esta pequena povoação onde vamos almoçar. Tenho até agora 49 km feitos na bicicleta, entre as 9.15h e as 13h. Um bom ritmo, mesmo com muitas paragens pelo meio.

O procedimento habitual: visita à arca frigorífica dos legumes e da carne, para escolher a comida. Eu já não escolho nada, deixo tudo ao critério da guia. Ela sabe que eu como tudo menos picante. Evitar os fritos tornou-se impossível. Tenho de comer fritos, senão só como arroz cozido e água fervida com umas folhas verdes, que nem sei quais são. Com este exercício todo tenho de comer muito mais.

Ao centro, o vegetal com buracos no meio é raiz de lótus. É bastante saborosa, estava bem temperada, e virei a comer mais vezes, durante esta viagem. A raiz de lótus tanto cresce na terra, como na lama. Vejo na internet que é uma boa fonte de vitamina C, vitaminas do complexo B, e minerais como cálcio, potássio, ferro – entre outros – e é usada em todo o sudeste da Ásia tanto como alimento como medicamento. Ervanários chineses usam a raiz de lótus para acalmar o sistema nervoso e fortalecer os pulmões.
Em baixo está carne de vaca picada (com imenso óleo – vê-se no prato à volta). Tiras de melão (que eu não pude comer, com grande pena minha, conforme referido nos cuidados da alimentação, na crónica 8); cogumelos; e sopa de tomate com ovo. Tudo maravilhoso. Só dispensava o excesso de óleo na carne, mas deve ser um prato habitualmente cozinhado assim.

À entrada do restaurante, com os seus donos.

Numa das casas ao lado do restaurante estão a fazer um óleo, que não faço ideia qual é. É o mesmo da crónica 90.

Creio que nesta etapa do campeonato já começa a ser desnecessário pôr legendas neste tipo de fotos… Mas não vá alguém cair de paraquedas nesta crónica: são cemitérios.

A bicicleta elétrica veio revolucionar a minha vida – pelo menos na parte das subidas. Subi estes 20 km de montanha a brincar. A toda a velocidade por ali acima, no modo “normal”. Recordo que o motor elétrico tem três opções: “eco”, “normal” e “sport”. A direito andei no “eco”. A subir passei para o “normal”. Nem cheguei a experimentar o “sport”, para poupar a bateria. Se calhar passava a ser quase uma mota, nem seria preciso pedalar. Fiz ultrapassagens e tudo – ultrapassei dois camiões seguidos, eu atrás de uma camioneta. Uma operação perigosa, nas curvas e contracurvas da montanha, mas se viesse um carro de frente, seria a carrinha a levar com ele. Eu fui escondida atrás, mantendo a possível distância de segurança. Atrás dos dois camiões, a levar com a fumarada, é que não posso ir.

Estou muito sorridente, mas estou cheia de frio. Faz um frio de rachar aqui em cima. O Nong Bu e a guia esperaram dentro do carro, por mim, tiraram-me esta foto quando eu cheguei, e fugimos dali rapidamente. Agora vai começar a descida e irá voltar o sol e o calor.

096 - Descendo de Bicicleta

Levei 1,30h a subir. E vou levar 2h a descer. Isto não está a acontecer-me. A bicicleta não trava. Tive de parar frequentemente com as dores nas mãos de apertar tanto os travões. A bicicleta simplesmente deixou de parar, nas descidas. Só pára a direito. (E reparei que estou com umas garras enormes, é altura de cortar as unhas!). Até que desisti – e devia ter desistido logo no início da descida – telefonei à guia para virem trazer-me a minha bicicleta normal.

Gente a apanhar cogumelos.

Finalmente na minha bicicleta. Que alívio, travar. O motorista Nong Bu e a guia partiram novamente, desta vez levando consigo a bicicleta elétrica na carrinha. Que pesadelo, uma bicicleta sem travões a descer uma montanha.

No entanto, quando terminou a descida, voltei a trocar de bicicleta. Os últimos 10 km dos 109 de hoje foram feitos a toda a velocidade, num autêntico sprint. A noite aproxima-se. Queremos todos chegar ao hotel, jantar e descansar. Se porventura surgirem vacas ou búfalos no caminho, pois caio-lhes em cima.
Mas não.
De facto apareceram búfalos, mas consegui abrandar o suficiente e passar em segurança. O motorista Nong Bu vem a conduzir atrás de mim. Ao chegar à vila de Eryuan, o Nong Bu passou para a minha frente e eu segui-o. (Quando chegamos às povoações fazemos assim, porque eu não sei em que ruas virar, pelo que o vou seguindo). E aqui se deu o episódio: seguíamos a uma velocidade considerável, até que o Nong Bu se cruzou com um jipe – numa rua estreita – e teve quase de parar. Ora eu vou atrás, à mesma velocidade. Qual abrandar. A bicicleta deixou de travar, com a tareia que lhe dei hoje.

Tive três segundos para decidir o que fazer.
Hipótese um: espeto-me contra a traseira da carrinha do Nong Bu.
Hipótese dois: tento passar no meio dos dois carros. Pelos lados já não consigo virar a tempo. Já não há tempo para virar.

Ora não vou desistir logo e espetar-me contra o Nong Bu. Arrisquei, portanto. Tentei passar entre os dois carros, quase parados. Se ambos os condutores pusessem a mão fora da janela, poderiam cumprimentar-se com um aperto de mão.
Eu a toda a velocidade. Com um guiador relativamente largo que não pode tocar em nenhum dos carros, porque isso far-me-á cair. (Além dos danos materiais nos veículos, claro).

E passei.
Devo ter passado a um ou dois centímetros de cada um dos espelhos dos carros. Notei perfeitamente o espanto do condutor do jipe, a ver-me a toda a velocidade direito e ele, e a passar-lhe à tangente. O Nong Bu sabe o que se passa, sabe que eu não tenho travões, mas o resto das pessoas não sabe. Esta miúda é uma kamikaze – pensaram certamente.
Foi o segundo dia que usei a bicicleta elétrica. Na manhã seguinte ainda vou fazer 5 km nela e vou desistir de vez. Passei para a minha e não voltei a tocar naquela.

097 - Chegada a Eryuan - Hotel, Jantar & Pequeno Almoço

O quarto cheira a tabaco, tal como o de ontem. Pelos vistos na China pode fumar-se nos quartos. E fartou-se de chover durante a noite.

Pela primeira e única vez nesta viagem, no hotel tenho um dos tais “vasos sanitários de agachamento” (em inglês: “squat toilet”), o que me desagrada bastante, confesso. Ainda por cima neste o papel não vai para baixo. Puxo a água e o papel fica ali na mesma. Tomar um duche a ver a sanita ao lado, aos meus pés, com papel a boiar é desagradável. Mas será esquisitice minha. Ainda hei-de fazer viagens em que nem sanita há, seja ela de que tipo for. Esquece lá isso, Rute. Este tipo de sanitários é considerado pelos orientais mais higiénico, pelo facto de não haver contacto entre a pele e a sanita. Mais surgem outros problemas, como relatado na crónica 9, que já nem vou repetir.

Ao jantar.

Este foi eleito o melhor pequeno almoço de toda a viagem. Foi tomado num restaurante a poucos metros do hotel, na companhia do motorista Nong Bu e da guia. No cartaz da foto abaixo é explicado como se prepara este toucinho. Não faço ideia como é, ninguém me soube traduzir isto. Repeti – comi duas tijelas, fiquei cheíssima. E a recordar para sempre este esparguete, com este caldo quente, e estes pedaços de toucinho delicioso. Cada tigela custa 7 Yuans, ou seja, 1€ ao câmbio desta altura.

098 - Pedalando Debaixo de Chuva

Hoje foi o dia – em toda a viagem – que correu menos bem. E não foi por causa da chuva: esta foi apenas uma pequena contrariedade de muitas.

Fiz 5 km na bicicleta elétrica, até que desisti. Perdeu completamente os travões, é impossível conduzir isto. Ainda por cima estes primeiros 5 km foram feitos no meio do trânsito e com muita lama, nas estradas em obras. Antes que eu vá contra os carros por não conseguir travar, mais vale regressar já à minha bicicleta. Também é suposto fazer apenas as subidas na elétrica. Mas eu sei lá quando é que há subidas. Recordo que a guia não fala muito. Simplesmente vamos andando, eu nunca faço ideia do que me espera. Não há um plano incial, uma explicação inicial, de manhã, antes de começarmos o percurso do dia. Arrancamos e pronto. Se me cansar, passo para o carro. A questão é que eu não me canso, nem quero passar para o carro. Hoje sei que vou para a Dali e que são 65 km. Tenho um programa de viagem com essa indicação.
Atenção que – deixo esta nota importante – a bicicleta elétrica não é suposto ser para mim. A bicicleta que eu contratei nesta viagem é a normal. Esta está a funcionar perfeitamente, sem qualquer problema. A bicicleta elétrica é da guia. Não foi essa bicicleta que eu contratei – e que em princípio é mais cara. Portanto não posso queixar-me, nesse aspeto. Funciona mal, paciência – volta à tua, Rute, e cala-te.

Já de volta à minha bicicleta. (Minha, salvo seja – a que aluguei na China). Se repararem na foto anterior, esta agora não tem o comando do motor, à esquerda. Na foto de cima vê-se que eu estava a utilizar o modo “Eco”, o mais suave. Ainda tentei conduzir com o motor desligado, mas a bicicleta é pesadíssima assim. O arranque então é mesmo pesado, parece que estou a puxar por um elefante. Ora no pára-arranca no meio do trânsito e da lama, é para esquecer. Nunca tinha usado uma bicicleta elétrica, foi a primeira vez, aqui na China, e ainda estou a conhecer o mecanismo. Ao pegar agora na minha bicicleta normal, sem motor, parece que estou a pegar numa pluma, tão levezinha a arrancar.

O motorista Nong Bu e a guia desapareceram. Seguiram à minha frente, e não os vejo há quase uma hora. Resolvi parar um pouco, espreitar uma das povoações deste sinal. Uma para a esquerda, oura para a direita. Bom, é mais prático virar já à direita. (Sempre a chover – eu com um casaco  impermeável, os calções de ciclismo e sandálias).

Um sem-abrigo. Tinha um cabelo enorme, com rastas. Uma figura insólita já aqui entre nós, na Europa, quanto mais numa povoação remota da China. Quis fotografá-lo de frente, mas a operação não foi fácil. Nem sequer consegui. Andar a correr atrás dele, a fotografá-lo, à velocidade a que ele ía, e com aquele pau na mão, era capaz de não ter bons resultados.

Retomei a estrada principal e continuei em frente. Estou no caminho certo, vejo a placa para Dali, o destino de hoje. Mas há um cruzamento, e manda as regras que nos encontremos nos cruzamentos. Continua a não haver sinal da carrinha com o motorista Nong Bu e a guia. A placa que indica “Dali” aponta para uma auto-estrada, com quatro faixas em cada sentido, ademais. Ora de certeza que na bicicleta terei de seguir outra estrada. Telefonei à guia. Onde é que vocês estão?, perguntei-lhes.
É uma pergunta interessante, esta. Como se a explicação deles me ajudasse alguma coisa. Se fosse em Lisboa poderiam responder-me: estamos na Avenida da Liberdade, estamos no Saldanha, estamos no Rossio. Enfim, um local assim identificável. Agora na China interessa lá que eu faça uma pergunta destas.
Bom, o resultado foi percebermos todos que ninguém sabe onde cada um de nós está. Eles os dois devem saber perfeitamente onde estão, eu é que não sei – nem onde estou, nem onde estão eles. Mas em último caso sigo a placa para Dali e hei-de chegar a Dali dentro de 38 km. A questão é que não quero ir pela auto-estrada. Preciso que me indiquem um caminho alternativo.

Entretanto começa a chover torrencialmente. Copiosamente. Um dilúvio.
Tenho o telemóvel e o bloco de apontamentos, onde vou tirando notas durante a viagem, ambos fechados num pequeno saco com fecho hermético, na bolsa à cintura. Têm andado sempre assim, desde o início da viagem, pois as chuvadas são súbitas e inesperadas. Tenho também o passaporte dentro de outro compartimento desta bolsa, junto ao corpo, debaixo do impermeável.  Falar ao telemóvel exige aqui uma certa operação logística. Levantar o casaco impermeável, abrir o fecho da bolsa, tirar o saco plástico, abrir o fecho hermético do saco, tirar o telemóvel, voltar a pôr o saco na bolsa com o bloco de apontamentos dentro, e marcar o número no telemóvel. A água a escorrer-me pelo capacete e pela cara abaixo.

Primeira fase: passar o telemóvel a alguém, para que fale com o Nong Bu e se entendam sobre a minha localização.
Estava uma carrinha parada na berma da estrada, com uma mulher sentada no lugar do passageiro, e um homem cá fora, com o porta-bagagens aberto. Ele abrigado debaixo do porta-bagagens. Eu abriguei-me também. É assim a vida, de vez em quando abrigam-se pessoas debaixo dos nossos porta-bagagens. Estou outra vez um pinto encharcado, preciso de passar-lhe o telemóvel para ele falar com o motorista e a guia – nem hesitei, abriguei-me junto dele (os carros a passarem constantemente ao nosso lado). Nihao – disse-lhe eu. Olá. Tirei o telemóvel, marquei o número, passei-lho. Estão a imaginar a surpresa do homem. Ele falou com o Nong Bu e explicou-lhe onde eu estava. Reagiu rapidamente e ainda quis tirar uma selfie comigo. Claro que tiramos uma selfie. Sorri, espetei o polegar com o sinal de ok, e lá fiquei noutra selfie, toda molhada. Até lhes teria tirado também uma foto a eles, mas a chuvada torrencial não me incentiva a essas operações fotográficas dado que a câmera não é à prova de água.

E esperei vinte minutos abrigada debaixo de um toldo de alumínio, sentada numa pedra no chão – talvez uma paragem de autocarros ou de táxis, nem percebi. Há um grande movimento de pessoas e de táxis. Acho que nem são táxis, são carros privados que vêm buscar as pessoas. Talvez grupos de excursões.
O Nong Bu não há maneira de encontrar-me. Ainda tive de passar o telemóvel a outro rapaz, num pequeno grupo que ali apareceu, o qual se mostrou muito pouco desembaraçado, e que se calhar acabei por tratá-lo de forma um pouco dura. Estava especado a olhar para o telemóvel, a chover, o telemóvel a molhar-se e ele não se mexe, não reage. Só se ri e olha para os companheiros. Ai estes moços. Encosta o telemóvel ao ouvido e ouve, pá.

Eis que avisto o Nong Bu a conduzir a carrinha, a olhar à volta a ver se me vê. Chamei-o. E eis que o caminho para Dali é mesmo por ali, pela estrada de oito faixas. Chove torrencialmente e a guia pergunta-me se não quero passar para o carro. Não quero. Estou molhada, e molhada continuarei. Quero seguir de bicicleta. Não existe outro caminho? – perguntei-lhe. Não, respondeu-me. Fiz uma pausa. Olhei para baixo, para os pedais, para a estrada. A água já me pinga pelo queixo. Pensei. Não existe outro caminho.

Fiz uns seis quilómetros, mas o trânsito é infernal, este passeio não tem graça. Acedi e passei para o carro. Fiz o resto da viagem – 32 km – no carro, a ver as povoações a passarem ao lado – de ambos os lados da estrada. Queria tanto seguir no meio daquelas povoações, na bicicleta.

Claro que existem outros caminhos. Desde quando é que só há uma auto-estrada a caminho de uma povoação, e a passar no meio de outras tantas. Há estradas paralelas. Há caminhos locais. Virei a descobri-los precisamente no dia seguinte, dado que vou ficar dois dias completos em Dali, além desta tarde.

099 - Chegada a Dali

Fiz 33 km de bicicleta, entre as 9 e as 12h. Aqui entrei para o carro e fiz os restantes 32 de carro, conforme referi na crónica anterior.
Cheguei ao hotel  totalmente encharcada. Tive de mudar de roupa – de roupa interior inclusive, naturalmente. Tenho a roupa com dez litros de água em cima. Dá para espremer. O impermeável nem conseguiu valer-me. Tem de ser um de plástico, nestas circunstâncias. E não faz assim muito calor. Se calhar estão uns 21 graus. Para mim é frio, e só mesmo o esforço físico permitiu aguentar-me relativamente bem.

Mas a saga não acaba aqui.
No quarto do hotel, enquanto me dispo e visto, antes de almoço, dou conta que estou mesmo à beira da auto-estrada, com um trânsito infernal. Fui espreitar à janela, caminhando de joelhos por cima da cama. O quarto não tem vidros duplos. Não, não vou de forma alguma passar aqui três noites. Mudem-me de quarto, ou mudem-me de hotel.

Toca a mudar de quarto. O pior é que ao caminhar de joelhos em cima da cama, deixei o edredon branco sujo. Eu estou com lama nas pernas. Isto hoje nada corre bem. A empregada do quarto, que entretanto me mostrou um quarto novo, foi chamar a responsável e apontou-lhe o edredon sujo do quarto antigo. Não há problema, minhas amigas – e peguei no edredon (puxei-o da cama) e levei-o para o novo quarto que me estava a ser destinado, nas traseiras, mais silencioso. Elas duas atrás de mim, eu a caminhar quase desaparecida debaixo do enorme edredon farfalhudo. Elas levaram então o edredon lavado do meu quarto novo e foram fazer a cama novamente do quarto anterior.
Bom, vamos ver quando é que esta saga de chuvadas, maus percursos de bicicleta e mudanças de quartos acabam.
Para já: vou almoçar. Comer qualquer coisa para animar, porque isto hoje não está a correr muito bem.

100 - Passeando pela Cidade Antiga de Dali

Visitei uma exposição – de entrada livre – onde é explicada a história e pré-história desta região, e onde são mostrados artefactos desenterrados, pertencentes a diversos periodos, como testemunhos materiais da história e cultura de Dali. Uma das placas expostas nesta exposição reza o seguinte:

Com o lago Erhai a leste, e as montanhas Cang a oeste, Dali é conhecida pelo seu cenário natural, longa história e património cultural e histórico, bem como pela colorida cultura étnica. Em 1982 a cidade antiga de Dali foi incluída pelo Conselho de Estado na primeira lista de 24 cidades-estado com significado histórico-cultural.
Os antepassados do povo Bai começaram a viver, trabalhar e reproduzir-se nestas terras férteis, tão cedo como há 5.000 anos atrás. É portanto um dos primeiros berços da cultura em Yunnan.
Em 109 AC, o Imperador Hu da Dinastia Han estabeleceu o condado Yeyu em Dali. Durante as Dinastias Tang e Song, o Reino Nanzhao e mais tarde o Reino de Dali, ambos escolheram Dali como capital. Em 1253, Kublai Khan conquistou o Reino de Dali e estabeleceu a província de Yunnan. Durante as Dinastias Ming e Qing, Dali continuou a ser o centro político, económico e cultural na parte leste de Yunnan e um importante centro de transportes. Como resultado, Dali foi aclamada hoje como uma cidade histórica de reconhecidas realizações culturais.

101 - Continuação do Passeio por Dali

Mais bolos de rosas. (Já os provei em Shuhe, na crónica 5, são bastante bons).

Templo de Confúcio.

As placas penduradas contêm os desejos de quem as pendura.

Foram três horas a passear a pé, pela Cidade Antiga. Depois de almoço o motorista Nong Bu e a guia foram-se embora, pelo que tive a tarde livre. A guia comprou dois pequenos chapéus de chuva, daqueles que se guardam dentro da mala, e emprestou-me um. Felizmente a chuva torrencial parou e apenas chuviscou durante a tarde.
A Cidade Antiga é enorme. Aqui no Templo de Confucio aproveitei para descansar nestes bancos. Estou no 18º dia de viagem. Depois da manhã que tive, com 33 atribulados quilómetros de bicicleta, e agora caminhar três horas… Estou a sentir algum cansaço. Sinto também algum desconforto no estômago. Sentei-me e descansei, portanto. Dali está a 2.000 metros de altitude. Nada mau, aparentemente ainda existe a quantidade normal de oxigénio necessária para manter a agilidade física e mental. Além de que ao fim de 18 dias já estou mais que habituada. Mas a altitude pode provocar desconforto no estômago, é um dos sintomas.

O do meio é o guardião da loja.

102 - Final de Tarde e Jantar

Depois de jantar vou sentar-me na cama, cerca das 20h, e vou adormecer. Vestida. Foi um dia com muito barulho, muito trânsito, muito cansaço. Às 21h acordei e lá fui tomar um duche e continuar as lides de desempacotar as malas. Vou passar aqui três noites, no mesmo hotel. No final irei apanhar um avião para Pequim e começar uma nova etapa da viagem. Nova e excelente etapa.

Viajar exige grande forma física e mental, não há dúvida sobre isso. Nem tudo são rosas. Há cansaço, há contrariedades, há coisas que se gosta mais e outras que se gosta menos. Não se encontram só pessoas simpáticas, por exemplo. Também há que saber lidar com pessoas mais agrestes. Faz parte. Não acontece só na vida do dia-a-dia – acontece em férias também. As contrariedades existem em todo lado. E enfim, tirando aquelas férias em que se está de papo para o ar na praia, o dia todo (e mesmo assim essas são cansativas também – quantas vezes parece que levámos uma tareia ao final do dia, depois de um dia na praia?), qualquer outro tipo de férias que envolve deslocações, atividades e movimento, é claro que cansa. Mas não se morre. Pelo contrário: vive-se mais.

Aquele pagode budista fica mesmo em frente ao meu hotel, e ainda andei por lá a espiolhar. Atravessei a estrada de oito faixas, nos semáforos, e andei à procura dele. Parece fácil encontrá-lo, mas não é. Anoiteceu entretanto e não me aventurei mais. Regressei ao hotel, são horas de descansar. Também não há muito mais para ver. Não dá para entrar nestes pagodes, só se vêem de fora. Na crónica 84 já tinha andado a ver outro.

Vê-se o lago Erhai ao fundo. Amanhã vou ter o dia dedicado a ele, na bicicleta.

“Abrigo de Emergência”. É curioso, isto. Um abrigo de emergência, tal como já tinha mostrado na crónica 92. Para que emergências será?

Hoje estou com pouco apetite. Pedi noodles com vegetais e um ovo cozido, mas ficou quase tudo na tigela.

103 - Começa o 19º Dia de Viagem

Sete e meia – despertar. E eis que tenho algumas mensagens no Whatsapp a perguntar se estou bem. Então? Ao 19º dia lembraram-se todos?
Houve um sismo na China, às 21.20h (14.20h em Portugal). Todos os jornais em Portugal falam disso. Um sismo de 6,5 na escala de Richter, no sudoeste da China, entre as províncias de Sichuan e Gansu. O governo chinês indica na sua página oficial da internet que o sismo pode ter causado uma centena de mortos e milhares de feridos, bem como danificado muitas casas.

Bom, por aqui, em Dali, está tudo bem. A vida decorre normalmente. Entretanto encontrei-me com o motorista Nong Bu e a guia, e estes estão tranquilos. As pessoas na rua continuam a andar como se nada fosse. Depois vi que o local do terramoto – Jiuzhaigou – fica a norte de Yunnan, a cerca de 800 km de distância.
Recordo que em 2008 houve um sismo muito grave em Sichuan, o qual matou 85 mil pessoas. Sichuan está numa zona sísmica. No entanto o sismo da noite passada, vim mais tarde a descobrir, fez nove mortos, não uma centena. Não deixa de ser grave, mas foi empolado.

Com grande sorte, hoje não irá chover durante o dia. Vou fazer um percurso ao longo do Lago Erhai.

Local do sismo: Jiuzhaigou.

104 - Lago Erhai

Separei-me do carro. Quero seguir pelo meio das povoações e a guia insiste em seguir pela estrada principal, uma boa estrada com uma faixa em cada sentido, e com bermas por onde seguem as motas e as bicicletas. Há grande movimento de scooters, sobretudo. As estradas junto ao lago estão cortadas em algumas partes devido às chuvadas torrenciais de ontem, e efetivamente obrigaram o motorista Nong Bu a desviar-se para a estrada principal. Mas os cortes são locais – não são ao longo do lago todo. Pelo que, vendo que eles seguiam determinadamente pela estrada principal, deixei-os e enveredei eu por um caminho à direita, em direção ao lago. Se me perder, paciência. Também é um pouco difícil alguém perder-se ao longo de um lago. Basta seguir na margem.

Apetece-vos molhar os pezinhos no lago? Está bem. Estas pequenas sanguessugas estão à vossa espera. Parecem gomas de morango, tão bonitas e apetitosas. Nada que eu não tivesse já experimentado… Não provei nenhuma, não, mas toquei-lhe. Ou melhor, tocou-me ela primeiro. Conforme contei na crónica 185 da Índia, senti comichão nas costas, na zona da cintura. Nem liguei e lancei a mão, quase inconscientemente. Alto. Alto e pára o baile. Está qualquer coisa pendurada nas minhas costas. E é algo mole. Vejam lá, p.f. – pedi eu.
(O que ainda não descobri até hoje, é como é que ela foi parar à minha cintura… que caminho fez a linda sanguessuga para chegar à minha cintura, nessa viagem da Índia).

105 - As Aldeias ao Longo do Lago Erhai

A guia enviou-me um sms com o nome da povoação onde vamos almoçar: Xi Zhou. Fica a cerca de 10 km e é para lá que devo dirigir-me. Encontramo-nos lá. Certo, hei-de lá chegar. Por enquanto ando entretida a descobrir as aldeias ao longo do lago.

Sorriram e ofereceram-me uma maçaroca. Sorri de volta, agradeci dizendo “xie xie”.

Completamente “à paisana”, sem capacete nem calções de ciclismo. Foi um casal dos seus 25 anos, de turistas chineses, quem me tirou esta foto. Eles seguiam numa scooter. Por ali alugam-se muitas scooters a turistas. Propus-lhe tirar uma foto a eles, quando pararam, e pedi-lhes uma minha.

Este velhote esteve algum tempo a tirar a água do barco, com aquele recipiente de plástico. Estive bastante tempo a fotografá-lo, a ele e ao resto da paisagem, à procura da melhor foto. Até que chegou um rapaz e gritou com ele. Então? No meio deste silêncio e desta tranquilidade, como é que alguém pode gritar? Ainda por cima com um velhote a trabalhar. Eis que o rapaz liga uma bomba a motor e começa a tirar a água automaticamente com a bomba. Esta foi boa. O conflito de gerações.

106 - Almoço em Xi Zhou

Tive de mostrar o sms a duas ou três pessoas até finalmente chegar a Xi Zhou. Não fica junto ao lago, tive de voltar à estrada principal (a de duas faixas). Nesta foto já estou a afastar-me do lago em direção a essa estrada principal.

Quando cheguei à estrada principal, passei o telemóvel a uma rapariga que estava à espera do autocarro. Ela foi muito simpática, achou graça à situação, falou com a guia e informou-a sobre onde eu estou (não faço ideia onde estou… está tudo em chinês). Pelos vistos estou muito perto de Xi Zhou, a um quilómetro, basta seguir em frente. Segui e efetivamente encontrei a placa indicando “Xi Zhou a 500 metros”. Xi Zhou no alfabeto ocidental!

No meio deste emaranhado de ruas e de gente, agora tenho de descobrir onde é o restaurante. Passei novamente o telemóvel a esta vendedora de chapéus. Ela falou com a guia e ajudou-me prontamente. Como me diverte esta situação. Adoro estar perdida.

Et voilà, aqui estão eles à minha espera no restaurante. Encontrei-os. O Nong Bu, sempre a apoiar-me, riu-se e felicitou-me entusiasticamente com um ok do polegar.

O único ocidental que vi em Dali. Nunca imaginei pôr-me a fotografar ruivos barbudos na China, mas a situação é tão insólita que lhe tirei uma fotografia. Arrependi-me de não ter ido falar com ele, cumprimentá-lo, perguntar-lhe como é que se entende naquelas ruas sozinho, se fala chinês. Vou voltar a encontrá-lo uma segunda vez, daqui a duas ou três horas, noutro local. Andamos a fazer o mesmo percurso, eu com o meu sistema de mostrar os sms às pessoas, com o nome das terras escrito; ele não faço ideia.

Tudo muito saboroso, como é hábito. A omelete estava uma delícia. À esquerda, o vegetal branco é a raiz de lótus. Tal como referido na crónica 95, a raiz de lótus tanto cresce na terra, como na lama. É uma boa fonte de vitamina C, vitaminas do complexo B, e minerais como cálcio, potássio, ferro – entre outros – e é usada em todo o sudeste da Ásia tanto como alimento, como medicamento.

107 - A Casa-Museu de Xi Zhou

À entrada do Museu existem duas placas com a introdução do que vamos ver. Uma em chinês, outra em inglês, felizmente. Dentro do Museu existem também muitas outras placas, sempre com a explicação da cada divisão e respetivo conteúdo.
Como poderão verificar nas fotos abaixo, as placas em inglês contêm erros gramaticais com alguma abundância. Foi uma constante ao longo desta viagem: as raras placas existentes, em inglês, têm muitos erros, revelando a nítida dificuldade em abordar esta língua. Atualmente há mais incentivo no estudo do inglês, nomeadamente nas escolas, ainda em criança – e vi inclusivamente um vídeo de uma turma dos seus 9 ou 10 anos, onde estão a ser dadas aulas, e onde um rapaz faz a apresentação de uma pequena história em inglês – um vídeo que me foi mostrado precisamente por uma professora de inglês, a qual virei a conhecer mais à frente.
Porém, com erros ou sem erros, agradeço o esforço em colocarem-me placas em inglês, para eu poder ir percebendo o que vou vendo.
Eis a introdução:

Os Grupos de negócios de Xi Zhou e a Antiga Rota do Chá e dos Cavalos
As Rotas do Chá e dos Cavalos eram as antigas rotas comerciais ao longo do sudoeste da China, nas quais os cavalos eram o principal meio de transporte. Começaram na Dinastia Tang, e tornaram-se populares na Ming e Chiang, prosperando posteriormente durante a Segunda Guerra Mundial. Este sistema de rotas cobria sobretudo três principais caminhos. Eles eram: Sichuan / Tibete; Yunnan / Tibete; Ching-Hai / Tibete e ligavam-se a muitos caminhos paralelos. Dia após dia, e ano após ano, estes diligentes e árduos comerciantes que viajavam em cavalos, transportavam chá desde Si-Moo e Pu’Er, bem como ouro chinês, prata e seda para o Tibete e também para a Índia, e traziam de volta muitas pedras preciosas para a China. Este antigo sistema de transporte fez florescer as atividades comerciais promovendo o crescimento económico das áreas ao redor, incluindo a agricultura e a criação de gado. Ao mesmo tempo promoveu o bom relacionamento mútuo e compreensão entre diferentes culturas e raças.
Dali e Xiaguan constituíam o ponto principal de encontro desses vários caminhos.
Xi Zhou foi o principal centro comercial e cultural desde a dinastia Nan-Zhao. Yong-Chang-Xiang e Xi-Cing-Xiang eram os líderes em 386 unidades de negócios naquela altura. Em 1903 Yan e Zi-Zhan formaram a primeira companhia moderna “Yong-Chang-Xiang”. Começando em 1912, as suas sucursais chegaram a Wa-Chou, em Burma, Hong Kong e Xangai, incluíam 70 sucursais e contratavam 3.000 trabalhadores. Em 1945 o seu negócio chegou a Boston, nos EUA, e estabaleceram uma fábrica de chá em Xia Guan no valor de dez biliões.
À medida em que os homens de negócio acumulavam tamanha fortuna, ao mesmo tempo foram sendo construídos muitos edifícios comerciais e habitações. Esta casa – “Yan-Ja-Da-Yuan” – aqui presente em boas condições , enquadra-se no estilo tradicional Bai. Muitos destes edifícios são tesouros locais e culturais. São uma das poucas fontes para estudar a civilização Bai, a sua arquitetura, história, arte e economia.
Hoje já não existem carregadores de chá montados em cavalos, viajando ao longo dos estreitos caminhos nas montanhas, mas a coleção deste museu transporta-nos para as memórias desses tempos antigos.

Uma cama. Na foto abaixo vê-se o interior.

108 - O Parque Hai She

À saída da Casa-Museu de Xi Zhou. Há uma multidão de turistas orientais.

O carro ficou para trás, numa enorme fila de trânsito, e eu fiquei com um sms para mostrar quando fosse preciso, com o nome do meu próximo destino: o Parque Hai She. Não faço ideia se “Hai She” está bem escrito dado que o sms que eu levo comigo está em chinês. Sei a direção, sei que é ao longo do Lago Erhai, não há que enganar. Segui caminho. Mais à frente verifiquei que só passa um carro de cada vez, num ponto mais estreito da estrada, o que justifica a longa fila de carros, quase parados. Telefonei à guia dizendo-lhe para voltarem para trás e meterem-se por outro caminho, pois por ali vai demorar muito.
O céu está a ficar muito negro. Felizmente ainda não choveu, mas não deve tardar.

Uma poupa.

Cá está o pássaro que vejo tantas vezes, branco e preto, com uma cauda relativamente longa. Entretanto disseram-me que se trata de uma Alvéola-Branca. E creio que este malandro fez-me passar o momento mais embaraçoso desta viagem. Sinceramente, acho que foi o momento mais embaraçoso de todas as viagens que já fiz. Ele está à entrada de um quintal. E eu segui-o, furtivamente, agachada. Ele entrou para o quintal e eu entrei também, pelo quintal adentro, tentando constantemente tirar-lhe fotos. Mas ele não deixa aproximar-me. Sempre a andar à minha frente. Ao menos que levante voo e se vá embora. Mas não, manteve-me ali agachada, furtivamente, a caminhar atrás dele.
Até que vejo uma mulher a olhar para mim, mais ao longe. Caminha na minha direção, vem para casa.
E agora? Como explicar-lhe o que estou ali a fazer no quintal dela, agachada, escondida?…
Levantei-me imediatamente. Fiz sinal com os braços, a baixá-los e levantá-los. Tentei imitar um pássaro a bater as asas, para ver se ela percebe que eu estou a seguir um pássaro. Não lhe vou assaltar a casa, não estou a fazer nada de mal ali.
Isto é ridículo e verdadeiramente embaraçoso.
Felizmente ela percebeu. Pelo menos pareceu-me. Se calhar até viu o pássaro. Se calhar ele até é conhecido dali, porque era mesmo atrevido. Não levantava voo, andava a saltitar à minha frente, a provocar-me. A senhora riu-se. E eu fui-me embora rapidamente.

Em meia hora ou menos, cheguei ao Parque Hai She. Afinal não é Hai She, é “Hi Sea”, conforme se vê escrito na placa, certamente derivado do inglês “High Sea”, ou seja, alto-mar. De facto o lago é enorme e mais parece um mar.  Ainda mostrei o sms (em chinês) a duas raparigas, para me confirmarem que estou no sítio certo. Também o mostrei àquele guarda, mas esse então não diz nada, só grunhe que tenho de deixar a bicicleta lá atrás. Ele estava a ficar um pouco agressivo, até. Eu não posso deixar a bicicleta sozinha, sei lá onde. Nem sequer tenho um cadeado comigo. Efetivamente ainda nem usei tal, nesta viagem. E ainda por cima eu estou seriamente aflita para ir à casa de banho, ali mesmo à esquerda, após o portão. Pois não me deixou entrar de maneira nenhuma. Só aponta para a bicicleta e para trás de mim. Tive de voltar para trás, com a bicicleta pela mão, e então percebi o que umas senhoras tinham tentado dizer-me, numa das barraquinhas – que me guardavam a bicicleta por 2 yuans. E mostraram-me duas ou três bicicletas paradas ali ao lado. Bom, tenho que deixar a minha ali também, e esperemos que no meio desta multidão não me desapareçam com ela.

Esta placa indica em chinês e em inglês “Cuidado, Répteis”. Eu pelo menos não vi nenhum, com grande pena minha.

109 - Hot Pot de Iaque

Hoje foram ao todo 50 km de bicicleta. Às cinco e meia da tarde começou a chover torrencialmente. Que sorte ter passado o dia a andar de bicicleta sem um pingo de chuva. Partimos – eu e a bicicleta – dentro do carro (que entretanto estacionou nas proximidades do Parque Hi Sea, para apanhar-me) e às 19.15h estávamos no restaurante a comer um quente e delicioso Hot Pot de Iaque.

Foto tirado do carro, em andamento. Aqui se vêem como as pedras são utilizadas para mostrar o nome das povoações.

Pedras à venda. Nesta estrada a caminho de Dali vêem-se muitas à venda.

O Hot Pot tem algumas malaguetas a boiar. A guia foi não sei onde, pelo que eu disse isso ao Nong Bu – apontei para as malaguetas. Ele tirou uma com os pauzinhos (está ainda a cozinhar-se, não tem ainda os ingredientes todos) e disse que não. Eu constatei posteriormente que são bagas de goji, não são malaguetas. E quando finalmente ficou cozinhado e nos servimos, comi com os pauzinhos ao contrário. Já é a segunda ou terceira vez que isto me acontece. Quando dei conta, virei-os imediatamente. Apenas o Nong Bu deu conta, e rimo-nos. A guia nem percebeu o que se passou. Hoje é o meu último jantar com eles. Amanhã tenho o dia livre em Dali, bem como jantar livre também, pelo que nem vou vê-los. E no dia a seguir parto para Pequim.

Esta família jantava numa sala ao lado. Convidaram-me imediatamente a juntar-me a eles, mas eu tinha acabado de comer, estava cheíssima e incapaz de voltar a comer, pelo que lhes fiz sinal com a mão na barriga, numa tentativa de explicar-lhes que estou satisfeita.

Fui comprar um bolo e um pacote de leite com morangos, para tomar no pequeno-almoço de amanhã.

Os três discos que trouxe de Yunnan. Os das pontas foram-me oferecidos hoje pelo Nong Bu, e o do lado direito é excecional. Um músico a tocar Huqin. Conforme já explicado na crónica 44, este DVD ouvimos à vontade umas cem ou duzentas vezes, ao longo destes dias. Estava o Nong Bu viciado no disco, e pôs-me a mim viciada também. Cheguei eu própria a pedir-lhe para pôr o disco, enquanto ele conduzia em silêncio, estrada fora.
Os três podem ser ouvidos no separador “Vídeos” do site RN.

Amanhã parto numa excursão de autocarro, de um dia inteiro, paga à parte. Vamos ver o que me espera. Inspirei-me neste cartaz exposto no meu hotel. Aparentemente a excursão de autocarro inclui algumas destas atividades, inclusive um passeio de barco. Também tem almoço incluído. Estive muito indecisa, até ao último momento, sobre se queria andar livremente de bicicleta, a meu bel-prazer, ou se me inscrevia nesta excursão. As informações da guia foram vagas, não me soube dar grande informação, ou traduzir devidamente o que os funcionários do hotel diziam, sobre a dita. Receei que estivesse o dia todo a chover, o que me arruinaria o passeio de bicicleta. E lá me inscrevi na excursão. Paguei o triplo do normal, vim a descobrir mais tarde.  Há que regatear sempre o preço, por estas bandas. Paguei 360 Yuans (ao câmbio desta altura, 51€), e vim a descobrir que o preço andava pelos 120 Yuans. Neste preço está incluído também o transporte de ida e vinda até à paragem onde o autocarro pára, a uns dez minutos. E é o próprio dono do hotel quem vai levar-me e trazer-me. Pronto, cobrou os seus serviços.

110 - O Simpático Grupo de Raparigas na Excursão de Autocarro

A excursão de hoje começa às 9 da manhã e acaba entre as 17 e as 18h.

Antes das 8.30h o dono do hotel deixou-me na paragem. Fui das primeiras a chegar, tive de mostrar o passaporte, preencheram uns papéis, e entrei para o autocarro. Os primeiros lugares já estão ocupados. Fui para a última fila, junto à janela, e fui vendo os restantes passageiros a chegarem e a registarem-se.

O papel foi passando entre todos, até chegar à última fila, onde eu me encontro. Está totalmente em chinês e eu tentei adivinhar o que cada campo pede. E preenchi conforme imagino que seja. O número começado por 184 é o meu número de telemóvel chinês. Ainda por cima enganei-me e preenchi na linha de cima. Na segunda coluna já vinha com aquelas letras chinesas preenchidas. Não sei quem preencheu, já me chegou às mãos assim. Na última coluna todos escreveram os mesmos caracteres. Se calhar é o nome da excursão, ou a nacionalidade. Deixei em branco.

Para agravar – no meio desta diferença toda, em que todos me olham, curiosos – eu estou azul. Eu tenho as pernas e as mãos azuis. “É uma extraterrestre azul” – aposto que pelo menos os miúdos pensaram isto. Ou tem uma doença qualquer estranha. É que levei um saco azul turquesa comigo que perde a tinta – é ridículo, um saco perder a tinta (e trouxe-o de Portugal), mas com o protetor solar e o anti-mosquitos que eu tenho posto, faz ali uma reação qualquer, retirou a tinta e  besuntou-me toda. Como encostei o saco às pernas, fiquei com as pernas azuis. E as mãos também.
Estou tramada.
Felizmente as quatro raparigas aceitaram-me, na minha bizarra diferença – encaracolada e azul – e ainda tentaram ajudar-me a limpar-me. Foi a Tang Meijuan (cujo nickname em inglês é “Toffee”) quem se sentou ao meu lado, no banco de trás, e meteu conversa comigo. As outras três raparigas vão dispersas pelos restantes lugares livres do autocarro, dado que elas entraram já no final. Quem está um pouco acanhada sou eu, desta vez. Ninguém fala inglês, dão-me um papel chinês para preencher, e ainda por cima estou azul. Ouvir o inglês da Tang Meijuan, a dirigir-se-me, foi um alívio.

Partimos às 9.25h. À frente, em pé, vai a guia local. Muito simpática, sempre sorridente e bem disposta, nasceu para isto. Fala muito pouco inglês, mas o suficiente para orientar-me. Registou o meu telemóvel e eu gravei o seu também. Vai haver muita gente, uma autêntica multidão, e eu não posso de maneira perder-me deles. Ninguém me percebe. Fizeram-me fotografar a matrícula do autocarro, inclusivamente, para o caso de perder-me.

Uma hora na fila para fazer cinco minutos de teleférico. Se calhar era mais prático subirmos a pé. Mas eu já estou na companhia das quatro raparigas, pelo que a hora foi passada a conversar animadamente. Há muitas perguntas de ambas as partes. Mostrei-lhes onde fica Portugal no mapa, na internet (do telemóvel) e convidei-as a visitar-me.

Uma visão clara do lago Erhai. Vê-se a estrada principal com oito faixas (quatro em cada sentido). Mais perto do lago está a estrada secundária, com uma faixa em cada sentido e com bermas largas para motas e bicicletas. E rente ao lago existem os caminhos locais, os quais andei a fazer ontem de bicicleta. A cidade de Dali está a uns quilómetros para a direita.

Visita a uma gruta. Hoje estou no vigésimo dia da viagem, e nunca andei no meio de tamanha multidão, desde que cheguei à China. Minha querida bicicleta e minha querida liberdade.

Além da Tang Meijuan, à minha direita, a He Xiao Hua, a Luo Wejun e a Zhu Bige. Todas da província de Guangdong. As quatro terminaram a universidade no ano passado e estão agora a dar aulas. Duas são professoras de chinês, as outras duas são professoras de inglês – todas no ensino primário, explicaram-me. Foram elas que salvaram este dia de ser um desastre total. São quatro raparigas a passarem sete dias de férias juntas. Eu contei-lhes que hoje é o meu último dia em Yunnan, e que amanhã parto para Pequim. Sugeriram-me visitar a “Grande Guerra”, em Pequim. Fiquei intrigada. A Grande Guerra? É um monumento? – perguntei. Fiz pesquisa sobre o que visitar em Pequim, ainda em Lisboa, antes de partir para a China, e não me surgiu nada sobre a Grande Guerra. Qual será a Grande Guerra? O que há para ver nesse monumento? – perguntei. Então elas descreveram-me que tem muitas pedras e é muito comprida. Já percebi. A eterna troca dos “L” pelos “R”. Elas referiam-se à “Great Wall”, não à “Great War”. Rimo-nos todas. Foi uma bela descrição da Grande Muralha – entendi imediatamente. Tem muitas pedras e é muito comprida. Sim, vou ver a Grande Muralha!, respondi-lhes.

A Tang Meijuan (ou Toffee, o nickname em inglês).

111 - Visita a um Jardim & Almoço em Grupo

As quatro raparigas vão hoje para Lijiang. Contrataram um táxi, contaram-me, que as vai levar por 270 yuans. No final da excursão de hoje, portanto, elas vão buscar as coisas ao hotel e vão-se embora de Dali. Foi aqui que descobri que o preço da excursão de hoje foi de 120 yuans, quando eu paguei 360. Elas disseram-me para regatear, que aqui é hábito regatear-se.
Elas fugiam a sete pés das casas-de-banho públicas. Pois claro. Mas não temos alternativa, durante um dia inteiro em excursão, no meio de uma multidão. Nos meus caminhos desertos, na bicicleta, eu tenho sempre a opção dos arbustos, mas aqui não. Íamos todas morrendo a usar as casas-de-banho pertencentes às instalações do teleférico e das grutas.

Foi um almoço muito fraco. Elas próprias mo disseram: isto é tudo do mais barato. Almoços incluídos para excursões de dezenas e dezenas de pessoas, não se espera outra coisa. Foi uma sopa com uma cabeça de peixe. Do lado esquerdo do feijão branco está bambu seco com bacon.

112 - E Então Provei o Mangostão

O mangostão merece uma crónica só para ele. Ou pelo menos o destaque no título. Porque efetivamente provei mais coisas, nomeadamente as deliciosas “Papas”, ou pizzas doces ou salgadas, na cidade de Xi Zhou, onde estive ontem. Nesta excursão de autocarro vou voltar a Xi Zhou, mas apenas por trinta minutos. Também vou voltar ao Parque Hi Sea. Foram visitas rápidas, com horário marcado. A minha salvação – repito – foi mesmo a companhia destas quatro raparigas, que me deram a conhecer tudo o que não provei ontem. Só por isso já valeu a pena repetir os locais. Foram mesmo elas que salvaram este dia de ser um desastre total, e ainda lhe deram grande importância. Elas compraram o mangostão e deram-mo a provar. Estranharam muito o meu receio em comer fruta descascada. Não percebem sequer. Perguntaram se tenho um problema na língua. Ri-me. O médico que me aconselhou, na Consulta do Viajante, é que devia estar aqui para explicar-lhes. O médico é que disse que eu não posso comer alimentos crús, ou fruta descascada. E mesmo que eu não acreditasse nele, tive a prova de que é verdade, após as constantes gastroenterites que tive em todas as viagens. Nesta à China não tive nenhuma, pela primeira vez. Pois claro… serviram-me de lição, as anteriores. Só me falta fazer a continência e marchar, em obediência ao médico. (Para os cuidados com a alimentação, ver crónica 8). Portanto expliquei-lhes que um organismo ocidental não está habituado aos microorganismos asiáticos (explicar isto em inglês já é um sarilho), e que consequentemente um europeu reage negativamente, com gastroenterites ou diarreia.

Aqui foi a maior seca de todas. Estivémos hora e meia à espera da Cerimónia do Chá, um espetáculo de música e dança onde são provados os três chás. Nessa hora e meia é suposto fazer compras. Mais precisamente artigos em prata. Pelo que nos despejaram num armazém cheio de artigos em prata, supostamente com preços muito baratos (mas não achei assim tão baratos). As quatro raparigas aborreceram-se nitidamente, e eu então ia morrendo. Fui-me embora, no meio de uma multidão enorme. Se eu me perco do meu grupo estou feita. Mas deixei uma hora e um ponto de encontro – à porta do armazém – antes de irmos assistir ao espetáculo do chá, ali ao lado. Também não consegui andar muito – cheguei ao porto, onde estão os barcos para os turistas – e voltei para trás. No meio de uma multidão de centenas e centenas de pessoas. Sentei-me num muro, no meio de outras tantas pessoas, e esperei. As quatro raparigas ficaram dentro do armazém.

A moeda antiga.

Entrada para a sala de espetáculo onde se fará a Cerimónia do Chá, com música e dança. Efetivamente esta crónica também merecia destacá-la no título.
Só a tradução do inglês é outro sarilho. “Three-Course Tea Performance”. Vou arriscar com a “Cerimónia do Chá e dos Três Pratos”. Trata-se de uma tradição Bai e constitui uma forma única de preparar e servir o chá com comida, a par de música e dança. A cerimónia do Chá e dos Três Pratos é uma forma de receber convidados com votos de felicidades. A primeira chávena é de “chá amargo”, a segunda é “chá doce”, a terceira é “chá refrescante”, o que implica a filosofia de “no sweet without sweat” na vida humana, ou adaptado em português: não há doce sem suor.
O primeiro chá é amargo, e indica que é preciso superar as dificuldades na vida antes do sucesso.
O segundo chá é doce, saboreia-se o sucesso após se vencer os obstáculos na vida.
O terceiro e último chá, refrescante, é indicado para refletir pacificamente sobre o passado, depois de se experimentar os altos e baixos da vida.

Em Dali, entre a população Bai, o Chá e os três Pratos constituem uma longa tradição cultural. Nas dinastias Tang (618-907 DC) e Song (960-1269 DC), o Chá e os Três Pratos tiveram um papel essencial na etiqueta da corte, onde os reis recebiam os representantes estrangeiros, e continuou até hoje, constituindo a mais alta forma de receção do povo Bai ao acolher VIP’s em casa, locais e estrangeiros.

Na dinastia Tang foi publicado um livro chamado “Os Sulistas” onde se descreve como eram cozinhadas pimenta, gengibre e lichias para preparar uma bebida. Este livro mostra que a minoria Bai, em Dali, fervia folhas de chá com outros ingredientes, em vez de deitar água a ferver em cima das folhas. Esta técnica foi adoptada mais tarde na Dinastia Ming (1368-1644). Com a influência do Budismo na China, foram construídos templos e plantadas árvores de chá. Mais tarde o chá começou a ser servido com comida vegetariana nas refeições budistas e nas meditações. Gradualmente, os antigos templos escondidos nas longínquas montanhas tornaram-se lugares famosos pelo seu chá. O chá foi então largamente adotado pela aristocracia rural, e tornou-se popular entre a população em geral.

Com a sua longa história e significado cultural e simbólico, o Chá e os Três Pratos continuam a ser populares entre a minoria Bai, atualmente. Estes continuam a praticar a antiga tradição nas refeições festivas, banquetes de aniversários, casamentos e reuniões. Os convidados saboreiam o sabor original do amargo, doce e refrescante, apreciando a preparação do chá e a sua cerimónia, enquanto fazem uma reflexão sobre as suas vidas.

Neste espetáculo – seríamos algumas centenas de pessoas – sentámo-nos em bancos de madeira corridos. Serviram-nos três chávenas de chá: a primeira era límpida e cristalina, a segunda já tinha especiarias (canela, pelo que percebi, entre outras) e a terceira teria mel. Ao mesmo tempo foram dançando e cantando, sempre a darem explicações ao microfone, em chinês, do que estava a ser representado. Conversa essa que para um ocidental, que não percebe chinês, se torna muito maçadora. Mal conseguia ouvir a música, no meio do alto som do microfone. Mas compreendo que toda esta explicação que escrevi agora, seria com certeza o que estavam a explicar ao público chinês. O espetáculo durou uns vinte minutos.

Dados retirados de (e mais informação disponível em):
http://www.ocha-festival.jp/archive/english/conference/ICOS2001/files/PROC/I-078.pdf

Finalmente o passeio de barco. Foi o principal motivo da minha vinda nesta excursão. Mas foi muito pequeno, uns 40 minutos apenas. A Cerimónia do Chá também poderia ser muito interessante se não tivesse sido tudo em chinês. Durante 20 minutos não percebi patavina do que disseram ou fizeram, e este texto acima elaborei-o já depois de chegar a Portugal.

Foto já tirada na povoção de Xi Zhou. Não sei o nome deste fruto. Virei a prová-lo já no quarto do meu hotel, mas não tem nada de especial. Pelo menos o que eu provei.

As fabulosas “papas”, ou pizzas. Umas são doces, com rosas e feijão castanho, outras são salgadas, com carne picada. As raparigas compraram uma doce e deram-me uma fatia, para eu provar. Que delícia. Fui logo comprar uma inteira. Ofereci-lhes de volta, elas não quiseram, pelo que a comi toda. Estas “papas” são feitas no carvão.

Tal como descrevi na crónica 8, o fruto escuro, redondo, com folhas verdes, é o Mangostão. Nem queria acreditar quando o provei.  Hoje vejo na Wikipedia que o mangostão é considerado pelos habitantes desta zona como a fruta mais saborosa do mundo: “a rainha das frutas tropicais”, verdadeiro “manjar dos deuses”. Pois concordo plenamente. Depois de se provar um, tem de se comer mais uma dúzia deles e nunca mais se esquecerá.
Atrás, o fruto com picos, é o Rambustão, outra delícia. E finalmente, ao canto está o outro fruto que não faço ideia como se chama. Se alguém souber, que entre em contacto comigo e me diga.

O interior do Mangostão. Creio que foi a Zhu Bige quem comprou um pequeno saco de mangostões (é assim o plural… vejo no dicionário) e insistiu em dar-me a provar um. Abriu o fruto facilmente, com os dedos, sem tocar no interior, e deu-mo. Nem consigo descrever a delícia que este pequeno fruto redondo constitui. Pelo que quando cheguei a Dali, ao final da tarde, tratei de comprar também estes, para completar o meu jantar – que foi a pizza em Xi Zhou.

113 - Adeus Yunnan! Chegada a Pequim

Às 7.45h o motorista Nong Bu e a guia vieram buscar-me ao hotel. Pela primeira vez amanhece com sol. Levámos uma hora a chegar ao aeroporto. Tomei o pequeno almoço no carro – um bolo comprado na véspera, e um pacote de leite com pedaços de morango.

Aeroporto de Dali. Aqui foi a despedida do motorista Nong Bu e da guia. O Nong Bu, que tanto me apoiou durante esta viagem. Era ele que se ria e me dava o sinal de ok, com o polegar, sempre que eu aparecia vinda sabe-se lá de onde, por aqueles caminhos.

Às 9 da manhã o aeroporto está vazio, mas daqui a pouco vai ficar empanturrado. E com muitas crianças, tal como aconteceu no aeroporto de Lijiang, à chegada.
Cerca do meio dia, com atrasos da Air China em todos os voos domésticos (daqui só partem voos domésticos) as pessoas começaram a comprar baldes de comida seca, daquela que se mistura com água quente. A água a ferver está disponível no aeroporto, em máquinas próprias. Todo o aeroporto se encheu com o cheiro da comida rehidratada ali no momento, fumegante.

Toda a gente está agarrada aos telemóveis. Todas as crianças brincam com os telemóveis. Com músicas e barulhos ruidosos. Exceto este garoto, que passou um tempo considerável a ler este livro. Em silêncio. E não é banda desenhada. Tive de esforçar-me para não fixá-lo insistentemente, curiosa. Este vai ser o próximo cientista chinês a ganhar um prémio qualquer internacional, quando for adulto, está visto.

O avião partiu com duas horas de atraso, pelo que estive 4,5h no aeroporto. Um horror. Durante três horas agarrei-me ao ipod e ouvi uma dose de música clássica que foi obra, para matar saudades. Hoje é o 21º dia de viagem. Só tenho ouvido música chinesa praticamente. Senti vontade nítida de regressar às minhas origens musicais, pelo que ouvi uma dose de três horas e matei saudades do Beethoven, do Vivaldi, e de outros que tais. Sou a única ocidental entre várias centenas de pessoas no aeroporto, durante estas 4,5h.
À hora de almoço surgiu uma mensagem nos altifalantes – oferecem um balde de comida seca aos passageiros do meu voo, devido ao atraso. Não me apeteceu, não fui buscar. Quatro horas e meia num aeroporto tira-me a vontade de tudo. O voo durou 3,5h. E as refeições – neste e nos outros aviões chineses – foram sempre iguais: arroz com galinha ou vaca. Neste ainda vou ter um pão com manteiga e uma papa de um fruto vermelho, tipo cereja. Mas não são cerejas, parece-me. Já no supermercado em Lijiang vi iogurtes daquele fruto.

Estão 34 graus, maravilhoso. O plano é apanhar o comboio “Airport Express” até Dongzhimen. Aqui apanho um táxi até ao hotel. Mas o trânsito em Pequim – ou qualquer outra grande metrópole – é famoso. Ainda por cima cheguei à hora de ponta de uma sexta-feira. Eu não quero passar duas horas fechada num táxi, no meio do trânsito. A menina vai continuar a viagem de metro – disse eu a mim própria, traumatizada com um dia inteiro de viagens e aeroportos.

114 - Salva por Outro Grupo de Raparigas

Não fiz qualquer planeamento, nesta viagem, para chegar de metro ao hotel. O plano, conforme referi na crónica anterior, era apanhar o comboio “Airport Express” até Dongzhimen. Aqui apanharia um táxi até ao hotel. Mas ao ver as enormes filas de trânsito, da janela do comboio, decidi rapidamente mudar de planos. Vou apanhar o metro em Dongzhimen, e vou sair em Qianmen. Esta é a estação de metro do meu hotel. Tenho de apanhar a linha 2 em direção a Jishuitan, e cerca de 14 minutos depois estarei em Qianmen. A partir daí terei de desenrascar-me para chegar ao hotel, o qual não faço ideia onde é. Só sei que está a uns 700 ou 800  metros da estação de metro.
Fui tirando os bilhetes nas bilheteiras onde os funcionários atendem. Não usei as máquinas automáticas. Mostrei o papel com o nome da estação e foi rápido (primeiro Dongzhimen e depois Qianmen).

Saí na estação de Qianmen. Aqui estou eu, em Qianmen. Não faço ideia onde estou. Não faço ideia se o hotel é em frente, se é para trás, para a esquerda ou para a direita. Pelo menos vejo um museu, já não é mau de todo. Estarei no centro. O museu já está fechado, a esta hora. São 6 e meia da tarde. Claro que estou no centro – eu escolho sempre hotéis no centro.
Fiz uma pausa, pensei. Tirei uma foto ao museu.
Devia ter planeado isto melhor. Ter um mapa comigo indicando o caminho desde o metro até ao hotel. As pessoas sabem lá onde é a rua. Ainda por cima é uma ruela sem trânsito. Também escolhida propositadamente – uma rua estreita, típica, sem trânsito, calma, exatamente no centro. O pior é chegar lá, Rute.
Uns rapazes ocidentais, de rasta, agitados e alegres, abordaram-me. Foram simpáticos e perguntaram-me se eu queria ajuda. Não é preciso, estou bem, respondi-lhes.
Enfim, estou sozinha, numa cidade estranha, não é altura para aceitar ajuda de rapazes agitados e alegres. Queiram desculpar a descriminação, mas se nunca me aconteceu nada em todas as viagens que fiz sozinha, pelo mundo fora, um dos grandes motivos será com certeza os cuidados que tenho. Terei muito gosto em conhecê-los noutra altura e se calhar partilhar interesses comuns. Mas agora não. Não é oportuno. Os giros e alegres rapazes foram-se embora, portanto.

E esperei. E pensei.
Talvez apanhar um táxi para fazer os 800 metros. Mas qual é o táxi que quer fazer 800 metros? Ainda por cima – estou a descobrir – em Pequim não se atravessam as ruas. Em Pequim passa-se por baixo, em passagens subterrâneas, com escadas. O acesso às estradas está vedado com aquelas grades brancas que se vêem na foto. Eu com as bagagens não tenho vontade de andar a experimentar caminhos, a subir e descer escadas, à procura de táxis.
Em último caso regresso de metro a Dongzhimen e apanho aí um táxi. Mas isto seria humilhante, não quero. Então estou a 800 metros do hotel e vou voltar de metro para trás? Nem por sombras, Rute. Mexe-te, desenvencilha-te.

Terão passado talvez dez minutos. Eu ali parada, com a mochila e a mala grande, a pensar. No fundo estas situações dão-me uma pica desgraçada, a verdade seja dita. Tens de desenrascar-te, Rute, e não vais tomar o caminho mais fácil. Não vais voltar de metro a Dongzhimen, tem paciência.
Mal sabia eu que atrás de mim, a duzentos metros, está a Praça Tiananmen. Vou percorrê-la sei lá quantas vezes, para trás e para a frente, vou passar três mil vezes em frente a esta estação de metro de Qianmen – que é só a principal e mais central de Pequim – mas eu ainda não sei nada disso. Estou em pé, a pensar, com as bagagens ao pé de mim, a ver as pessoas a passar, apressadas, em plena hora de ponta, numa sexta-feira.

Recordo que o Google Maps não funciona – na China o Google está interdito. E eu nem me dignei a instalar outra app qualquer. Não estava mesmo à espera desta situação. Só mais tarde me lembrei que tenho o Waze, mas este só dá percursos para carros, e assim teria de dar uma volta enorme, de cerca de 2 km, e uma vez mais não me deixaria no hotel, pois este fica numa rua estreita apenas para pedestres – o chamado “Hutong”, precisamente uma rua estreita, típica da China, e mais propriamente de Pequim. Fiz questão de escolher um hotel típico, numa rua típica, exatamente no centro. Quero estar num Hutong. Então agora desenrasca-te, Rute.

Eis que aparecem estas quatro raparigas. Mostrei-lhes o papel com a morada do hotel e elas imediatamente prontificaram-se a ajudar-me. É a minha sina, ser salva por grupos de quatro raparigas. São estudantes universitárias de Hong Kong e falam um inglês perfeito. Ao meu lado, de t-shirt amarela, está a Jessica Lo, quem liderou as tropas e pôs tudo em andamento. A primeira opção foi chamar um táxi. Elas usaram uma app em chinês (provavelmente a que resultou da fusão entre a Uber e a Didi, vim a descobrir mais tarde), mas como era de esperar, os táxis recusaram. Nenhum taxista quer fazer 800 metros.
Segunda opção: ver no mapa, na internet, onde fica a rua do meu hotel. Elas têm uma app em chinês, para pedestres. Eu entretanto, já depois de regressar a Portugal, tratei de instalar uma também. E elas foram comigo, e ajudaram-me a levar as bagagens inclusivamente. A Jessica agarrou na mala grande (com rodinhas), contra minha vontade, pois não queria abusar da sua benevolência e paciência, e fomos por ali afora. Sempre em caminhos pedestres, no meio de grande multidão, até chegarmos ao meu hotel. Pelo caminho fomos conversando. Elas contaram-me que estiveram a fazer um estágio de um mês em Pequim, que umas estudam Business Management, e outras Information Management. Vão-se embora depois de amanhã, domingo. Explicaram-me que em Hong Kong falam cantonês, mas também aprendem mandarim e inglês. Eu respondi-lhes que elas estão capazes de arranjar emprego em qualquer parte do mundo, com essas três línguas. Elas riram-se.
E eis que começa a chover torrencialmente. Ao final da tarde é fatal. Apressámos o passo. Percorremos a principal rua turística de Pequim, tipo Rua Augusta em Lisboa (mas com o triplo do tamanho) (aliás, tudo em Pequim tem o triplo do tamanho) e entregaram-me sã e salva. O meu hotel fica numa transversal dessa Rua Augusta pequinense. E ainda esperaram que eu mostrasse os papéis e confirmasse que estava tudo ok. Reserva confirmada, quarto confirmado.
Obrigada, minhas amigas. Deixei-lhes o meu contacto e convidei-as também a visitarem-me, quando forem a Portugal.
Hoje trocamos de vez em quando umas mensagens através do WeChat, e claro que estão a receber estas crónicas.

Chove torrencialmente e cheguei ao restaurante de chapéu de chuva emprestado pelo hotel. Começa a saga das refeições, agora. Conforme contei na crónica 21, eu tenho comigo um papelinho que tem escrito em caracteres chineses “Não picante”, e “Noodles com vegetais e ovo”. Pelo menos comida não picante e estes noodles assegurei-me que vou ter. Também diz “Guiozas cozidas a vapor”, mas ganhei um enjoo às guiozas, que nem quero ouvir falar em tal. Quem diria. Vim para a China sedenta de guiozas, e parto da China enjoada com tantas guiozas.
Mas enfim, fiz uso do papel  – que acabei por fotografar e mostrarei então a foto no telemóvel, é mais prático – e a senhora que me atendeu riu-se, e trouxe-me os noodles com vegetais e ovo, não picantes.

Esta senhora ao meu lado jantava com a filha. Deve ser a filha. Meteram-se comigo, sorriram-me. E a senhora perguntou-me qualquer coisa, mas eu não percebo, sorri também, encolhi os ombros.

Uma rua transversal ao meu hotel, onde fica o restaurante.

A rua pedonal, no centro turístico de Pequim. O hotel fica a cinquenta metros à esquerda. Optei por ficar aqui por uma questão de conforto. Há melhores hotéis, mais sofisticados, mas já estão mais longe daqui. Prefiro sempre estar no centro, em hotéis mais caseiros, pequenos, antigos e tradicionais. Fiquei satisfeita, no geral.

115 - A Cidade Proibida

Acho que jamais esquecerei este dia. Primeiro fui alvo de uma burla, ao comprar o bilhete na internet, dez dias antes. Só descobri hoje quando quis entrar e não consegui. Ao fim de duas horas, e algumas tentativas de ajuda por parte do posto de informações, até constatarmos todos que só podia ser uma burla (o bilhete custa 9 euros, a burla não foi muito grande, felizmente, o grande transtorno são os bilhetes estarem esgotados nos próximos dias) – duas horas depois, a chover torrencialmente, consegui comprar um bilhete na bilheteira oficial, no local. Esperei numa longa fila, debaixo de chuva, vestida com uma capa de plástico verde e sandálias. Eu mais umas centenas de pessoas, distribuídas pelos vários guichets. Supostamente está tudo esgotado há muito tempo. De qualquer forma não desisto. Vou estar três dias completos em Pequim, talvez consiga em qualquer um dos dias, manhã ou tarde.
Mas não, deram-me um bilhete para já – imediatamente – nesta manhã. É só entrar. Eu nem queria acreditar, agarrada ao pequeno papel. A chover torrencialmente. Mal consigo tirar a máquina fotográfica da mala, debaixo de tanta chuva, para captar este momento histórico: a visita à Cidade Proibida, que tantas vezes vi no cinema. E agora aqui estou eu, a lutar contra burlas, disponibilidade de bilhetes, multidões e chuvadas torrenciais. Mas estou. Caramba que vou visitar a Cidade Proibida, quer queiram, quer não! “No sweet without sweat”, já sei!!

Portanto: acordei às sete da manhã, comi no quarto do hotel cereais e leite, que trouxe de Portugal (é verdade, trouxe cereais de chocolate e pacotes pequenos de leite com chocolate, já propositadamente para me safar ao pequeno almoço em Pequim, e não perder tempo) e eram quase onze horas quando finalmente passei os portões da Cidade Proibida. Sempre a chover torrencialmente. Viajar não é para qualquer um, de facto. Nem tudo são rosas e há momentos difíceis a ultrapassar. Creio que o “No sweet without sweat”, conforme contado na crónica 112 a propósito da Cerimónia do Chá, é uma grande verdade nas nossas vidas. Não há doce sem suor. E esta manhã tive de transpirar muito para conseguir o que queria. Só eu sei o que passei. Mas consegui.

A “Rua Augusta” pequinense, conforme relatado na crónica anterior. Aqui tinha acabado de sair do hotel.

Chegada à Cidade Proibida.

Ei-la: Rute Capuchinho Verde. Apanhámos tanta chuva – eu e todos os teimosos que ali andavam – tanta chuva, tanta chuva, que os pés andavam dentro de água, afundados, e fiquei com a pele engelhada, e naturalmente que as horas de caminhada, com os pés molhados e a pele engelhada, acabaram por fazer ferida. As tiras em pele das sandálias feriram-me os tornozelos. Sinceramente nem me lembro de alguma vez caminhar horas seguidas debaixo de tal dilúvio. Ainda por cima de sandálias e com os pés permanentemente dentro de água.

Sobre a Cidade Proibida, deixo a descrição da Wikipedia (não há que inventar):
Durante quase cinco séculos serviu como residência do Imperador e do seu pessoal doméstico, sendo o centro cerimonial e político do governo chinês. O título de Cidade Proibida surgiu pelo facto de somente o imperador, a sua família e empregados especiais terem permissão para entrar no conjunto de prédios do palácio. Trata-se de uma cidade dentro de outra cidade. Sede de um governo burocrático que comandou o império mais populoso da Terra, é o maior palácio do planeta, cujos rumores sempre apontavam a existência de 9.999 divisões. Durante séculos, apenas a família do imperador, além dos oficiais e empregados mais graduados tinham permissão para entrar no local. Qualquer outra pessoa que ousasse atravessar os seus portões sem a devida autorização, era sujeita a uma execução sumária e dolorosa.
Construído entre 1406 e 1420, o complexo consiste em 980 edifícios sobreviventes, com 8.707 secções de salas, e cobre 720.000 metros quadrados. A Cidade Proibida foi declarada Património Mundial da Humanidade em 1987, estando listada pela UNESCO como a maior coleção de antigas estruturas de madeira preservadas no mundo¹.


¹ “Cidade Proibida” (s.d.). Wikipedia. Página consultada a 20 Março 2018,
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Cidade_Proibida>

Deixo a nota, ao terminar esta crónica, de que reclamei junto da Paypall – já em Lisboa. Quando regressei a Portugal apresentei queixa. Seja lá quem for, em Hong Kong, que me vendeu o bilhete para a Cidade Proibida, respondeu dizendo que tinha enviado um sms em chinês (eu não recebi nada, nem em chinês, nem em inglês) e devolveram-me os 9 euros.

116 - Praça Tiananmen

Ao longo desta viagem – em Yunnan e posteriormente em Pequim – devo ter conversado com umas vinte pessoas. Explicaram-me muitas coisas, nomeadamente que na China os beijinhos não são usados como cumprimento. E que a Revolução Cultural foi um desastre. Eu fiquei surpreendida com a sua frontalidade e sinceridade, nesta matéria da Revolução Cultural. Pensei que era proibido falar destas coisas, e muito menos dizer mal. Perguntei-lhes se não vamos todos presos por estarmos a dizer mal da Revolução Cultural. Responderam-me que não, que podemos falar. Ora eu vejo notícias como esta:
“Um dos eventos mais importantes e devastadores da história moderna da China está ausente da imprensa do país esta segunda-feira, no dia em que se marcam os 50 anos da famigerada Revolução Cultural ditada pelo regime de Mao Tsé Tung (…) Os investigadores não podem aceitar dar qualquer entrevista relacionada com a Revolução Cultural”, denunciou (…) um estudioso deste período(…)”¹

Eu bem que tentei aprofundar – aqui e ali – o tema das questões políticas, da falta de liberdade de expressão, ou sobre a aceitação do Governo em geral; mas é um assunto onde não tive qualquer saída. Duas hipóteses: estão alheados da vida política (a certa altura pareceu-me que sim, que não percebem nem querem saber, e houve quem me respondesse inclusivamente que as suas vidas não são influenciadas por esta matéria) ou então têm mesmo receio e não querem comentar estas questões com uma estranha, e ainda por cima estrangeira. Nunca tive confiança suficiente para insistir, para questionar diretamente sobre casos concretos, como o prisioneiro político – e prémio Nobel da Paz – Liu Xiaobo, por exemplo, falecido há poucos dias atrás, uns dias antes de eu chegar à China. Faleceu com 61 anos, no hospital, com um cancro. Liu Xiaobo estava preso, condenado por subversão, depois de ter exigido reformas democráticas na China. Liu foi o autor de um manifesto, a “Carta 08”, um manifesto assinado por 303 intelectuais e ativistas dos direitos humanos, de múltiplas profissões (académicos, advogados, jornalistas, artistas) – e depois por outras oito mil pessoas – para promover a reforma política e a democratização na República Popular da China. A mulher de Liu Xiaobo continua, desde 2010, sob detenção domiciliária. De acordo com a Amnistia Internacional, Liu Xia nunca foi acusada formalmente de qualquer crime. Continuam hoje a sair notícias sobre ela e sobre o seu estranho desaparecimento desde a morte do marido:
“Estou muito sozinha / Não tenho o direito de falar / De falar alto / A minha vida é como uma planta / Estou deitada como um cadáver”, escreveu a poetisa chinesa, segundo excertos citados pelas agências internacionais.”²

O nome do ativista Liu Xiaobo entrou para a “lista negra” na internet. O bloqueio impede que mensagens e outros tipos de conteúdo contendo o seu nome sejam enviados. O “Grande Firewall” bloqueia softwares de mensagens como o WeChat (semelhante ao Whatsapp) e a rede social Weibo (semelhante ao Facebook), onde menções ao dissidente estão proibidas.
Mas não foi só o ativista que foi bloqueado na internet. A China também bloqueou pesquisas relacionadas ao Ursinho Pooh, da Disney, devido aos memes criados por utilizadores devido à semelhança entre o personagem e o presidente Xi Jinping. Não pode ser feito o download de imagens do desenho animado, e menções ao seu nome também estão proibidas nas redes sociais e nas plataformas de mensagens instantâneas.³

Em 2010, a organização Repórteres sem Fronteiras classificou a República Popular da China na posição 171º (entre 178 estados) no seu relatório anual “Índice de Liberdade de Imprensa”.
O panorama não é nada positivo, portanto. Estou agora em Pequim, em plena Praça Tiananmen, precisamente onde Liu Xiaobo foi detido pela primeira vez pela ligação aos protestos de 1989. Na altura era professor na Universidade de Pequim.

Caminhar agora na Praça Tiananmen – também conhecida pela Praça da Paz Celestial – tem portanto o seu impacto. Esta praça onde agora brincam as crianças, já esteve banhada de sangue de estudantes. O dilúvio de chuva que apanhei hoje, já foi um dilúvio de sangue há 28 anos atrás. Esta é a terceira maior praça pública do mundo, sendo superada apenas pela Praça Merdeka, localizada em Jacarta, na Indonésia, e pela Praça dos Girassóis, localizada em Palmas, no Brasil. Vi na televisão os acontecimentos de 1989, no dia 4 de junho, em que o governo chinês colocou fim a dois meses de ocupação estudantil nesta praça através de uma violenta intervenção militar, a qual provocou a morte de mais de duas mil pessoas e deixou outros milhares de feridos, segundo dados da Cruz Vermelha chinesa. Este movimento estudantil – e civil – pedia liberdades e mudanças políticas. O movimento transformou-se num protesto nacional, com manifestações pró-democracia em várias cidades do país. O número oficial de mortos nunca foi revelado.

Por ocasião do 25º aniversário destes acontecimentos, em 2014, encontro esta notícia no jornal Público:
Xi Jinping, o atual Presidente, o homem que se perfila como o segundo grande reformador da China depois de Deng, tem demonstrado que quer fechar cada vez mais o sistema de partido único autoritário e centralizado. Está a fazê-lo afastando líderes com outra linha de pensamento — alguns caídos na guerra contra a corrupção —, tornando mais rígido o controlo sobre os media, prendendo dissidentes, como os que foram detidos nas vésperas deste 25º aniversário (académicos, intelectuais, artistas).⁴
E foram aprovadas emendas constitucionais que eliminaram o limite de dois mandatos consecutivos de cinco anos para os presidentes do país. Ou seja, o atual Presidente Xi Jinping entretanto entrou no segundo mandato (em Março de 2018), e supostamente seria o último, mas não: já não precisa de afastar-se do poder, pode continuar indefinidamente. O retorno a uma liderança indefinida supõe uma rutura com o sistema criado por Deng Xiaoping, que estabeleceu um poder mais colegiado, com limites temporais para os altos cargos, a fim de evitar os excessos que causaram a acumulação do poder pessoal desmedido durante a época de Mao Tse Tung (1949-1976).⁵

No Diário de Notícias, por seu turno, e a propósito da comemoração do 28º aniversário dos acontecimentos na Praça Tiananmen, em 2017, encontro estes parágrafos bastante elucidativos:
“As escolas não ensinam sobre este incidente. Muitos adolescentes não sabem nada disto por isso não vêm [à vigília]. Penso que eles não estão interessados nestas coisas”, disse. (…)” O governo chinês exerce um controlo muito forte sobre as liberdades, movimentos pró-democracia ou direitos humanos”, acrescentou, observando que quem vive no interior da China “não consegue aceder a esta informação a partir da Internet ou mesmo na imprensa”.
Nascido em 1991, dois anos depois do massacre, o jovem Sulu Sou, da Novo Macau, a maior associação pró-democracia da região, tomou conhecimento da repressão através do Youtube – o acesso é livre em Macau, tal como em Hong Kong, ao contrário do interior da China onde é bloqueado. Sulu Sou recordou que o tema continua esquecido nas escolas, que “não ensinam os últimos 50 anos da história chinesa, especialmente o período desde que o Partido Comunista governa a China”, impedindo muitos estudantes de aprenderem a História “na sala de aula ou nos manuais escolares”.⁶

De forma que não consegui abordar devidamente estes temas. E notei grande alheamento. Aliás, eu própria senti receio em insistir. Não quero ser levada para interrogatório pelas autoridades chinesas, pensando eles que sou alguma espiã ocidental. Efetivamente não vim à China para questionar o seu sistema político. Mas creio que o panorama assusta qualquer um. Deixo o pavoroso relatório da Amnistia Internacional, em inglês: CHINA 2017/2018
Ou a sua tradução resumida, para português, na Sic Notícias:
Amnistia Internacional estima que a China esconde milhares de execuções

Seriam necessárias outras 116 crónicas (ou mais) para detalhar estes temas. O mais curioso é que estas crónicas são acompanhadas na China, mas esta parte nunca será lida porque o “Grande Firewall” vai simplesmente eliminar este texto da crónica 116. Só quem tem acesso a VPN’s e semelhantes artimanhas conseguirá lê-lo usando talvez o Google Translator.


¹ Viana, Joana Azevedo (2016, 16 Maio). “Imprensa chinesa em silêncio nos 50 anos da Revolução Cultural”. Jornal Expresso. Página consultada a 21 Março 2018,
<http://expresso.sapo.pt/internacional/2016-05-16-Imprensa-chinesa-em-silencio-nos-50-anos-da-Revolucao-Cultural>

² “Viúva do Nobel chinês Liu Xiaobo escreve carta perturbadora”. (2017, 14 Dezembro), Diário de Notícias. Página consultada a 21 Março 2018,
<https://www.dn.pt/mundo/interior/carta-desesperada-da-viuva-do-nobel-chines-liu-xiaobo-preocupa-amigos-e-familiares-8985213.html>

³ McDonell, Stephen (2017, 17 Julho). “Why China censors banned Winnie the Pooh”. BBC. Página consultada a 21 Março 2018,
<http://www.bbc.com/news/blogs-china-blog-40627855>

⁴ Ferreira, Ana Gomes (2014, 4 Junho). “Tiananmen? “Se não me tivesse falado disso, nem me lembrava”. Jornal Público.  Página consultada a 21 Março 2018,
<https://www.publico.pt/2014/06/04/mundo/noticia/tiananmen-se-nao-me-tivesse-falado-disso-nem-me-lembrava-1638568>

⁵ “Assembleia Nacional Popular da China aprova presidência indefinida para Xi Jinping”. (2018, 11 Março), Diário de Notícias. Página consultada a 21 Março 2018,
<https://www.dn.pt/mundo/interior/assembleia-nacional-popular-da-china-aprova-presidencia-indefinida-para-xi-jinping-9177908.html>

⁶ “Vigília em Macau assinala 28º aniversário de massacre de Tiananmen”. (2017, 4 Junho), Diário de Notícias. Página consultada a 21 Março 2018,
<https://www.dn.pt/lusa/interior/vigilia-em-macau-assinala-28o-aniversario-de-massacre-de-tiananmen-8534808.html>

Para se andar em Pequim – de atração turística em atração turística – temos de seguir os caminhos pré-definidos, com grades de ambos os lados, e de passar obrigatoriamente por controlos de raios-x. Não dá para sair dos caminhos. Existem grades e polícias por todo o lado. E são filas enormes. Pode-se perder mais de uma hora só para passar nestes controlos. Os menos resistentes fisicamente não se safam aqui, nomeadamente os idosos.
Acabei por nem alugar uma bicicleta, aqui em Pequim, pois iria andar muito pouco nela. Nestes caminhos definidos, com controlos de raios-x, as bicicletas não são permitidas. E dado que o meu hotel está mesmo ao lado da Praça Tiananmen, não iria tirar grande proveito da bicicleta. De qualquer forma informei-me sobre como se trata, pois gosto de ter sempre uma bicicleta comigo, dá maior mobilidade; e constatei que é um sistema moroso: é preciso ir de metro até Dongzhimen. Aqui mostra-se o passaporte, preenche-se os papéis e paga-se uma caução. Então teria de pedalar desde Dongzhimen de volta para o centro. Nem sei se deixam levar a bicicleta no metro, mas calculo que não, nunca vi nenhuma. E naqueles controlos todos de raios-x, muito menos. Todas as estações de metro têm controlos de raios-x, à entrada e à saída. Depois, no final da estadia, teria de ir entregar a bicicleta novamente a Dongzhimen, para me devolverem a caução. Muito pouco prático, este sistema. Eu não tenho tempo a perder. Não posso andar para trás e para a frente a entregar e buscar bicicletas, em horas de filas para passar nos raios-x. Eu quero que ma deixem no hotel, e que no final a vão buscar também. No ano passado foi assim que fiz em Viena e Budapeste, ou em qualquer parte, até mesmo numa pequena povoação da Amazónia, recordo-me. Bom, mas aqui é Pequim, e se queres, queres, se não queres, adeus. Pelo que fiquei sem bicicleta. E existem muitas – amarelas. Ainda hoje me pergunto se percebi aquele esquema. Pelo menos era a informação disponível na internet, em inglês. Recordo que obter informação em inglês na internet, na China, é um sarilho, conforme explicado na crónica 4. Se calhar este esquema das bicicletas amarelas já é diferente, mas não encontrei informação e não me dediquei a isso porque apostei em andar a pé.

Pedi a uma rapariga chinesa para tirar-me uma foto. Ela tirou-me várias, mas eu nunca consegui ficar sozinha, pois as crianças vinham tirar fotos comigo. Uma ovelha encaracolada dá muito nas vistas e as crianças (e os pais) devem achar graça. Resultado, tirei três ou quatro fotos sempre com crianças. E a rapariga devolveu-me a máquina fotográfica, pensando que eu estava satisfeita. Bom, mas eu quero uma foto sozinha na Praça Tiananmen!
Então tive de ir pedir a outra pessoa, desta vez um italiano muito gordo. Foi o que apanhei à mão, ele próprio tinha uma câmera idêntica à minha pendurada ao pescoço, assim é meio caminho andado, percebem os botões da minha. E ele lá me tirou a foto abaixo.

117 - Museu Nacional da China

Andei duas horas dentro da Cidade Proibida, e depois quase uma hora a pé até chegar novamente à Praça Tiananmen, dado que a saída da Cidade Proibida não é a mesma da entrada. É obrigatório entrar por um lado, fazer o percurso todo lá dentro e sair na outra ponta. Ainda andei perdida, e a ansiar por uma bicicleta para acelerar as coisas. Mas a bicicleta teria ficado bem longe, à entrada da Praça Tiananmen, pelo que não me serviria de nada na mesma.

Os pardais chineses são iguais aos pardais portugueses. Estes têm nacionalidade chinesa. Mas pareceu-me que os seus olhos são ligeiramente rasgados. Ora vejam com atenção a foto. É um pardal chinês, com olhos rasgados.

A entrada para este museu é grátis, no entanto tem controlos rigorosos para entrar. Existem duas filas: uma para os nacionais, outra para os estrangeiros. Foi aqui que percebi que ando no meio de muitos estrangeiros – mas todos orientais. Fiquei numa fila em que eu sou a única ocidental. Curiosamente vi uma raridade em toda esta viagem: três africanos. Estão três africanos na fila, à minha frente. Estes ainda conseguem destacar-se mais do que eu, no meio desta multidão de orientais.

Ao entrar somos revistados e submetidos a um controlo de raios-x. Pela milésima vez, tal como contado na crónica 116, pois para se andar em Pequim – de atração turística em atração turística – temos de seguir os caminhos pré-definidos, com grades de ambos os lados, e de passar obrigatoriamente por controlos de raios-x.

O mapa do museu. Este é grande e exibe desde mobílias da Dinastia Ming e Qing, porcelanas antigas chinesas, jades, moedas e trabalhos de caligrafia da China Antiga, até esculturas africanas, uma exposição de quadros do Rembrandt, esculturas de Dali – ou uma exposição de “Presentes de Estado – Testamento Histórico de Amizade”.

Esculturas de Salvador Dali.

Creio que esta é a área dos “Presentes de Estado – Testamento Histórico de Amizade”. Como podem reparar, as legendas estão em chinês. Pelo que percebi tudo e saí aclarada das minhas dúvidas.

118 - Entardecer em Pequim

Praça Tiananmen. Atravessei-a de corrida, pois são quase cinco da tarde e eu ainda nem almocei. Comi uma barra de cereais que levei comigo na bolsa à cintura. Uma pessoa consegue lá perder tempo para comer. Onde é que há um restaurante? É preciso fazer sei lá quantos quilómetros a pé, e as atrações fecham todas cedo, por volta das 5 da tarde. Ir e voltar a pé, nestas distâncias gigantes até um restaurante seria o suficiente para eu perder a entrada no Museu, por exemplo, pois já estaria a fechar quando eu voltasse e conseguisse passar as enormes filas e os controlos dos raios-x. Volto a lembrar que todos os caminhos estão definidos: há grades para orientar os rebanhos (agora é que me sinto literalmente uma ovelha encaracolada), os quais vão enfileirados até passarem nos raios-x e entrarem nas atrações, nomeadamente na Praça Tiananmen, a qual dá acesso a outras atrações, como o Museu Nacional da China, o Grande Salão do Povo ou o Mausoléu do Mao Tse Tung. São milhares e milhares de pessoas, tudo muito bem organizado e enfileirado.

Em Pequim tudo é gigante. Fazem-se quilómetros a andar. Uma bicicleta dá muito jeito, no entanto as bicicletas só podem andar na estrada. Aqui dentro só andam pedestres. É difícil de gerir a coisa.

Aqui comprei um bolo de feijão vermelho. Será a minha sobremesa ao jantar.

Uns deliciosos noodles de porco, que me reconfortaram dos imensos quilómetros a pé feitos hoje, e já com os pés feridos nos tornozelos, devido às chuvadas torrenciais desta manhã. Voltei ao restaurante da véspera, onde jantei, perto do meu hotel.
Mas o dia ainda vai a meio. São 5 da tarde. Hoje tenho teatro. Tenho um bilhete para um teatro onde vai ser representada Ópera Chinesa. Comprei-o através da internet, em Lisboa, antes de vir para cá. A peça é às 19.30h e ainda tenho de descobrir onde é o teatro. Sei que é para aqui perto.

Pois enganei-me ao encomendar os pratos. Pensava que um era só porco, pelo que mandei vir a esparguete com legumes, à parte, para acompanhar. Afinal o porco já vem com esparguete. Naturalmente que não consegui comer dois pratos, acabei por deixar o dos legumes. A senhora, que me reconheceu da véspera, perguntou-me (por gestos) o que se passava. Fiz-lhe sinal de que estou muito cheia e não consigo comer mais. E ainda tenho o bolo de feijão como sobremesa. É a minha única refeição do dia, vai fazer de almoço e de jantar, tenho de comer bem para aguentar esta pedalada.

119 - Teatro em Pequim

Vou assistir a um espetáculo de Ópera Chinesa no Teatro Zhengyci. Segundo vi na internet, fica a uma estação de metro. Ora mais vale ir a pé. Perguntei na receção do meu hotel onde fica, e o rapaz apontou-me no mapa. Ele não tem a certeza onde fica exatamente, mas crê que é naquele ponto do mapa. São seis da tarde, tenho hora e meia para encontrar o teatro. Aí vou eu, com cinco pensos rápidos em cada tornozelo, na zona das tiras das sandálias. As chuvadas torrenciais desta manhã, na Cidade Proibida, não tiveram outro efeito senão impedir-me de tirar fotos e ferir-me a pele engelhada dos pés. Foram dois efeitos relativamente graves, mesmo assim.

Mas está bem, está. É um emaranhado de ruas. Não consigo chegar ao teatro, o qual, uma vez mais, fica num Hutong – uma rua estreita, pedonal, onde o trânsito não é permitido. Voltei a mostrar o mapa na rua, a duas ou três pessoas, mas cada qual aponta para um sítio diferente. Nenhum diz que não sabe. Todos sabem e todos apontam numa direção. Este comportamento é famoso entre os chineses, é curioso. Já tinha lido coisas na internet sobre isto. Será uma questão cultural. Não saber, não conseguir ajudar é quase considerado uma ofensa, pelo que tentam sempre ajudar, e acabam por orientar nas direções erradas.
Bom, ligo o Waze e sigo na direção que o Waze me aponta. Ele só tem caminhos para carros, mas pelo menos diz-me a direção. Não me afastarei – aproximar-me-ei sim do local.
Fica a nota de que por esta altura eu já tinha tentado instalar uma app de mapas pedestres, mas sem sucesso. As pesquisas em inglês na China não são famosas. Encontrei algumas apps, e cheguei a instalar duas, mas não surtiram efeito, não funcionam, não sei porquê. Hoje – já em Lisboa – claro que já tratei disso. Já instalei o “Maps.me”. (Espero que não voltes a andar perdida por falta de mapas pedestres, Rute Norte).
(Deixo a nota – uma vez mais – que me dá grande pica andar perdida. Não é em vão este meu desinteresse em obter apps com mapas. Enquanto ando perdida vou descobrindo as coisas. Mas desta vez trata-se de um espetáculo, com hora marcada, com bilhete reservado, e o qual eu quero muito ver, pelo que não é altura para brincadeiras do “Busca Bobby”).

Aproximei-me muito do local do teatro. O Waze diz-me que já cheguei, aliás. Mas não, o teatro fica num Hutong escondido, e eu estou numa avenida principal. Perguntei a esta rapariga, a qual anda a passear o cão. Ela é daqui, de certeza. Normalmente as pessoas passeiam os cães ao redor de casa. Em cheio. Ela sabia perfeitamente onde é o teatro, e levou-me com ela. Foi passeando o cão, o qual foi fazendo uns chichizitos pelo caminho, e deixou-me precisamente à porta do teatro. Seria muito difícil eu encontrá-lo sozinha. Um Hutong num autêntico emaranhado de ruas. Mas está bem perto do meu hotel, se calhar a 1 km, e à saída pus-me rapidamente lá, no regresso.

Pois cometi um erro. Afinal o espetáculo da Ópera Chinesa não é hoje. É só no dia 22. Eu fiz confusão. Hoje é o meu 22º dia de viagem, mas não é dia 22. Enganei-me. Foi com grande desilusão que percebi que hoje não há espetáculo nenhum de Ópera Chinesa. Nem amanhã. Só há daqui a uns dias, já eu estarei em Lisboa. Hoje há um bailado contemporâneo, que ainda por cima está esgotado. Queria tanto ver a Ópera Chinesa ao vivo. Só vi na televisão ou no cinema, nunca vi ao vivo.
A desilusão devia estar estampada no meu rosto: fiquei tão desalentada, ali à entrada do teatro, junto das bilheteiras, onde o rapaz de t-shirt branca está, que a senhora das bilheteiras acabou por chamar-me. Disse que me arranja um bilhete. Custa 480 RMB (cerca de 70€). Bolas, não me apetece gastar 70€ para ver um bailado contemporâneo agora. É muito caro.
Pelo que o desalento continuou estampado no meu rosto.
Mas não me fui embora. Continuei ali, em pé. Triste. (Só faltava fazer uma birra, como as crianças, e atirar-me ao chão a dizer que queria ver a Ópera Chinesa).
E a senhora voltou a chamar-me outra vez. Arranja-me outro bilhete por 280 RMB (40€). Alguém telefonou a desistir. É meu, aceito. Já não sei se estão a regatear os bilhetes, mas lá diz o ditado: “Quem espera, sempre alcança”. É preciso ter uma paciência e uma calma de chinês. E durante esta viagem pude comprová-lo várias vezes. Mais vale ter calma. Esperar. Alguma coisa pode acontecer. Alguma coisa pode mudar entretanto. E mudou mesmo. Se eu tivesse virado as costas quando ela me disse que os bilhetes estavam esgotados, ou posteriormente quando ela me apresentou o preço de um bilhete muito caro, eu teria perdido um dos mais fabulosos bailados contemporâneos que alguma vez vi, em Portugal, em Londres, em Nova Iorque, em Sidney, em Copenhaga, ou sei lá mais onde assisti a bailados.

Eu devo ter estado de boca aberta durante a peça toda. Foi fenomenal. De grande qualidade, aliando traços contemporâneos às tradições chinesas. Atuou a Companhia de Dança Moderna de Pequim, criada em 1995, atualmente sob a direção de uma mulher: Gao Yanjinzi, a qual falou no final e respondeu às perguntas do público. No programa que me deram à entrada pude ler entretanto que este bailado foi estreado em Veneza, em 2006, e que a Companhia de Dança Moderna de Pequim atuou em vários países, nomeadamente em Paris, Nova Iorque, Berlim, Canadá, Brasil e outros tantos. Pois foi um prazer vir conhecê-los na sua própria terra. A peça a que assisti hoje chama-se “Oath Midnight Rain” (traduzindo isto para português, é algo como “Juramento da Chuva da Meia Noite”) e, citando o programa: “explora a compreensão da coreógrafa sobre o Samsara Budista, o ciclo da morte e do renascimento e o momento luminoso entre a noite e o dia, entre o preto e o branco, entre o final e o começo”. O próprio programa tem uma citação:

Todos morreremos,
mas não vamos deixar este mundo para sempre –
a eterna promessa do renascimento
Trar-nos-á de volta.
— Provérbio Tibetano

E sobre o edifício do teatro: um antigo templo com origem na Dinastia Ming (1368–1644), entretanto recuperado, com uma estrutura interna totalmente em madeira. Pelo que leio no panfleto: “cobre uma área de 315 m²; o palco do 1º andar tem uma área de 6 m², e as quatro colunas suportam um palco no segundo andar, onde existe um gancho fixado para os artistas desempenharem os papéis de fantasmas e deuses, que geralmente são consideradas criaturas que voam. Este equipamento completo é cada vez mais raro sob as circunstâncias atuais de revitalização dos edifícios, pelo que este Templo-teatro se torna cada vez mais precioso”.

No final a coreógrafa Gao Yanjinzi falou bastante e houve a sessão de perguntas e respostas – tudo em chinês, pois claro –, pelo que me vim embora. À saída encontrei um dos encenadores (pelo que ele tentou-me explicar-me, num fraco inglês, seria um dos encenadores). Um rapaz novo que eu abordei porque esqueci-me do programa dentro da sala, no meu lugar. Podem ter a certeza que eu não saio daqui sem o meu programa. Então ele tentou ajudar-me – foi lá dentro à procura dele. Mas não o encontrou, ele não tinha a certeza de qual era o meu lugar, e eu entretanto percebi que alguém já o tinha ocupado. Eu estava mesmo ao centro (indevidamente, ainda por cima, pois o grupo de cinco pessoas que estavam na minha zona chegaram consideravelmente atrasadas – e quando chegaram foram para o canto, porque eu vendo cinco lugares vazios, sentei-me no melhor, mais ao centro, pensando que já ninguém viria) (Em Portugal nem sequer os deixariam entrar depois do espetáculo começar, e foi muito incomodativo os bailarinos já estarem a atuar, num teatro tão pequeno, e entrarem cinco pessoas com toda a agitação que isso provocou. E não foram os únicos, houve várias pessoas atrasadas, e deixaram-nas todas entrar. Sendo um teatro grande já é mau, então num pequenino nem se fala. Será um hábito que nuestros hermanos chineses terão que mudar). Bom, então deixaram-me a mim entrar para ir buscar o programa. Já a peça tinha terminado, recordo, e estava a autora a falar e a responder a perguntas. Quem ocupou o meu lugar também se apoderou do meu programa. Foi um pouco insólito. Efetivamente reparei que ninguém tinha aquele programa. Mas a mim deram-mo, numa tentativa de explicar-me ou aliciar-me a assistir ao Bailado, em lugar da Ópera Chinesa. Eu não podia estar ali a falar fosse o que fosse (além de que eventualmente a pessoa não falaria inglês) pelo que apontei para o programa, tirei-lho das mãos e desapareci, agachada, em silêncio. Ao menos acontece-me tudo. Foi tudo insólito. Eu andar perdida, eu achar o teatro, eu não ter bilhetes, eu já ter bilhetes, as pessoas a entrarem e a perturbarem o espetáculo, o meu programa desaparecido, e agora este rapaz, no final da peça, que me abordou em inglês. Perguntou-me se eu gostei. Eu adorei! – respondi-lhe. E então ele agradeceu, ficou naturalmente satisfeito, e explicou-me que era um dos encenadores. Não lhes poupei elogios. Adorei a peça, fiquei encantada com a mistura entre os traços contemporâneos e as tradições chinesas – repeti-lhe.

As fotos foram tiradas já no final, durante o qual os bailarinos desfilam precisamente para lhes serem tiradas fotos. Vê-se inclusivamente as pessoas no público com câmaras e telemóveis nas mãos, a fotografar.

Deixo a nota de que avisei a senhora da bilheteira de que podia libertar a minha reserva para o dia da Ópera Chinesa. Ela deu o ok e não fez nada. Não anotou em lado nenhum, não foi ver lista nenhuma de reservas. Ok. Devem aparecer ovelhas tresmalhadas à última da hora, antes do espetáculo começar, e acabam por ficar com os bilhetes, está visto. Pelo sim pelo não, quando cheguei a Portugal fiz um reply ao email da reserva, cancelando-a. Não quero que ninguém perca a Ópera Chinesa por causa de uma reserva que já não existe! Mas ninguém me respondeu também.

De regresso ao hotel. Seriam umas 9 ou 9.30h da noite. Não tive qualquer receio. As ruas de Pequim são muito tranquilas e existem guardas por todo o lado. Até porque é relativamente cedo, ainda há muita gente na rua. Eu é que estou estafada. Segundo a app do iphone, fiz 23 km a pé, hoje. Foi um dia muito intenso. E ainda a procissão vai no adro. Tenho mais dois magníficos dias em Pequim, de igual intensidade, pela frente. Se tomo um duche e caio na cama, digo que é mentira.

120 - Começa o Terceiro (e Grandioso) Dia em Pequim

Hoje vou ter a companhia do guia Li Bo, durante todo o dia. Contratei o seus serviços ainda em Portugal, através da internet. Vi muito boas referências suas. Apanhou-me às 8.30h da manhã numa das pontas do meu Hutong (recordo que um Hutong é uma rua estreita, pedonal, típica da China, e mais propriamente de Pequim) e levou-me no seu jipe. O programa de hoje – programa de dia inteiro – é ir à Grande Muralha da China. Um ponto alto desta viagem e mal contenho a impaciência.

O guia Li Bo disponibiliza vários tipos de programas, vários tipos de passeios – uns em grupo, outros individuais. Escolhi um percurso individual e dos mais complicados, ou seja, daqueles que exigem algum esforço físico e algum grau de risco. Nomeadamente resvalar e cair da Muralha abaixo : ) (Mas alguma vez eu não escolheria um programa de risco?)
(Estou a brincar, é um risco controlado – pelo menos sobrevivi e estou aqui a contar esta história, não?)

Vou conhecer determinada parte da Grande Muralha, a cerca de três horas de distância de Pequim. Para tal, o tempo tem de estar estável, não pode chover como ontem, senão o risco é excessivo. O guia Li Bo indica-me que não poderemos ir se começar a chover seriamente. Dado que ontem de manhã choveu torrencialmente (e visitei a Cidade Proibida debaixo de um autêntico dilúvio) as perspetivas hoje não são famosas. A metereologia continua a dar chuva. Agora está a chuviscar e eu fiz os poucos metros até ao jipe do Li Bo vestida com um impermeável.
E agora? Fazer três horas de carro, chegar lá e começar a chover a sério?
Eu quero ir na mesma, disse ao Li Bo. Mas não pode ser, respondeu-me.
Bom, estivémos numa indecisão os dois até à última da hora. O guia Li Bo a conduzir o jipe, no meio do trânsito de Pequim. Hoje é domingo, felizmente está mais calmo. Voltámos a consultar a metereologia nos telemóveis. Sim, dão chuva.

E por isso decidimos alterar os planos. Passamos a visita à Grande Muralha para amanhã, 2ª feira. Eu posso, o Li Bo pode também. É mais seguro porque já dão melhoria do tempo. E disponibilizou-se agora para levar-me no jipe até ao local que eu pretendo visitar agora. Efetivamente tenho planos para amanhã – que assim passam para hoje. E amanhã voltamos a encontrar-nos às 8.30h no meu Hutong.
Voltámos para trás, portanto.

Mas não. O céu está a clarear à medida em que a manhã avança. Se não choveu torrencialmente até agora, é pouco provável que piore durante o dia. A chuva costuma ser de manhã ou de noite.
Vamos, disse o guia Li Bo.
Vamos, disse eu.
E voltámos a seguir na direção da Grande Muralha.

Parámos pelo caminho para comprar comida, dado que na Muralha não há nada. O guia Li Bo comeu um hamburguer (deviam ser umas onze da manhã) e eu optei por uma espécie de sandes, que se vê nesta foto, e um iogurte. Levei comigo pistachios e um pacote de leite com pedaços de morango.

Local onde Obama esteve em 2014, no âmbito do Fórum da APEC (Cooperação Económica Ásia-Pacífico). A China terá gasto cerca de 5 biliões de dólares para preparar esta zona – Huairou – para receber os ilustres membros do Fórum. Foram tomadas medidas rigorosas durante dez dias, incluindo restrições no tráfego automóvel, no aquecimento com carvão ou lareiras durante a noite, e foram encerradas fábricas em Pequim e arredores, de forma a garantir a existência de um céu azul, livre de smog. Uma série de serviços públicos foram encerrados, bem como escolas e jardins infantis, pequenos restaurantes e quiosques, mercados locais. Claro que a população não gostou. E foram instaladas várias centenas de câmeras de vigilância com reconhecimento facial.

O Li Bo pára o jipe para mostrar-me a Grande Muralha ali ao longe e dar-me algumas explicações sobre ela. Estamos quase a chegar.

A Grande Muralha já se avista lá em cima, no topo da montanha.