25 dias na China, sozinha, de bicicleta

061 - Breve Regresso a Shangri-La... e Partida

O hotel onde fiquei da última vez, no 7º dia de viagem (crónica 32), está esgotado. Hoje, no 11º dia, vou ficar neste. A guia, que se vê nesta foto, e a qual não se entende com os 3.200 metros de altitude – sente dores de cabeça há alguns dias, na altitude de Yunnan (ela é de Xangai) – vai ficar também neste hotel, a ver se descansa. Já o Nong Bu ficou noutro, mais barato, longe do centro. Para o Nong Bu está sempre tudo bem, é a descontração em pessoa, conhece as montanhas e respira-lhes o ar desde que nasceu.

Voltei a jantar no mesmo restaurante da outra vez, ao lado do hotel. Gosto daquele casal – dos donos. E gosto do pequenito restaurante. Fiquei com um papel escrito pela guia indicando “noodles com ovo e legumes, não picantes. Pago”. Quando me apeteceu, fui jantar, sem hora marcada. Foi este papelinho que fotografei e usei em Pequim, para pedir exatamente a mesma coisa.

E começa o 12º dia de viagem. Hoje dormi 10,5h. Como é possível dormir 10,5h seguidas, em viagem. E acordei com despertador, senão continuava. Mas os dias são intensos, non-stop de manhã à noite, e o corpo pede-me um descanso à medida, sobretudo a 3.200 metros de altitude, e depois de na primeira semana andar a dormir pouco, com os horários ainda trocados. Agora está plenamente adaptado e até já abusa.

Mais uma vez volto àquele pequeno restaurante, desta vez para comer a tarte de arroz tibetana, feita no momento, quente, e um pacote de leite com pedaços de morango, comprado na loja ao lado. O carro de apoio vai agora andar com alguns destes deliciosos pacotes de leite disponíveis. Não tenho ligado nada aos comprimidos isotónicos ou energéticos, nem sei o que são, para dissolver na água, que a guia e o motorista trouxeram. Eu própria levei comprimidos isotónicos, com sabor a morango, mas a embalagem voltou intacta para Portugal. Senti muito a sua falta na viagem dos 838 km de bicicleta pela Europa Central, mas aqui na China não. O esforço foi menor. Efetivamente aqui na China fiz 600 km de bicicleta, divididos por 13 dias (8 dias foram feitos a pé, com caminhadas ou trekking, e os restantes 4 foram passados em aviões e aeroportos), ao passo que na viagem da Europa Central foram 838 km em 16 dias, e foram dias muito mais intensivos a pedalar.

E arrancamos de carro, pela manhã, desta vez em direção à Garganta do Salto do Tigre, uma região de desfiladeiros, e um dos meus locais preferidos de toda esta viagem. Mas eu – agora de manhã, ao arrancar no carro  – ainda não sei isso. Segue viagem, Rute, na ignorância das maravilhas que te esperam. Ainda falta muito para lá chegares. Um dia inteiro de aventuras.

062 - Tranquilamente Pedalando

Hoje tenho 40 km de bicicleta pela frente, divididos por três montanhas. Algumas partes serão feitas a pé, com a bicicleta pela mão, e outras de carro, quando o chamei porque são subidas demasiado a pique e nunca mais saía dali. Tenho um destino hoje: a Garganta do Salto do Tigre, a cerca de cem quilómetros de distância de Shangri-La, e antes de lá chegar irei visitar algumas atrações pelo caminho. Não há tempo a perder.

Iaques

Começa uma descida, e o Nong Bu tira a bicicleta para eu partir. Nesta foto vê-se também a bicicleta elétrica da guia, dentro da carrinha. Se eu desejasse, ela acompanhar-me-ia. Mas eu prefiro ir sozinha. Sinto-me segura tendo o carro de apoio por perto, algures à minha espera. Eu não conseguiria estar desaparecida durante muito tempo.

Ora aqui estão as ervas penduradas na árvore ao centro. Parece musgo. São estas ervas que os Macacos-de-Nariz-Arrebitado-de-Yunnan comeram, no Parque Nacional, como se de algodão doce se tratasse. Se alguém souber o nome delas, alguém mais entendido em Botânica, peço o favor de entrar em contacto comigo para esclarecer-me (e esclarecer-nos a todos, pois eu completarei o texto destas crónicas com essa informação).

063 - Os Tranquilos Cenários do Sul da China... e o Hukou

Hoje vou falar de algo muito importante na China: o Hukou.
Alguém já ouviu falar do Hukou? Muito pouca gente, creio. E no entanto este pequeno Hukou é fulcral na definição da estrutura social e económica na China.
Para explicar o que é o Hukou, nada melhor do que ouvir exatamente um chinês, e todas as suas experiências de vida. Comecemos portanto pela transcrição de um texto escrito por Jian Shuo Wang:

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O Hukou é uma autorização de residência dada pelo governo da China. É emitido baseado na família. Todas têm um livrete Hukou que regista informações sobre os membros da família, incluindo o nome, data de nascimento, relação entre si, estado civil (e com quem é casado), morada, e também quem é a entidade patronal.
Toda as pessoas na China têm um Hukou.

O Hukou antes de 1980
Antes de 1980 o Hukou é extremamente importante. As pessoas são obrigadas a permanecer na pequena área em que nasceram (onde o Hukou foi emitido) e ficar lá até morrerem. Não se podem  mudar. Elas podem viajar, mas não há acesso ao trabalho, serviços públicos, educação ou mesmo alimentos noutras terras. É como visitar outros lugares com um tipo de visto B-1 (comercial) – pode-se visitar, mas não se pode trabalhar lá (é ilegal), não se pode ir para a escola (não se é aceite), não se pode ir ao hospital (sem um Hukou , não há possibilidade de ser tratado). Para a alimentação, naqueles velhos tempos, não é possível comprar comida, independentemente de quanto dinheiro se tenha. É preciso usar o Liangpiao (senhas de ração) para obter comida. O Liangpiao é emitido pelo governo da região onde o Hukou está registado, e após apresentação deste. Então, basicamente, pode-se sobreviver com o Liangpiao por alguns dias, mas não por muito tempo (especialmente levando em consideração que o Liangpiao emitido por uma província ou cidade não pode ser usado noutra província ou cidade).
Assim, basicamente, naquela época, sem um Hukou, as pessoas não podem deslocar-se. Existem algumas pessoas a deslocarem-se dentro do país, mas o seu status é praticamente o mesmo que os imigrantes ilegais nos EUA.
Alterar o Hukou de uma região para outra é muito difícil – tão difícil como obter um cartão verde nos EUA. É ainda mais difícil mudar de uma área rural para uma cidade – basicamente, há também dois tipos de Hukou, um é Hukou rural e outro é o Hukou urbano. Passar de rural para rural é mais fácil, mas mudar de rural para urbano é muito difícil – são precisos anos. Apenas em muito poucas situações ocorre a mudança: 1) ao entrar numa universidade na cidade, ou 2) ao casar com alguém na cidade. Em ambos os casos, é preciso aguardar um longo período de tempo para obtê-lo. Há um número de Hukous limitados abertos todos os anos, e é necessário competir para obtê-los.

O Hukou depois de 1980
Após o ano de 1980, muitas coisas mudam. Na prática, o Hukou não é aplicado tão rigorosamente como antes. Logo à partida o Liangpiao já não é exigido para comprar comida – basta dinheiro. No trabalho, ainda há uma enorme diferença para as pessoas com um Hukou ou sem um Hukou (o mesmo de hoje), mas é possível deslocar-se. Isto permitiu que muitos trabalhadores migrantes abandonassem as suas terras e fossem para as cidades onde são contratados para trabalhos de mão-de-obra intensiva. Trabalhos típicos como os das fábricas de têxteis, construção civil e também babysitters. No entanto, a educação dos seus filhos ainda constitui um grande problema. Estes não podem receber educação como as outras crianças; assim, em algumas regiões, frequentam uma escola criada apenas para pessoas sem Hukou (escola de trabalhadores migrantes). Pessoalmente, eu considero isto pior do que a velha política de “separação entre pretos e brancos”.

Hoje
Hoje o Hukou não desempenha um papel tão importante como antes, mas ainda existem muitas diferenças. Aqui estão alguns exemplos:
1) Seguro Médico. Por exemplo, as pessoas que vivem em Xangai sem um Hukou de Xangai não estão cobertas pelo seguro médico social. Se a pessoa adoecer, ele / ela precisa de pagar por si próprio(a) a despesa na totalidade. Isto já não é significativo, uma vez que existem cada vez mais seguros comerciais, os quais podem ajudar nesta matéria.
2) Trabalho. Muitos empregos só estão disponíveis para pessoas com um Hukou de Xangai. É discriminação, mas alguns empregadores têm que fazê-lo porque ainda há diferenças nos regulamentos.
3) Segurança. Guangzhou é um caso extremo. Há quatro anos, quando visitei Guangzhou, os meus amigos disseram-me para ter sempre o meu cartão de identificação nacional comigo. A polícia pode parar qualquer um a qualquer hora, na rua, para verificar o cartão de identificação. Se eles descobrirem que o endereço do cartão de identidade não está em Guangzhou, e a pessoa não tem uma autorização de residência temporária, têm o direito de deter a pessoa e devolvê-la ao seu local de origem. Esta é a prática comum em muitas cidades. Este regulamento foi abandonado apenas em 2003, quando um tipo chamado Sun Zhigang foi espancado até à morte durante o período de detenção.

O Hukou e eu
O Hukou teve um alto impacto em mim. Eu nunca frequentei o jardim de infância, já que na altura em que me mudei para a cidade, com a idade de 5 anos, ainda não tinha conseguido o meu Hukou. Demorou muito tempo até obtê-lo, e por isso o jardim de infância recusou-se a aceitar-me. Fiquei em casa até ter 7 anos e ter um Hukou. Se eu não conseguisse um Hukou naquele momento, o risco era de nem poder ir à escola primária. Esta é uma história real.
Da minha escola primária até ao final do meu ensino secundário (1982-1995), o meu Hukou está em Luoyang. Quando entrei na Universidade Jiaotong de Xangai, o meu Hukou foi transferido temporariamente para a Universidade, por quatro anos. Quando me formei, tive um período crítico no qual tive que encontrar um emprego local de alta tecnologia, e ser qualificado para o número limitado de cargos abertos para portadores de um Hukou. Os padrões são altos – é preciso estar entre os principais, com um bom registo, e ser contratado por empresas em determinada área. Isso funciona exatamente como funciona a imigração no Canadá ou nos EUA. De volta à minha história, obtive um Hukou de Xangai. Então transferi o meu Hukou da universidade para um lugar em Xangai (eu nem sei muito claramente onde fica esse lugar). Só depois de comprar o meu próprio apartamento três anos depois, eu pude transferir o meu Hukou daquele lugar para o endereço do meu apartamento. Esta é a história. A minha permissão de residente atual é em Xangai, no meu próprio apartamento.
Se eu for para Pequim, terei problemas. De acordo com o regulamento, preciso de obter uma autorização de residência temporária em Pequim. A “permissão de residência temporária” é um grande passo à frente no sistema original do Hukou, pois pelo menos posso obter alguma prova de que eu posso permanecer legal naquela cidade (antes, não havia como fazer isto). No entanto, ainda é uma coisa muito má. As pessoas não podem deixar de perguntar “Porque preciso eu de ficar TEMPORARIAMENTE no meu PRÓPRIO país?”

Desafios que traz
Embora o sistema atual seja amplamente considerado injusto e desumano, vejo o desafio que implica eliminar este sistema. Os benefícios que o governo dá às pessoas com diferentes Hukou são muito díspares, especialmente entre a cidade e a aldeia. Eu acredito que se for abandonado, rapidamente o caos virá – muitas pessoas a mudarem-se das aldeias para as cidades, e das cidades menores para as cidades maiores. Se não for bem feito, causará um grande problema. É exatamente como se todas as fronteiras do mundo fossem abertas e as pessoas se pudessem mover livremente de um país para  outro, de um dia para o outro. Poderíamos imaginar o que aconteceria. Como resolver este problema histórico é um grande desafio para esta geração na China.¹

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Explicando então detalhadamente o que é o Hukou, bem como um pouco da sua história:
O Hukou é uma espécie de passaporte doméstico (abaixo está a foto de um), foi criado na década de 1950, após o estabelecimento da República Popular da China em 1949, e tem sido a fonte de muitas desigualdades sociais, sobretudo na distinção que faz entre os residentes rurais e urbanos. Os residentes urbanos receberam benefícios que variam desde a pensão de reforma, educação, ou cuidados de saúde; enquanto os cidadãos rurais foram deixados por sua conta. Os titulares do Hukou urbano receberam senhas de ração para as necessidades diárias, incluindo alimentos e têxteis, ao passo que os residentes rurais foram forçados a produzir tudo eles próprios. Os agricultores tiveram de formar parte de uma unidade de produção, produzindo cereais e outras colheitas, as quais eram compradas a preços baixos pelo Estado, o qual, por sua vez, os racionava entre os trabalhadores urbanos. Enquanto o Estado providenciava habitação na cidade, os indivíduos nas aldeias tinham que construir as suas próprias casas. O Estado investiu em educação, providenciou empregos e forneceu benefícios de aposentadoria para residentes da cidade e não forneceu nenhum destes serviços para os cidadãos rurais.

O objetivo do Hukou, ao ser oficialmente lançado em 1958, era o controlo da mobilidade da população, visando a estabilidade social e a modernização rápida. As áreas urbanas têm sido historicamente onde os regimes autoritários são mais vulneráveis: para combater isso, o governo central deu tratamento preferencial aos residentes da cidade, na esperança de evitar revoltas contra o Estado, especialmente nos primeiros anos, quando era particularmente suscetível à rebelião.²

Devido ao “Grande Salto em Frente”, porém, o qual visava o aceleramento económico, a demanda de mão-de-obra nas cidades tornou-se imperiosa. Ironicamente, registou-se uma precipitação de milhões de pessoas para as cidades nos anos de 1958 a 1960, em resposta à verdadeira explosão de empregos urbanos industriais e de construção. Em 1958, os líderes da China convidaram as províncias, os municípios e as regiões autónomas a emitir títulos de construção e a recrutar o trabalho necessário para promover a indústria ao serviço do crescimento acelerado. Isto provocou uma quebra geral do controle administrativo. Efetivamente deu-se o colapso dos controles fiscais e administrativos, e com as empresas a enfrentar intensas pressões para aumentar a produção, a força de trabalho industrial aumentou consequentemente para taxas sem precedentes. Era um período em que os “empregos procuravam as pessoas”. Bastava saber ler e escrever, e ser saudável, para se estar qualificado para um emprego em qualquer fábrica.
A partir de 1960, com o descalabro do “Grande Salto em Frente” a trazer a ruína e a mergulhar a nação na fome, o Estado iniciou então a implementação em grande escala do sistema Hukou, num esforço para recuperar o controle da economia e da sociedade. Considerando que a situação em 1958-59 tinha sido tal que dezenas de milhões de pessoas conseguiram romper os regulamentos para encontrar empregos urbanos, nas próximas duas décadas o sistema Hukou fez com que a migração urbana praticamente estancasse e exerceu um controle de ferro sobre as tendências residenciais e laborais quer na cidade, quer no campo.³

Chegamos então à década de 1980. Com as reformas económicas a ganharem ritmo, as cidades voltaram a precisar de mão-de-obra barata. E assim começou o que muitas vezes é descrito como uma das maiores migrações humanas de todos os tempos, à medida em que centenas de milhões de jovens, homens e mulheres do campo, foram despejados em fábricas e locais de construção nas cidades em expansão da China, sobretudo nas zonas costeiras.⁴ Por esta altura, estima-se que cerca de 200 milhões de chineses vivam fora das suas áreas oficialmente registadas e em muito menor elegibilidade para a educação e serviços públicos, vivendo, portanto, em condições semelhantes de muitas maneiras às de imigrantes ilegais ou como existia no regime do Apartheid, na África do Sul. Os milhões de camponeses que deixaram as suas terras permanecem presos nas margens da sociedade urbana. Constituem uma mão-de-obra de baixo custo, sem acesso aos benefícios sociais. Muitas vezes são culpados pelo aumento do crime e do desemprego, e sob a pressão dos seus cidadãos, os governos das cidades impõem regras discriminatórias. Por exemplo, os filhos dos trabalhadores agrícolas não podem matricular-se nas escolas da cidade, e ainda hoje têm de viver com os avós ou outros parentes para frequentar a escola nas respetivas regiões. Eles são comumente referidos como os filhos que vivem em casa. Há cerca de 130 milhões de crianças que vivem em casa, vivendo sem os pais, conforme relatado por pesquisadores chineses.²

Benefícios do Hukou? Também os há.
Os esforços do governo central para conter a migração têm sido um fator importante no rápido desenvolvimento da economia chinesa. Efetivamente o rigoroso controlo da migração para as zonas urbanas ajudou a evitar uma série de problemas enfrentados por muitos outros países em desenvolvimento. Por exemplo, o aparecimento de bairros de lata ao redor das áreas urbanas devido a um influxo maciço de indivíduos que procuram trabalho não tem sido um problema, nem têm surgido condições de saúde precárias devido à alta densidade populacional. E, independentemente das suas imperfeições, a capacidade do sistema Hukou de manter a estabilidade contribuiu para o crescimento económico da China.²

Nos últimos anos, foram tomadas medidas para aliviar as desigualdades promulgadas pelo sistema Hukou, com as grandes reformas anunciadas em março e julho de 2014, que incluíram uma disposição que eliminou a divisão entre o status agrícola e não agrícola do Hukou, bem como a redução nas restrições ao movimento para vilas e cidades com base no tamanho. Isto incluiu a abolição total das restrições nas cidades e nas pequenas cidades, a remoção gradual das regulamentações nas cidades médias, o relaxamento caso a caso nas grandes cidades e a manutenção do controle rigoroso nas maiores cidades da China.²

A transformação, todavia, tem sido dolorosamente lenta para os detentores do Hukou rural. O processo de passar os residentes rurais para residentes urbanos tem sido lento, já que as grandes cidades não estão dispostas a converter os migrantes rurais em detentores urbanos de Hukou.⁵ Em essência, o Hukou é um sistema de registo da população que o governo usa para  orçamentar as provisões destinadas  aos encargos sociais. O tratamento diferenciado associado aos vários status de Hukou tem implicações nas finanças públicas e na segurança social.⁶
Talvez por isso o plano de 2014 vise a transformação de apenas 100 milhões de migrantes rurais, menos da metade da população migrante rural. Veja-se um exemplo concreto: os migrantes qualificados em Xangai totalizaram 300 mil em 2016, mas apenas 26 mil conseguiram obter um Hukou de Xangai.⁵ O panorama ainda está longe de ser positivo. Em todo o país, quase dois terços dos trabalhadores migrantes na China não assinaram contratos de trabalho que lhes confiram benefícios adicionais.⁷

Hoje em dia os jovens migrantes rurais começam a optar pela área de serviços, e já não tanto pelas fábricas. Efetivamente quase 47 por cento dos trabalhadores migrantes foram empregados neste setor em 2016. Todavia esses empregos tendem a pagar menos ainda do que os das fábricas. Mesmo assim, alguns migrantes mais jovens escolhem empregos na área dos serviços porque são encarados como menos stressantes. “Eu costumava ser mais bem pago numa fábrica, mas o trabalho aqui é mais leve”, disse Liu Ning, de 23 anos, que trabalha numa loja de telemóveis.⁷

Atualmente o Partido Comunista reconheceu que a economia precisa de ser reequilibrada estimulando o consumo. No entanto, os atuais 282 milhões de trabalhadores migrantes nos centros urbanos da China constituem um obstáculo a esse objetivo. Estes constituem 35% da força de trabalho total da China, com cerca de 807 milhões de pessoas⁴. Os trabalhadores migrantes rurais ganham um salário médio mensal de 3.275 yuans (468€), cerca de metade do salário médio dos funcionários urbanos.⁸ Esta desigualdade de riqueza significa que uma proporção substancial da população da China, ou seja, uma classe crescente de trabalhadores migrantes, é impedida de desempenhar um papel relevante na segunda maior economia do mundo.


¹ Wang, Jian Shuo (2006, 10 Junho). “Hukou System in China”. Página consultada a 1 Janeiro 2018,
<https://web.archive.org/web/20070808024838/http://home.wangjianshuo.com/archives/20060610_Hukou_system_in_china.htm>

² “Hukou system” [ca. 2017]. Wikipedia. Página consultada a 1 Janeiro 2018,
<https://en.wikipedia.org/wiki/Hukou_system>

³ Cheng, Tiejun e Selden, Mark “The Origins and Social Consequences of China’s Hukou System”, The China Quarterly, No. 139 (Sep., 1994), pp. 644-668 [versão online], Published by: Cambridge University Press on behalf of the School of Oriental and African Studies. Página consultada a 1 Janeiro 2018,
<http://www.urbanlab.org/articles/China/state%20and%20power/Cheng%201994%20-%20Hukou%20origins%20and%20consequences.pdf>

⁴ “Migrant workers and their children” [ca. 2017]. China Labour Bulletin. Página consultada a 1 Janeiro 2018,
<http://www.clb.org.hk/content/migrant-workers-and-their-children>

⁵ Hsu, Sara (2016, 28 Dezembro). “China’s Urbanization Plans Need To Move Faster In 2017”. Forbes.  Página consultada a 1 Janeiro 2018,
<https://www.forbes.com/sites/sarahsu/2016/12/28/chinas-urbanization-plans-need-to-move-faster-in-2017/#14a01e3374db>

⁶ Li, Bingqin (2017, 19 Maio).“China going nowhere on Hukou reform”. East Asia Forum. Página consultada a 1 Janeiro 2018,
<http://www.eastasiaforum.org/2017/05/19/china-going-nowhere-on-hukou-reform/>

⁷ Hancock, Tom (2017, 3 Setembro).“China’s migrant workers feel pinch as Beijing pulls back on wages”. Finantial Times. Página consultada a 1 Janeiro 2018,
<https://www.ft.com/content/0383433e-8ca0-11e7-a352-e46f43c5825d>

⁸ “Employment and Wages” [ca. 2017]. China Labour Bulletin. Página consultada a 1 Janeiro 2018, <http://www.clb.org.hk/content/employment-and-wages>

Um Hukou.

064 - Almoço em Bai Shui Tai

Chegámos a Bai Shui Tai, onde vou visitar os famosos terraços brancos de água azul, nas montanhas. Antes disso, almoçamos. Nesta foto vê-se uma especialidade da zona: arroz vermelho. Hoje estou um pouco desconfortável do estômago, não faço ideia porquê, nesta altura do campeonato já não faço ideia porquê. Ainda por cima esqueci-me de trazer de Portugal as saquetas que se tomam antes as refeições, dissolvidas em água, para preparar o estômago. A guia diz-me que isso não se vende (nas raras farmácias) por aqui. Mas basta-me ter cuidado e passará rapidamente. Se não cometer nenhum deslize – fritos, picantes, molhos e temperos exagerados – comer apenas alimentos cozidos ou grelhados, isto passa rapidamente. Mas alimentos grelhados na China é coisa inexistente. Durante estes 25 dias vou comer uma única vez carne grelhada, e comigo ao lado da pessoa que está a cozinhar, a dar-lhe instruções sobre como fazer. E ela muito espantada. Nem sequer existe o conceito de grelhar carne ou peixe só com sal. Tem de haver sempre uns refogadozinhos e uns molhozinhos. Talvez noutras zonas da China exista esse conceito e esse hábito, mas aqui em Yunnan – e mais tarde em Pequim – não vi nada. Portanto a guia tentou mandar vir uns pratos ligeiros. Aqueles ovos mexidos com tomate são uma delícia. Mas são fritos e têm quase um litro de óleo misturado. Pelo que tive de conter-me, comi um garfada e pronto, mesmo sabendo tão bem. Aquela sopa de legumes com tofu também comi. O tofu vem crú, cortado com facas molhadas com água da torneira, e torna-me a coisa complicada, mas eu deixo o tofu e como os legumes cozidos e a água fervida, esperando que corra tudo pelo melhor. Na ponta oposta está um prato qualquer cheio de picante – para o motorista e para a guia, nesse não tocarei. Resultado: praticamente só comi arroz e sopa de legumes. O prato amarelo ao centro já nem me lembro o que é. É um legume frito no wok.

A comprar o bilhete para ir visitar os famosos terraços de água de Bai Shui Tai. Custa 30 Yuans (ao câmbio que estou a usar, 1 euro equivalente a 7 yuans, é cerca de 4,30€). O motorista Nong Bu e a guia ficaram sentados no restaurante, à minha espera. Esta visita leva cerca de uma hora, disseram-me.

Aqui fui abordada pelos locais: uma senhora perguntou-me se eu queria ir de cavalo até lá acima. Custa 30 yuans a subida, e se também quiser descer são 50 yuans. Não faço ideia se é preciso subir muito ou não. Olhei lá para cima, hesitante. Parece-me que sim. Faz um calor enorme, são cerca de duas da tarde, comi pouco, e estou a sentir este desconforto no estômago. Se calhar é melhor deixar-me levar em cima de um cavalo, em vez de pôr-me com caminhadas a subir montanhas. Aceitei a subida. Agora não tenho troco, só tenho uma nota de cem yuans. Se soubesse disto, teria destrocado ao comprar o bilhete. A senhora não tem troco, mas disse-me que me levaria lá acima, no cavalo, e depois quando eu voltasse para baixo, a pé, ela já teria arranjado troco para me dar. Assim foi.

Podem perguntar-me: mas como é que conversaram isto tudo? Em inglês? Claro que não. Nem eu própria sei como é que conversámos isto tudo. Mas conversámos e ficou tudo ajustado. Ela fazia-me o valor com os dedos. Três dedos para 30 yuans, cinco dedos para 50 yuans. Depois os gestos de ir e voltar. Enfim, o que é certo é que nos entendemos.

065 - Visita aos Terraços de Água de Bai Shui Tai

Pelo que soube existem uns semelhantes na Turquia, onde ainda não fui. É um cenário impressionante. Trata-se de uma rocha calcária formada ao longo de milhares de anos, através da sedimentação de carbonatos de cálcio trazidos pelas nascentes da montanha – a Montanha Nevada de Haba. Os terraços foram-se formando camada após camada, e são chamados pelo povo Naxi de  Shi Pu Zhi, que significa “flores a crescer”. Aparentemente a religião Dongba, do povo Naxi, tem raízes aqui. Conforme referido na crónica 8, a religião Dongba tem origem numa antiga tradição tibetana anterior à chegada do Budismo. A mitologia Dongba baseia-se na relação entre o Homem e a Natureza. Conta a lenda que Dingbashiluo, o primeiro santo da religião Dongba, ficou fascinado pelo belíssimo cenário destes terraços, enquanto viajava do Tibete para Yunnan, e decidiu ficar aqui e rezar os sutras Budistas. A cor branca dos terraços é santa e auspiciosa.

O passeio a cavalo foi minúsculo, afinal. Se calhar uns duzentos metros. A partir de certa altura começa esta passadeira, com escadas, a qual constitui precisamente a maior parte do trajeto.

A parte má desta história: temos de esforçar-nos muito para não olhar lá para baixo, onde o governo chinês autorizou a construção de uns terraços em cimento, a imitar os verdadeiros. A fealdade é de tal ordem que quase estraga este passeio. Esforcei-me muito por tirar fotos sem se ver aquela parte lá de baixo, e esta deixei ficar para poder contar e explicar a situação. Esta foto não ficou mal de todo. Ao vivo, e com uma visão de 360 graus, é muito pior.

Atrás destas senhoras vê-se a passadeira vermelha, onde os visitantes de Bai Shui Tai caminham – eu inclusive, claro. Elas estão habituadas aos turistas e eram atrevidas, desta vez foram elas que se meteram comigo e me chamaram. Nihao! – cumprimentei-as. Perguntaram-me qualquer coisa, mas nada feito, a língua é um entrave.

Ele está a escrever caracteres Naxi, e mostrou-mos. O segurança do parque está sentado ao seu lado, a observá-lo, e nitidamente absorto.

Aparentemente isto será um poço dos desejos, ou algo que o valha, com incenso a arder à volta.

Uma das raras compras que fiz durante esta viagem à China: trouxe comigo uma daquelas pedras em camadas. As pequeninas são 15 yuans. Ainda hoje sinto dúvidas sobre se fiz bem ou não. Na volta andam a destruir os terraços, a arrancar bocados para venderem as pedras. Estive mais de um quarto de hora de volta delas e a fotografar o vendedor, bastante simpático, e a conversar com aquelas duas raparigas – a de preto sabia umas poucas palavras de inglês. Ele está a vender as pedras dentro do parque, onde existe entrada controlada e seguranças. Supostamente não é nada ilegal, mas enfim, depois de ver a a imitação destes terraços, com materiais baratos e feios, já acredito em tudo. Não devia ter trazido a pedra, afinal de contas aqui em minha casa não me faz falta nenhuma. Ficam-me estes dilemas na cabeça sobre um turismo responsável.

Terminada a visita a Bai Shui Tai, desci a pé. A senhora que me levou no cavalo está de costas, com um boné branco e uma camisa às flores. Estavam todas distraídas e na conversa. Tive de chamá-la para pagar os 30 yuans do minúsculo (mas mesmo assim agradável) passeio de cavalo, na subida.

066 - Novamente Pedalando

Estas quedas de pedras são muitíssimo frequentes. Várias por dia. Não fotografei nem um terço. Se fotografasse todas, teríamos uma foto destas por cada crónica. Claro que é um perigo. Sobretudo eu na bicicleta. Mas o que posso fazer? Cancelar a viagem com medo das pedras?

Aproveito esta foto para comentar uma questão muito importante: o assento da bicicleta. Este selim é meu. A bicicleta é alugada, pertence à guia, mas o selim comprei-o em Portugal e levei-o comigo. (Mais uma coisa na mochila a atrofiar os controlos dos raios-x, nos aeroportos. Sabem lá eles o que é aquilo, dentro da mochila, com ferros. É uma bomba artilhada!) Efetivamente no ano anterior, pela Europa Central, onde fiz 838 km de bicicleta com o meu namorado, sofremos desgraçadamente os dois, com os assentos das bicicletas. Ah pois é. Ninguém se lembra disso. Chegou a um ponto em que já andávamos em pé, nos pedais. Ao jantar até já queríamos jantar em pé. Torna-se muito complicado porque as dores são significativas e perturbam o bem estar da viagem. Portanto, este ano já não me apanham desprevenida. Em primeiro lugar: gel Thrombocid. Porém uma amiga minha, médica, que me aconselhou sobre estas coisas, disse sem rodeios: Rute, ou mudas o assento da bicicleta, ou não há Thrombocid que te valha.
Mudar o assento da bicicleta. O assento da minha bicicleta, em Portugal, é elegantíssimo, a condizer com as cores da bicicleta. E agora tenho de pôr um mostrengo para andar confortável. Ainda resisti durante alguns meses. Mas antes da viagem, resignada, fui à loja das bicicletas existente perto da minha casa. Diga-me lá que selins tem, por favor. E experimentei dois ou três, um deles de uma fealdade extrema (mas era um autêntico sofá) até que escolhi este, em gel.
Bom. É uma coisa revolucionária. Acabaram-se as dores. Aquilo é de um conforto e de uma suavidade extrema. E enfim, não é feio de todo, creio que até disfarça bem, não?…

Vejo a carrinha do Nong Bu parada, à beira da estrada, sem ninguém dentro, pelo que parei a bicicleta também. Eles estão para aqui algures. Há um corredor à minha direita que leva à entrada de uma casa. Espreitei à entrada desse corredor. E este pastor alemão vem em passo rápido ter comigo. O que irá acontecer? Vou levar uma lambidela ou uma dentada? Fiquei quieta a olhar, a vê-lo vir na minha direção, rapidamente. Bom, já não consigo fugir para lado nenhum, agora. Vontade não me faltou, ao ver um cão enorme daqueles vir tão decidido na minha direção, numa casa estranha, e quase a correr.
Pois o pastor alemão era um mimado – ou uma mimada, porque é fêmea – e veio buscar-me e pedir mimos, os quais lhe dei prontamente. Vim a saber que ela está habituada a estranhos, pois ali é precisamente uma Casa de Hóspedes vocacionada para cicloturismo, e vê-se uma das bicicletas à direita (aquela não é a minha, a minha está na berma da estrada, lá fora). A guia estava lá dentro a conversar com uma mulher, porventura a dona desta casa.

067 - Os Cenários Grandiosos de Yunnan

Vou fazer agora uns rápidos 15 km de bicicleta, a descer a montanha até chegar ao hotel, na Garganta do Salto do Tigre (mais à frente explicarei o porquê deste nome), os quais acabaram por não ser assim tão rápidos porque parei muitas vezes para apreciar a paisagem e tirar fotos, e ainda visitei uma aldeia pelo caminho. Mas esta descida foi tão fenomenal que merece uma crónica só para ela.

068 - Explorando mais uma Aldeia... e o Salário Mínimo na China

Enquanto passeio por esta aldeia, abordo outro tema: o do salário mínimo.
Na China o valor do salário mínimo varia de província para província, sendo decidido por cada governo regional de acordo com as condições económicas locais. Em Abril de 2017 o Governo Municipal de Xangai, por exemplo, aumentou 5% o salário mínimo, de 2.190 yuans para 2.300. Ao câmbio desta altura, representa 329€. Xangai é quem tem o salário mínimo mais alto, na China. A seguir vem Pequim, com 2.000 yuans (286€). Os ordenados mínimos em Xangai, Pequim e Shenzhen são agora mais altos do que em certas áreas da União Europeia, como por exemplo a Bulgária, a Roménia, a Lituânia, entre outros. Porém, nos seus níveis mais baixos – como na região de Hainan (1.280 yuans),  Anhui (1.150), Guangxi (1.000 yuans ou 143€), os salários são mais comparáveis aos de países como a Índia e o Vietname¹.

Veja-se esta notícia do jornal Expresso:
O custo de cada hora trabalhada na indústria chinesa subiu nos últimos anos, suplantando as remunerações em economias como o Brasil e o México e aproximando-se do custo do trabalho industrial em Portugal, segundo um estudo divulgado pelo “Financial Times”.
Um estudo da consultora Euromonitor citado pelo “Financial Times” nota que entre 2005 e 2016 o custo de cada hora de trabalho na indústria na China disparou de 1,2 para 3,6 dólares (a preços constantes), enquanto no mesmo período o custo do trabalho na indústria em Portugal caiu de 6,3 dólares por hora para 4,5 dólares por hora.
Segundo a mesma fonte, a subida das remunerações na China colocou esta economia em situação de desvantagem (no que respeita ao custo do trabalho) face ao Brasil, à Argentina e ao México, onde o salário por hora na indústria não chega aos 3 dólares².

Embora a população em idade ativa da China (16 a 59 anos) tenha vindo a contrair desde 2012, a força de trabalho continuou a expandir-se gradualmente para situar-se em 807 milhões em 2016, contra 789 milhões em 2012. Isto sugere que mais pessoas que antes eram excluídas da força de trabalho (ou de certos setores da força de trabalho) conseguiram encontrar emprego à medida em que a economia se expandiu e novas oportunidades de emprego se abriram.
O problema não é a falta de novos empregos, mas sim que muitos dos novos empregos que estão a ser criados são mal remunerados e inseguros e exigem que os funcionários trabalhem longas horas em condições muitas vezes perigosas. O vasto exército de mensageiros que entregam encomendas em redes de compras online é um exemplo óbvio das novas oportunidades de emprego e problemas na China. Um desses mensageiros descreveu como eles “trabalham 12 horas por dia, oferecendo mais de 300 itens por dia”.

Quase oito milhões de licenciados entraram no mercado de trabalho em 2017 com altas expetativas, mas poucas chances de encontrar um cargo adequado. A maioria dos licenciados acabou em posições de remuneração relativamente baixa, com salários que poderiam ter sido alcançados indo trabalhar para uma fábrica saídos diretamente da escola secundária. Uma pesquisa sobre novos licenciados a trabalhar em fábricas numa cidade do sul – Foshan – em 2017, por exemplo, mostrou que o seu salário médio mensal era de apenas 3.614 yuans (452€).

A taxa de desemprego oficial da China flutuou de forma constante com pouco mais de quatro por cento nos últimos cinco anos e o número de desempregados permaneceu estável em cerca de nove milhões. Mas somente os trabalhadores com registo domiciliar urbano (cerca de metade da força de trabalho total) estão incluídos nestes dados, e a taxa de desemprego refere-se apenas à proporção entre os candidatos urbanos oficialmente registados e o número total de trabalhadores urbanos empregados. Aquela taxa ignora todos os trabalhadores rurais e trabalhadores migrantes rurais, trabalhadores estrangeiros, bem como aqueles em trabalho inseguro, a tempo parcial ou casual. O único uso real dos dados oficiais de desemprego é, portanto, uma ferramenta de propaganda, que pode pelo menos dar a ilusão de estabilidade no mercado de trabalho³.


¹ Koty, Alexander Chipman e Qian, Zhou (2017, 15 Novembro). “A Complete Guide to 2017 Minimum Wage Levels Across China”, China Briefing, Business Intelligence from Dezan Shira & Associates. Página consultada a 11 de Janeiro de 2018,
<http://www.china-briefing.com/news/2017/11/15/complete-guide-2017-minimum-wage-levels-across-china.html>

² Prado, Miguel (2017, 26 Fevereiro). “Salários na China crescem para níveis próximos dos de Portugal”. Jornal Expresso. Página consultada a 11 de Janeiro de 2018,
<http://expresso.sapo.pt/economia/2017-02-26-Salarios-na-China-crescem-para-niveis-proximos-dos-de-Portugal>

³ “Employment and Wages” [ca 2017], China Labour Bulletin. Página consultada a a 11 de Janeiro de 2018,
<http://www.clb.org.hk/content/employment-and-wages>

069 - Chegada a Tiger Leaping Gorge

Ou em português: Garganta do Salto do Tigre, situada numa  área protegida de Yunnan chamada “Os Três Rios Paralelos”.  Esta região foi declarada em 2003 pela Unesco como Património Mundial, abrangendo parte das bacias do Rio Yangtzé (mais especificamente, o rio Jinsha, o trecho superior do rio Yangtzé), do Rio Mekong,  do Rio Salween,  e as Montanhas Yunling. De acordo com a Unesco, esta área contém o ecosistema com maior biodiversidade, na China, e pode ser a região temperada mais diversificada do ponto de vista biológico, na terra.¹

Este nome – Garganta do Salto do Tigre – tem origem numa lenda em que um tigre, ao fugir de um caçador, saltou a garganta na zona mais estreita, com cerca de 25 metros. A Garganta do Salto do Tigre é uma zona de imponentes desfiladeiros, conhecida pelo trekking de “risco”. Amanhã vou fazer 18 km de trekking – de risco – 18 km absolutamente vibrantes.

Ficámos alojados os três na “Sean’s Guest House”, o único hotel em toda a viagem com um nome em inglês. O dono é australiano (não estava presente), e entretanto separou-se da mulher australiana e casou-se com uma chinesa, a qual está presente, vai receber-nos, e a qual virá a ter um papel muito importante nesta minha estadia. Será ela quem vai ajudar-me em algumas coisas, nomeadamente no cuidado com a alimentação (o meu primeiro e único grelhado na China) e na minha primeira aventura de subir uma montanha a pé. Aqui já existem alguns ocidentais, um pouco mais radicais, com rastas, por exemplo. No pátio do hotel estava um grupo de uns 7 ou 8 estrangeiros louros, rapazes e raparigas dos seus 20 e tal anos, com piercings e tatuagens, de roupas coloridas.

Eu nem queria acreditar quando vi o menú do restaurante, no hotel. Hamburguers, pizzas, panquecas. Hoje estou no 12º dia de viagem. Estas coisas existem? Hamburguers, pizzas, panquecas? Decididamente este hotel pertence a um australiano. Hoje é o dia em que não me encontro muito bem de estômago, tenho de ter cuidado (isto é algo ligeiro, afinal de contas pedalei o dia todo sem problemas – mas tenho de ter cuidado com o que como), pelo que optei por algo que me apetece bastante: sopa de abóbora! E arroz cozido. A pequena tigela de esparguete é da guia, ela deu-me esta tigela, mas não pude comer porque estava muito picante. Portanto o meu jantar foi sopa de abóbora e arroz cozido. E o mal estar do estômago desapareceu por completo. Acabou-se. Aqui vou ficar duas noites, e aqui vou recuperar totalmente do estômago.

Aproveito para comentar também a presença do pequeno bloco em cima da mesa – é um dos blocos que comprei nos “Animais de Rua”, através da internet, em Portugal, para apoiá-los (comprei alguns e distribuí-os pelos amigos) e este ficou para mim. Usei-o durante a viagem para ir tirando apontamentos.

O motorista Nong Bu a tocar o seu Huqin. Acho que é um Huqin. Ninguém conseguiu dizer-me o nome do instrumento em inglês. Se eu estiver errada, por favor corrijam-me. Há muitos tipos de Huqin, este será um deles, creio.


¹ “Three Parallel Rivers of Yunnan Protected Areas” (s.d.). Criterion (x), UNESCO. Página consultada a 14 janeiro 2018, <http://whc.unesco.org/en/list/1083>

070 - Hoje o Dia Começa a Pé

E um pouco precipitadamente: não ouvi o despertador. Acordei seis minutos antes do pequeno almoço, às 8.30h. De facto eu coloquei os tampões de cera nos ouvidos, pois os meus vizinhos de cima arrancaram às 6 da manhã, ou coisa que o valha, e eu estava a ouvir-lhes os passos. Portanto acordei, pus os tampões de cera nos ouvidos, e nunca mais ouvi nada. Nem o despertador. Apareci um pouco acelerada no restaurante, dez minutos depois. Assim começou o 13º dia desta viagem – a dormir profundamente.

E hoje tenho um pequeno almoço muito saudável: o resto da tarte de arroz tibetana, que trouxémos de Shangri-La, maçarocas de milho assado, maçãs, iogurtes, e o meu adorado leite com pedaços de morango. Não me lembro é porque está ali tanta água. Se calhar era para fazer chá.

O Nong Bu e eu arrancámos logo de seguida para fazer os 18 km de trekking ao longo do desfiladeiro. A guia ficou no hotel, aparentemente já teve um susto qualquer de uma queda, em que teve de ser içada. Efetivamente vou perceber que há ali um certo risco. São ravinas profundas,  e pelo que sei existem falésias com mais de três mil metros de altura, tornando-as das mais altas do mundo. A atividade erosiva dos rios, ao longo das eras geológicas, foi esculpindo essas escarpas imponentes. No site da Unesco lê-se: “Esta área é de valor excepcional na exibição da história geológica dos últimos 50 milhões de anos, associada à colisão da placa Indiana com a placa Euroasiática, o encerramento do antigo mar de Tétis, e a elevação da Cordilheira Himalaia e do Planalto Tibetano. Estes foram os principais eventos geológicos na evolução da superfície terrestre da Ásia, e continuam a decorrer. Os diversos tipos de rochas dentro da região registam esta história e, além disso, a paisagem cárstica, os monólitos de granito, e as formações de arenito Danxia na zona alpina incluem alguns dos melhores do seu tipo nas montanhas existentes pelo mundo.¹


¹ “Three Parallel Rivers of Yunnan Protected Areas” (s.d.). Criterion (viii), UNESCO. Página consultada a 15 janeiro 2018, <http://whc.unesco.org/en/list/1083>

071 - Caminhando pelo Temerário Desfiladeiro

Caminhamos ao longo do rio Jinsha, o trecho superior do rio Yangtzé. Quem sofre de vertigens jamais pode fazer este trekking. Na internet basta fazer pesquisa e surgem logo notícias de mortes. Não vimos vivalma, a não ser as pessoas que vão cobrando a passagem à medida em que avançamos. Vão cobrando 10 ou 15 yuans por cada etapa. No final paguei cerca de 65 yuans, se não me falham as somas todas.

O Nong Bu vai à frente, decidido,  com uma pequena mochila às costas com água e barras de cereais, para si próprio e para mim, e eu vou a uns metros dele, concentrada, também com água e chocolates na bolsa da cintura, além da câmera a tiracolo. Qualquer deslize, qualquer distração pode significar uma queda pela ravina abaixo. São caminhos estreitos, escorregadios, está tudo molhado da chuva noturna, sem nada onde nos agarrarmos, e só cabe uma pessoa de cada vez. O calçado é importantíssimo, não pode escorregar. É preciso ter uma passada cautelosa e firme. As fotos aqui têm de ser tiradas com calma: parar, manter o equilíbrio, nada de dar um passo ao lado – isso pode significar resvalar por ali abaixo. Tirar a foto. Guardar a máquina. Reiniciar a caminhada com os olhos no chão. Nada de observar a paisagem enquanto se caminha. Olhos sempre no chão e concentração.

Estou a adorar isto e sinto-me como um peixe na água. Sigo o Nong Bu, a dez ou quinze metros de distância, em silêncio.

072 - Chegada Vitoriosa

Estas gargantas – ou desfiladeiros – não são propriamente navegáveis. Encontra-se na internet alguma informação sobre isto, nomeadamente uma expedição sino-americana efetuada em rafting, em 1986, e que passou por aqui. Essa expedição visava percorrer todo o rio Yangtzé em rafting, e levavam com eles toneladas de equipamento, o que não facilitou a expedição. Pelo que leio, gerou-se uma competição com outras equipas de chineses, que tentaram ao mesmo tempo bater essa expedição de norte-americanos. Debaixo de um fervor nacionalista, os chineses queriam ser eles a navegar pela primeira vez o rio Yangtzé, desde o seu início, em grandes altitudes. Os rápidos são inimaginavelmente violentos, porém. Acabaram por morrer onze pessoas nesta história. Deixo um resumo e alguns links, para quem quiser saber mais. De facto é digna de um filme, esta aventura em rafting.

Resumo e fotos:
https://www.ancilnance.com/html/yangtze.php

Relato em 2016 de um dos sobreviventes chineses, Li Jing:
(Então com 27 anos, e na altura desta entrevista, em 2016, com 57 anos):
“Alguns relatórios sobre a expedição americana circularam recentemente nos media chineses. É a primeira vez que eu sei o que realmente aconteceu com a sua equipa. Fiquei um pouco chocado. Sob essa crescente atmosfera nacionalista graças à intensa cobertura dos media, fomos inconscientemente levados a competir com eles. Pessoalmente, entrei na equipa da expedição não simplesmente por patriotismo, mas fui motivado por uma curiosidade sobre o Yangtzé que começou na minha infância. Assim, quando houve a chance de subir este rio místico, aderi. No entanto, com a atmosfera competitiva a ficar mais forte, a natureza das descidas desviou-se do que eu pretendia originalmente. Olhando para trás, eu diria que foi um final trágico com tantos jovens que perderam a vida.
Eu fui educado nas falésias do cânion de Jinsha, na província de Sichuan. Ao longo do penhasco, corre o rio Jinsha, no extremo superior do Yangtzé. Os meus pais estavam sempre a avisar-me para não me aproximar da borda do penhasco, caso contrário eu poderia ser sugado pelo poderoso rio abaixo. Na memória da minha infância, o rio era um ser assustador, mas místico, porém não tive a chance de ver o que realmente era até que comecei a trabalhar na cidade de Panzhihua depois de terminar a faculdade, onde me formei em geologia. Em 1986, quando eu tinha 26 anos, juntei-me ao trabalho de preparação para as descidas do Yangtzé, levando-o como uma oportunidade preciosa para alimentar a minha curiosidade na infância. Mas, como eu disse, a expedição acabou por ser uma competição, em vez de uma viagem de pesquisa, como eu esperava. O ritmo foi rápido demais para uma pesquisa aprofundada. Tive que desistir de amostras de água e outros materiais coletados ao longo do caminho.”¹

Relato de um dos membros da equipa norte-americana, Richard Bangs:
(Descrevendo a morte de um membro da equipa, logo no início da expedição):
“A altitude desgastou os nervos e quebrou a já frágil saúde de alguns membros da equipa, mais particularmente [do fotógrafo] David Shippee. (…) O Dr. Gray diagnosticou-lhe pneumonia e doença de altitude. (…) David Shippee escreveu uma última carta para [a mulher] Margit: “Temos 3.200 quilómetros de água enlameada, mosquitos, cobras venenosas, cataratas e comida desidratada à nossa frente.” (…)

Naquela tarde, cerca das 15.30h, o céu negro rapidamente trouxe consigo uma tempestade de neve. Em poucos segundos, ninguém conseguia ver mais de quinze metros em qualquer direção. A neve acumulou-se nos raftings e nos coletes salva-vidas, e a temperatura caiu. Finalmente, a tempestade acabou. O céu ficou limpo tão rapidamente como se tinha eclipsado, e a temperatura subiu para 21° C. Mas a tempestade de neve ferrou em David Shippee, que agora se afundou numa recaída. Naquela manhã (…)  ocasionalmente foi tirando fotografias, mas os seus movimentos foram forçados e lentos. Após a tempestade de neve, ele ficou claramente angustiado, e foi necessário acampar.

Naquela noite, o médico ouviu os pulmões de David e ouviu os ruídos instáveis ​​que indicavam o excesso de fluido – um sinal dos estágios iniciais do edema pulmonar, uma forma muito séria de doença da altitude que pode levar rapidamente ao afogamento da vítima nos seus próprios fluidos internos. A única cura conhecida é a evacuação imediata para uma altitude mais baixa. Mas no plateau tibetano onde se encontravam acampados, a mais de 3.000 metros de altitude, o único caminho rápido para uma elevação mais baixa era por helicóptero.

Warren tinha um gerador portátil de 1.500 watts, ligou o rádio Icom da expedição pela primeira vez na viagem e tentou entrar em contacto com a sua equipa de estrada. Mas alguém se esqueceu de trazer a antena coaxial, e no início o rádio apenas cuspiu carga estática. Cerca de trinta metros de fio condutor foram apressadamente colocados entre dois remos, como uma antena e, finalmente,  vozes humanas ouviram-se, fracas.
Mas as pequenas vozes que saíam do rádio pareciam russas, e não havia possibilidade de comunicação.
(…) Warren “recusou-se a explicar porque não fez uma tentativa de pedir ajuda à China” (…) Warren tinha sido instruído com antecedência sobre como fazer contacto de rádio de emergência com a força aérea chinesa. Warren, por seu turno, disse que ele próprio verificou  Shippee, levando ao fotógrafo acamado uma xícara de chá quente na sua tenda e cobrindo-o com o seu próprio fato de sobrevivência. Shippee, ainda ansioso por agradar ao líder da expedição, pediu desculpas repetidamente por causar tantas dificuldades, mas Warren disse-lhe para não se preocupar, apenas para ficar bem.

Na manhã seguinte, Shippee estava fraco, quase inconsciente, cianótico e congestionado. A expedição teve que seguir em frente: a única maneira de baixar a elevação era o rio, embora fosse uma descida agonizantemente lenta. O Dr. Gray colocou Shippee no seu saco-cama, num dos barcos de rafting, com uma lona pendurada por cima para protegê-lo do sol ardente. O médico administrou-lhe antibióticos via intravenosa, bem como uma solução salina para prevenir a desidratação. Shippee começou a delirar; balbuciou que estava no Minnesota, no seu antigo salão de bilhar com os seus amigos. Ao meio-dia, um dos raftings apresentou um pequeno furo, pelo que o grupo teve de parar e acampar. (…) O David estava tão fraco que teve de ser levado nos braços para fora do barco. O Dr. Gray tentou aplicar-lhe uma máscara de oxigénio, mas Shippee mal conseguia respirar. Ao anoitecer, entrou em coma.
Às 23.24h, dia 3 de agosto de 1986, o vigoroso ruivo morreu.

A cerca de noventa metros das impetuosas águas, Gary Peebles chorou enquanto esfaqueava a terra com uma pá, cavando uma sepultura com metro e meio de profundidade, no solo duro do permafrost. Amanheceu com céu limpo, e os pássaros cantavam enquanto o sol se elevava e eles colocavam o corpo de David num saco amarelo impermeável, descendo-o no chão. Falou-se de levarem o corpo com eles, mas as questões de moral e saneamento levaram-nos a concordar num enterro na região selvagem.

Catorze dias depois, chegaram ao final da tarde de 13 de agosto à Ponte Zhimenda, a cerca de 25 quilómetros da cidade interior de Yushu. Aqui foram recebidos pela equipa de estrada, cujos sorrisos de parabéns se converteram em lágrimas ao saber das notícias da morte de David Shippee. Jan caiu nos braços do marido. Então ela contou a Ken as suas próprias notícias: vários rafters chineses haviam desaparecido algures, rio abaixo, entre Yushu e Batang, e foram dados como presumivelmente afogados.²

Relato de Jan Warren:
A mulher de Ken Warren (o líder da expedição, e a qual também participou na expedição, mas na equipa que seguia por estrada)  publicou um livro 25 anos depois, em 2011:
“Depois de transportar nove toneladas de equipamentos para a China, a expedição dirige-se para o ponto mais alto em qualquer expedição de um rio conhecida na história. Ao iniciar o rafting desde a nascente, a mais de 5.000 metros de altitude, nos grandes glaciares do Himalaias, até à cidade de Yibin, o objetivo era viajar ao longo dos 3.000 km de água inexplorada. Só o facto de chegar à nascente foi celebrado como um sucesso fenomenal para todos aqueles que entenderam que foram necessários anos de suor e lágrimas para chegar tão longe. (…)
Ao regressar aos Estados Unidos, Ken e Jan são levados pela controvérsia e submetidos a uma série de batalhas legais, incluindo um processo de morte injusto que se torna maior do que as furiosas águas que encontraram. (…)
Forçados ao silêncio por um emaranhado de batalhas legais, os Warrens não puderam refutar Richard Bangs. Mas agora, depois de vinte e cinco anos de silêncio, Jan Warren relata em primeira mão primeira mão os riscos assumidos na busca deste sonho.”³


¹ Jing, Li (2016, 17 setembro).“Survivor of rafting disaster on the Yangtze says he still loves China’s mightiest river”. Página consultada a 17 Janeiro 2018,
<http://www.scmp.com/news/china/society/article/2019987/survivor-rafting-disaster-yangtze-says-he-still-loves-chinas>

² Bangs, Richard (2013, 15 outubro). “A Death on the Yangtze”, HuffPost. Página consultada a 17 Janeiro 2018,
<https://www.huffingtonpost.com/richard-bangs/a-death-on-the-yangtze_b_4099072.html>

³ Warren, Jan [ca 2011]. “1986 Sino-USA Upper Yangtze River Expedition”. Página consultada a 17 Janeiro 2018,
<http://sino-usariverexpedition.com/6.html>

Ao fundo, à direita, vêem-se pessoas em cima da rocha. Ali é o local dito “normal” para os turistas. Ali os autocarros páram e descarregam-nos, e as pessoas passam em segurança por um corredor construído para tal. Portanto, se alguém quiser ir visitar a Garganta do Salto do Tigre e tiver receio de fazer este trekking mais ousado que o Nong Bu e eu fizémos, não se preocupem: muito certamente serão encaminhados para ali.

073 - A Espantosa e Intrépida Subida

Agora que chegámos lá abaixo, temos que subir, pois claro. Tudo o que descemos, agora temos de subir. E não vai nenhum helicóptero buscar-nos. Começa a segunda parte do trekking, portanto.
O Nong Bu colocou-me duas hipóteses: perguntou-me se eu quero subir junto aos turistas que comentei na crónica anterior (era só o que faltava – depois de um trekking fenomenal por ali abaixo, deserto e silencioso, agora ía juntar-me à multidão de turistas nos caminhos de cimento. Não, disse-lhe) ou se quero ir por ali – e apontou para o céu. Por ali, por onde? Olhei para cima. Só vejo as paredes da montanha e o céu. Há algum caminho ali? Vamos fazer escalada?

Não, Rute, observa com atenção. Está ali uma casinha – um posto de vigilância – e umas escadas encostadas à parede da montanha. Tirei esta foto com zoom, para se ver melhor, mas à primeira vista, sem zoom nenhum nos nossos olhos, passam perfeitamente despercebidas.

Mas sem dúvida nenhuma que vamos por ali, respondi eu ao Nong Bu, apontando para o céu. E ele perguntou-me três vezes. Mau, se calhar é ele que não quer ir. Pela terceira vez eu disse que quero ir por ali. Não quero ir pelo caminho dos turistas, quero ir por ali, repeti.

Atenção que toda esta conversa não foi por palavras. O Nong Bu não fala inglês. Conversámos por gestos. O Nong Bu apontava para os caminhos e quis certificar-se que eu estava a perceber que existem duas opções, e no que estou prestes a meter-me. Sim, eu estou a perceber claramente desde a primeira vez. Quero ir por ali, sem sombra de dúvida.
E lá fomos.

Não senti receio. O segredo aqui é a concentração. E não sofrer de vertigens, claro. O Nong Bu foi à minha frente, deixei-o desaparecer e depois fui eu. Efetivamente, enquanto subia as escadas, a meio decidi parar e olhar para trás. Tenho de fazê-lo. Se calhar nunca mais aqui voltarei, tenho de olhar.
Parei. Olhei para trás, lá para baixo.
E não voltei a repetir. O meu coração acelerou ligeiramente. Uma pulsaçãozinha a mais.
Rute, concentra-te.
E continuei a subir. Eu não sofro de vertigens, mas aquelas escadas são realmente impressionantes e não voltei a olhar para trás. A altura é muito grande e exatamente a pique.
Faz de conta que estás a subir o escadote lá de casa, Rute.

Reparem na placa ao meu lado. Vi outra algures. Não percebo se é algum poema, ou se é inglês incorreto, como várias vezes vi e não fotografei. A tradução literal é esta: “O fogo não está nas montanhas, floresta para a paz”.
Dá que pensar : )
E assim terminou este maravilhoso trekking pela Garganta do Salto do Tigre. Durou 4,15h. Estava pronta para outras 4h, não fosse a fome para almoçar.

074 - Tarde Livre... E vou subir uma Montanha

À esquerda está a dona da Casa de Hóspedes, uma rapariga muito prática e bastante acessível. Chama-se Lili e gere com descontração e firmeza o seu negócio e o do marido australiano. Disse-lhe que o meu estômago já não estava a aceitar fritos e que gostaria de ter comida grelhada. Não posso continuar a comer só arroz cozido e sopa de legumes. Estou a fazer um esforço grande, com horas de caminhada, e mais horas de bicicleta, desta vez quero comer carne. Perguntei-lhe se tem alguma chapa de ferro onde grelhar a carne. Não tem. O mais perto disso são frigideiras e woks. Mas ela não se atrapalhou: fatiou a carne de iaque que eu pedi, em fatias bem finas, e pô-las a grelhar na frigideira. Sem óleo, sem nada – apenas um pouco de sal. E o puré de batata foi feito pela rapariga à direita, ali no momento. Ela trabalha ali. Descascou as batatas, cortou-as, cozeu-as na panela de pressão, e fez o puré. Levou algum tempo, sim, mas não muito.
E eu devorei aquela carne de iaque grelhada e aquele puré de batata como se não comesse há um mês. Soube-me maravilhosamente bem, depois daquele louco trekking pela Garganta do Salto do Tigre. Recuperei as forças novamente. Porque agora tenho a tarde livre e é desta que vou subir uma montanha a pé, ali à volta da Casa de Hóspedes.

São 15h. Terminei de almoçar. O motorista Nong Bu e a guia foram fazer uma sesta. Eu parti de bicicleta. Quero subir uma montanha a pé. E subir uma montanha começa logo por descobrir um ponto de entrada. Quase que é preciso fazer escalada para começar a subir as montanhas. Mas há-de haver algum ponto. Posso trepar por aquela parede à esquerda. Lá à frente é mais baixo, vou lá para a frente.

Acho que este foi o momento em toda a viagem onde mais senti a minha impotência. Como é possível que até um cavalo chegue lá acima, e eu nem consigo sair da estrada. Por onde é que o cavalo subiu?!!
Ainda tentei subir esta parede – e até conseguiria, fiquei pendurada a meio – mas o pior seria descer. Arriscar-me-ia a resvalar por ali abaixo. Não convém partir uma perna no 13º dia de viagem. Ainda faltam 12 dias para a viagem terminar. Não, tem de haver uma entrada menos arriscada.
Voltei para trás na bicicleta.
E agora barraram-me no posto de segurança que existe à entrada desta vila. Passei para lá sem problemas – os guardas viram-me sair, mas quando regressei barraram-me. Não sei o que querem. Um bilhete, uma entrada, aparentemente. Pois, nestas zonas cénicas paga-se bilhete para entrar. E agora explicar-lhes que entrei ontem. Que o motorista e a guia já terão tratado disso com certeza. Que eu só ando a tentar trepar montanhas. Bom, dado que não íamos a lado nenhum com a nossa conversa de surdos, em chinês, e dado que já estavam entretidos com um grupo de turistas chineses (que se aproximaram de mim e me cumprimentaram, claro), eu montei na bicicleta e segui viagem. Tenham lá paciência. E eles deixaram-me ir embora. Os malandros dos guardas estavam a meter-se comigo, pelos vistos.

Segundo take. Vou agora tentar subir uma montanha pelas traseiras das casas. Apanhei este caminho. A bicicleta fica ali, a água passa para a bolsa da cintura; a t-shirt fica na bicicleta, já não tenho espaço para ela. Repete-se o procedimento da crónica 53. E aí vou eu, em exploração.

Este misterioso cacho, que ficou desfocado, só mais tarde, num Museu, virei a descobrir que em princípio se trata de uma planta chamada Arisaema, mas mesmo assim não tenho a certeza. O lixo à volta é que é notório.

Lá em cima fui dar a esta casa. Claro que me meti lá para dentro e fui ver o que se passa.

A senhora explicou-me (por gestos) que eu poderia chegar ao topo da montanha por este caminho. Há ali um caminho, de facto. E ainda por cima vejo cinco cavalos lá em cima, a pastar. Quase que se riem de mim. “Olá Rute… somos cinco cavalinhos, e estamos aqui em cima da montanha… tu estás aí em baixo e nem consegues descobrir o caminho de entrada… Toma, toma…”
Mas isto está cheio de catos. Hesitei muito, ainda a ouvir os relinchares trocistas dos cavalos. Observei e pensei nas hipóteses.
Ainda não é desta. Eu não consigo entrar num caminho cheio de catos!! Eu de sandálias e calções, e camisa de manga à cava!!

A imponência destas montanhas é extrema. Não te consigo subir, montanha grandiosa!!! Mas não vou desistir! Alguém entendido – alguém local – há-de levar-me até ao topo!

Acabei por sentar-me ao lado daquela garrafa no chão. Fiquei quase meia hora ali sentada, a observar as montanhas, naquele cenário espantoso. A senhora sentada também, atrás de mim. Eu de capacete na cabeça. Não quis deixar o capacete na bicicleta, nem quero andar carregada com ele, pelo que o deixei na cabeça. Não me incomoda, é leve e tem aberturas para não transpirar. Havia dois rapazes dos seus 20 ou 25 anos a ver televisão, em casa. Já tinham vindo espreitar-me, e não me ligaram mais, continuaram a ver televisão.

075 - É Nisto que dão as Tardes Livres

Às 16.15h estava de volta à Casa de Hóspedes, sem água. Fui reabastacer. Sentei-me no pátio, a descansar um pouco, e a pensar no que poderia fazer. Vi a minha roupa a secar – esta manhã voltei a mandar lavar algumas t-shirts, e novamente a minha sweat-shirt, a única camisola de manga comprida que trouxe, desconhecendo que iria apanhar frio nesta viagem, e que portanto tem tido um uso intensivo de manhã e à noite, quando faz mais fresco. É um serviço prestado pela Casa de Hóspedes, e é acessível: cada t-shirt é 6 Yuans (ao câmbio que estou a usar é 0,85 cêntimos, e a sweat-shirt é 8 Yuans (1,15€).

Adormeci. Ainda dormitei uma meia hora aqui sentada, com esta montanha soberba à minha frente. E depois estive entretida a ver as fotos na câmera. Passaram-se umas duas horas até que a dona da Casa de Hóspedes – a Lili (que andava por ali e se vê ao fundo, sentada, na primeira foto desta crónica) me disse que sabe qual é o caminho para o topo da montanha. Não posso crer. Ela sabe o caminho e eu aqui a perder tempo. Começa aqui mesmo, ao lado da Casa de Hóspedes: há um pequeno canal de água que cai a toda a velocidade, ao lado da casa, e existem umas escadas de pedra muito íngremes. Começa aqui. Posso seguir o caminho e hei-de ir ter ao topo de uma montanha, seja ela qual for.
Terceiro take, portanto. Aqui vou eu. Porém já é tarde, seis e meia, já não consigo ir e voltar, mas pelo menos vou fazer uma parte. O canto dos pássaros acompanha-me. São imensos, numa grande chilreada. Um dos que mais vi parece uma andorinha, branca e preta, mas não é – é outro pássaro que não sei identificar, e vi-o bastantes vezes ao logo desta viagem.

Ora aqui estou eu de volta. Mal qual caminho, qual quê. Chega a um ponto que só mesmo quem conhece, quem mora ali, é que sabe. O caminho desaparece e eu tenho de seguir a inventar. Vai anoitecer em breve, pelo que voltei para trás. E agora descobrir o caminho de volta. Perdi-me. Já inventei uma boa parte, já nem me lembro por onde subi. Bom, vou descer, a algum lado hei-de chegar, a alguma casa hei-de ir parar e logo me dizem o caminho certo. Estas coisas parecem fáceis, mas não são. Só mesmo os locais é que conhecem bem as montanhas. Sabem as direções e os caminhos. Eu estou no meio de vegetação e árvores, tanto posso ir uns metros à esquerda, como uns metros à direita – mas esses metros podem ser fulcrais para o sucesso da caminhada.
E de facto cheguei à Casa de Hóspedes. Ou pelo menos vejo-a ali a vinte metros de mim. Mas existe um fosso entre mim e a Casa de Hóspedes que não dá para saltar, é muito grande. Fiquei nas traseiras, no meio do mato, portanto. Sem caminho. Se alguém estivesse nos quartos e olhasse lá para fora, via-me. Eu camuflada no meio da vegetação, às vezes maior do que eu. Só se me vêem os olhos. Ainda as pessoas pensam que estou ali a espiar os quartos, ora bolas.
Não consigo sair daqui. Tenho de trepar uma parede de terra, o que é arriscado, ainda me magoo e rasgo os calções; e pelo meio da vegetação cerrada já não dá, só com uma catana.

Não tive alternativa senão telefonar à guia. Alguém tem de vir puxar-me deste buraco onde estou. Não consigo sair daqui. Tenho a Casa de Hóspedes à minha frente, a vinte metros, isto é absurdo.
Claro que eles apanharam um susto. (Mas onde é que ela está? Como é que a gente a encontra no meio da vegetação?) Eu expliquei que a dona da Casa de Hóspedes sabe onde eu estou – vão falar com ela, ela indicou-me o caminho ao lado da Casa, eu estou aí a uns dez metros desse caminho, se vierem espreitar, vêem-me.
E lá veio a comitiva – a Lili (a dona da Casa de Hóspedes), o motorista Nong Bu e a guia, todos à minha procura. Vi-os, gritei-lhes e fiz-lhes adeus: “Olá, estou aqui!”. A guia soltou uma gargalhada e deixou-os virem buscar-me. Tirou esta foto. O Nong Bu e a Lili chegaram ao ponto onde eu estava encurralada, e ambos agarraram-me num braço – cada qual no seu – e içaram-me.

Claro que quis repetir a proeza da carne grelhada. Se calhar nunca mais vou ter carne grelhada no resto da viagem, tenho de aproveitar aqui. Desta vez foram bifes de frango (grelhados novamente numa frigideira, sem nada mais do que sal) e o maravilhoso puré de batata feio no momento.

E depois de jantar temos um serão musical. Eu ainda nem troquei de roupa, nem tomei banho, nem nada. Mas aquela malta está cheia de pica e quer festa. A rapariga é a principal impulsionadora. Certo, meus amigos, temos música, dança e festa. Por esta altura eu já estou é preocupada com o anti-mosquitos. Pus de manhã, são quase dez da noite e ainda não renovei. Relembro que cinquenta por cento dos casos de malária na China têm origem aqui em Yunnan, precisamente. Mas este anti-mosquitos que trouxe de Portugal é uma coisa fenomenal. Tem 50% de deet e não há mosquito que se aproxime de mim. Nem mesmo doze horas depois. Pelo que arrisquei. Vamos p’rá festa.
E o melhor de tudo foi dançar o “Despacito”. Aqui estou eu no meio da China, no meios das montanhas, a dançar o grande sucesso internacional  da música latino-americana. Na sala onde estamos existe um placard eletrónico da minha altura, interativo (vê-se nesta foto), e pelos vistos com músicas armazenadas. Ela foi selecionando uma porção de hits musicais, incluindo este “Despacito”. Depois voltámos à música tradicional chinesa, com o Nong Bu a tocar o seu Huqin, com música bem animada, e nós as duas a tentarmos alinhar com a sua coreografia dos passos. Nada fácil!

Este grande dia – com um espantoso e temerário trekking pela Garganta do Salto do Tigre – termina assim, a celebrar. E também porque já agendei com uma local, uma pessoa que mora ali, levar-me amanhã de manhã ao topo das montanhas. Foi a Lili, a dona da Casa de Hóspedes, sabendo deste meu desejo, quem entrou em contacto com algumas pessoas da vila, questionando-as sobre quem estaria disponível para guiar-me até lá acima.
Despedi-me deles, fui finalmente tomar um duche e caí como chumbo na cama.

076 - Agora Sim, vou Subir uma Montanha a Pé

A Lili, dona da Casa de Hóspedes, a preparar-me uma panqueca para o pequeno-almoço. Entro hoje no 14º dia de viagem. Choveu torrencialmente toda a noite e continua a chover agora de manhã. Nesta etapa da viagem, ter uma panqueca quentinha  com nozes, e ainda bolo de chocolate para o pequeno-almoço, parece-me uma coisa caída do céu. O bolo de chocolate foi feito ali no momento, é um daqueles instantâneos, e vem também quente. Custei a dar conta do recado, mas comi tudo, sobretudo porque vou finalmente subir uma montanha. Tenho de ir forte, tenho de ir cheia de forças, come tudo, Rute, armazena energias…

Por 250 Yuans (35€), esta senhora leva-me lá acima. É caro, sem dúvida, sobretudo para os padrões em Yunnan. Mas nem discuti. Estou a ver que ainda voo para Pequim sem ter subido uma montanha em Yunnan. Nem discuti. Vamos. A Lili escreveu o seu nome no meu bloco de notas, em caracteres chineses, mas eu pedi uma versão que eu percebesse, e ela então escreveu “Sondziju”. A senhora chama-se Sondziju.
Felizmente parou de chover, já nem levei o impermeável comigo.

077 - Subindo no Meio das Brumas

Parecia uma aparição. No meio do nada, no silêncio, nas alturas, nas brumas. Ali está ele, sentado, a pastar a sua vaca. E ainda me sorriu.

Até faz fresco, mas a subida põe qualquer um a transpirar. Por baixo tenho uma t-shirt de alças, preparada para eventuais calores que aí venham.

A certa altura, no meio das árvores, algo me tocou com força no ombro. Dei um grito com o susto que apanhei. No meio deste deserto quem é que está a bater-me no ombro? A senhora que ia comigo – foi sempre à minha frente – deu um salto também e ia atirar a mala para o chão, preparada para vir socorrer-me, pensando que eu ia resvalar por ali abaixo. Não, não estou a cair, mas alguém agarrou-me no ombro!
Rapidamente constatámos que foi um ramo pendurado na árvore, talvez hera, que rasou no ombro. Se calhar até caiu no momento, e bateu-me. Silêncio, brumas, e alguém me bate no ombro. Foi uma cena digna de um filme de terror, e fez-nos rir à gargalhada às duas, quando percebemos o que se passou. O meu grito deve ter ecoado ali ao redor. Ela desviou o ramo, o qual tinha cerca de dois centímetros de diâmetro, para que ninguém mais batesse nele à passagem.

Mas quem é que mora aqui?… Quem é que vem morar para tão longe de tudo?… Subir e descer esta montanha cada vez que precisa de algo na vila… Ou se calhar não compram nada, são auto-suficientes… Não terão crianças na escola, por exemplo…

078 - Quase no Topo... e a Política do Filho Único

Aproveito estas belíssimas e introspetivas paisagens para abordar um tema: o controlo da natalidade na China. Analisemos hoje esta questão.

Em outubro de 2015, o governo chinês anunciou uma mudança na sua política no sentido de permitir que todos os casais tenham até dois filhos. O envelhecimento rápido da população e as necessidades económicas assim o impuseram. Até esta data, e desde 1979, só era permitido terem um filho.
Efetivamente em 1979 o Governo chinês impôs o controlo da natalidade através da “política do filho único”. Existiam exceções, nomeadamente os grupos étnicos minoritários. Estes podiam ter dois filhos; e alguns podiam ter três por casal. Na altura em que a lei foi aplicada, em 1979, as minorias representavam  67 milhões de pessoas, apenas 6,7 por cento da população total do país. Todavia, a sua taxa de crescimento era muito maior do que a da maioria Han. A taxa de crescimento médio anual entre os censos de 1964 e 1982 foi de 2,9% para todas as minorias étnicas tomadas em conjunto e 2,0% para os Hans. Se esta taxa de crescimento continuasse, teoricamente, dentro de 100 anos as minorias poderiam atingir 900 milhões, quase o tamanho total da população nessa altura. De qualquer forma, as minorias, embora isentas da política de um único filho, eram encorajadas a praticar o planeamento familiar. Se elas se comprometessem a não ter mais de uma criança, solicitando o “certificado de uma só criança”, à semelhança dos Hans, elas também receberiam vários incentivos, conforme determinado pelas regulamentações locais.¹

Por causa destas exceções, bem como incluindo aqueles que simplesmente pagavam uma multa – ou “taxa de manutenção social” – para ter mais filhos, a taxa geral de fertilidade da China continental (o número de nascimentos por mulher) foi próxima de 1,4 crianças por mulher a partir de 2011.² (2,1 partos por mulher é o nível de reposição de fertilidade, representando uma população estável, excluindo a migração).

Citando algumas partes de um excelente artigo do jornal Público:
Durante 35 anos o regime chinês levou a cabo aquilo que especialistas como Mei Fong, autora do livro One Child, classificou como “a mais radical experiência social do mundo”. Para impedir e penalizar uma segunda gravidez, as autoridades recorriam a um rol de abusos, que incluíam multas pesadas, despedimentos, demolições de casas, abortos e esterilizações forçadas. O controlo populacional extremo era o preço a pagar para colocar o país mais populoso do mundo na rota do desenvolvimento, diziam os defensores do “filho único”.
Registaram-se fenómenos como o infanticídio, o aborto, o abandono de crianças, e a partir de 2010, a descoberta de 13 milhões de crianças não registadas. Sendo excluídas do registo familiar (ver crónica 63 sobre o Hukou), elas não existem legalmente e, como tal não têm acesso à maioria dos serviços públicos, como educação ou cuidados de saúde.
O Governo chinês garante, contudo, que os 35 anos desta política terão evitado 400 milhões de nascimentos e, desta forma, possibilitado o crescimento económico inédito da última década. No entanto, este cálculo é disputado por grande parte da comunidade científica.
São muitos os que viram algumas vantagens numa política tão extrema como esta. A limitação a apenas um filho foi vista como uma forma de retirar das mulheres a pressão para serem mães a tempo inteiro, dando-lhes oportunidade para entrar no mercado de trabalho. Antes da introdução da política, apenas 30% dos estudantes universitários eram do sexo feminino; para a geração nascida no início dos anos 1990, a paridade é quase perfeita, de acordo com Ye Liu, especialista da Universidade de Bath (Reino Unido).
Mais recentemente, a liderança chinesa começou a perceber que tem pela frente um novo problema demográfico, oposto ao que existia quando a política do filho único começou a ser aplicada. A população deverá continuar a crescer até 2030, ano em que será atingido o pico de 1,4 mil milhões de pessoas. Mas o grande problema é o envelhecimento populacional. Em 2050, é possível que por cada 100 pessoas em idade activa haja 45 com mais de 65 anos, muito próximo dos valores atuais do Japão, por exemplo.
A partir de 1 Janeiro de 2016 deu-se então a alteração: a “política do filho único” foi substituída pela “política de dois filhos”, que as autoridades dizem garantir uma recuperação dos níveis de natalidade, sem arriscar um “descontrolo”.
O controlo da natalidade mantém-se, portanto.
De qualquer forma, com a mudança de vida e de mentalidades, 75% das famílias já se mostra indisponível para ter dois filhos.³

Atualmente a taxa de fertilidade total da China é de 1,6, superior ao declínio lento de Portugal com 1,53, de Espanha 1,50, ou da Alemanha 1,45, mas é inferior à taxa dos EUA com 1,87 (recordemos que 2,1 partos por mulher é o nível de reposição de fertilidade, representando uma população estável, excluindo a migração).⁴

De acordo com Yu Jia, um professor assistente na Academia Chinesa de Ciências Sociais, uma solução para o problema do envelhecimento e crescimento da China será fornecer mais benefícios de cuidados infantis para aqueles que ainda se casam, como subsídios de nascimento, ou a construção de creches mais acessíveis. Mas mesmo assim, a China acabará por seguir o Japão e a Coreia do Sul em não quererem mais filhos.⁵

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Numa próxima crónica falarei de outro fenómeno provocado pela “política do filho único”: a preferência por filhos do sexo masculino, e as consequências sociais que isso está ter nos dias de hoje.


¹Park, Chai Bin e Han, Jing-Qing (1990, May – Jun),  “A Minority Group and China’s One-Child Policy: The Case of the Koreans”. Studies in Family Planning, Vol. 21, No. 3 pp. 161-170 [versão online]. Published by: Population Council, DOI: 10.2307/1966715. Página consultada a 25 janeiro 2018,
<http://www.jstor.org/stable/1966715>

² “One-child policy” (s.d.). Wikipedia. Página consultada a 25 janeiro 2018,
<https://en.wikipedia.org/wiki/One-child_policy>

³ Ribeiro, João Ruela (2017, 30 Janeiro). “Depois de três décadas a impedir nascimentos, a China precisa de bebés”. Jornal Público. Página consultada a 25 janeiro 2018,
<https://www.publico.pt/2017/01/30/mundo/noticia/depois-de-tres-decadas-a-impedir-nascimentos-a-china-precisa-de-bebes-1760068>

⁴ “The World Fact Book” [ca 2017]. Central Intelligence Agency. Página consultada a 25 janeiro 2018,
<https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/rankorder/2127rank.html>

⁵ Wang, Yu (2017, 17 Outubro). “No One In China Wants To Get Married Anymore, And It’s Making Beijing Nervous”. Forbes. Página consultada a 25 janeiro 2018,
<https://www.forbes.com/sites/ywang/2017/10/17/no-one-in-china-wants-to-get-married-anymore-and-its-making-beijing-nervous/#481ce01caa0b>

Um túmulo. Ali no meio do nada, tão alto.

079 - No Topo! E Descida

Levámos 2.20h a chegar cá acima, num bom ritmo, quase sem paragens e passo acelerado. Partimos às 9h20, são agora 11h40. Aqui em cima vamos descansar e ficar meia hora. A senhora trouxe uma porção de barras de cereais e bolachas para si e também para mim, mas eu tive um pequeno almoço tão forte que recusei. Ela insistiu, mas não me apetece mesmo.

O túmulo que vi quando ia para cima, agora com melhor visibilidade, já que as nuvens estão a dissipar-se. Algo tão pequeno e frágil num cenário tão imponente, vasto, magnífico. Quem será que tem o privilégio de estar ali.

Estes gansos estão malinos, não queriam deixar-nos passar, e a minha guia de montanha teve de ir enxotá-los.

Reparem que quase não se vê a senhora que me acompanha. Vamos a descer mesmo a pique, no meio da vegetação.

Levámos 1,50h a descer a montanha. Sempre em passo acelerado. Chegámos às 2 da tarde à Casa de Hóspedes, e aqui pedi uns maravilhosos e reconfortantes noodles com legumes e carne de iaque grelhada. Desapareceu tudo. Esta minha energia faz-me ter uma necessidade extrema de combustível, com frequência.

080 - De Carro até Meiquan

Tal como escrevi na crónica 66 (passo a transcrever): Estas quedas de pedras são muitíssimo frequentes. Várias por dia. Não fotografei nem um terço. Se fotografasse todas, teríamos uma foto destas por cada crónica. Claro que é um perigo. Sobretudo eu na bicicleta. Mas o que posso fazer? Cancelar a viagem com medo das pedras?
Ademais, tem chovido torrencialmente todas as noites, o que contribui para os desabamentos.

Partimos às 14.30h da Garganta do Salto do Tigre – despedi-me dos dois maravilhosos dias que ali passei – e fizémos 99 km de carro até chegarmos às cinco da tarde a Meiquan, novamente, a terra onde fiz o passeio de cavalo, e onde pernoitarei na minha já conhecida Casa de Hóspedes (crónica 21).
O boletim metereológico do meu smartphone continua a dar uma localização errada. Hoje diz que está a chover, com temperaturas entre os 12 e os 22 graus. Faz um calor enorme e não chove. Decidamente estas coisas da localização falham redondamente, por aqui.

Pois descobri que enjoei as guiozas. Não há fome que não dê em fartura. Depois da barrigada que comi em Wei Xi (crónica 47), e que me fez inclusivamente vomitar às tantas da manhã, agora nem posso ver guiozas à frente. Estas foram preparadas pela guia, na cozinha da Casa de Hóspedes, para nós três (Nong Bu inclusive). Comi duas, comi mais dois iogurtes, e pronto, foi o meu jantar.

081 - Começa o 15º dia desta Magnífica Viagem

Hoje esperam-me 78 km de bicicleta. Hoje nem vou entrar no carro. Toda a viagem – de manhã ao final da tarde – vai ser feita em bicicleta.

E eu por enquanto continuo com os pequenos almoços meio ocidentais. Sempre às 8.30h. Desta vez tenho uma bebida que nunca cheguei a perceber bem o que é: se sumo de mirtilos, se leite com mirtilos, ou leite com sumo misturado. Sabe bem e não me faz mal, é o que interessa. Mais um iogurte de morango, e uma espécie de bolicao, mas com doce no interior – um de batata doce, o outro já não me lembro do quê. Tudo comprado pela guia nos supermercados e mercearias por onde vamos passando. Recordo que esta viagem está a ser feita com pensão completa.

Um campo de basquetebol abandonado.

Creio que aqui se dá um momento revolucionário na minha vida. Pela primeira vez experimentei uma bicicleta elétrica. Fiz os primeiros 16 km na bicicleta normal, com pneu 26, mas sempre a subir, gradualmente a subir, pelo que vou muito lentamente. A certa altura decidi perguntar à guia se podia experimentar a sua bicicleta elétrica. Ainda por cima com pneu 27,5, como eu gosto, idêntica à minha, em Portugal. O Nong Bu guardou a minha bicicleta na carrinha, e passou-me a elétrica.
Pois eu nem quero acreditar.
Creio que disse umas dez vezes “Não acredito!”; “Não acredito!”; “Não acredito!”… e continuei a dizê-lo.
Subi aquilo tudo por ali acima, no modo “económico”, a toda a velocidade. Não acredito nisto!
O pequeno motor elétrico tem três velocidades: o modo económico, o normal, e o desportivo. No modo económico já parece que vou nas nuvens. Só tenho que pedalar um pouco, o resto é o motor que puxa. Nem quero imaginar como será no modo desportivo. Deve ser uma mota, nem preciso de pedalar! Tenho o meu futuro garantido, nestas viagens de bicicleta, portanto. Quando tiver 90 anos e não tiver forças para pedalar, vou numa bicicleta elétrica no modo desportivo!!!

082 - A Louca Descida de Bicicleta por Lama, Pedras e Buracos

Os próximos 15 km vão ser feitos nesta estrada em construção. Hoje é sábado, se porventura a estrada ainda está mesmo em construção e não simplesmente abandonada, pelo menos hoje ninguém trabalha. Hoje é dia de piqueniques e passeios, e na foto abaixo vêem-se os carros parados na berma. Há muita gente a apanhar cogumelos.

Desci a toda a velocidade pela estrada. A partir de certo ponto nunca mais vi carro nenhum. Provavelmente a estrada está mesmo abandonada. Até o próprio Nong Bu perdi, o qual veio vagarosamente a conduzir, aos saltos. Aquele piso é muito desconfortável para os carros. Mas é o máximo numa bicicleta. Dos 25 dias que passei na China, recordo estes 15 km com particular vibração. Foi uma sorte não ter caído dado que não estou com equipamento próprio, mas o risco valeu a pena. Fui a toda a velocidade por ali abaixo, em muitas curvas e contra-curvas, com pingos de lama até nos óculos. Fiquei com as pernas, a roupa, e a mala da máquina fotográfica, às costas – tudo cheio de pingos de lama. Tive mesmo de parar para limpar os óculos de lentes incolores que levo, precisamente para proteger-me destas coisas, porque já não estava a ver bem com os pingos de lama nas lentes.
No final esperei um bom bocado por eles. Querem ver que seguimos caminhos diferentes? Mas não me lembro de ver saída nenhuma; vim até ao fim da estrada, eles terão de aparecer. Decidi telefonar à guia para saber se estava tudo bem. E a guia confirmou que sim, está tudo bem, que vão mais lentamente. Lá chegaram, completamente chocalhados e enlameados também.

083 - Paragem para Almoço

Tenho agora 40 km feitos. É altura de almoçar e parámos neste restaurante, no caminho. Estou a esforçar-me por evitar os fritos e comer só alimentos cozidos (grelhados não há), mas é uma missão quase impossível. Vi cozinhar tudo, andei entretida a tirar fotografias. Não sinto qualquer cansaço, e é bom que não sinta, porque ainda tenho 38 km pela frente. De qualquer forma estou com a bicicleta elétrica, essa então não provoca qualquer cansaço, mesmo no modo mais baixo de consumo, o “económico”. Esta bicicleta tem todavia um senão. Não há bela sem senão. Esta bicicleta quase que não tem travões. E com o uso que lhe vou dar hoje, ainda pior vai ficar. Devia ter feito a descida dos 15 km esburacados na minha normal, para poupar a elétrica. Mas eu ainda não sabia destas coisas. Não sabia que a bicicleta iria perder quase totalmente os travões, que eu iria quase chocar com um carro por não conseguir travar, e que em breve teria de voltar à minha bicicleta normal, mais vagarosa, mas com uns travões impecáveis. Anda lá, Rute, vai almoçar e continua na ignorância do que vai passar-se.

Tudo foi frito exceto o arroz e a sopa. Não vale a pena dizer que só posso comer cozidos. Até os bróculos fritaram. Cozer os alimentos em água deve ser algo inimaginável. Os ovos mexidos com tomate estavam deliciosos (e picantes), mas com imensa gordura, a nadar em óleo. Estava tudo delicioso? Sim, estava. Sem dúvida nenhuma que estava. Tudo muito bem temperado. Mas um estômago já meio frágil com esta súbita e permanente mudança de alimentação gosta de fritos bem temperados? Não, não gosta. Mas felizmente não protestou. Os últimos dias na Casa de Hóspedes da Garganta do Salto do Tigre fizeram-no recuperar bem. Sim senhor, bonito estômago, come e cala.

E repare-se no rolo de papel higiénico em cima da mesa. (Sobre este tema, remeto para as crónicas  13, 26, 37, 48 e 51!!), mas não vale a pena voltarem atrás: não existem guardanapos na China.

084 - Bisbilhotando as Aldeias

Seguimos estrada fora; eu na bicicleta, o motorista Nong Bu e a guia na carrinha. Eles vão à frente e esperam por mim. Alguma vez hei-de aparecer. A questão é que eu faço três mil desvios da estrada principal. Então passo ao lado das aldeias à minha direita, lá ao fundo, e eu só vou na estrada principal? Claro que não. Volta e meia desvio para a direita e vou espreitar o que se passa por ali.

Um pagode lá ao fundo. Vou vê-lo. Aqui vou fazer um pequeno desvio do caminho principal.

Esta aldeia do pagode está deserta. Vou-me embora e volto à estrada principal.

Agora vou visitar aquela aldeia lá ao fundo. Saio novamente da estrada principal.

Eu ainda com as pernas com vestígios de lama, após a descida dos 15 km na estrada em construção (crónica 82). E reparei que as senhoras mas fixavam. Esta moça anda toda suja, devem ter pensado. (Oh minhas amigas, eu venho de bicicleta… – E ter-lhes-ia contado a história toda, se eu soubesse falar chinês). Quem nos tirou esta foto foi um homem grande e alto, dos seus 35 ou 40 anos. Estava a passar um pouco ao longe e eu chamei-o, mostrando-lhe a máquina fotográfica. Ele percebeu imediatamente e veio tirar-nos uma foto. Era conhecido delas todas, claro. Tirou duas fotos, efetivamente, e esta foi a que ficou melhor.

Ele decidiu experimentar a minha bicicleta, a qual é manifestamente alta para si, e quando deu a curva, para voltar para trás, na nossa direção novamente, vi a coisa mal parada e exclamei “Ai, ai, ai…” As velhotas imediatamente riram-se e imitaram-me – “Ai, ai, ai…”. (Ora esta, elas estão a troçar de mim… E ri-me também).

Bom, os da outra aldeia devem estar todos aqui, a confraternizar. Esta aldeia está cheia de gente. Páro ao pé de todos os grupos que encontro e cumprimento: “Nihao” (“Olá” em chinês). Bebo um pouco de água, descanso. Eles são atrevidos e simpáticos. Não percebemos patavina do que cada um de nós está a dizer ao outro, mas também não é grave.

085 - Chegada a Jianchuan

Aqui estão localizadas várias unidades industriais de corte e serração de pedras tumulares. Ao longo de pelo menos um quilómetro, senão mais, fui acompanhando as várias exposições na berma da estrada.

Chegada ao hotel, na vila de Jianchuan. Arrancámos de manhã às 9.15h, e chegámos agora às 17h. Foram oito horas a andar de bicicleta e a passear nas aldeias. Um dia magnífico. Mas ainda não acabou, porque agora vou dar um passeio de cerca de uma hora aqui em Jianchuan. Tenho de ir fazer o reconhecimento da vila, pois claro. Não sei de onde é que me vem tanta energia, deve ser da comida chinesa. Se calhar misturam-lhe ali qualquer coisa. Portanto o Nong Bu ajudou-me a colocar as bagagens no quarto, e imediatamente fechei a porta e fomos embora. Ele para o seu hotel, juntamente com a guia; eu explorar Jianchuan, na bicicleta. Combinámos encontrar-nos aqui no hotel às 19.30h, para irmos jantar.

086 - Explorando a Cidade de Jianchuan

Creio que não é vila. É cidade. Nem sei. Só sei que é enorme e quase que me perco nas ruas e ruelas.

Aproveito esta crónica para falar de outro tema ligado aos hotéis e hábitos chineses.
Os chineses – turistas domésticos – têm um hábito, nos hotéis. Se calhar têm mais hábitos, mas pelo menos este pude constatá-lo várias vezes, em vários hotéis: acordam bem cedo, ligam a televisão e abrem a porta do quarto. Ficam dentro do quarto, mas a porta está permanentemente aberta. Todos os restantes hóspedes – eu inclusive – temos de acordar com eles, temos de ouvir as suas conversas e mais a televisão, e temos de vê-los, pois claro. Não se confinam ao seu quarto, portanto. O corredor também é dos hóspedes (chineses) e pertence ao espaço contratado ao hotel. “Quero reservar um quarto e um corredor” – talvez digam, quando chegam à receção dos hotéis. Portanto eu habituei-me a pôr tampões de cera nos ouvidos, quando começa a amanhecer, para poder continuar a dormir até às 7.30h, hora a que habitualmente me levantei todos os dias. E quando saio do quarto, ali estão eles, sentados ou estendidos na cama, a ver televisão. Gente de todas as idades. Os velhotes sobretudo. Provavelmente será uma questão cultural. Os chineses não gostam de estar fechados num quarto, e tratam de abrir as portas todas – mesmo revelando a sua intimidade, os seus aposentos desarrumados, roupa e sapatos por todo o lado.
Eu ainda não tinha comentado isto, mas foi algo que se repetiu várias vezes, ao longo desta viagem, em várias povoações e vários hotéis. Numa das vezes, ao final da tarde, antes de jantar, fui mesmo espreitar que barulheira era aquela. Abri a porta do quarto, saí para o corredor e lá estavam dois garotos sentados no chão a ver desenhos animados na televisão, em altos berros, dentro do seu quarto. Encostei-lhes a porta. Não fechei, apenas encostei. Nem sequer deram conta, tão vidrados estavam na televisão. Mas eram daqueles desenhos animados asiáticos extremamente barulhentos, com muita gritaria. Tão pequeninos e vão já ficar surdos. Excusado será dizer que não surtiu grande efeito – alguém voltou a abrir a porta – pelo que todos os quartos do hotel tiveram de ficar ouvir os desenhos animados chineses, cheios de gritos e karaté.

Outra questão que ainda não comentei, também a propósito dos hotéis, é que todos – todos, sem exceção – têm edredons brancos, daqueles farfalhudos e quentes, como lençóis. Nos primeiros dias em Yunnan souberam-me bem, pois fez frio. Mas no resto da viagem, já com calor, ficar tapada com um edredon farfalhudo e quente não calha bem. Mas dormir destapada também não. Pelo que durante estes 25 dias de viagem, quase todos os dias a mudar de hotel, vi-me grega com este pormenor. Ou vi-me chinesa. E acabou por perturbar-me o sono, aqui e além. Ora tenho calor, ora tenho frio – conforme me tapo e destapo durante a noite. De qualquer forma esta é uma moda internacional, quase que me arrisco a dizê-lo. Está na moda os hotéis não porem lençóis e porem apenas edredons-lençóis, chamemos-lhe assim. Não são todos, claro, mas há uma grande percentagem a fazê-lo, inclusivamente no ano passado, na viagem dos 838 km de bicicleta na Europa Central. O que não é positivo nem traz bem estar aos hóspedes. Terão as suas razões, não sei quais são, pois lavar lençóis é muito mais prático do que lavar edredons. A China soube copiar este hábito mau dos ocidentais. Ou se calhar fomos nós que os copiámos a eles, já não sei.

Terceira curiosidade sobre os hotéis, que ainda não comentei até agora: as tomadas elétricas são iguais às portuguesas. Levei três adaptadores comigo para poder carregar vários dispositivos ao mesmo tempo, todavia nunca os tirei da mala. Ademais, grande parte dos quartos tem mesmo tomadas USB. Nem sequer a ficha elétrica foi necessária, era só ligar os cabos às várias tomadas USB. Tendo em conta que muitas vezes estive no meio do nada, no campo, este pormenor revelou a evolução tecnológica em Yunnan, neste aspeto. Pelo menos para receberem os turistas de outras partes da China sobretudo, dado que os ocidentais são muito raros.

Finalmente, para terminar este tema dos hotéis, pelo que percebi é permitido fumar nos quartos. Por duas ou três vezes fiquei em quartos a cheirar a tabaco.

087 - Hotel e Jantar

O quarto tem wifi, mas nem é identificado no meu telemóvel. Uso portanto a internet do meu cartão chinês. Nem sei que plafond tenho, todos os dias recebo um sms em chinês com uns números no meio de caracteres chineses que não faço ideia o que significam. Se fossem sempre a reduzir-se, era o plafond a reduzir-se, mas não, aquilo não faz sentido nenhum. Perguntei à guia, mostrei-lhe um dos sms, mas ela apenas disse “Ainda tem muita internet!…” – e arrumou a conversa. É assim, nunca conseguimos conversar muito, foi uma coisa digna de um estudo de psicologia.
O quarto também tem os habituais preservativos, desta vez uma embalagem azul com um coração branco.
E eu já estou perita a fazer e desfazer a mala, vai tudo pela mesma ordem. Só passo uma noite aqui, amanhã de manhã tem de estar tudo arrumado para partirmos novamente.

A bicicleta elétrica ficou arrumada dentro do hotel, neste pátio. Mas vai chover torrencialmente toda a noite (para não variar) e a guia não vai querer mudar a bateria da bicicleta nestas circunstâncias. Indica que não pode, que a estraga. Pelo que no dia seguinte vou prosseguir viagem na minha bicicleta normal.

O restaurante onde vamos jantar.

Noodles especiais da casa (têm outro tipo de massa). Não têm vaca, só porco, o qual já está temperado no frigorífico, cheio de picante. No entanto pedi para cortarem bocados da carne antes de ser temperada e assim fizeram. O melhor foram os oito pedaços de malaguetas que vinham dentro da tigela. Ao menos que fosse um pedaço. Oito. Tirei-os um a um, e depositei-os ao lado da tigela, em cima da mesa.

O Nong Bu ofereceu-me uma das asas de frango que ele pediu. Muito picantes. Deram-nos luvas de plástico, só com indicador e polegar, para agarrarmos na comida. Guardanapos, nada.

Estes potes contêm aguardente com um alto nível de álcool.

Pastéis de nata numa terra remota da China, quem diria. Mas não os provei, optei por um donut.

088 - O Colorido Mercado de Domingo

Voltou a fazer uma grande trovoada, esta noite. O ambiente é morno e húmido. Às três da manhã andava eu a renovar o spray anti-mosquitos. Levei duas embalagens, de marcas diferentes, e efetivamente a importância de um bom anti-mosquitos é essencial numa viagem destas. Um deles é mais fraco do que o outro, mas eu não sabia, claro, quando os comprei em Lisboa. Às três da manhã fui picada; às três da manhã toca a pôr o spray outra vez. Se fosse o bom, aguentar-se-ia por doze horas ou mais, mas este é mais fraco e agora tenho de usá-lo, pois o mais forte não dura a viagem toda (e encontrar um produto com a qualidade necessária, aqui, nestas terras remotas, é para esquecer).

Amanhece novamente. Acender o incenso nas pontes é uma tradição, e vi algumas pontes assim, durante esta viagem. Aqui em Jianchuan há muitas pontes com incenso aceso. Fiz pesquisa na internet, mas não encontro a explicação. Intuitamente será fácil de explicar – a ligação entre dois pontos, por cima da água – a bênção da união entre dois pontos distintos, a passagem entre algo. Mas se calhar estou a dizer algum disparate. Se alguém tiver a explicação oficial, que me contacte, p.f. e que me elucide (e eu consequentemente atualizarei esta crónica de acordo).

Entretanto fui chamada à atenção para outro aspeto: os dois “Leões Guardiões Chineses” à entrada da ponte, também conhecidos por “Leões Foo” (ou erradamente, no ocidente, como “Cães Foo”), típicos do Budismo chinês. O termo “Foo” ou “Fu” pode ser uma transliteração das palavras chinesas “fó” ou “fú”, que significam “Buda” ou “prosperidade”, respetivamente.
O par de leões consiste num macho com a pata em cima de uma bola bordada (representando a supremacia sobre o mundo) e uma fêmea com a pata a conter uma cria brincalhona (representando o cuidado e a educação). Os leões são sempre apresentados em pares, numa manifestação do Yin e do Yang: a fêmea representando o Yin, e o macho o Yang.¹


¹ “Chinese Guardian Lions” (s.d.). Wikipedia. Página consultada a 9 de Fevereiro de 2018,
<https://en.wikipedia.org/wiki/Chinese_guardian_lions>

Hoje é domingo e é dia de mercado local. Um mercado local é uma emoção para qualquer estrangeiro. E nem vale a pena comentários, bastam as imagens.

089 - Pedalando Estrada Fora

Hoje esperam-me 35 km na bicicleta normal, sem motor. E com bastantes subidas pelo meio. Algumas fiz a pé, com a bicicleta pela mão. A bicicleta com motor elétrico ficou no alpendre do hotel, durante a noite, e com a chuvada torrencial, descarregou a bateria e molhou-se. A guia tem outra bateria, mas indicou que estando a bicicleta molhada, não era adequado substituí-la. Ok, não percebo nada de bicicletas elétricas, e foi a primeira vez na minha vida que usei uma. (E gostei…) Por isso hoje retomo a minha normal, sem motor.

Um hospital.

Aqui saí da estrada principal e fui espreitar aquela aldeia. O motorista Nong Bu e a guia já vão mais à frente, esperarão algures por mim.

Este sinal significa que se deve buzinar. Ao aproximarem-se da curva, todos os carros buzinam. E se existirem dúvidas, aí está a o sinal de trânsito a indicar que sim, que se deve buzinar. Eu tocava a minha campainha da bicicleta : )

Aqui está ele, sentado à beira da estrada. Claro que travei imediatamente a bicicleta. Eu descia a alguma velocidade, pelo que fui parar a alguns metros à frente e voltei para trás, com a bicicleta pela mão. Ele riu-se e gentilmente convidou-me a sentar-me ao seu lado, na beira da estrada. Assim fiz. E fotografei-o.

090 - Chegada a Shaxi

Parti pouco depois das 9.30h de Jianchuan, e cheguei agora a Shaxi (também chamada de Sideng), às 13.30h. O carro foi esperando por mim, durante o caminho, em pontos estratégicos. Cruzamentos, topos de subidas. Foi tranquilo, correu sempre bem.

Aqui estão a fazer um óleo, que não faço ideia qual é. Bem que pesquiso na internet, mas não consigo descobrir. Se alguém souber, pois que tenha a gentileza de enviar-me um email com a informação para eu alterar esta legenda de acordo.

O hotel onde fiquei.

Sopa de galinha com maçã e gengibre. Deliciosa e fortalecedora.

Tal como referido na crónica 43, os chineses usam máquinas de lavar roupa diferentes das nossas: a porta está em cima, e enquanto a máquina trabalha, essa porta está aberta, pelo que vemos a roupa a ser lavada. Efetivamente nós também vemos, dado que normalmente as portas são transparentes, mas enfim, este esquema é diferente.