25 dias na China, sozinha, de bicicleta

031 - Jaquinzinhos ao Almoço

Hoje a minha lentidão a pedalar é assombrosa. Tentei perceber o que se passa com a bicicleta. Não anda. Descobri que o travão está a tocar no aro do pneu, pelo que está a travar-me. Mas depois pus a bicicleta com o pneu no ar, girei-o com força, e ele não pára. Não, aparentemente não é o travão, apesar de estar a roçar no aro. A questão é que eu estou sempre a subir. É uma subida gradual, mas persistente. E estou a 2.400 metros de altitude. E estou com o jetlag ainda, o meu corpo não está a funcionar nas horas certas. Notei perfeitamente a diferença – todos estes fatores juntos contribuiem para a minha lentidão hoje. Ainda por cima começou a chover torrencialmente. Bom, tenho 22 km feitos até agora. Chamei o carro e segui o resto da viagem nele, até ao restaurante onde vamos almoçar.

Fui sempre no lugar da frente, ao lado do Nong Bu, e a guia ia atrás. Eu ia constantemente tirando fotos, e para tal chegava-me para a frente. Ficar-me-á para sempre na memória as constantes chapadas que apanhei deste Mao Tse Tung e deste Buda. E esta alcatifa verde a proteger o tablier – vamos fazer centenas de quilómetros por estradas de terra e pedras. Vamos ser totalmente chocalhados. Ora além das chapadas (felizmente não dóiem nada, aquilo é suave, mas de vez em quando os penduricalhos ficam-me à frente da lente da câmera e, logo, ficam nas fotos) portanto, além das chapadas, muitas vezes vou ter de ir com a mão na alcatifa para impedi-la de cair, porque ela não está colada, escorrega, e ainda por cima tem papéis por baixo, pelo que escorrega ainda mais. Ou seja, uma mão vai na alcatifa, a outra vai a agarrar a máquina fotográfica, e as chapadas do Mao Tse Tung e do Buda são constantes. Isto só nas zonas turbulentas, felizmente. É preciso é descontração.

Quando chegamos aos restaurantes vamos ver a montra dos legumes e da carne. Normalmente está exposta ao público, numa manifestação de quantidade e qualidade. Eu sou convidada a escolher, mas eu não sei como se cozinham os legumes, pelo que de vez em quando aponto para este ou para aquele, outras vezes deixo a guia escolher juntamente com a pessoa do restaurante. Desta vez escolhi o legume que está no canto superior esquerdo, o qual parece um xuxu, mas cheio de borbulhas. Não sei o nome dele, e serviram-mo misturado com ovos mexidos (delicioso).

A carrinha do Nong Bu, à porta do restaurante.

Trouxeram-me estes aperitivos: do lado direito está queijo de iaque. Ainda hoje me pergunto se percebi bem, ou se me informaram bem, porque parecem torrões de açúcar, doces, secos e rijos. Não parece nada queijo. Mas era bom.

Não faço ideia que peixe é este, mas será um peixe do Yangtzé, provavelmente, e são autênticos janquizinhos fritos, servidos em hortelã. Regalei-me com este pitéuzinho chinês.

O cartaz na parede pertence à “Administração de Alimentos e Medicamentos na China”, uma agência semelhante à que existe nos EUA, e que visa melhorar a segurança dos alimentos, dos cosméticos, e é a autoridade competente na regulação de medicamentos. Está diretamente debaixo do Conselho de Estado, também chamado de Governo Popular Central, o órgão máximo do poder executivo, encabeçado pelo primeiro ministro. Vejo na Wikipedia que a 10 de Julho de 2007, Zheng Xiaoyu, o antigo chefe desta agência, foi executado por aceitar subornos de várias firmas em troca de licenças relacionadas com a segurança de produtos.
Vi este cartaz em alguns restaurantes, o qual pelos vistos deixa um contacto para os clientes reportarem algum incidente na comida.
Veja-se também este cartaz que encontrei na Wikipedia:

Imagem do poster retirada da Wikipedia: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Chinese_Food_Safety_Poster.jpg

O motorista Nong Bu (com o número “3” nas costas) a almoçar com amigos seus. Pelos vistos passa com regularidade por aqui e já conhece as pessoas.

032 - A Caminho de Shangri-La

Após almoço tenho 27 km de bicicleta pela frente, antes de passar para o carro e fazermos outros 100 km até Shangri-La. A guia decidiu acompanhar-me na sua bicicleta elétrica dado haver muito trânsito. E eis que meia hora após o ínicio, ou nem tanto, ela pára e diz que vamos passar para o carro, dada a perigosidade desta estrada. Esta é boa, traz-me para aqui e depois diz-me isto. Efetivamente é sempre a subir e as ultrapassagens feitas pelos camiões são absolutamente temerárias. Os camiões e os carros descem a toda a velocidade e ultrapassam loucamente. Não há berma sequer onde nos possamos refugiar. Mais uma vez fui vendo a pequena estrada ao lado, perfeitamente adequada para quem vai de bicicleta, e senti-me tentada a sair da estrada principal e seguir por ela (tinha uma ponte de ligação), mas depois se não desse, teria de voltar tudo para trás e não arrisquei. Se estivesse sozinha, teria ido. Mas a guia estava comigo e não mostrou vontade de experimentar esse caminho. Constatei pouco depois que afinal podia mesmo ter seguido por essa via, neste breve trecho, pois de facto vai juntar-se mais à frente à estrada principal. Paciência. Este desconhecimento das estradas locais por parte da guia originou séria insatisfação do meu lado e decidi nesta altura que doravante teria de seguir os meus próprios caminhos. Eu quero andar de bicicleta, não de carro. E de preferência por estradas calmas, coisa que não falta, dado que a China é um mundo – um mundo de caminhos alternativos.

O grupo de ciclistas que encontrei antes (crónica 30) também parou para almoçar, pelos vistos, e vai agora aqui.

A guia e o motorista Nong Bu, o qual tinha ficado no restaurante com os amigos. O Nong Bu veio buscar-nos após a guia lhe ter telefonado a chamá-lo. Vamos fazer agora 120 km de carro até Shangri-La, durante quase 5 horas, tão demorado devido às estradas cortadas pelas obras. As chuvadas torrenciais das últimas noites têm destruído as estradas, as quais estão em constantes reparações.

Tirei esta foto da janela do carro, em andamento, e mantive-a apesar de não ter ficado famosa. É a escola secundária de Shangri-La.

033 - Anoitecer Animado em Shangri-La

O jantar foi uma espécie de bolo em forma de tarte feito com arroz, uma receita típica do Tibete, muito pouco doce; sopa com legumes e ovo; e noodles com vegetais e ovo. Tudo muito bom.

Entretanto o motorista Nong Bu e a guia foram-se embora (estão noutro hotel, mais afastados do centro) e eu fui dar uma volta a pé pela cidade. Shangri-La está a 3.200 metros de altitude. Não é para todos, portanto, e vejo na internet conselhos para quem sofre de dores de cabeça e afins, devido à altitude. Eu continuo bem, felizmente não reajo à altitude. Mas faz demasiado frio para meu gosto, devem estar uns 15 graus e eu não vim preparada para isto. Estou de sandálias, com os dedinhos gelados… Ainda por cima caiem uns pingos de chuva. Mas lá fui, com o chapéu de chuva do hotel. Quero conhecer este famoso Shangri-La, e como amanhã de manhã parto na bicicleta para outras bandas, tem de ser agora. O nome “Shangri-La” estava a despertar-me bastante curiosidade devido ao livro do escritor James Hilton, escrito em 1933, e consequentes adaptações cinematográficas, em que o Shangri-La é descrito como um lugar paradisíaco, com panoramas maravilhosos, e onde o tempo se detém em ambiente de felicidade e saúde. Eis que descubro que este Shangri-La não tem nada a ver com esse, e que efetivamente o nome da cidade antes era Zhongdian, tendo mudado para Shangri-La em 2001, precisamente para promover o turismo nesta área. E eram turistas por todo o lado, tiveram sucesso na operação. Aqui, pela primeira vez, vi dois ou três ocidentais. Até nos estranhamos uns aos outros. Eu pelo menos estranho-os. Já não estou habituada a ver louros e ruivos, e eles não devem ver muitas cabeleiras encaracoladas, com certeza.

Há música e dança na praça central.

Trajes tradicionais. Infelizmente esta foto ficou desfocada (tirar fotos à noite e em andamento, à pressa, é terrível), mas mantive-a.

O templo budista de Shangri-La.

Zhùangjīn Tǒng – uma roda de oração. Tem 21 metros de altura e é preciso meia dúzia de pessoas para conseguir girá-la, dado ser muito pesada.

034 – Ao Sétimo Dia... Amanheceu

Adormeci cerca das 10 da noite e acordei às 6 da manhã. Muito bem, os meus sonos estão a regularizar-se, a adaptar-se ao novo horário. Amanheceu com sol, um dia lindo. China, aqui estou eu e vou desbravar-te!

Hoje tenho um pequeno almoço em sistema de buffet, no hotel. Vou toda contente, pensando que vou escolher muitas coisas, mas qual quê. Comi novamente o bolo tibetano (fiquei fã – e havia muito pouco, mal o serviam no tabuleiro desaparecia logo), um ovo cozido, uma salsicha e um daqueles pães cozidos a vapor, branquinhos e fofos, que se vêm no canto direito da foto. Também não me apetece comer couve flor e bróculos cozidos. Há igualmente o arroz cozido em caldo, tipo canja (sem sal nem qualquer tempero). O pequeno almoço chinês é saudável, com muitos legumes cozidos. Depois tem os molhos à parte, extremamente picantes e por vezes fritos, com carne de porco, já não tão saudáveis, mas enfim, os chineses dão sabor à comida assim. Fruta é que nem vê-la, não é mesmo hábito ao pequeno almoço. Aqui no hotel estão apenas turistas de outras partes da China. Ou seja, a alimentação tem de adaptar-se a outros gostos de outras regiões do país. Tem de agradar a gregos e troianos, por assim dizer, mas a comida é típica de Yunnan.

No canto inferior direito está o cesto do bolo tibetano (sempre vazio! Eu apanhei sempre os últimos bocados).

E aqui começa o meu belíssimo passeio matinal de bicicleta, cerca de 20 km. O Nong Bu tirou e guardou tantas vezes aquela bicicleta. Vê-se a minha mala grande, dentro da carrinha, e a minha mochila com rodinhas, na estrada. Também se vê o pneu da bicicleta da guia, que tem motor elétrico, mas que não foi usada agora. Eu quero ir sozinha. O motorista e a guia foram-se embora, na carrinha, e eu dei início ao meu espantoso passeio de bicicleta, esta manhã.

Um moledro – chamado ovoo – com as bandeiras de oração – as lungtas. Os ovoos são usados como altares e santuários no budismo tibetano, e as lungtas – cujo significado literal é “cavalos de vento”, também fazem parte do simbolismo tibetano, para o qual a mente está montada numa energia ou vento interior.  (Ver mais detalhes na crónica 11).

As casas em construção despertam-me sempre curiosidade. Eu venho de Lisboa, não estou habituada a casas destas, com madeira, chinesas. Estas duas são do estilo tibetano. São casas muito grandes, sólidas, quadradas, com janelas pequenas. Shangri-La está a 200 km do Tibete, a influência é notória.

035 - Eis que sou Chamada... e eu Vou

Avistei-a com o cesto às costas, na montanha. Parei a bicicleta. Fiquei a olhar durante algum tempo. Ela vai subindo lentamente, aos ziguezagues, observando a vegetação à volta. Nem sequer repara em mim. Esta foto foi tirada com o zoom no máximo; a minha bicicleta, ao longe, deve ser um pontinho minúsculo, ela nem me vê. Até que resolvi chamá-la. Gritei “Hellooo!”. Ela finalmente olhou na minha direção e viu-me. Eu fiz-lhe adeus.

E ela chamou-me.
Fez sinal com a mão para eu ir ter com ela, lá acima.

Não posso acreditar. Ela está a chamar-me.
Corri com a bicicleta pela mão, tirei-a da estrada, coloquei-a na berma, na terra, meio escondida após a curva, para que não ma levassem, e corri por ali acima, antes que ela desaparecesse. Cheguei esbaforida lá acima.

Rimo-nos. Eu disse “Nihao” – olá em chinês. Ela fez-me algumas perguntas, mas eu não percebo a língua, encolhi os ombros. A primeira coisa que fiz foi tirar o capacete, pousá-lo no chão, e tirar a camisola de manga comprida que tinha vestida. Aquela correria por ali acima pôs-me a transpirar. E depois tirei a t-shirt que tinha por cima de outra camisola com alças. Ela observava-me, curiosa. (Quantas camisolas terá ela vestidas?, devia estar a pensar). Atei a camisola de manga comprida à cintura, enfiei a t-shirt toda amarfanhada na bolsa da cintura.

E então ofereceu-me aquele ramo de flores, que colheu ali no momento.
Isto não está a acontecer-me.

Como é possível tamanha generosidade. Todas as vivências que esta pessoa terá – tantos anos de idade, uma vida tão dura, carregada com o cesto às costas, a subir montanhas. Com uma resistência invejável. E ela chama-me e oferece-me flores, e diz-me para acompanhá-la.

Segui-a, estive algum tempo com ela, ela foi-me puxando pela mão, e eu tê-la-ia seguido o dia todo. A sua mão áspera e forte, a puxar-me por ali acima. Eu com passo acelerado, a tentar não fazer força nenhuma na sua mão – já basta ela ter de subir tanto, com aquela idade, ainda mais puxar por mim, eu cheia de força, mais nova, posso perfeitamente subir por mim própria. Nós estamos a 3.200 metros de altitude – este lago está a 3.200 metros de altitude – porém ela sobe a montanha com bastante vigor.

Lá em cima encontrou um massiço de vegetação, e parámos.
Respirei o ar puro, olhei à minha volta. O silêncio. A grandiosidade do cenário esmaga-me.
Ela observa-me, também curiosa. Explicou-me que veio da vila à nossa direita. Apontou para as casas lá em baixo e para si própria. Eu percebi – sim, ela mora ali.

Fiquei um pouco com ela, enquanto colhia a vegetação com a sua foice. Mas eu também tenho de continuar o meu percurso. Tenho um dia a percorrer de bicicleta, tenho outras terras a visitar, tenho tantas descobertas pela frente. Pelo que deixei-a a trabalhar, ocupada com o seu ofício, e despedi-me. “Xie Xie” – disse-lhe. Significa “obrigada”.
Repeti-lhe várias vezes – xie xie.

Obrigada – pela simplicidade e generosidade, sem sequer falarmos a mesma língua.

036 - No Belo Lago Napahai

Andava eu entretida a ver os porquinhos bebés, quando vejo a mãe porca em passo acelerado na minha direção, vinda da estrada. Naturalmente que montei a bicicleta e pisguei-me, antes que a coisa acabasse mal.

Aqui temos mais umas Lungtas, as bandeiras de oração, desta vez junto a um forno a lenha. Conforme referido na crónica 11, as lungtas – cujo significado literal é “cavalos de vento” – fazem parte do simbolismo tibetano, para o qual a mente está montada numa energia ou vento interior. É a força deste cavalo de vento que determina se a nossa mente é dominada por forças negativas ou positivas. Esta criatura mítica é frequentemente pintada nas bandeiras de oração, que voam ao vento para gerar mérito e aumentar a força interior de quem as pendura. As lungtas são a energia positiva e a sorte.

Ao fundo, do lado esquerdo, aquela construção branca é uma Estupa. Trata-se de um monumento funerário, por vezes sem espaço interior acessível, construído sobre os restos mortais de uma pessoa importante dentro da religião budista. Ou seja, são recetáculos para os corpos dos tibetanos considerados santos, e também recetáculos de relíquias, como os Sutras Budistas.
As estupas, que variam em tamanho, forma e adornos, estão localizadas sobretudo na Índia, Tibete, Nepal, Sri Lanka e regiões do sudeste asiático. Recordo que eu estou a poucos quilómetros do Tibete, e é patente toda a influência deste na região onde me encontro. No caso específico do Tibete, as estupas tomam o nome de “Chörten”. Os restos do Dalai Lama, por exemplo, são exumados num chörten de grandes dimensões, ou de ouro.

Este rapaz seguia de bicicleta, como eu, e entretanto parou e abordou este homem. Eu parei também, aproveitando logo a deixa para meter-me com eles todos e tirar-lhes umas fotos.
Descobri que está a viajar sozinho de bicicleta, num percurso de 10 dias, entre Lijiang e o Tibete. Pelo menos o pouco que falava, em inglês, percebi 10 dias. Não sei se ainda lhe faltavam 10 dias, por exemplo, ou se o total da viagem seriam 10 dias. Mas tendo em conta a distância entre Lijiang e o Tibete, provavelmente seriam 10 dias ao todo, com algumas paragens pelo meio. Ainda tentámos falar um pouco (mas ele quase não fala inglês), e depois pediu-me para tirar uma selfie com ele. Claro que tirei, e eu fiquei com esta como recordação. Reparei que ele vai com tanta roupa para o calor que faz, mas lembrei-me que os chineses não querem apanhar sol, não querem bronzear-se. E certamente aquele é equipamento próprio, que permite transpirar e evita o calor do sol.

Uma casa de banho. Paga-se 1 yuan e tem o sistema mais natural possível: vai tudo para o riacho que corre por baixo.

037 - Animado Almoço com um Grupo de Turistas Chineses

Terminado o passeio no lago Napahai, dirigimo-nos agora para o restaurante onde vamos almoçar. A guia indicou que seria uma pequena subida, que a seguir à curva seria a direito. Eu não quero subir montanhas a pedalar, muito menos a 3.200 metros de altitude. Bom, a seguir à curva acaba a subida – e assim fiz 5 km a subir, passei duzentas curvas, até que finalmente comecei a descer.

Este rapaz, por seu turno, disse-me que estava a fazer quatro dias a pé, entre Lijiang e o Tibete. Também sozinho.

Voltei a encontrar o motorista Jai Song (na foto com o boné preto), desta vez com um grupo de turistas chineses. Eram 3 ou 4 jipes, com 3 ou 4 turistas cada um. E tinham andado a apanhar estes cogumelos, que, pelo que me disseram, são raros e extremamente caros. Posteriormente mostraram-me um vídeo que mostra uma rapariga a cantar para um, depois de encontrá-lo debaixo de uma árvore. A sua raridade e o seu preço altíssimo fizeram-na cantar de agradecimento, uma canção cheia de emoção – ela agachada, em frente ao cogumelo, a cantar para ele. Claro que nos rimos todos.
O motorista Nong Bu está no canto inferior direito, de brinco na orelha. Relembro que ambos são cunhados: o Nong Bu é casado com a irmã do Jai Song.

Hot Pot de galinha, feito também com os cogumelos que o grupo de turistas chineses tinha andado a apanhar. Delicioso. Semelhante à nossa canja, mas com temperos próprios.

Convidaram-me para juntar-me ao grupo de turistas chineses. Não me fiz rogada, claro. No canto inferior esquerdo está a Song Yi, estudante do 3º ano de Engenharia Civil, com 20 anos, que está a fazer esta excursão pelo sul da China com os pais e o restante grupo.

A Song Yi fala bastante bem inglês, e explicou-me uma série de coisas. Nomeadamente como se agarram os pauzinhos com quatro dedos. Eu agarro com três, e nem sabia que havia outra forma. Disse-me que o seu pai também agarra os pauzinhos com três dedos, mas ela e a mãe usam quatro. E também devo agarrá-los mais em cima – eu estou a agarrar demasiado em baixo, perto da comida. Desde então comecei a esforçar-me por agarrar nos pauzinhos corretamente, mas distraio-me frequentemente. É um hábito de muitos anos, e ninguém me ensinou, comecei a usá-los nos restaurantes chineses em Portugal sem nenhuma explicação sobre como agarrá-los. E também confirmou a questão dos guardanapos: na China não é hábito usarem-se guardanapos. Explicou-me também que o Nong Bu estava a falar num dialeto com o Jai Song e com os restantes motoristas, não estão a falar em mandarim. Provavelmente um dialeto tibetano. Ela não os percebe, não fala esse dialeto.

Este almoço durou três horas – primeiro esperámos que o grupo do Jai Song chegasse, e quando chegaram foram arranjar os cogumelos; depois esperámos cerca de uma hora que a galinha cozesse; e depois levámos outra hora a comer e a falar. Pelo que tivémos imenso tempo para conversar, sobretudo com o seu excelente inglês. Claro que de vez em quando não se lembrava de alguma palavra (e eu idem) mas demos a volta usando outras palavras. Perguntei-lhe quantos alunos existem no seu curso de Engenharia (não anotei a resposta, no meu bloco, pelo que me esqueci, mas são poucos, tenho ideia que serão cerca de 30 alunos) e perguntei-lhe se existem muitas raparigas na turma, pois em Portugal o curso de Engenharia Civil tem maioritariamente rapazes (se calhar agora está a mudar, não sei). Ela respondeu-me que só existem três raparigas, o resto é tudo rapazes, o que me fez soltar uma gargalhada. Então podes escolher um namorado, tens muitos à escolha, disse-lhe eu. Ela mostrou-se desinteressada, disse que a sua prioridade agora era estudar e formar-se.

Com grande pena minha não fiquei com o contacto da Song Yi. Virei a conhecer outras pessoas mais à frente, e ficarei com os seus contactos (emails e WeChat – a espécie de WhatsApp que existe na China), mas infelizmente não fiquei com o contacto da Song Yi. Todos estes contactos são importantes e aqui falhei.

Quando precisei de ir à casa de banho, indicaram-me que deveria sair do restaurante e virar à direita. A Song Yi indicou-me o caminho. Aproximei-me, mas fiquei hesitante. Qual é o lado das mulheres e dos homens? Qual daqueles caracteres chineses é o das mulheres?… Voltei para trás e fui pedir ajuda. Riram-se, ao perceberem a minha dificuldade, e indicaram-me que era do lado direito.

Até estava bastante limpa. Mas olhar para os arbustos lá em baixo é pavoroso.

038 - De Bicicleta por Estradas e Túneis

Despedimo-nos todos e eu arranquei de bicicleta. O Nong Bu e a guia ficaram no restaurante, para me darem algum avanço. Tenho agora uma esplendorosa descida de uns 20 km, com muito pouco trânsito, e um cenário belíssimo. Saí tão lançada que me esqueci do capacete. Aí vou eu, de cabelos ao vento (uma imagem muito romântica, sim, mas nada segura) pelo que travei, encostei junto a uma casa, e enviei um sms à guia, dizendo que aguardava por eles, para me darem o capacete. Esperei quase o mesmo tempo que tinha andado: 15 minutos. A velocidade a que eu vou na bicicleta, a descer, é idêntica à da carrinha. Nas estradas de montanha, aos zigue-zagues, eles não podem acelerar muito mais. E eu também convém não exagerar: porque há animais na estrada, e há ultrapassagens loucas de camiões. Cada curva que faço, vou na expetativa de ver dois camiões lado a lado, em câmara lenta, a subirem, um a ultrapassar o outro. Várias vezes presenciei isto, e nas fotos abaixo essa situação foi apanhada em cheio.

Um túnel. Eu tenho luzes para a bicicleta, mas estão na bagagem, na carrinha. De qualquer forma a iluminação dentro do túnel é bastante boa, pelo que avancei. A velocidade limite é 10 km/h, segundo vejo no sinal. Garantidamente eu própria excedi a velocidade. Passei por três ou quatro túneis. Como vou a uma velocidade idêntica à dos carros, eles vêm atrás de mim. Nem tive qualquer razão de queixa do comportamento dos condutores chineses nestas circunstâncias. Mantiveram sempre uma distância de segurança. Este túnel tem 1.849 metros de comprimento, e o maior que passei tinha 3.800 metros.

Preço da gasolina 92 (não me perguntem o que é a gasolina 92, mas na China existe): 6,49 yuans (usando o câmbio da altura, em que 7 yuans é 1€, corresponde a 0,93€).

Gasolina 95: 6,95 yuans (0,99€).

Gasolina 98: 7,64 yuans (1,09€.).

039 - Chegada ao Hotel e Jantar

Hoje foram 45 km de bicicleta. Ainda fizémos 3h de viagem no carro, também. Vou jantar noodles (esparguete) com vegetais, agora na companhia de uma família de turistas chineses – do mesmo grupo com quem almocei. Efetivamente voltámos todos a encontrar-nos neste hotel, mas eles dispersaram-se para jantar. E finalmente alguém conhece o Ronaldo! Andava eu a perguntar a toda a gente se conhecem o Ronaldo, cada vez que me perguntavam de onde era eu. Portugal ninguém sabe onde é. Conforme já contei, às vezes perguntavam-se se era Polónia. Não, não é Polónia. É o país do Ronaldo! Conhecem o Ronaldo, o jogador de futebol? Esteve cá há 15 dias atrás. Não, ninguém percebe sequer de futebol. Mas eis que esta família conhece, porque o pai e o filho são fãs de futebol e portanto percebem da matéria. Foram eles logo que me disseram “Ronaldo!”. Falavam muito bem inglês, pelo que me fizeram muitas perguntas, e eu a eles. Ela é professora de inglês (está explicado o seu inglês, portanto), e ele tem uma empresa de algo muito específico, não me recordo ao certo, na área de tubagens, e esteve recentemente no Brasil, em negócios. O filho, por seu turno, disse-me que tem 13 anos, ao que os pais explicaram que na realidade tem 12, porque existem duas idades: a normal, que nós conhecemos, e a chinesa, com um ano a mais. Ou seja, acrescenta-se um ano à idade atual. Assim aprendi que os chineses consideram o tempo desde a conceção, contando os primeiros nove meses passados no útero. No dia do nascimento, já se tem um ano de idade, de acordo com o calendário chinês. Adicionalmente, as pessoas nascidas em janeiro ou fevereiro, antes do Ano Novo Chinês, no calendário chinês podem considerar ainda outro ano adicional à sua idade gregoriana. Ou seja, ficam dois anos mais velhas.

A data em que o calendário chinês foi introduzido varia consoante os estudiosos da matéria, mas na generalidade é aceite como tendo sido introduzido em 2.698 A.C pelo imperador Huangdi. O calendário chinês é uma combinação entre o calendário solar e lunar, baseado nos movimentos do sol e da lua. Por isso, o Ano Novo Chinês começa entre 21 de Janeiro e 21 de Fevereiro de cada ano. Este ano começou dia 28 de Janeiro de 2017, e estamos no ano 4.715 do calendário chinês, o ano do Galo. Mais de um quarto da população do mundo utiliza este calendário para encontrar a sua idade lunar, celebrar o ano novo e planear as festas. Fica uma última nota de que os meses têm 30 ou 31 dias no nosso calendário gregoriano, todavia no calendário chinês têm 29 ou 30 dias. Para não se perder a sincronia com o ciclo solar (de 365,25 dias), é acrescentado um mês aproximadamente a cada três anos.

040 - Os Cenários Imponentes de Yunnan

Faz um frio de rachar. O quarto do hotel está gelado e húmido. Há uma janela no corredor aberta 24h por dia, e quando me instalei no quarto, a minha janela também estava aberta, para esse corredor. Devem fazer talvez uns 15 graus à noite e de manhã. Eu não venho preparada com vestuário para isto, pelo que adoptei a mesma tática dos dias anteriores: vestir três camisolas e mais o impermeável por cima. À medida em que o dia vai aquecendo, e o exercício físico se vai intensificando, vou tirando as camadas, até ficar finalmente com uma camisola de alças. E sempre calções e sandálias. Fica a nota de que mesmo assim cumpri o ritual diário de colocar o protetor solar, seguido do anti-mosquitos. Porque de manhã faz frio e nublado, mas a partir das 11 ou 12h normalmente aquece fortemente e faz sol. Cinquenta por cento dos casos de malária na China têm origem aqui em Yunnan. Não devemos brincar com o assunto. Durante a viagem não estou a tomar comprimidos contra a malária, mas irei esvaziar dois frascos de anti-mosquitos. Ponho todos os dias de manhã e à noite.

Despedi-me do grupo de turistas chineses, que pernoitou no mesmo hotel que eu – ainda estive cerca de meia hora na receção a falar com a senhora que jantou comigo na véspera, professora de inglês. Estivémos sentadas, à espera dos respetivos motoristas, sempre a falar e a tirar dúvidas. Ela sobre mim e o modo de vida ocidental em geral (o meu cabelo encaracolado veio à baila, pois claro), eu sobre eles e o seu modo de vida (e o seu cabelo também!). Depois despedi-me novamente do meu anterior motorista, o Jai Song; e parti de bicicleta, num cenário espantoso. O Nong Bu e a guia ficaram para trás, dando-me algum avanço.

Deixo aqui um comentário sobre a forma dos chineses se cumprimentarem. Foi algo que me esqueci de perguntar às pessoas com quem fui conversando entretanto. Não me ocorreu. No final das nossas conversas despedi-me com um adeus e um sorriso, e pronto. Quando finalmente quis despedir-me do Jai Song – uma despedida mais séria e de agradecimento por toda a ajuda que me tinha dado até então, nomeadamente a carregar bagagens e bicicletas, perguntei à guia se habitualmente as pessoas se despediam com um beijinho, dois, ou mais beijinhos. A guia, sempre pouco conversadora, riu-se e disse que eu podia dar-lhe quantos beijinhos quisesse. Ela não percebeu que eu fazia uma pergunta séria, e que precisava mesmo de ter essa informação. Bom, chamei o Jai Song e dei-lhe dois beijinhos de despedida, à boa maneira portuguesa.
Mas não.
Os chineses não se despedem assim.
À pala da pouca informação da senhora dona guia, devo ter embaraçado o rapaz, que teve de ouvir assobios e piropos de todos os seus colegas motoristas, que ali estavam à espera de arrancar com os respetivos grupos. Vim a saber mais tarde, já a conversar com umas raparigas chinesas que conheci posteriormente, que na China não há bejinhos. Não é usado. De facto quase que tive de puxar pelo colarinho do Jai Song para finalmente conseguir espetar-lhe com os dois beijinhos. Bom, pelo menos fiquei de consciência tranquila. Agradeci-lhe como deve ser. Isto de acenar com a mão e virar as costas, não é coisa de portugueses.

O meu frugal pequeno-almoço, constituído por um ovo cozido, o pão tradicional chinês (parece uma panqueca e é bastante saboroso) e a bebida que nem percebi bem o que era, talvez chá com leite. Eu trouxe comigo, de Portugal, umas bolachas, para ajudar… A meio da manhã trinco umas bolachas. O carro de apoio também tem comida disponível: barras de cereais, fruta, comprimidos energéticos para dissolver na água, e a meu pedido, pacotes de leite, dos pequeninos. Eu pedi com chocolate, mas curiosamente na China não há pacotes de leite com chocolate. Ao longo dos 25 dias fui espreitando os supermercados e mercearias, e quase todos vendem pacotinhos de leite, mas com outros sabores, nomeadamente morango – com pedaços de morango – que eu gostei bastante. Nunca passei fome nesta viagem, felizmente, mesmo com as constantes malaguetas pelo meio.

Um moledro, ou seja, um monte de pedras empilhadas. Conforme explicado na crónica 11, o moledro chama-se “Ovoo” e é usado como altar e santuário. Presta homenagem ao espíritos do céu e das montanhas, além de garantir uma viagem segura.
Pelo menos eu não tenho razão de queixa: estes Ovoos proporcionaram-me sempre uma viagem magnífica na bicicleta.

Um glaciar.

041 - Almoço em Casa do Nong Bu

Entrada para o Parque Nacional da Montanha Nevada de Meili, onde fica a casa de Nong Bu. Vejo na placa que esta zona tem três vencedores entre as “Dez Melhores Vistas da China”: a Montanha Mais Bonita, O Desfiladeiro Mais Bonito, e a Floresta Mais Bonita. Esta área, etnicamente, é maioritariamente tibetana, embora tenha largas influências Han. A Montanha Nevada de Meili é considerada pelos Tibetanos como um lugar sagrado, e até hoje ninguém conseguiu subi-la. De facto o governo chinês proibiu estritamente qualquer tentativa de escalada desta montanha desde que em 1991 morreram aqui dezassete alpinistas, seis chineses e onze japoneses, os quais tentavam ser os primeiros a chegar ao topo, a 6.740 metros de altitude. Desapareceram todos numa avalanche. Alguns dos corpos só foram encontrados em 1998. Aliás, vejo uma notícia de 2016 num jornal japonês, que ainda hoje falta encontrar um corpo. A Montanha Nevada de Meili, que no Tibete é chamada de Kawakarpo, é objeto de adoração pelo Budismo Tibetano. Crê-se que a expedição era uma ofensa, e segundo consta, os monges tibetanos na altura rezaram para que eles não fossem. Os Tibetanos em geral consideram uma blasfémia essa escalada, e que houve inclusivamente uma intervenção divina, independentemente de existirem ou não as preces dos monges.

As regras de entrada são muito interessantes, se tiverem paciência de ler. A entrada para os séniores é grátis – mas só se é sénior aos 70 anos. Também é grátis para os “Trabalhadores-Modelo” (é necessário apresentar um certificado). Os dependentes de um mártir revolucionário também entram gratuitamente.

Vamos agora subir a montanha por uma estrada de terra e pedras, ao longo do desfiladeiro, pelo que a minha bicicleta é guardada e eu passo para dentro do carro. Claro que não me importava de ir a pedalar, mas se calhar só almoçávamos à hora do lanche.

A guia (que se estreia também nestas andanças de convites para almoçar em casa do Nong Bu, não sou só eu), e o próprio Nong Bu, todos a chegarmos a sua casa, na pequena aldeia de Sinong.

A mulher do Nong Bu, irmã do Jai Song. Também verei um dos filhos do Jai Song, que mora igualmente nesta aldeia. O rapaz – não sei se seria o de 21 ou o de 24 anos – é muito parecido com o pai.

A mãe do Nong Bu.

A parte nova da casa de Nong Bu, que está a ser construída. Fomos visitá-la lá dentro. Tem tudo de moderno, parece um apartamento lisboeta. É curioso conciliar assim uma casa tradicional (no piso de baixo) com uma totalmente diferente no andar de cima.

042 - Explorando a Aldeia do Nong Bu

Ora nós chegámos, cerca do meio-dia, e não fomos logo diretos para a mesa. Antes disso vamos dar um passeio pela aldeia. Fui a pé com o Nong Bu e a guia. Aquele foi cumprimentando as pessoas com quem se cruzava na rua, e explicando-nos o que eram os edifícios.

Se bem percebi, aqui é a Junta de Freguesia. Em frente (na foto de baixo) está o Posto de Saúde. O Nong Bu ficou ali sentado, juntamente com a guia, e eu fui explorar o resto da aldeia. Perguntaram-me se eu não iria perder-me. Ri-me. Havia de ser algo insólito, alguém perder-se numa aldeia. Tenho a China toda por minha conta, de bicicleta, e não me perco. Também não tenciono perder-me nesta aldeia, a passear a pé.

O homem está a dar bacon ao touro, aparentemente será para engordá-lo.

Infelizmente a foto ficou desfocada, eu estava à pressa e não foquei devidamente. Eles traziam uvas e ofereceram-me logo umas poucas. Eu, sempre com receio de comer fruta descascada ou não lavada com água mineral (mais detalhes sobre a alimentação na crónica 8) , não arrisquei, e delicadamente recusei.

043 - Explorando a Aldeia do Nong Bu (cont.)

Janelas ao estilo tibetano.

Espreitei para dentro desta casa e disse “hello”. As pessoas ficaram muito espantadas, claro. Uma ovelha ambulante e encaracolada a espreitar-lhes para dentro de casa. Estava esta velhota; a rapariga; um rapaz; e uma senhora, que seria a mãe de ambos, e que entretanto veio falar comigo. Eles tinham uma máquina de lavar roupa à porta, a trabalhar. As máquinas de lavar roupa chinesas são diferentes das nossas. A porta não está à frente, está em cima. Aliás, acho que esta nem tem porta. Vê-se a roupa a ser lavada, lá dentro. Mais à frente irei fotografar uma e poderá ser vista nestas crónicas. (Ver crónica 90).

Eles pensavam que eu andava perdida. É curioso, já é a segunda vez que me sugerem isto. Então mas alguém consegue perder-se numa aldeia tão pequena?… Eu disse-lhes “Nong Bu” e “Jai Song”, para eles saberem com quem eu estava. Então pensaram que eu andava à procura da  casa deles. O rapaz, que estava sem camisa, foi buscar um casaco à pressa, quentíssimo, e queria ir levar-me a casa do Nong Bu. Lá lhes dei a entender que não era preciso, que eu andava só a passear. E segui caminho. Eles ficaram a ver-me.

Este malandro ladrou-me desalmadamente, atraindo a atenção de toda a gente que se encontrasse ao redor. Não houve qualquer diálogo possível. Ele é um cão preparado para o frio, e tem ainda pedaços de pêlo farfalhudo, como as ovelhas, pendurados no corpo. Tentei apanhar essa imagem, mas não consegui. Ele em breve deixou de ligar-me e foi comer. Lá percebeu que eu não fazia mal. Efetivamente nunca mais me ligou, e eu cansei-me de estar ali de plantão, à espera que sua excelência acabasse de comer, para ver se conseguia tirar-lhe uma foto melhor. Tirei-lhe uma última (ver foto em baixo) que nem dei conta que ficou desfocada, e fui-me embora. Tenho as pessoas à minha espera para almoçar, não convém atrasar-me muito. Mas nesta foto abaixo consegue perceber-se os bocados de pêlo creme claro pendurados. Este é que se transforma numa autêntica ovelha, no inverno. Se não estou em erro, pelas pesquisas que fiz na internet, talvez seja um Cão Pastor do Cáucaso, ou arraçado. Se alguém souber, que me diga.

044 – A Música Tradicional de Yunnan

É um almoço simples e saboroso, com batatas fritas, ovos mexidos, queijo ao estilo tibetano feito pela mulher do Nong Bu (muito bom, ainda lhe dei um bom corte), chá com leite, também ao estilo do Tibete, e o resto que se pode ver na foto.

Além da companhia do Mao Tse Tung, destaco o cartaz à esquerda, do próprio Nong Bu quando era mais novo, e da sua irmã. Ambos tinham uma banda, formavam um duo musical, e cantavam e tocavam música tradicional tibetana. Atualmente a irmã vive na cidade e é professora de música. Eu verei algumas vezes o Nong Bu a tocar o seu Huqin – creio que é um Huqin (não conseguiram dizer-me o nome em inglês, do instrumento, pelo que pesquisei na internet e fui dar ao Huqin, o qual tem muitas variações de modelos). O Nong Bu e a irmã têm inclusivamente um DVD editado, o qual vou ouvir duas ou três vezes no carro, durante a viagem. É instrumental (com um Huqin tocado pelo Nong Bu) e tem canto também – ambos cantam. É uma música puramente tradicional, que para mim, ocidental, se enquadra na “World Music”, a qual ouço com bastante frequência. Mesmo tendo eu o ouvido muito habituado à World Music asiática, este disco não é fácil, e exige atenção. Música tradicional tibetana não é para qualquer ouvido desabituado. Mas o Nong Bu tem um ouvido muito musical, está treinado, toca o seu Huqin, e desde que nasceu que ouve música tradicional tibetana – a qual me pôs a ouvir também durante toda a viagem, no carro. Mas eu sou apreciadora, e alinhei facilmente.

O DVD está disponível no separador “Vídeos” do site RN – ou indo diretamente ao You Tube.

Há ainda outro DVD na carrinha (que tem um pequeno écran à frente, ao centro) com outro músico a tocar Huqin também, o qual ouvimos à vontade umas cem ou duzentas vezes, ao longo destes dias. Estava o Nong Bu viciado no disco, e pôs-me a mim viciada também. Cheguei eu própria a pedir-lhe para pôr o disco, enquanto ele conduzia em silêncio, estrada fora. O DVD está no modo “repetir”, pelo que acaba e começa novamente, vezes sem conta. Mostra as magníficas montanhas de Yunnan – precisamente os caminhos que estamos a fazer. No final o Nong Bu vai oferecer-me ambos, a meu pedido: o seu próprio DVD, com a sua irmã, e o outro também, apenas instrumental, de Huqin. Ouvir estas músicas é recordar as longas horas que passámos estrada fora. Este DVD também está disponível no separador “Vídeos” do site RN – ou indo diretamente ao You Tube.


Fotografei o quarto da mãe do Nong Bu (andei a espiolhar algumas partes do r/c…) mas creio que nenhum de nós gostaria de ver o seu próprio quarto inesperadamente exposto na internet, com a cama por fazer, seriamente desarrumado, e ainda com as caixinhas dos medicamentos em cima da mesinha de cabeceira, e todas as suas coisas pessoais – pelo que não publico a foto.

045 - De Bicicleta ao Longo de Montanhas e Rio

Aqui ainda de carro, bem como na foto abaixo.

Agora sim, de bicicleta, e já venho lá do fundo.

046 - Templo Budista nas Alturas

Saímos da estrada principal e iniciámos uma subida alucinante, por caminhos de terra e pedras.

Estão a haver obras no topo pelo que ocasionalmente caiem pedras, o que constitui um risco considerável. O Nong Bu e a guia telefonaram para o templo a avisar que estávamos a subir a montanha, para eles pararem temporariamente com as obras até chegarmos lá acima.

Esta criança foi acolhida neste Templo Budista e está a estudar para Monge. Está aos cuidados dos Monges. É do signo Porco, disse, pelo que terá nascido entre Fevereiro de 2007 e Fevereiro de 2008. Terá portanto uns 9 anos de idade.

A criança da esquerda está com a mãe (que não ficou nas fotos) e se bem percebi não está a estudar para Monge, está simplesmente a acompanhar a mãe, que está a trabalhar, mas não tenho a certeza. Os sacos têm oferendas compradas pelo Nong Bu e pela guia para oferecer aos Monges, sobretudo a estes mais pequenotes que por lá houvessem.

A população local reune-se aqui periodicamente para rezar. É muito difícil chegar cá acima. A inclinação é extremamente acentuada e longa. Não sei de onde virão – se lá de baixo, ou se têm casas num ponto intermédio.

Vamos embora, mas temos de esperar porque a descida está vedada devido às obras. O risco de queda de pedras é muito grande, pelo que vedaram a saída durante uns minutos.

As bandeiras de oração.

047 - Pernoita em Wei Xi

Hoje fiz 30 e poucos quilómetros de bicicleta, e quase 200 km de carro. Foi um dia intenso. Arrancámos às 9.30h da manhã, e chegámos às 9 da noite à povoação de Wei Xi. Foi uma viagem belíssima, quer a parte da bicicleta, quer a parte do carro. Entardeceu e anoiteceu enquanto o Nong Bu conduzia velozmente por ali afora, ao longo do rio Yangtzé, em cenários espantosos. Sempre a ouvirmos o DVD do Huqin. E a certa altura o Nong Bu começou a cantar. Canta mavilhosamente bem, músicas tradicionais. O rio, as montanhas, a música. Ficará para sempre na minha memória.

O Nong Bu pediu uma pausa para fumar e descansar.

Aqui tenho umas deliciosas guiozas cozidas a vapor. Tinha tanta fome que repeti, comi duas doses – vinte guiozas, portanto, e mais a sopa de algas. Tenho de tirar a barriga de misérias destas maravilhosas guiozas.

Finalmente tenho um quarto quente. Nos últimos hotéis esteve sempre frio. Curiosamente neste hotel começaram a oferecer preservativos. Doravante, em todos os futuros hotéis, em cima da mesinha de cabeceira vão estar sempre dois preservativos de oferta. Rapidamente encontro notícias na internet sobre esta questão, nomeadamente na agência de notícias britânica Reuters (informação que apenas procurei em Lisboa, diga-se, pois nesta altura do campeonato eu já tinha desistido de fazer buscas na internet chinesa, conforme referi na crónica 4). Vejo uma notícia de 2007 que refere que o Ministério do Comércio e Saúde emitiu um regulamento obrigando todos os hotéis, estâncias de férias e duches públicos na China a disponibilizar preservativos como parte dos esforços para travar a disseminação da SIDA. Da mesma forma também passaram a ser distribuídos panfletos com informação sobre a SIDA. Antes esta era estigmatizada como sendo algo do Ocidente – um problema de gays, prostitutas e drogados. Tradicionalmente nenhum destes existia na China comunista. No entanto o vírus começou a espalhar-se pela população em geral, e a falta de educação sexual, bem como a falta de vontade de falar sobre sexo, começou a dificultar a luta contra o vírus¹.


¹”Hotels told to provide condoms” (2007, 27 Julho). Reuters. Página consultada a 21 de Novembro de 2017,
<http://www.reuters.com/article/us-china-condoms/hotels-told-to-provide-condoms-idUSPEK27213320070727>

048 - E Arrancamos num Novo Dia

Entro hoje no décimo dia.  Ainda nem cheguei a meio da viagem. Os meus sonos estão perfeitamente regularizados, estou a acordar com despertador às 8 da manhã. Já encarrilei por completo no horário chinês, o qual tem 7 horas de diferença em relação ao de Lisboa. Em Portugal Continental é meia noite, em Yunnan são 7 da manhã.

Aqui está uma máquina de água, na receção do hotel, com uma funcionalidade que me encantou: tem água quente. Fui encontrando estas máquinas de água (fria e quente) durante o resto da viagem. Sendo eu adepta de beber água quente, seja verão ou inverno, estas maquinetas revelaram-se bastante úteis. Os chineses usam-nas sobretudo para fazer chá, mas eu bebo mesmo a água simples, morna, a qual tenho de ir misturando com a fria, pois ela sai a ferver e é preciso ter cuidado para não me derreter a garrafa de plástico.
Vou usando também as cafeteiras elétricas disponibilizadas em todos os quartos. Mas neste caso há que ter um duplo cuidado: dado que não posso beber água da torneira, é necessário eliminar qualquer vestígio de água que lá esteja dentro – fervendo-a (e fervo com água mineral), deito fora essa água, e então volto a encher com água mineral. Eu estou a beber cerca de 2 ou 3 litros de água por dia. Claro que na bicicleta, na rua, não amorno coisíssima nenhuma, pego nas garrafas e bebo. O carro de apoio transporta garrafas de água em bastante quantidade, e vai-me fornecendo sempre que necessário. É um serviço incluído nesta viagem.
Ao fundo, nesta foto, vê-se a guia.

A povoação de Wei Xi, onde pernoitámos. O hotel está à minha direita; não ficou na foto. Chuvisca, e estão talvez uns 23 graus.

O pequeno almoço – que foi tomado num restaurante fora do hotel – converteu-se na refeição mais difícil de toda a viagem, porque é sempre à base de carne frita e picantes. Cai que nem uma bomba no meu estômago vazio, pelo que rapidamente tive de encontrar uma alternativa. Ainda por cima tive um percalço esta noite: eram duas e meia da manhã estava a vomitar as guiozas, ou pelo menos o que restava delas. Comi excessivamente, claro. Ainda por cima às dez da noite. Serviu-me de lição. Cuidado com os exageros, Rute. Eu sei que gostas muito de guiozas e queres tirar a barriga de misérias aqui na terra das guiozas, mas não pode ser assim.
Portanto, agora vou comer umas bolachinhas que trouxe de Portugal, bem como um pacote de leite com chocolate, que também trouxe de Portugal, já precisamente para estas situações de emergência.

Repare-se nos rolos de papel higiénico em cima das mesas. São os guardanapos usados. Ao centro está o motorista Nong Bu e a guia, ambos a comerem noodles. Eu estava sentada ao seu lado, mas levantei-me para tirar fotos. Eles já sabem que eu não páro quieta, já se habituaram, continuam a comer e nem me ligam.

Arrancámos às 9.30h, ainda de carro. Depois de uns 15 minutos a andar, o Nong Bu vai tirar a bicicleta e darei início ao meu belíssimo passeio de hoje. Curiosamente quem não está bem também é o Nong Bu – nestes 15 minutos de carro, estivémos parados outra meia hora. O Nong Bu encostou e disse que precisava de ir aos arbustos. Deixou o carro ligado,  e eu e a guia sentadas dentro (eu sempre à frente). Ao fim de não sei quanto tempo, ele não aparece. Bom, desligámos o motor da carrinha. E eu comecei a ficar preocupada. Caiu, querem ver? Resvalou por ali abaixo, com as calças na mão? Então comentei com a guia que era melhor vermos se estava tudo bem. Ela foi espreitar e avistou-o agachado, ao longe, lá em baixo. Está visto que o jantar da véspera, tão tarde, não nos caiu bem. Eu vomitei às duas e meia da manhã e voltei a dormir, felizmente não sofri mais nada, mas pelos vistos com ele foi mais complicado.

Estou a usar uns óculos de ciclismo transparentes, porque está demasiado nublado para usar óculos escuros. É necessário usar óculos de proteção. Creio que toda a gente que já andou de bicicleta sabe que é muito desagradável ir a andar – se calhar com alguma velocidade – e entrarem poeiras ou mosquitos para os olhos. Ou pingos de chuva, que se transformam em pequenas pedrinhas a atingir a vista, quando se anda a alguma velocidade. Pelo que eu ando sempre com dois pares de óculos na bolsa da cintura: os escuros e os sem cor. Vou alternando conforme adequado.

049 - Bisbilhotando uma Aldeia Local

Está tudo enlameado com a chuva da noite, mas faz uma manhã linda para andar de bicicleta. O carro foi-se embora, foi à minha frente, e vai esperar por mim até que eu apareça. Mas eu resolvi sair da rota, ou melhor, fazer uma paragem numa aldeia ao lado da estrada.

Ei-la, uma pequenina aldeia escondida ao lado da estrada. Encosto a bicicleta, tento escondê-la o mais possível, e desço o caminho de terra a pé. Vamos ver o que se passa por aqui.

Afinal mais à frente há uma pequena estrada para os carros entrarem na aldeia. Montei na bicicleta e fui dar a volta para descer por essa estrada. Deixei a bicicleta desta vez bem à vista, em cima da ponte. Aqui vou eu meter-me no meio destas casas. O que anda esta gente a fazer, afinal de contas? : )

050 - Chove Torrencialmente... e Eu Entro para Casa Deles

Eis que durante este meu passeio exploratório começa a chover torrencialmente. A aldeia está quase deserta, não vi ninguém na rua a não ser a senhora e a criança de há pouco. Encostei-me a uma parede e abriguei-me debaixo das telhas, com a água a cair-me à frente do nariz. Se eu chegasse a cabeça para a frente, ficaria debaixo de chuva.

E esperei.
E pensei:
Mas se eu tenho ali uma casa, uma família, porque não vou ter com eles e peço abrigo? Pareço um pinto encharcado, de capacete na cabeça, de calçõezitos e sandálias. O que estou eu a fazer aqui sozinha, na rua, a chover, no meio da China?

E corri apressadamente para a casa onde tinha visto a senhora e a criança a desaparecerem.
Fui dar a um pátio onde um homem arranjava qualquer coisa, e deparei com a senhora, que sorriu e me convidou imediatamente a sentar-me à sua porta, abrigada, num pequeno banco de madeira ali existente. Eu devolvi-lhe o sorriso e agradeci: “xie xie”; sentei-me de bom grado e tirei o capacete, bem como a mala contendo a máquina fotográfica ao ombro. Pousei-a no banco, ao meu lado.
Sim, aqui está-se melhor.
Entretanto as duas crianças que ali estão ficaram eufóricas com esta súbita e inesperada visita, pelo que se riem, vêm espreitar, e fogem para o interior da casa. Eu ri-me também, até que fui mesmo convidada a entrar.

Ofereceram-me nozes (eu comi uma – a senhora teve o nítido cuidado de não tocar no fruto com as mãos, partiu a casca e deixou-me fazer o resto, numa delicadeza extrema), deram-me chá em dois copos de papel – tinham de ser dois para não me queimar os dedos, e também me ofereceram uma garrafa de coca-cola, que eu agradeci e não aceitei.

A simplicidade e generosidade destas pessoas deixa-me sem palavras.

Esperámos um pouco, em silêncio, no meio dos risos das crianças. Atrás de mim há uma janela e eu vou observando o tempo. Não há maneira de parar de chover. Fui bebendo o chá, quente e saboroso, que me aqueceu o coração também, enquanto esta família me observava, curiosa. Eu abri a bolsa da cintura e mostrei-lhes a maçã que levo, para explicar-lhes que não tenho fome, que não preciso de comer mais nada. O lume crepita e aquece-nos a todos.

Quando finalmente a chuva abrandou, fiz-lhes sinal de que vou partir. Agradeci-lhes uma vez mais: “xie xie”, e dirigi-me para a ponte onde a bicicleta ficou parada.

Obrigada.
Obrigada uma vez mais.

051 - Continuação da Viagem e Almoço

No meio disto tudo esqueci-me do motorista e da guia, os quais andavam à minha procura. Com aquela chuvada torrencial eles voltaram para trás no carro, atentos à berma da estrada, a ver se me viam, ou à bicicleta. Andaram para trás e para a frente, à minha procura. Só mais tarde vi três chamadas suas não atendidas, no telemóvel. Nem sequer as ouvi. Pelos vistos tenho o telemóvel com o som tão baixo, que nem ouvi. Quando saí de casa das pessoas continuei o meu caminho, de bicicleta. E eis que o motorista Nong Bu e a guia apareceram atrás de mim, na carrinha, a chamarem-me. Que é isto? Então já os passei? Era suposto estarem algures à minha frente. Eu por esta altura já tinha começado a reduzir o vestuário, a tirar camadas, pois mal chega as 11 da manhã faz bastante calor, sobretudo a pedalar. O impermeável já estava atado à cintura e eu seguia de t-shirt.
Expliquei-lhes o sucedido. Eles ficaram surpreendidos e acabaram por rir-se. Pedi-lhes desculpa pelo facto de não ter atendido o telemóvel, nem sequer o ouvi, e nem sequer me lembrei deles, de facto, tão entretida estava. Afinal de contas eles estão a trabalhar. Eu estou a divertir-me, mas eles estão a trabalhar, é bom que eu atenda o telemóvel quando eles me procuram.

Entretanto voltaram a seguir viagem, foram à minha frente, e eu continuo o meu belíssimo passeio de bicicleta.

Dez quilómetros depois voltei a encontrá-los, estavam parados na berma, sentados a conversar dentro da carrinha. Nem me vêem. Eu parei a bicicleta ao seu lado, a olhar pela janela. Só deram conta que eu estava ali quando lhes disse “Hello!” para dentro da janela aberta. O Nong Bu estava sentado ao volante, a guia no banco de trás. Quase que se assustaram.

Por esta altura tenho 50 km feitos.
Mais uma vez eles continuaram, e eu fiquei atrás. O passeio de hoje está a ser soberbo.

Continuei a pedalar até avistar a carrinha do Nong Bu aqui estacionada. É uma e meia da tarde, deve ser o restaurante onde vamos almoçar. Parei a bicicleta, desmontei e entrei. Lá estão eles sentados numa mesa, à minha espera. Repare-se que aparentemente não diz “restaurante” em lado nenhum. Se eu fosse a pedalar sozinha, sem o carro de apoio, passaria por ele como se de uma casa qualquer se tratasse.

Esperámos 45 minutos que a galinha se cozesse, nesta magnífica canja, mas valeu a pena. Era uma galinha rija, do campo, nada de frangos que se desfazem. Temperada com gengibre. Deu-me ali uma pujança tal que fiquei preparada para outros 50 km de bicicleta. Porém é um sarilho comer frango aos bocadinhos, muito rijo – com pauzinhos. Tive de ajudar com os dedos. Consigo lá tirar peles e ossos com pauzinhos.

Mantém-se a água a ferver, e vai-se deitando mais à medida em que acaba. Também se deitam os legumes crus, os quais se cozem rapidamente. Somos nós que vamos deitando a água e os legumes, e regulando a intensidade do lume. Repare-se também que eu aprendi a comer como os chineses – os ossos e peles ficam fora do prato. Quem não está a cumprir a tradição é a guia, que pôs os seus restos no pequeno prato. Basta regressar à crónica 37, onde almoço com um grupo de turistas chineses, e aí vê-se claramente os ossos em cima da mesa, ao lado dos pratos.
Repare-se também, claro, no rolo de papel higiénico fornecido pelo restaurante.

052 - Ao Longo do Rio Yangtzé

Às 3 da tarde arranco na bicicleta novamente. O Nong Bu e a guia ficaram sentados no restaurante para me darem algum avanço. Não ficaram por muito tempo, porque eu fiz um quilómetro, a descer, e quando quis parar e tirar uma foto, dei conta que não tinha a máquina comigo. Ficou esquecida no restaurante, em cima da cadeira. E agora, com a barriga cheia vou subir um quilómetro? Voltar tudo para trás, a subir?… Não vou, não. Enviei um sms à guia a explicar-lhe a situação e esperei por eles ali mesmo, na berma da estrada.

Aqui está o que eu queria fotografar: uma Estupa. Conforme referido na crónica 36, trata-se de um monumento funerário tibetano, por vezes sem espaço interior acessível, construído sobre os restos mortais de uma pessoa importante dentro da religião budista. Ou seja, são recetáculos para os corpos dos tibetanos considerados santos, e também recetáculos de relíquias, como os Sutras Budistas.
As estupas, que variam em tamanho, forma e adornos, estão localizadas sobretudo na Índia, Tibete, Nepal, Sri Lanka e regiões do sudeste asiático. Recordo que eu estou a poucos quilómetros do Tibete, e é patente toda a influência deste na região onde me encontro. No caso específico do Tibete, as estupas tomam o nome de “Chörten”. Os restos do Dalai Lama, por exemplo, são exumados num chörten de grandes dimensões, ou de ouro. As primeiras estupas foram encontradas na Índia e datam do século 4 AC, no entanto as escrituras budistas referem a sua existência desde um século antes. As primeiras estupas terão sido construídas com materiais perenes, pelo que se perderam com o tempo, e grande parte delas foi destruída durante a Revolução Cultural no Tibete.

Aproveitei o calor e o rio Yangtzé para tirar a lama das sandálias.

053 - Chegada ao Hotel e Tarde Livre

Hoje fiz 70 km de bicicleta. Cheguei cerca das 4 da tarde à povoação de Tai Cheng, onde a guia procurou um hotel para ficarmos.

No primeiro hotel onde a guia tentou marcar três quartos, aparentemente não haviam vagas, ou por qualquer motivo ela não o aceitou. Andámos 50 metros (eles no carro, eu na bicicleta atrás, a segui-los) e ficámos neste. Lá estão os preservativos em cima da cómoda, mas desta vez um está aberto e a embalagem vazia. Ora bem, já nem se dignam a trocar as embalagens vazias.

E agora? São 4 da tarde, garantidamente não vou ficar fechada no quarto do hotel. A povoação só tem uma rua principal, a qual rapidamente percorri na bicicleta. Há muitas lojas, muita gente na rua. Observam-me a andar para cá e para lá, na bicicleta.
Vou tentar subir uma montanha, a pé. Tantas montanhas à minha volta, quero subir uma.

Levei algum tempo a descobrir esta entrada. Andei para trás e para a frente, na bicicleta, saí da vila, voltei a entrar, um rapaz ainda tentou ajudar-me – eu apontei para a montanha e para um caminho de terra que estava a ver, onde cabia um carro, mas encontrar a entrada desse caminho tornou-se numa missão impossível. Ele apontou para fora da vila, e eu segui a estrada, mas já estava a afastar-me muito, pelo que voltei. Não encontrei caminho nenhum, a sair da estrada principal.  Voltei para a povoação e meti-me por caminhos de terra por detrás das casas, até finalmente dar com esta vereda. Não faço ideia onde vai dar, mas é isso que vou descobrir. A bicicleta fica aqui. Levo a água comigo na bolsa da cintura. A t-shirt amarfanhada dentro da bolsa tem de ficar na bicicleta, senão não cabe a água (eu estou de manga à cava). Aparentemente ninguém rouba bicicletas no campo, espero que também não me levem a t-shirt, pois trouxe-a das Seychelles e gosto muito dela, tem uma cor turquesa belíssima, com corais e peixes coloridos. Adeus bicicleta e t-shirt, já cá volto.

Foi um sarilho chegar aqui acima, e ainda nem sequer estou a meio da montanha. Andei no meio de vegetação muito densa, num grande emaranhado. Faz-me falta uma catana. Não, não consigo ir ao topo da montanha, preciso de alguém conhecedor dos caminhos para me levar. Voltei para baixo. Mas não quero ir-me embora de Yunnan sem subir uma montanha a pé. De bicicleta e de carro vou subir muitas, mas eu quero fazer trekking no meio da vegetação. Fica para os próximos capítulos. Não me resigno.

054 - Um Hospital Chinês

Já que não consigo subir uma montanha a pé, vou espiolhar a povoação. E meto-me em todo o lado.

Calculo que seja o Posto da Polícia. (Confesso que os polícias me provocam algum nervoso miúdo, seja em que parte do mundo for, e aqui na China então, dado o seu historial, garantidamente preferi manter-me afastada, pelo que me pisguei dali rapidamente. Ainda pensam que sou alguma espiã ocidental a bisbilhotar tudo e levam-me para interrogatório… primero que a embaixada portuguesa me conseguisse safar dali, deveria ser um sarilho).
Mas não, vim a descobrir mais tarde que se trata de um simples anúncio que refere “segurança, civilização, harmonia, trabalhamos junto para uma escola segura”. Efetivamente a Polícia – ou os Guardas – na China não usam as cores azuis e brancas, mas sim a cor preta.

O hospital. Estacionei a bicicleta ao lado das scooters e meti-me pelo edifício.

O hospital está deserto. São quase seis da tarde. Meti-me pelos corredores, subi ao segundo andar de dois dos edifícios. Não se vê vivalma. Experimentei algumas portas, estão trancadas.

Não há internados. Está tudo vazio. Estão todos saudáveis, pelos vistos. No terceiro andar deste edifício finalmente encontrei uma funcionária, à paisana, uma rapariga nova, não sei qual será a sua função. Ela andava a terminar o serviço e a fechar as portas. Naturalmente que ficou espantada com a minha presença ali, e se calhar até com algum receio. Eu já tinha visto tudo, fotografado o que tinha para fotografar, pelo que desci e fui-me embora. Já no pátio da entrada ela viu-me junto à bicicleta, e foi-se embora com outra rapariga (essa não sei de onde saiu) e foram a olhar para trás, de soslaio, intrigadas com a minha inusitada presença.

055 - Eis que Sou Convidada para Jantar

Andava eu a deambular pela vila, a tirar fotografias no meio das casas e das ruelas, enquanto entardecia, a ver algumas pessoas a dirigirem-se para casa… quando sou chamada da casa à esquerda, onde a criança anda a brincar na água. Oh meus amigos, já sabem que eu estou sempre pronta, eu vou logo. Deixei a bicicleta ali mesmo e fui.

Está muito escuro na cozinha, mal vejo o que estou a fotografar e esta foto ficou desfocada, é pena. Mas mantive-a, claro. Estão quatro mulheres presentes, uma delas com um bebé às costas; um rapaz dos seus 7 anos; e o homem da casa, que não me deixou fotografá-lo. Todos me receberam muito bem. Convidaram-me a sentar-me. Não falámos nada. Eu não falo chinês, eles não falam inglês. Sorrimos apenas. Mas eu não posso comer comida picante, e isso está a preocupar-me. Ainda fiz tenções de ir-me embora, agradecendo, mas eles insistiram para que eu ficasse. Percebi que há comida para todos, que a minha presença não faz diferença, e que gostariam de receber-me. Bom, liguei para a guia e pedi-lhe para ela explicar-lhes ao telefone que eu não posso comer comida picante. E enfim, também apresentar-me às pessoas, explicar-lhes de onde venho eu.

Vão usar banha de porco para fritar a carne.

Tudo tem picante e malaguetas, como se pode ver na foto. Como já tinham tudo temperado com picante, arranjaram ali um esquema de me colocarem uma tigela com água quente, onde eu molho a comida para retirar-lhe o picante, na medida do possível. A simpatia e o cuidado destas pessoas é excecional. Este jantar foi uma emoção para todos – para mim, claro, e para eles próprios. Terem assim uma convidada inesperada. Infelizmente não conseguimos conversar (se a guia fosse mais prestável eu teria tido uma conversa através do telefone – em que eles perguntavam e eu respondia – e vice-versa – tendo a guia como tradutora, ao telefone, mas ela é um pouco fechada, não me deixa à vontade para fazê-lo).
Para o jantar temos portanto: sopa de ovo e tomate; tiras de fígado fritas; ao centro está bacon (verdadeiramente delicioso) em cima de pedaços de fruta (que eu evitei por estar crua e descascada); à direita estão fatias de carne de porco assada; batatas fritas; legumes fritos e arroz. Éramos oito à mesa, contando com o bebé. Vê-se o pezinho dele à direita.

Terminado o jantar eu despeço-me desta generosa família, e sigo para o hotel, onde vou finalmente tomar um duche e descansar. Ou pensava eu. A chave do hotel? Onde está a chave do quarto?
À porta do meu quarto, no segundo andar, tiro a bolsa da cintura e esvazio-a no chão. A chave do quarto é um cartão pendurado num porta-chaves relativamente grande. Nada.
Perdi a chave do hotel.
Será que a deixei caída em casa dos meus anfitriões? Quando tirei o telemóvel para falar com a guia, quando estava sentada no sofá, se calhar caiu.
Toca a voltar para trás. Montei a bicicleta e fiz caminho para casa deles, novamente.
Encontrei-os já na rua, a uns duzentos metros de sua casa – íam passear depois do jantar, caminhar um pouco. Uma vez mais liguei para a guia e pedi para ela explicar-lhes a situação ao telefone. Uma das raparigas então voltou para trás comigo, e andámos à procura da chave. Ela vasculhou tudo – debaixo das almofadas, debaixo do sofá, nos vários sítios onde eu estive. Nada. Pelos vistos perdi a chave noutro local.
Agradeci uma vez mais e voltei para o hotel, onde a dona deste foi abrir-me a porta do quarto com um molho de cartões seus. Depois tive de deixar o meu cartão multibanco na ranhura, dentro do quarto, para ter luz. Só espero amanhã de manhã não me esquecer de tirá-lo, quando me for embora.
Entretanto lembrei-me da pequena caminhada pela montanha – quando tirei a t-shirt da bolsa da cintura e coloquei a água – se calhar foi aí que deixei cair o cartão. É a primeira vez que tal me acontece. Tantos quartos de hotel, ao longo dos anos, e foi a primeira vez que perdi a chave. Não mais voltei a vê-la.

056 - Começa o 11º Dia da Viagem

Gostei deste quarto de hotel, é quente, andei de manga à cava. Nos primeiros dias na China passei frio nos quartos. Hoje tive de acordar cedo: às 7.30h já temos de estar no lobby do hotel com as bagagens prontas. O motorista Nong Bu vai comer noodles no restaurante em frente (eu entrei pela cozinha e fui ver fazê-los); a guia não aprecia noodles e vai comprar pão cozido a vapor para os macacos, mas acabou por comê-lo ela; e eu fiz o lindo serviço ontem à noite de molhar a comida em água quente – mas era água da torneira com certeza. Obviamente que era água da torneira. Esqueci-me completamente de avisar as pessoas que tinha de ser água mineral. Eles até tentaram dar-me uma garrafa de água selada, que eu não aceitei porque não precisava, nem tinha onde transportá-la na bicicleta. Agora estou mal do estômago, pois claro. Jantei a comida molhada em água da torneira. O disparate é de tal ordem que me faz ficar abismada com tamanha distração. Até os dentes tenho de lavar com água mineral, e agora ponho-me a jantar comida molhada em água da torneira. Bom, esta manhã recorri portanto às minhas bolachas trazidas de Portugal, e mais um pacote de leite com chocolate, também trazido de Portugal. Felizmente passou rapidamente. Tenho tido sorte, nesta viagem. Desta vez escapei por um triz da habitual gastroenterite. Se calhar já estou a ganhar resistências – já é altura disso.

E às 8 da manhã partimos. Destino: Parque Florestal onde vivem os Macacos-de-Nariz-Arrebitado de Yunnan. Só se vêem aqui em Yunnan, e pela manhã, quando lhes vão dar comida. Temos de despachar-nos.

O Nong Bu a sair do hotel em marcha-atrás.

Pão cozido a vapor.

Já a chegar ao Parque Florestal. Fizémos uns 30 minutos de carro desde o hotel até aqui.

057 - A Caminho do Parque Florestal para Avistar os Macacos

Entrada do Parque Florestal. O bilhete custa 150 yuans (ao câmbio que estou a usar – 7 yuans é um euro – dá 21 euros) e a seguir temos de ser levados lá acima num minibus. Vou eu e o Nong Bu, a guia ficou no carro.

O Nong Bu está de blusão azul, à direita. Terminada a pequena viagem de mini-bus, agora começa a caminhada pela montanha, até chegarmos ao topo.

Desenganem-se se pensam que elas estão a descansar. Elas estão à espera do resto do grupo – os mais novos vêm com a língua de fora mais atrás. Eu mantive-me sempre colada a elas, mas deram luta. Neste pequeno grupo vêm dois franceses, um casal de uns 35 anos. São os terceiros ocidentais que vejo desde que cheguei à China. E estes são muito calados, nada dados a conversas. Nem sequer cumprimentaram ninguém, nem a mim. Se calhar é o primeiro dia deles, estão ainda em ambientação. Pelo menos parece. Eu no primeiro dia quando cheguei a Yunnan também não falei com ninguém. Vamos dar-lhes esse benefício da dúvida. Mas eu acabei por meter-me com eles, um pouco mais à frente, e perguntei-lhes de onde eram. De França, lá me responderam, e perguntaram-se de onde era eu. De Portugal, respondi-lhes, e a conversa ficou por aí. Consigo falar mais com os chineses, sem dizermos uma palavra de inglês ou de chinês, do que com estes franceses tão reservados. Estes certamente nunca serão convidados para jantar em casa de uma família chinesa.

Ainda não chegámos ao local onde vamos ver os Macacos-de-Nariz-Arrebitado de Yunnan, mas este já anda aqui a espreitar-nos. É uma emoção, claro. Ver um animal no seu habitat natural, livre. Ainda por cima vem espreitar-nos.

Chegámos ao local onde vamos ver os macacos. Eles irão aparecer. Ao fundo está um funcionário do Parque, o qual leva com ele um saco cheio de uma planta verde que parece algodão – não consigo descobrir o nome dela, apesar de a ter visto algumas vezes e inclusivamente fotografado. Vê-se pendurada nas árvores, num efeito belíssimo. Bom, e pelos vistos é uma iguaria para os Macacos-de-Nariz-Arrebitado de Yunnan.

Também está presente uma equipa de jornalistas. Estão a fazer um documentário, calculo.

058 - Macacos-de-Nariz-Arrebitado de Yunnan

Todos démos um “Aaaahh!…” generalizado, quando os macacos finalmente apareceram. Somos poucas pessoas e apressámo-nos a chegar à frente, o mais perto possível. Há uma corda que não podemos passar – simplesmente uma corda nos separa dos macacos.

Trata-se da espécie Rhinopithecus Bieti, entre todos os primatas o que vive em maior altitude, entre os 3.000 e os 4.700 metros (excetuando o homem). É uma espécie ameaçada, conforme consta na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais:
http://www.iucnredlist.org/details/19597/0
Segundo a IUCN, esta espécie sofre um risco muito elevado de extinção na natureza.
Que tristeza tão grande, vê-los ali, saudáveis, livres, a meterem-se connosco. E se calhar daqui a uns anos já cá não estarão nem os seus descendentes.

Vê-se a corda do lado direito, a que não podemos passar.

Aí vai um com as plantas na boca, parecem musgo, as plantas que o funcionário do Parque lhes foi dar.

Este guarda enxotou os macacos, os quais estavam a ir em direção às casas, lá mais para baixo. Eles não podem ir para as casas, têm de ir para a montanha e afastar-se dos humanos. O guarda estava a zangar-se seriamente com eles, e eles obedeceram-lhe, voltaram para o seu caminho.

059 - Uns Belíssimos 100 Km de Carro... e Comparação da China com a Índia

Era quase meio dia quando eu e o Nong Bu chegámos ao carro, vindos do minibus, estava a guia à nossa espera. Temos agora de ser rápidos, pois vamos a caminho de Shangri-la, onde vamos pernoitar, e o caminho mais rápido é por uma estrada em construção, a qual vai fechar à tarde. Vamos fazer 134 km, dos quais 100 são nesta estrada com um cenário espantoso.

Aproveito esta viagem de carro para abordar outro tema e divulgar um artigo do Diário de Notícias onde é feito um comparativo entre o desenvolvimento da Índia e da China. Tendo eu estado em ambos os países, em circunstâncias idênticas – de bicicleta em pequenas aldeias e locais remotos, e também em ambas as capitais – posso corroborar (na minha pequena experiência, de acordo com o que fui vendo) esta análise de que a China está mais desenvolvida do que a Índia. Mas havendo dúvidas basta comparar os dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o qual classifica a China como um país com rendimentos médios altos:
Taxa de literacia: 96,4%.
Expetativa de vida: 76 anos.
Índice de pobreza: 11,8%¹

Já a Índia:
Taxa de literacia: 73%.
Expetativa de vida: 68,3 anos²
Índice de pobreza: 21%³

Deixo a nota de que é precisamente na zona onde estou, em Yunnan, onde que se encontra uma das mais altas taxas de pobreza, na China. A diferença nas capitais – Pequim e Nova Deli – essa é por demais evidente. Pequim está muito mais desenvolvida, é mais rica, mais sofisticada, com a população em geral bem adaptada à vida moderna. Reparem que não estou a comentar outros aspetos sociais ou políticos, como a liberdade de expressão. Esse tema ficará para outra crónica, em detalhe.

Segue então a transcrição do artigo do Diário de Notícias:

Índia cada vez mais desigual desafia China cada vez mais poderosa
A competição entre os dois gigantes asiáticos verifica-se na diplomacia e na geopolítica. Mas estão forçados à cooperação na economia

A China e a Índia foram os países em que mais cresceram as vendas de automóveis em 2017, tendo sido adquiridos no primeiro país mais de 28,6 milhões de viaturas e no segundo 4,1 milhões. O volume de vendas revela a dimensão das duas economias, as potencialidades e limites de duas grandes potências asiáticas que mantêm entre si uma relação tensa herdada da história, ao mesmo tempo que estão obrigadas à cooperação em certas áreas.

A Índia não deixa de olhar com desconfiança o poderoso vizinho do Norte, com o qual tem um pesado défice comercial (sendo o sétimo principal destino das exportações chinesas), diferendos territoriais na longa fronteira comum (mais de 3300 quilómetros na atualidade) e uma competição em crescendo nas áreas da diplomacia internacional, geopolítica e tecnologias.

Se o peso demográfico da Índia é um argumento poderoso para o país hoje governado pelos nacionalistas hindus do BJP, partido do primeiro-ministro Narendra Modi – que ultrapassará a China por volta de 2024-5 como nação mais populosa do mundo -, outros indicadores deixam a claro as suas profundas fraquezas. Dois exemplos: quase 30% dos 1,2 mil milhões de indianos vivem abaixo da linha de pobreza (na China o número é de 2%) e a taxa de literacia é de 72,9% (na China é de 96,3%), isto é, abaixo da média universal, que é de 84%.

Ainda no capítulo demográfico, um perito chinês na matéria, Yi Fuxiang, explicava em maio numa entrevista ao The New York Times que o declínio populacional do seu país se devia apenas às políticas de natalidade de mais de três décadas, forçando os casais a terem só uma criança, e seus efeitos perversos, como o abandono de bebés do sexo feminino. Uma política só abandonada em 2015, por decisão do presidente Xi Jinping. O fator demográfico é fundamental para alimentar a a população ativa no mercado de trabalho, sublinhou o mesmo especialista. E, se neste ponto a Índia está longe de caminhar para a estagnação – “a população vai crescer nos próximos 30 ou 40 anos”, considerou no mesmo artigo um especialista em estudos de população, K.S. James, da Universidade Jawaharlal Nehru, de Nova Deli -, os indicadores nas questões da pobreza e da literacia provam que está ainda longe de ser uma potência com a projeção global que é hoje já a da China. Diferentes avaliações dão à economia indiana cinco a seis vezes menor dimensão do que à chinesa.

A economia indiana tem crescido a valores elevados, mas a desigualdade e assimetrias sociais e entre os estados também estão a aumentar. Assim como o fosso entre os meios urbanos e rurais. Em 2015, uma análise do Fórum Económico Mundial notava que 82% da população não tinha acesso à internet, só em 12% dos agregados familiares existia um computador e apenas duas em cada cinco pessoas tinham telemóvel (sem ser smartphone). “A Índia tem vindo a ficar para trás em relação a outros países asiáticos em vias de desenvolvimento”, concluía o documento.

Particularmente desde a chegada ao poder de Narendra Modi, em 2014, tem havido um esforço para mudar a situação. Paradoxalmente, com apoio da China. Quando visitou a Índia em setembro de 2014, o presidente chinês prometeu investimentos na ordem dos 20,7 mil milhões de dólares (17,5 mil milhões de euros) nos setores industriais e em infraestruturas. E no ano seguinte, na deslocação de Modi à China, novos contratos foram assinados. O que não impediu que Nova Deli protestasse, pouco antes da viagem de Modi, pela inclusão da “Caxemira ocupada pelo Paquistão” no projeto da Nova Rota da Seda (a Belt and Road Initiative), originalmente formulado por Xi em 2013.

Na mesma época, Modi apresentou o projeto Make in India (Produzir na Índia), com o objetivo de desenvolver e modernizar setores estratégicos da economia nacional, e atrair investimento estrangeiro, entre os quais o chinês. Ênfase especial foi dada aos setores das tecnologias da informação, industrial e às energias renováveis.

Se é importante para Nova Deli a cooperação com a China, a Índia sabe, por experiência própria, que está nesta esfera em competição com aquela que é hoje a segunda maior economia mundial. E conhece bem o preço a pagar por isso. A Índia tem procurado implantar–se na China na áreas das indústrias farmacêutica e de informática, onde, tal como os chineses, tem empresas de primeira linha, mas sem sucesso. O mercado chinês permanece altamente protecionista e a criação de empresas estrangeiras no país continua sujeita a restrições.

Perante a crescente afirmação da China, Nova Deli tem procurado aliados entre aqueles que nutrem reservas sobre os fins últimos de Pequim. O Japão é um deles; o outro, e mais importante, são os EUA, com os quais desenvolveu uma “parceria estratégica global”. Após a visita de Barack Obama, em janeiro de 2015, à Índia, os dois países adotaram “uma visão estratégica comum para a Ásia-Pacífico e para a região do oceano Índico”, numa clara indicação de que há limites àquilo que, quer em Nova Deli quer em Washington, é considerado como “tentações expansionistas” de Pequim na região. No comunicado final daquela visita há mesmo uma referência expressa “à liberdade de navegação no mar do Sul da China”, onde Pequim tem prosseguido uma política agressiva com a ocupação de pequenas ilhas e atóis.

É perante o desafio das “tentações expansionistas” de Pequim que Nova Deli procura ser um contrapeso geopolítico alternativo, tanto mais que a relação entre a China e o Paquistão (o inimigo histórico da Índia) tem vindo a consolidar-se. O que explica a aproximação aos EUA, que, por sua vez, têm vindo a distanciar-se do Paquistão. A Índia sabe que é e vai ser um grande poder, mas sabe também que vai ter sempre presente a sombra da China.⁴


¹ “About China”, United Nations Development Programme (UNDP). Página consultada a 28 Dezembro 2017,
<http://www.cn.undp.org/content/china/en/home/countryinfo.html>

² “Human Development Report 2016”, United Nations Development Programme (UNDP). Table A: India’s HDI trends based on consistent time series data, p. 3. Página consultada a 28 Dezembro 2017,
<http://hdr.undp.org/sites/all/themes/hdr_theme/country-notes/IND.pdf>

³ “About India”, United Nations Development Programme (UNDP). Página consultada a 28 Dezembro 2017,
<http://www.in.undp.org/content/india/en/home/countryinfo.html>

⁴ Morais , Abel Coelho de (2017, 25 Dezembro). “Índia cada vez mais desigual desafia China cada vez mais poderosa”. Diário de Notícias. Página consultada a 28 Dezembro 2017,
<https://www.dn.pt/mundo/interior/india-cada-vez-mais-desigual-desafia-china-cada-vez-mais-poderosa-9007988.html>

060 - Muito Chocalhados... e Almoço

Fomos de tal maneira chocalhados, e ficámos de tal maneira empoeirados, a toda a velocidade por ali afora com as janelas abertas, que nos rimos. O Nong Bu conduz com velocidade, sem hesitações. A gente voou por ali afora. A certa altura a minha bicicleta e as bagagens ficaram por segundos no ar, até que finalmente a carrinha aterrou e elas também. As janelas vão abertas, tudo está empoeirado, eu com um quilo de terra no cabelo, e o mesmo disco louco sempre a tocar, do Huqin, com a música tradicional. O disco, com 40 minutos, está sempre no modo repetir, pelo que termina e recomeça automaticamente. Voámos empoeirados por ali afora, durante três horas, sempre ao som por vezes acelerado deste Huqin. Chegámos estonteados e esfomeados a Shangri-la, onde nos espera um magnífico Hot Pot de iaque, e também guiozas de iaque. Eram três e um quarto da tarde.

Efetivamente este DVD, gravado pela “Yunnan Audio-Video Publishing House”, vai ser meu, vou pedi-lo ao Nong Bu e ele vai oferecer-mo, no final da viagem. Ouço-o agora, enquanto escrevo estas palavras. Chama-se “Meili Xian Yin”, em que Meili é a montanha sagrada, na região onde fica a casa do Nong Bu e onde fomos almoçar (ver crónica 41).
Relembro que o DVD está disponível no separador “Vídeos” deste website, ou diretamente no link no You Tube:
https://www.youtube.com/playlist?list=PLA32_iS4_GJZZFv9Jnpsp2l9Uk-0_KL6M

Aqui temos uma estupa, ou um “chörten” tibetano. Conforme desenvolvido na crónica 52, a estupa é um monumento funerário, por vezes sem espaço interior acessível, construído sobre os restos mortais de uma pessoa importante dentro da religião budista. Ou seja, são recetáculos para os corpos dos tibetanos considerados santos, e também recetáculos de relíquias, como os Sutras Budistas.
E ao lado esquerdo da estupa está um moledro, um monte de pedras empilhadas, que no Tibete se chama “ovoo”. Conforme descrito na crónica 11, os ovoos são usados como altares e santuários, e prestam homenagem ao espíritos do céu e das montanhas, além de garantirem uma viagem segura.
Esta estupa e este ovoo vêem-se agora no meio de grande bulício, apanhados no meio das obras da construção desta estrada.

Chegada a Shangri-La (onde já pernoitei – ver crónica 33 sobre esta cidade). Recordo que Shangri-La está a 3.200 metros de altitude.

Restaurante famoso pelo Hot Pot de iaque. Em letras pequenas diz “Regong Art Pavilion Tibetan Meal”.

Hot Pot de iaque. Tem lume por baixo e em breve vai começar a ferver. Após estar cozido, nós vamo-nos servindo e adicionando mais água, se necessário. Também trouxeram guiozas de iaque, realmente boas.