25 dias na China, sozinha, de bicicleta

121 - Na Grande Muralha

É espetacular.
Diria mesmo: é assombroso. Este silêncio, esta vastidão, esta persistência. Sim, ocorrem-me palavras como persistência. Perseverança, duração, constância, firmeza.

A velhinha e majestosa Muralha ainda respira. Pausadamente.

122 - Na Grande Muralha (cont.)

Foram ao todo 8 quilómetros a partir das 11.40h. Passei 3,20h a caminhar na Muralha. A caminhar e a trepar pelas pedras, em alguns pontos.

A Muralha da China não é uma única estrutura, mas sim um conjunto de fortificações, construídas ao longo de dois mil anos, por ordem de 13 dinastias. A parte mais extensa e bem preservada vem da Dinastia Ming (1368–1644) e tem o 8.850 quilómetros de comprimento. No entanto em 2012 foi anunciado que a Muralha da China mede 21.196 quilómetros na totalidade. Esta medida contempla todas as paredes que foram alguma vez construídas, mesmo as que já não existem. Grande parte da Muralha data do século VII até ao IV A.C. No século III A.C, o primeiro imperador da China unificada, Qin Shihuang, ordenou que se fizesse a ligação dos vários sistemas defensivos existentes na altura, num único sistema. Além disso, as características defensivas da Grande Muralha foram reforçadas pela construção de torres de vigia, quartéis de tropas, estações de guarnição, capacidade de sinalização por meio de fumo ou fogo, além de que o caminho da Grande Muralha também servia como um corredor de transporte.
A Grande Muralha é assim a maior estrutura militar de defesa no mundo, mas também possui outras finalidades ligadas  ao controlo de fronteiras, permitindo a imposição de direitos sobre mercadorias transportadas ao longo da Rota da Seda, a regulação ou o encorajamento do comércio, e ainda o controle da imigração e da emigração¹.


¹ “Muralha da China” (s.d.). Wikipedia. Página consultada a 31 Março 2018,
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Muralha_da_China>

123 - Fim da Caminhada e Regresso a Pequim

Visitei propositadamente esta parte da Muralha não reconstruída. Está deserta, no seu estado original. Em bruto, depois de tantos séculos de existência. Quem gostar de algo mais seguro e arranjadinho, pode escolher a parte mais visitada, já reconstruída. O guia Li Bo também organiza visitas a essa parte. Foi uma opção minha escolher esta zona – que se chama Jiankou.

Às 16 horas chegámos a uma pequena aldeia, a pé, onde o Li Bo comprou dois gelados e deu-me um. Mas eu tive receio da água com que o gelado é feito. É um gelado de gelo, não de creme. Se calhar não é água mineral. Pelo que o Li Bo acabou por comer o meu e o seu.

Rumámos então de volta a Pequim, no jipe. Foram 120 km para cada lado. Agora, entre as 16 e as 19h fizémos 120 km. Três horas para fazer 120 km. O trânsito é intenso. E é um domingo. Passámos o 5º anel de Beijing.

Foi um dia altamente produtivo, durante o qual bombardeei o Li Bo de perguntas desde as 8.30h da manhã, hora a que me apanhou no meu Hutong, até às 19h, hora a que voltou a deixar-me lá. Efetivamente o Li Bo teve uma paciência de santo e tentou responder a todas. Sobre tudo e mais alguma coisa. Nomeadamente sobre o salário mínimo, a idade de reforma, ou a segurança social. Ou sobre o Mao Tse Tung, com o Grande Salto em Frente (1958-1962) e a Revolução Cultural (nas décadas de 1960 e 70).
Não questionei o Li Bo sobre esses eventos propriamente ditos – creio que não há muito mais a dizer. A única coisa que ainda se poderá vir a saber é o número exato de mortos. Citando um  artigo da revista Visão sobre a Revolução Cultural:

“Números? Não há. Pelo menos oficiais e rigorosos. Meio século depois, o regime de Pequim continua a tratá-los como um “segredo de Estado”. Sem acesso aos dados estatísticos da época, alguns investigadores arriscam estimativas a partir das “mortes anormais” registadas nos anuários locais e regionais. Essas estimativas apresentam discrepâncias enormes entre si, oscilando entre os cerca de 750 mil e os quase oito milhões de mortes. Usando dados de vários estudos, pode calcular-se uma média de três milhões de mortes. No total a Revolução Cultural deverá ter produzido 30 milhões de vítimas entre mortos, feridos, torturados, deportados e humilhados publicamente.”¹

Já sobre o Grande Salto em Frente, o número de mortos também nunca foi revelado. Citando um  artigo do jornal New York Times, escrito pelo historiador britânico Frank Dikottër, professor na Universidade de Hong Kong:

“Até hoje, o partido tenta encobrir o desastre, geralmente culpando o tempo. Contudo, há registos detalhados do horror nos arquivos nacionais e locais do partido. O acesso a esses arquivos teria sido inimaginável mesmo há 10 anos, mas uma revolução silenciosa tem ocorrido nos últimos anos, uma vez que vastos documentos foram gradualmente desclassificados. De 2005 a 2009, examinei centenas de documentos em toda a China, viajando da subtropical Guangdong até à árida província de Gansu, perto dos desertos da Mongólia Interior. Os historiadores sabem há algum tempo que o Grande Salto em Frente resultou numa das piores fomes do mundo. Os demógrafos usaram dados censitários oficiais para estimar que 20 a 30 milhões de pessoas morreram. Mas dentro dos arquivos há uma abundância de evidências, desde minutas de comités de emergência, até relatórios policiais secretos e investigações de segurança pública, que mostram que essas estimativas são lamentavelmente inadequadas.
Ao todo, os registos que estudei sugerem que o Grande Salto em Frente foi responsável por pelo menos 45 milhões de mortes.
Entre 2 e 3 milhões dessas vítimas foram torturadas até à morte ou executadas sumariamente, muitas vezes por infrações menores. As pessoas acusadas de não trabalharem o suficiente foram  espancadas e enforcadas; às vezes eram atadas e lançadas em lagos. As punições para as menores violações incluíam a mutilação e forçar as pessoas a comer excrementos.
Até hoje, há pouca informação pública dentro da China sobre esse passado sombrio. Os historiadores que têm permissão para trabalhar nos arquivos do partido tendem a publicar as suas descobertas do outro lado da fronteira, em Hong Kong.”²

Questionei sim o Li Bo sobre o que aconteceu aos seus pais, nessa altura. Eu já tinha perguntado o mesmo à guia em Yunnan. Ela respondeu-me que a sua família não foi afetada. Mas depois contou que os pais estudaram numa universidade em Xangai, e que foram enviados para o campo, perto de Xangai, para darem aulas. Estiveram lá vinte anos até finalmente regressarem. Reforçou que outras pessoas foram enviadas para muito longe, mas os seus pais não, ficaram perto de Xangai. Eu não insisti.
Relativamente aos pais do Li Bo, estes viviam em Pequim e foram enviados para o norte da China, para a Região Autónoma da Mongólia Interior. O Li Bo acabou por nascer aí, e era ainda criança quando os pais regressaram a Pequim. Vive há trinta anos aqui em Pequim, dedica-se à profissão de guia turístico na Grande Muralha, e já trabalhou em tempos em entidades governamentais. É casado com uma professora de música clássica ocidental (Beethoven e afins, sim), e tem um filho de 9 anos que toca piano. Mostrou-me orgulhosamente um vídeo do filho a tocar Mozart. Esteve de férias no Vietname e no Cambodja há poucos meses, e vai agora para os EUA onde tem bons amigos, contou. Recebeu recentemente um convite para dar aulas de chinês aí, e pondera passar a viver nos EUA com a família. Na sua atividade de guia turístico tem quatro meses de descanso no inverno, e como a mulher vai trabalhar um ano nos EUA, o Li Bo irá também e ponderam pôr o filho a estudar lá, mais propriamente no estado de Indiana. Mas também quer ir conhecer a Califórnia e outros locais.

Falámos de tudo e mais alguma coisa, e fomos parar também à religião muçulmana. O Li Bo mostrou-se indignado pelo facto dos muçulmanos não comerem porco e mostrarem repulsa pela carne de porco. Bom, e os chineses comem cão, disse-lhe eu. A comparação foi mais uma antítese do que qualquer outra coisa – certamente foi a repulsa em comer carne de cão que me fez lembrar disto. Então o Li Bo contou-me a história do restaurante que abriu em Pequim em 2005 e que vendia carne de cão. A população não aceitou e realizaram-se acérrimas manifestações à porta. Ao fim de uma semana, o dono do restaurante chorou e pôs-se de joelhos, implorando-lhes que o deixassem seguir o seu negócio. Todo o seu investimento no restaurante estava prestes a desmoronar-se. Mas os manifestantes não arredaram pé. O caso foi para tribunal, mas eram exigidas acusações contra cada uma das pessoas. O dono do restaurante não conhecia ninguém em particular. E as autoridades indicaram que as pessoas tinham o direito a manifestar-se e que portanto não podiam fazer nada. O restaurante acabou por fechar ao fim de um mês.

Uma atividade que o Li Bo leva a cabo – e de louvar – é a limpeza da Grande Muralha. Efetivamente fiquei abismada com a quantidade de garrafas de plástico vazias que se encontram ao longo da Muralha. Não há sensibilidade por parte dos chineses relativamente ao lixo. Acabam de beber a água, ou refrigerante, e deitam a garrafa para o chão. São muitas mesmo. Fere fortemente a beleza da Muralha. Então o Li Bo alia o útil ao agradável: reúne periodicamente grupos de estudantes universitários, organizando a recolha das garrafas vazias, ao mesmo que promove gratuitamente a sua atividade de guia turístico, além da própria Muralha como monumento histórico e património nacional e mundial.

O Li Bo negou que Pequim tem smog. Fez-me olhar para o céu e perguntou-me onde é que está o smog. Bom, desde que cheguei à China que está quase sempre nublado. É verão, é a altura do calor e das chuvas. Não sei se este céu cinzento que vejo é das nuvens ou do smog. No entanto os níveis de smog aumentam durante o Inverno, sobretudo devido ao carvão usado como combustível para aquecer as casas. Vejo uma notícia no jornal Público de que algumas melhorias foram registadas desde a implementação de regulamentação ambiental mais restrita nas empresas, a uma redução do consumo total de carvão para menos de dez milhões de toneladas em 2016, em comparação com os 23 milhões de 2013. Pequim registou, em 2016, 198 dias de céu azul, mais 12 que os registados em 2015³.

Questionei ainda o Li Bo sobre a idade da reforma e as pensões de reforma, ou a Segurança Social em geral, ou o que quer que exista na China. Os homens reformam-se aos 60 anos e as mulheres depende da profissão: as funcionárias públicas reformam-se aos 55 anos. As restantes mulheres que trabalham em empresas privadas reformam-se aos 50. E têm de ter um mínimo de 15 anos de descontos.
Que coisa maravilhosa, nem quero acreditar. Reformar-me aos 50 anos. Perguntei-lhe como é que posso ir trabalhar para a China, para poder reformar-me aos 50 anos. Aparentemente é difícil. É necessário obter a cidadania chinesa, e isso é difícil. Além de que teria de estar caladinha o tempo todo, nada de perguntar coisas sobre os desastres do grande Mao Tse Tung, sobre a morte do Prémio Nobel da Paz, Liu Xiaobo, e outros assuntos que tais. Reforma aos 50 a quanto obrigarias.

Sobre as pensões de reforma, o Li Bo referiu-me que os particulares como ele pagam um seguro e têm uma reforma mensal garantida. Intrigou-me, isto, e tentei aprofundar, nomeadamente perguntando pelos casos em que se vive até aos cem anos, ou mais. Se a reforma está garantida até mesmo ao final da vida – mas não percebi e não insisti. Também não quis melindrar o Li Bo. Não faço ideia se são questões delicadas. Para mim é uma questão pública, mas na China não sei. Deixo este tema para uma das próximas crónicas, na qual será aprofundado.

Finalmente, o Li Bo não sabe o que é o Euromilhões. Nem sequer existe coisa semelhante na China, aparentemente. (Onde a nossa conversa foi parar, sim… até mesmo a questões filosóficas sobre vivermos numa “grande gaiola”, disse eu. Isto a propósito de eu ir visitar o Jardim Zoológico de Pequim, no dia seguinte. Nem sei como é que a conversa foi parar aí, mas de certeza que foi pelo facto dos animais viverem em gaiolas, e nós também, à nossa maneira, nas nossas grandes gaiolas. Mas enfim, estas discussões filosóficas ficaram em Pequim com o Li Bo, o qual foi uma magnífica companhia durante este dia).


¹ Galope, Francisco (2016, 16 Maio). “Revolução Cultural chinesa começou há 50 anos”. Revista Visão. Página consultada a 2 Abril 2018,
<http://visao.sapo.pt/actualidade/mundo/2016-05-16-Revolucao-Cultural-chinesa-comecou-ha-50-anos>

² Dikottër, Frank (2010, 15 Dezembro). “Mao’s Great Leap to Famine”. The New York Times. Página consultada a 2 Abril 2018,
<http://www.nytimes.com/2010/12/16/opinion/16iht-eddikotter16.html>

 ³ Real, Francisca Dias (2017, 3 Janeiro). “Pequim: a cidade está novamente à sombra do smog”. Jornal Público. Página consultada a 2 Abril 2018,
<https://www.publico.pt/2017/01/03/ecosfera/noticia/pequim-a-cidade-esta-novamente-a-sombra-do-smog-1756925>

124 - Jardim Zoológico de Pequim

Hoje é segunda-feira, e antes de meter-me a caminho do Zoo, decidi passar primeiro pelo Mausoléu do Mao Tse Tung – onde se encontra o seu corpo embalsamado. Aparentemente ele quis ser cremado, mas não lhe fizeram a vontade. Está ali exposto para toda a gente o ver (não lhe invejo a sorte, deve ser castigo por tudo o que fez). Mas a desinformação que existe na internet, na China, é de tal ordem, que eu não consegui descobrir qual o horário de funcionamento do Mausoléu. Mas não é na Wikipedia, ou no Lonely Planet, nem sites desses. Esses nem se encontram. São os sites oficiais do governo chinês. Ou semi-oficiais, sei lá o que é aquilo. É o que aparece quando se faz busca. Uns dizem que só abre da parte da manhã. Outros dizem que está aberto todo o dia. Outros dizem que fecha à segunda-feira. Outros dizem que está aberto todos os dias da semana. Em Portugal eu tinha indicações que só abre das das 7 às 11h manhã, mas não tinha indicação dos dias.
Bom. Desenrasquei o pequeno-almoço no quarto do hotel – comi umas bolachas com chocolate, que trouxe de Portugal, e um pacote de leite com pedaços de morango, que comprei na véspera, e às 8.15h arranquei para o Mausoléu. Vamos lá ver o homem embalsamado. Nunca vi uma pessoa embalsamada, deve ser impressionante. Se bem que haja rumores de que não é o corpo verdadeiro, é uma imitação, mas a gente não sabe. Tratam de fazer com que a gente não saiba nada mesmo.
A questão é que chegar ao Mausoléu, na Praça Tiananmen, exige quase uma hora de caminhada e passagem nos controlos de raios-x. Mas eu fui. Às 8 e um quarto da manhã pus-me a caminhar, em passo bastante rápido, e resignei-me perante todas as filas, revistas e controlos de raios-x que tive de passar, até finalmente entrar na Praça Tiananmen. E eis que chego lá 45 minutos depois, e está fechado. O Mausoléu fecha durante todo o mês de Agosto. Pronto. Quem ler estas crónicas fica com a informação. O Mausoléu só abre de manhã (acho eu) mas fecha durante todo o mês de Agosto. Teve de ser um polícia a informar-me. E tiveram de ir chamar um que arranhava o inglês. Um homem jeitoso, alto, fardado. “Closed” – disse-me ele – “Closed in August”. Eu com os meus calções e as minhas sandalitas a olhar para aquela farda imponente.
Anda então para o Jardim Zoológico, Rute. Volta para trás. Não desesperes, tem calma, estás de férias.
Ao regressar apressadamente, ouvi falar português. Alguém falou em português, na Praça Tiananmen. Olhei para o lado, no meio da multidão: era um grupo de turistas portugueses. Talvez umas 10 ou 15 pessoas, com idades maioritariamente entre os 50 e os 60 anos. Um grupo de portugueses, que giro. Se eu estivesse com tempo ter-me-ia metido com eles, trocado algumas impressões. Mas aborrecem-me os grupos, com o guia à frente, com a bandeirinha no ar para não o perderem de vista. Estou noutra. E estou muito à pressa, tenho de despachar-me para fazer tudo o que quero, hoje. Pelo que continuei a andar, apressadamente, e não cumprimentei os meus compatriotas.

No metro.

Eram 9.40h quando finalmente cheguei ao Jardim Zoológico, de metro. À entrada cruzei-me com quatro chilenos, dois casais dos seus 60 anos, e ainda falámos um pouco. Estávamos a tentar perceber o mapa do Jardim Zoológico, na entrada, e isso propiciou à conversa. Já tinham estado no Porto, em Lisboa e em Cascais, de férias, contaram-me. Andavam a viajar sozinhos, os quatro.
Entretanto passei duas horas lá dentro – o Zoo de Pequim é gigante. Um dos melhores que já vi, a par do nosso em Lisboa. Naquelas bandas já tinha visitado o Jardim Zoológico de Ho Chi Minh (antiga Saigão), no Vietname, em 2005. Não sei como está hoje, mas nessa altura era pequenito, quase insignificante. Felizmente. Quanto menos animais presos tiverem, melhor. É certo que alguns Zoos desempenham um papel importante na preservação de espécies, e algumas destas já só existem mesmo em cativeiro, mas eu fico sempre de pé atrás ao ver os animais presos, expostos, para gáudio dos humanos. Tenho visitado Jardins Zoológicos pelo mundo fora para ver em que condições são mantidos os animais. Fico sempre numa indecisão. Será que são felizes? De certeza que estariam melhor na selva, à solta.
Aqui em Pequim deparei com um Jardim Zoológico gigante. É preciso fazer quilómetros a pé lá dentro, durante um dia inteiro, para ver tudo.


(Continua na próxima crónica)

125 - Zoo de Pequim (cont.)... E o Sistema de Segurança Social na China

Retomando o tema abordado na penúltima crónica. Entretanto investiguei na internet e descobri que o sistema de Segurança Social na China é composto por cinco diferentes tipos de seguros, mais um fundo de habitação obrigatório. Os cinco “seguros” são a pensão de reforma, o seguro de saúde, o seguro de saúde do trabalho, o subsídio de desemprego e um seguro de maternidade, e mais um sexto elemento: o fundo de habitação porque o seu custo é suportado quer pelo trabalhador, quer pela entidade patronal. Todavia, dado que a segurança social é gerida a nível regional, existem uma série de inconsistências entre as várias cidades da China, nesta matéria¹.

O enquadramento básico do sistema de pensões na China foi criado em 1997 por Decisão do Conselho de Estado no “Estabelecimento de um Sistema Básico de Pensões para Trabalhadores Empresariais”. Mas foi apenas em 2011 que os vários regulamentos criados até então foram codificados num quadro geral da Lei da Segurança Social. Ambos – trabalhador e entidade patronal – são obrigados a contribuir para o sistema de pensões. Os trabalhadores contribuem com base no seu salário individual, até 8%, ao passo que a entidade patronal contribui com uma percentagem sobre a totalidade dos salários pagos à sua força de trabalho, normalmente à volta dos 20%. Costuma haver uma base fixa nas contribuições de ambos, trabalhadores e patronato, variando as taxas de região para região. Em meados de 2016, porém, várias províncias e cidades, incluindo Pequim, começaram a reduzir as contribuições em 1%: de 20% passaram para 19%.
As contribuições dos trabalhadores são pagas para uma conta pessoal. Na aposentação, o saldo da conta, incluindo juros, é dividido em 120 prestações para serem pagas mensalmente durante um periodo de dez anos. Além destas prestações pagas da sua conta pessoal, o trabalhador também recebe um pagamento de pensão geral, a receber até à morte. Estes pagamentos de pensão geral são determinados pelo número de anos que trabalhou, pelo salário médio na localidade, e pela esperança de vida. Estes pagamentos de pensões gerais são normalmente pagos pelas contribuições da entidade patronal, mas o governo é obrigado a cobrir qualquer insuficiência.

Relativamente ao subsídio de desemprego, os trabalhadores e a entidade patronal descontam entre 1 e 2%, cada. No final de 2015, 173 milhões de trabalhadores, incluindo 42 milhões de trabalhadores rurais migrados (ver crónica 63 sobre estes trabalhadores migrantes), recebiam subsídio de desemprego. A duração do subsídio depende do número de anos durante os quais o trabalhador descontou, com um máximo de 24 meses para aqueles que trabalharam durante dez anos ou mais. No entanto este subsídio é muito baixo – mais baixo do que o ordenado mínimo, o que por si próprio já é muito baixo, estando longe de ser considerado um salário suficiente e condigno.

Foram as alterações económicas e sociais na China que obrigaram à adoção destas regulamentações na área dos benefícios sociais: o fim da economia estatal, que enquanto durou providenciou os trabalhadores urbanos da chamada “Iron Rice Bowl” (tentando traduzir isto para português, é algo como “tigela de ferro para o arroz”), que significava emprego garantido e rendimento estável e benefícios. Bem como a introdução da política do “filho único”, nos anos 1980, o que significou que os pais deixaram de poder contar com uma família grande para cuidarem de si durante a velhice. Foi neste âmbito que surgiu a necessidade de criar especificamente um Fundo de Habitação, em que os trabalhadores descontam 12% do seu salário, e a a entidade patronal contribui com outros 12% (no caso de Pequim), ou 7%, em ambos também, no caso de Xangai, por exemplo. Este fundo permite obter hipotecas com taxas priviligiadas, cobertura das despesas de reparação e manutenção das casas, e obter rendas subsidiadas. No caso de não ser usado, este fundo pode ser resgatado após a reforma, e assim passará a funcionar como uma segunda pensão.

Parece tudo muito bonito e organizado, mas resta saber se funciona realmente. Pelo que consigo investigar, há queixas de que estando a Lei da Segurança Social debaixo da alçada dos governos regionais, e havendo bastante laxismo na sua aplicação, à maioria dos trabalhadores ainda são negados os benefícios de segurança social a que têm legalmente direito².


¹ Gautel, Gidon (2017, 2 Outubro). “Social Security in China: Exemptions for Some Foreigners”. China Briefing – Business Intelligence from Dezan Shira & Associates. Página consultada a 4 Abril 2018,
<http://www.china-briefing.com/news/2017/10/02/social-security-china-exemptions-foreigners.html>

² “China’s social security system” [ca 2017]. China Labour Bulletin. Página consultada a 4 Abril 2018,
<http://www.clb.org.hk/content/china%E2%80%99s-social-security-system>

126 - Cemitério Revolucionário de Babaoshan

Ao meio dia saí do Jardim Zoológico, esgalgada com fome, e é mesmo na estação de metro do Zoo que vou almoçar. Uma vez mais mostrei a foto no meu telemóvel com o “Não picante”, escrito em chinês. As raparigas que atendiam leram e apontaram para o “Delizioso”, no canto superior direito, e foi isso que mandei vir. Serviram-me uns noodles deliciosos, de facto. Comi tudo e nem uma gotinha ficou na tigela. Até no cabelo fiquei com uma esparguete pendurada, que tirei com os pauzinhos e deitei fora – já há muito tempo que deixei de atrapalhar-me com estas coisas das tigelas, dos pauzinhos e do beber com sofreguidão. É assim, assim será. Nesta altura do campeonato – o 24º dia de viagem – já estou nessa, já não questiono, já não me atrapalho.
Mas eu não estou bem. Ontem comprei um pêssego numa mercearia. Lavei-o no quarto do hotel, com água da garrafa. Comi-o com casca. Pouco tempo depois, estava eu sentada na cama, a navegar na internet, no telemóvel, quando sinto uma grande e súbita debilidade. Não consegui continuar sentada, e optei por deitar-me. Perdi as forças imediatamente. Foi rápido e poderoso. E tive a primeira (e felizmente última) crise de diarreia, na China. Aquele pêssego, provavelmente mal lavado, só com uma mão, com água a sair da garrafa, deitou-me imediatamente abaixo. E imediatamente tomei um Ultra-Levur, o primeiro de três, de 8 em 8 horas. Ando a Ultra-Levurs, portanto, durante o dia de hoje. E felizmente correu bem, ficou controlado, não precisei mais de ir à casa de banho durante o dia. Foi uma bela ameaça. Rapidamente controlada, dado que levo a parafrenália toda de medicamentos atrás. Mas foi espantoso o efeito tão rápido de um alimento mal lavado e crú. Perdi imediatamente as forças, fiquei prostrada na cama. Más recordações tenho de um dia assim na Índia, em que o médico teve de ir ao quarto do hotel pois eu nem conseguia pôr-me de pé.

Bom, mas já passou. O destino agora? É o Cemitério Revolucionário de Babaoshan. Meto-me no metro novamente, passo os controlos dos raios-x (tenho de tirar a câmera do ombro e a bolsa da cintura, e depositá-las num tapete rolante), tiro um bilhete nas máquinas automáticas (têm instruções em inglês, só me escapou o facto de não aceitarem notas de 20 yuans, só aceitam de 10 – e um rapaz ajudou-me apontando para a nota de 10 desenhada na máquina, para eu perceber porque me estava ela a rejeitar a nota), mudei da linha 4 para a linha 1 (o metro em Pequim não suscita qualquer dúvida, é bastante simples, tal como qualquer outro metro do mundo) e umas 15 estações de metro depois, chego ao Cemitério. Em todos os países que visito, procuro conhecer este aspeto da sua cultura, conforme já referi na crónica 18. Para alguns detalhes sobre os aspetos funerários, basta consultar a crónica 18.

Agora é preciso descobir onde fica o cemitério. Não o vejo em lado nenhum. Não há placas nenhumas. À saída do metro abordei uma mulher e provavelmente a filha (já grande) mas elas mostraram-se indecisas e apontaram-me lá para longe. Estas estão a despachar-me, é melhor perguntar a outra pessoa. Em cima desta ponte abordei um homem inglês (julgava eu) dos seus 50 anos, alto e magro, que ia acompanhado por uma mulher chinesa. Acabámos por trocar algumas palavras e ele contou-me que é do Canadá e vive há trinta anos em Pequim. Dá aulas de inglês. A mulher chinesa nem sabia que havia ali um cemitério, mas ele sabia, e apontou-me na direção oposta às que as duas mulheres me tinham apontado antes. Eu já desconfio de tudo, mas vou acreditar neste canadiano, parece tão decidido e sabe perfeitamente do que eu falo: “É o cemitério onde estão as celebridades?” – perguntou-me. “Sim”, respondi.

Esta é a entrada, mas foi um sarilho descobrir isto. Estive noutro portão, andei perdida no meio de uns edifícios governamentais, acho eu, com guardas na receção, que não souberam ajudar-me, e depois foram uns rapazes na rua que usaram uma vez mais o tradutor do seu telemóvel para traduzir o que eu queria. “Babaoshan cemitery”, disse eu, para o seu telemóvel. Eles leram o que o telemóvel indicou e perguntaram-me se eu queria ir para a estação de metro de Babaoshan. Não, acabei de vir de lá. Procuro o cemitério. E eles finalmente perceberam e apontaram-me na direção destes portões. Ainda andei perdida noutro portão, até finalmente chegar a este. Mas que estranho. Isto não é um cemitério de celebridades para se visitar? Há muitos cemitérios de celebridades pelo mundo fora, e estão todos bem assinalados para os turistas visitarem. Na Dinamarca visitei o túmulo do filósofo Kierkegaard, ou do escritor Hans Christian Andersen. Na Áustria visitei os túmulos de Beethoven, Mozart, e outros. Agora venho visitar as celebridades chinesas, nomeadamente o escritor Lao She. Mas aparentemente sou um bicho raro. E agora pedem-me uma autorização para entrar. Uma autorização? Tenho o passaporte. Não, não serve. Tenho de ter um documento autorizando a visita a um cemitério de celebridades. Uma pessoa tem que viver muitas experiências na vida, efetivamente. Agora é esta. O que recearão? Que eu mate as celebridades já mortas?… Que eu ponha uma bomba no cemitério?…
Mas eu estou tão determinada a visitar o cemitério, que virei as costas ao funcionário fardado (militar) que me abordou e pediu os documentos, e continuei a andar em frente. Se quiser que venha atrás de mim. Ele até foi gentil comigo, estava a tentar perceber o que eu queria, mas o desconhecimento da língua torna-se impeditivo. E ainda nem avistei cemitério nenhum, mas caminho em direção a outro portão, talvez esteja depois dele. E o militar – lá lhe passou qualquer coisa pela mente – veio mesmo atrás de mim e mandou um funcionário à paisana abrir-me o segundo portão.  Finalmente vejo campas. Estava difícil. Entrei pela lateral, pelos vistos. Só depois de visitar o cemitério é que descobri a entrada principal, na avenida principal, e saí por ela. Ninguém me pediu documentos à saída, felizmente. E não havia mapa nenhum do cemitério, nem placas a indicar em inglês o nome das celebridades, pelo que nem o túmulo do Lao She eu encontrei, claro. Nem o dele, nem o de ninguém. Passei por eles todos, andei a deambular pelo meio das campas. Sentei-me a descansar (com todas as câmeras apontadas para mim, de certeza – mas que ovelha encaracolada é esta, a visitar um cemitério chinês?… O que quer ela?…) tentei obter informação na internet, mas nada. Entretanto passa um esquilo com uma coleira. Estou com alucinações, querem ver? Passou um esquilo com uma coleira ao pescoço?…

127 - As Celebridades da China na Madame Tussauds

Em Pequim há uma Madame Tussauds, e foi das mais interessantes que visitei, entre todas as do mundo por onde andei. E porquê?, podem perguntar-me. Porque as figuras de cera são todas – ou quase todas – de celebridades chinesas. Uma verdadeira lição de cultura geral. Desde cantoras de ópera, escritores (o Lao She!!! Acabei de vir do cemitério onde ele está enterrado, e é na Madame Tussauds que acabo por vê-lo), realizadores, astronautas, figuras do desporto, cantores – há de tudo. Muito interessante.
Curiosamente não há uma figura do maestro Yu Long, o qual dirige a Orquestra Filarmónica da China desde o ano 2000. Agora estou em Agosto, não há concertos, os músicos foram de férias. Mas também não há problema: vai ele visitar-me a Portugal. O mundo é muito pequeno. Basta uma pequena tortura de voos e aeroportos. Já tenho bilhetes para o próximo concerto na Gulbenkian, onde ele vai estar, em 2018. É verdade, no verão de 2017, a passear na China, já tenho bilhetes para o concerto em 2018, em Lisboa.

Os controlos de raios-x existentes em todas as entradas do metro.

O escritor Lao She. Citando a Wikipedia:
Como milhares de outros intelectuais na China, Lao She experimentou maus tratos durante a Revolução Cultural, em meados da década de 1960. Os Guardas Vermelhos da Revolução Cultural atacaram-no como um contra-revolucionário. Desfilaram-no pelas ruas e espancaram-no em público, nos degraus da porta do Templo de Confúcio, em Pequim. De acordo com o registo oficial, este abuso deixou Lao She muito humilhado, tanto mental como fisicamente, e acabou por suicidar-se afogando-se no Lago Taiping, em Pequim, em 1966. Leo Ou-Fan Lee mencionou a possibilidade de que Lao foi assassinado. Na verdade, nenhuma informação fiável surgiu até à data para verificar definitivamente as circunstâncias reais da morte de Lao She. Em qualquer caso, os seus familiares foram acusados ​​de implicação nos seus “crimes”, mas continuaram a resgatar os seus manuscritos após a sua morte, escondendo-os em pilhas de carvão, e em chaminés, e movendo-os de casa em casa. Lao She era casado com a pintora Hu Jieqing e tiveram quatro filhos, um filho e três filhas.¹

O realizador e ator Zhang Yimou (nascido em 1951), com inúmeros prémios nos festivais internacionais de cinema, como Berlim, Cannes, Sundance, Veneza, ou nos British Academy Film Awards. Há uma história curiosa sobre ele: na altura da política do “filho único”, onde só era permitido ter um filho por casal (mais detalhes na crónica 78), Zhang Yimou teve três filhos, e foi consequentemente multado em 1,2 milhões de dólares².

Yao Ming (nascido em 1980) é um ex-jogador de basquetebol que atuava na NBA. Tem 2,29 m de altura. Desde 2003 até 2007 participou em todos os All-Star Game.

Li Na (nascida em 1982) e é citada na placa da Madame Tussauds com a seguinte frase:
“Não digam que estou a ganhar honras pelo meu país, estou a fazer isto apenas para mim própria.”
Citando à Wikipedia: Li Na tornou-se na primeira tenista chinesa a chegar ao top 30 (em 2006); e em seguida ao top 20 (em 2007). Ela foi uma das tenistas mais bem sucedidas da história do país e em 2009 tornou-se nº 1 da China, com um ranking mundial de número 19. Foi a primeira tenista chinesa a chegar a uma final de um torneio Grand Slam, o Open da Austrália de 2011, sendo derrotada na final pela belga Kim Clijsters. Ainda em 2011 tornou-se a primeira chinesa a vencer um Grand Slam com a vitória sobre Francesca Schiavone na final de Roland Garros. Em 2014 venceu o Open da Austrália derrotando na final a eslovaca Dominika Cibulkova.³

Há alguém que não conheça o Jackie Chan? : )


¹ “Lao She” (s.d.). Wikipedia. Página consultada a 8 Abril 2018,
<https://en.wikipedia.org/wiki/Lao_She>

² Ng, Naomi (10 Janeiro 2014). “China: Filmmaker Zhang Yimou fined $1.2M for breach of one-child policy”. CNN. Página consultada a 8 Abril 2018,
<http://edition.cnn.com/2014/01/09/world/asia/filmmaker-one-child-policy-fine/index.html>

³ “Li Na (tenista)” (s.d.). Wikipedia. Página consultada a 8 Abril 2018,
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Li_Na_(tenista)>

128 - E Assim Termina o Último Dia em Pequim

Hoje é o 24º dia da viagem. Os meus passos, titubeantes no primeiro dia em Yunnan, a sondar caminhos, converteram-se entretanto em passos seguros. Firmes e confiantes. Estas ruas passaram a ser minhas. Este mundo passou a fazer parte de mim. É com tristeza que chego ao último dia desta magnífica viagem, tão plena, tão cheia de descobertas, de divertimentos e de aventuras.

O famoso “Pato à Pequim”.

Jantei noodles com carne de vaca. Foi aqui o único local, nestes 25 dias, onde encontrei noodles com carne de vaca. Normalmente é sempre com frango ou porco.

De regresso ao hotel. São seis e meia da tarde. Foi um dia muito intenso, com a ida falhada ao Mausoléu, depois ao Zoo, ao Cemitério, à Madame Tussauds – jantar – e às seis e meia estou no quarto do hotel, onde tenho de ir preparar as bagagens. O voo de regresso é amanhã de manhã, às 10.30h.

A dona do hotel, muito simpática e simples, que notoriamente tem uma paixão por gatos. Eles são os reis da casa. O Buda que se cuide.

Uma loja ao lado do hotel. Saí para ir à mercearia comprar um pacote de leite com pedaços de morango, para o pequeno almoço do dia seguinte. Mas estão a reparar no tipo de loja que é? É uma sex-shop.

Os meus apontamentos durante a viagem. Supostamente o livrinho que comprei no site dos “Animais de Rua”, para ajudá-los, iria chegar. Comprei meia dúzia deles e distribuí pelos amigos, ficando eu com este. Pois não chegou. Tive de usar a parte de trás do programa da viagem, em folhas A4. Vou sempre tirando apontamentos, durante as viagens. É impossível lembrar-me de tudo, ao regressar a Portugal e finalmente escrever estas crónicas. Durante a viagem não tenho tempo, não tenho mãos a medir, os dias são muito intensos, e quero estar na rua, a passear, a conhecer as coisas, não há tempo para escritas.

129 - A Viagem de Regresso

Se bem se recordam da crónica 2 – a viagem da vinda foi uma saga. Esta viagem da ida não o foi menos. Uma pessoa tem de preparar-se psicologicamente. Ter calma. Deixar o tempo passar. À medida em que as horas passam, as coisas vão progredindo. E acaba-se por chegar lá. Neste caso, chegar a casa, em Lisboa.
Agora o voo é às 10.30h, para Frankfurt. De seguida terei outro voo para Lisboa. Eis as etapas:

Primeira Etapa
Às 6.15h da manhã toca o despertador. Não fui a primeira, pois desde as 5 da manhã que se ouvem muitas vozes e conversas pelos corredores do hotel. Parte tudo hoje ou quê? Eu com uma t-shirt azul escura dobrada numa tira, a tapar os olhos, pois às 5 da manhã nasce o dia e ilumina o quarto todo. Esqueci-me de trazer o “tapa-olhos” (mas vim a descobrir depois que não, não me esqueci – ele passou estes 25 dias dentro de um bolso do nécessaire, sem eu saber).
Hoje é 3ª feira, dia 15 de Agosto. É feriado em Portugal e é suposto eu chegar cerca da meia noite a casa. Ganho sete horas de diferença, é bom.
Às 7.15h deixei o quarto do hotel e desci à receção para fazer o check out. Tive de esperar que fossem verificar o quarto, para me devolverem os 200 Yuans de caução. Depois não encontraram o comando de qualquer coisa, certamente da televisão. Mas eu deixei as gavetas abertas, com tudo à vista, nomeadamente o telefone, copos, vinte embalagens de escovas de dentes e outras tantas de pentes. Vinte embalagens de escovas de dentes e de pentes. Eu já nem tinha espaço nas gavetas. Não sei porquê, deixaram-me cinco todos os dias. Foi um pouco bizarro, não me perguntem porquê. Em todos os hotéis onde estive, deixaram-me só uma embalagem de cada. Se calhar pensaram que o meu cabelo comprido e encaracolado exige muitos pentes. As escovas de dentes não faço ideia. Eu ando com a minha e só usei essa, de melhor qualidade, comparada com aquelas de oferta, que logo à primeira lavagem se estragam. Se calhar por isso deixaram tantas.

Segunda Etapa
Eram 7.30h quando deixei o hotel e me dirigi para o metro. Vou de metro até ao aeroporto. Não posso arriscar a ficar presa no trânsito, além de que o metro é mais barato e tranquilo. Primeiro o metro, depois o comboio “Airport Express”, tal como na vinda. O “Airport Express” tem ligação direta com o metro, nem é preciso sair. Bastante bom, este sistema em Pequim.
Levei 45 minutos no metro e comboio, e eram 8.30h quando entrei no aeroporto. Faltam duas horas para o voo.
Levei 1,15h a passar todos os controlos no aeroporto. Faltavam 45 minutos para o avião partir quando finalmente me sentei junto à porta E08 para embarque. Excelente, correu tudo bem. Ainda comi uma sandes de atum, comprada na Starbucks (picante! Como é possível que até uma sandes de atum seja picante?), e um copo de leite quente, e tive de ir a bebê-lo para dentro do avião, pois o embarque começou cinco minutos depois de eu chegar, eram 9.50h, à hora prevista. Magnífico. Já nem tive tempo de converter os yuans que me restam em euros. Farei isso no próximo aeroporto, em Frankfurt. Pelo menos a partida correu magnificamente bem, não esperei muito tempo, eu própria não perdi tempo, não andei com pressas nem excessivos vagares. E o avião da Lufthansa, gigante, com dois andares, partiu a horas.

Terceira Etapa
Nove horas de voo até Frankfurt. Eu vou à janela e ao meu lado vai um casal de alemães, precisamente de Frankfurt. Andam pelos 60 anos, e ele é o conversador dos dois. Vai ao meu lado e perguntou-me se eu sou estudante. Bom, é sempre bom parecer uma estudante, quando esse tempo já lá vai há sei lá quantos anos. Explicou-me que vêm de férias, e fizeram uma viagem de comboio de 19 dias entre a Rússia, a Mongólia e a China. Inseridos num grupo. Na nossa conversa, nem sei como foi lá parar, contei-lhe que estive no Lago Balaton, na Hungria. E ele conhece o Lago Balaton. Ninguém conhece o lago Balaton, como é que um alemão conhece o Lago Balaton, na Hungria? Fiquei surpreendida e ele então explicou-me que já esteve várias vezes na Hungria, em trabalho, e que conhece o país relativamente bem.
Nove horas depois (a conversa entretanto acabou, claro) aterramos em Frankfurt. Despedi-me do casal e disse-lhes que quando eles estivessem a jantar, na sua casa, eu ainda ali estaria, no aeroporto de Frankfurt. Tenho cinco horas de espera até ao próximo voo, da TAP, para Lisboa. Eles riram-se.
Ainda por cima o voo da TAP partiu com 40 minutos de atraso. E ia gelado, e houve queixas. Alguém à minha frente, na Business Class, queixou-se. E eu tive de pedir um cobertor. Na Lufthansa, com os pinguins gelados da Alemanha, o avião vai quente. Na TAP, com os quentes latinos, o avião vai gelado.

Quarta Etapa
Três horas de voo depois, aterro em Lisboa. Seriam umas dez e meia da noite. Estive 24 minutos de olhos postos no tapete rolante, à espera da bagagem. Foram precisamente 24 minutos de ansiedade.  Agora já não tennho urgência na mala, mas só de pensar que teria de ir tirar uma senha para apresentar a reclamação do seu desaparecimento – processo que levou quase duas horas da última vez que me perderam as bagagens, numa viagem anterior – comecei a vacilar. Estou tão cansada, quero ir dormir, amanhã de manhã vou trabalhar… Por favor, venham as bagagens…
Quando finalmente a minha mala apareceu, não consegui deixar de exclamar “Já estou safa!”, ao que uma senhora me respondeu: “Que sorte!”, e ela continuou à espera. Ela e mais outras tantas dezenas de passageiros. As pessoas, ao verem aparecer as suas próprias bagagens, riem-se de alegria e alívio. Este drama das bagagens é terrível. Ali ao lado estava uma senhora cujas malas, de outro voo, não apareciam, e então mandaram-na para o tapete 14 (longe dali, nem se vê, fica noutra sala) para tentar a sua sorte. É incómodo e angustiante andar nisto.

Quinta Etapa
À meia-noite, vinte e duas horas depois de ter deixado o hotel em Pequim, entrei em minha casa, em Lisboa. Passaram-se 22 horas, nada mau. A ida para Yunnan foi muito pior, durou 36h. Também teve um terceiro voo, ao passo que agora foram apenas dois, de Pequim, e não de Yunnan.
Cheguei a casa 1 kg mais magra. Também nada mau, com esta ginástica toda… Efetivamente comi que nem uma leoa, na China. Se calhar até emagreci este quilo durante estas 22h.
Amanhã às 9.30h estou no trabalho novamente. Nem quis saber das malas, ficou tudo por arrumar, dormi que nem uma pedra, e levantei-me para ir trabalhar. Como se ontem não tivesse estado em Pequim. Mais um dia normal de trabalho. Regresso à rotina.

Sexta Etapa
Nos próximos dias, já a trabalhar, vou andar algum tempo com os horários trocados. Passei alguns dias a acordar à 1 ou 2 da tarde (em Lisboa são 6 ou 7 da manhã, mas o meu organismo ainda não sabe isso…), e às cinco da tarde é hora de ir dormir. Na China são 11 da noite. Amanhã espera-me outro dia intenso, cheio de aventuras, pelo que às 11 da noite estou a cair de sono. Mas não. Estou em Lisboa, são 5 da tarde, e amanhã só me esperam as aventuras do trânsito lisboeta e também as aventuras do meu trabalho, que já não são poucas. Pelo que durante esta gradual troca de horários, arrumei as bagagens nos dias seguintes, às seis ou sete da manhã, hora de Lisboa, quando acordava, de livre vontade, sem despertadores, com os sonos trocados. Às 9 ou 10 da noite estou a dormir.
E como é hábito, sonhei durante alguns dias os mesmos sonhos repetitivos – sempre quando regresso de viagens longas, com realidades distintas, essa realidade acompanha-me mais alguns dias, em sonhos. Desta vez percorri longas ruas, com muitos pequeninos desenhos geométricos, muitas pequeninas coisas, indistintas, de cada lado da rua, e eu sempre a avançar por ali afora. Este sonho repetiu-se durante cinco ou seis dias. São os Hutongs de Pequim e as ruas de Shuhe, Dayan e outras que tais.

130 - Epílogo

Sinceramente nem sei bem o que dizer. Mais do que já disse, ao longo destas 130 crónicas. Que foi uma viagem maravilhosa? Sim. Creio que não há dúvidas sobre isso. Que está no top das minhas melhores viagens? Sim, também é verdade e não há dúvidas sobre isso.
Que quero lá voltar, e conhecer o noroeste da China, já que agora conheci um pouco do sul e do nordeste? Sim, hei-de ir àquela região norte, mesmo fora da China, como é o caso da Mongólia.
Sobre isto não há dúvidas.

Sobre a China propriamente dita.
Eu criei uma nova perspetiva da China. Percebi que nós somos mais fechados em relação aos chineses, do que os chineses são em relação a nós, ocidentais. Descobrir isto foi algo muito curioso. E sem dúvida que se deve à nossa experiência ocidental. As lojas chinesas, os vistos dourados chineses, os BMW’s dos chineses. Fechámo-nos. Os chineses estão a invadir-nos – dizem as pessoas. A própria comunidade chinesa em Portugal fecha-se muito, também. São raros os casos de misturas. Mas na China, eu a andar de bicicleta por aquelas terras, ninguém me disse que eu estava a invadi-los. Pelo contrário, receberam-me nas suas casas, convidaram-me para sentar-me às suas mesas. A experiência que têm é totalmente oposta à nossa, no mundo ocidental. Estão mais isolados, o governo chinês protege-se muito, fecha a sua economia, e não deixa passar a informação.

Sobre a sua cultura e modo de vida, há muitos fantasmas do passado que é preciso esclarecer, enfrentar e superar. E aprender com os erros. Eu sou otimista por natureza, tenho tendência para vislumbrar o lado bom das coisas, pelo que vou optar por ser otimista também em relação ao notório desenvolvimento da China, e à bondade inata que vi nos chineses – na população em geral. A falta de liberdade de expressão é uma drama ainda a resolver, mas vêem-se sinais de melhoria nítidos. Não disse o historiador Frank Dikottër (crónica 123) que “O acesso a esses arquivos teria sido inimaginável mesmo há 10 anos, mas uma revolução silenciosa tem ocorrido nos últimos anos, uma vez que vastos documentos foram gradualmente desclassificados.”?
Não me deixaram andar livremente por todo o lado, a fazer perguntas que antes seriam consideradas indiscretas? Sim, deixaram-me em paz. Espiolhei tudo. Bisbilhotei tudo. Falei com toda a gente. Não andaram guardas nenhuns atrás de mim. Meti-me por onde quis, na bicicleta. E escrevi agora tudo o que me apeteceu – por enquanto continuo viva… Há melhorias, portanto. Mas sim,  se escrevesse isto na China, seria convidada a sair, certamente. Ou pior.
A educação da população no sentido de torná-la mais participativa na vida do país, da sociedade e da economia em geral, também é importante. As pessoas não percebem que têm direito a escolher. Coisas tão simples como se os Hukous (crónica 63) devem existir ou não. Aceitam passivamente que estas decisões sejam tomadas, e resignam-se. Ainda não perceberam que podem dizer “não”. Não queremos.

Enfim. Veremos como estará a China – e o mundo – daqui a uns cem anos. (Não veremos porque já estaremos mortos, mas alguém verá por nós).