25 dias na China, sozinha, de bicicleta

001 – Introdução

Vamos lá a ver se a gente se entende de uma vez por todas. Mas qual risco? Sim, fui sozinha. Sim, fui de bicicleta. Ou melhor: eu fui de avião, na China é que andei de bicicleta. Efetivamente o povo chinês revelou-se de uma enorme generosidade, a qual vamos poder acompanhar ao longo destas crónicas. Fui bem acolhida e bem tratada por uma população sempre pronta a sorrir e a ajudar. Fui convidada para comer e beber em suas casas, muitas vezes sem sequer entendermos as línguas. Nem eu falo chinês, nem grande parte da população fala inglês. Não impediu cumprimentos, sorrisos, chá, comida, e muitas fotos tiradas com os seus telemóveis e a minha câmera.
Esta viagem durou 25 dias dos quais vinte foram passados no sul da China, na província de Yunnan, e os restantes cinco em Pequim. Em Yunnan tive um carro de apoio enquanto andava de bicicleta.
Não posso dizer que tenha sido a viagem da minha vida, porque seria uma injustiça para com as restantes magníficas viagens que já fiz, nomeamente no Quénia, na Patagónia, na Índia, na Amazónia, e sei lá quantos mais maravilhosos destinos pelo mundo fora.

Mas foi sem dúvida, até agora, o passeio de bicicleta da minha vida.

Portanto… apertem os cintos de segurança – vamos partir!! : )

002 - A Viagem

Uma tortura lenta, claro. Eu já andava a preparar-me psicologicamente há algum tempo. Não só psicologicamente, mas com intenção de aplicar medidas concretas, as quais efetivamente apliquei. Sim, porque viajar de avião – nestas longas viagens – tem uma ciência. Foram 34 horas de viagem. Desde que saí de minha casa, em Lisboa, até que entrei no hotel no sul da China, passaram-se 34 horas. Hoje já existem voos diretos entre Lisboa e Pequim, mas quando comprei a viagem, uns meses antes, não existiam. Pelo que tive um primeiro voo até Viena, pela TAP, com a duração de 3h. Depois tinha 5h de espera. O voo seguinte, para Pequim, foi da Austrian Airlines e durou 9h. Depois tinha 8h de espera para um terceiro voo que me levaria ao sul da China, em Lijiang. Este terceiro e último voo, da Air China, partiu com 2h de atraso, para ajudar à festa. E durou 3,5h. Resultado: saí de casa às 6 da manhã de sábado, entrei no hotel às 4 da tarde de domingo. Hora local: 11 da noite. Vá lá, é chegar ao hotel, tomar banho e dormir. Se bem que dormir às 4 da tarde – até à meia noite… – é um bocado estranho, mas dormi. Começa agora a saga da diferença horária e do ajuste de sonos. O que vale é que eu durmo em qualquer lado e a qualquer hora.

Durante as 34h de viagem, desde movimentar-me o mais possível, até beber muita água e comer fruta, foram algumas das medidas tomadas. Fui com 4 maçãs atrás. Nada de chás, cafés e álcool. Em viagem não é aconselhável. Sumos naturais também fui bebendo – maçã e laranja, que é o que servem nos aviões. Também servem sumo de tomate, mas enfim, esse é mais complicado. Dormir muito, dormir o mais possível. Quanto mais se dorme, menos se sofre. E apanhar ar fresco e sol, sair dos aeroportos e dos ares condicionados sempre que possível. Isto implica passar os controlos todos, inclusive dos raios-x, pois claro. Quem sai de um avião com ligação a outro, normalmente não sai do aeroporto, é imediatamente encaminhado para a porta de embarque do voo seguinte, mesmo que seja daí a dez horas. Toca a contrariar isto. A Rute vai sair, com a mochila com rodinhas, bolsa à cintura, e mala da câmera ao ombro. A mala grande foi direta de Lisboa para Pequim, essa pelo menos não me chateia até lá. Toca a passar nos raios-x todos, nas filas de espera, toca a desapertar a bolsa da cintura, a pô-la juntamente com a câmera num tabuleiro, a levantar a mochila do chão e colocá-la no tapete dos raios-x. Depois existem dúvidas: o que é aquilo no fundo da mochila, perguntou-me a Segurança. É o meu capacete da bicicleta, respondi. Não me digam que tenho de tirar tudo da mala, pois o capacete está mesmo no fundo. Mas não, ela aceitou a explicação e deixou passar. A seguir sou eu própria, tenho de passar na máquina e ser revistada pelos seguranças. Ar fresco e sol, a quanto obrigam.

As bagagens chegaram bem a Pequim. Eu até tremo. Eu e os outros passageiros. Estamos todos de olhos fixos no tapete rolante que traz as bagagens, a ver as malas a passar, com ansiedade. E a minha? Onde está a minha? Porque não vem a minha? Já a perderam, querem ver? Foi para outro continente qualquer? Dadas as más experiências que tive no passado, essa é outra medida a tomar, nas viagens: tudo o que é essencial tem de estar comigo, na mochila. Capacete, dois pares de calções de ciclismo, duas ou três mudas de roupa, algum objeto mais caro ou importante para a viagem. Tudo isso ia comigo, na mochila com rodinhas, tudo apertadíssimo, com o fecho da mala quase a rebentar. Se a Segurança me fizesse tirar tudo para ver o capacete, eu iria levar algum tempo a arrumar tudo outra vez, de forma a caber. E as sandálias – as minhas super-sandálias compradas online nos EUA, que nem se comercializam em Portugal, e que eu quero usar na bicicleta, tão importantes devido à sua resistência e proteção dos dedos – essas então foram logo calçadas. Eu teria de chegar descalçada à China, para perder as sandálias!!

Mas correu tudo bem. Vou ter um carro de apoio aqui no sul, com um motorista e uma guia, e eles lá estavam à minha espera, no aeroporto de Lijiang. Este também é um ponto delicado que me provoca sempre algum nervoso miúdo: tenho desconhecidos à minha espera, vou entrar para um carro desconhecido, e não faço ideia para onde me vão levar. Ainda em Portugal pedi a foto da guia que me ia buscar, ou a identificação no caso de ser outra pessoa.

Cheguei ao hotel um pouco estonteada (ainda fizémos uma hora de carro) porém cheguei bem. Enviei as primeiras mensagens escritas, ligada ao wifi do hotel, a dizer que cheguei, tenho as bagagens comigo, está tudo ok. A primeira parte da aventura – e mais dolorosa – já passou.

Aeroporto de Pequim

003 – O Primeiro Dia

É de ambientação e também adaptação ao novo horário. Por enquanto ainda a pé. Lijiang foi aberta aos turistas estrangeiros apenas em 1985. Está a 2400 metros de altitude, e fica no caminho de uma das mais antigas rotas comerciais do mundo: a Antiga Rota do Chá e dos Cavalos. Esta rota partia do Sudoeste da China – onde me encontro, na província de Yunnan – em direção ao Tibete. Foi um caminho percorrido durante séculos por caravanas comerciais que levavam produtos chineses, indianos e nepaleses para o Tibete. O chá, a principal mercadoria, viajava milhares de quilómetros, quer na carga dos cavalos, quer às costas dos carregadores, os quais suportavam cargas bastante pesadas. Em troca, os chineses recebiam cavalos tibetanos, conhecidos pela sua força e robustez e muitas vezes usados na guerra. Lijiang foi considerada pela Unesco em 1997 como Património da Humanidade, e divide-se em três povoações antigas: Shuhe (onde estou alojada no hotel), Dayan e Baisha. As três cheias de história, com longas ruas ladeadas de casas antigas. Hoje visitarei as duas primeiras e farei cerca de 10 km a pé. A terceira visitarei no terceiro dia, já de bicicleta. Há muita gente, muitos turistas chineses, e eu sou a única ocidental. Efetivamente não verei ocidentais durante alguns dias. E desperto nitidamente a curiosidade dos chineses, que me fixam demoradamente, sobretudo o meu cabelo encaracolado. Riem-se.

Faz frio, talvez uns 18 graus de manhã. Choveu toda a noite, e de manhã também. À tarde vai aquecer um pouco, vai deixar de chover, mas não vai passar dos 25 graus. Aqui em Lijiang faz fresco, daqui a uns dias é que vai chegar o calor a sério. Eu acordei às 5 da manhã (que para mim são sete horas a menos, ou seja, 10 da noite em Portugal); (dormir até às 10 da noite é obra, mas consegui) e antes do pequeno almoço, às 8.30h, fui espreitar fora do hotel. Vamos ver o que se passa por aqui. Eu estou em plena fase de ambientação – tudo é estranho. Não conheço nada, cheguei à noite, atordoada com tantas horas de voos e aeroportos. À porta do hotel tenho duas opções: virar à esquerda ou virar à direita. Bom, comecemos pela direita, vejo mais árvores. Eu de chapéu de chuva aberto (disponível na receção do pequeno hotel, onde não se via vivalma) a dar os primeiros passos em Yunnan, terra onde viria a sentir-me tão bem, tão segura. Mas agora ainda a titubear. Vi uma família com uma criança a sair de casa, não sei para onde iriam. Estamos na época de férias escolares. Fixaram-me, curiosos, e eu nem disse adeus. Tantos olás e adeus que vou dizer nesta viagem, mas hoje é o primeiro dia, é a primeira manhã, estou em fase de reconhecimento do terreno. Não falámos, mas eles foram acompanhando com o olhar os meus passos sondadores. Vi um homem a pescar e fotografei-o sem ele dar conta. Vi bastantes pessoas com certeza a caminho do trabalho, pelos caminhos de terra. Fui dar a um restaurante onde vários polícias fardados (ou guardas, não sei) tomavam o pequeno almoço, numa mesa exterior. Meti-me por uma longa rua onde fotografei a casa em construção. Uma casa tradicional chinesa em construção. Andei uns 30 ou 40 minutos a passear.

O pequeno almoço foi o mais estranho de toda a viagem. Tive um começo de rompante. Vai uma senhora ao hotel preparar o pequeno almoço todos os dias, mas neste dia – das duas uma: ou ela teve algum problema e não pôde ir, ou eu era a única hóspede (no dia seguinte vão chegar mais e o hotel vai inclusivamente ficar esgotado) e eles acharam que não valia a pena. Puseram um rapaz a cozinhar para mim, um saído do próprio hotel, de um dos quartos no r/c, o qual me preparou arroz frito com ovo, abriu uma lata de um peixe muito salgado e tirou do frigorífico aquele prato de legumes tão picantes que até deitei fumo pelas narinas, quando os provei. Ok, não vou armar-me em esquisita logo no primeiro dia. Comi tudo menos os legumes, pois comida picante não quero. Ele não fala inglês, somos os únicos na cozinha e sala de jantar. Tomámos os dois o pequeno almoço em silêncio, frente a frente, como se fosse um hábito de muitos anos. A guia e o motorista estão noutro hotel e a primeira vai chegar daí a pouco para levar-me ao centro histórico, a pé, o qual fica a uns 200 metros do hotel. Eu não sabia. No meu passeio de exploração virei para o lado direito, o centro histórico fica para o esquerdo.

O hotel onde eu fiquei alojada. Tem um nome chinês enorme.

004 - A Rota do Chá e dos Cavalos

Entrada para o Museu.

Conforme referido na crónica anterior, estou na Rota do Chá e dos Cavalos. Aqui visitei o Museu, um edifício antigo no centro da vila, com algumas fotos antigas e explicações sobre a rota. Tudo em chinês. Nada em inglês. Pelo que vi as fotos e pronto, o resto se quiser que vá ao Google. Ou melhor: descobri que não há Google na China. Quando cheguei ao hotel e me liguei ao wifi, o Google não aparece. O telemóvel fica parado. Eu já sabia que não havia Facebook, mas não sabia do Google. E também não há Whatsapp, vim a descobrir. Os chineses usam um clone do Whatsapp: o WeChat. E aparentemente a Wikipedia também tem algumas coisas cortadas. Tentei consultar páginas da Wikipedia que diziam ser inexistentes, quando eu sabia que existiam e já as tinha consultado em Lisboa. Desenrasquei-me como pude, até finalmente colocar nos meus favoritos o Bing (dos EUA) e o Baidu (da China). Recomendaram-me ambos, mas no Baidu sai tudo em chinês. Desisti do Baidu, virei-me para o Bing, ou melhor, uma versão chinesa do Bing, a qual se revelou muito fraquinha. Fiz pesquisas no Bing chinês em que apareceram dois resultados. Às vezes zero!! Já não estou habituada a isto, a não ter informação disponível num segundo. Eu queria investigar coisas tão simples como as terras por onde andava. Existe imensa informação em chinês, mas em inglês é para esquecer. Pelo que tive de deixar as pesquisas para Lisboa, após o meu regresso.

A guia, por seu turno, não fala muito. Não fala nada mesmo. Não explica nada. Rapidamente percebi que não é propriamente uma guia, mas sim uma pessoa que gere o seu próprio negócio, e que leva os turistas daqui para ali e pronto. Estás por tua conta, Rute. Exatamente como gostas, é a verdade, mas enfim, sabe-me bem ouvir algumas explicações de vez em quando. Nesta primeira parte da viagem, em Yunnan, contratei esta guia chinesa, que está mais vocacionada para cicloturismo. Ela possui a sua própria bicicleta, com motor elétrico, para o caso de ser necessário acompanhar-me. Contactei várias entidades através da internet e de facto apenas esta aceitou fazer um programa personalizado, conforme eu queria, com a duração que eu queria, e de bicicleta. Teve esse mérito, apesar dos serviços prestados terem depois sido relativamente fracos a nível do cicloturismo. Nomeadamente não conhecer caminhos locais para bicicletas, ou mesmo levar-me por uma estrada principal com oito faixas, quatro em cada sentido. E eu perguntei: mas não há mais estradas?, esta não é para bicicletas. (Um trânsito infernal…) Não, não há mais nada, indicou. Naturalmente que mais tarde eu viria a descobrir uma série de alternativas a essa estrada, por minha conta e risco, e haveria de pedalar tranquilamente nelas, sozinha, sem sequer ter o carro de apoio comigo.

Bom, e dado que a guia adicionalmente não explicava nada, assim em vez de ter uma guia e um motorista, tenho dois motoristas. Ambos silenciosos: o motorista porque não fala inglês (mas é uma simpatia, é giro ainda por cima, e ajuda-me em tudo o que pode – chama-se Jai Song e vem do Tibete; mais à frente vamos vê-los todos) e uma guia que afinal não é guia, está permanentemente agarrada ao telemóvel, é uma coisa impressionante (deixo a nota, por curiosidade, que um dia resolvi espreitar discretamente o que estava ela a ver no telemóvel. Talvez estivesse a ler emails, coisas de trabalho. Então discretamente espreitei. Mobílias de quarto. Nesse momento estava entretida a ver mobílias de quarto), mas vai-me tirando algumas fotos e cumprindo o seu dever: levar-me aos locais, instalar-me nos hotéis, e traduzir a língua quando é preciso. Certo, é com isso que vou contar e muito em breve passarei a andar sozinha. Naturalmente que vou perder-me, mas andar perdida de bicicleta na China é um verdadeiro prazer. Lá chegaremos.

Voltando à foto, esta é a entrada do Museu, e todos os edifícios públicos têm um polícia responsável. Entretanto habituei-me a ver estes cartazes nas entradas dos edifícios. Se acontecer alguma coisa, não telefonamos para o posto da polícia – telefonamos para aquele polícia especificamente, e está lá a foto dele para que não hajam dúvidas.

A vermelho está a Rota do Chá e dos Cavalos, que ando a percorrer. A amarelo está a Rota da Seda.

O chá prensado. Pesa imenso. Carregar com o chá assim compactado não era brincadeira, apercebi-me. Facilmente chegava aos 80 ou 90 kg às costas.

Chá prensado.

Os desenhos são a língua do povo Naxi, um dos 56 grupos étnicos reconhecidos oficialmente pelo governo chinês, e que vive sobretudo aqui, na parte montanhosa da província de Yunnan. Os Naxi são descendentes de nómadas que habitavam as planícies tibetanas.

As espécies existentes em Yunnan. Daqui a uns dias irei ver os macacos na floresta que se encontram no canto inferior direito da imagem, nos ramos com neve.

A pedra indica “WC” na língua Naxi. É uma imagem curiosa. Uma pessoa sentada com 3 riscos debaixo do rabo. Compreende-se. Está a sair qualquer coisa. Não se compreende é o gato. O que está um gato ou um cão ali a fazer, em frente à pessoa? Pelo menos parece um animal com duas orelhas espetadas. Se calhar um é o homem, outro é a mulher. Seguindo a ordem da imagem (um homem e uma mulher) pelos vistos o gato será a mulher. Também tem três riscos por baixo.

005 – Passeando por Shuhe

Comi várias vezes a especialidade desta zona: bolos feitos com pétalas de rosa. Claro que cheiram e sabem a rosas, não há escapatória possível. Vi fazê-los inclusivamente, e existem muitas lojas especializadas no seu fabrico aqui em Lijiang, e mais tarde noutra cidade, em Dali. Nesta loja comi o primeiro e fiquei logo encantada. A massa também é muito boa, muito leve. O recheio é um creme cor de rosa, doce, ainda com pedaços de pétalas por desfazer. Nunca tinha comido rosas, há sempre uma primeira vez para tudo. Da próxima vez que alguém me oferecer rosas, se calhar comemo-las com açúcar.

Passeios de cavalo disponíveis para turistas.

Sessão fotográfica de noivos chineses vestidos com trajes tradicionais.

Aproveito esta quinta crónica – com as fotos do cão e do gato – para comentar como os animais de estimação são apreciados aqui em Yunnan. Como animais de companhia, entenda-se. Claro que toda a gente pensa imediatamente “os chineses comem carne de cão”. Segundo li na Wikipedia, Yunnan é uma das zonas onde existe – ou pelo menos existia – esse hábito. Aparentemente está a reduzir-se, e segundo falei com várias pessoas ao longo desta viagem, é algo que lhes causa repulsa e protestam veementemente. São chineses contra chineses, portanto. São hábitos culturais e históricos difíceis de apagar. O famoso e tão criticado festival anual onde se come carne de cão fica em Yulin, mais para os lados de Macau e Hong Kong, bem longe de Yunnan. Se havia carne de cão nos restaurantes por onde andei, não faço ideia pois os menús estavam em chinês e era a guia que escolhia os pratos, depois de perguntar o que me apetecia. Se porventura alguma vez me pôs carne de cão à frente, pelo menos não dei conta. Efetivamente o que pude assistir foi a um grande carinho e atenção para com os cães (gatos vi menos, esses andarão mais dentro de casa) e ao longo destas crónicas irei publicar várias fotos onde esse carinho e atenção por parte da população chinesa são demonstrados. Vi imensos cães e fui-me metendo com todos. Parece quase uma bandeira que a população ostenta, à entrada de cada loja. “Olha o meu cão tão bonito e bem tratado”. Por vezes rafeiritos vestidos com roupinhas, como se a temperatura em Yunnan no verão justificasse tal.

006 - Almoço e Continuação do Passeio por Shuhe

Não há inglês. Esqueçam o inglês. Ninguém fala inglês. Este menú tem imagens, já não é mau de todo. Há os que não têm. O serviços da guia aqui são essenciais. Deixei quase sempre ao seu critério a escolha do menú. O mais que podia dizer era se me apetecia carne, peixe, vegetais, arroz ou noodles (esparguete). O resto escolhia ela. No aeroporto de Pequim comi os meus primeiros noodles e já foi um sarilho explicar à rapariga que não os queria picantes. “Not spicy”. Ela colocou o seu smartphone à frente da minha cara para eu dizer “not spicy” ao telemóvel e ele traduzir. Fizeram-me isso várias vezes ao longo da viagem. Depois o telemóvel (ou a app) nunca percebe à primeira. Então eu repito. “Not spicy”. Aquilo lá traduziu e ela apontou-me para uma imagem no menú. Está bem, venham esses noodles. Deixa lá ver se o telemóvel traduziu bem. Os noodles são uma tigela com caldo e esparguete, ou com porco ou com vegetais. É raro haver de vaca, só encontrei uma vez, em Pequim, e nem tenho a certeza se o que comi era vaca. A alimentação na China, sem falar inglês, é uma autêntica aventura. Estes noodles no aeroporto eram de porco, com entrecosto, uma delícia. Nem uma gotinha ficou na tigela. Ainda hoje sonho com os noodles do aeroporto de Pequim, na verdade. Sempre com pauzinhos, claro. Esqueçam o garfo e a faca, isso também deixou de existir. Imaginem comer esparguete em caldo com pauzinhos. O que é certo é que habitualmente eu não deixava nada nas tigelas. Bebia sofregamente pela própria tigela, com muito barulho, como eles próprios fazem. Oh meus amigos, a gente não se atrapalha.

Este primeiro almoço foi delicioso também. Aliás, toda a comida na China é deliciosa. Regalei-me. Tinham-me avisado que a comida era muito diferente da dos restaurantes chineses em Portugal. Não é assim tão diferente. É sim mais completa, com muito mais variedade.

Agora temos cogumelos recheados com carne picada de porco (magníficos); omelete de cebolinho; o legume cozido ao centro não sei o que é, só fiquei a saber o nome em chinês: You Mai Cai. Era bom, é o que interessa. Estava tudo muitíssimo bem temperado. E pepino crú à esquerda – que não comi – nós, turistas ocidentais, não podemos comer comida crua na Ásia, sob pena de ficarmos com uma gastroenterite ou diarreia. Tem de ser tudo cozinhado para matar a bicharada. Basta cortarem os legumes com uma faca molhada com água da torneira e adeus. Só podemos beber água engarrafada, inclusive para lavar os dentes. Não que seja de má qualidade – não é isso – a questão é que não estamos habituados àqueles microorganismos. Na consulta do viajante que tive em Lisboa, antes da viagem, trataram de esclarecer-me sobre tudo isto. Eu já sabia de viagens anteriores, mas calei-me e ouvi. E levei sete maravilhosas injeções que até andei de lado. Vacinas como a da febre tifóide, a febre da carraça, e até uma vacina contra a raiva (tomada em 3 doses…). Fora as que já tinha e que não foi necessário tomar agora. Sim, porque quando o médico soube que eu ia andar de bicicleta no campo, fez-me levar as doses todas.

Aqui estou eu com umas valentes olheiras, depois da viagem, com horários e sonos trocados, a almoçar às seis da manhã (em Yunnan são 7h a mais, são portanto 13h, contudo o meu organismo ainda não sabe isso…) mas ao menos estou feliz!

A máscara na cara é muito comum, já a tínhamos visto no Vietname (para quem acompanhou as crónicas do Vietname) e tem dois objetivos: evitar a poluição – que não é o caso aqui – e evitar o sol. O principal objetivo aqui em Yunnan é evitar o bronzeado. Os chineses não gostam de se bronzear e de ficar morenos. Como uma cultura pode ser tão diferente, não é verdade? Nós, portugueses, em grande lufa lufa a caminho da praia para nos bronzearmos… eu, lula branca, como fui chamada uma vez por uma prima minha (efetivamente ela chamou-me apenas “lula”, mas eu não percebi. Uma lula? Porque sou uma lula? Porque as lulas são brancas, daaahh…), portanto, eu  – lula branca – sempre em grande esforço para conseguir ao menos ficar com uma corzita creme claro. E esta malta chinesa a esconder-se do sol, sempre de calças ou collants opacos e mangas compridas.

Loja de carne de iaque. Vou comer algumas vezes iaque, e irei ver iaques mais à frente. A carne é parecida com a de vaca, mas um pouco mais tenra.

Com grande alarido de música estridente vem esta carrinha. Que é isto, no meio das casas, das lojas e das pessoas? Com música verdadeiramente roufenha, a andar tão devagar? Pois é a recolha do lixo. As pessoas que ali trabalham ouvem a música logo à distância (pudera),  preparam os sacos do lixo e vêm a correr para deitá-los fora. Comecei a ver as pessoas a sairem de várias lojas, todas com os sacos do lixo na mão – e  a carrinha não pára, vai sempre em andamento – todos em passo apressado atrás da carrinha para deitarem os sacos de lixo fora… esta é boa.

Bolo quente. Apeteceu-me tanto provar aquele bolo quente. Deitava fumo e cheirava às papas do bebés. Mas é arriscado, não posso arriscar: não sei como foi cozinhado, tenho receio de apanhar uma gastroenterite. Em todas as viagens que faço para estes destinos exóticos, apanho sempre uma gastroenterite e sofro tanto. Não posso.

007 - A Caminho de Dayan

Dayan fica a 4 km de Shuhe, e fui de carro até lá. Por enquanto não ando de bicicleta, vou visitar um centro histórico, cheio de gente, onde as bicicletas nem são permitidas. Nesta pequena viagem apercebo-me da vida atual, em casas recentes e estradas citadinas, centros comerciais e lojas sofisticadas – uma delas onde entrei para comprar loção corporal, que me esqueci de levar, e onde vi todas as marcas de shampoos e cremes hidratantes que temos cá na Europa. Comprei um gel de aloevera, de uma marca chinesa, que se revelou bastante bom, e o qual tinha legendas em chinês e em inglês. Também aproveitei para comprar um cartão SIM, chinês, para colocar no meu telemóvel e assim poder contactar a guia facilmente (e ela a mim, quando eu desaparecer na bicicleta, como vai acontecer algumas vezes).

Aproveito esta crónica para comentar sobre a moeda chinesa, o Yuan ou RMB. Durante esta viagem vou usar o câmbio de 1€ = 7 Yuans. O nível de vida na China está relativamente equiparado ao português. O exemplo da loção corporal é ilustrativo: paguei o mesmo em Lijiang que pago em Lisboa, cerca de 6€. E era uma marca chinesa, porque se fosse para as que conhecemos, seria mais caro. Os preços estavam afixados. A lista do restaurante, na crónica anterior, é bastante representativa também: o peixe (do rio) anda pelos 10€, a carne pelos 14€. As garrafas de água eram baratas: uma garrafa de 550 ml tinha o preço afixado nas próprias garrafas, de 2 Yuans (30 cêntimos).

A minha viagem por Yunnan foi contratada com pensão completa, todavia vou tendo consciência dos preços nos restaurantes porque vou espreitando os menús. Só em Pequim, quando andar sozinha, é que irei começar a pagar as refeições. Por enquanto é a guia que o faz. As refeições são normalmente tomadas na sua companhia e do motorista também. Somos 3, portanto, à mesa, habitualmente. A guia agarra-se ao telemóvel e nunca mais levanta o olhar. O Jai Song de vez em quando fala em chinês com ela. De facto eles às vezes falam muito um com o outro, mesmo no carro. Em Pequim vou ter um guia fenomenal durante um dia, na Grande Muralha,  o qual bombardearei com todas as perguntas que não consegui fazer em Yunnan. Lá chegaremos, será para outra crónica muito mais à frente.

008 – Visita à Cidade Antiga de Dayan

Conforme referi antes, Lijiang foi considerada pela Unesco em 1997 como Património da Humanidade, e divide-se em três povoações antigas: Shuhe, Dayan e Baisha. Conforme descrito no site da Unesco, “as três mantêm a sua paisagem urbana histórica com grande qualidade e autenticidade. A sua arquitetura mistura elementos de várias culturas que se juntaram aqui ao longo dos séculos. Lijiang também possui um antigo sistema de abastecimento de água que é de grande complexidade e ingenuidade e que efetivamente ainda funciona hoje. A antiga cidade de Lijiang tornou-se num importante centro para a comunicação económica e cultural entre vários grupos étnicos, como os Naxi, Han, Tibetanos e Bai.” (http://whc.unesco.org/en/list/811)

Dayan é a maior povoação, está cheia de turistas orientais e é encantadoramente exótica para gente como eu. Levo três anos a percorrer cada rua, a observar tudo, a tirar fotografias, a deixar-me absorver por aquele ambiente tão antigo, tão cheio de história e há tão pouco tempo aberto aos turistas estrangeiros. A agitação não é totalmente nova para mim já que estive no vizinho Vietname, não muito longe desta zona, mas o encanto e o espanto são permanentes. E quem provoca espanto também, nos orientais, sou eu própria, a única ocidental a passear por ali. O meu cabelo encaracolado trai-me fortemente. Os chineses têm todos cabelos escuros e lisos. Verem uma ovelha ambulante, encaracolada, de cabelos relativamente claros, desperta nítido interesse e às vezes riem-se. No meio daquela multidão, durante um dia inteiro, não vi um único ocidental. Com o tempo vou habituar-me a ser fixada, chegará a um ponto em que já nem dou conta.

O povo Naxi tem 3 religiões principais: Dongba, Budismo Tibetano e Taoísmo. Nesta foto vê-se uma manifestação da religião Dongba: pequenas placas de madeira penduradas, com desejos escritos, que formam sinos de vento. A Dongba tem origem na religião Bon, uma antiga tradição tibetana anterior à chegada do Budismo. A mitologia Dongba baseia-se na relação entre o Homem e a Natureza: ambos são meio-irmãos, do mesmo pai e de duas mães diferentes.

Eis a famosa fruta chamada Durião, já minha conhecida do Vietname. Esta fruta só existe aqui, no sudeste asiático. E cheira tão mal. O cheiro é tão pestilento. Estão a ver aqueles queijos malcheirosos, que empestam tudo à volta? Pois o durião é igual. Mas sabe tão bem. É tão bom. Tão doce, tão saboroso.

Espetáculo de música e dança com os trajes tradicionais Naxi.

E aqui estão as Pitaias – ou Fruta do Dragão – o fruto de casca vermelha com picos, também já meu conhecido do Vietname. Não é tão doce como o durião, mas tem um grande aspeto, tão exótico. Parece um kiwi branco por dentro.

Belos petiscos, heim? Uns escorpiõezinhos estaladiços, que tal? Eu até gostava de experimentar – aliás, na Amazónia experimentei uma daquelas minhocas brancas, a saber a coco, acabada de sair do fruto. Mas estes petiscos aqui já foram manuseados e cozinhados e eu tive receio pelo meu estômago. Estou no princípio da viagem, não convém arranjar problemas digestivos. Mas faz um pouco de impressão, faz. Se calhar não poderia olhar muito tempo antes de dar uma dentadinha, senão mudaria de ideias.

Agora é o Mangostão, o fruto escuro a meio da foto, redondo, com folhas verdes. Nem queria acreditar quando o provei. Hoje vejo na Wikipedia que o mangostão é considerado pelos habitantes desta zona como a fruta mais saborosa do mundo: “a rainha das frutas tropicais”, verdadeiro “manjar dos deuses”. Pois concordo plenamente. Depois de se provar um, tem de se comer mais uma dúzia deles e nunca mais se esquecerá.
O que está à frente (bolas verdes) não sei qual é, talvez seja a Guava, mas não tenho a certeza.
E atrás das uvas está o Rambustão, outra delícia – as pequenas bolas vermelhas com picos. A fruta no sudeste asiático é uma coisa espantosa. Tendo eu percorrido os cinco continentes, atrevo-me a dizer que é aqui que se encontra a melhor fruta do mundo. Infelizmente eu estou condicionada, não posso comer fruta descascada, por exemplo. Conforme referi na crónica 6, basta a faca estar molhada com água da torneira e pronto, é gastroenterite ou diarreia certas. No Vietname fiz o disparate de comprar fruta descascada na praça, precisamente no último dia da viagem. Nesse mesmo dia eu ia apanhar o avião de regresso a Lisboa. O médico tinha deixado claro, na consulta do viajante (e voltou a deixar claro agora, na viagem à China) que eu não podia comer fruta descascada, nem legumes crús. Mas a Rute, no último dia da viagem, já estava excessivamente confiante. E deliciou-se com a fruta. Era a despedida: antes de ir-me embora quero comer pela última vez estes manjares dos deuses.
Pois a Rute, nessa viagem do Vietname, fez uma viagem de avião para esquecer. E à chegada à Portugal foi direta para o hospital, onde lhe quiseram dar soro.
Portanto, nesta viagem à China, a Rute aprendeu a lição e teve muito cuidado. Nada de comer fruta descascada. Não devemos tocar na fruta. Tem de ir direta da casca – o fruto no interior – para a boca. Hoje, a passear por Dayan, ainda não vou comê-la. Tenho receio, tenho recordações más do passado. Todavia mais à frente vou ter ajuda de umas raparigas chinesas que vou conhecer. São elas que vão comprar a fruta e dar-ma a comer. Lá chegaremos, vamos andando com calma.

Dentro daqueles recipientes de madeira, encavalitados uns em cima dos outros, estão guiozas a cozer a vapor. Vê-se a fumegar. Esta foto foi tirada à porta do restaurante. Um desses recipientes vai ser meu – ou melhor, as guiozas cozidas a vapor que estão no seu interior. A forma de as cozerem a vapor tem um certo mau aspeto, de facto, mas as guiozas eram deliciosas, misturadas com um caldo. Comi-as no quarto do hotel e foi o meu jantar. As guiozas são massa com um recheio – neste caso era de carne de porco picada. Provavelmente já toda a gente experimentou guiozas nos restaurantes chineses em Portugal. Sou fã e aqui na China vou tirar a barriga de misérias. Vou comer guiozas até não poder mais – literalmente.

009 - A Caminho da Montanha Nevada de Yulong

Choveu torrencialmente toda a noite e toda a manhã. E faz fresco, tenho de usar uma camisola de manga comprida por cima da t-shirt. Não fui preparada para o frio, supostamente as temperaturas rondariam os 30 ou 35 graus, mas aqui em Lijiang tive esta surpresa. A app do iphone continua a dizer que estão 30 graus em Lijiang. E eu em Lijiang cheia de frio. Alguma coisa não bate certo na metereologia. Será que há outra Lijiang no mundo?

Começa um novo dia e tenho um novo pequeno almoço. Desta vez já veio a simpática senhora ao hotel, cozinhar para os hóspedes. Não fala uma palavra de inglês, mas a gente lá se entendeu. Fui a primeira a chegar (nestes primeiros dias ando com o jet lag, às 5 da manhã estou acordada) e andei entretida a vê-la cozinhar e a tirar-lhe fotos.

É um belo pequeno almoço, esparguete com carne frita e picante (e bastante tradicional) mas hoje eu não podia. Não estou bem do estômago, algo não caiu bem, ao jantar. Doeu-me. Pelo que comer agora carne de porco frita e muito picante, é complicado. Ainda tentei, e até sabia bem, mas comer aquela tigela toda iria afetar-me o resto do dia. Estou no princípio da viagem, vou ter bastante exercício físico pela frente, tenho de estar em forma. Não posso ter qualquer tipo de dor. Pelo que tive de explicar à simpática senhora que eu não podia comer aquela apetitosa tigela de esparguete picante. O ovo estrelado ainda comi. Estávamos as duas sozinhas, e eu não queria de forma alguma ofendê-la. E não sei como, ela lá me percebeu. Pus a mão no estômago e dei sinal que me doía. Levantei-me e apontei para a esparguete cozida.

Ora aqui está um pequeno almoço saudável. A paciente e simpática senhora tratou de preparar-me um pequeno almoço mais saudável. A outra tigela foi fora. Ovo cozido, pão (é frito, paciência, mas sabe muito bem) e a taça – descobri – não é esparguete. É um legume cozido que eu não sei qual é. Mais tarde disseram-me que era couve chinesa, mas não tenho a certeza. Portanto o meu pequeno almoço foi uma taça de couve cozida com pedaços de carne de porco cozida. Soube-me bem, o legume cozido? Não propriamente. Mas era saudável e a fome é negra. Preciso de alimentar-me. Pelo que comi tudo até ao fim.

A guia veio buscar-me no jipe, desta vez o motorista Jai Song não veio, hoje uma vez mais não é necessária a sua companhia. Vou visitar a famosa Montanha Nevada de Yulong, também conhecida por Montanha Nevada do Dragão de Jade, a qual fica a uns 15 ou 20 km de Lijiang.

A entrada para a Montanha Nevada de Yulong. Os cinco “A” que se vêem escritos no topo signifca que é uma atração de categoria máxima, na classificação de atrações turísticas da China. A classificação é atribuída aos locais ou edifícios de acordo com a história e cultura da China, pela Administração Nacional de Turismo, e considera vários fatores, como a importância, a segurança, limpeza, saneamento e transporte. A entrada é cara, lembro-me que paguei mais de 30€. E é necessário mostrar o passaporte. Todas as entradas para as atrações são caras e não estão incluídas no programa, pelo que as fui pagando à parte. Aliás, as visitas foram sendo ajustadas ao longo do programa, conforme os meus interesses. A certa altura, num dos próximos dias, vamos reajustar o percurso, pois eu queria visitar o parque nacional onde se encontram os “macacos-de-nariz-arrebitado-de-Yunnan”, uma espécie endémica da China e do Tibete. Só aqui podem ser vistos no seu habitat natural – em mais parte nenhuma do mundo. É esta a vantagem de viajar sozinha, com um programa à medida, flexível, sem horários nem obrigações. Hoje quero estar aqui, amanhã quero estar ali. Hoje quero demorar 30 minutos, amanhã quero demorar 3h. Inclusivamente os hotéis não estavam marcados. A guia foi agendando diariamente, online, à medida em que avançávamos.

Os primeiros iaques que vi. Mal conseguia conter a emoção, saí disparada do carro para fotografá-los e vê-los com atenção. Este iaque fez o mesmo, também me observou com muita atenção. “Uma ovelha por aqui?” – terá ele pensado.

O jipe que me transporta (a mim e à bicicleta, que por enquanto ainda não foi usada).

Não é possível ir em carro próprio para a Montanha Nevada de Yulong, pelo que todos os turistas são encaminhados para um autocarro que os leva lá acima. Não há um único ocidental, sou a única no meio de muita gente. Muita gente que correu para garantir lugar no autocarro. Se não os vences, junta-te a eles – e corri também – quero um lugar no autocarro, não me deixem aqui. Claro que não foi preciso, havia uma dúzia de autocarros disponíveis, e se bem me recordo, encheram três. Devido às chuvadas (relembro que choveu torrencialmente toda a noite e manhã) a estrada de terra estava cortada, a ser reparada. O autocarro levou-nos a todos até um ponto, saímos, tivémos de passar a pé a zona afetada, e entrar noutro autocarro, que chegou pouco depois, após a zona em obras. Felizmente entretanto deixou de chover.

Ainda não tinha tocado neste ponto – as casas de banho. Abordemos sem medos este tema escatológico.

As sanitas desapareceram logo no aeroporto em Lijiang. Mal aterrei no sul, acabaram-se as sanitas. Na Ásia (pelo menos no Vietname e na China, onde estive) usa-se um buraco no chão, os chamados vasos sanitários de agachamento – em inglês: “squat toilet”. Felizmente nos hotéis continuei a ter sanitas. Não consigo atinar com aquele sistema, e ainda hoje me interrogo se haverá alguma técnica para fazer xixi naqueles buracos sem salpicar os pés e as pernas. Quando os buracos são suficientemente fundos, evitam-se os salpicos. Mas é muito raro os buracos serem fundos. As louças sanitárias que colocam nestas casas de banho são sempre iguais, do mesmo tamanho – pequenas. Portanto eu fui experimentando várias técnicas. Afastar os pés. Aproximar os pés. Ir para a frente, para a parte menos funda. Ir para trás, para a parte mais funda.

Mas não descobri a técnica. Se existe alguma mente ilustrada, pois faça o favor de entrar em contacto comigo e explicar-me. E estamos a falar de urina. Já nem falo em algo mais consistente. Porque depois ainda há outro fator: acertar no buraco. Já nem falo disso. Sim, porque há quem não acerte no buraco, infelizmente quem entra nestas casas de banho pode comprová-lo. Fica lá uma prenda, ao lado do buraco. Veja lá, chegue o rabinho um pouco mais para o lado, por favor.

Mais: estas casas de banho que se vêem na foto eram bastante boas, individuais, com porta e com autoclismo (carrega-se com o pé e vê-se o sistema na foto. A higiene é um dos fatores que contribui para os cinco “A”, conforme explicado acima). Depois existem outras onde a porta nem existe. E muito menos autoclismo. Como podem calcular, eu andei de bicicleta por zonas remotas. Vi muita coisa. Mais exatamente, muitas casas de banho. E muitas vezes preferi usar os arbustos. Fotografar casas de banho é algo insólito, talvez, mas fotografei uma porção delas e nas próximas crónicas hão de aparecer. Nessa altura voltaremos ao tema. (“Não, não… por favor” – dizem vocês. “Voltamos, voltamos” – respondo eu).

010 - O Magnífico Teleférico da Montanha Nevada de Yulong

Tem 1,2 km de comprimento, atinge 360 metros de altura, e aqui está-se entre os 3.600 e os 4000 metros de altitude. Na Austrália tive oportunidade de andar num teleférico de 7,5 km, em Kuranda, e pelo que vejo na internet o maior do mundo está na Suécia, com 42 km. Mas mesmo assim, este pequenino da China, com 1,2 Km, já é uma emoção. Durou 20 minutos, foi silencioso, e deixei-me levar  vagarosamente em direção ao planalto Mao Niu Ping, zona de prados e iaques.
Respirei profundamente o ar fresco e húmido da manhã, aqui nas alturas.

011 - O Planalto Mao Niu Ping

Templo budista.

Espreitei pela pequena janela da casa do templo, e não consegui ver quase nada, dada a escuridão. Mas percebi que havia gente lá dentro. Disparei a máquina com flash. E assim consegui ver tudo claramente : )

Um moledro, ou seja, um monte de pedras empilhadas; e ao fundo bandeiras de oração. É algo comum no Tibete, e vê-los-ei com frequência perto dos templos, bem como ao lado das povoações, estradas e rios. Eu estou a poucos quilómetros do Tibete, e é patente toda a influência deste na região onde me encontro.
O moledro chama-se “Ovoo” e as bandeiras “Lungtas”. Os ovoos são usados como altares e santuários, têm origem em práticas populares mongólicas, as quais viriam a ser adoptadas pelo budismo tibetano, e prestam homenagem ao espíritos do céu e das montanhas, além de garantirem uma viagem segura. Por vezes são feitas ali oferendas, como fruta, doces ou bebidas.
Já as bandeiras de oração – as lungtas – cujo significado literal é “cavalos de vento” também fazem parte do simbolismo tibetano, para o qual a mente está montada numa energia ou vento interior. Esta energia é chamada de “cavalo de vento”. É a força deste cavalo de vento que determina se a nossa mente é dominada por forças negativas ou positivas. Esta criatura mítica é frequentemente pintada nas bandeiras de oração, que voam ao vento para gerar mérito e aumentar a força interior de quem as pendura. As lungtas são a energia positiva e a sorte.

À direita: iaques.

Conforme se pode ver nas fotos, o planalto Mao Niu Ping está quase deserto. Não sei onde se meteu aquela gente toda dos três autocarros que partiram comigo.
E existem avisos por todo o lado de que o gado pode ser perigoso. Ainda hesitei um pouco, mas pensei que estou numa zona turística, paguei uma pipa de massa pelo bilhete de entrada para este parque natural, e nunca ouvi notícias nenhumas de turistas mortos por iaques num parque natural da China. Mas pelo sim pelo não, agarrei num pau relativamente grande, o qual transportei alguns metros, enquanto estive mais próxima deles, nomeadamente de bodes (também havia bodes e cabras – levar uma marrada de um bode não será agradável, já tive um atrás de mim, em Portugal, e não achei graça nenhuma à experiência), até que me fartei e deitei o pau fora, e mantive-me afastada dos animais, sempre no caminho de madeira.

A minha velha técnica de tirar fotos a mim própria… deixo a câmera algures, em contagem decrescente, e vou a correr para o local onde é suposto ficar. Esta não foi à primeira, exigiu duas ou três tentativas, confesso. Mas tenho o tempo todo do mundo e gosto de estar aqui. A guia ficou à entrada do parque, entretida com o telemóvel, claro, à minha espera. Eu pedi-lhe expressamente para ir sozinha. Tudo é pretexto para demorar um pouco mais. Estou a usar umas calças que ela insistiu em emprestar-me, alegando que fazia muito frio lá em cima. Eu só levei sandálias, saias e calções, nesta viagem à China. Mas hoje faz um tempo maravilhoso, e eu cheia de calor arregacei as calças.

Mais iaques, lá ao longe.

012 - Espetada de Iaque

Hoje foi o dia em que acordei um pouco mal do estômago, pelo que tenho de ter particular cuidado com o que como durante o dia. Se não fizer disparates isto passa rapidamente. Mas quero provar a espetada de iaque. Cheia de temperos e picante. Hesitei, voltei para trás, e acabei por comprar uma espetada por 5 yuans e dar-lhe uma dentada. Expliquei – ou tentei explicar – que não podia comer mais porque não estava bem do estômago. Se fosse só a carne assada era ótimo, o pior é a carrada de temperos e picante que elas têm. (É a garrafinha que a senhora tem na mão!…)

Entretanto chegou este pequeno grupo de turistas chineses, e a rapariga mais velha trocou algumas palavras comigo em inglês. Este pessoal mais novo já vai arranhando o inglês. Perguntaram-se de onde era eu (eu respondo “Portugal” e ninguém percebe) e eu perguntei-lhe de onde vinham eles também. Disseram-me o nome da província, na China, mas eu custei a perceber também, não anotei, e entretanto esqueci-me. Tirámos fotos todos, eles com o telemóvel, eu com a câmera. Foi a mãe deles a fotógrafa de serviço. Esta troca de fotos vai repetir-se muitas vezes ao longo da viagem. Os chineses são muito simpáticos e conversadores, metem-se constantemente comigo. E eu respondo imediatamente e estou sempre pronta para tirar fotografias.

013 - Regresso a Shuhe e Almoço

Eram 4 da tarde quando finalmente cheguei a Shuhe novamente, para almoçar. A viagem entre o Parque Natural e Shuhe foi pequena, se calhar meia hora. Mas demorei-me imenso no planalto Mao Niu Ping, foi um dia muito relaxante, e quis aproveitar. Cá está o benefício de viajar sozinha, sem grupos. Se tivesse um grupo teríamos horários definidos, haveria sempre alguém que quereria almoçar a horas decentes, ou se cansaria de andar tanto tempo no planalto. Ou se calhar alguém quereria ficar lá mais tempo ainda. Aqui é tudo definido ao meu ritmo. Não há horários. Faz o que te apetece, Rute. Desfruta.

Se forem reparando nas fotos das refeições, verão que nunca existem guardanapos. Não são usados. Os chineses comem tudo delicadamente com pauzinhos, não se sujam. Eu, que parecia vinda dos povos bárbaros, às vezes ficava lambuzada, com os dedos sujos, numa autêntica batalha naval com a comida e os pauzinhos. Como é que eu tiro as gorduras da carne, por exemplo? Não tenho faca!… Quantas vezes agarrei na carne com os dentes e puxei a gordura com os pauzinhos. Escorrega. Não consigo tirar a gordura. E lá vão os dedinhos ajudar na operação. Carne nos dentes, dedos a puxá-la. Uma autêntica vergonha para o meu público chinês, que me observava sempre divertido e com curiosidade. Esta moça é uma selvagem!, deviam pensar, ao ver-me. E agora, guardanapos? Não há guardanapos. Tinha de sacar dos lenços que rapidamente aprendi a levar comigo, na bolsa da cintura. E eles, tranquilamente, a rir e a conversar nas mesas ao lado, tão delicados com os seus pauzinhos. Lembro que os ocidentais eram raríssimos por aqui. Em todas as refeições que tomei durante estes 25 dias (exceto nos voos internacionais) – pequenos almoços, almoços e jantares – apenas uma vez tive um casal ocidental sentado na mesa ao lado. De resto foram sempre orientais. Não digo “chineses” porque tive oportunidade de constatar mais tarde que existiam muitos estrangeiros orientais, quando tivémos de formar uma fila diferente, na entrada de um museu em Pequim. Voltei a estar rodeada de orientais, mas finalmente percebi que não eram chineses, dado estarem na fila dos estrangeiros. Existe diferença no formato dos olhos, que eles próprios sabem detetar bem, mas eu não sou perita de todo.

Mas voltando às refeições: também não existem sobremesas. Nem fruta, nem doces, nem nada. Nestes 25 dias, em tantos restaurantes, nunca encontrei uma lista (um menú) com sobremesas. Não existe esse conceito, pelos vistos. Pelo menos em Yunnan e Pequim não existe. Mas existem bons doces na China, e terei oportunidade de prová-los algumas vezes, mas fora das refeições. Eventualmente ao lanche ou ao pequeno almoço, quando comia bolos.

Para sobremesa vou ter mais uns bolinhos de rosas. Cá está: numa loja diferente, e por opção minha.

014 - Final de Tarde Chuvoso em Shuhe

Parece contraditório passear com chuva, mas foi a melhor altura, porque a multidão desapareceu. A guia também se foi embora, ela e o motorista Jai Song estão noutro hotel, a meia hora do centro. Esta chuva não será conveniente para os lojistas, mas é delicioso para alguém como eu. Tenho agora um pouco de silêncio, e caminho no meio daquelas casas e ruas tão antigas, tão cheias de história. Durante séculos passou aqui tanta gente, na Rota do Chá e dos Cavalos. Tanto comércio, tanta atividade, pessoas e cavalos carregados de chá e mercadorias.

Várias vezes me perguntaram, no meu regresso, se sentia segurança. Sim, creio até que foi dos países do mundo – de todos os continentes por onde andei até agora – onde mais segura me senti. Não tinha qualquer receio em caminhar sozinha pelas ruas e ruelas em Yunnan, e mais tarde em Pequim. Em Pequim então senti-me plenamente à vontade, inclusive à noite. É um povo calmo e pacífico, e em Pequim existem guardas por todo o lado, 24h por dia, às vezes muito pachorrentos. Naturalmente que o perigo e a criminalidade existem em todo o lado. Não temos assistido às notícias escabrosas de delinquência nas nossas aldeias em Portugal? Existe por todo o lado e temos de estar preparados. Claro que não andei à uma da manhã sozinha em ruas escuras, e há determinados cuidados a ter, seja onde for, seja numa aldeia portuguesa ou numa aldeia chinesa.

Quando regressei ao hotel, à hora de jantar, encontrei este morador na cozinha. Ainda não o tinha visto. Já tinha visto o recipiente no chão onde ele come, mas o seu ilustre dono ainda não tinha visto. Não me ligou, estava ocupado com o jantar em família… Perguntaram-me se eu era servida, mas eu agradeci e recusei. Ainda estou a fazer a digestão do almoço tardio. (Tudo por gestos, claro, ninguém fala inglês).

015 - O Primeiro Dia de Bicicleta

Até que enfim, já estou a ressacar com a falta da bicicleta. Os dois primeiros dias em Lijiang foram feitos a pé, e hoje, o terceiro dia, finalmente vou pegar na bicicleta. No primeiro dia fiz 10 km a pé, ontem também fiz outros 10. E hoje vou fazer 39 km de bicicleta. Mais: choveu torrencialmente durante toda a noite, e hoje de manhã pela primeira vez nestes três dias não chove. Até parece mentira. No meu primeiro dia de bicicleta parou de chover. Obrigada! (Vêem aquela imagem da Amália de braços abertos, no ar, a agradecer? Assim sou eu: “Obrigada!… Obrigada!…”) Não caibo em mim de contentamento, agarrada à bicicleta.

Com o carro vou seguir dois esquemas: ou vai atrás de mim – dá-me 15 ou 20 minutos de avanço e depois é que arranca, ou então vai à frente e espera até que eu apareça. No caso de haver cruzamentos ou bifurcações, o carro espera por mim nesse local, para então indicar-me o caminho certo. Funcionou sempre bem, com exceção de uma vez em que nos perdemos, ainda hoje não percebi como. Mas nessas circunstâncias eu passo o telemóvel a algum local (recordo que eu comprei um cartão chinês logo no primeiro dia), o qual fala com o motorista ou com a guia, e acabam por encontrar-me. Fiz isto umas cinco ou seis vezes – as restantes vezes por opção minha, dado que quis seguir outros caminhos que não os do carro. Nunca tive qualquer receio e efetivamente era uma situação que me divertia imenso: estar perdida na China, sem mapas nem GPS, apenas com uma bicicleta nas mãos. E um telemóvel, claro. Em primeiro lugar as pessoas ficavam muito espantadas a olhar para mim e para o telemóvel que eu lhes estendia. Depois pensavam que era para ver alguma coisa no telemóvel – alguma foto, alguma coisa escrita – e punham-se a olhar para o telemóvel, aproximando-se dele. Eu tinha de dar-lhes a entender que era para encostarem-no ao ouvido e falarem. Reparem: ninguém fala inglês. Mas sempre me fiz entender através de gestos ou expressões. Estão a ver aquelas cenas dos apanhados, em que as pessoas ficam muito espantadas, mas vão fazendo as coisas? Assim era. Vocês têm de pôr-se no lugar destas pessoas, para compreenderem a situação insólita que deveria ser para elas. Primeiro vêem chegar uma ovelha ambulante, encaracolada, numa bicicleta. Essa é a primeira fase do espanto. Tenho de dar-lhes uns segundos para se habituarem à ideia. E depois essa ovelha passa-vos o telemóvel. (Que é isto? Ela quer que eu veja o telemóvel dela?) Então com muito espanto encostavam o ouvido ao meu telemóvel e esperavam para ver o que saía dali. O motorista ou a guia lá falavam com essas pessoas, em chinês, e via-se logo a sua mudança de atitude. Percebiam o que se passava e tentavam de imediato ajudar, indicando a direção certa. A guia falava depois comigo ao telemóvel, traduzindo-me o que as pessoas tinham acabado de dizer. Era um esquema bastante bom, diga-se, e resultou sempre. Podem perguntar-me: e porque não ativavas um GPS no telemóvel? Porque estou no meio do campo e fugi às estradas por onde o carro vai. Para ativar o GPS, mais vale seguir o carro. Não é isso que eu quero. Além do mais calculo que não conseguiria ativar GPS nenhum no meio dos campos, diga-se de passagem. Nem com a metereologia o telemóvel atina. Insiste em dizer-me que estou noutras terras com uma temperatura qualquer insólita. Raramente funcionaram, estas questões de localização, no meu smartphone, na China. Até um simples conta-quilómetros, o qual tentei instalar a app: depois de um dia inteiro a pedalar entre duas povoações, dizia que eu tinha feito dois quilómetros. Perdia a rede, era muito incerto. Além de outras questões como a língua. Estou numa terrinha qualquer. Com sorte vejo o nome em chinês em algum lado e poderia tentar localizar-me. Como é que eu escrevo esse nome em chinês no telemóvel?
Deixei de prestar-lhe atenção, portanto; servia para falar e pronto.

A senhora que vai ao hotel preparar o pequeno almoço desta vez já sabe que eu quero algo mais saudável. Hoje tenho arroz cozido – sem sal, apenas cozido em água sem qualquer tempero (ela deu-me sal para temperar a gosto). Não ficou lá grande pitéu, mas pronto, ao menos é saudável e vim a descobrir que é algo muito comum na região, ao pequeno almoço. Como se pode ver nas fotos seguintes, o casal que comeu sentado à minha frente (não faço ideia quem são, se trabalham ali ou se são visitas – mas tudo o que se mexe eu fotografo, pelo que eles foram fotografados também) esse casal também comeu o mesmo que eu. E eles comeram também os legumes muito picantes que o rapaz me deu no primeiro dia. Pude observar também como comem os ovos: os estrelados comem com pauzinhos, o ovo cozido comem à mão. Na minha ignorância, e na minha tentativa de fazer tudo como eles fazem, comi o meu ovo cozido com pauzinhos. Descasquei-o à mão, claro, e depois vá de agarrar no ovo com os pauzinhos. Efetivamente reparei que eles me observavam. Mas enfim, eles observam-me sempre, curiosos, faça eu o que fizer. Depois é que percebi que o ovo cozido é comido à mão. Observei-os posteriormente. Mas tenho a dizer que saí vitoriosa da operação, pois comi o meu com pauzinhos. Partiu-se, caiu no prato, e eu fui apanhando os bocadinhos e comendo.

Belo pequeno almoço, este. Ficamos logo almoçados. Mas dali só comi um ovinho cozido. Vêm as malaguetas cortadas em pedaços, lá dentro, não vêm?… Eu transformar-me-ia num dragão a deitar labaredas, se comesse aquilo. A comida em Yunnan é extremamente picante.

Cheguei à terceira vila antiga de Lijiang: Baisha. Aqui fui ver os famosos Frescos do Mural de Lijiang, os quais são conservados no complexo arquitetónico do Liuli Hall e do Dabaoji Palace. Ambos foram construídos durante a Dinastia Ming: o Liuli Hall em 1417, e o Dabaoji Palace em 1582. Por seu turno, os frescos foram sendo pintados ao longo de 300 anos, a partir da Dinastia Ming, e incluíam mais de 200 peças, formando o Mural de Lijiang. Hoje sobram 55 peças em boas condições. O Mural é uma representação artística desse periodo de rápido desenvolvimento económico, aculturação mútua de várias culturas, e crescimento de várias religiões. Reflete essa cooperação, comunicação e progresso. Os autores destas pinturas vinham de diferentes nações, e incluíam os da religião Naxi Dongba, Taoístas, Tibetanos, Han e outros tantos desconhecidos do público. Mostram Budas e também a vida do dia a dia, como burocratas, criminosos, turistas e carrascos. Mostram gente a pescar, a andar a cavalo, a tecer, a dançar, a fundir o ferro. São portanto um importante recurso para estudo do povo Naxi.
Para terem uma noção do que são os “Baisha Frescoes” basta fazer pesquisa na internet com estas duas palavras, e aparecerão logo uma série de imagens.

Este retângulo cinzento à frente é o meu bilhete para entrar no complexo arquitetónico. Infelizmente ficou com um brilho ofuscante, mas eu não quis perder esta foto. Então foi o melhor que consegui fazer, apagar o bilhete. (Que me perdoem os profissionais da fotografia, mas esta não é de todo a minha especialidade).

A escrita do povo Naxi.

016 - Passeando por Baisha

Baisha é a vila mais antiga de Lijiang. A construção de Baisha começou na Dinastia Tang (618 – 907) e tornou-se próspera durante as Dinastias Song (960 – 1279) e Yuan (1271 – 1368). Nesta altura era o centro cultural, político e económico de Lijiang. A partir da Dinastia Ming (1368 – 1644) os governadores mudaram-se para Dayan, mas continuaram a construir templos em Baisha, tornando-a num centro religioso a partir de então.

Claro que comprei o DVD desta música tradicional chinesa. Nem hesitei. Como compensação, eles convidaram-me a juntar-me a eles e a tocar dois dos instrumentos.

Segue o link para o DVD:
https://www.youtube.com/playlist?list=PLA32_iS4_GJbRH1X1k8iDfUXgy7gqBpPh

Deixei a bicicleta com o Jai Song e a guia – ambos ficaram sentados no restaurante onde vamos almoçar, e eu fui dar um passeio a pé, pelas ruas e ruelas da vila, durante cerca de uma hora. Para já vou meter-me com aquele cão lá à frente.

– És um cãozinho chinês? – perguntei-lhe eu, em português.
– Sou! – respondeu-me ele, também em português, deitando-se de barriga para cima e esfregando a cabeça com as patas, mimado e preguiçoso.
E assim descobri que os cães falam todas as línguas.

– O que estás aqui a fazer? – perguntou-me ele.
– Vim conhecer a tua terra! – respondi eu.
E então ele deu-me uma lambidela no joelho e deixou-me passar.

– Como te chamas? – perguntou-me este.
– Rute!
E então levei mais uma lambidela e continuei a andar.

017 - Almoço e Início da Subida da Montanha

À esquerda, a carne mais escura é de iaque. Eu diria que é igual à carne de vaca, mas é capaz de ser um pouco mais tenra.

Tenho a primeira subida de montanha, agora. Eu não gosto de fazer subidas a pedalar, confesso. Agora são 16 km a subir. Anda lá então, Rute, devagarito.
O carro seguiu mais rapidamente, à frente, e estacionou à minha espera. Com a minha velocidade bem que podem esperar.
Efetivamente quando lá cheguei, ao primeiro ponto de encontro, o motorista Jai Song estava ferrado a dormir, semi-deitado no banco da frente. A guia perguntou-me se eu precisava de água, e se queria seguir de carro. Por enquanto não. Quero continuar a pedalar. Estou a gostar do passeio e devagar se vai ao longe. O Jai Song nem acordou durante esta conversa. Espreitei-o pela janela aberta do carro, nem deu conta que eu estava ali, a olhar para ele. Tirei uma garrafa de água do banco de trás, e segui viagem.
Recordemos que Lijiang está a 2400 metros de altitude. E dado que estou a subir uma montanha, irei ficar em maior altitude ainda.

018 - Cemitério e Outras Descobertas

Ora além de subir devagar, ainda vou explorando tudo pelo caminho. Páro e saio da bicicleta (é altura de descansar…), olho à volta, aprecio a paisagem, tiro umas fotos, respiro o ar puro…

E vislumbro no meio das árvores os túmulos de um cemitério. O meu primeiro cemitério chinês.
Imeditamente tiro a bicicleta da estrada e puxo-a para dentro da berma. E vou quase a correr, impaciente. No interior dos arbustos e das árvores está um cão a comer um animal qualquer. Não me parece um cão abandonado, está bem tratado, e não me liga nenhuma, continuou a comer, pelo que eu continuo também a andar para o interior, até chegar à clareira, no meio das árvores, onde se encontram os túmulos. Por todos os países onde viajo observo com atenção os cemitérios e tento saber quais são os ritos fúnebres do respetivo povo. É um aspeto cultural, sociológico e religioso muito importante, que revela a toda a sua filosofia de vida. Na China, vim a perguntar mais tarde a duas pessoas que conheci e com as quais conversei um dia inteiro (separadamente, em alturas diferentes – sim, porque mesmo assim eu vou conversar bastante com pessoas que sabem falar inglês relativamente bem, mais à frente nesta viagem, e vou fazer-lhes três mil perguntas) ambas as pessoas me disseram o mesmo, e entretanto corroborei na Wikipedia: atualmente os mortos são cremados, sobretudo na cidade. Já não é permitido construir túmulos nas montanhas. No entanto é difícil para as autoridades controlarem as regiões rurais.

A família acompanha o morto até ao enterro, e por vezes deixa oferendas nos túmulos, como comida, incenso ou “notas funerárias” (em inglês “joss papers”), também chamado “dinheiro fantasma”, que são imitações de notas, por vezes com valores mirabolantes, de milhões de dólares (ou yuans),  para deixar o morto preparado para a vida no além e garantir-lhe coisas boas.

O branco é a cor do luto dos parentes mais chegados, e por algumas vezes vi faixas brancas penduradas à porta de casas – significando que morreu alguém naquela família. O luto mantém-se durante três anos e essas faixas também. Os membros mais afastados da família usam vestuário também branco, e ainda de cor preta, azul e verde. As cores vermelha, amarela e castanha não são usadas durante o luto. O vermelho significa alegria, e é o que mais se vê nas faixas à porta das casas.

Entretanto o passeio continuou, montei na bicicleta e segui caminho, até ao próximo ponto onde tirei esta foto, da vista sobre Lijiang. Este amiguinho da foto seguinte andava a saltitar na relva. Eles por vezes deitam secreções menos amigáveis, mas mesmo assim arrisquei-me a agarrá-lo. Não aconteceu nada, coitadito. Pelo sim, pelo não, lavei os dedos com um pouco da água da garrafa.

019 - Visita ao Templo Fuguo

Antes da visita tive de reabastecer: apesar de ter passado pouco tempo após o almoço, o facto de estar a fazer um esforço acrescido – a subir a montanha, a mais de 2500 metros de altitude – fez-me ficar com fome rapidamente. Comi duas bananas e uma barra de cereais, e bebi água com um comprimido dissolvente, não me lembro se era energético, isotónico, ou coisa que o valha. Tudo disponível no carro de apoio.

Templo Fuguo, onde vou entrar e deparar com monges adultos e crianças em plena cerimónia religiosa, bem como convidados, os quais imediatamente me incentivaram a entrar.

O simpático motorista Jai Song, nascido na região tibetana. Aqui com um ar ainda ensonado, e seriamente embaraçado por eu estar a fotografá-lo. Tem três filhos, um com 9 anos, o qual entrou agora para um mosteiro tibetano para se tornar monge, outro com 21 e outro com 24. Espantei-me com as idades dos mais velhos, ele próprio parece tão novo.

É necessário tirar os sapatos, ou então envolvê-los num  saco de pano (com os sapatos calçados). Dado que estou de sandálias, sem meias, optei por pôr estes sacos. De início senti-me acanhada com tanta gente, os monges a olharem para mim, curiosos; as crianças a distrairem-se com a minha presença (os pequenos monges aprendizes), e apesar de me convidarem para entrar, fiquei à entrada, a espreitar à porta. Depois insistiram tanto que acabei por entrar. Tive receio de tirar fotos com flash, afinal de contas eles estão a rezar, pelo que acabei por ficar com uma série de fotos desfocadas. Mas eles estavam muito à vontade com a minha presença, continuaram a cantar e a rezar, e eu fui circulando pelo interior do templo, e espreitando tudo.

Mais uma foto tirada com uns pequeninos e fotogénicos chineses. São aqui mesmo de Lijiang e andavam a passear com a mãe, a qual nos tirou esta foto (e ela tirou outra com o seu smartphone).

020 - Chegada ao Topo... que é um Lago

Fiz 12 km a subir, até que a guia, vendo a coisa mal parada – sempre a perguntar-me se eu quero passar para o carro, e eu sempre a dizer que não, mas a subir tão devagar que a gente nunca mais lá chega (faltam 4 km a subir e ainda tenho a descida – sim, porque eu quero descer de bicicleta… só me faltava penar isto tudo por aqui acima, e depois a parte melhor, a descida, ir de carro), e ainda temos uma viagem razoável até ao próximo hotel – que será uma casa de hóspedes – então a guia vendo a coisa mal parada e o final de tarde a aproximar-se, tratou de ser mais incisiva e aconselhou-me a entrar no carro. Contrariada, lá entrei, eu e a bicicleta.

Mais uma sessão fotográfica com os simpáticos chineses. Também turistas, mas domésticos. Ao longo desta viagem de bicicleta, por Yunnan, recebi imenso apoio, e fartei-me de ouvir buzinadelas de carros, o que para os chineses é uma alegria e um cumprimento. Para mim já não tanto, mas tive de habituar-me porque as suas intenções eram boas. Diziam-me “You’re so cool!” e vá de tirar fotos com todos. Uma alegria; um povo muito simpático e conversador. Claro que tenho de dar algum tempo para as pessoas se habituarem à minha presença – ou à minha “aparição” – porque a primeira reação é de espanto, claro. Estas pessoas estão no meio do nada, passa um carro de meia em meia hora, pararam o seu e estão a apreciar a pasisagem e a tirar fotos. Apareço eu de bicicleta, vinda do nada, sozinha. Naturalmente que as pessoas ficam espantadas a olhar. De onde é que ela veio?… (E eu lentamente a subir por ali acima, em direção a elas). Maior supresa têm quando eu páro a bicicleta ao pé delas, desmonto, e cumprimento: “Hello!”. Começam-se todos a rir e é uma algazarra. Fazem-me uma série de perguntas, e eu trato de explicar que não percebo nada do que estão a dizer. Digo em inglês “I don’t understand!”. Com sorte alguns dos adolescentes já sabem alguma coisa de inglês, e claro que a primeira pergunta é “De onde és?”. Eu respondo Portugal e ninguém percebe. Ficam a olhar para mim, intrigados. De vez em quando perguntavam-me se era Polónia. Não, não é Polónia, é Portugal, ao lado de Espanha e França! Nada. Ninguém sabe onde é Portugal. Ainda falei no nosso Ronaldo algumas vezes, o qual esteve precisamente na China uma ou duas semanas antes da minha viagem. Mas também ninguém conhece o Ronaldo. Deve ser da minha pronúncia. Ou então os chineses não têm tradição futebolística, e não ligam ao futebol.

Relativamente às buzinadelas, de facto elas fazem parte da vida dos chineses. Apitam para avisar que vão passar, apitam para cumprimentar, e o meu motorista seguinte, o Nong Bu (mais à frente irão conhecê-lo) ia ao ponto de cumprimentar-me com um aceno de mão, ao passar por mim, e a seguir buzinava, para não haverem dúvidas. Um dia falou à janela com um conhecido seu, que estava a pé (o Nong Bu dentro do carro sentado, e a outra pessoa em pé, fora do carro, junto à janela) e despediu-se dele com uma buzinadela. O homem estava ali a olhar para ele. Mas a buzinadela faz parte dos cumprimentos, é de bom tom dar uma buzinadela de cumprimento e de despedida.

Finalmente… a descida! Fui lançada por ali afora.

O jipe do Jai Song. Aqui acabou-se o passeio de bicicleta. Começou a anoitecer e ainda temos de ir jantar. Eu e a bicicleta passámos para dentro do carro, com grande pena minha.

021 - E Assim Termina Mais um Dia

Neste primeiro dia de bicicleta fiz 39 km altamente satisfatórios. E a guia apercebeu-se que teria de ajustar o programa inicialmente previsto dado que eu páro muitas vezes. Eu já lhe tinha dito que não tencionava fazer mais do que 80 ou 90 km por dia. Efetivamente, durante esta viagem o maior percurso de bicicleta que fiz num só dia foi de 109 km, em que 20 foram a subir, o resto foi a direito ou a descer. Eu não venho para fazer corridas. Eu venho para conhecer as terras e as pessoas, parar, tirar fotos, cumprimentar. E não gosto de subir montanhas a pedalar, prefiro descê-las. Ela não tinha acreditado em mim, pelos vistos, quando lhe disse isto por email, ainda em Portugal. Portanto, toca a reajustar o programa. Amanhã tínhamos um lago para fazer em dois dias, 205 km maioritariamente de subidas pelas montanhas. Até me ri. A ideia é tão absurda que me faz rir. Se eu estivesse na Áustria, com dezenas e dezenas de quilómetros a direito sem ver vivalma, tudo bem. Agora aqui, em Yunnan? Com todas estas diversões pelo caminho? Três mil paragens para tirar fotos? A subir?… Nem pensar. Portanto, o programa dos dois dias seguintes foi alterado. Já não vou fazer 205 km a subir montanhas até ao Lago Luguhu. Vou ter um programa fenomenal, a direito, noutro lago mais perto, lindíssimo, e cheio de casas e gente com quem me meter.
Não há como viajar sozinha, com toda esta liberdade de escolha. Nem os hotéis estavam marcados. A guia ia marcando dia após dia, através da internet, consoante avançávamos e eu escolhia o caminho. Pelo menos duas vezes chegámos sem hotéis marcados sequer. Ela ia perguntando se havia lugar para nós. Três quartos. Havia sempre. Uma vez não houve, de facto, mas andámos 50 metros e ficámos no hotel seguinte, onde já havia. Seria um pouco complicado andar por aqui sem um guia, considero. Coisas tão simples como hotéis ou restaurantes – não está nada em inglês. Quantas vezes passei por uma casa, que afinal era um restaurante. Nunca eu imaginaria. Era a guia e o motorista que sabiam – e tinham as letras em chinês para identificá-los, mas às vezes nem isso. E ninguém fala inglês, nos restaurantes e nos hotéis. Percebendo isto, comecei a preparar-me para Pequim, onde irei estar sozinha, já sem guia nem motorista. Em Pequim supostamente será diferente, já devem existir mais coisas em inglês, já devem estar mais habituados a turistas ocidentais.  Mas não tanto. Os menús continuaram a estar em chinês, e nos restaurantes ninguém fala inglês. Levei um papel onde tinha escrito em caracteres chineses “Não picante”, “Guiozas cozidas a vapor” e “Noodles com vegetais e ovo”. Pelo menos comida não picante e estes dois pratos assegurei-me que iria ter. Mostrava o papel – que acabei por fotografar e mostrava então a foto no telemóvel, era mais prático – e nos restaurantes riam-se com a engenhosidade da ideia.

Mais uma deliciosa refeição. Desta vez, à direita: ovo com fiambre e pimentos cozinhado a vapor; batatas fritas feitas em forma de tarte (é verdade, batatas fritas) que já estavam quase no fim porque o peixe demorou tanto que tivémos de ir comendo o resto; arroz, claro; e mais uns legumes à esquerda, carregados de malaguetas, que não lhe toquei. Foi o motorista Jai Song e a guia quem os comeram. A comida em Yunnan é extremente picante. É um sarilho obter comida não picante. Quanto ao peixe, não faço ideia que peixe é aquele, mas é do rio dado que estamos bem longe do mar. Tudo maravilhoso.

Chegámos já tarde à Casa de Hóspedes onde vou ficar duas noites. É uma casa tradicional chinesa, com um pátio central, e amanhã de manhã vou tirar-lhe algumas fotografias. O meu quarto dá para esse pátio central, e como fechadura tenho aqueles dois ramos de árvores, os quais se espetam em baixo, em dois buracos na madeira.

022 - A Caminho do Lago Lashihai

Hoje entro no sexto dia de viagem e vão ser feitas uma série de alterações: vou ter uma bicicleta nova; vou ter um motorista novo; vou ter um carro diferente a acompanhar-me; e durante o passeio desta manhã vou ter companhia na bicicleta: o motorista Jai Song e a guia vão acompanhar-me, cada um na sua bicicleta. Seremos três, portanto.
O novo motorista – Nong Bu (irá aparecer com alguma frequência nas fotos, doravante, dado o seu papel tão importante nesta viagem) irá conduzir a carrinha que a partir de agora me acompanha. Tivémos de deixar o jipe do Jai Song porque a minha bicicleta tinha de ser desmontada para caber na parte de trás, juntamente com as bagagens. Agora, na carrinha, cabe na totalidade, não é preciso desmontá-la, pelo que é bastante mais prático.

Relativamente à bicicleta, rapidamente percebi, no primeiro dia de ciclismo (ontem) que a que me atribuiram era demasiado pequena, era um S. Aqui nesta Casa de Hóspedes existem três ou quatro bicicletas disponíveis, pertencentes à guia e ao seu negócio turístico, pelo que pude escolher outra, e ainda sobraram bicicletas para o Jai Song escolher também. A guia já tem a sua bicicleta elétrica.

Hoje tenho um pequeno almoço ocidental: leite, fruta, iogurte, ovos cozidos, pão com passas e doce de morango. Tive de começar a ter cuidado ao pequeno almoço, sobretudo – não comer fritos nem picantes, porque o meu estômago não aguenta.

A Casa de Hóspedes pertence a um casal, o qual tem tem estes dois cães. Esta é a dona.

Conforme referi acima, hoje tenho companhia: o motorista Jai Song e a guia, ao centro. Quem vai conduzir a carrinha já será o novo motorista Nong Bu.

Existem centenas de cavalos para fazer passeios turísticos, nesta zona. Vem gente de toda a China (não vi um único ocidental) fazer estes passeios de cavalo, pelas montanhas e planícies, simulando a antiga Rota do Chá e dos Cavalos.

O Jai Song notou que o pneu da minha bicicleta estava a perder ar, pelo que foi ver o que se passava. Tirei esta foto propositadamente enquanto passava esta scooter, com o rapaz de chapéu. Eles não têm qualquer problema em usar os chapéus efeminados das namoradas ou das amigas ou familiares. Vi com bastante frequência. Aparentemente não põe a sua masculinidade em causa.

Colónia de férias. Estes estudantes vêm passar uma temporada de férias aqui. Questionei-me sobre onde é que há lugar para tanta gente, dado que a aldeia é relativamente pequena, com casas pequenas. O que é certo é que a multidão de turistas que por aqui anda em algum lado se encaixou. Ou será que se vão embora no próprio dia? Eu estou numa Casa de Hóspedes com pelo menos 3 quartos, para o motorista e para a guia também, além do quarto dos donos da casa.

023 - A Minha Bicicleta tem um Furo

As faixas brancas com letras pretas, na porta, significa que alguém nesta casa faleceu, conforme explicado na crónica 18. São colocadas faixas brancas na entrada da casa, e o luto mantém-se durante três anos. O luto e as faixas.

Calhou pararmos em frente a esta casa. Ela vinha a caminhar lentamente direito a nós. Vinha hesitante, demorou bastante tempo, vinha do fundo da rua, e estava com certeza a estranhar esta gente toda à porta da sua casa. Nós não fazíamos ideia que era a sua casa, calhou pararmos ali. Até que finalmente chegou, e o Jai Song e a guia falaram com ela e explicaram-lhe o que se passava. E ela então disse-lhes que morava ali.

Não há nada melhor para estar parada no meio de uma pequena aldeia: ter um furo na bicicleta. Não posso sair dali, que pena. Ora que pena tão grande : )

O Jai Song (de camisa amarela) e mais alguém que não sei quem é. O novo motorista Nong Bu regressou à vila, na sua carrinha, para ir buscar uma nova câmara de ar (ou remendos, nem dei conta do que fizeram, nem do tempo ter passado, dado andar tão entretida).

024 - Espreitemos as Suas Casas

Restaurante onde estão a preparar o famoso “hot pot”, que eu provarei algumas vezes. Há vários “hot pots”, mas o princípio é o mesmo: põem-se brasas ou um pequeno fogão por baixo do recipiente, e assim se cozem os ingredientes, com água, azeite e vários temperos. À medida em que se vai comendo, vai-se deitando mais ingredientes e água para irem cozendo. É até ficarmos cheios!

A família que mora nesta casa está sentada lá fora (mas eu ainda não sei disso…) e como quem não quer nada, parei a bicicleta e entrei. Lentamente, a espreitar. Ninguém diz nada, ninguém aparece. Sentei-me lá dentro. Observei tudo à volta. Fui tirando fotografias (eu sentada, de capacete na cabeça). Até que percebi que eles estavam todos entretidos a ver-me lá de fora, do outro lado da rua, sentados eles próprios, juntamente com uns vizinhos. Viam-me de costas, e o capacete apenas, dado que eu estava sentada. O Jai Song e a guia já estavam com eles, e pelos vistos explicaram-lhes quem era eu e o que fazia ali. E que andava a bisbilhotar o interior do seu pátio, claro. Tive muita vontade de entrar para dentro das divisões, mas ainda não vai ser desta. Mais à frente terei uma série de oportunidades de entrar em várias casas, convidada. De certeza que aquela família não me colocaria problema nenhum, talvez até gostassem de receber-me, mas eu ainda estou no princípio da viagem, ainda é só o meu segundo dia de bicicleta, estou um pouco titubeante. Além de que prefiro estar sozinha, sem guias nem motoristas. Se não tivessem explicações nenhumas, estas pessoas viriam ter comigo, sentiriam curiosidade, fariam perguntas. Ou se calhar assustavam-se e enxotavam-me. Tudo menos aquela indiferença.

025 - Tranquilo Passeio de Bicicleta no Lago Lashihai

Foram 6 km em duas horas. Confirmou-se o tipo de programa que tenho de ter, nesta viagem: passeios calmos, com muitas paragens. O motorista e a guia perceberam definitivamente que não podem contar com muita velocidade e muitos quilómetros, comigo. O meu objetivo é outro, claramente.
Mas digam-me: há alguém que queira velocidade num cenário esplendoroso como este?

Mais outra descoberta: um cemitério no topo da colina. Descobri-o por puro acaso, porque precisava de esconder-me algures (uma ida à “casa-de-banho”, entenda-se…).
Morrer e ficar aqui enterrado, no meio desta tranquilidade e deste cenário imenso e maravilhoso, não é para qualquer um. É só para chinês.

026 - Almoço e Pela Estrada Fora

Couves chinesas.

Paragem de autocarro.

Restaurante onde almoçámos. À direita das bicicletas está a nova carrinha que a partir de hoje me acompanhará e transportará.

Almoçámos os quatro: o novo motorista Nong Bu à esquerda, seguido pelo Jai Song, que hoje passa o último dia connosco, e a guia. A sua paixão pelos telemóveis é uma coisa impressionante. Eu rapidamente me habituei e passei a andar por todo o lado a espreitar e a tirar fotos, nos restaurantes, antes da comida vir, já que ali não tenho qualquer saída. O Jai Song e o Nong Bu não sabem inglês nem eu sei chinês, atenção (mas mesmo assim nunca deixaram de ser de uma extrema simpatia).

Creio que é o prato de baixo que tem fígado de porco. Como sempre não há guardanapos. Pedi e trouxeram-me um rolo de papel higiénico. É a segunda vez que acontece, já no primeiro hotel fizeram o mesmo. Não existem guardanapos, esse conceito não existe por aqui. Mas o que é certo é que todos acabaram por usar o papel higiénico. É curioso. Ninguém usa, ninguém quer, mas quando há papel à mesa, todos acabam por usá-lo.

027 - Trekking Improvisado

Foram ao todo 21 km de bicicleta, manifestamente pouco, mas foi um passeio magnífico. Após almoço vamos descansar um pouco na Casa de Hóspedes (eu nitidamente contrariada dado que não sou amiga de descansos à tarde, mas faz um calor insuportável e eu não me apetece fazer kayaking naquele pequeno lago; não me apetece andar de cavalo no meio daquela multidão com aquele calor todo; e tenciono subir uma das montanhas, a pé, ali ao nosso lado, mas lá me convenceram pelo menos a deixar passar a hora do calor). Ao fundo estão duas t-shirts minhas, bem como a sweat-shirt, a secar ao sol. De manhã a guia deixou a máquina a lavar. Hoje é o sexto dia de viagem (dois dias para os voos, dois dias a pé, dois dias de bicicleta) e aquela sweat-shirt já teve um uso massivo, dado o frio que apanhei nos primeiros dias. Felizmente consegui lavá-la hoje.

Pouco depois das 16h aí vamos – eu, o Jai Song e a guia, os três sem saber ao certo o que vamos fazer. Vamos a pé. E eis que eles começam a seguir o caminho dos cavalos. Sempre com uma quantidade de cavalos e turistas neles montados a passarem por nós, tudo enlameado e cheio de bosta. Mas eu não quero fazer este caminho, disse-lhes. Procuro caminhos alternativos, mais tranquilos. Aqui tem um movimento desgraçado, temos de estar sempre a desviar-nos dos cavalos…

E no meio desta indecisão, eis que vislumbro uma pequena vereda que sai do caminho principal e começa a subir a montanha. Vamos por ali, disse-lhes. Eles mostraram-se indecisos. É um caminho minúsculo e vamos desaparecer no meio do mato, sabe-se lá até onde. Bom, mas o caminho há-de levar-nos a algum lado, disse-lhes eu. Pois não quiseram ir – disseram que iam ficar com as pernas arranhadas. Sim, é verdade, provavelmente vamos ficar com uns arranhões. Resultado: fui-me embora sozinha pelo estreito caminho. Quero subir a montanha, isto há-de levar-me a algum lado, depois descerei pelo mesmo caminho, espero não me perder. Para todos os efeitos tenho o telemóvel comigo, com o cartão chinês, e tenho rede. Se me perder, telefono à guia.
E lá fui. Desapareci no meio do mato.

Afinal a caminhada não foi longa, nem durou meia hora. Fui parar aqui, um novo caminho em construção, com uma bela vista sobre a vila. Não se vê vivalma.

Algures nesta estrada, à esquerda, está a entrada para o meu pequeno caminho no mato que me trouxe cá acima. Passa tão despercebido, no meio da vegetação, que deixei um montículo de pedras a assinalá-lo.

Cá está o montículo de pedras em cima da pedra grande – ali é a entrada de regresso ao meu caminho no mato.
Quando cheguei lá abaixo, menos de uma hora depois, deparei com o Jai Song e a guia sentados no chão, já no meio do mato também. Tinham optado por sair do caminho principal, com constantes cavalos a passar, e fizeram uns metros pelo estreito caminho, até se sentarem numa pequena clareira, onde esperaram por mim. Soltei uma gargalhada ao vê-los. Rapidamente se puseram em pé e riram-se também. Afinal não venho com as pernas arranhadas, o caminho faz-se bem.
E tal como eles perceberam que não podem contar com muitos quilómetros de bicicleta e grandes velocidades comigo, também eu fiquei a perceber que não posso contar com grandes aventuras de trekking com eles. Estou por minha conta. E daqui a uns dias vou mesmo fazer uso do telemóvel para irem salvar-me no meio da vegetação, num episódio hilariante. Eu tenho de subir uma montanha. Tantas montanhas em Yunnan, e eu não subo uma montanha a pé?
Lá chegaremos.

028 - Um Encantador Passeio de Cavalo pelas Montanhas

À última da hora decidi que quero fazer o passeio de cavalo. Após a caminhada apercebi-me que poderá ser bastante interessante. Está a entardecer, há menos gente, e já está mais fresco. A guia telefonou então para o vizinho da nossa Casa de Hóspedes, o qual tem cavalos, e verificou que está disponível. Ele veio buscar-me ao local onde estamos, depois do pequeno trekking, e levou-me. O Jai Song e a guia foram-se embora, regressaram à Casa de Hóspedes. Eu fiquei com instruções de dizer “acabar” (em chinês) quando quisesse acabar o passeio. Tenho de dizer “Rua Xu” para o dono dos cavalos me perceber.
E aí vamos nós, cada qual no seu cavalo, sem horários definidos.

Foi um passeio encantador. Qual Rua Xu. Nem me atrevi a dizer nada, não fosse ele pensar que eu queria ir-me embora. Começámos logo pelo caminho que eu tinha acabado de conhecer, na minha exploração pelo mato. Ele com certeza pensa que está a dar-me a conhecer algo novo, quando eu ainda há pouco andei aqui a tirar fotos. Reparei porém que o montículo de pedras que deixei, para identificar o caminho, já lá não está. Alguém deitou as pedras ao chão.
Depois enveredámos pela montanha, nos estreitos caminhos de terra.
E o céu começou a ficar negro. Anoitece a toda a velocidade, mais pela negritude da tempestade que se avizinha, do que propriamente pela hora tardia. As trovoadas ouvem-se ao longe.

O dono dos cavalos começou entretanto a cantar música chinesa tradicional. A música – lindísssima – e os pássaros a cantar, e a trovoada. O cheiro húmido da floresta. E mais trovoadas ao longe, a aproximarem-se cada vez mais. Começaram a cair uns pingos de chuva. Mas eu não quero ir-me embora. Estou a sentir-me tão bem, neste passeio de cavalo simulando a Rota do Chá e dos Cavalos. Tive um vislumbre do que seria fazer estes longos percursos pelas montanhas de Yunnan. Tanta gente que terá passado aqui, tantos cavalos, tanta história, tantas vidas e também sofrimento.
Não vou dizer Rua Xu.
Não quero que este passeio termine.

Mas quando começou a chover a sério… eu disse baixinho: “Rua Xu”.
Foram as minhas únicas palavras durante uma hora e pouco. E foram ditas com contrariedade. Calculo que o dono dos cavalos me tenha ouvido, mas nem disse nada e continuámos a andar. Acho até que se riu, e eu ri-me também. Certamente ele já iria direito a casa, já chovia a sério por esta altura. Eu entretanto escondi a câmera dentro da bolsa da cintura, nem sequer trouxe a sua mala, nunca imaginei que viesse uma trovoada deste calibre. Começa entretanto a chover copiosamente. Torrencialmente. Está tudo alagado. O dono dos cavalos vem socorrer-me: tirou uma capa de plástico de um alforge do meu cavalo, uma capa azul escura, e atirou-a por cima da minha cabeça, vestindo-ma. Eu quieta, em cima do cavalo, mais preocupada com a câmera e com o relógio, do que propriamente comigo. De seguida ele tirou uma capa para si próprio, uma lilás com bolinhas brancas. Mas apercebeu-se que não queria essa capa e vá de trocá-la comigo. Tirou-me a minha capa azul escura e vestiu-me a lilás. Ele ficou com a azul. Eu quieta e calada em cima do cavalo, no meio desta operação, sempre a chover torrencialmente. E continuámos o nosso passeio, agora os dois protegidos com um impermeável, o qual eu estendia também pelo meu cavalo, protegendo-o até à cabeça. As minhas sandálias ficaram encharcadas, mas essas rapidamente secam.

Foram relâmpagos e trovoadas, e tanta chuva. Uma chuvada torrencial que vai durar toda a noite. A chuva mete-se pelo meu capuz, os cabelos que não aturam quietos dentro do capuz acabam por sair e ficaram molhados, claro, e ainda me escorria água para dentro da camisola. E os cavalos sempre a andar.
E eu sem querer terminar o passeio.

Quando finalmente chegámos a sua casa (que fica ao lado da Casa de Hóspedes onde eu estou), ele foi guardar os cavalos no estábulo e ligou ao Jai Song e à guia, para virem buscar-me. A sua mulher riu-se com a minha inesperada visita e com o facto de eu andar a fotografar tudo. Convidou-me a sentar. Claro que me sentei e esperei, tranquilamente. Depois de um passeio destes, tão extraordinário, não tenho qualquer pressa. Que pena ter começado a chover tanto, o passeio devia ter durado duas ou três horas, em vez de uma hora e pouco.

029 - Jantar e Começa um Novo Dia

Os meus dois simpáticos motoristas: o primeiro é o Jai Song, o segundo, de t-shirt branca, é o Nong Bu. São ambos da região do Tibete e são cunhados: o Nong Bu é casado com uma irmã do Jai Song. Mais à frente irei visitar a aldeia de ambos, e serei convidada para almoçar em casa do Nong Bu, onde vou conhecer a sua mulher e a sua mãe.

O casal dono da Casa de Hóspedes. A sua cadela foi esterilizada recentemente. Com grande pena minha ela fugia a sete pés de mim; agora nesta foto está a olhar-me atenta e desconfiada, se eu me aproximasse mais, ela fugiria. Mas curiosamente deixou de ladrar-me e aceitou a minha presença (no início ladrava-me!). Esta noite choveu torrencialmente, com relâmpagos e trovoadas, um autêntico dilúvio que acordou toda a gente. Às 4 manhã, quando acordei em sobressalto, tinha faltado a luz. Fiquei às escuras no quarto, meio iluminado pela lua e sobretudo pelos relâmpagos. Estou ainda com o jetlag, estou no sexto dia de viagem, pelo que às 5 ou 6 da manhã resolvi sair do quarto, o qual dá para o pátio, para respirar o ar da madrugada e assistir à chuvada. Nesta primeira semana ando com os sonos completamente destrambelhados. (Às nove e meia da noite já estava a dormir). Lá estava ela, numa grande caixa de cartão, protegida no corredor junto ao quarto dos donos, a olhar para mim. Se começasse a ladrar àquela hora seria chato. Mas não, ela fixou-me atentamente, eu para cá e para lá a caminhar no corredor (para o pátio não podia ir porque iria molhar-me) e até gostava de fazer-lhe uma festinha, mas está bem, está.

Fizémos uma hora de carro, dos quais meia hora foi em auto-estrada. Nesta portagem pagámos 27 Yuans (menos de 4€). Vamos em direção a Shangri-La.

030 - Agora de Bicicleta ao Longo do Rio Yangzté

A partir de agora vou começar a andar de bicicleta ao longo do rio Yangzté. Este é o maior rio da Ásia, com 6.300 km, e é exclusivo da China. Nasce na zona do Tibete e atravessa o interior do país até ao Mar da China Oriental. O rio constitui assim uma artéria muito importante no transporte na China, ligando o interior ao litoral. Leio na Wikipedia o seguinte: o Yangtzé desempenha um grande papel na história, cultura e economia da China. O próspero Delta do Yangtzé gera 20% do produto interno bruto chinês. O rio Yangtze flui através de uma larga variedade de ecossistemas e é habitat de várias espécies endémicas e ameaçadas de extinção, incluindo o jacaré-chinês, o boto-do-índico, o peixe-espada-chinês, o golfinho-do-Yangtzé e o esturjão-do-yangtzé.

Aquela foto panorâmica do Rio Yangtzé foi tirada de uma casa de banho pública. Curiosamente é um dos atrativos deste edifício onde existe algum comércio local. Existem cartazes a fazer publicidade à vista panorâmica desta casa de banho.

E aqui voltamos ao vosso tema preferido, caros leitores, o tema escatológico. (Não, não!… – dizem vocês, já sei). Estava uma senhora muito simpática a cuidar das casas de banho, ela andava a limpá-las regularmente (esta casa de banho é paga, mas muito barata – 1 Yuan; porém se forem 200 ou 300 pessoas por dia, talvez seja um negócio interessante – efetivamente estava bastante gente a fazer compras na praça ao ar livre, em cima, e é um local de passagem). Então essa senhora, prestavelmente passou a esfregona logo na primeira casa de banho, para eu ir. Eu sorri-lhe e agradeci. Ou seja, toda a gente que fosse à casa de banho, tinha de passar por mim – eu logo na primeira, e sem porta. Fiquei constrangida. Eu não estou habituada a estas coisas, têm de ter paciência. Costuma ser algo privado, a ida à casa de banho. De porta aberta e com uma grande vistaça sobre as montanhas e o Yangtzé, é uma experiência totalmente nova, de facto, mas deixou-me constrangida. Hesitei. A senhora viu a minha hesitação. Eis que vem uma rapariga chinesa – cliente – toda decidida, a qual caminhou alguns metros até ir para as últimas casas de banho. Ah. Então esta malta afinal pensa como eu. Ela também não ficou nas primeiras. E então lá caminhei também uns metros, e fui para uma mais longe (agora tenho de afastar-me da rapariga). E escolhi uma com porta, claro. Ao longo destes metros fui vendo coisas que não queria, e tentei desviar o olhar, mas a busca de uma casa de banho para eu entrar faz-me olhar. Algumas pessoas têm mesmo de aprender a chegar o rabinho para o lado e acertar no alvo.

Cruzei-me com este grupo de rapazes chineses, provenientes de várias zonas do país, que iam a caminho do Tibete. Nesta zona do Shangri-La, para onde vou hoje, vi imensos ciclistas, alguns sozinhos, outros em grupo – todos a caminho do Tibete.